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Pensamentos Nómadas

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Tirana é um lugar… (3ª parte)

 

 

HOLLYWOODICES – EPISÓDIO 9

tirana

 

bw VIAGENS Luís Garcia

Eu tenho visto tanta coisa nesse meu caminho, Nessa nossa trilha que eu não ando sozinho, Tenho visto tanta coisa tanta cena, Mais impactante do que qualquer filme de cinema. (Tás a ver?, Gabriel O Pensador)

 

TIRANA É UM LUGAR… (Albânia, 2005) – Numa bela tarde de sol e calor tomei a feliz decisão de entrar num edifício que me atraiu a atenção por ser grande e de estrutura original: A Piramida, que tal como o nome indica se assemelha a uma pirâmide. Dentro, para meu grande espanto, encontrei a Feira Anual de Livros de Tirana cuja existência desconhecia de todo. Passei cerca de 30 minutos passeando calmamente pelos corredores repletos de expositores, tomando sobretudo atenção às imagens pois de albanês sabia zero, até que dei por uma banca com 3 belas jovens da qual uma era mesmo muito bela (e que contraste com o resto dos expositores representados por velhinhos carrancudos!). Como se não bastasse, tinham à venda livros em francês e inglês, além das versões originais na língua materna do tio poeta de uma delas (da mais bela). Foi amor à primeira vista, só faltava uma desculpa para meter conversa, que acabaram por ser as versões francesas e inglesas dos livros do poeta, para mim inteligíveis.

 

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 As três apresentaram-se muito simpáticas e com boa fluência nas duas línguas acima referidas, mas Jonida (nome da tal mais bela e que se lê Iónida) surpreendeu-me completamente com as suas capacidades de poliglota: era fluente em albanês, inglês, francês e italiano, falava razoavelmente bem alemão e espanhol e, espantei-se, nada mal em português (ou portunhol). Explicou-me orgulhosamente que aprendera os dois idiomas ibéricos sozinha, acompanhando as novelas mexicanas e brasileiras que costumam passar legendadas na TV albanesa! Tudo isto num país em que apenas se fala e mal a língua local! Claro que a convidei para sair e beber um copo depois da feira fechar. Jonida compareceu, mas escoltada pela duas outras meninas que ao contrário dela usavam o véu islâmico.

 

Num país cuja população é maioritariamente muçulmana (80%) não iria ser fácil ver-me livre das outras duas. Vestiam-se de forma menos exuberante, eram simpáticas mas mostravam um decoro religioso, uma certa timidez socialmente enraizada que não lhes permitia falar com um homem desconhecido olhando olhos nos olhos. Não se atreviam-se a começar qualquer tema de conversa. Limitavam-se a responder de forma muito cortês, ainda que expondo para minha alegria as suas opiniões pertinentes e as suas ideias bem formuladas. Que prazer! Jonida comportava-se de forma oposta e fazia questão de olhar olho nos olhos de forma confiante, desafiadora e até intimidante! Era, pois claro, um peixe fora do aquário. A prova chegou quando me confessou que estudava na prestigida universidade de Sorbonne em Paris! Daí que com tantas línguas por onde escolher, Jonida fazia questão de falar comigo em francês. Além do mais o seu tio Pëllumb Muka, segundo ela o maior poeta vivo (e talvez único diria eu, hehe) da Albânia, tinha lhe incutido o amor pela “língua da poesia” e da “beleza verbal” por excelência desde muito cedo e Jonida considerava ser o francês a sua primeira língua, à frente do albanês. Garantia-me que começara a falar francês ainda criança. Como o seu país é, par efeitos práticos, um estado pária, arranjar vistos para sair daquela prisão a céu aberto é quase impossível, mesmo para quem conhece a nata da sociedade albanesa e é sobrinha do tal poeta. Daí que, mesmo tendo já frequentado os primeiros dois anos de licenciatura, o estado francês insistia em lhe passar visto de apenas 10 meses por ano, correspondentes ao período lectivo. Para seu desespero, já haviam começado as aulas do terceiro ano (estávamos a finais de Outubro) e a autorização para regressar a França continuava a não aparecer. Do mal o menos, não fosse esse atraso e não teria tido a (má?) sorte de me conhecer, ahah! Brinco, pois claro. que desespero não poder voltar a tempo para as suas aulas devido a primitivas porcarias burocráticas. No primeiro dia, com a confiança das meninas-sombra ainda por conquistar, foi assim mesmo que passámos o tempo, falando de línguas, estudos e países, pois nem por um segundo nos deixaram a sós!! As malandras!

 

Ao fim do terceiro dia em Tirana mudei-me do hotel para a casa do rapaz que morava na “zona negra”. Jonida e as suas amigas tinham me avisado e exigido que não me aproximasse daquela zona negra, cheia de gente perigosa. As três, dando o exemplo, nunca na vida lá tinham entrado. A aventura na Albânia a partir nesse momento subia vários degraus no nível de excentricidade e de inverosimilhança. As circunstâncias obrigavam-me a adoptar uma quase dupla-personalidade, convivendo ora com familiares de poetas da classe privilegiada, ora com o refugo esquecido do Casal Ventoso albanês. E tomava contornos pouco práticos como a situação de impasse em que me fui meter no dia seguinte:

 

Depois de encerrada a Feira dos Livros naquele dia apareceu o motorista do poeta, um gigantão de metro e noventa e tal musculado, para nos buscar a mim e a Jonida numa Mercedes de vidros fumados e levou-nos até a casa do poeta onde me foi oferecido um simpático banquete pela sua mulher e onde tive o prazer de travar conhecimento com outros membros mais da família, como o génio do filho mais novo de 12 anos. Serão bem passado, sem dúvida, mas teríamos preferido escapar um pouco daquele cerimónia toda. Não deu, é a vida! Findo o acontecimento social, e como já era muito tarde, ofereceram-me (impuseram-me) que o seu motorista me fosse levar a casa! Deixou-me à porta do hotel onde eu não habitava mais e desconfiado não arredava pé! Vi-me então obrigado a entrar no hotel, inventar na recepção a desculpa de que vinha saber se tinham encontrado um meu leitor de música que havia esquecido. Ao fim de alguns minutos saí, sem dizer mais nada, ficando contente pelo alívio de já não lá estar estacionado o Mercedes.

 

Num Sábado à tarde, dia principal da Feira do Livro, a Piramida encheu-se de gente: políticos, artistas, escritores, e claro, TV’s e rádios acompanhando o mediático evento ao vivo. Até o presidente e o primeiro-ministro do país compareceram. Tive a oportunidade de dar um passou-bem a um deles por intermédio da apresentação que nos fez um colega de Jonida, mas já não me lembro a qual. Nessa noite, depois de fechar a exposição,  Jonida e o seu tio poeta convidaram-me para fazer parte de um convívio com malta importante do país. O seu tio Pëllumb Muka, alguns políticos albaneses e kosovares, vários jornalistas e artistas amigos do seu tio. Jonida era a única mulher no grupo, e dava para perceber que era vista pelos homens (sobretudo os mais velhos) como útil tradutora, mas não parte integrante do debate, por ser mulher, claro está. Com todo o respeito pelo ancião seu tio e o seu ritual de boas vindas, depressa me virei para o grupo mais jovem de politicos e jornalistícos com quem mantive uma acesa discussão sobre a situação do Kosovo na altura. Um político kosovar garantiu-me durante aquela conversa que o Kosovo seria independente em 2008. E estava certo, mais ou menos. Um outro sentado a meu lado, para me provar ser jornalista da televisão nacional albanesa, convidou-me a ligar uma TV no dia seguinte por volta da hora de jantar. Confirmava-se, era mesmo ele o apresentador do jornal da noite! Depois de muitos comeres e beberes, e muita conversa com a nata da sociedade albanesa, voltei (pouco) tranquilamente para a casa do meu amigo na favela de Tirana e fui dormir...

 

Daiti Mountains

 Num belo dia de sol, Jonida propôs-me que eu fosse dar um passeio às montanhas Daiti com o seu primo de 12 anos filho do poeta, enquanto ela estava ocupada na feira e para não dar demasiado nas vistas passando diariamente tanto tempo com ela na Piramida. Já não se falava noutra coisa nos expositores vizinhos do dela na feira, garantia-me, e já tinham chegado também uns boatos aos ouvidos da família. O miúdo adorava-me e ficou encantado por eu aceitar o convite pois a ideia do passeio tinha partido dele. Fomos de táxi até à porta do teleférico, pago por ele, todo sorridente, do molho de notas que trazia na carteira. Apesar dos seus 12 anos, falava fluentemente inglês e mostrava uma maturidade acima da média. Andava sempre bem vestido e aquele dia não foi excepção. Fez-me a visita guiada ao parque no cimo da montanha e descreveu-me o melhor que pôde a capital Tirana da qual naquele ponto se tem uma perspectiva panorâmica de toda a sua extensão. Comemos gelados, tirámos fotos e voltámos à cidade.

 

Ah, gelados! Enquanto estive em Tirana ofereci vários gelados ao miúdo. Mas ele ofereceu-me mais! E passava o tempo a comprar gelados também para mim (a Jonida não gostava muito). Comi muitos gelados em Tirana não só porque sou um fanático e louco por gelados, mas sobretudo os gelados albaneses são os melhores do mundo e na altura eram ao preço da chuva. E se não fossem, enquanto eu andava a contar moedas o rapaz dava gorjetas a taxistas que para mim chegaria para comprar 3 refeições completas! Portanto também tinha guito para me comprar gelados! E sim, só se deslocava de táxi o miúdo, o que não era um problema, dado o maço de notas das grandes sempre no bolso. Aliás, problema seria não andar de táxi trazendo um miúdo franzino de 12 anos tanto dinheiro consigo! Muito bom miúdo, inteligente e altruísta, por várias vezes levou-me a descobrir a cidade e os seus habitantes, orgulhoso do seu papel de tradutor e guia do seu novo amigo português!

 

Quanto ao teleférico, era de fazer inveja às luxuosas instâncias de esqui suíças (que eu nunca visitei, hehe), novinho em folha, num pais daqueles tão, digamos, não-turístico ! E pobre! Dá para acreditar que foi obra de uma santa trindade do género das máfias portuguesas – políticos, empresários de construção civil e presidentes de clubes de futebol, excepto as equipas de futebol no caso albanês. É de facto um grandessíssimo elefante branco que, numa tão pequena economia como a da Albânia, representará quiçá um rombo nas contas do estado proporcionais ao que foi a Expo 98 para as contas públicas lusitanas. Mas bom, dá um jeitaço a quem, como eu, tem preguiça em se meter na empreitada de subir uma montanha a pé que nas melhores das hipóteses levaria dois dias a realizar. E depois, é um teleférico que proporciona vistas panorâmica sobre Tirana, o Mar Adriático e quase metade da Albânia que, como diriam os mais instruídos especialistas paisagísticos, são de cortar a respiração!

 

E o teleférico das Montanhas Daiti são apenas a ponta do icebergue do enorme caos económico que prolifera e do grotesco despesismo que espezinha a população albanesa ignorada e extremamente pobre (a maioria). Veja-se o exemplo do comportamento dos funcionários das Nações Unidas que se encontram supostamente na Albânia para combater a corrupção e ajudar a controlar as contas de um país no qual urge realizar-se a sempre adiada justiça social. Esses tais funcionários passeiam-se, quais fidalgos, em caríssimos jipes da ONU que se contam às dezenas, ignorando de todo a plebe e confundindo-a com calhaus soltos na estrada. Estacionam junto ao parlamento e aos ministérios, saem engravatados e serenos, vagueando entre reuniões políticas e festins, de nariz empinado, cuspindo altivamente para o chão como quem desdenha das crianças albanesas que fazem desse mesmo chão casa, cama e colchão, faça frio ou faça sol. Tanto luxo e tanta miséria, extremos que quase se tocam e que se desconhecem por completo. A classe política albanesa e os bandidos da ONU estão de facto bem uma para a outra, partilham os mesmos valores: corrupção e indiferença pela miséria humana, o que é incompreensível se se tiver em conta as razões oficiais da presença destes no país. Se os funcionários da ONU se comportam assim, não vale sequer a pena descrever a prepotência daqueles que supostamente deveriam fiscalizá-los. O leitor pode facilmente imaginar...

 

Falta a 4ª parte que será a última!

 

Luís Garcia, 20.01.2016, Lampang, Tailândia

 

 

 
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