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Pensamentos Nómadas

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Tirana é um lugar… (4ª parte)

 

 

 

HOLLYWOODICES – EPISÓDIO 10

tirana

 

bw VIAGENS Luís Garcia

Eu tenho visto tanta coisa nesse meu caminho, Nessa nossa trilha que eu não ando sozinho, Tenho visto tanta coisa tanta cena, Mais impactante do que qualquer filme de cinema. (Tás a ver?, Gabriel O Pensador)

 

TIRANA É UM LUGAR… (Albânia, 2005) –  O romance com Jonida desenrolou-se a passo, qual filme de época, por culpa das duas meninas de véus sempre a seguir-nos a sombra, quais detectives particulares. Ainda assim, se no início cumpriam de forma escrupulosa a sua tarefa de guardiãs dos bons costumes, tal como teriam sido ordenadas a fazer, aos poucos, conquistei-lhes a confiança e ganhem a sua amizade, o que nos permitiu enfim ter um pouco de espaço para respirar.

 

Quando não estava com Jonida, na maior parte do tempo usufruía da companhia do meu amigo traficante que me acompanhava na descoberta de Tirana e arredores, ou então jogando Playstation 2 na casa semi-destruída do seu tio desaparecido, nos dias em que nos faltava energia nas pernas.

 

Complicado e assustador era quando, aventurando-me à descoberta da Albânia sem a companhia nem de um nem de outro, voltava sozinho a casa já noite, obrigado a atravessar o Casal Ventoso de Tirana às escuras. Numa dessas ocasiões, para meu azar, quando regressava por uma das ruas não iluminadas da “zona negra”, dei de caras com vários membros de gang espalhados pelas bermas, confraternizando, bebendo e injectando coisas nos braços que fazem ver nuvens multi-colores em forma de elefantes andantes. Alguns desses grupos de adolescentes inconscientes, clientes do meu hóspede, levantaram-se do chão e seguiram-me alguns metros. Primeiro vi a vida a andar para trás, depois calculei que os rapazes me tivessem associado ao seu fornecedor (provavelmente já me teriam visto passar com Aleksandër noutras ocasiões). Quando chegaram junto a mim disse-lhes boa noite bruscamente, com cara de poucos amigos, seguindo em frente de cabeça erguida, passo lento, imitando o melhor possível o andar ao estilo gangster, estilo espectável para quem naquelas ruas vivesse. Ah, mas cagando-me de nervos e suando por todos os lados! Enquanto caminhava com artificial vagar, esforçava-me ao máximo para relembrar o resto do caminho a realizar, de forma a poder efectuá-lo em passo apressado ou inclusive a correr, sem cometer uma gafe fatal, caso viesse a ser necessário. Após cruzar uma rua à direita e não tendo encontrado vivalma, disparei em sprint até à casa do meu anfitrião, desacelerando apenas para passar espremido pelo buraco do portão da casa. Para meu desencanto o rapaz não estava em casa. Tranquei a porta e fiquei a contar os minutos até ele chegar. Como compensação pela prolongada espera e pelo correspondente stress, Aleksandër, quando regressou, convidou-me a ir jantar e beber um copo no Bairro Alto de Tirana. No dia seguinte de mãnha, para variar, fui com a menina, lavadinho e bem vestido, visitar uns belos jardins e umas casas engraçadas que na tradução de albanês para francês acabavam por ser denominadas de “palácios”! Enfim, lost in translation…

 

 Num dos últimos dias por terras albanesas fui com Aleksandër visitar o Castelo de Skënderbeu, situado a poucos quilómetros de Tirana. Skënderbeu é a única figura histórica albanesa que se pode considerar um verdadeiro herói do país. A sua fama obteve-a contra os turcos na altura em que a Albânia era uma colónia do Império Otomano. Ironicamente, embora tenha combatido de forma tão voraz os invasores turcos, segundo me informou Aleksandër , Skënderbeu era de origem turca. Reza a lenda que um dia, durante o cerco turco ao Castelo de Skënderbeu que durava há vários meses, o herói albanês ordenou um dos seus inferiores que alimentasse um cavalo com os cereais até o animal não querer mais. O seu inferior, escandalizado, protestou que seria uma loucura alimentar assim um cavalo quando a população passava já fome devido à escassez de cereais provocada pelo prolongado cerco. Skënderbeu insistiu e, quando o cavalo recusou comer mais, levou-o junto a uma torre de vígia e lançou-o no precipício. Quando os chefes de guerra otomanos depararam com um cavalo albanês a abarrotar de comida, concluíram que tão depressa não ganhariam o conflito cortando aos albaneses o acesso aos campos de cultivo e, sendo um facto adquirido que os seus potentes canhões não alcançavam sequer os alicerces das muralhas construídas no cima da montanha escarpada, deram ordem para recolher as tropas e desistir da conquista daquele castelo.

 

Para a história ficou também o nosso regresso a Tirana. Não tínhamos chegado muito cedo ao castelo e, depois de o visitar, decidimos ainda ir explorar umas aldeias esquecidas na base das montanhas circundantes. Distraídos que nem criançada inconsciente, deixámos as horas passar até que se fez noite, e nós ainda confraternizando com os locais! Enfim. A Albânia pertence geograficamente à Europa mas não é europeia quando se trata de apanhar um autocarro. Às 9 horas da noite, o melhor que encontrámos para sair da aldeia foi um carrinha de 9 lugares quitada (acho que é assim que malta nova diz) de cima a baixo com LED e luzinhas multicolores com destino à entrada da estrada principal que liga o norte do país à capital. Ficámos portanto à beira da estrada, na escuridão total, temendo sermos assaltados ou passados a ferro por um maluco qualquer. Desesperados começámos a colocar a hipótese de ir procurar um lugar seguro onde pernoitar. Já dormi muitas vezes na rua, ao relento, mas na Albânia não obrigado, há limites para a loucura. Para nossa extrema felicidade, no momento em nos preparávamos para voltar à aldeia mais perto a pé, parou junto a nós outra carrinha de 9 lugares. Tinha como destino Tirana mas não tinha quase nada mais. Não tinha porta lateral de correr, não tinha capô, não tinha pára-brisas e não tinha revestimento interior, o que permitia constatar que tinha ferrugem e muita. Pelo contrário tinha gente em excesso, uns 12 que se compactaram ainda mais para descobrir inexistente espaço para mim e para o Aleksandër sentármo-no nos bancos. Perante a manifesta falta de espaço e terríveis condições da carrinha ainda hesitámos entre embarcar ou não, mas entre viajar uma hora e meia num autocarro improvisado a cair de podre, entalados entre malta que não tomava banhos à 2 ou 3 anos, ou arriscar ficar à noite perdidos numa qualquer rua da Albânia… pagámos os bilhetes e juntámo-nos à festa ambulante!

 

Inocente, no último dia em território albaneses, lembrei-me de ir revelar os três rolos de fotografias tiradas no país. Desloquei-me à primeira casa de fotografia que encontrei e pedi ao empregado para as revelar. Poucos minutos daquele ter começado o processo de revelação o sistema eléctrico de Tirana foi abaixo! Magnífico! Faltavam 8 horas para partir de ferry-boat do porto de Durrës com destino a Itália! Pode soar tempo mais que suficiente para quem desconhece o tema, mas não. Em Tirana, quando falhava a electricidade, a reposição poderia levar quer 2 horas quer 12, e 12 seria sem dúvida demasiado tarde! Felizmente levou apenas 5 horas. Fui buscar as fotos a correr já de mala às costas e depois pus-me também a correr na direcção da paragem de autocarros na praça central onde Jonida já me esperava impaciente. Tinha vindo se despedir…

 

Horas antes, ainda na casa do seu tio, Aleksandër havia-me feito um pedido insólito. Ofereceu-me 3000 euros em troca do meu passaporte. Propôs-se a dar-me o dinheiro em avanço, naquele momento mesmo, e esperaria que eu chegasse a Itália de onde enviar-lhe-ia o passaporte por correio (em Itália, território da União Europeia onde eu precisaria apenas de BI). O seu pedido contudo apresentava vários problemas. Primeiro, é crime grave vender passaportes. Depois, quando se perde um passaporte deve-se contactar de imediato uma embaixada e dar baixa do documento para que não possa ser utilizado por outrém em caso de ser encontrado. Ora, para que o passaporte tivesse utilidade para Aleksandër na sua há muito sonhada partida rumo a Itália, eu teria de informar as autoridades da “perda” com vários dias de atraso de forma que ele o utilizasse ainda válido. Aleksandër tinha aspecto de latino mas não tinha propriamente cara de ser meu irmão gémeo. A probabilidade do seu plano de fuga daquela prisão a céu aberto tinha tudo para dar errado e eu seria o maior prejudicado na história. Por tudo isto, mesmo com os 3000 euros à minha frente que entretanto tinha engordado para 4000, recusei-lhe o pedido. Mostrei-lhe a minha compreensão pela sua situação e pela sua ânsia de partir de um país (tão) falhado, mas garanti-lhe que não valia a pena continuar a subir a parada. Não lhe vendia o passaporte por preço nenhum pelas razões acima expostas.

 

Para vos provar que o mundo não é a preto e branco, e que um traficante de droga também é gente, com sentimentos tal como o leitor ou com eu, Aleksandër não me roubo o passaporte, não me apontou uma arma à cabeça nem nada do género. Pediu-me desculpa pela proposta, agradeceu-me por compreender o porquê do seu pedido e deu-me um abraço. Passei rápido a mão pelo bolso confirmando se ele tentara me roubar enquanto abraçava, mas não, e senti-me humilhado pela minha desconfiança (embora ele não se tenha apercebido do gesto).

 

Queria Aleksandër sair da Albânia passando a fronteira com o meu passaporte? Louco. Se não, veja-se o filme que passei para sair do território albanês mesmo sendo proprietário de todos os documentos verdadeiros e válidos que apresentei à polícia alfandegária albanesa! Cartões de banco, licença de condução de motocicleta, cartões de estudante, BI e o obrigatório passaporte! Todos os dados batiam certo e as fotos corroboravam-se umas às outras, mas os polícias não queriam de forma alguma deixar-me sair do país. Teimavam que eu era um qualquer emigrante ilegal de origem àrabe e acusavam-me de ter comprado ilegalmente o passaporte, usando a Albânia (terra de corrupção por excelência) como porta de entrada para a “Europa livre”. Que ironia! Estive mesmo para perder a viagem. Um empregado do ferry-boat veio várias vezes ter comigo insistindo para me despachar pois faltava apenas eu entrar na embarcação. Eu querer embarcar queria, só que todos os meus documentos andavam por ali de mão em mão por entre um molho de polícias atordoados! Na última vez que veio chamar-me fez-me, finalmente, o favor de dirigir as suas palavras aos polícias e não a mim. Garantiu-lhes que ou eu entrava naquele seguindo-lhe os passos ou então partiam sem mim. Os polícias da alfândega olharam uns para outros, encolheram os ombros e entregaram-me os documentos de volta! Apanhei o ferry-boat e adieusrealidade parelela!

 

Ficou a mágoa profunda de não voltar a ver Jonida (nem o seu primo géniozinho, nem Aleksandër, nem…). Ficaram as suas palavras escritas numa contra-capa de um livro meu, as quais iniciam logo tão pragmaticamente assertivas:

Fim!

 

Luís Garcia, 04.02.2016, Lampang, Tailândia

 

 

 
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