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Pensamentos Nómadas

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Estação de autocarros de Sumbawa Besar

 

 

DORMIDAS MÍTICAS – EPISÓDIO 3

sumbawa besar.jpg

 

bw VIAGENS Luís Garcia

Já houve tempos em que eu tinha tudo não tendo quase nada, Quando dormia ao relento ouvindo o vento beijar a geada, Fazia o meu manjar com pão e uva, fazia o meu caminho ao sol ou à chuva... (À Espera do Fim, Jorge Palma)

 

Estação de autocarros de Sumbawa Besar (Indonésia, 2011) – Tinham-me informado no dia anterior que o autocarro de Bima para Sumbawa Besar partiria por volta das nove horas da manhã. Naquela ilha indonésia (Sumbawa) tal como em todas as restantes ilhas do mega arquipélago, horário fixo para autocarros é mentira. Nove tanto poderia significar nove caso o autocarro àquela hora estivesse cheio, como dez ou onze se fosse necessário esperar uma ou duas horas para que quase todos os lugares fossem ocupados. Naquele dia, no entanto, por escassez de autocarros ou quiçá por se realizar algum evento especial na capital da ilha, às oito horas e quinze minutos o autocarro já se encontrava pronto para partir rumo a Sumbawa Besar (o nome significa Grande Sumbawa). Felizmente tinha-me levantado bem cedo e às oito horas da manhã, depois de tomar o pequeno-almoço, atravessei a rua para ver como estavam a andar as preparações para viagem. Só tive tempo de correr de regresso ao hotel, pôr o resto da minha tralha à pressa para dentro da mochila de viagem e correr de novo para apanhar o autocarro já a rolar na direcção da porta principal da estação! Contra todas as espectativas parecia que iria apanhar na Indonésia um autocarro que em vez de atrasado haveria de chegar adiantado. A ser verdade seria óptimo para mim, pois a viagem a realizar seria muito longa e dar-me-ia jeito chegar cedo para com calma encontrar onde de dormir e talvez até aproveitar o tempo extra para visitar um pouco a cidade. Mas não, como todas as viagens na Indonésia, também aquela haveria de sofrer atrasos, muitos e prolongados atrasos!


O autocarro, como de costume naquelas paragens, seguia sobrelotado. Portanto nada de novo não fosse o exagero notório daquela sobrelotação! Tudo estava pronto para que ocorressem previsíveis imprevistos. O primeiro veio logo no quilómetro dez do percurso, mal havíamos começado a realizar o longuíssimo trajecto. Com aquela sobrecarga toda obrigada a saltitar sobre a infinita linha de buracos que compunham (ou descompunham) a estrada principal que atravessa a ilha de este a oeste, era óbvio que haveríamos de sofrer furos nos pneus, pois claro. Para pior a situação ninguém no autocarro parecia perceber de troca de pneus, nem sequer o motorista ou o jovem revisor. Pensei “bom, não vale a pena entrar em stress, há que disfrutar do evento o melhor possível”.

 

E assim fiz, saí do autocarro e durante uma hora distraí-me a passear nas redondezas, fotografando paisagens e interagindo divertido com os locais. Como a operação mecânica foi demorada, as gentes da aldeia mais perto preparam rapidamente petiscos e até refeições quentes que trouxeram de moto e em tabuleiros sobre a cabeça até junto do autocarro, na esperança de ganhar uns trocos extra. A um grupo de miúdos comprei duas refeições quentes embaladas em pacotes de papel com uma folha de bananeira dentro servindo de isolante, daquelas que custam dezasseis cêntimos de euro a unidade. Uma para comer na hora, outra de reserva. Para petiscar, e porque ficara curioso com a enorme e desordeira fila que havia se originado junto a uma mota, peguei num dos palitos disponibilizados pelo condutor e imitei os colegas de viagem. Com o dito palito retirava uma bola de carne (ou de tofu, consoante a preferência), mergulhando-a em seguida num balde de plástico contendo um molho de cor vermelha viva. Sabor bizarro o sabor, para nao dizer outra coisa. Soube-me mall o primeiro e estive para largar o palito. O resto dos viajantes, sorrindo eufóricos com as minhas caretas insistiram que eu comesse mais pois “só sabe mal o primeiro”. Tanto me chatearam que eu aquiesci. E não é que tinham razão! Como diz a outra, “não negue à partida uma ciência que desconhece” ou, mais sabiamente, “primeiro estranha-se depois entranha-se”. Sempre tinham razão os nossos lusitanos avós. Uma longuíssima hora depois era trocado por fim o pneu furado e podíamos seguir de viagem!

 

Álbum de viagem 1

Álbum 1

 

Como havia previsto, atravessando quase de uma ponta à outra aquela extensa ilha, pude constatar que as suas gentes, havendo decidido ficar em vez de migrar em busca de ambientes menos agressivos, tinham acabado por se adaptar à insubmissa força da natureza e criado um estilo arquitéctonico que lhes permite viver em terrenos alagados quase a tempo inteiro. Digo “previsto” pois no primeiro dia que passei na plana ilha de Sumbawa, vindo da vizinha Flores montanhosa, havia me apercebido da mudança radical de estilo arquitéctónico, pese embora a curta distância entre as duas ilhas. Quanto tive a oportunidade de utilisar a internet na cidade de Bima aproveitei para dar uma olhadela no Google Maps e descobri que embora existam algumas montanhas na ilha de Sumbawa, as zonas costeiras mais não são que imensas planícies com altitudes de escassos metros acima do nível do mar. Os materiais de construção principais são na mesma o bambú e a madeira, tal como nas Flores, o que muda é a estrutura. Em vez de pequenas cabanas ao nível do solo, os naturais de Sumbawa constroem casas maiores e mais complexas, de dois andares, visto que no primeiro só existem os alicerces que elevam as casas uns dois ou três metros, protegendo os habitantes e os seus bens das constantes inundações. A paisagem natural da ilha é de facto linda, mas a paisagem rural criada pelo homem não é menos bela. 


O autocarro partiu sobrelotado, já o tinha dito. Poderiam pensar que assim sendo já não se recolheria mais passageiros à beira da estrada. Errados, erradíssimos, na Indonésia há sempre espaço para mais uma dúzia, ou duas, ou mais até, mesmo depois de ser ter furado um pneu por excesso de carga e os restantes ameaçarem seguir o mesmo caminho. Numa aldeola perdida na floresta densa, e só de uma assentada, entraram oito adolescentes que se sentaram por cima de quem tinha lugar sentado (como era o meu caso). Eu na dúvida não disse nada e, como reacção à decisão de uma das adolescentes de se sentar ao meu colo sem pedir, apenas esbocei um sorriso. Outros passageiros, sobretudo os mais velhos, começaram a protestar contra o excesso de aperto e contra as posições de contorsionistas com que eram obrigados a viajar, não só pelo o excesso de passageiros mas também porque o chão se encontrava repleto de caixas, sacos com legumes e até um motor de carro. Já para não falar da cabra e das duas galinhas que não paravam de andar de um lado para o outro! O condutor, não se deixando impressionar pelas lamentações, respondia com silêncio e carregava ainda mais no acelerador, por entre infinitas curvas e contra-curvas, provocando constantes pancadas e quedas. Eu pelo menos havia aprendido que se podia protestar mas, não vendo resultados práticos, nunca o fiz.

 

Trinta minutos depois, avistando um outro grupo de oito pessoas paradas de braço esticado à beira da estrada, decidiu recolhê-los todos! Começou a barafunda entre o condutor, os passageiros que vinham no autocarro e os novos passageiros tentado encontrar espaço. Para resolver a questão o condutor ordenou que seis deles subisseim ao tejadilho do autocarro onde já se encontravam outros passageiros literalmente entalados por entre bagagem, sacos e caixotes. Os dois restantes novos passageiros tiveram de se contentar em seguir de viagem com um pé na porta de entrada, o outro solto do lado de fora e uma mão segurando a barra do tejadilho para não caírem! Ainda equacionei a hipótese de me ir sentar também no tejadilho, visto que me sentia sufocar dentro do autocarro mas, antes de tomar tal decisão o contrário aconteceu. Como acima expliquei, a Indonésia, e em particular aquela ilha de Sumbawa, é constantemente fustigada por chuva que mais parece dilúvio. Ora, para piorar a situação já de si absurda, poucos minutos depois de termos recolhidos os últimos oito passageiro começou achover torrencialmente e os passageiros do tejadilho vieram se abrigar dentro do autocarro, trazendo consigo as suas roupas mais encharcadas que molhadas! Passámos ao sistema de três camadas, malta sentada em cima de alguém, por sua vez já sentada ao colo de alguém. Não fui esmagado porque os indonésios são no geral muito baixos e magros, têm corpos que mais parecem pertencer a crianças de treze ou catorze anos e não de adultos. Problema mesmo era respirar. Eu até ia sentado lado de uma janela, mas tinha de escolher entre janela aberta e cara encharcada ou janela fechada e sufocar com o bafo de calor, suor e dióxido de carbono. Foi divertido! Para completar a equipa que haveria de viajar junta até à capital, parámos numa outra aldeola onde dois passageiros saíram e três entraram no seu lugar!


Não é portanto de espantar que durante o resto da viagem tenhamos tido mais dois furos e consequentes atrasos, sempre muito longos. Como não transportávamos pneus suplentes, de cada vez que sofremos um furo tivemos de esperar que se encontrasse um outro no meio da floresta tropical debaixo de intensa chuva. A solução foi a mesma nos três casos. O condutor saía do autocarro, interpelava um qualquer condutor de mota que passasse no momento e pedia-lhe que fosse à sua aldeia ou à mais perto que conhecesse, comprar e trazer um pneu, levando o furado. Ninguém se recusa a tal pedido pois este representa um bom dinheiro extra caído do céu mas é, como pode imaginar, um processo bem moroso!


Catorze horas depois chegávamos por fim à estação central de Sumbawa Besar. Preocupado com a hora tardia da nossa chegada, minutos antes, tinha tentado perguntar ao condutor e seu ajudante se conheciam um sítio barato para dormir, não muito longe da estação. Por meios de gestos e ao fim de muitas tentantivas conseguimo-nos entender. Conheciam muitos lugares baratos onde pernoitar por três o quatro euros, o problema é que se encontravam numa zona muito afastada da estação e àquela hora da noite (22 horas) não seria provável encontrar um bemo que me levasse até a esse bairro com hotéis. Ou melhor que poderiam fazer seria deixar-me dormir dentro do autocarro, estacionado na estação, caso não fosse um problema para mim. Respondi-lhe que não, que eu não teria problema nenhum em dormir no autocarro, desde que não fosse “com três camadas de pessoas por cima, como na viagem”. Riram que nem loucos quando ao fim de cinco minutos conseguiram perceber a piada (não estou a chamar-lhes burros, é preciso lembrar que a ausência de língua em comum)! Quando chegámos à estação pediram-me para esperar enquanto a esposa do condutor lavava o autocarro por dentro e este tentava com ajuda de outros condutores de autocarros recuperar a suspensão de uma roda partida durante a épica viagem. Pudera! Não tendo nada mais com que me ocupar, fiquei a ajudar de máquina fotográfica na mão!

 

Álbum de viagem 2

Álbum 2

 

Enquanto esperava que consertassem a avaria do autocarro, pus-me à conversa com um miúdo que morava ali mesmo na estação. Através dele conheci outros membros da famíla e, quando dei por ela, estava sentado à mesa jantando com a família no pátio da casinha, abrigados da chuva por um providencial toldo! O miúdo tinha nove anos e já fumava que nem um fumeiro. No entanto eu era o único espantado com a situação. A família não parecia estar minimamente incomodada com o facto! Acreditem, hoje sei que é normal por terras indonésias onde o recorde mediatizado por um vídeo do Youtube pertence a uma criança de dois anos e meio que, segundo os pais, “começou a fumar sozinho,”. Supreendente e muito era a minha presença ali, um estrangeiro, à noite, feliz da vida, numa imunda e pobre estação de autocarros. Fi-los compreender que não me importava mesmo nada de passar aventuras do género, e mais, que preferia este tipo de acontecimentos imprevistos e quase absurdos que passar umas férias feito zombie percorrendo de forma cíclica um curtíssimo precurso entre a praia privada de um hotel e o quarto alugado nesse mesmo hotel. Riam, entusiasmados, não sei se de gozo pelas minhas absurdas ideias, se por a tradução feita pelo míudo de nove anos contar coisas diversas... A verdade é que ficaram muitos contentes com a minha presença e pediram-me para ficar a fazer serão com eles, comendo e bebendo por sua conta, e que não me preocupasse que me dariam um lugar para dormir. Não dentro de casa mas numa divisão paralela, sem paredes, apenas telhado de bambú, encostada a uma das paredes da casa. Tampouco tinha colchão. A cama eram igualmente feita de bambú. Não me queixei, aceitei... e adorei!

 

Esta estória aconteceu em 2011. Em 2015 voltei à mesma ilha para descobrir uma mudança completa de atitudes em relação a estrangeiros. Devido à TV estupidificante que se espalha que nem vírus pela Indónesia profunda, e devido ao merdoso comportamento turista de esbanjar de dinheiro, o qua leva sempre locais a olhar ocidentais enquanto multibancos andantes, a experiência foi horrivelmente horrível e o mais certo é nunca mas na vida voltar a Sumbawa, essa ilha que um dia adorei...

 

Luís Garcia, 12.07.2016, Chengdu, China

 

 

 

 

 

 
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