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Turquia, onde o viajante é rei 3/3, por Luís Garcia

 

 

BOLEIAS – EPISÓDIO 12

 

Turquia, onde o viajante é rei

 

bw VIAGENS Luís Garcia

Esta insatisfação, não consigo compreender, sempre esta sensação, que estou a perder. Tenho pressa de sair, quero sentir ao chegar, Vontade de partir, p’ra outro lugar. (Estou Além, António Variações)

 

TURQUIA, ONDE O VIAJANTE É REI (Turquia, 2008) – De dentro do carrão, muito bem vestido e com claros sinais de riqueza material, saiu um senhor com cerca de quarenta anos. Mandou abastecer o depósito, aviou-se com alguns produtos e voltou ao carro para fazer uns telefonemas. Assim que o empregado se viu livre do cliente que estava a atender, convencêmo-lo a falar com o senhor e explicar-lhe o nosso pedido em turco para que a mensagem fosse bem transmitida. O rapaz, muito prestável mas sem jeito nenhum para boleia, explicou apressado o nosso pedido de boleia ao dono do carro, sem convicção, voltando dez segundos depois com uma inevitável resposta negativa.

 

O senhor do carro voltou aos seus telefones, sentado de vidro fechado no lugar do condutor. Havia um bom pedaço de tempo que já nos encontrávamos parados ali e só havíamos visto parar aquele carro. Olhávamos para a estrada e só víamos escuridão. Conscientes que só sairíamos dali naquele dia se o homem de negócios nos desse boleia, fomos os três bater no vidro do carro com muita serenidade e movimentos calculados para não assustar o nosso possível salvador, ainda mais que era evidente que o homem estava com receio de nós. Tanta choradeira e promessas solenes de paz e amor que fizemos numa mistura de turco com inglês que o condutor, muito reticente, acabou por nos deixar entrar. Foram mais de dez minutos passando do “não” para o “talvez”, do “não sei” para o sim, do “sim” para o “até acredito em vocês mas tenho algum receio”... Natural, afinal desde quando é que alguém às dez e tal da noite, conduzindo uma banheira, vestindo smoking e empunhando um relógio de ouro no pulso dá boleia a três estrangeiros sujos, soados e com cara de refugiados! O que nos valeu foi, uma vez mais, a profunda boa vontade típica daquele povo, que leva uma pessoa a correr riscos desnecessários para fazer favores bizarros a três estrangeiros perdidos.


Nos primeiros minutos o Mehmet seguiu muito calado. Escorria-lhe suor pela testa e os seus músculos tensos prendiam-lhe os movimentos e dificultavam-lhe a condução. Para o acalmar, e com receio que lhe desse um ataque de pânico, tentámos o melhor possível fazer-lhe uma síntese das nossas origens e das motivos pelos quais viajávamos. Tentámos entretê-lo e fazê-lo ver que não havia nada a recear, mas sem o pressionar. Os três conduzimos a conversa com ponderação, muito diplomáticos, fazendo uso do maior número possível de palavras turcas e jogando com as emoções na esperança de o conseguir tranquilizar. O ponto de viragem aconteceu quando, em resposta a uma piada dita por um de nós, o senhor soltou uma boa gargalhada, espontânea e natural. Quando parou de rir inspirou profundamente. Quando acabou de expirar já era outro, havia descontraído os músculos e sorria simpático. Que alegria e alívio que sentimos! Como o seu inglês era um pouco limitado, passou o seu telemóvel à Claire pediu-lhe que explicasse à sua noiva parte do que ele não havia compreendido, em inglês, a qual por sua vez traduziria para turco. Graças à preciosa ajuda da noiva de Mehmet ficámos a saber que faltava menos de uma hora para chegar ao centro de Izmir. Já podíamos então avisar o nosso anfitrião Korray, usando para o efeito o telemóvel de Mehmet. Uma hora depois, tal como previsto, encontrámo-nos todos no local combinado, nós os três, Mehmet e a sua noiva, uma amiga da noiva e o couchsurfer Korray. Do nada criou-se ali uma conversa muito animada cheio de sorrisos e muita energia positiva. Não faltou sequer um convite de casamento! Sim leu bem, um convite genuíno para o casamento de Mehmet e sua noiva. Estava marcado para dali a 10 dias, num Sábado de manhã. Apercebendo-se da seriedade do convite, ficámos radiosos com a generosa proposta e ainda hesitámos. Acabámos por recusar, seriam dias a mais num só lugar. Se acaso tivesse marcado o casamento uma semana antes, para dali a três dias, teríamos aceito sem dúvida. E explicámos-lhe bem este ponto. Mas dez dias não, com muitíssima pena concluímos com um não que deixou os noivos à beira de lágrimas...

Da direita para a esquerda: Diogo, Claire, a noiva, Mehmet e a amiga

Da direita para a esquerda: Diogo, Claire, a noiva, Mehmet e a amiga

 

Luís Garcia, 07.10.2016, Chengdu, China

Lei a parte 1 aqui

Lei a parte 2 aqui

 

 

 

 
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