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Pensamentos Nómadas

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Operação Mali - parte 3, Luís Garcia

 

 

Bandeira de Azauade

Luís Garcia POLITICA    

 

FRANÇA, ESTADO COLONIAL

Em Abril,  quando os extremistas do Ansar Dine anunciavam a aplicação da lei islâmica em Tumbuctu, a França declarou que poderia oferecer apoio logístico contra os rebeldes, sobretudo as facções ligadas à Al Qaeda.(6) Pois claro, muito convenientemente, a França, cujas forças militares  já se encontravam secretamente no Mali, anunciava o seu repudio contra as acções dos rebeldes extremistas, sem nunca antes se ter pronunciado sobre as legítimas acções dos rebeldes seculares, os tuaregues do MNLA. Aliás, nunca admitiram sequer que o MNLA existisse. O facto de forças francesas estarem secretamente no Mali desde a independência de Azauade obtida pelo MNLA, mas oficialmente apenas terem chegado dias antes do início da invasão francesa de Azauade, mostra que a França sabia muito bem o que estaria por acontecer e que ajudou a acontecer patrocinando extremistas provenientes da Líbia e da Síria. A França (e EUA e resto da cowboyada ocidental) cria grupos terroristas ocidentais e manda-os invadir o Azauade  tuaregue, uma perfeita false flag operation legitimando a invasão francesa para combater "rebeldes" em geral, em nome da ordem internacional e protegida pelo falacioso argumento de ingerência humanitária, para na realidade (omitida nos media ocidentais) destruir o estado Azauade e restitui-lo ao poder central do Mali, o qual é desde à muito fiel instrumento do colonialismo económico francês no pais. Poder corrupto que docilmente tem reencaminhado desde à décadas os seus recursos naturais (e dos tuaregues do norte) para a metrópole europeia.

 

Sem querer desviar muito do tema, relato-vos um acontecimento que na altura me intrigou mas que agora faz todo o sentido. Estava eu, em Maio de 2012, trabalhando durante 2 semanas nas vinhas de Champanhe de um amigo meu francês ex-militar, quando movimentos anormais de caças franceses se desenrolavam a um ritmo alucinante nos céus desta região gaulesa. Várias vezes ao dia, caças Mirage sobrevoavam as vinhas a uma altitude  extremamente baixa e perigosa, suficientemente perto do solo para se ver as caras dos pilotos pese embora as vertiginosas velocidades. A questão é a seguinte: por que raio estariam os pilotos da força aérea francesa fazendo arriscadíssimas manobras que apenas se efectivam em situações de guerra (vôos de baixa altitude para evitar a detecção por parte dos radares inimigos) ou em ensaios finais para uma guerra? Simples a resposta, preparavam-se de facto para invadir alguém. Mas quem? Eu na minha inocência acreditava piamente que o alvo do imperialismo bélico seria a Síria. Perguntei várias vezes ao meu patrão e amigo o que pensava/sabia sobre o assunto, sabendo ter ele contactos privilegiados com patentes altas das forças francesas, e obtendo quase sempre como resposta: "sabes que não posso falar sobre isso com civis, ainda mais com anarquistas como tu". Mas um dia, após incessantes tentativas para que ele me confirmasse a eminente invasão da Síria ele respondeu-me que "não é isso, mas é quase". Palavras enigmáticas que para mim soaram na altura a desconversa, mas que hoje fazem todo o sentido: Mali!

 

E sim, agora, inícios de 2013, vivíamos num mundo em que Azauade (região separatista do norte do Mali) já não era controlada pelos tuaregues, mas sim pelos conjunto de grupos extremistas ligados à Al Qaeda e patrocinados pelo ocidente. Mais, esses grupos vinham cometendo desde há meses actos de barbárie contra as populações tuaregues, contra as populações negras e contra o riquíssimo património da humanidade situado no Mali. Como complemento tínhamos o terrorismo mediático ocidental misturando rebeldes tuaregues e a sua legítima causa com o terrorismo dos grupos extremistas de mercenários estrangeiros, destruindo por completo a imagem da revolução independentista de Azauade e eliminando quaisquer resquícios de empatia para com esta por entre a sociedade ocidental mal informada e orwellianamente orientada. Faltava apenas um factor de ignição para legitimar a planeada invasão francesa.

 

Esse factor, programado digo eu, ocorreu no dia 10 de janeiro de 2013, quando extremistas do Movimento para a União da Jihad na África Ocidental (MUJAO) atacaram e capturaram a estratégica cidade de Konna, situada na região fronteiriça entre o Mali e o novo estado de Azauade. Ao contrário dos verdadeiros revolucionários independentistas tuaregues (MNLA) que criaram o novo estado na região norte habitada pelos seus povos e que prometeram respeitar todas as fronteira internacionais a partir da sua independência,  os grupos extremistas que lhes roubaram Azauade decidiram avançar para além das fronteira de Azauade, invadindo uma cidade malinesa, simbolicamente ameaçando todo o Mali negro (do sul). No dia seguinte, implementado já o seu Pearl Harbor, tropas francesas lançaram "do nada" a e começaram a atacar forças extremistas simultaneamente em várias zonas de Azauade separadas entre si por centenas de quilómetros. O joguete do François Hollande lá desculpou-se dizendo que tal tinha sido possível por terem enviado tropas francesas estacionadas no Chade (além das provenientes da França continental). Tretas, um invasão desta envergadura não se prepara durante uma noite. Há meses que estava sendo preparada, e tem sido revelada por jornalistas do contra trabalhando no Mali e em Azauade, embora censurada pelos media franceses e ocidentais.

  • Os raides aéreos desferidos pelos caças franceses em pelo menos 6 zonas alvo largamente dispersas dentro do território malinês cobriram uma distância operacional de quase 2000 km, de leste a oeste. Este nível de coordenação indica várias semanas de planeamento e desmente o facto de que aparentemente o governo francês estivesse respondendo inesperadamente a um súbito pedido de assistência por parte das autoridades malinesas subservientes a Paris. (7)
  • A rapidez com a qual foi lançada a operação, oficialmente para proteger o Mali dos avanços rebeldes islamistas, demonstra que esta tinha sido planificada desde há muito pelo socialista François Hollande. A colaboração imediata dos EUA e da União Europeia, que decidiu enviar para o Mali especialistas de guerra com funções de treino e de comando, demonstra que a operação teria sido planificada conjuntamente com Washington, Paris, Londres e várias outras capitais. (8)

 

Após 3 semanas de combates manchados por relatos de crimes de guerra efectuados pelas tropas malinesas e com a complacência das tropas francesas, François Hollande, a 2 de Fevereiro, anunciava para todas as televisões do mundo que a reconquista tinha sido efectuada. Hollande discursava a partir de Bamako, capital da sua colónia malinesa, rodeado por uma orgia de abraços e festejos das populações negras do sul que os pivôs de TV tanto enalteceram sem no entanto explicar que se o mesmo Hollande se encontrasse no norte por entre as populações tuaregues que ele ajudou a roubar, não teria durado vivo mais que 1 minuto! E era o que merecia esse mercenário-terrorista! Hollande, todo inchado, informava o mundo sobre a retirada antecipada das forças francesas que seriam substituídas por tropas dos restantes estados vassalos da África Ocidental (CEDEAO). Podem esperar o pior agora as populações tuaregues, dada a prometida invasão de tropas negras dos países vizinhos. Durante todo o seu infame discurso não fez nunca referência à condição das populações tuaregues do norte e do seu estado de Azauade nado-morto, muito menos prometendo vir devolver-lhes o seu país. Pois claro que não, o discurso de Hollande apenas serviu para provar o contrário, que a França foi o elemento principal na sabotagem do estado de Azauade, instituindo o regresso ao status quo, e assegurando a continuidade de urânio para as centrais nucleares francesas e ouro para as reservas ocidentais particularmente importantes na actual conjuntura de guerra económica mundial em torno do mineral precioso. E depois, fica tão bem fazer o que ele fez, passar a imagem de líder de um país civilizado que não invade ninguém, antes opera acções humanitárias e beatamente protege património mundial da humanidade.

 

Tudo bem, os recursos estratégicos do Mali e de Azauade continuarão num futuro próximo a ser propriedade do capitalismo que paga a vida do presidente francês mas, por outro lado, pavimenta-se a instabilidade social intramuros, digo eu. Com um exército profissional gaulês minado de magrebinos muçulmanos descontentes com o colonialismo francês no norte-de-África, mais o crescente clima de animosidade xenófoba entre franceses magrebinos e franceses europeus, a França arrisca-se a ser vítima da sua própria ingerência, e se à festa se unirem mercenários árabes treinados e pagos pela França para destruir Líbia, Síria e Azauade, a curto ou médio prazo poderá a própria França continental a ser palco de conflitos ou mesmo de uma guerra civil.

 

REACÇÃO NA ÁFRICA OCIDENTAL E NO OCIDENTE

A reacção dos povos tuaregues do Mali e países vizinhos não foi boa pois claro, foi péssima. Viram cair por terra o sonho centenário de um país tuaregue independente e internacionalmente reconhecido, e temem as represálias das populações/tropas não tuaregues que regem o Mali. Ainda mais que este têm agora apoio militar de vários outros estados vizinhos (Nigéria, Senegal, Gana, Burquina Faso, Níger, Togo, Benim e Guiné) para levar a cabo a recolonização de Azauade. No entanto, para os media ocidentais, parece que os tuaregues, principais visados neste conflitos, não têm opinião a dar, nem tampouco parecem existir. Ah, orwellianos media!

 

Quanto aos países da África ocidental acima referidos, ou melhor, quanto às elites pouco democráticas subservientes do Ocidente, já enviaram um total de 3500 tropas para o Mali e são claramente parte interessadas no status quo já mencionado. A ocidente, após os primeiros dias de teatralizadas estupefacção e cepticismo para com a "inesperada" intervenção militar francesa, e convenientemente desligada a atenção mediática ocidental, vários países apoiam oficialmente a França com meios logísticos (EUA, Canadá, Bélgica, Dinamarca, Espanha e Reino Unido). Não oficialmente, fora o que não sabemos, encontram-se garantidamente desde dia 29 de Janeiro forças especiais de intervenção do Reino Unido no norte do Mali assegurando o sucesso das operações dos exércitos do Mali e da França.

 

O JOGUETE "ISLAMISTA"

Islamistas, mercenários internacionais criados e manobrados pelo ocidente eram apresentados pelos nossos meios de comunicação como boa gente na Líbia, rotulados infamemente de "freedom fighters". Na Síria, foram vendidos mediaticamente como ajuda essencial aos rebeldes lutando pela "liberdade". Quando se perdeu o controlo do Frankenstein e o feitiço virou-se contra o feiticeiro assassinando o embaixador dos EUA na neo-colónia líbia, os nossos media conseguiram arranjar forma de televisar estes mercenários como não sendo assim tão boa gente. Quando parte deles, tuaregues de origem, se resolveram voltar para casa e reacender a sua luta histórica pela independência de Azauade criando o MNLA, subitamente estes senhores eram monstros de 7 cabeças, infames e maléficos terroristas. Já para não falar desses mercenários instalados na Líbia e na Síria que receberam dos seus patrões ocidentais a nova missão de conquistar Azauade aos tuaregues do MNLA e espalhar o terror, quais joguetes mercenários nas mãos do ocidente para legitimar a invasão francesa. Estes por missão e por definição têm de ser (e são) terroristas para mostrar na TV. Islamista é portanto aquela ferramenta de evasiva e polifórmica     definição ao serviço do colonisalismo ocidental no Médio-Oriente e Norte de África.

 

EXEMPLOS PERFEITOS DE PROPAGANDA

1 - Um que deu vontade de rir foi me relatado por um amiga francesa que me informou sobre o alegado esgotamento de bandeiras francesas nas lojas malinesas, tamanha teria sido a corrida por parte dos malineses a esse tricolor símbolo da Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Mesmo que fosse possível tal acontecer, só poderia ter tido lugar no sul do Mali negro que perdera recentemente o norte (Azauade) para os tuaregues. E, consequentemente, nunca poderia ter sido resultado da compra desenfreada de bandeiras francesas por parte de tuaregues que viram nos últimos dias as forças militares francesas concluírem a destruição do seu sonho independentista. Portanto, mentira descarada ou filtragem manipuladora de informação, os media franceses não informaram, antes fizeram propaganda pró invasão francesa do Mali. Nada de novo debaixo do sol...

 

2 - Nas TV's de todo o mundo foram mostradas tropas francesas sendo recebidas de braços abertos pelas gentes do Mali. Uma vez mais, quais gentes!?! Negras do sul, ou tuaregues do norte? Como já perceberam pelo que leram acima, faz toda a diferença.

 

3 - A Al Jazeera, frente de combate no mundo árabe da propaganda ocidental, lembrou-se de fazer um inquérito no Mali através de mensagens SMS. A pergunta enviada foi: "A Al Jazeera quer saber: Julga que a França deveria ter intervido no norte do Mali? E porquê? Obrigado por responder para o número 63845887, indicando a sua cidade e o primeiro nome." Eu não dou muito crédito a "informações" avançadas pela Al Jazeera mas, partindo do princípio que são 100 % correctos os resultados da sondagem, e que não houve qualquer tipo de manipulação, contudo, as condições em que se realizou o inquérito, levantam várias questões pertinentes.

 

Segundo os dados finais avançados pela cadeia de TV, a esmagadora maioria dos malineses que participaram no inquérito estariam a favor da invasão francesa. As principais razões: gratidão, luta anti-terrorismo, necessidade, segurança, estabilidade. Por outro lado, apenas 4% dos SMS enviados sugeriam sentimentos anti-intervenção.

 

Numa visão simplista, este inquérito poderá passar a ideia que de facto a maioria dos malineses concordam com a ingerência francesa e que a França realizou algo de verdadeiramente louvável. Mas não, é impossível fazer este tipo de conclusões  que a Al Jazeera laboriosamente nos tentou impingir. Senão vejamos, para começar não se pode fazer um inquérito sobre um conflito inter-étnico tendo como inquiridos o próprio conjunto de xadrez étnico, pois no limite as percentagens de cada resposta representarão os interesses e posições relativas de cada etnia no conflito em questão. No caso do Mali, se apenas 10% da população total é tuaregue, não se poderia jamais esperar mais que 10% de respostas anti-intervencionismo, pois a França interveio para destruir a revolução tuaregue e entregar a região Azauade de volta às mãos da maioria do sul. Depois, é impensável que os resultados finais representassem as proporções correctas entre tuaregues e restantes malineses, uma vez que uma miríade de factores afectavam negativamente a possibilidade de tuaregues responderem ao inquérito: a sua região destruída por um ano de guerra, milhares de tuaregues refugiados ou deslocados, região tuaregue ocupada pelos terroristas do Ansar Dine, AQMI e MUJAO, aplicação abusiva da sharia impedindo o acesso a meios de comunicação como já antes referi, entre outros factores mais. Concluindo, o que me espanta é que a percentagem anti-intervencionismo tenha sido tão alta, 4% e não 0%, o que me leva a querer que mesmo por entre os restantes grupos étnicos do Mali, houve quem corajosamente tenha votado a favor da causa tuaregue. Portanto, elementar propaganda, sem o mínimo de sentido ou justeza...  mas fica aqui o link para o inquérito: Interactive: Mali Speaks.

 

2 PERGUNTAS, 2 RESPOSTAS

O  Sudão do Sul pôde se tornar independente, para quê? Para facilitar o acesso do ocidente ao petróleo sudanês.

 

O artificial estado do Mali, inventado pelo ocidente, não pode perder a sua região norte (Azauade) para um novo estado independente do povo tuaregue, porquê? Porque o status quo, ou seja, a totalidade do Mali continuar a ser governada por Bamako possibilita a continuidade do colonialismo económico ocidental, permite o roubo de ouro enviado para o ocidente, garante o abastecimento das centrais nucleares francesas com urânio, e por aí fora...

 

Notas

 

Referências

  • Estes são os principais artigos usados para a construção deste meu artigo, mas muitos outros  lidos na imprensa online portuguesa e estrangeira não ficam aqui referenciados, assim como não serão referenciados programas noticiosos visionados em canais como a Russia Today, a PressTV, a HispanTV, a Telesur e canais mainstream ocidentais. 

 

Luís Garcia, Ribamar, Portugal, 05.02.2013

 

 
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