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Pensamentos Nómadas

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Os Traficantes

 

 

HOLLYWOODICES – EPISÓDIO 1

síria

 

 

bw VIAGENS Luís Garcia

 

 

Eu tenho visto tanta coisa nesse meu caminho, Nessa nossa trilha que eu não ando sozinho, Tenho visto tanta coisa tanta cena, Mais impactante do que qualquer filme de cinema.
(Tás a ver?, Gabriel O Pensador)

 

OS TRAFICANTES (fronteira turco-síria, 2008) No último dia da aventura síria eu e o meu companheiro de viagem Diogo encontravámo-nos em Aleppo, imemorial cidade de 5500 anos e a mais antiga do mundo ainda habitada. Pela manhã andámos a passear pela cidade, fazendo a despedida deste país encantador, procurando as últimas memórias-relíquias de contar aos amigos, e sim, encontrámos algo completamente inesperado: numa pequena loja de esquina onde se vendiam narguilés, malas e cintos, fomos descobrir perdido numa prateleira escondida, um pequeno Galo de Barcelos impecavelmente polido e cores ainda bem vivas. Não levámos o galo, levámos antes duas narguilés, mas fizemos notar ao dono da loja o nosso espanto e contentamento.

 

Daí fomos a pé até a uma das praças de autocarros situada nas traseiras do bairro dos grandes hóteis turísticos, onde procurámos o autocarro que fosse suposto ser o primeiro a partir para a Turquia. Primeiro é como quem diz, num mundo onde transportes públicos não têm horários marcados e só partem quando além de se encontrarem todos os lugares ocupados se espera ainda que entrem mais 20 passageiros que se ofereçam para fazer a viagem de pé, num mundo assim, dizia eu, o primeiro autocarro é aquele cujo condutor tenha ligado o motor e se esteja a preparar para por a primeira. Em poucos minutos encontrámos um em vias de arrancar, mas que assombrosamente continha apenas cinco passageiros, quatro adultos e uma criança. Na dúvida entrámos, ainda desconfiados que algo não batia certo, que provavelmente fosse uma falsa partida ou que tivéssemos compreendido errado devido à barreira linguística, mas não, o autocarro partiu mesmo daí a minutos e então é que ficámos deveras desconfiados!

 

Num ambiente muito calmo (tirando o condutor com os seus tiques de piloto de Fórmula 1 sofrendo de taquicardia), com os cinco sírios sentadinhos lá no fundo e nós os dois meio sonolentos, depressa demos por nós no posto de controlo sírio da fronteira internacional com a Turquia. E tivemos de nos libertar da sonolência para lutar pela sobrevivência, quando o motor do autocarro foi desligado e nos avisaram que era preciso ir tratar de um visto de saída que teria de ser pago!

 

Deslocámo-nos até ao primeiro guiché que encontrámos, cientes que tínhamos gasto as últimas libras em pêssegos e água minutos antes de termos apanhado o autocarro e que, portanto, a negociação para obter o visto não iria ser fácil. No guiché o funcionário pede-nos 500 libras sírias por pessoa, nós tínhamos apenas 2 ou 3 moedas, além de notas de liras turcas e notas de 10 e 20€. Como não queríamos ficar a perder dinheiro pagando em euros tentámos usar a habilidade do regateio, que tão constantemente nos foi exigida nas 2 semanas passadas no país, e oferecemos 10 euros (700 libras sírias) pelos 2 vistos, rezando que ele aceitasse para não termos de ir para o fim de uma das infinitas filas de espera das casas de câmbio no lado oposto da rua. Nada feito, como é óbvio (agora), vistos não se regateiam e portanto tivemos mesmo de escolher uma fila de câmbio e apostar na paciência, o que contrastava com estado enervado e apressado do condutor do autocarro em que viajávamos. Este, quando nos viu lá na fila veio-nos perguntar grosseiramente “que raio estão vocês a fazer, não tenho tempo para estas coisas!”. Ah, eu lá fui explicando o óbvio, que não tendo suficientes libras tinha de trocar dinheiro de forma a passar a tê-las! E que sem elas não poderia reembarcar no seu autocarro e sair do país! Ele arranca-me o dinheiro da mão e pediu ao rapaz do guiché que me desse 500 libras e o resto em dólares! Eu ripostei-lhe: “mas que filme, a mim e ao Diogo, portugueses de partida para Turquia, interessa-nos euros ou liras turcas, agora dólares? Pois claro que não!” Recuperei o meu dinheiro das mãos do motorista e este afastou-se praguejando impacientemente enquanto nós voltámos à negociação impossível. O rapaz não queria de todo dar-nos 500 libras e o resto em euros ou liras turcas (que tinha na mesa), e nós lá nos decidimos aceitar trocar a totalidade do valor da nota para libras sírias. Estabelecida à força a moeda de câmbio faltava tratar da taxa de câmbio. O funcionário do guiché propôs-me uma taxa tão absurdamente baixa que eu simplesmente virei-lhe as costas praguejando em português. O Diogo, mais tímido mas em contrapartida de temperamento mais calmo retomou a árdua tarefa de trocar o dinheiro e, cedendo no valor da taxa de cãmbio, chegou quase a um acordo. Já se preparava para pegar nas libras quando, ao exigir o recibo da transacção, o funcionário devolve-lhe os euros e diz-lhe para ir procurar outra casa de câmbio que ali “só trabalhavam com motoristas e camionistas”! Além daquela casa havia outras duas, mas só de olhar para o tamanho das filas nas quais teríamos de esperar e desesperar de novo, e vendo as batalhas de argumentos que proliferavam também entre os funcionários desses dois guichés e outros viajantes locais em busca de libras, engolimos todo o orgulho que tínhamos e voltámos ao nosso guiché ignorando a fila correspondente. Nada feito, o rapaz já nem queria falar connosco. Ouvindo a confusão um senhor de meia-idade com enorme maço de notas nas mãos veio propor-nos que trocássemos dinheiro com ele, mas quando nos informou que nos dava 1200 libras sírias por 20 euros que valiam no momento 1444 libras mandámos o senhor ir dar uma volta. Ele insistiu que a taxa estava “certa, certíssima”, a que eu respondi apontando para o painel electrónico da casa de câmbio onde se podia ler “1 € = 72,2 lb”. Ele defendeu-se afirmando que a taxa no monitor era antiga a que eu respondi informando-lhe que duas semanas antes, aquando da nossa chegada à Síria, a taxa cambial era de 70,5 lb e que nesse espaço de tempo seria absurdo que ocorresse uma descida tão abrupta. O senhor lá se convenceu de que nós conhecíamos o valor real da taxa de câmbio e então, como é exigido culturalmente por aquelas paragens, regateámos o valor da taxa até chegarmos a um acordo no valor óbvio: a média entre os dois valores inicialmente negociados!

 

Toda esta balbúrdia cambial tinha sido apenas o aquecimento para o que estaria para vir: qual injecção de adrenalina para nos libertar da profunda sonolência de que éramos portadores desde que saíramos do hotel e para nos preparar para o verdadeiro filme que viria a tomar lugar daí a pouco.

 

Quando regressámos ao autocarro os restantes passageiros já se encontravam ordeiramente sentados, esperando para partir, enquanto que o motorista e o seu ajudante (o “pica”) distribuíam caixotes de papelão por baixo de cada assento ocupado e umas pequenas caixinhas de cartão nas prateleiras por cima de cada passageiro, incluindo eu e o Diogo. Já depois do autocarro arrancar o ajudante veio ter connosco com um saco de plástico preto do qual retirou volumes de dez maços de tabaco e entregou três volumes a cada passageiro (máximo permitido por pessoa à entrada na Turquia! Tráfico de tabaco e sabe-se lá que mais!?! Mmmm, eu e o Diogo recusámos segurar nos volumes e, além do mais, pontapeámos os caixotes para os bancos da frente e afastámos também as caixas de papel guardadas por cima de nós. Traficar tudo bem (ou tudo mal), mas não contassem connosco para passar o risco de cometer ilegalidades na fronteira sírio-turca, ainda mais em circunstâncias nas quais teríamos tudo a perder e nada a ganhar (ao passar a mercadoria pela fronteira, o lucro para nós seria zero, pois claro)! Pouco depois de termos despachado a mercadoria para longe de nós, o ajudante voltou para repô-las onde as tinha colocado, a que nós respondemos imediatamente com mais 2 pontapés nos caixotes que os afastaram dois bancos para a frente. E fizemos questão que ele visse o acto, de forma a perceber a nossa posição em relação ao assunto, dada a clara impossibilidade de explicar por palavras o nosso desacordo em participar na sua façanha contrabandista. Quanto ao turcos que seguiam, permitiram todos mansamente (e ingenuamente diria eu) a presença das caixas e dos caixotes na sua proximidade e aceitaram inclusive segurar em três volumes cada. Até o miudinho enfezado que viajava com os pais atabalhoadamente segurava os “seus 3 volumes de tabaco”, mal conseguindo enxergar o que se passava à sua frente.

 

Pouco minutos depois, já no posto de controlo turco, o autocarro foi de novo desligado e as autoridades turcas convidaram-nos a evacuar o veículo para inspecção. Vendo o ajudante regressar à parte detrás do autocarro, deixámo-nos ficar um pouco mais para ver o que ele se preparava para engendrar. Ah, pois claro, tinha voltado para colocar os sinistros caixotes e um saco de plástico com volumes de tabaco debaixo dos nossos assentos! Nós insistimos e explicámos pacientemente que eles podiam fazer o que lhes apetecesse com a sua mercadoria que nós não tínhamos rigorosamente nada a ver com o assunto mas que, por outro lado, de forma alguma permitiríamos que a colocassem por debaixo dos nossos lugares. O pobre rapaz lá aquiesceu e saímos todos do autocarro.

 

Fora do autocarro iam já avançados os preparativos para o cenário do filme: enquanto um bando de autoridades fronteiriças desmanchavam completamente as malas dos passageiros turcos criando um monte de trapos no chão, o nosso motorista preparava-se para subornar o responsável da fronteira com… três garrafas de água! E logo que responsável! Viram o filme norte-americano Traffic? Aquele que chega uma parte em que um militar corrupto se encontra ao ar livre escorrendo suor sentado na sua cadeira com uma mesa de escritório na sua frente? E com os capangas em seu redor protegendo-o enquanto ele interroga não sei quem? Acrescente-se um guarda abanando um leque junto à cabeça do responsável e um motorista de autocarro tropeçando nas suas próprias pernas e nas suas próprias palavras e temos o filme da fronteira sírio-turca. Enquanto a infeliz cena de suborno se desenrolava (ao menos oferecesse uma garrafa de uísque, não!?!) eu e o meu colega Diogo tínhamos já voluntariamente oferecido as nossas malas a um dos guardas para que ele as inspeccionasse mas este, sorrindo divertido e acenando “não” com o dedo indicador respondeu-nos “not you”, e deixou-nos entregues à condição de espectadores do espectáculo ainda a decorrer. Um dos seus colegas tinha encontrado demasiados volumes dentro de uma mala de viagem de um passageiro turco, mas depressa o “pica” (e não o passageiro dono dessa mala, note-se!) veio mostrar 3 passaportes explicando que o tabaco pertenceria aos vários membros daquela família. Entre muita discussão e confusa negociação, os volumes de tabaco acabaram por ser todos permitidos e os passageiros receberam ordens para refazer as suas malas. Junto à mesa das negociações o processo continuava emperrado, julgávamos nós, pela avarenta hesitação do nosso motorista em desembolsar um bom suborno e pela sorridente ganância do responsável que mastigava, provocante e de forma exagerada, a sua pastilha elástica, protegido detrás de uns opacos óculos-de-sol. Nenhum cedia, nada mudava, e nós perdíamos já a paciência com a seca que nos estavam a impor. Se alguns metros atrás, extremamente impaciente, o motorista tinha por várias vezes ameaçado de nos deixar para trás se não nos despachássemos a trocar dinheiro e pagar o visto de saída, agora parecia se ter esquecido completamente da pressa que o dominara antes. Qual personagem principal da BBC Vida Selvagem, o raio do homem fazia como aqueles animais (sem o saber) passam horas sendo filmados na sua inacção, desesperando realizadores e técnicos até que finalmente, quando já ninguém acredita que se obterá material de valor para o documentário naquele dia, a presa lá tira umas notas do bolso e o predador deixa-a escapar para a segurança do assento de condutor do autocarro… tava difícil!

 

Voltou ao volante mas ainda não lhe tinha passado a tensão, o homem escorria de suor que nem uma cascata e agora dava mesmo mostras de estar à beira de um ataque cardíaco. Ainda assim, ligou o motor e fez-se á estrada. Poucos minutos depois travava a fundo sem aparente razão, no meio do deserto, o que nos levou a pensar que lhe tinha acontecido alguma coisa, que tivesse sucumbido ao stress da operação! Pelo contrário, tinha parado com uma bruta precisão o autocarro junto a uma carrinha de caixa fechada vermelha estacionada na berma da estrada da qual saíram dois brutamontes encapuçados que entraram no autocarro com grandes sacos de plástico preto e que em poucos segundos recolheram caixas, caixotes e volumes de tabaco, desaparecendo depois a alta velocidade pelo deserto deixando uma imensa nuvem de terra batida para trás! Finalmente o motorista e também o “pica” respiravam profundamente procurando desacelerar o alucinante ritmo cardíaco da última hora. Sem dúvida que a carrinha vermelha e os seus tripulantes faziam parte do esquema e que, levando a mercadoria com eles, tinham posto fim à tarefa dos nossos companheiros de autocarro.

 

O autocarro não chega a andar 3 km quando nos aparece à frente uma carrinha militar turca que ordena o motorista a parar e abrir as portas para uma inspecção exaustiva. Já não havia stress entre o piloto e co-piloto. Agora, de forma provocadora, até mandavam piadas e riam-se descaradamente enquanto os militares, broncos, olhavam aparvalhados para as folhas dos nossos passaportes. Vasculharam o autocarro de ponta a ponta, até uma tampa no corredor do autocarro dando acesso ao motor abriram perdendo imenso tempo. Cumpriram, oficialmente, todos os seus deveres de caça ao tráfico naquele autocarro mas, por outro, não cumpriram rigorosamente nada visto terem chegado tarde demais, por uma questão de minutos, por uma distância de 3 km. Por acaso, por azar? Ou antes porque assim estaria programado, combinado? Não cheguei a perceber na altura e ainda hoje não sei. Não sei se tudo não terá sido um filme muito bem encenado, e não faço a mínima ideia acerca do que viajava dentro das enigmáticas caixas, caixotes e caixinhas…

Luís Garcia, 30.09.215, Lampang, Tailândia

 

 

 

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