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Turquia, onde o viajante é rei 2/3, por Luís Garcia

 

 

BOLEIAS – EPISÓDIO 11

 

Turquia, onde o viajante é rei

 

bw VIAGENS Luís Garcia

Esta insatisfação, não consigo compreender, sempre esta sensação, que estou a perder. Tenho pressa de sair, quero sentir ao chegar, Vontade de partir, p’ra outro lugar. (Estou Além, António Variações)

 

TURQUIA, ONDE O VIAJANTE É REI (Turquia, 2008) – Quase de imediato parou um carro conduzido por um jovem de linguagem corporal um pouco cómica e com toda a pinta de macho latino ao estilo do  antes famoso  Zézé Camarinha. O seu destino era a vila Ayvalık, a menos de cinquenta quilómetros a sul de Edremit. A meio do percurso parou numa estação de serviço, não para reabastecer o seu carro de gasolina mas para uma vez mais, sim, comprar e oferecer algo aos seus passageiros. Deu-nos uma garrafa de água fresca e um chocolate a cada um dos três, e comprou igual pack para si. Ainda alguém dúvida que estrangeiro é rei na Turquia?


Da entrada norte de Ayvalık partimos num camião para pararmos três quilómetros à frente, junto à entrada sul de Ayvalık. “Antes pouco que nada” disse-nos com razão quem nos deu a curta boleia.

 

Da entrada sul de Ayvalık avançámos uma boa distância dentro de um camião, apesar da primeira longa espera do dia até esse camião ter parado para nós. Como o condutor precisava de entrar num estrada secundária em direcção à aldeia onde deveria descarregar a sua mercadoria, deixou-nos aos três no cruzamento dessa estrada com a estrada principal entre Dikikli e Bergama.


Saímos do tal camião às oito e meia da tarde, o sol acabara de se pôr por detrás das montanhas e daí a pouco começaria a escurecer. Nada que perturbasse o espírito de nenhum dos três. Andámos uns metros em frente para ocupar o melhor ponto onde pedir boleia e, antes de termos tempo de começar a pedir boleia, um senhor com mais de setenta anos conduzindo uma scooter sem usar capacete desceu vagarosamente a encosta, desde a sua casinha até junto de nós. Apresentou-se em turco, como seria de esperar, mas apercebendo-se que éramos estrangeiros trocou de idioma e perguntou-nos no francês fluente se algo de nós compreenderia também aquela língua! Que coincidência, a trupe de viajantes era composta por uma francesa e dois portugueses capazes de entender francês! Explicou-nos que durante décadas havia sido imigrante na zona francófona da Suíça e que a sua boa memória não lhe tinha deixado perder aquela “bela língua”. Depois de feitas as introduções e de terem sido feitas todas as piadas do costume sobre a inesperada coincidência, o velhinho, dono de uma expressão visual de infinita bondade, perguntou-nos num tom mais pesado (de preocupação) o porquê de ali estarmos “os três parados à beira da estrada àquela hora tardia”. Explicámos que “andávamos à boleia ou, trocado por miúdos, procurávamos convencer um qualquer condutor de não interessa que tipo de veículo a levar-nos dali até à cidade Izmir”. Estupefacto, boquiaberto, convidou-nos a desistir da “tresloucada ideia” e segui-lo encosta acima até à sua casa onde a sua mulher deveria estar a juntar os últimos pozinhos de especiarias no jantar. Agradecemos-lhe imenso não quisemos aceitar e explicámos-lhe que preferíamos continuar na estrada e chegar ainda nesse dia a casa do couchsurfer que nos esperava também com um jantar já prometido. O pobre senhor insistiu uma boa dúzia de vezes, tentando todos os argumentos possíveis e imagináveis: explicou-nos que se o problema era lugar onde dormir que não nos preocupássemos. Garantiu que também nos poderia facilmente preparar umas camas vazias onde costumavam dormir os seus filhos agora estudantes lá longe na grande metrópole de Istambul. Insistiu ser "uma loucura a forma como viajávamos, sobretudo sendo quase noite", facto que "tornava aquele acto, já de si perigoso,  ainda mais arriscado”. A sua vontade de nos dar comida para aconchegar o estômago e cama para repousar o corpo chegou a um tal nível de insistência que não sabíamos mais que dizer sem magoá-lo ou ofender o seu ego altruísta, até porque para o fim da conversa já lhe chegava ao canto do olho umas lágrimas de comoção ou pesar por não ter conseguido vergar a nossa teimosia. Tentando reconfortar o pobre homem, contámos-lhe quão maravilhosa era a hospitalidade turca da qual ele era exemplo perfeito. Fizemo-lo perceber que agradecíamos do fundo do coração as suas genuínas e generosas ofertas, e que só as recusávamos por nos encontrarmos no país da hospitalidade por excelência, que noutro país qualquer teríamos aceitado tudo o que nos havia proposto e que se algo corresse mal durante o resto da boleia alguém tão altruísta como ele nos havia de recolher e nos ajudar. Pouco convencido despediu-se e foi-se afastando vagarosamente, olhando para trás na nossa direcção. Ainda não tinha se separado de nós uns vinte metros quando a segunda viatura que havia passado naquela estrada desde a nossa chegada parou para nos dar boleia. Felicíssimos chamámos o velhinho e dissemos-lhe a gritar: “Está a ver, está ver, não lhe dissemos que arranjávamos boleia para Izmir”! Disse-nos então adeus mais sorridente mas ainda assim não totalmente convencido... Ah, gente boa, demasiado boa!


Para ser honesto a sua insistência até fazia sentido, ou faria se não estivéssemos nós na Turquia. Nas muitas viagens que já realizei recorrendo à boleia, sobretudo na Europa, tentei por norma organizar locais a visitar e respectiva dormida não muito longe do ponto inicial, de forma a reduzir a probabilidade de ficar a dormir na estrada, a meio do caminho, num dia em que a boleia corresse menos bem. Ainda assim não consegui evitar as muitas vezes que já dormi na rua! Ora, de acordo com a experiência de boleia acumulada pelos três viajantes ali reunidos, recusar num outro qualquer país europeu casa e comida a meia hora de anoitecer seria um completo disparate! A situação mais provável seria a contrária. Chegados quase noite a uma qualquer aldeia europeia não só não arriscaríamos pedir boleia como tentaríamos (sem sucesso) convencer alguém a nos hospedar. Já não digo dar comida! Mas como não há regra sem excepção, na Turquia boleia apanha-se vinte e quatro horas por dia caso seja necessário, em grupos de três ou até mais, e sempre na expectativa de estrear um novo tipo de veículo. Era o caso daquele fim de tarde! 

 

Depois de táxis, autocarros, carros, camiões pequenos e grandes, carrinhas de caixa aberta, tínhamos sido recolhidos por dois jovens turcos aparentemente lunáticos na sua carrinha de trabalho branca com caixa fechada. Para se sentar na frente junto a eles convidaram, como não poderia deixar de ser, a menina do grupo. Os dois meninos, eu e o Diogo, fomos convidados a entrar na caixa da carrinha, sentados numas ripas de madeira espalhadas em consequência da frenética condução e, sim, isso mesmo, com a porta da caixa trancada por fora! No momento aceitámos a boleia sem pensar, descontraídos, habituados a ver correr bem e de forma eficiente tudo a que a boleias turcas diz respeito. No entanto, com o passar do tempo, eu e o Diogo, sentados no chão e fechados entre quatro paredes brancas, pusémo-nos a reflectir acerca do possível filme em que nos havíamos metido! Dois jovens, caras de lunáticos, noite, a amiga francesa na frente do carro com eles sem se poder defender caso fosse preciso, e nós trancados, impotentes! A meio de intensos pensamentos e trocas de palavras sobre a nossa situação sentimos a carrinha fazer uma brusca guinada para a direita, entrando aos sobressaltos num piso muito irregular, de cascalho ou algo parecido. Quando a viatura parou, pegámos cada um numa barra de madeira e ficámos a olhar fixos a porta da caixa, em total silêncio, tentando ouvir se possível a inserção da chave na fechadura de forma a ganharmos preciosas décimas de segundo que poderiam fazer toda a diferença na luta que julgávamos estar em vias de ter ali lugar!


Apesar das vozes no lado de fora falando alto, ouvimos com clareza a chave ser inserida e seguimos com os olhos a fechadura a rodar. Mantivemos as mãos preparadas, segurando com firmeza as tábuas, mas no último instante nenhum de nós dois reagiu de forma primitiva, atacando antes de saber se iria haver ataque da outra parte. Tudo junto, a crença numa explicação lógica para os eventos dos últimos segundos, a crença na infinitamente grande hospitalidade turca, a pouca aptidão para a violência física e, por certo, outros factores mais conscientes ou inconscientes fizeram com que nós dois, sem combinação prévia, desistíssemos do ataque preventivo à gringo e ficámos imóveis que nem estátuas assistindo o desenrolar de toda aquela aparente embrulhada.


Assim que o condutor nos abriu a porta o nível de adrenalina no meu sangue disparou de tal forma que nem consegui prestar atenção ao que ele e Claire me disseram naquele primeiro momento. Só à segunda, mais tranquilo por não ter sofrido nenhum ataque físico, consegui analisar as palavras que Claire me repetia. Pelos vistos os marotos (para não dizer outra coisa mais grosseira), aproveitando o facto de terem trancado a mim e ao Diogo na gaiola, tinham-se atrevido a passar a mão pela perna e Claire! A rebentar de raiva e também assustada a nossa amiga gritou-lhes que parassem a carrinha de imediato e a deixassem sair, explicando assim o motivo da brusca guinada. Entre pedidos de desculpas dos turcos e a nossa urgência em chegar a Izmir acabámos por decidir compor a situação, passando a Claire para a parte de trás, enjaulada na gaiola junto ao Diogo, e eu na parte da frente sentado ao lado dos turcos. Nos minutos seguintes, por necessidade mas também para desanuviar o ambiente, marquei num telemóvel o número do couchsurfer que nos esperava em Izmir e pedi ao condutor que conversasse com ele de forma a combinar em que parte de Izmir deveríamos sair. Depois de combinarem entre eles o local mais conveniente para ambos, o condutor passou-me de volta o telemóvel para que o couchsurfer me explicasse em inglês o que haviam decidido. Estava tudo resolvido, pensei eu.


Estava enganado. Poucos minutos depois um amigo do condutor também motorista de uma empresa de transporte de mercadorias telefonou-lhe e avisou que uns quilómetros mais à frente se encontrava uma brigada da polícia de trânsito turca parada, junto à mesma estrada em que seguíamos, efectuando controlo de veículos. O condutor e o seu ajudante desfizeram-se em desculpas pelo contratempo e pediram-nos para sair ali, dado que não queriam correr o risco de levar uma pesada multa. Como já era noite escura, tiveram a sensatez inclusive de não parar num sítio qualquer mas sim numa estação de serviço onde teríamos, segundo nos disseram e com toda a razão, mais hipóteses de encontrar a próxima boleia. Foi assim que, a sessenta de quilómetros de Izmir, perdemos a boleia de quem para lá se deslocava e nos vimos obrigados a recomeçar o peditório.


Na estação tivemos a sorte de encontrar um jovem ao balcão que fala um inglês perfeito. Como tinha amigos Erasmus, perguntou-nos se não estaríamos nós a caminho de visitar também algum amigo Erasmus. Quase que acertou, pois tínhamos partido dois dias antes de casa de uma amiga turca de Istambul (ex-Erasmus em Portugal). Além do mais fazia parte do plano de viagem visitar outros amigos Erasmus espalhados pelo país, mas não era o caso de Izmir.


Vendo-nos aborrecidos pela boleia perdida e por já ser noite, o jovem simpático ofereceu-se para nos ajudar no que pudesse. Tentou em primeiro lugar ligar ao nosso couchsurfer usando o telefone fixo da estação de serviço. Como não teve sucesso, decidiu-se por telefonar do seu telemóvel e deu-me para que eu explicasse ao couchsurfer a situação actual e lhe perguntar se haveria alguma hipótese de ele ou alguém conhecido nos vir buscar àquele lugar. Não nos podia ajudar, sessenta quilómetros era ainda muito longe.


De novo com vontade de nos animar, o jovem foi preparar chá e ofereceu-nos. Enquanto bebíamos o chá perguntou-nos se também queríamos comer algo! Não, não era esse o nosso problema. Tínhamos a barriga cheia e o que nos preocupava no momento era apenas a necessidade de encontrar transporte, pago ou não, até Izmir. E depois, por favor, oferecer comida numa estação de serviço? Disse-lhe na brincadeira que “deveria era tentar nos impingir os produtos a preços astronómicos como se faz em estações de serviço em Portugal e pela Europa fora. Oferecê-los a potenciais clientes é que nem pensar.” O rapaz riu-se divertido.


Entretanto à nossa volta tinha-se reunido um pequeno número de locais curiosos pela presença de estrangeiros a hora tão tardia naquele fim do mundo. Além de atender os clientes e nos animar, o pobre rapaz tinha ainda que traduzir tudo o que falava connosco de forma a satisfazer a curiosidade insaciável do grupo. E nós, com pressa de arranjar forma dali sair, tivemos que controlar um pouco a nossa inquietação e continuar o resumo da nossa aventura na Turquia, pese embora já houvéssemos terminado de beber os nossos chás. Nenhum deles acreditava nas traduções para turco que o empregado da loja lhes fazia dos exemplos de altruísmo e hospitalidade turca dos quais havíamos sido sortudos receptores nos dias anteriores. Ali estavam eles, preocupados connosco, oferecendo-se para nos ajudar em tudo o que pudessem, e mostrando-se no entanto incrédulos perante as nossas elogiosas palavras acerca do seu país e do seu povo. Conversa e mais conversa que durou até ouvirmos o barulho de um veículo a estacionar, passavam já das dez horas da noite. Saímos para averiguar e encontrámos um carro, uma hipotética salvação par nos tirar do impasse.

 

Continua...

Luís Garcia, 30.09.2016, Chengdu, China

Lei a parte 1 aqui

 

 

 
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