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Tirana é um lugar… (1ª parte)

 

 

HOLLYWOODICES – EPISÓDIO 7

tirana

 

bw VIAGENS Luís Garcia

Eu tenho visto tanta coisa nesse meu caminho, Nessa nossa trilha que eu não ando sozinho, Tenho visto tanta coisa tanta cena, Mais impactante do que qualquer filme de cinema. (Tás a ver?, Gabriel O Pensador)

 

TIRANA É UM LUGAR… (Albânia, 2005) – A aventura pela Shqipëria, que em português é mais conhecida pelo nome de Albânia, começou na cidade portuária de Vlorë. Como os voos que aterram em Tirana são escassos e invariavelmente muito acima do poder de compra de um vulgo mortal, optei por aterrar em Brindisi com uma companhia de aviação low-cost (15 euros de Londres à cidade italiana), e daí segui num ferry-boat até a referida Vlorë, no sul da Albânia. Durante a travessia, que levou uma noite inteira, passei o tempo à conversa com um senhora de meia-idade albanesa emigrante em Itália. Vivia há muitos anos em Itália, falava fluentemente italiano e considerava-se até um pouco italiana, embora as saudades dos familiares, que não tiveram a sorte de obter (legal ou ilegalmente) documentos para fugir do estado falhado que é a sua terra natal, a levavam a visitar a Albânia de tempos a tempos. Se por um lado se mostrava incantadíssima com o milagre de encontrar um estrangeiro interessado em explorar o seu país desconhecido (eu), por outro, o seu tema principal daquelas 10 horas de viagem foi o de convencer-me a apanhar o primeiro ferry-boat disponível e regressar a Itália! Daí que, não se espantem muito com os relatos seguintes. Se até um albanês fala assim da Albânia, que mais poderá se esperar de um não-albanês! Não me tendo convencido a tomar tão drástica decisão insistiu, no entanto, e com sucesso, que eu não gastasse na cidade de Vlorë mais que o tempo necessário para encontrar o primeiro autocarro de partida para longe dali. Se a Albânia das suas palavras suavam a bombardeamentos americanos no Vietname, e se Vlorë seria aí umas 10 vezes pior, o que há de bonsenso em mim aconselhou-me ao ouvido para correr dali antes mesmo de chegar.

 

Assim o fiz, com a preciosa ajuda do seu marido que a esperava no cais, um senhor de bigode e barrigudo com cara de português, que tomou conta das operações assim que me apertou a mão. Correu a pontapé com o bando de carregadores de malas que tentavam arrancar à força a mochila das minhas costas, para a carregar, claro está, e depois assaltarem legitimamente a minha carteira. Resolvido o percalço levou-me junto de outro bando, o mais popular naquelas terras: cambistas de rua. Eu fiz as contar e ele tratou de regatear o melhor câmbio de euros para leks. Devolveu-me o dinheiro e foi comigo até a uma área que, pela quantidade de transportes públicos privados, deveria ser a central de camionagem. Aí encontrou um autocarro com apenas um lugar por ocupar e, portanto, prestes a partir, bastando para tal que eu pagasse e me sentasse no lugar vazio. Encontro intenso, frenético mesmo, mas uma inesquecível memória da ajuda que tive de um albanês de bigode, sorridente, e com cara de português…

 

 O primeiro destino planeado era Fier, no centro país, ou seja, mesmo ali ao lado. Tinha inclusive pedido a um couchsurfer inglês para me hospedar 2 ou 3 noites naquela cidade. Como mudara os planos em relação a Vlorë (cheguei um dia antes do combinado), decidi telefonar ao couchsurfer e perguntar se poderia me receber um dia antes, caso contrário teria de procurar um hotel para aquele dia. Como podem imaginar, comunicar com albaneses na ausência de uma língua em comum (eles só falam albanês e eu não) é praticamente impossível. E não era de todo fácil encontrar um lugar onde telefonar! Mesmo recorrendo à tradicional linguagem gestual, de tão frustrado pelas inúmeras tentativas falhadas, momentaneamente abandonei a empreitada e fui passear, tirar umas fotos. Imaginem, vezes sem conta tentem o gesto de fechar os 3 dedos do meio da minha mão esquerda, deixando o polegar e o mindinho esticados, e encostando a mão ao ouvido como quem fala ao telemóvel, enquanto que a minha mão direita apontava para números de telefone escritos no meu diário. Reacção: todos me queriam vender telemóveis! Cheguei a mostrar um conjunto de moedas com um gesto de quem tenciona os entregar, enquanto apontava para os telemóveis pessoais dos vendedores e curiosos que me cercavam, mas nada, ninguém compreendia o meu desespero. Procurei um hotel onde ficar pelo menos aquela noite e só mais tarde fui tentar resolver o problema do telefonema sozinho. Acabei por encontrar um ciber-café que tinha computadores e telefones mas que no entanto não tinha electricidade! Por capricho de um qualquer deus (ou não), a electricidade não chegava naquele dia ao quarteirão onde se encontrava o único ciber-café da cidade. Duas horas depois restabelecia-se a ordem precária e eu tive finalmente direito ao telefonema que não me serviu de nada pois o couchsurfer secamente informou-me que, leiam bem, tinha “mudado de ideias” e ia fazer não sei o quê com uns amigos, despachando-me indelicadamente e desligando abruptamente o telefone.

 

De volta ao hotel, informei a recepcionista que pretendia ficar mais uma noite na cidade. Não vos conto as condições do hotel, não vale a pena perder tempo agora. Para tal vão ter que ler uma estória ainda por vir sobre os hotéis birmaneses, é ela por ela, até nos preços exorbitantes. A diferença significativa é a margem de manobra para regatear o preço das dormidas. Se na Birmânia, ao fim de 1 hora de negociação, se passa de 20 euros para 20 euros, em Fier depois de menos de 2 minutos foi possível passar de 50 para 12 euros e negócio fechado! E acreditem que não valia um décimo dos 12 euros que paguei! Com isto fica explicado tudo o que se passou de interessante em Fier, da qual um dia e meio depois parti com destino a Tirana.

 

 Tirana é um lugar, digamos, um pouco badalhoco, mas vale a pena a visita pelo seu burlesco exotismo. Pelo menos era-o em 2004 aquando da minha única vista e, como prefiro acreditar que a realidade albanesa não terá mudado substancialmente (dá mais piada à história), optei por descrever a cidade no presente. Para começar, quando se põe os pés fora de um autocarro na gare ferroviária e rodoviária principal do país, é-se capaz de lá ficar atolado, não por areias movediças, mas sim por dois palmos (dos meus que tenho as mãos grandes) de uma mixórdia não-movediça que cheira a não-rosas e é composta, na sua essência, por frutas e legumes podres do mercado (que ali tem lugar diariamente), lama em quantidades colossais e… cocó de animais domésticos pouco domesticados cujos donos serão seguramente não-domesticáveis! É daquelas aventuras que toda a gente deveria experimentar uma (só) vez, excepto para os animais (e também para os donos), pois parecem ter desenvolvido capacidades especiais que lhes permite arriscar ali a vida numa rotina diária.

 

Se se sobreviver à mixórdia movediça, pode-se encontrar logo em frente o Bulevar Zogu I, que atravessa toda a capital. Não muito longe da gare fica uma zona de agências bancárias novinhas em folha, reluzentes e impecavelmente inteiras, as quais ofuscam o olhar menos atento de um visitante (como eu) para o facto de ali se encontrar uma das poucas universidades do país. Só depois de muitas passagens e com a preciosa ajuda de uma amiga albanesa que conheci mais tarde, é que descobri o tal centro do conhecimento albanês. Fiquei contente por descobrir que há universidades na Albânia, mas muito triste com o triste estado dos edíficios universitários. Com tantos milhões para agências bancárias e jipes da ONU (falarei mais tarde destes) não há umas moedinhas para remendar as paredes em tijolo-vivo, comprar uns vidros inteiros para substituir os quebrados, comprar, sei lá, uma extravagância do género: quadros pretos para as salas aulas, ou no mínimo, uma latinha de tinta para pintar “Universidade qualquer coisa” junto ao portão de entrada. É difícil descrever o estado deplorável em que se encontra a instituição. Para quem conhece, a melhor comparação seria o Bairro Santa Tecla em Braga antes de ter sido remodelado pela câmara. Para quem não conhece, compare com as infraestruturas civis de Belgrado depois dos bombardeamentos da NATO. Seguindo sempre o mesmo Bulevar até ao centro encontra-se uma zona que merece de facto o nome de centro mas que mereceria igualmente umas obras de recuperação e restauração caso o pouco dinheiro disponível fosse investido ajuizadamente. Gostei do edifício do Museu Nacional, mas fiquei desapontado por encontrar os ladrilhos do mural espalhados no chão. Gostei da imponência da estátua de Skanderbeg mas podiam dar-lhe uma limpeza. São sofríveis as fontes e repuxos da praça central, mas garanto que seriam bem mais interessantes se não tivessem as canalizações rotas e enferrujadas, se as paredes não estivessem em cacos e, acima de tudo, se tivessem água! Para dar uma ideia do estado económico dos albaneses menos afortunados e mais ainda da indiferença reinante, nesse mesmo centro do centro, a única paragem de autocarros existente já não o é dado ter sido ocupada por um grupo de sem-abrigo que faziam daquele cubículo aberto sua casa permanente.

 

Em contrapartida, no lado oposto a essa estação, consegui comprar dois livros de Ismail Kadaré (o mais conceituado escritor albanês) traduzidos para português do Brasil! Vale a pena ler um deles, Os Tambores da Chuva, romance histórico que, embora de tom um pouco nacionalista e auto-vitimizante, é uma porta de entrada para um passado fascinante e praticamente desconhecido de nós portugueses: o tempo do Império Otomano, da sua colónia albanesa e dos seus imcomparáveis super-canhões!

 

Luís Garcia, 10.01.2016, Lampang, Tailândia

 

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