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Pensamentos Nómadas

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Putin, o mestre da diplomacia-xadrez

 

putinas

 

Luís Garcia  POLITICA 

 

A reacção de Putin ao abate do seu bombardeiro por parte da Turquia no espaço aéreo sírio tornou-se na grande questão do momento, há uns dias atrás. Muita gente temia uma reacção musculada de Putin que poderia ter como consequência o deflagrar da 3ª e última Guerra Mundial. Mas esperar tal reacção supõe o total desconhecimento da estratégia e perícia de Putin no tabuleiro de xadrez geopolítico, assim como denota uma distracção enorme face a todas as recentes tentativas que os EUA (e os seus manietados estados vassalos da UE e companhia) têm criado para convidar a Rússia a entrar numa Guerra Mundial, as quais Putin tem sabido evitar sempre de forma sábia, aproveitando também, no processo, para por em posição de fazer xeque várias das usas peças.

 

Portanto, ao contrário do que poderiam acreditar os seus fãs mais eufóricos, Putin reagirá pouco, os russos andam há 25 anos a mostrar bom-senso em política externa e diplomacia, humilhando-se e indo com frequência contra os seus próprios interesses em prol da paz mundial. O bullying dos EUA tem prevalecido, portanto, enquanto Putin tem preferido o binómio paz/humilhação-russa em detrimento de guerra/altivez-russa.

 

Recentemente as coisas têm mudado e os russos tendem a ocupar o seu lugar lógico no tabuleiro de xadrez. Agora, sim, é complicado gerir os últimos desenvolvimentos: um avião de passageiros russo abatido pelo terrorismo (ocidental) do ISIS no Egipto, sabotagem de electricidade em toda a Crimeia (russa) às portas do inverno por parte do grupo neo-nazi Right Sector com o patrocínio do governo ucraniano e, para rebentar a escala, o troglodita Erdoğan abate-lhes um bombardeiro indefeso e em missão contra-terrorista nos céus da Síria! Que dizer? A verdade é que, com escudos anti-míssil norte-americanos na Polónia República Checa e Roménia apontados à Rússia, com tropas de intervenção da NATO literalmente na fronteira EU-Rússia (nomeadamente na Estónia), com o golpe dos EUA/FMI na Ucrânia e com o patrocínio de terrorismo na Síria, os EUA levam de facto anos empurrando a Rússia para um conflito global! Nada de novo portanto.

 

A única reacção "justa" e soberana seria bombardear alvos militares da Turquia e exigir-lhe o pedido de desculpas oficial a uma Turquia então humilhada. Como à sensatez pacífica russa não lhe agrada guerras mundiais, os russos não o farão, e bem, bem para a humanidade! Os russos podiam jogar sujo e treinar e ajudar a formar hipotéticas guerrilhas curdas ou arménias numa lógica terrorista, em jeito de retaliação suja. Mas quem conhece a história geopolítica russa sabe que isso nunca aconteceria. Os russos são muito pragmáticos e muito mais sensatos que o nosso Ocidente nesta matéria, sabem que criar terrorismo acaba por ser o caminho para sofrer terrorismo, coisa que os norte-americanos e os seus vassalos adoram ignorar. Veja-se AlQaeda, AlNusra, Boko Haram, AQMI, ISIS e toda a parafernália terrorista que o Ocidente insiste em criar mesmo estando consciente que acaba por perder controlo de todo e qualquer grupo terrorista que cria! Portanto, vamos ter paz até ao dia em que os russos sensatos percam a paciência e aceitem o longo convite ocidental de uma guerra mundial. Nesse dia voltamos à idade da pedra, mas não é para agora uma vez que a paciência russa e a paciência de Putin estão longe de ter acabado! Felizmente! E talvez nunca chegue a acontecer se, como tudo indica, as jogadas de Putin no tabuleiro de xadrez planetário continuarem a ser acertadas.

 

Putin reagirá com ameaças verbais e com medidas/castigos económicos para a Turquia  Para os EUA-NATO responderá com movimentos políticos, económicos e militares estratégicos dentro dos países seus aliados, actos que não ousava até então, por respeito aos EUA, e que agora ousa dada a demonstração clara de supremacia da Rússia perante um conflito mundial convencional exibido na forma dos modernos mísseis disparados do mar Cáspio para a Síria. O pessoal não toma atenção a estes detalhes mas o que a Rússia fez era desnecessário do ponto de vista prático. Por certo que poderia ter atacado os mesmos alvos do ISIS a partir de um navio de guerra ou submarino estacionados em Tartus (Síria) ou a partir das suas bases militares em solo sírio É, para mim, posso estar enganado, uma espécie de Hiroxima e Nagasáqui russos em miniatura: não tiveram como objectivo principal destruir o inimigo factual e momentâneo, muito mais fraco, mas enviar uma mensagem de supremacia à outra potência. As bombas nucleares foram uma mensagem de supremacia destruidora total dos EUA face a Rússia. Os mísseis do mar Cáspio foram uma mensagem de supremacia convencional da Rússia face aos EUA, o que num mundo em que sabiamente se recuse o uso do nuclear, coloca a Rússia na posição de começar a dar ordens em vez de recebê-las ou, de proibir futuras invasões dos EUA a terceiros em vez de pragmaticamente fingir que não vê!

 

Os EUA e companhia têm empurrado a Rússia a cair e a despoletar uma terceira guerra mundial. Como grande mestre de xadrez geopolítico que é, Putin tem evitado sabiamente todos os convites envenenados e mais, aos poucos tem vindo a inverter com toda a calma as situações desfavoráveis de tal modo que, agora, é a Rússia que está por cima e sobre controlo de todos os cenários de confronto criado pelos EUA (e companhia), permitindo-se mesmo ditar as regras e apontar o dedo aos criadores da barbárie, do roubo e da destruição. Não esquecer que fá-lo tão bem que nem precisa chamar as bestas pelos nomes para que se perceba de quem está a falar, demonstrando dotes de diplomacia de todo desconhecidos pelos políticos ocidentais. Estes últimos fazem precisamente o contrário.  A França é um exemplo gritante. Assaltou Bengazi com com tropas especiais, dizimou milhares de líbios habitantes dessa cidade, para depois os seus políticos acusarem Gadafi de ser um "genocida".  A França orquestrou e implementou o ataque químico de Guta, na Síria, para depois os seus políticos etiquetarem Al Assad de "sanguinário" (leia-se, a propósito, o artigo de Thierry Meyssan: Cómo los servicios de inteligencia de Occidente fabricaron «el ataque químico» de la Ghouta).

 

Comment les services occidentaux ont fabriqué l'attaque chimique de la Ghouta

  

Recapitulemos, por fim, os principais actos ocidentais de pressão sobre a Rússia que Putin soube sabiamente converter em seu favor:

 

Ucrânia: Os EUA e seus estados vassalos inventaram uma revolta contra o "regime" (democrático) de Viktor Yanukovych, como castigo por ter recusado um acordo económico com FMI e EUA, e por ter aceito assinar um acordo económico estratégico com a Rússia de Putin. Resultado: a palhaçada do EuroMaidan. Mercenários tchetchenos e polacos, assim como guerrilhas ucranianas ligadas a grupos neo-nazis (Right Sector é um exemplo), criaram uma mini-guerra civil na capital do país, enquanto os nossos media apelidavam esses 3000 bandidos de agricultores famintos protestando contra a opressão! De rir, sobretudo para quem se deu ao trabalho de analisar ao pormenor os métodos de guerrilha urbana, os equipamentos profissionais e os materiais militares usados por esses "agricultores famintos" (como o líquido inflamável cujas chamas são impossíveis de extinguir, uma modernice bélica do Pentágono). Resultados: os EUA instalaram uma ditadura económica fantoche governada por funcionários do FMI, com ministros estrangeiros provenientes dos EUA, assim como da Lituânia e da Geórgia, 2 tristes vassalos de Washington (a ler: Foreign-born ministers in Ukraine's new cabinet, BBC.com); em 3 horas aprovou-se uma constituição ilegal xenófoba anti-russos (interdição de falar russo em locais oficiais, e por aí fora), e instalou-se a caça às bruxas russas. Não é de espantar portanto que regiões de populações maioritariamente russas como Dombass se tenham rebelado.

 

Quanto à estratégia de Putin: para quem não sabe, a Crimeia é um território russo que foi entregue à República Socialista Soviética da Ucrânia pela URSS em 1954, muito provavelmente por razões administrativas. Olhem para o mapa e perceberão porquê. Quando Putin pegou na Rússia em cacos e se propôs levantá-la, sem dúvida que não estava em condições, na altura, de reinvidicar a Crimeia. Se se aventurasse em pura e simplesmente reconquistar a Crimeia russa pela força militar, desrespeitando a soberania de um estado reconhecido pelas ONU, teria criado um conflito global. Mas Putin não é Obama, nem Clinton, nem Bush, e tampouco é presidente dos EUA, portanto não sofre pressões por parte de nenhum complexo militar-industrial que exige regulares invasões de estados soberanos como estratégia de lucro. Daí que Putin tenha esperado pacientemente por um futuro e hipotético momento propício. Obama e a sua selvajaria guerreira foram quem presentearam Putin com essas condições propícias para recuperar a Crimeia: ao despoletar a caça aos russos, os trogloditas ucranianos e seus companheiros mercenários, convidaram Putin a cumprir com uma exigência da constituição russa, a de defender a integridade física de russos dentro e fora da Federação Russa. Traduzido para linguagem de xadrez geopolítico: Putin podia por fim recuperar a província da Crimeia sem provocar uma guerra mundial, assegurando a permanência da sua base naval de incalculável valor estratégico no Mar Negro (porta para o Mar Mediterrâneo). Obama pensava fazer a Rússia perder essa base naval russa na Crimeia, mas acabou por fazer a Ucrânia perder a Crimeia inteira. Bravo Obama, grande jogatana de tiros nos pés!

 

Síria: Depois da barbárie NATOniana na Líbia, seguiu-se a Síria. A Síria tem um antigo pacto de defesa com a Rússia e são entre si aliados estratégicos em ambos os sentidos, embora por razões díspares. No rescaldo da Líbia a máquina de barbárie norte-americana iniciou o assalto à Síria na totalidade impunidade, começando por organizar na Síria uma manifestação civil com mortes de ambos os lados, a receita do costume desde a Operação Ajax no Irão que derrubou o regime socialista e democrático de Mossadeg e instalou a ditadura sanguinária do Xá. A partir daí nunca mais pararam, são dezenas de casos, dou apenas alguns exemplos semelhantes: Brasil 1964, Chile 1971, Venezuela 2002.

 

Digo eu, desconhecendo em grande parte a posição secreta da Rússia de 2011 a 2014, que Putin ter-se-á limitado ao que sabemos: de início uma ajuda material tímida às Forças Armadas da Síria. Com o passar do tempo, um aumento de ajuda militar à Síria que acabou por, mesmo que sem reconhecimento oficial, passar a dispor certamente de homens em solo sírio.

 

Com a farsa de Guta, a do teatralizado "massacre químico" que referi acima, Putin subiu a parada, instalando-se definitivamente na base naval de Tartus (Síria) e enviando uma clara mensagem aos EUA: não vale invadir a Síria. Com a contínua pressão de "red lines" (linhas vermelhas) ultrapassadas por parte do "sanguinário" Al Assad e perante a insistência de Obama em invadir a Síria, Putin saiu-se com uma jogada de mestre. Propôs-se a liquidar o programa de armamento químico da Síria, com o consentimento e apoio de Al Assad, arrumando de uma vez por todas na gaveta a invasão convencional norte-americana que não chegou a acontecer.

 

A partir de junho de 2014, os EUA decidem instalar o Estado Islâmico na Síria, numa nova e rebuscada tentativa já não de conquistar a Síria toda mas sim de criar um estado terrorista sunita na zona de recursos petrolíferos. E fizeram o mesmo no Iraque que, democraticamente elegendo os seus governantes como os EUA haviam imposto, tinha passado a ser governado há anos por xiitas (a maioria religiosa, matemática elementar) que se foram aproximando do Irão também xiita (o que era óbvio para toda a gente menos para os milhares de "estrategas" militares que trabalham no Pentágono) e afastando-se do EUA. Nunca me esquecerei do dia em que o lendário Mahmud Ahmedinejad, na altura presidente do Irão, se deu ao luxo de se passear de camisa aberta pelas ruas de Bagdad, a capital do país mais perigoso do mundo! O Obama para ir mijar leva 100 guarda-costas, e para visitar o Iraque trás uma invasão do Iraque com ele, ahah!

 

Os EUA com o Estado islâmico, e Israel com o seu estado vassalo do Curdistão Iraquiano propuseram-se e realizaram a partição em poucos dias do Iraque em três partes. Apenas os xiitas ficaram sem petróleo! Tal Como a Síria do governo legítimo de Al Assad. Ah, para não falar do Kuwait, esse gamado pelo Inglaterra ao Iraque há umas dezenas de anos. Agora, a correr bem a estratégia de rapina de EUA-Israel, o Iraque fica sem pinga de petróleo, nem o petróleo de Mossul sobrará pois foi roubada aos árabes pelos curdos e pelos israelitas, acontecimento do qual ninguém no Ocidente quer falar, muito menos explicar. Pois deveria ser explicado que os curdos do Iraque (que têm a ajuda de Israel) fazem a partição organizada das riquezas petrolíferas iraquianas com o ISIS (que tem a ajuda dos EUA, Turquia, França, Reino Unido, Arábia Saudita, Catar e por aí fora).

 

Aproveitando o estratégico acordo EUA-Irão de 14 de Julho, e sem perder tempo, Putin assumiu oficial e ostensivamente a defesa do estado sírio pela via militar, e lá estão eles desde há 2 meses revertendo abruptamente o evoluir da situação em favor do estado legítimo da Síria governado por Al Assad e reeleito democraticamente pelo seu povo a meados de 2014. Esse acordo EUA-Irão incluía implicitamente a pacificação da Síria governada por Al Assad, aliado estratégico da potência regional Irão e que, enquanto zona de influência desta potência regional agora supostamente sob a tutela da potência mundial (EUA), deveria passar, em teoria, a partilhar o Médio Oriente com a outra potência regional há muito sob a tutela dos EUA: a Arábia Saudita. Xiitas de um lado, Sunitas do outro. Enfim, alucinações norte-americanas que o Irão sabiamente não respeitará, mesmo que diga que sim maquiavelicamente, ao contrário do que nos querem fazer querer desde a Casa Branca.

 

Por último temos o bombardeiro russo abatido pela Turquia no espaço aéreo sírio de forma claramente premeditada pela NATO, à qual a Rússia informou com um dia de avanço a hora e localização precisas do avião militar abatido. Erdoğan faz portanto figura de parvo ao dizer que se soubesse que o avião era russo não o teria abatido. Um perfeito disparate pois ao mesmo tempo afirma que continuará a abater todos os aviões russos que ponham em perigo a soberania turca, Pior mesmo só a afirmação de Erdoğan segundo a qual o futuro e hipotético abate de um caça turco por parte da força aérea russa no espaço aéreo sírio será considerado por Ancara como um "ataco de agressão da Rússia"! Vejai o ilegal descaramento! Vale tudo nas terras do neo-pachá! Incluindo fazer o contrário do que afirma pois, segundo fontes oficiais gregas e sírias, desde a tarde de dia 25 Novembro (dia em que foi abatido o bombardeiro russo) até hoje, a Turquia não mais violou o espaço aéreo destes 2 países! Para quem não sabe, a média de violações do espaço aéreo grego por caças turcos é de 10 por dia! Ou, que dizer da afirmação de que o avião russo bombardeava uma zona onde apenas se encontram civis? Ah sim, então por que raio o piloto russo foi abatido a tiro por terroristas enquanto caía de para-quedas, facto provado pelos vídeos de telemóvel dos próprios terroristas? E por que raio o helicóptero russo de resgate foi destruído por um rocket norte-americano lançado por terroristas (turcomenos sírios liderados por um cidadão turco, filho de um presidente de câmara de uma cidade turca) que também filmaram a façanha e da qual resultou a morte de um comando russo? Erdoğan, definitivamente, é deficiente mental!

 

Mas voltemos a Putin. Este, uma vez mais, não reagiu tresloucada e emocionalmente ao abate de bombardeiro russo, declarando guerra à Turquia (NATO) e dando início a uma guerra nuclear, como poderia esperar a Ditadura Económica Mundial ansiosa por uma carnificina à escala planetária. Não, estacionou um navio de guerra ao largo da Turquia, voltou a interromper as comunicações turcas com o seus ultra-modernos sistemas de guerra electrónica e trouxe para a Síria em tempo recorde o impensável: o impenetrável sistema de defesa S-400 Triumph! Com este último activo, o jogo de xadrez geopolítico na Síria alcançou a completa inversão. Se nos primeiros anos do conflito a ajuda russa à Síria foi secreta e limitada, se a ajuda poderosa e oficial dos últimos meses tem sido apelidada pelo ocidente de "chacina contra rebeldes moderados e civis", agora, com S-400 Triumph, apenas a Rússia decide o que se passa na Síria, ao ponto que os EUA também já cancelaram hoje (29 de Novembro) todos os voos sobre o espaço aéreo sírio. E nem uma acusação mais de infundadas mortes de civis, supostamente vítimas de bombardeamentos russos, por parte dos media e políticos ocidentais. Se Putin tivesse feito cheque ao início com S-400 Triumph, os EUA teriam lançado o tabuleiro ao chão e desatado o conflito nuclear. Jogando sabiamente, na defensiva, mas preparando com muitas jogadas de antecipação as suas jogadas ofensivas, Putin conseguiu lá colocar os S-400 Triumph e receber como reacção de Obama o total consentimento passivo!

 

Agora quem dita ordens é Putin, quem dá sermões é Putin, quem tem legitimidade para fazer avisos é Putin. Tudo isto sem fazer jamais ameaças à NATO e aos seus membros, ao contrário destes. Tudo isto sem disparar uma única vez contra membros da NATO, ao contrário destes! Bravo Putin, bravo!!!

 

Luís Garcia, Lampang, Tailândia, 29.11.2015

 

 

Vídeos de Putin: 

Como os Estados Unidos criaram o ISIS

 

Turkey and ISIS together on stealing Syrian oil

 

Russian S-400, Turkish terrorism & USA betrayal

 

Citações de Putin

 

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