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Pensamentos Nómadas

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Entre Struga e Ohrid, por Luís Garcia

 

 

DOS BALCÃS AO CÁUCASO – EPISÓDIO 10 

Entre Struga e Ohrid

 

bw  VIAGENS  Luís Garcia        

Estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem... aonde não estou. (Estou Além, António Variações)

 

16.06.2014

Os mesmos cães que ontem tinham nos feito adiar o sono, esta manhã fizeram-nos acordar demasiado cedo. Tentámos adormecer várias vezes, mas já não havia remédio. Saí da tenda e fiquei pasmado com a quantidade de pegadas de cães marcadas em circulo na areia, à volta da tenda! Enfim, antes isso do que ter de aturar turistas estrangeiros paranóicos olhando parados para a nossa tenda e resmungado qualquer coisa em alemão ou algo parecido, como aconteceu a seguir. Ah, que raiva que me meteram! Para me vingar da afronta, fotografei-os descaradamente até que enfurecidos mas receosos, se puseram a andar dali para fora. Acabei por encontrá-los meia-hora depois quando voltava de fazer compras no centro de Struga, e aproveitei para mandar mais umas piadas em bom português. Ahhh, que cara de susto que tinham os 2! Para a próxima que não sejam brutos, e que deixem-se de arrogantes preconceitos sobre gente que acampa em obras inacabadas!

 

Depois do pequeno-almoço tomado na praia mesmo em frente, e com o sol a aquecer a pele, aproveitámos para mais uns bons banhos antes de nos pormos à estrada. Era manhã, e ainda encontrávamo-nos a cerca de 15 km do próximo destino, a cidade de Ohrid. Tínhamos portanto uma boa margem de tempo para lá chegar, de forma que decidimos fazer os primeiros quilómetros a pé, pouco a pouco, pela costa do lago, com paragens para comer e tirar fotografias. Infelizmente as condições meteorológicas pioraram em muito pouco tempo e vimo-nos obrigados a apressar o passo para procurar abrigo. Não chegou a ser preciso, quando nos preparávamos para atravessar uma estrada em direcção a uma estação de combustível para fugir à chuva que começava a cair, um Mercedes luxuoso (mais um!) parou ao nosso lado! Dentro do bólide iam 2 senhores na casa dos 60. O condutor, Ibrahim, um carismático businessman macedónio de etnia turca que tornara-se milionário após décadas a trabalhar na restauração em Dallas, no estado norte-americano do Texas. Minutos depois chegámos a Ohrid. Ibrahim estacionou o carro em frente à sua casa e saiu com o seu amigo, deixando-nos os 2 dentro com a chave e o motor a trabalhar. O seu amigo ia para casa, e Ibrahim foi tirar da rua os tapetes que tinha deixado ao sol. De volta ao carro, convidou-nos para almoçar com ele. Aceitámos, pois claro, e ainda bem, fomos nos banquetear num luxuoso restaurante na praça central, ao som da sua caricatural pronúncia texana e da infinita lista de coisas caríssimas e enormes que tem, construiu, ganhou, vendeu ou comprou! Dólares só contava aos milhões, casas às centenas de metros quadrados! Ah, que loucura, que choque! Ibrahim, com muito orgulho, contou-nos como se desenrascava (nos EUA) comprando a complacência e mesmo a cumplicidade das autoridades locais pagando almoçaradas à polícia e bombeiros, e oferecendo comida a centenas de pobres da cidade no dia de Acção de Graças. Também se divertiu a contar a conversa que um dia teve com um norte-americano desagradado com o facto de ser pobre e de se deparar com tantos estrangeiros ricos ou milionários na sua própria terra. Ibrahim, com toda a sinceridade disse-lhe que a culpa era desses mesmo pobres norte-americanos, pois quando chegara aos EUA era um miúdo de 13 anos que tinha sobrevivido até então pastando animais na sua pobríssima terra natal. E mais, se estrangeiros se tornaram e tornam ricos nos EUA é por culpa da imbecilidade e estupidez dos norte-americanos pois se fossem inteligentes, pastores de ovelhas adolescentes como ele incapazes de compor uma frase em inglês à chegada aos EUA, poderiam ter facilmente sido transformados em escravos dos norte-americanos e não em milionários. Mas não, como os norte-americanos não têm inteligência nem perspicácia, não só não escravizaram os estrangeiros como ainda por cima lhes deixaram o caminho livre para enriquecer com as inúmeras oportunidades que os EUA proporcionam. O norte-americano, sem palavras, não teve outra solução senão dar-lhe razão… Entre inúmeras estórias do género, fomos nos enchendo até mais não, e chegou a um ponto que era impossível comer mais. Pedimos ao garçon para nos embalar o que sobrava e guardámos para o dia seguinte.

 

Depois de jantar Ibrahim levou-nos de volta até junto da sua casa, ao lado do lago Ohrid. Garantiu-nos que podíamos montar a tenda no parque ao lado do bar do seu amigo Agim, macedónio-albanês (também emigrante nos EUA, que enriqueceu e perdeu tudo no jogo). Ainda estivemos para montar a tenda, mas apareceu a filha desse seu amigo que nos convidou a entrar no bar. Esperámos por Agim para pedir emprestada a chave do bar e guardar as malas ali mas, quando Agim chegou, os planos mudaram radicalmente. Agim convidou-nos a pernoitar num dos seus “quatro restaurantes”. Aceitámos e fomos lá por as malas, ficando livres para passear o resto da noite sem peso às costas. Às 10 da noite, como combinado, voltámos ao bar para ir dormir mas afinal Agim que era o suposto dono do restaurante disse-nos que o dono não permitia que lá ficássemos! Enfim, estórias mal contadas. Pegámos as malas e regressámos à zona do bar junto ao lago. Connosco veio o empregado do bar, deficiente mental (sim, literalmente) que até meio do caminho andou calado, e que partir daí começou a falar sem parar em macedónio, falando mal dos ortodoxos e bem dos muçulmanos, e que nos dava casa (ou não) e não sei que mais! Ah, que confusão. Nós estávamos exaustos e tínhamos pressa de chegar para largar as malas, mas o raio do homem deu voltas e mais voltas, com cruzamentos e caminhos ilógicos que pareciam não ter fim. Porquê? Não sei, é louco claro. E nós, se tivessemos ido sozinhos, sabiamos como ir em linha recta usando apenas uma rua que liga o centro ao parque, e só lá estávamos há poucas horas, enquanto o raio do homem nasceu e cresceu em Ohrid! Ah, que paciência!  E não é tudo, quando finalmente chegámos ao parque havia uns gorilas de aspecto muito manhoso, com música de merda aos berros saindo pelas janelas de carros poderosos. O raio do homem foi todo contente contar àquela gente manhosa que eu e a Claire íamos dormir ali com tenda! Íamos, pois, mas tivemos de mudar de planos. Que patetice de cromo. Aproveitando a escuridão absoluta, escapámo-nos em silêncio e fomos montar a tenda discretamente sobre um campo de erva macia em frente à casa de Ibrahim, camuflado por um monte de terra repleto de erva alta, quase no mesmo local onde havíamos esperado dentro do seu bólide ligado horas antes! E assim acabou o dia. :p 

 

 Álbuns de fotografia

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Luís Garcia, 01.02.2017, Chengdu, China

 

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