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Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

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Uma vida num só dia (3ª parte)

 

 

HOLLYWOODICES – EPISÓDIO 13

Lombok

 

bw VIAGENS Luís Garcia

Eu tenho visto tanta coisa nesse meu caminho, Nessa nossa trilha que eu não ando sozinho, Tenho visto tanta coisa tanta cena, Mais impactante do que qualquer filme de cinema. (Tás a ver?, Gabriel O Pensador)

 

UMA VIDA NUM SÓ DIA (Ilha de Lombok, Indonésia, 2011) – Sem perder tempo, findo o pôr-do-sol, estacionei a scooter junto a um bar e fui dar a minha caminhada exploradora sobre os imensos areais do sul da ilha. Kuta merece de facto a reputação que ouvira daquela praia! Ou conjunto de praias, pois observando a costa do ponto em que estacionei a scooter, distinguia-se de forma clara três tipos distintos de areias e usos igualmente distintos dos três pedaços de costa. Do lado direito, olhando de frente para o mar, havia o porto piscatório, de areia grossa, um pouco suja, onde as meninas brincavam com as suas fogueirinhas e os miúdos entretinham-se pescando ou nadando, nus da cabeça aos pés.
Ao centro uma praia deslumbrante, de areia branca e fina, com árvores plantadas de forma organizada até a meio da praia, disponibilizando sombra natural aos veraneantes e oferecendo uma beleza geométrica raríssima naquelas paragens. O mar, claro está, tinha uma cor azul-turquesa e estava morno (26 ou 27ºC). Por toda a beira d’água havia calhaus e ilhéus espalhados, laboriosamente esculpidos pela mãos da natureza. Era a praia dos adolescentes locais, uns festivos, outros apaixonados, todos chegando até lá de scooter. Ao fundo, do lado direito encontra-se uma praia de areia fina e um pouco amarelada, mais deserta e visitada sobretudo por estrangeiros. Kuta é sem dúvida um dos mais belos locais que visitei na vida, e visitá-la teve um sabor especial, pois de forma a alcançá-la tinha primeiro vivido um dia riquíssimo, repleto de descobertas e imprevisíveis experiências.

 

 

 


Chegara o momento de descompressão. Sem nada combinado, como é óbvio, e apenas porque me aventurei a subir a uma rocha escarpada junto à praia onde pudesse tirar umas boas fotos. Aí, poucos minutos depois, fui convidado a juntar-me a um grupo de seis adolescentes que entretanto haviam chegado também ao cimo do rochedo, armados com comeres e beberes. Todos eles pertenciam ao povo local, os Sasak, e a sua primeira língua era também a Sasak. Cinco falavam apenas algumas palavras de indonésio e só uma rapariga era fluente nessa língua e capaz de dizer algumas palavra em inglês, de forma que ficou com o cargo de tradutora oficiosa do convívio. Dos seus sacos retiraram, sorridentes, os seus exóticos aperitivos, muitíssimo picantes! Adorei tudo o que me deram a provar. Acabados os aperitivos era a hora de seguir o ritual local e beber a tradicional bebida de arroz fermentado que, se entendi bem, chamava-se brom! Eram b(r)om mesmo!

 

 


O grupo de adolescentes era genuíno no seu altruísmo, muito contentes por se encontrarem com um estrangeiro que não fosse turista e que se sentava no chão como eles, convivendo com eles. Encheram-me de perguntas sobre o resto da Indonésia, queriam ouvir estórias sobre a Europa “rica e longínqua” que só conheciam de nome graças à TV. Para manter fluída a conversa, regávamo-nos constantemente com o tal brom, um género de sake local ligeiramente doce, muito saboroso e fácil de beber. Ah, e com uma percentagem de álcool enorme, ao nível de uma vodka, algo muitíssimo raro por aquelas bandas de tradições muçulmanas onde se incentiva o não consumo de bebidas alcoólicas, quer nos meios tradicionais, quer nos meios institucionais que taxam esse tipo de bebidas com impostos extraordinariamente elevados. Basta constatar que uma refeição completa pode custar menos de 1 euro na indonésia, enquanto que uma cerveja média não custa menos de 2,5 euros! Agora imaginem-me naquele país há cerca de um mês!?! Já não me lembrando sequer da última vez que bebera uma cerveja (em Portugal), encontrando-me exausto de um dia de aventura e sentido a barriga roncando de fome pelo pouco que havia comido durante o dia. De repente, sem planear coisa nenhuma estava ali eu com os meus novos amigos Sakak despejando copos uns atrás dos outros em alegre diversão.

 

Quando limpámos as garrafas era já noite escura. Estávamos todos visivelmente sobre influência do deus Baco, com a diferença que os miúdos e miúdas moravam numa aldeia a poucas centenas de metros, enquanto que eu tinha meia ilha a atravessar se quisesse dormir no conforto da casa do milionário couchsurfer meu anfitrião. O meu plano, antes de beber sasak, era deslocar-me para nordeste uns bons quilómetros onde poderia apanhar a recentemente aberta “auto-estrada” que liga a região de Kuta no sul à capital Mataram no noroeste, mas para meu desespero, depois de tanto beber, nem sequer conseguia pôr a scooter a trabalhar! Primeiro foi a dificuldade em inserir a chave na ignição. Em seguida, ligar a scooter a pedal, tarefa que embora dificílima tendo em conta o meu estado, me ajudou a despertar da letargia e acordar o metabolismo o bastante para poder em seguida conduzir. Com a scooter a trabalhar, sentei-me com todos os cuidados, bem ciente de que não estava consciente o suficiente para conduzir, e parti conversando comigo mesmo como forma de me manter desperto.

 

Uns quilómetros à frente chegava ao fim da estrada principal que serve Kuta e arredores e precisava de descobrir a entrada para a tal “auto-estrada”. Como se não bastasse estar ébrio em demasia, havia uma confusão de ligações não sinalizadas, não havia luz natural nem artificial em meu redor, e tampouco gente a circular! Senti-me deveras perdido mas recusei-me a desistir. Andei por ali às voltas uns 15 minutos procurando alguma placa que indicasse Mataram, a capital da ilha. Não cheguei a encontrar nenhuma mas apercebi-me de umas luzes fortes ao longe e uma viatura da polícia indonésia estacionada junto aos candeeiros. Pode parecer estúpido ir pedir indicações a um polícia quando se está visivelmente embriagado e não se tem carta de condução para mostrar às autoridades, mas tinha a noção em que país estava. Hesitei um pouco, mas acabei por concluir que o melhor seria disfarçar ao máximo, falando pouco e indo directo ao assunto, que naquele caso seria confirmar se todas aquelas luzes indicavam a entrada da auto-estrada. Soe absurdo ou não, a verdade é que toda a adrenalina descarregada no sangue em consequência desta decisão despertou-me imenso e consegui lidar de forma bem razoável o diálogo com os polícias. Tenho quase a certeza que todos eles perceberam que eu não estava no meu estado perfeito mas, sem perguntar por nenhuma documentação, explicaram-me que aquele local não era o principio da estrada que eu procurava mas sim a entrada do aeroporto local (e não se conseguindo conter riram-se divertidos com a minha gafe). Em contrapartida, de forma muito altruísta e acolhedora, ofereceram-se para me escoltar até à entrada da auto-estrada.


De auto-estrada só tinha a perfeição da linha recta que ligava Kuta a Mataram quase sem curva nenhuma, mas de resto, era uma simples estrada de asfalto não muito liso, estreita e sem nenhuma iluminação. Ainda bem embriagado, as duas maiores dificuldades que enfrentei foram permanecer sob o asfalto não vendo absolutamente nada para lá dos poucos metros que o farol da scooter iluminava tremelicando, e manter-me acordado perante a monotonia do percurso. Cerca de uma hora depois comecei a encontrar algumas viaturas, depois umas casas aqui e ali e, de súbito, bairros enormes, super iluminados e mergulhados num frenético e caótico tráfego! Fui obrigado a pedir indicações, mas comunicar em Indonésio ainda ébrio não é das tarefas mais fáceis de levar a cabo, daí que percebendo apenas metade e esquecendo parta dessa metade enquanto tomava atenção à condução, só após vários pedidos de ajuda é que me consegui ver livre daqueles subúrbios e entrar numa das avenidas principais de Mataram. Nessa primeira avenida, enquanto esperava que o semáforo vermelho passasse para verde, perguntei ao condutor da mota ao lado se me podia indicar a direcção da costa. Após 3 ou 4 tentativas o pobre rapaz não tinha sequer percebido a minha pergunta. Por sorte, numa scooter ao lado encontrava-se um simpático casal que me convidou a segui-los mesmo quando o sinal passou a verde. Conduzi atrás deles atravessando várias avenidas até que me apercebi que conhecia o local onde nos encontrávamos. Era a avenida perpendicular àquela onde se encontrava o posto de emigração onde meio dia antes tinha renovado o meu visto. Aproximei-me para os avisar, agradeci-lhes imenso e segui muito descontraído, de tal forma que até me dei ao luxo de me enganar numa estrada na zona costeira que eu tão bem conhecia! Nada de grave, inversão de marcha de algumas dezenas de metros num sentido proibido e voltava à rota certa.

 

Minutos depois chegava à estrada costeira que liga Mataram a Senggigi, a vila de luxo junto à praia onde habitava o senhor Klaus. Completamente seguro da minha localização e desesperado de fome, parei no primeiro restaurante de beira da estrada que encontrei, pedi um arroz de camarão e legumes e um sumo e sentei-me num mesa com mais cinco japoneses perdidos de bêbados! Aposto que festejavam o último dia de férias, ou então que bebiam para esquecer que as férias haviam acabado. De barriga cheia, peguei na mota para percorrer os 3 quilómetros restantes, reentrei na casa do senhor Klaus 12 horas depois, tomei uma banho rápido e caí que nem um bloco de cimento na cama para só acordar outras 12 horas depois!

 

Para quem não ainda não as outras partes: Uma vida num só dia (1ª parte)Uma vida num só dia (2ª parte)

 

Não deixem de ler o próximo e ÚLTIMO episódio, porque nós também não! :)

 

 

Luís Garcia, 10.03.2016, Lampang, Tailândia

 

 

 
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