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Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

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Operação Mali - parte 2, Luís Garcia

 

 

Bandeira de Azauade

Luís Garcia POLITICA    

 

CONFLITO ENTRE MNLA E ANSAR DINE

Abril 2012 - Poucos dias antes do MNLA proclamar a independência do novo estado tuaregue e uma vez que controlava já a  maior parte da região norte do Mali (Azauade), o movimento recebeu o apoio de outro grupo armado tuaregue pró-independentista, o Ansar Dine, movimento de raiz islâmica liderado pelo antigo herói das rebeliões tuaregues no Mali nos anos 80, Ag Ghaly. A 2 de Abril de 2012, 4 dias antes da independência de Azauade, foi o próprio Ag Ghaly que liderou os seus homens na conquista de Tumbuctu contra o exército Mali.

 

Um dia antes da independência, a 5 de Abril, começam os primeiros atritos entre MNLA e o seu recente aliado Ansar Dine. A divisão foi e é ideológica, se o MNLA é um movimento secular tuaregue cuja ambição resume-se à independência do seus povo, o Ansar Dine é um movimento profundamente islâmico que à frente da independência de Azauade coloca a importância de impor a fé islâmica e implementar a Sharia por todo o Mali (e países vizinhos se possível). Como se não bastasse entram nesta altura em acção dois outros suspeitosos grupos. Um é a AlQaeda no Magreb Islâmico (AQMI), cavalo de Tróia da CIA sediado na Argélia, financiado por tráficos de armas e droga, e que tem servido nos últimos anos os interesses do ocidente, ora como agente destabilizador ora como bode expiatório para posteriores ingerências ocidentais. Neste caso da independência de Azauade serviu os 2 propósitos.  O outro player é  o Movimento para a União e a Jihad na África Ocidental (MUJAO), grupo ultra-extremista dissidente do Ansar Dine, que se financia e opera de forma semelhante à Al Qaida no Magreb Islâmico, fazendo suspeitar que seja mais uma carta do baralho da ingerência dos EUA e seus aliados no mundo árabe.

 

Ora são precisamente membros destes 2 grupos externos à legítima causa independentista tuaregue que provocam atritos entre o MNLA e o extremista  Ansar Dine no dia 5 de Abril, ao entrarem no consulado argelino em Gao e tomarem reféns 7 funcionários. Um dia antes de proclamar a independência do seu país, a última coisa que poderia querer o MNLA seria criar um conflito internacional com a vizinha Argélia. Daí que, segundo conta o seu porta-voz Hama Ag Sid'Hamed, terá feito um ultimato ao Ansar Dine e aos seus grupos aliados para abandonarem Tumbuctu num prazo de 24 horas. Estalava então o conflito entre o racional MNLA e os 3 grupos extremistas que se tinham aliado prometendo ajuda à causa independentista mas que começavam a mostrar que lá estavam a mando de alguém para provocar o oposto, a sabotagem desse movimento legítimo de libertação tuaregue.  Com serenidade, o MNLA logrou negociar a libertação dos reféns argelinos em colaboração com a Argélia, obrigando o líder do Ansar Dine a ceder no dia 8 de Abril. Em Tumbuctu, os extremistas do Ansar Dine anunciavam a aplicação da lei islâmica e ordenaram o corte da mão de ladrões em público. (4)

 

Nesta altura mais um grupo extremista é criado por um desertor do Exército Mali Housseine Khoulam, a FNLA (Frente Nacional de Libertação de Azauade), cujos membros são de origem árabe. De Gao chegam notícias sobre a presença de  membros de mais um grupo extremista, o nigeriano Boko Haram (figurativamente, "a educação ocidental ou não-islâmica é um pecado") (5)

 

 

A MNLA e a sua causa independentista via-se agora ameaçada por 4 grupos extremistas muçulmanos, não só pelos possíveis confrontos militares e perdas territoriais que poderiam vir a sofrer, mas também porque daí em diante todo o barbarismo destes grupos seria publicitado nos media ocidentais e apresentados os seus membros como os únicos rebeldes da revolução no norte do Mali, confundido metodicamente a opinião pública ocidental, e censurando-lhe a informação sobre a verdadeira revolução Tuaregue. Tudo estava sendo encaminhado para tornar possível o golpe final, ou seja, legitimar mediaticamente uma invasão francesa e destruir o sonho tuaregue de ter um país independente.

 

Maio 2012 - E o que era um suposição transformou-se numa realidade, os grupos extremistas estava lá para destruir a independência obtida pelos tuaregues do MNLA e os media e organizações ocidentais lá estavam como sempre para desinformar e envenenar a imagem dos rebeldes tuaregues. Senão veja-se, a 4 de Maio, o MNLA envolve-se em confrontos com supostos manifestantes pró-Ansar Dine, e no dia 5, a Amnistia internacional (AI) "informa" o mundo que estão a ocorrer combates entre o MNLA e o Ansar na região separatista do norte do Mali assim como "assegurando" a existência de inúmeros casos de violações em grupo, execuções extra-judiciais e o uso de soldados-crianças "quer pelos tuaregues quer pelos extremistas do Ansar Dine e companhia". Documenta inclusive com imagens, mas não podendo provar quem fez o quê, a AI acaba por fazer o que há muito é perita: confundir e desinformar. Vejamos a lógica. Se entre rebeldes tuaregues que obtiveram o controlo de Azauade e que declararam a sua independência, uma parte tivesse invadido o sul do Mali, seria credível que cometessem este tipo de actos muitíssimo condenáveis contra as populações negras inimigas. Mas quando estes mesmos actos condenáveis ocorrem na região por eles libertada, onde vive o seu próprio povo agora festejando a recente independência, e onde se encontram grupos extremistas secretamente preparados pela França e os EUA para sabotar o sucesso tuaregue (Ansar Dine, AQMI, MUJAO), grupos esses que se encontram em conflito com os tuaregues do MNLA e que lhes conquistam territórios e que impõem draconianas leis e proibições aos habitantes locais tuaregues, é lógico, muito lógico que esses tuaregues civis tenham sido vítimas de represálias dos grupos extremistas por não seguirem as suas imposições, e não vítimas dos tuaregues militares e rebeldes (MNLA) que haviam conquistado um mês antes a independência do novo pais tuaregue (Azauade). A AI destrói portanto a imagem da revolução tuaregue aqui no ocidente, confundindo e dizendo apenas a "verdade" que lhes convém" e, portanto, mais não são que um orgão de terrorismo mediático complementar ao terrorismo armado de AlQaedas e companhia.

 

Junho 2012 - No início do mês, o Presidente do Níger, Mahamadou Issoufou, ia avisando que jihadistas afegãos e paquistaneses se encontravam em Azauade treinando os grupos extremistas ligados à AlQaeda. No dia 6 de Junho 500 habitantes de Kidal, na sua maioria mulheres e crianças, protestam contra a imposição da Sharia pelos invasores extremistas e reafirmam o seu apoio ao MNLA, mas os protestos duram pouco e são violentamente  reprimidos pelo Ansar Dine. No dia 8 de Junho começam-se confrontos com armamento pesado entre o MNLA e o Ansar Dine, assim como a luta por obter o apoio de tribos tuaregues por ambas as facções deste novo conflito. A 25 de Junho iniciam-se os combates entre o MNLA e os extremistas do MUJAO em Gao, a capital do novo país, e que resultam na captura por parte do MUJAO do Palácio do Governo de Azauade, da residência do secretário geral do MNLA (Bilal Ag Acherif) e de 40 combatentes do MNLA. Nenhum destes eventos foi explicado nos media ocidentais, ninguém televisou na Europa ou EUA imagens dos protestos de tuaregues civis apoiando o MNLA e protestando contra os abusos dos grupos extremistas.

 

Agosto 2012 - Depois de 3 meses de duros combates nos quais os tuaregues seculares do MNLA foram perdendo pouco a pouco o controlo do seu novo país, no fim de Agosto, chega a vez cair Douentza, o último bastião tuaregue, e a partir desse momento o recém nascido Estado de Azauade encontra-se completamente ocupado pelos grupos extremistas do Ansar Deni, AQMI e MUJAO, que é como quem diz, inteiramente ocupado pelo Cavalo de Tróia ocidental. Depois de Líbia e Síria, a vítima seguinte do imperialismo económico ocidental era o recém nascido Azauade, que durou menos de 5 meses. Para durar estava ainda a trafulhice ocidental, destruído o sonho tuaregue, faltava ainda destruir os extremistas islâmicos que impunham já a sharia e leis draconianas sobre as populações tuaregues e as populações negras do Mali, além de barbaridades contra o património cultural da humanidade, desempenhando agora o papel de um "Pearl Harbor cultural" que viria mais tarde a ser  um dos motivos oficiais para a França invadir Azauade, pese embora já lá estivesse há meses.

 

TERRORISMO CULTURAL DOS EXTREMISTAS

A 4 de Maio em Tumbuctu extremistas do Ansar Dine incendeiam a tumba de um santo sufi, lugar classificado como Patromónio da Humanidade.  A 15 de Maio  o mesmo grupo impediu que ajuda humanitária com comida e medicamentos chegasse aos seus destinatários em Tumbuctu, alegadamente devido à presença de mulheres no comité de boas vindas tuaregues que desesperadamente esperavam a dita ajuda. Na Mesma altura em Gao, o grupo Ansar Dine proibia os bares, os videojogos, o futebol, e a música malinesa e ocidental.

 

A partir de 30 Junho extremistas do Ansar Dine e da AlQaeda no Magrebe Islâmico começam a ignominiosa destruição do mundialmente conhecido património cultural de Tumbuctu. Os peritos temem pela sorte dos 16 mausoléus da cidade e dos milhares de manuscritos pré-islâmicos e medievais ai guardados. O temido acontece no início de Julho quando 7 dos mausoléus, património da humanidade pela UNESCO, foram destruídos por militantes do Ansar Dine. Ignominioso foi também o branqueamento  de informação dos nossos media, mentindo descaradamente, aqui ou em França, acusando de forma simplista "os rebeldes" independentistas de terem sido os autores da descrita destruição. Não! "Os rebeldes" tuaregues do MNLA forma os autores da revolução e independência de Azauade. "Os rebeldes" extremistas na sua maioria estrangeiros do Ansar Dine e da AlQaeda no Magrebe Islâmico foram os autores da destruição do património cultural de Tumbuctu. Uma vez mais o terrorismo mediático abrindo o caminho à aceitação da futura invasão francesa do Mali.

 

Em Agosto, o outro grupo extremista do MUJAO (Movimento para a União e a Jihad na África Ocidental), proibiu a difusão de música "profana" nas rádios privadas existentes em Azauade. Esta e várias outra repreensíveis decisões e acções dos vários grupos extremistas que roubaram Azauade aos tuaregues do MNLA foram sendo transmitidas a um ritmo regular ao longo do ano de 2012 nas TV's, rádio e jornais do Ocidente. Mas insisto no que já disse, nunca no mainstream mediático nos foi explicada a diferença entre estes extremistas destruidores e inquisidores (financiados e treinados na sua maioria pelo Ocidente) dos rebeldes tuaregues autores da independência de Azauade. Diria mais, através desse mainstream mediático nunca nos foi sequer dito que havia mais que um grupo actuando no norte do Mali, muito menos que houvessem conflitos entre os diferentes grupos, muito menos que houvessem profundas diferenças ideológicas e de objectivos. Não, o nosso terrorismo mediático fez-nos crer que era tudo o mesmo, e que eram todos islamistas alucinados, sabotando o mais possível a empatia que pudesse surgir para com a legítima  e antiga causa separatista tuaregue.

 

 

Notas

 

Referências

  • Estes são os principais artigos usados para a construção deste meu artigo, mas muitos outros  lidos na imprensa online portuguesa e estrangeira não ficam aqui referenciados, assim como não serão referenciados programas noticiosos visionados em canais como a Russia Today, a PressTV, a HispanTV, a Telesur e canais mainstream ocidentais. 

 

Luís Garcia, Ribamar, Portugal, 03.02.2013

 

 
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