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Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

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Uma vida num só dia (1ª parte)

 

 

HOLLYWOODICES – EPISÓDIO 11

Lombok

 

bw VIAGENS Luís Garcia

Eu tenho visto tanta coisa nesse meu caminho, Nessa nossa trilha que eu não ando sozinho, Tenho visto tanta coisa tanta cena, Mais impactante do que qualquer filme de cinema. (Tás a ver?, Gabriel O Pensador)

 

UMA VIDA NUM SÓ DIA (Ilha de Lombok, Indonésia, 2011) – No dia 13 de Abril pela manhã tinha marcado um encontro importante, não só por dele depender a minha permanência em solo Indonésio por mais um mês, mas sobretudo porque tinha apenas 2 dias mais reservados ao desbravamento de Lombok e não me apetecia perder um dia inteiro embrulhado em burocracias. (o último estava já destinado a ser passado no norte da ilha e numa pequena de viagem de barco ao Ilhéu de Meno onde iria fazer mergulho de apneia). Pontualmente estacionei a scooter às 9h50m em frente ao posto de emigração, sobrando-me 10 minutos para encontrar o guiché correcto onde daria sequência ao meu pedido de extensão de visto. Neste segundo passo de extensão do visto, tal como me tinha sido explicado no dia anterior, iria fazer o pagamento de 250.000 rúpias. Para assinar os documentos e receber o passaporte carimbado teria de lá voltar no mesmo dia por volta das 15 horas, o que arruinaria por completo os meus planos de viagem.

 

Seguindo os conselhos do senhor Klaus, um couchsurfer alemão residente em Lombok e meu anfitrião por três noites na sua idílica mansão, perguntei à funcionária de serviço naquele momento se haveria porventura uma outra forma mais rápida (e mais cara) de resolver o processo, eufemismo para suborno. A senhora respondeu-me sorrindo que com mais 50.000 rúpias (4 euros) o visto estaria renovado daí a dez minutos e convidou-me a esperar sentado numa das cadeiras ao fundo da sala. Excelente! Estava eu ainda escolhendo a cadeira mais limpa onde me sentar e o meu nome completo era proferido nos altifalantes. Deduzi que deveria estar pronto o visto e não me enganei. Menos de 1 minuto depois tinha o meu passaporte carimbado no bolso e estava livre para começar uma aventura que ao fim do dia tornar-se-ia épica!

 

Com as preciosas dicas de um senhor que meteu conversa comigo enquanto punha a scooter a trabalhar, fiquei a saber acerca dos atalhos que me permitiriam escapar do caótico trânsito de Mataram (capital da ilha) e entrar na rota da costa oeste em direcção a sul. Ter mapas comigo até tinha, mas não aquilo a que no século XXI na Europa se dá esse nome. Não estando a ilha ainda mapeada no google maps (em 2011, agora sim), e não havendo de todo mapas de Lombok à venda, o melhor que consegui obter foi uma improvisação de mapa desenhado no meu caderno de viagem com os limites geográficos copiados da internet e as poucas estradas retiradas da memória do senhor Klaus. Para compensar a falta de escala necessária a compreender a minha posição durante da viagem, o meu anfitrião acrescentou alguns nomes de aldeias que serviriam de pontos de referência e, se não foram apontados mais nomes não foi pela sua má memória, antes pela escassez de espaços habitados para além dos primeiros 50km da costa sudoeste da ilha.


Entre Mataram e Lembar embora curta a distância, pode-se encontrar uma miríade de mesquitas multicolores que parecem despontar que nem cogumelos. Por norma não me agrada muito encontrar grandes edifícios plantados no meio da natureza até então quase virgem. Seria de esperar que as construíssem onde há fiéis para as encher, ou seja, na capital Mataram e não ali no meio das plantações de bananeiras e coqueiros. No entanto, por uma qualquer razão que não consigo explicar, os mirabolantes estilos arquitectónicos ali usados - a fazer lembrar uma lenda das Mil e Uma Noites -, e o facto de nenhuma mesquita se repetir nem em cor nem em forma, conferia uma espécie de aura de beleza que fazia com que todas elas, as mesquitas, se encaixassem de forma harmoniosa por entre a vegetação luxuosa. Se Gaudí fosse muçulmano as suas obras encontrar-se-iam à beira-estrada da costa oeste de Lombok.

 

A sul da vila portuária de Lembar, subitamente dei comigo na luxuosa floresta tropical da qual o senhor Klaus me tinha contado maravilhas. E na costa um espectáculo inacreditável de praias desertas. Começava a valer a pena a aventura e ainda estava no início. Enquanto atravessava eufórico aquelas florestas quase esquecidas não me saia da cabeça o nome da obra de Arthur Conan Doyle: The Lost World. Embora cliché e um claro exagero, a surpresa e o contentamento permitiam-me a divagações do género. Para me fazer regressar à realidade, a scooter, que parecia ter vida própria, levou-me até à entrada de uma aldeola onde quase cheguei a tempo de me por a salvo da súbita monção que caía subitamente vinda dos céus. Embora tenha conseguido entrar com a mota numa espécie de oficina aberta uns trinta segundos depois de começar a chover, o dilúvio foi de tal dimensão que já não me serviu de nada ali entrar. Ou melhor, serviu, deu-me para me aperceber que estava encharcadíssimo e a escorrer água que nem uma barragem de comporta abertas. Do mal o menos, a chuva caiu morna, quentinha, e não tinha frio algum. Aproveitei para retirar o meu kit anti-monção guardado no compartimento por baixo do assento (toalha de rosto e rolo de papel) que, por se encontrar também muito perto de um motor velho e quase estourado, se encontrava para meu contentamento bem quentinho.

 

Depois de me secar um pouco e limpar os óculos, esperei que o dilúvio de dez minutos desaparecesse e voltei à estrada ainda um pouco hesitante devido aos rios de água cor-de-laranja que atravessavam perpendicularmente as estradas, vindos das encostas circundantes. Vendo que putos de oito e dez anos viajando de scooter passavam as torrentes com sucesso, ganhem confiança e fiz-me também à estrada. A roupa secou pelo caminho, graças ao calor ambiente e à velocidade da scooter, mas foi sol de pouco dura, meia hora depois recomeçou a chover e voltei a ficar encharcado.

 

Álbum de fotografias I 

Álbum de fotografias I 

 

Nesta segunda vez tive a sorte de me encontrar no centro de uma aldeia na qual havia uma espécie de mercado aberto com cobertura e, dentro deste, uma senhora muito velhinha tomando conta da sua banca de produtos. Comprei-lhe um café preparado na hora e não resisti às fatias de melancia que custavam quatro cêntimos de euro cada! Entretanto um grupo de jovens foi crescendo à nossa volta, curiosos pela minha presença e ansiosos por me fazer perguntas. Entreti-me ali um bom momento, tentando comunicar com as poucas palavras que sabia de indonésio encantado pela simpatia e pelos sorrisos dos locais. Quando me dei conta do muito tempo que passara, as nuvens tinham todas partido, voltara a fazer um calor intenso e as minhas roupas estavam completamente secas. Antes de partir, perguntei se me podiam dizer o nome da aldeia, ao que os jovens me responderam “Sekotong Tengah”. Nem mais! O nome da aldeia correspondia ao último da lista que o alemão me havia fornecido para a rota sul. Daí em diante seria entrar em território não cartografado. Durante horas de uma leveza de espírito inigualável, atravessei vagarosamente aquela floresta luxuriante, saindo da moto para observar insectos, plantas ou animais exóticos ou parando simplesmente quando no cimo de um monte mais alto me era possível avistar ao longe paradisíacas praias desertas estendidas pela costa. Quanto mais alto subia a serra central menos frequentes se tornaram as aparições de pessoas ou o avistamento de aldeias Sasak, nome do povo e língua principais na ilha. Klaus pediu-me pare ter cuidado e ser reservado quando entrasse em contacto com as gentes isoladas daquelas florestas, as quais viviam num mundo à parte, perdidos num tempo longínquo e, meio sério meio a brincar advertiu-me que, quando atravessasse o centro da serra, não me aproximasse demasiado das aldeolas. Na melhor das hipóteses, dizia ele, poderiam me roubar a mota e deixar-me ali perdido, na pior, poderiam me cozinhar para o jantar daquela noite. Brincadeiras do senhor Klaus, não me parece do todo possível que hajam naquelas terras gentes com tais costumes canibais. De qualquer modo respeitei o mais que pude a advertência de passar ao lado sem entrar nos centros dos lugarejos. Falando num tom mais sério, o senhor Klaus alertou-me para o facto das populações autóctones serem muito agressivas quanto à protecção das suas terras e não costumarem apreciar intrusões de gente estranha. Não reconhecem o poder da Indonésia sobre o seu território e tampouco se deixam influenciar pelos costumes modernos, daí que sejam genuínos na sua desconfiança acerca das intenções de um não nativo que vagueie por aquelas bandas.


Durante as longas horas que levei a subir e atravessar a exótica serra, acabei por me encontrar com algumas pessoas, e fui inclusive obrigado a atravessar cinco ou seis aldeias como forma de reentrar nas estradas rumo a sul, ou quando precisava de uma alternativa aos caminhos de todo intransitáveis mesmo que os percorresse a pé, empurrando a scooter. Nalguns desses caminhos deparei-me com crateras inultrapassáveis e noutros com buracos menos perigosos mas com o inconveniente de se encontrarem em subidas íngremes. Conclusão, vi-me várias vezes obrigado a abandonar a estrada e conduzir lentamente a scooter por caminhos-de-cabras que por vezes surgiam paralelos às estradas.

 

Não deixem de ler o próximo episódio, porque nós também não! :)

 

Luís Garcia, 01.03.2016, Lampang, Tailândia

 

 

 
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