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Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

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Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

PREFÁCIO à Enciclopédia Portuguesa dos Bons Costumes, por Ricardo Lopes

 

http://pensamentosnomadas.com/tag/enciclop%C3%A9dia+portuguesa+dos+bons+costume

 

 

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PREFÁCIO 

Há culturas, e culturas. Há xenófobos, chauvinistas, racistas (já agora, toda uma forma de ser preconceituoso que se baseia num conceito não existente – o de raça), machistas, especistas, direitistas, pessoas que consomem ayahuasca, apreciadores de música pop e pessoas que sobem ao monte Kilimanjaro com dois pretos escravos a carregarem a tralha toda delas e ainda a levar duas cabras para matar e dar de comer aos elitistas pelo caminho.


Ou seja, há bestialidade para todos os gostos pelo mundo humano fora, e dentro também, às vezes, em dias enevoados e nos quais os gordos têm desculpa para se ir enfiar no McDonald’s a consumir saladas Caesar e a dizer que estão a fazer dieta porque aquilo traz mais do que três tomates cherry.

 

Para além disto tudo, ainda há bestas sem precedentes na história, como fifis, putos estúpidos, geeks, gamers, emos, youtubers estúpidos, anti-vaxxers, new agers e pessoas que dão aos bebés nozes e bananas assim que nascem para os habituarem a ser veganos.

 

Mas, no meio de toda esta panóplia de estupidez generalizada, há quem se destaque pela negativa: o povo português.

 

Dá para rir, para chorar, para chorar a rir, para rir a chorar, para cagar a rir, para cagar diarreia simplesmente porque foste a um tasco e não lavaram a loiça que usaste para comer. Essencialmente, dá para qualquer pessoa inteligente se irritar, porque isto é tão ridículo que nem sequer serve para fazer comédia nonsense de jeito.

 

Por isto tudo, e também pelo facto de eu ser masoquista intelectual, resolvi principiar uma enciclopédia portuguesa de bons costumes, para documentar tudo quanto de mais generalizado permeia o comportamento dos cidadãos portugueses, fora e dentro de Portugal, e às vezes também na Madeira e no Minho, que acaba por nem se perceber bem se aquilo é mesmo território português ou não.

 

Desde feitos enfatuados, a feitos inventados, a nacionalismo bacoco, a mortes enfatuadas, a distintos que não se respeitam, a medíocres que se distinguem, a personagens históricas inventadas, a impérios inventados, a regiões inventadas, a velhas que não podem ser importunadas, a passadeiras desrespeitadas, a leis ignoradas, a pessoas que não sabem falar a própria língua, a pessoas que enfiam a carapuça por tudo e por nada, a unhas de gel, a obesas mórbidas na praia a pedirem bolas de Berlim, a velhas a apalpar os sacos de pão no hipermercado, a queimadas no verão, a eucaliptos plantados onde ardeu mata atlântica, a filas desrespeitadas, a filas furadas, a pedófilos moralistas, a violadores moralistas, a violentadores moralistas, a opressores moralistas, a corruptos moralistas, a cagões moralistas, a gajos porreiros armados em espertos moralistas, a ignorantes orgulhosos, a pais negligentes moralistas, a armados ao pingarelho sem noção, a adeptos de futebol devotos, a pessoas que vão a Fátima a pé e rebentam os pés com bolhas mas passam o resto do ano a ir à missa só para estar a cochichar com a velha do lado acerca de quem foi à missa e acompanhado de quem, a cornos na assembleia, a cidades sem construções antissísmicas construídas sobre falhas tectónicas, a pratos típicos feitos com ingredientes que nem sequer existem em território nacional, a aviários sem condições mínimas, a peixeirada na rua, a encher o Marquês quando o Benfica ganha mas ficar alapado no sofá quando querem cortar nos vencimentos, a pequenezes mal resolvidas, a costumes pagãos mascarados de católicos, a doutores e engenheiros sem curso, a professores doutores com este título porque já nem dava para os distinguir dos outros, a vender gato por lebre, a fazer coisas para inglês ver, a ficar com a melhor parte para não ser burro e não dar a entender que não se tem arte, ao chico-espertismo, à bem-educadice da Silva, às falsas hospitalidades, à cobardia, às ameaças em grupo, ao agarrem-me senão eu vou-me ao gajo, à gastronomia roubada de outros povos, à gastronomia copiada de outros povos, às influências transmitidas a outras culturas inventadas, ao sebastianismo, ao salazarismo, ao orgulho na guerra colonial, à distinção de heróis da primeira guerra mundial, ao Viriato, ao Adamastor, ao ódio aos islâmicos tendo sido eles uma das principais fontes da cultura portuguesa, ao orgulho estúpido, à estupidez orgulhosa, à coitadice, ao queixume e à lamentação, à música de desgraça, aos talk-shows de desgraça, às reportagens de desgraça, aos livros de desgraça, aos best-sellers ignorantes, aos especialistas em tudo e mais alguma coisa ignorantes, ao estava só a brincar, ao livro alucinado mais adorado por um povo que não é a Bíblia, ao segundo livro alucinado mais adorado por um povo que continua a não ser a Bíblia, aos campeonatos que mereciam ter ganho, aos campeonatos que ganharam e não mereciam mas já dá para ficar feito puto ranhoso a falar disso para sempre, à idade mental de cinco anos, à comida que sabia melhor no tempo do outro senhor, ao Marcelo Caetano que até aumentou os salários, aos ciganos que vêm para cá viver de subsídios, aos emigrantes que vão para fora viver de subsídios, aos desempregados que não querem é fazer nada, aos empregos que não há, ao trabalho que abunda mas que ninguém quer fazer, aos velhos que conduzem contra a mão, aos grunhos que se colam atrás de ti numa ultrapassagem na autoestrada indo tu a 120 km/h, aos que te buzinam porque foram atrás de ti durante muito tempo, aos que saem de casa para buzinar por tudo e por nada para mostrarem que têm gaita, aos a quem mirra a gaita se não forem em excesso de velocidade, aos que falam mal de todos pelas costas, aos que batem nas mulheres mas que são cavalheiros, aos que batem nos filhos mas são bons pais, aos estrangeiros que fazem tudo melhor, aos estrangeiros que fazem tudo pior, aos estrangeiros que nunca fazem nenhum, aos estrangeiros que nos adoram, aos produtos nacionais que toda a gente reconhece no estrangeiro, aos prémios nobel a cujo funeral falta a múmia, à violência doméstica silenciada porque somos de brandos costumes, aos brandos costumes, ao improviso, ao desenrasca, ao em cima do joelho, ao ver se te avias, ao fino, à imperial, ao bagaço em jejum, ao café com cheirinho, às casas de banho dos homens a cheirar a terreno estrumado, aos homens que se querem a cheirar a cavalo, aos peixes que não puxam carroça, aos carapaus de corrida, à corrida às sardinhas, aos santos, aos santos de altar, aos santos populares, aos foguetes largados em casa nos santos populares, aos santos mariquinhas, aos santos chorões, aos santos que sangram, aos santos que aparecem, aos segredos dos santos, aos santos da casa que não fazem milagres, à inveja do vizinho, à galinha da vizinha, ao estás tão magrinho da avó, ao fortezinho obeso, à jóia de moço, ao filho do meu coração, à maravilha de pessoa que deus a lá tenha, ao filho da puta, aos filhos da mamã, à puta, à rameira, à pindérica, à mal-lavada, à mal-lavada por baixo, à mal-amada, aos mal-resolvidos, aos bem-resolvidos complexados, aos choninhas, aos caguinchas, aos morcões, aos cabrões, aos jovens de espírito, aos jovens agricultores, às touradas de que os touros gostam, aos touros que não sentem dor, ao meu avô que comeu enchidos a vida toda e durou até aos 100 anos, ao meu tio que fumou dois maços por dia e morreu aos 85, aos azeiteiros, aos matarruanos, aos gebos, aos provincianos, aos tasqueiros, aos saloios, aos serranos, aos burgessos, aos boçais, às tias, às princesas, ao macho latino, aos cabelos pretos descolorados, aos que percebem tudo disto porque conhecem alguém que vive não sei onde e que faz não sei o quê, aos campeões da violência doméstica, aos campeões da austeridade, aos campeões da benevolência para com os criminosos económicos, aos campeões da corrupção, aos que nunca reclamam para ir queixar-se pelas costas, aos que reclamam ao volante e com a janela fechada, aos que reclamam ao volante com a janela aberta e aos palavrões, aos bate-e-foge, aos defensores acérrimos de todas as opiniões desde que vão de encontro à cartilha cultural, aos que podem falar mal à vontade de todos aqueles de quem discordam, às ofensas na internet, ao oferecimento de porrada, aos estoiros de orçamento de estado em grandes obras públicas e o resto que vá para o galheiro, aos ex-ministros à frente de grandes empresas, aos banqueiros por detrás de ministros, aos banqueiros que nunca estão na prisão, às marquises cheias de entulho, aos quintais cheios de lixo, aos telhados de zinco, às hortas só com couves, às couves na varanda, às sardinhadas na varanda, aos descobrimentos de sítios onde muitos outros já tinham estado antes, aos manjericos, aos jericos, aos cães acorrentados, aos cães à solta, aos cocós por apanhar, aos cantos mijados, às cunhas, ao nepotismo, ao compadrio, aos favores, ao uma mão lava a outra, ao ouve o que eu digo mas não faças o que eu faço, ao se eu estivesse lá fazia o mesmo, ao tenho um senhor doutor na família, às grandes máquinas em segunda mão, aos Audis, BMW’s, Mercedes, Fords Fiesta presos por arames, às inspeções por fazer, às manias das grandezas, à grandeza das manias, à mania que somos pequeninos, ao grandioso destino dos portugueses, ao Quinto Império, ao fado, à Nossa Senhora, ao Camões e ao Pessoa, ao Velho do Restelo, ao Saramago que não sabe escrever, às sebentas na universidade, aos professores sebenteiros, aos alunos medíocres que chegam a assistentes, aos assistentes sem doutoramento, aos doutorados sem emprego e aos pós-doutorados no estrangeiro, aos doutorados por terem emprego, às equivalências por experiência, aos canudos comprados ao domingo, aos domingos na casa da avó, às tardes de domingo na televisão, ao almoço de domingo que acaba em discussão, às bebedeiras que acabam em discussão, aos tiros de caçadeira que acabam com as discussões e com as bebedeiras, ao seja o que deus quiser, a o diabo nos acuda, ao podia ser pior, ao menos bom, ao se a minha avó não tivesse morrido ainda era viva, ao elogio das sovas da avó, ao elogio das sovas da professora primária, ao elogio das sovas do padre, ao elogio das sovas da PIDE, à desculpa das sovas do marido e da obrigação de dar sovas aos filhos, aos linchamentos públicos, ao se fosse eu a mandar estes eram todos condenados à morte, aos ando eu a pagar para andarem aqueles sem fazer nenhum, ao olhar para o lado quando alguém está a ser agredido em público, aos bitoques, às francesinhas, aos cozidos à portuguesa, aos rojões, às morcelas, às chouriças, aos chouriços, aos coiratos, aos chispes, às línguas, às orelhas, às bifanas no pão, aos ovos a cavalo, às canjas com miúdos, ao bacalhau à Brás, ao bacalhau à Zé do Pipo, ao bacalhau com todos, às ceboladas e coentradas, aos chás de salva, aos míscaros, aos pires de tremoços e de amendoins, aos pipis, às moelas e aos pica-paus, às entranhas apimentadas, à dobrada mal-lavada, às tripas enfarinhadas e aos porcos que se comem inteiros e aos secretos dos pretos, às saladas de folha de alface e tomate que se dizem mistas, à broa de milho, à broa de Avintes, à broa castelar, aos mil-folhas, às bolas de Berlim, aos pastéis de nata, às bolas de carne, aos papos de anjo, às barrigas de freira, aos ovos moles, às queijadas, às tostas mistas, às sandes de manteiga, ao queques promovidos a cupcakes, aos comunistas que comem criancinhas e cães ao pequeno-almoço, ao Manuel Palito, ao Bibi, ao Carlos Cruz, ao Carlos Castro, ao Bairro Alto, ao Chiado, à Ribeira, à margem sul, aos remendos nas estradas, às estradas esburacadas, ao estou aqui estou ali, aos saudosistas, ao na minha terra não se diz assim, aos arraiais, aos ranchos folclóricos, às bandas filarmónicas das sociedades recreativas, à bisca lambida, à sueca, ao dominó, às damas, jogados no jardim por velhos com a pensão mínima, às peixeiras do Bulhão, ao Goucha e à Cristina, ao ódio à pensão de quem nunca trabalhou, ao ódio ao RSI, ao ódio ao subsídio de desemprego, ao trabalho pelo salário mínimo, aos doutores praxistas, aos dux com 40 anos, aos praxados amedrontados, aos praxados orgulhosos à espera de poderem praxar, aos rallies de tascas, ao carro de cortejo nas traseiras do trator, às latadas, às semanas do caloiro, às noitadas sem estudar, ao é para o penalti, às anfetaminas antes das frequências, aos desfiles de carnaval, aos filhos com os avós que eu vou mas é emigrar, aos filhos com os avós que eu vou mas é para a borga, aos filhos com os avós porque tenho de ir trabalhar, às mulheres muito bem resolvidas, aos homens que não fazem nada em casa, às mães dos homens que servem de modelo às esposas, aos recordes de comida, aos recordes de ajuntamentos, aos recordes de recordes, à maior árvore de natal do mundo, ao maior shopping da Europa, à maior caldeirada de Portugal, à maior feijoada comida na maior ponte da Europa, ao maior da minha rua e ao maior da minha aldeia, aos mordomos de festas de paróquia, aos peditórios para festas de paróquia, às alminhas, às caixas de esmola, aos padres lambões, aos padres borrachões, ao vinho de missa, ao vinho a martelo, à vinhaça e ao tintol, ao Porto e ao Queijo da Serra, às testemunhas de Jeová, aos espiritas, aos professores grandes mestres curandeiros milionários de magia negra e branca mais forte que resolvem problemas amorosos, financeiros, económicos, familiares, ao mau-olhado, às cuecas do avesso, às bruxas das aldeias, aos vegetais dos avós que não levam nada mas afinal levam sulfato de cobre, aos sacos de estrume, ao vossemecê, ao senhor é o que está lá no céu, ao tempo da outra senhora, ao arco da velha, ao onde o diabo perdeu as botas, ao cascos-de-rolha, ao cu de Judas, ao raio que te parta, à puta que te pariu, ao pão que o diabo amassou, ao vão-se os anéis mas ficam-se os dedos, ao quem me comer a carne há de me roer os ossos, às putas e ao vinho verde, ao vinho branco fresquinho, ao panaché, à bica escaldada, à bica em chávena fria, ao carioca sem cafeína e ao carioca de limão, aos alambiques de fundo de quintal, às cooperativas, aos mercadinhos de rés-do-chão, aos hipermercados, aos supermercados, aos mini-mercados, aos snack-bares, às hamburguerias, às pizzarias, às gelatarias, às cervejarias, aos cafés onde nada se come e só se bebe, aos bilhares, aos matrecos, à malha, ao hóquei em patins, ao futsal, ao comia-te toda, ao partia-te a boca toda, ao fazia-te a folha, ao arrebentava-te todo, à Casa Pia e à Santa Casa, à batalha de Aljubarrota, à padeira de Aljubarrota, ao Alcácer Quibir, aos filhos da puta dos Felipes, às guerras napoleónicas, às grandes vitórias bélicas, ao Bandarra, ao Santo Contestável, ao Conde Andeiro, ao Martim Moniz, ao Egas Moniz que fez tudo quanto quis, ao D. Dinis, ao pinhal de Leiria, ao infante D. Henrique, ao Vasco da Gama, ao Cristóvão Colombo que afinal era português, aos japoneses que quando lá chegámos cheirávamos mal e comíamos com as mãos mas até aprenderam palavras nossas, ao escorbuto, às galés, ao escorbuto nas galés, ao D. João V que deixou a agricultura na merda para pôr o pessoal a carregar calhaus, ao Cavaco Silva que deixou a agricultura, a pesca e a economia portuguesa na merda, mas que construiu o Centro Cultural de Belém, que é um monte de calhaus, ao Fontes Pereira de Melo que fez as primeiras linhas de comboio, à visão do Marquês de Pombal, ao despotismo esclarecido, ao despotismo não esclarecido, ao D. Afonso Henriques que batia na mãe mas que rebentou a boca aos muçulmanos, à espada do D. Afonso Henriques que ele não tinha estatura para levantar, à Maria Pia, à Rainha Santa Isabel, ao pão e às rosas,  à Inês de Castro, ao grande amor de D. Pedro por ela, à morte às mãos do amado, ao quanto mais me bates mais eu gosto de ti, ao quem não tem ciúmes não ama, ao olhos que não veem coração que não sente, aos castelos de santos, aos santos de castelos, aos pretos que estavam melhor quando eram nossas colónias, aos brasileiros que estavam melhor quando eram colonizados por nós, às riquezas dos descobrimentos que o povinho nunca viu, aos cofres cheios de Salazar, aos cofres cheios de Maria Luís Albuquerque, ao soft-power e aos incumprimentos da Assunção Esteves, ao Portas que é muito bem-falante, ao Miguel Esteves Cardoso que é muito bem-pensante, ao sexy platina do Sócrates, à CMTV, ao Porto Canal, ao canal Q, à RTP e à SIC e TVI que até são iguais à CMTV, ao Público, ao Expresso, ao Jornal de Notícias, ao Diário de Notícias, ao Sol e ao i, ao jornal local serventuário da Câmara, ao eu é que sou o presidente da Junta, às jotinhas, ao primo na assembleia de freguesia e ao filho do amigo que ganhou o concurso público, aos médicos, aos engenheiros, aos advogados, aos juristas e juízes, aos GNR’s e PSP’s, aos farmacêuticos, aos políticos, aos trolhas e aos patos-bravos, às donas de casa e às sopeiras, às domésticas que se querem domesticadas, às mulheres bem-mandadas, às mulheres do seu homem, às mulheres de um homem só, às mulheres decentes, às outras que são todas umas galdérias, e ao meu filho que nenhuma merece, ao botão de cima da camisa aberto, ao pelo na venta, ao pelo no peito, ao fio de ouro ao pescoço, ao terço no retrovisor, à faca na liga, ao faca e alguidar, à choradeira desatada, às carpideiras nos funerais, aos sinos a rebate e as idas aos velórios de pessoas que ninguém conhece, às conversas de velório, aos lanches nos velórios, às anedotas nos velórios, às missas de corpo presente, às câmaras ardentes, às flores artificiais nas campas, ao lixo posto na campa do vizinho, ao jazigo vandalizado, às limpezas para o dia de finados, às limpezas de páscoa, ao bolo-rei no natal, à gorjeta ao coveiro, às listas de espera nos hospitais, aos tempos de espera nas urgências, às infeções hospitalares, aos médicos de urgências com mais de 50 anos que até os pacientes velhos já decoraram o cardápio de receitas, à carta de vinhos, ao vinho da casa, ao bife à casa, ao menu de pratos da casa que nunca ninguém sabe bem o que é, à sobremesa da casa e à fruta da época, ao agora caía bem, à semana a seguir ao natal a comer restos, às prendas oferecidas desde o natal até aos reis, aos recordes de compras de natal, aos cartões de crédito, ao crédito mal-parado, às bancarrotas, às falências fraudulentas, às faturas falsas, às declarações de IRS aldrabadas, à mudança de nome da empresa, aos fiados, à lista de fiados, ao conto de vigário, aos vigaristas, aos vigaristas bem-falantes que roubam velhinhos, ao roubo por esticão, à arte do carteirismo, aos octogenários carteiristas, ao roubo no 28, ao Viva Melhor, ao Ideia Casa, ao Vaporeto Titano, ao Calcitrim, aos colchões ortopédicos por estrear, às cintas para apertar as banhas, à gordura que é formosura, à mulher que se quer pequenina como a sardinha, à diabetes e ao colesterol, aos bicos-de-papagaio e aos joanetes, às velhas que entram em competição na sala de espera do centro de saúde para ver quem tem mais doenças, às velhas que entram em competição nas salas de espera dos centros de saúde para ver quem é melhor mãe e avó, às velhas que dão cabo da cabeça a todos da família e aos velhos que matam a família inteira, aos crimes passionais, ao matar por amor, ao ela estava a pedi-las, ao vai ficar para tia, ao meu vizinho sempre o conheci como uma excelente pessoa mas na verdade passávamos os dias às bocas, ao assassino que é uma excelente pessoa, ao assassino visto por todos como uma excelente pessoa, aos meninos que vão à missa todos os domingos, vá perguntar a quem lá vai, e por isso não é possível que seja um vândalo nas aulas, aos queques, aos sapatos de vela, ao cabelo à foda-se, às calças de bombazine, ao forcado amador, ao forcado amador monárquico, ao forcado amador vândalo e ao forcado amador coitadinho, às Cátias Vánessas, aos Rónaldos, aos Cristianos, aos Francisquinhos, às Sandras Márisas, às palavras com várias sílabas tónicas, aos nomes com duplas consoantes, aos nomes de terras acentuados cujo acento não se lê, aos nomes de terras por acentuar mas cujos acentos se leem, aos erros ortográficos, ao raios me partam que agora vou ter de voltar a aprender a escrever por causa do novo Acordo, ao novo Acordo que é para transformar o português em brasileiro, às objeções de consciência, aos abortos de vão de escada, à oposição à IVG, ao não estou para pagar abortos a quem se descuida mas espero que os outros paguem o preço da minha obesidade, ao os espanhóis são todos uns merdas mas até vou lá atestar o carro, ao os espanhóis são todos uns merdas mas até vou lá às compras, ao os espanhóis são todos uns merdas mas até vou lá abortar, ao sou contra o aborto mas eu cá já abortei, ao não uso preservativo porque corta a sensibilidade, aos números da SIDA que não descem, aos números da tuberculose que não descem, aos fígados gordos, às veias entupidas, às varizes, às mulheres que nunca mais conseguiram emagrecer desde que engravidaram, aos homens que nunca mais conseguiram emagrecer desde que casaram, às jovens anoréticas e aos jovens metrossexuais, aos que se perderem o emprego não sabem onde acabam no fim do mês mas estão a viver em casa dos pais, aos que não ganham para comprar iPhones, aos que ganham para pagar iPhones, aos que põem a avó a pagar o iPhone, aos que põem os avós e os pais a pagar o iPhone, aos que põem os avós, os pais e os tios a pagar o iPhone, aos que põem os avós, aos pais, os tios e os primos a pagar o iPhone, aos que põem os subsídios dos pais, dos avós, dos tios e dos primos a pagar o iPhone, aos que sacam rateres com os carros, às férias nos países de terceiro mundo, às fotografias a copos de bebidas alcoólicas com orgulho, ao glamour de fumar, aos que sempre que lhes prestam serviços são roubados, aos que roubam quando prestam serviços, aos que colecionam cupões de desconto do supermercado mais caro, aos que poupam na comida dos filhos para pagar as cotas de sócio do Benfica, aos que batem na mulher quando o Benfica perde, aos No Name Boys e aos Super Dragões, aos taxistas cadastrados, aos motoristas da Uber a quem os taxistas rebentaram o carro, aos trabalhos precários, aos recibos verdes, aos contratos a termo incerto, aos contratos a projeto, aos call-centers, aos agentes imobiliários, às agências de trabalho temporário, aos part-times de 36 horas, aos part-times de 36 horas a 268€, ao estágios não remunerados, ao trabalho para aquecer, ao enquanto não validam o estágio vem cá na mesma para ires aprendendo, ao melhor isto do que nada, ao antes isso do que ser despedido, ao mais vale ganhar isto do que não ganhar nada, ao respeitinho que é muito bonito, ao se eu disse isto o que vão pensar, ao ai não se desce ao nível, ao mais vale não responder, ao toda a gente ganha mais do que eu, ao há quem ganhe menos do que eu mas também não faz nada, ao eu não ganho o que mereço, aos eles ganham mais do que merecem, aos funcionários públicos que nunca fazem nada, aos funcionários públicos que passam metade do tempo a tirar cafés, aos estagiários que tiram cafés, ao a minha política é o trabalho, ao o trabalho dá muita saúdinha, aos políticos que são todos iguais, aos xuxalistas, aos estalinistas, aos norte-coreanos, aos chavistas, aos comunas, aos maoístas, aos maoístas que acabaram à frente da Goldman Sachs e aos outros que acabaram a apoiar o Cavaco, ao Sá Carneiro que ninguém sabe dele, aos bloquistas ganzados, à Mariana Mortágua que estava bem era na Playboy, à Mariana Mortágua que eu dizia-lhe como era e ia logo ao sítio, ao aquilo que lhe falta sei eu, aos endireitas, aos homens dos sete-ofícios, aos barbeiros dentistas, ao eu queria era uma aspirina para as dores, às mlheres e aos homes, aos meus ricos filhos, aos treinadores analfabetos, aos treinadores que leram o dicionário todo, ao Eça de Queirós, ao Eça de Queiroz, ao Aquilino Ribeiro, ao Camilo Castelo Branco, à geração de 70, ao geração de Orpheu, ao Padre António Vieira, ao Gil Vicente, ao Almeida Garrett, ao Jorge Amado, à Sophia de Mello Breyner e ao filho dela que é tudólogo, ao José Rodrigues dos Santos, ao Pedro Chagas Freitas, ao Gustavo Santos, à Margarida Rebelo Pinto, ao Concílio dos Deuses, à Ilha dos Amores, e aos outros cantos d’Os Lusíadas que eu nunca li porque não se deu na escola, àquele livro do gajo com nome estrangeiro que se dava no 12º ano mas que eu não me lembro, ao Plano Nacional de Leitura que eu nunca vou acabar porque já não ando na escola, aos apontamentos Europa-América e aos resumos na internet…

 

…e a mim, carago, que já bati o recorde do Saramago a fazer uma enumeração sem pontos finais e também já bati o Camões na extensão da Dedicatória.

 

Novo Recorde! A seguir venha o da pipa de aguardente!

Ricardo Lopes

 
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