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Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

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Love You Mom, por Ricardo Lopes

 

 

Love You Mom.jpg

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE 

 

Bem, para ver se se diverge da estupidez que se instalou nas discussões com portugueses sobre este assunto, agora vou fazer um comentário longo, no qual me vou focar em grande parte nos números, que, pelos vistos, são a principal preocupação dos teóricos da conspiração, tendo já evocado esse argumento um sem-número de vezes.

 

Ora, a acreditar nos números indicados pela jornalista Ana Leal (que não posso confirmar, porque ela nem sequer indicou a fonte), por ano, no Reino Unido, são retiradas aos pais cerca de 35000 crianças.


Então, em primeiro lugar, de acordo com os dados dos censos de 2011, existiam 15098000 pessoas com idade igual ou inferior a 18 anos no Reino Unido.


Se acreditarmos no número que a senhora Helena Tender insistiu em apresentar, de 60000 crianças no total institucionalizadas no Reino Unido, isso equivale a um total de cerca de 0,4% de todas as crianças existentes.


Se pegarmos no número de crianças portuguesas, sabe-se que, por ano, só em Inglaterra e em Gales nascem cerca 88000 crianças. Ora, mais uma vez fazendo a percentagem, se acreditarmos mais uma vez que este ano foram retiradas, até ao momento, 60 crianças portuguesas aos pais da respetiva nacionalidade, temos uma percentagem de 0,068%, ou seja 0,1% arredondados.


Mais, se pegarmos no tal número de 35000 crianças retiradas aos pais por ano e fizermos a percentagem relativamente apenas ao número de crianças nascidas por ano, apenas em Inglaterra e em Gales, mesmo assim dá apenas uma percentagem de 5%. E, claro, aqui nem sequer se está a considerar todas as outras existentes no país com menos de 18 anos, para as quais já fiz os cálculos, e que tornam a percentagem ridiculamente baixa, para um país que querem apresentar como um no qual as autoridades públicas andam metidas em negócios obscuros com entidades privadas para "roubar" crianças aos pais, de acordo com os critérios mais absurdos já referidos.


Agora, cálculos à parte, porque números dão muito jeito para espetar como argumento, mas convinha que começassem por ser significativos, que não são, vamos fazer outras considerações.


Em primeiro lugar, o sistema de proteção das crianças e os fundamentos teóricos em que se baseia, são determinados pelos mais modernos conhecimentos desenvolvidos através de investigação psicológica, psiquiátrica, comportamento humano, desenvolvimento humano, e cujo princípio orientador é o de que (e isto tem toneladas de evidências por detrás, toneladas de estudos desenvolvidos ao longo de décadas) o comportamento e o desenvolvimento humano são determinados pelas experiências e pelas influências que os indivíduos recebem, desde que nascem, e até já começa a incluir cada vez mais fatores externos que influenciam o desenvolvimento durante a vida intrauterina, e daí as recentes recomendações em termos de nutrição, medicação, exercício físico e restantes hábitos para as mães, e também para os pais, embora em menor número e menos rigorosos, por razões óbvias.


Portanto, não é algo baseado em opiniões, nem em intuições, nem em ideologias, nem na grande sabedoria octogenária da tia Mariazinha da aldeola de Trás-os-Montes nem da avozinha dos subúrbios de Londres, muito menos em "gut feelings", até porque dos "guts" normalmente só saem duas coisas: gás e merda. Pontualmente, pode sair também sangue, pus, e outras coisas, em situação de patologia.


Assim sendo, é óbvio, perante toda a montanha de evidências e ciência baseada em evidências, não em mezinhas da avó nem em ciências alternativas, que, sim, é importante aquilo de que as crianças se alimentam, nas várias fases de desenvolvimento, a integridade emocional, psicológica e física, assim como toda uma panóplia de fatores externos que são avaliados, de acordo com guidelines, tanto pelos assistentes sociais, como pelos professores, profissionais de saúde, autoridades policiais, etc., que eu deixo aqui, para o caso de quererem verdadeiramente instruir-se:

 


Tudo isto, ao contrário do que as senhora têm estado a tentar forçar como "straw-man argument", não quer dizer que eu esteja a implicar que o sistema português é completamente defeituoso e que o britânico é infalível e perfeito. Não, nem um nem outro são assim. A formação para os assistentes sociais, autoridades policiais, profissionais de saúde e, penso eu, para os professores, é igual ou semelhante. Para os médicos, que é a minha área de formação, posso dizer que são exatamente iguais. Agora, uma coisa é viver num país onde existe um quadro jurídico que dá primazia aos interesses dos pais biológicos, em detrimento do bem-estar e bom desenvolvimento das crianças, como acontece em Portugal, e é algo que, infelizmente, manieta bastante as ações de toda as autoridades enumeradas. Se um aluno chega à escola, pede ajuda a um professor, porque é vítima de abuso sexual em casa, porque é vítima de violência física, porque é ameaçado física e emocionalmente, porque vive num clima de medo, ninguém pode fazer basicamente nada. Simplesmente, denunciar o caso, e esperar que se arraste nos tribunais ou noutras instâncias, e, normalmente, acabe muito mal para a vítima. O mesmo acontece em casos de violência doméstica, e qualquer tipo de violência cometida no seio familiar e principalmente exercida sobre pessoas dependentes de terceiros. Uma criança pode ir ter com uma professora e dizer que se naquele dia voltar a casa provavelmente o pai a matará à pancada, e mesmo que se chame a polícia, ninguém a ajuda, não há esquemas de prevenção montados para retirar imediatamente a criança aos pais e depois, si, averiguar a situação. E não é culpa dos médicos, nem dos assistentes sociais, nem dos polícias, nem dos professores. É culpa do sistema jurídico e penal.


No Reino Unido, tudo isto acontece ao contrário, ou praticamente. O princípio é o de prevenção dos maus-tratos, prevenção de danos físicos, psicológicos e emocionais, observância dos melhores cuidados para permitir o desenvolvimento mais saudável e íntegro possível das crianças.


Mais, num país como o Reino Unido em que há acesso fácil a consultas de planeamento familiar, como é que se explica que alguém tenha 6 filhos, por exemplo? Nem no Bangladesh coisas destas acontecem, onde depois de ter sido dada formação a mulheres pertencentes às diversas comunidades locais, estas conseguiram educar as suas pares para planear o número de filhos a ter, para a utilização de contracetivos, etc., e, neste momento, a média de filhos por casal é de 2,5.


Mas, como é óbvio, o estado britânico não vai proibir as mulheres de se reproduzirem. Apenas pode ser feito o melhor aconselhamento possível, por via dos diversos profissionais. E é o que é feito.


Num país onde é providenciado todo o cuidado e mais algum às crianças, onde é feito um acompanhamento regular, rigoroso e personalizado pelos profissionais de saúde, que até se deslocam ao domicílio, no qual todas as pessoas recebem suporte monetário por via de subsídios por cada filho que têm, onde é dada formação gratuita às mães para poderem criar as crianças de acordo com os conhecimentos mais recentes, que não são perfeitos nem derradeiros, mas que vão melhorando à medida que a investigação e os estudos se fazem (é assim que a ciência é feita e construída, não com base em dogmas universais), onde até é oferecido alojamento (e bom) pelo estado no caso de as condições económicas dos pais assim exigirem, onde até os próprios assistentes sociais tomam conta das crianças no caso de os pais se ausentarem e precisarem de ajuda, não os retirando por causa disso, que lata é que é preciso ter para ir para uma reportagem que é um nojo em termos jornalísticos queixar-se das próprias asneiras que fazem?

 

Entretanto, e ainda de encontro a tudo o que aqui referi, e para reforçar o facto de a reportagem ter consistido em pura trampa jornalística sem o mínimo de rigor, deixo esta publicação da senhora Mafalda Teixeira, cuja identificação nas redes sociais poderá ser facilmente comprovada com uma rápida pesquisa no Google: 

 

Tradução:

Houve um documentário na TVI chamado “Love Me [You] Mom”, no qual uma mulher chamada Teresa Oliveira alegou ser minha “mãe” e que eu tinha sido “retirada” dela pelos serviços sociais ingleses. Esta mulher é uma mentirosa. Ela não é a minha mãe e eu não fui “retirada”. Eu fui salva das suas terríveis garras após sofrer anos de abuso físico e mental entre os 6 e os 11 anos. Eu não tenho 3 filhos. I não vendo o meu corpo. Eu sou mãe de um filho, e trabalho atualmente como empregada de mesa a tempo inteiro e estou numa relação de longo termo. O documentário usou as minhas imagens e o meu nome sem o meu conhecimento ou consentimento. Eu peço a toda a gente que respeite a minha privacidade e que deixe a polícia lidar com a situação. Obrigado.

 

Ricardo Lopes

 

Sobre este tema leia também: Dar uma chapada de vez em quando, por Ricardo Lopes

Dar uma chapada de vez em quando, por Ricardo Lopes

 

 
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