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Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

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Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

Nelson Nunes – o aldeão na metrópole, por Ricardo Lopes

 

 

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE 

 

Ora bem, este texto refere-se a alguém que, provavelmente, ninguém, ou quase ninguém, conhece. E, ainda bem. Aliás, ainda bem que quase ninguém me conhece também. Só tenho pena que não haja mais pessoas a conhecer a ciência em que me baseio para escrever praticamente todos os meus textos, porque nem fui eu que tive o colossal trabalho de produzir centenas de anos de conhecimento nem o mérito particular de ser um cientista de profissão, apenas de formação. A questão do problema das autoridades e da propriedade intelectual será, provavelmente nos próximos tempos, tema para um texto da minha autoria, porque na era do open-source e da Big Data continuar a ter uma atitude de devoção para com pessoas é ridículo, retrógrado e constitui um grande golpe na progressão da aquisição de conhecimento sobre o mundo em que vivemos (ou o universo, se quiserem) e o desenvolvimento tecnológico.

 

Posto este pequeno aparte introdutório, vou passar a escrever sobre alguém que merece a pena tratar, não devido ao facto de ser uma personalidade particularmente distinta ou influente, mas devido ao protótipo que representa. E pretendo referir-me a este senhor, também porque, mais ou menos, tem tempo de antena na praça pública para andar a debitar as suas contradições e, como interessado em sociologia, aprecio o asseio da praça pública.

 

Nelson Nunes é alguém que escreve para o P3 do Público e, ao que parece, publica livros sobre temas do maior interesse público, como a liberdade que os humoristas podem ter para ofender quem quer que seja.

 

Agora, do que é que ele é o protótipo? É o protótipo do cagão que passa texto atrás de texto a falar acerca daqueles que considera distintas personalidades da praça portuguesa e que conheceu de uma forma mais ou menos pessoal. É o protótipo do cagão que passar texto atrás de texto a referir que lê muito e/ou a quantidade de livros que lê durante um determinado período de tempo. O mesmo faz em relação a outras formas de arte cujo consumo é possível contabilizar. É o protótipo do cagão que pode moralizar quem lhe apetece, pode inclusivamente camuflar insultos a outras pessoas, sem perder a oportunidade para mostrar como ele é que sabe fazer a adequada seleção de tralha para consumir, desde música, a literatura, a filosofia e, se calhar, que sinceramente não me lembro de ver tal coisa, de autores científicos. É o protótipo do menino mimado que pensa ser um grande entendido num assunto por ter lido a primeira coisa que lhe apareceu à frente sobre tal, mas que se nega a admitir erros. É o protótipo do menino mimado que saca de rótulos para toda a gente que comenta algo contra o conteúdo dos seus textos (e não contra a pessoa em si), principalmente “hater”. É o protótipo do egocêntrico que apenas consegue produzir texto que gire em torno de si próprio, dos seus gostos, das suas impressões sobre os mais variados assuntos, que os divulga em praça pública e que não tolera críticas. É o protótipo do egocêntrico para quem tudo o que ele diz, ainda que afete outras pessoas, é válido, mas que bloqueia na sua página de autor quem o afronta diretamente.

 

Bem, vamos seguir para exemplos, até porque cada um deles é bem mais ilustrativo da enumeração de características que fiz do que qualquer explicação que eu possa fazer.

 

O senhor é autor de textos nos quais se apresenta como autoridade máxima na determinação do que é boa ou má arte (aqui, aqui). E os textos linkados são apenas dois exemplos dos momentos típicos de cagão, nos quais Nelson Nunes puxa da soberba e do sticker com a lista de nomes de autores dos quais já leu algo e gostou, e desata a inferiorizar intelectualmente quem aprecia autores (ainda por cima artistas ou filósofos, que são dois dos grandes grupos de ditos intelectuais que vivem de produzir acerca de si próprios e das suas impressões sobre o mundo e as outras pessoas) que ele condena categoricamente como “lixo”, ao mesmo tempo que dá numa de guru para orientar as pessoas para os autores da verdadeira literatura, de acordo com os seus próprios critérios subjetivos e que ninguém conhece, nem interessa conhecer, uma vez que se poderiam trocar por quaisquer outros. Portanto, a Nelson Nunes não interesse aproveitar o facto de ter tempo de antena em praça pública para criticar o conteúdo produzido por pessoas influentes e indicar as suas falhas, ideias perigosas que veiculam, etc. Não, a ele interessa prestar-se ao trabalho de autoridade intelectual, considerando os seus critérios subjetivos como sendo objetivos, e tratando de condenar, de uma forma moralista e paternalista, quem não segue a palavra dos seus messias e não de outros. Aliás, até acaba por ter graça como os artistas não se apercebem que as guerrinhas em que entram uns com os outros são exatamente iguais às guerrinhas em que os teólogos entram, para tentar convencer toda a gente que um livro ficcional é melhor do que outro. E, claro, nesta senda, qual é a melhor estratégia retórica a empregar, e da qual Nelson Nunes se socorre frequentemente? Argumentos de autoridade. Ora, então, vamos lá pegar neste e naquele autores, relembrar as suas ideias, ou uma pequena citação dos próprios, para mostrar que, só por dizem isto, é verdade. O facto de soar bem ao Nelson Nunes coloca o que eles dizem ao nível de conhecimento baseado em evidências que, aliás, é a única forma de conhecimento possível, caso contrário voltamos ao problema das guerrinhas de livrinhos ficcionais, em que é cada um a tentar convencer que o que tem na cabeça se aproxima mais da realidade do que o que os outros têm, por mera via da dialética, ao invés de validar empiricamente o conhecimento. Também por isso é que, não só ele constrói a autoridade das pessoas que refere, através da forma como se refere a elas, como se apresenta a ele próprio como autoridade, por reconhecer e conhecer a autoridade dessas pessoas e por fazer questão de, vez após vez, dizer que privou com determinadas pessoas, leu toda a sua obra e que lê muito e vê muita coisa. Primeiro, constrói-se a própria figura de autoridade, depois tenta-se impingir sobre os outros, e, então, já se pode largar em praça pública tudo aquilo que vem à cabeça e que soa bem como se correspondesse a algo de real.

 

Outro tema recorrente nas crónicas de Nelson Nunes é a morte, o medo que ele tem dela, a explicação desse medo e a forma como lida (ou não) com esse medo. E, porque é que me refiro a este assunto? Porque o menino, tal como disse em algum sítio que não calha agora recordar, usa do humor para lidar com os seus afrontamentos psicológicos em redor da morte. E, é principalmente por isto que, já que determinadas flores de estufa que andam para aí armados em grandes pimpões fazem humor em torno da morte, mas calha que fazem também humor ofensivo sobre grupos sociais compostos por pessoas que são vítimas deste sistema, então tem que se aceitar o pacote completo. O menino aprecia humor negro porque o ajuda a lidar com aquilo que, pelos vistos, nem a arte ajuda (e claro que não ajuda, mas isso é tema para outro texto), e não admite que tentem assear a praça pública do restante humor grunho e ofensivo que os seus adorados ídolos produzem. Mais uma vez, tudo a revolver em torno do próprio, tudo questões de ego.

 

O problema das ofensas, principalmente quando são perpetradas por alguém a quem é dado o privilégio de ocupar espaço na praça pública, é um problema, sim. Mas o Nelson Nunes, tal como faz com outros temas, gosta de enfiar tudo no mesmo saco (gosta de fazer generalizações), porque generalizações são uma boa maneira de branquear ignorância sobre assuntos que são muito mais complexos do que a informação de que dispomos leva a considerar. O problema do politicamente correto não está na condenação aberta de pessoas que influenciam a sociedade em larga escala e que aproveitam esse privilégio para promover formas de comunicação altamente prejudiciais e que, ao invés de contribuírem para a resolução de conflitos e a promoção da comunicação entre pessoas de diferentes grupos sociais – isso, sim, progressista -, contribuem antes para a normalização de formas de expressão que promovem a discórdia e minam a coesão social. O que este senhor também parece não conseguir perceber é que a coesão social não tem nada a ver com a homogeneização das pessoas e a aniquilação individual – que, curiosamente, é algo para o qual ele parece querer contribuir quando quer toda a gente a ler, a ver e a gostar das mesmas coisas que ele. Ou, então, não, já que ele já de contradisse algumas vezes. -, mas sim com a possibilidade de convivência com pessoas diferentes. E, sim, isso implica compromissos e cedências entre todos. Implica respeitar a integridade alheia, física e psicológica. E isso não é promovido por pessoas inflexíveis que insistem em perpetuar uma forma de expressão desatualizada. Mas este senhor vive na ilusão criada pelos progressistas modernos de que a liberdade para ofender terceiros é algo que se obteve recentemente, de um ponto de vista histórico? Isso sempre existiu. Desde que existem normas sociais que sempre se aceitou que determinados grupos fossem alvos de ataque. E, dentro dos diferentes grupos sociais, sempre se aceitou que todos os outros, exceto o próprio, fossem alvo de ataques. Aliás, é também a linguagem que se usa que conduz a conflitos e a guerras, a indisposição para o diálogo. Mais ainda, e já que o senhor gosta tanto de dar uma no cravo e outra na ferradura, e também já tratou de redigir textos a condenar aqueles que considera serem os verdadeiros terroristas, como este, o facto de as pessoas não se disporem a ouvir aqueles que a sociedade estigmatiza e ostraciza é, também, uma das principais razões pelas quais existe radicalização. Mas, mais uma vez, de certeza que é algo que este senhor desconhece.

 

Nelson Nunes também teima em confundir “senso comum” ou “bom senso” com sabedoria, o que soa bem com o que é verdade ou corresponde a algo de real e tem uma capacidade bastante precária para, perante assuntos que desconhece, avaliar sequer o assunto que é tratado numa determinada exposição, oral ou escrita, como acontece quando, por exemplo, afirma que, neste vídeo, Zizek diz algo de relevante acerca de debate entre a agricultura biológica e os organismos geneticamente modificados (que, aliás, ele designa de “alimentos”, porque nem ele sabe distinguir uma coisa da outra, muito menos se está para preocupar com rigor), quando Zizek nem sequer é capaz de expor as diferenças entre uns produtos e outros e, como o próprio diz, isso nem interessa para a questão.

 

Mas, aquilo em que realmente Nelson Nunes mais dá pontapés, e ainda por cima sem se aperceber, uma vez que me respondeu uma vez que lê ciência, mas não a ciência que eu leio, é…a ciência. Já redigiu um texto no qual afirmava, com base num artigo fracamente redigido e completamente infundado, que curiosamente reparei que, entretanto, removeu o respetivo link da crónica, que “Sim, eu disse plantas, e se vêm já com essa cena de as plantas não terem sensações, desamparem a loja: há cientistas que dizem que as plantas têm sistema nervoso central e que sofrem muito quando lhes arrancamos uma folha.”. Eu nem sequer vou entrar aqui na explicação científica para o facto de o que ele diz não ter o mais mínimo fundamento. Se vos interessar, podem ler os comentários que eu fiz à crónica, porque contêm o essencial. O que interessa mesmo é o completo desconhecimento que este senhor demonstra em relação ao método científico. “Há cientistas que dizem (…)”. Pois, e há gente que diz muita coisa. A questão é que ciência não se faz com base em cherry-picking daquilo que nos soa bem, que vai de encontro às nossas crenças ou preconceitos, ou que dá jeito para, mais uma vez, atribuir força autoritária a um texto para o qual já vamos lançados para provar que aquilo que temos na cabeça corresponde a algo de real. A ciência não é uma democracia, em que cada um manda o bitaite que lhe apetece e no fim faz-se uma votação e o bitaite que tiver mais votos adquire o estatuto de teoria. Aliás, este senhor nem sequer deve conhecer o conceito de “teoria” em ciência, que é completamente diferente de uma teoria de qualquer outra área intelectual, na qual basta redigir um texto coerente sobre determinado assunto para se considerar tal como informação relevante acerca do assunto. Nisto, até aproveito para deixar aqui dois links para dois artigos essenciais, redigidos por um cientista a sério, acerca do método científico e em que princípios se baseia: aqui e aqui. E, já agora, deixo também, embora não o costume fazer, o link para um artigo da minha autoria acerca do problema do “senso comum”, da “razão” e da “lógica”, que não foi redigido com base no mérito que tive em construir este conhecimento, mas sim através do simples ato de me informar.

 

Outro tipo de ciência à qual Nelson Nunes gosta de andar aos pontapés, mais uma vez baseando-se na sua incapacidade total de distinguir aquilo que é baseado em evidência do que não é, aquilo que corresponde a algo de real ou não, é a sociologia, algo que já exemplifiquei quando me referi ao humor que ele defende, mas que ficou mais do que bem patente nesta crónica. Uma crónica na qual, curiosamente, foi alvo de críticas acérrimas de feministas a sério, e não daqueles/as feministas dos quais traçam o perfil em esplanadas de tascas e forçam a generalização entre todos/as os/as outros/as. Aliás, como eu já aqui disse, a generalização é uma arma essencial na construção do discurso do Nelson Nunes. “Precisamos de olhar para as mulheres como bichos encantadores, que é o que são.”, afirmação do próprio, que ele não é capaz de reconhecer como paternalista e como se referindo às mulheres como elas sendo o que lhes é ditado pela cultura de género, que é um dos principais alvos dos/as feministas. Não, para o Nelson Nunes, a mulher é um ser com determinadas características – e calha que são as típicas características de donzela em apuros e ser frágil que precisa de ser protegida e tratada de uma forma indulgente paternalista pelo homem – e o homem outro ser com outras determinadas características. Isto, claro, porque o senhor, como grande consumidor de arte e de demais baboseiras ideológicas, é grande apreciador de verdades universais, e, apesar de dizer que lê ciência – não se sabe bem é qual, muito mais até se duvida seriamente que tenha capacidade para a interpretar -, e que a arte e a filosofia, entre outras atividades baseadas puramente em ideias não validadas empiricamente e, portanto, não correspondente a nada de real, abrem a mente, continua enterrado até ao pescoço em estereótipos. Porquê? Porque, para facilitar a produção artística, e porque os artistas apenas se podem reportar a eles próprios, precisam, como do pão para a boca, de generalizações e de acreditar que aquilo que sentem pode ser projetado nos outros e que se se comportam de determinada maneira motivados por determinadas coisas, então se observam comportamentos semelhantes nos outros as motivações terão de ser necessariamente idênticas. Enquanto que nas ciências sociais se aprende que nada no comportamento humano é universal, nem sequer a expressão de emoções e que as palavras que as pessoas usam para se reportarem ao que sentem representam a mesma coisa em duas pessoas diferentes. Portanto, parabéns à grande abertura de mente que a intelectualidade ideológica permite. Aliás, como bom amante das artes, Nelson Nunes não poderia deixar de acreditar no amor romântico, não é?

 

Tudo o que referi, mais o facto de ler tanto mas continuar agarrado ao tal “senso comum”, que o faz ficar agarrado ao conhecimento popular, como se pode ver aqui, reforçar a associação entre os sentimentos positivos provocados por algo e a sabedoria (aqui) e não perder a oportunidade de se apresentar a ele próprio como exemplo perfeito de portador de características de alguém vencedor (aqui), como se merecesse ser ele mais guru do que o Gustavo Santos de quem passa a vida a falar mal e é frequentemente exemplo do que despreza nos seus textos, ao mesmo tempo que redige ele as suas próprias versões da forma como considera que as pessoas devem encarar a vida, como devem enfrentar os desafios, lidar com a morte, e toda uma panóplia de textos dignos de livros de autoajuda. Não, ele não consegue perceber que aquilo que ele faz é exatamente igual ao que o Gustavo Santos faz, embora com impacto social diferente, porque se trata de alguém lidar com o que lhe acontece na vida, ou lhe vai na cabeça, de determinada maneira e querer ir transmitir aos outros o grande “Segredo” que descobriu do qual toda a gente precisa de saber.

 

Só para terminar, uma mostra da hipocrisia do “moço”, como ele gosta de chamar a outros para se armar ao popularucho, como fazem outros seus grandes adorados, como o Marcelo Rebelo de Sousa.

nunes.png

 

“é o meu olhar que tem de se adaptar à realidade”. Hum, a sério? E quando vais fazer cherry-pucking de informação para validar as tuas próprias ideias sobre um determinado assunto? Interessa-te a realidade ou, antes, confundes o que tens na cabeça com a realidade e, depois, a única coisa que fazes é ir à procura de informação que a validade e rejeitar o resto?

 

E, enfim, sobre o resto já falei, e deixo aqui apenas mais informação acerca do verdadeiro problema dos progressistas (associados ao politicamente correto) e do Trump.

 

Ricardo Lopes

 
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