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Pensamentos Nómadas

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Um dia de extremos

 

 HOLLYWOODICES - EPISÓDIO 4

 

 

bw VIAGENS Luís Garcia

  

Eu tenho visto tanta coisa nesse meu caminho, Nessa nossa trilha que eu não ando sozinho, Tenho visto tanta coisa tanta cena, Mais impactante do que qualquer filme de cinema. (Tás a ver?, Gabriel O Pensador)

 

UM DIA DE EXTREMOS (Mónaco, 2007) – Após duas noites quase sem dormir passadas na praia de calhaus de Nice, eu e o meu companheiro de viagem Diogo levantámo-nos cedo com o intuito de visitar o Principado do Mónaco ali mesmo ao lado. Antes de embarcar no comboio Nice-Mónaco, fizemos uma breve visita ao supermercado da estação ferroviária, em busca de algo em conta para matar o jejum. Sem surpresa, tudo naquela loja era caríssimo, preços escandalosos típicos de uma cidade aristocrática como é Nice e incomportáveis para a carteira de dois vagabundos viajantes com orçamentos pessoais de 350 euros para um mês de viagem. Revirámos a loja do avesso, em busca de algo que fosse simultaneamente nutritivo e que estivesse em saldo. O único bem comestível que encontrámos em promoção e de facto muito barato foi uma caixa de um litro de gelado com sabor a café. Negócio feito. Pegámos na caixa e fomo-nos sentar no muro da estação a comer a nossa injecção de leite e açúcar, usando como colher um cartão de crédito! Sim, éramos viajantes inexperientes, nem um par de colheres de plástico nos lembrámos de trazer na mochila! Enfim, aprende-se com os erros.

 

A travessia de comboio faz-se em poucos minutos e chegasse ao Mónaco numa estação subterrânea escondida nos montes sobrepovoados em frente ao mar. Escolhemos à sorte o primeiro túnel que encontrámos e saímos mesmo em frente à marina do Mónaco repleta dos tais iates de luxo que são a imagem de marca do principado. Encontrámos inclusive um iate de bandeira portuguesa hasteada, o que nos levou a concluir, com propositada ironia, que é capaz de ainda haver quem tenha umas boas posses na pátria lusitana. E para não dizerem que uma pessoa não liga à nação e aos seus símbolos, até tirámos umas fotos junto ao iate português.

 

Sem nada de muito mais interessante para fazer por ali fomos dar uma passeio pela marginal, admirando a manada de ferraris, lamborghinis e outros bólide do género, muitos deles estacionados, os restantes cumprindo com os seus orgulhosos pilotos voltas sem conta ao circuito citadino da Fórmula 1, para deleite dos aficionados de automóveis menos endinheirados e para delírio das beldades loiras de férias no principado. Espicaçados pelos maquinões em movimento e com umas reminiscências do circuito na mente, fruto de muitos Grandes Prémios do Mónaco assistidos pela televisão, ainda demos meia volta a pé ao circuito, parando para sacar umas fotos junto às míticas curvas do Grande Hotel Hairpin (aquela que se contorna a 20 km/h) e a curva do túnel que passa por baixo de um hotel. Depois de nos cansarmos de bólides fomos dar um passeio pelos jardins e escadarias um pouco mais acima na encosta onde, por puro acaso, fomos dar a um género de passeio da fama onde não faltavam sequer as pegadas do astro do futebol português: Eusébio da Silva Ferreira!

 

Fartos de caminhada, debaixo de um calor intenso e de mochila pesada às costas seguimos até à praia, tomámos um banho refrescante e fomos tentar almoçar algo em conta. O melhor negócio que encontrámos para a nossa carteira foi uma baguete grande e bem recheada acompanhada com um sumo. Custou quase 10 euros cada refeição o que, tendo em conta o lugar capitalista em que nós encontrávamos, era um preço bem razoável. Para nós é que foi um rombo enorme, dado que com aquelas refeições ligeiras mais a caixa de gelado em Nice tínhamos já ultrapassado o medíocre tecto orçamental diário da aventura Sudeleste 2007!

 

Fazia, como acima foi dito, bastante calor e o céu era todo ele azul. Quanto a nós, estávamos no vigésimo sexto dia de viagem (portanto quase a terminar aventura de um mês), tínhamos já atravessado vários milhares de quilómetros passando por oito países. Daí que, para variar, colocámos de parte o espírito nómado-viajante e oferecemos ao corpinho o belo favor de uma tarde de lazer apanhando banhos de sol e mar. O areal da única praia do Mónaco, pese embora a sua infinita fama, não tinha a mínima hipótese de rivalizar com as das nossas belas costas portuguesas. Bem localizada, é certo, frequentada pelo tipo de figuras mediáticas que aparecem em revistas cor-de-rosa, tudo certo, mas se me dessem a escolher não trocaria jamais um areal de uma praia como os da minha terriola (Ribamar), por aquele que nem sequer de areia era constituído! Aliás, o nome correcto deveria ser seixal e não areal. Desta constatação veio-nos uma curiosa inquietação à cabeça: como é que é possível que em Portugal se movam toneladas de areia fina de um lado para o outro de forma a recriar praias maltratadas por rigorosos invernos ou mesmo para criar de raiz novas praias e ali, num principado em que tios-patinhas tomam banhos em jacuzzis cheios com moedas de ouro, ninguém se lembrou de oferecer uns trocados para substituir os seixos por areia! O ser humano é um bicho difícil de entender...

 

No dia anterior, após mirabolantes voltas havíamos arranjado forma de lavar a nossa roupa suja. Só faltava pô-la a secar! Sem grandes preocupações montámos o nosso arraial de roupa húmida, espalhando as peças ao longo de uma fila, sobre o seixal, qual banca de venda ambulante! Qual o nosso espanto quando, ao invés de descobrir à nossa volta um enxame de olhares surpresos ou expressões escandalizadas, não, a ricalhada não ligara nenhuma e continuava tranquila apanhando os seus banhos de sol! Outra conclusão, daquelas óbvias, de que só se mostram escandalizados com actos que para todos os efeitos são banais (pôr roupa a secar), gente daquela classe social que eu gosto de chamar de pseudo-ricos, aqueles que tendo menos que o suficiente exibem muito, ou que não tendo nada se endividam para exibir ainda mais. Esses sim teatralizariam exageradas expressões de nojo ou desdém. Sei bem do que falo pois em toda estas viagens e na estrada da vida tenho levado com muitos desses olhares de soslaio e narizes empinados por muito menos. Parabéns à ricalhada monegasca que encarou com toda a naturalidade as coisas naturais da vida e as necessidades lógicas de quem não tem o seu poder de compra e insiste ainda assim em atravessar países inteiros de mochilas às costas.

 

Com a nossa roupa toda apanhando o sol, estavam arrumadas todas as necessidades de viajante. Além do mais custava-nos muito crer poder ser roubados por malta de Rolex no pulso e malas de praia da Gucci, pelo que abandonámos o nosso arraial e fomos curtir a vida dentro de água. Bem, nunca se sabe se o Rolex é falso e o ladrão disfarçado não andará à espera para atacar um turista mais distraído! De qualquer forma arriscámos, desconfiados de que no Mónaco larápio nenhum arriscaria a façanha de roubar um monte de roupa mal-lavada e pouco mais. Ah, e como se estava bem dentro da água quente do Mediterrâneo, translúcida e com os seus cardumes multicolores! Qual praia transformada em piscina natural, não faltavam sequer pranchas para mergulhar e mesmo umas jangadas (coisas nova para mim) estacionadas ao largo destinadas a quem quisesse parar para descansar à meio de umas braçadas dadas mar adentro. Sem dúvida bem optimizado o limitado espaço da praia. Só falta mesmo, insisto eu, trocar os seixos por areia. Para nos fazer esquecer essa falta de conforto fomos recompensados em diversão propiciada de forma inconsciente por um indiano (paquistanês quiçá) e o seu comportamento cómico-delirante. O pobre rapaz que não devia ter visto muitas vezes na vida moçoilas de cabelos loiros insistiu uns bons quinze minutos na sua teimosia de tirar uma foto a si próprio, todo emproado, com as beldades dentro de água por detrás dele compondo o idílico cliché fotográfico. De cada vez que preparava a máquina para uma nova tentativa levava demasiado tempo a compor o seu cabelo, manifestamente desiludido com os resultados anteriores da prolongada sessão fotográfica. Para piorar a situação e fazê-lo soprar de frustração, as meninas-sereias que sorrindo descaradas faziam crer que pousavam para câmara, escapavam-se sempre mergulhando no momento do disparo. O rapaz, parecia acreditar num qualquer fatalismo de dessincronia e insistia. O resto da praia já não se aguentava mais de riso com a matreirice das miúdas e quase explodia em êxtase.

 

Luís Garcia, 09.11.2015, Lampang, Tailândia

 

 

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