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Pensamentos Nómadas

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Tirana é um lugar… (2ª parte)

 

 

HOLLYWOODICES – EPISÓDIO 8

tirana

 

bw VIAGENS Luís Garcia

Eu tenho visto tanta coisa nesse meu caminho, Nessa nossa trilha que eu não ando sozinho, Tenho visto tanta coisa tanta cena, Mais impactante do que qualquer filme de cinema. (Tás a ver?, Gabriel O Pensador)

 

TIRANA É UM LUGAR… (Albânia, 2005) – Uns metros mais à frente, ainda numa perfeita linha recta mas mudado o nome da rua para Bulevar Dëshmoret e Kombit, encontra-se a praça central de táxis, seguida do parlamento e dos edifícios ministeriais. Todos eles recentemente remodelados, excepto os táxis e respectiva praça. Para lá dos edifícios ministeriais encontra-se o único jardim que encontrei merecedor do nome pois tinha, para meu espanto, árvores, flores e relva verde. No meio do jardim encontra-se um mini-shopping com bom aspecto e uns bares engraçados, mas não me encantou, por várias razões, Primeiro porque não gosto de shoppings. Depois porque os bares eram muito caros e mal-frequentados por indivíduos engravatadamente suspeitos (tipo funcionários da ONU). Continuando sempre em sentido oposto ao da estação e ainda em linha recta, chega-se à Piramida, local onde se passou metade da acção da estória ainda por contar, e por detrás deste edifício o único prédio moderno do país, daqueles muito altos e todos cobertos de vidros espelhados, à americana.

 

No fim do Bulevar, à esquerda existe um restaurante fast-food cujo logotipo são uns rabiscos amarelos que ao longe pareciam formar um M grande. Mas não, não é um restaurante dessa cadeia que estão a pensar. Essa cadeia, segundo me contou um rapaz que mais tarde me deu casa em Tirana, não têm licença para abrir na Albânia pois os seus “abusivos regulamentos de franchising vão contra a lei albanesa”. Pois é, afinal até a lei na Albânia tem o seu quê de interessante! E logo uma lei daquelas que impossibilita práticas comerciais como essa de só se vender sanduíches com carne de plástico produzida no país sede da cadeia de restaurantes. A ser verdade, surpreende pela positiva a legislação albanesa. Quanto à cadeia sósia daquela que vos levei inicialmente a pensar, chama-se Kolonat!

 

Para finalizar a visita guiada, falta só indicar que a seguir a esse restaurante, ainda de costas voltadas para a já distante gare, encontra-se a Universidade Politécnica de Tirana (com mais aspecto de universidade que a outra), e por detrás uma colina com algumas árvores. Do lado oposto da colina encontrei uma surpresa que aposto quase nenhum dos poucos visitantes estrangeiros dão conta. Trata-se de um lago, razoavelmente limpo, tranquilo, com uma bela vista para os montes no horizonte e com um interessantíssimo motivo de fotografia: ruínas em cimento de umas intrigantes estruturas à tona d’água espalhadas pelas margens do lago!

 

https://plus.google.com/photos/110526527280876576102/albums/5858120433674653969

 No meu primeiro dia em Tirana o desafio inicial foi encontrar um lugar razoavelmente barato onde me hospedar. Num país em que quase toda a gente é extremamente pobre e uma minoria privilegiada é muitíssimo rica, não faz sentido existirem hotéis para a classe média. Hotéis em conta ou pousadas da juventude para turistas? Tampouco! Afinal, ninguém faz turismo na Albânia! Diria mais, na minha humilde opinião, a Albânia e especificamente a sua capital, na sua vertente turística, tem de facto o pior de um estado africano falhado (e falido pelas dívidas eternas ao FMI) e o melhor de digamos... nenhures! Ah, têm os prédios multicoloridos de tendências surrealistas que eu adorei, mas ficam na “zona-negra” da cidade, e como o próprio nome indica, não é suposto serem visitados ou sequer vistos por olhos estrangeiros.

 

Depois de uma intensa busca acabei por encontrar um estabelecimento cuja definição mais apropriada seria a de um híbrido entre uma estalagem, um pousada da juventude e um hotel. Os quarto continuavam a ser caros como no resto dos estabelecimentos disponíveis, mas neste caso a despesa era partilhada pelo número de clientes no quarto. Um no mínimo, quatro no máximo. Quantos mais colegas de quarto desconhecidos melhor o preço e também maior a probabilidade de voltar no fim do dia ao quarto e não encontrar sequer a mochila! Não havia lugar de segurança para mochilas pois não se trava de uma pousada da juventude. Havia casa de banho privada em cada quarto mas não havia privacidade pois não era um quarto de hotel... A Albânia é uma caixinha de surpresas! Do mal o menos, o lugar de dormida estava situado, por incrível que pareça, a poucos metros dos edifícios ministeriais, pese embora escondido num beco um bocado manhoso. Seria de todas as formas uma solução temporária.

 

No primeiro dia na cidade confirmei o que tinha me apercebido em Fier, que não se via mulheres na rua, ou muito raramente, fazendo apenas específicos trajectos entre casa e escola ou entre mercearia e casa. Em oposição extrema, a maior parte dos homens (desempregados imagino) encontravam-se na rua, aos grupos de 20 ou 30, parados, tentando fazer câmbio de dinheiro ou vendendo telemóveis nas praças espalhadas pela cidade. As poucas mulheres presentes eram muito tímidas e reservadas e olhavam para o chão sempre que passavam por um homem. Os homens falavam imenso, gritavam imenso e tinham uma insaciável predilecção para atazanar a cabeça do único viajante que por ali andava, eu!

 

 No segundo dia na capital decidi-me por apanhar um autocarro até à cidade costeira de Durrës, para espairecer um pouco e quiçá tomar os banhos no Mar Adriático. Levei comigo inclusive uns calções de banho que não chegaram a servir o seu propósito pois não encontrei nenhuma praia suficientemente limpa onde se pudesse saltar para dentro de água. Em contrapartida deparei com uma interessante situação. Um jovem, na casa dos vinte, com semblante nostálgico e desesperado, de olhos no vazio virados para o mar, com o qual parecia conversar. A um dado momento o jovem, ainda que bem distante, apercebeu-se da minha indiscrição e olhou para mim, uns segundos, voltando depois à sua conversa agastada com o Adriático. Em vez de tomar o tão ansiado banho, fui descobrir a cidade, visitei as suas ruas principais, o porto e umas ruínas supostamente romanas. Quando voltei à marginal o rapaz continuava no mesmo lugar e a sua expressão mudara pouco, mas desta vez interrompeu o seu monólogo e veio ter comigo. Numa inesperada mistura de inglês e italiano (num país onde só se fala albanês) fez-me um breve resumo da sua vida, a relação entre a sua história individual e o facto de ali estar tão compenetrado a olhar o mar. Ele percebera perfeitamente que eu tinha curiosidade em ouvir a razão daquele seu comportamento. Fiquei a saber que era o filho mais novo de uma senhora víuva que tinha partido para Itália há alguns anos atrás onde vivia e trabalhava com o seu outro filho. O meu interlocutor, de seu nome Aleksandër, não tivera a sorte de obter um visto e continuava “preso” na Albânia. Como não “havia rigorosamente mais nada para fazer” e como se considerava “um pouco mais inteligente que a média albanesa”, confessou que, com remorsos do seu ganha-pão, era um pequeno traficante de drogas no “bairro-negro” de Tirana. E, como se não houvesse nada mais ilógico para seguir o seu inesperado discurso, ofereceu-se para me dar casa enquanto eu continuasse na capital. Recusei no momento, mas aceitei por outro lado a sua companhia para voltar de comboio até Tirana.

 

O regresso de comboio com Aleksandër foi um verdadeiro filme, as carruagens pareciam ter acabado de sair da segunda guerra mundial (mesmo), era noite escura e o comboio de vidros partidos e portas abertas seguia sem luz alguma. A velocidade máxima não passava dos 20km/h, bastando, para comprovar, olhar os putos do lado de fora que nas suas bicicletas BMX ultrapassavam-nos que nem ferraris dobrando fiats estacionados. Estavam portanto reunidas todas as condições, inclusive o país em si, para se ser assaltado em andamento e não chegar sequer a ver a cara dos bandidos. Felizmente era tranquilizado pelo meu companheiro que dizia não “ter medo da situação dada a sua área de negócio que reduzia imenso a probabilidade de alguém se meter com ele” e por ser “gajo de não ter problemas em se defender quando é preciso”. Não me convenceu a lógica do seu argumento, mas enfim. Sorte ou não, chegámos ilesos a Tirana. Durante a curta viajem, tivemos tempo, imenso tempo para continuar a conversa sobre a sua vida e a sua forma de sobreviver. Já na estação terminal, como um tiro dado no escuro (ou não), certo é que acreditei na sua sinceridade após uma longa conversa e aceitei a sua hospitalidade. Ainda bem que o fiz, pois mais tarde acabou por se provar genuína e, sem a convivência com Aleksandër apenas teria conhecido metade da realidade albanesa. Para me auto-desculpar do possível erro gravíssimo que estaria a cometer ao aceitar ficar a dormir na casa (que era do tio) de Aleksandër, um traficante de droga, elaborei para mim mesmo uma paupérrima desculpa envolvendo lógica. Seria por certo mais seguro ser hospedado por alguém que honestamente admitia o que fazia e o considerava errado, do que continuar a partilhar um quarto de hotel com albaneses que segundo os conhecimentos até então adquiridos sobre a sociedade masculina albanesa tinham muito boas hipóteses de ser ou traficantes de droga ou consumidores de drogas. E apostaria mais na primeira hipótese pois não imagino os segundos desperdiçando dinheiro em hotéis. Ou políticos, ou aspirantes a políticos, pior ainda! Traficantes por traficantes, corruptos ou não, antes um nostálgico sonhador,  com o dom de falar em voz alta com o mar...

 

Luís Garcia, 15.01.2016, Lampang, Tailândia

 

 

 
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