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Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

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Do 8 ao 80, por Luís Garcia

 

 

DORMIDAS MÍTICAS – EPISÓDIO 4

8 a 80

 

bw VIAGENS Luís Garcia

Já houve tempos em que eu tinha tudo não tendo quase nada, Quando dormia ao relento ouvindo o vento beijar a geada, Fazia o meu manjar com pão e uva, fazia o meu caminho ao sol ou à chuva... (À Espera do Fim, Jorge Palma)

 

Do 8 ao 80 (Ilha de Lombok, Indonésia, 2011) – Encontrando-me eu na Indonésia com vários transportes por apanhar esperava que, como era hábito, me fosse colocar em complicações, confusões e atrasos. Naquele dia, por milagre (diria eu se acreditasse em poderes sobrenaturais), o exacto oposto aconteceu. Eu tinha comprado no dia anterior um bilhete de autocarro mais ferryboat para realizar a viagem de Maluk (costa ocidental da ilha de Sumbawa) até Mataram, capital da ilha de Lombok. Na minha ingenuidade, acreditei que naquela noite em que parti de viagem seria necessário trocar várias vezes de transporte, mas não. O serviço estava muito bem organizado. O autocarro partiu da estação de Maluk com extrema pontualidade e deslocou-se até ao porto mais perto da cidade. Aí se encontrava o ferryboat pronto a partir, esperando que o nosso autocarro nele entrasse.

 

A travessia por mar decorreu de forma normal e aconteceu inclusive o caso inédito de chegarmos ao destino (porto de Ginyar) muito antes da hora marcada. Olhando as horas, julguei que o condutor daria as habituais mil e uma voltas antes de levar o autocarro até à estação final, pois só assim se explicaria que nos encontrássemos em solo da ilha de Lombok horas antes da hora de chegada escrita no meu bilhete. Quando o autocarro saiu do ferryboat, e havendo recebido a garantia do condutor que não seria preciso trocar de transporte, recostei-me confortavelmente, imaginando que ainda teria umas horas para dormir, das duas da manhã que eram até às seis da manhã indicadas no bilhete. Uma vez mais falhei nas previsões.

 

O autocarro seguiu directo para a estação de Lombok e meia hora depois estacionava na entrada, para que os passageiros saíssem, partindo logo de seguida não sei para onde. Em vez de uma ou duas ou cinco horas de atraso, como é hábito na Indonésia, tínhamos chegado com 3 horas e meia de avanço! Eram duas horas e meia da manhã e eu não só não fazia a mínima ideia da minha localização como tampouco tinha planos para ocupar o tempo até às oito horas da manhã, altura em que deveria aparecer na casa do senhor Klaus, um couchsurfer alemão residente em Lombok que vários dias antes havia aceite o meu pedido para me albergar por um período de três noites em sua casa.

 

Perdido na imensa escuridão e desolação, ainda me arrisquei a dar uma volta pelo bairro de mochila às costas, crente que haveria de encontrar algum tipo de actividade onde me entretivesse, de forma a passar distraído as próximas cinco horas. Nada, luz todas apagadas, silêncio total e não havia vivalma que se aventurasse por aquelas ruas desertas. Não tive outro remédio senão voltar à base, que é como quem diz, regressar a estação também ela deserta e mergulhada na escuridão.


Sentia-me terrivelmente cansado e com vontade de me pôr a dormir, não sabia era onde me encostar para o fazer. No chão nem pensar, estava imundo, repleto de restos de comida lixo, insectos de aspecto pouco convidativo e, uma vez por outra, local de passeio de ratazanas! Acabei por me decidir sentar numas das mesas deixadas na rua em frente ao portão fechado de um pequeno restaurante instalado no edifício da estação. Para evitar toda aquela bicharada os meus pés repousavam num dos bancos espalhados à volta da mesa. E assim passei eu um bom bocado pensando como é bela a vida, por vezes de olhos fechados, tentando com todas as minhas forças não adormecer por completo. Esforço inglório, com as poucas forças que me restavam apenas poderia me manter acordado se encontrasse algo com que me entreter! Mergulhado naquele imenso tédio acabei por desistir da ideia e deitei-me, de forma muito precária, num outro banco.

 

Ter conforto nem pensar pois o banco era feito de madeira maciça. Para tornar a tarefa ainda mais complicada, o banco era muito estreito e tinha pouco mais de metade do meu comprimento. A única forma que encontrei para ali me deitar foi pôr-me de lado, com as costelas da minha magreza espetadas contra a madeira rija. Viajando com apenas dois ou três trapos na mochila, nem sequer pude utilizar grande coisa para tornar a cama mais macia, ficando separado do banco apenas pelo tecido muito fino do saco-cama, o qual fechei de tal forma que de fora só deixei o nariz para respirar. Não que tivesse muito frio, pelo contrário, mas sim porque receava o contacto com toda aquela bicharada, mal-amadas e muito feias criaturas da noite cuja metade (pelo menos), julgava eu, seria bem capaz de ser venenosa ou possuir outros atributos pouco simpáticos para o bem estar do meu corpinho. Ou não, enfim, mariquices de estrangeiro, talvez! 


Poucos minutos depois de eu me deitar e tentar a missão quase impossível de dormir naquele banco, dois locais, bem embriagados, aproximaram-se, puxaram um banco no qual se sentaram e meteram-se a falar para mim. Abri o saco de cama até à cintura e sentei-me também, meio confuso com o estranho evento ali a decorrer misturado com o sonho que havia começado a sonhar semi-acordado. Não posso dizer que chegámos a conversar, o que se passou foi mais uma divertida conversa entre surdos, eles embriagados de álcool, eu bêbado de sono. Eles falando indonésio, eu falando um mistura nem eu sei de quê. Acabou por ser uma absurdidade que se tornou real e ali ficámos nós em animada conversa até o sol nascer.

 

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Quando partiram, já dia, arrumei tudo dentro da mochila e fui me sentar na única mesa da esplanada de uma estação de serviço que abrira minutos antes. Bebi um café para aquecer e despertar a mente, aproveitei para roer uns doces e, entretanto mais desperto, pus-me a ler um dos livros que trazia na mochila. Por volta da sete e quarenta e cinco perguntei ao empregado da estação de serviço por um telefone público e liguei ao senhor Klaus, avisando-o que me encontrava em Mataram e pronto para me deslocar até sua casa tal como havíamos combinado. O senhor Klaus havia me pedido por email que eu aparecesse em sua casa às oito horas da manhã. Explicou-me que não seria agradável que eu chegasse antes ou depois dessa hora e insistiu que eu fosse pontual (sim, é alemão ou senhor)!  

 

Não tive outro remédio senão desenrolar toda a operação com a maior eficácia possível. Expliquei por telefone onde me encontrava e ele respondeu-me que o melhor seria eu apanhar um táxi e indicasse a sua morada completa ao condutor. Assim fiz, um pouco contrariado visto que por norma não utilizo táxis, mas quis acreditar que a sua casa estivesse localizada num muito remoto lugar ou que fosse difícil para mim descobrir sozinho. Quando cheguei ao portão de casa percebi que me tinha enganado. A casa estava situada num rua que fazia uma linha recta em direcção à praia e tampouco era de difícil de localizar. Para que eu lá chegasse, bastaria apanhar um qualquer autocarro que percorresse a estrada principal junto à costa que liga a capital Mataram à famosa zona de resorts de Sengiggi. Fiquei um pouco aborrecido pelo dinheiro desperdiçado no desnecessário táxi, mas enfim, dias não são dias, e além do mais não tinha gasto um cêntimo pela não-dormida da noite anterior! A razão pela qual o senhor Klaus me havia aconselhado a deslocar-me até sua casa de táxi foi-me dada pelo que os meus olhos viram após os primeiros passos dados dentro do jardim envolvente: luxo, mordomias, casa de sonho e piscina olímpica privada. Na mente daquele senhor com todo o aspecto de ser milionário já não deveria haver lugar para os conceitos de autocarros e transportes públicos em geral. O dinheiro em que pelos vistos nadaria seria a droga amnésica responsável pelo seu esquecimento.


Quaisquer dúvidas que me restassem sobre o nível de vida do senhor Klaus foram dissipadas pelo quarto em que uma das suas empregadas me foi instalar. Parecia estar a entrar numa suite de um hotel de cinco estrelas! O primeiro pensamento que me veio à cabeça foi: “por que é que pedi casa apenas para três noites e não para sete ou oito!


Nos três dias seguintes e para meu grande espanto, viveria na tropical Senggigi uma experiência mais parecida com umas férias caríssimas num resort daqueles que turistas sonham gastar todas as suas poupanças de um ano de árduo trabalho de uma assentada e sentirem a frívola sensação de se ser aristocrata por uma semana e, por conseguinte, menos parecida com as restantes muitas dezenas de hospedagens couchsurfing que havia eu experimentado até ao momento... 

 

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Quarto de luxo, casa-de-banho privada, comer só do bom e do melhor, empregada doméstica ao meu dispor a toda a hora e serões na esplanada bebendo bom vinho ao som de bossa nova enquanto discutia política internacional com o senhor Klaus. É o melhor resumo que posso oferecer dos dias passados dentro daquela mansão, rodeada de floresta tropical e a uns passos de praias desertas de inqualificável beleza. Havia ainda uma fenomenal piscina, enorme e feita em pedra, mas aí parei pouco. Mergulhei nas suas límpidas águas uma só vez, não que não achasse piada à piscina, mas porque não fazia sentido (para mim) perder tempo numa caixa com água e cloro quando se tem uma ilha com centenas de praias paradisíacas, na sua maioria desertas, e candidatas a aparecer num qualquer top das melhores praias do mundo, se é que fazem algum sentido esse tipo de classificações...


Era fantástico acordar, descer as escadas e encontrar na mesa da esplanada uma taça de café de tão sublime aroma. Para acompanhar, um prato com uma dúzia de tipos de fruta, todos descascados e cortados em pedaços, mais de metade deles desconhecidos por este português habituado a latitudes menos tropicais. Não julgue o leitor que era a dieta imposta na casa! Não, a empregada responsável pelos meus caprichos perguntava-me na noite anterior o que eu iria desejar para o pequeno almoço do dia seguinte. Respondia eu: “Fruta, muita e boa!”


Comer bem e bem beber não me causaram transtornos alguns, como é óbvio. Mais complicado era o que vinha depois. Habituado a fazer tudo sozinho e, quando hospedado por um couchsurfer, acostumado a ajudar nas tarefas domésticas, não conseguia controlar o instinto de, acabada a refeição, pegar na loiça por mim suja e ir lavá-la. Quem não apreciava nada estes meus gestos irreflectidos (mas normais, ah, muitíssimo normais) era o senhor Klaus que se queixava que agindo assim habituaria “muito mal a criadagem, que por norma já pouco ou nada tem para fazer e é muitíssimo bem paga.” O meu lado de hóspede couchsurfer agradecido pelo conforto pedia desculpa. O meu outro lado, mais pragmático e amante das pequenas coisas da vida (que acabam por ser de facto mais valiosas que tudo o resto), esse lado, dizia eu, sentia-se constrangido e fora do seu habitat natural.

 

Para demonstrar a frustração e o conflito entre mundos que aconteceram naquela morada, e para acabar a estória, vou contar o que me aconteceu na segunda manhã depois do pequeno-almoço. De barriga cheia e muito agradecido pelas frutas maravilhosas que havia preparado para mim, saí ao jardim para falar com a empregada. Apercebendo-me que ela estava a arrancar ervas do jardim, perguntei se me deixava ajudá-la e pus mão à obra contentíssimo. A minha intenção nem foi tanto o ajudá-la para que esta fosse descansar mais cedo, mas antes o de usufruir do profundo prazer que tenho em mexer em terra e plantas, em arrancar com os meus dedos nus as segundas da primeira. Ai está, uma daquelas pequenas coisas que eu dizia serem mais valiosas que tudo para mim.

 

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O senhor Klaus, muito politicamente correcto e muito alemão, chamou-me de forma delicada argumentando que queria partilhar comigo uma qualquer informação curiosa que cria ser do meu interesse. Assim que entrei na sala, o senhor Klaus esperava-me sóbrio e de expressão zangada. Pediu-me, numa voz pesada contrastando com o seu esforçado sorriso, que lhe jurasse ser aquela vez a última na qual ele me encontrava a realizar tarefas destinadas exclusivamente às suas empregadas! Ainda esbocei uns pensamentos e tentei organizar os meus argumentos para o fazer perceber que eu arrancara as ervas por prazer, que era um género de terapia anti-stress para mim ou uma treta do género... Porém, no último instante, imaginando que o senhor Klaus nunca me iriam compreender, apenas pedi repetidas desculpas e precipitei-me para a saída antecipando o meu passeio de mota do dia. Vendo-me sair assim de repente, de forma inesperada, a empregada que arrancava ervas parou a sua tarefa por instantes, olhando-me preocupada. Eu apontei para dentro de casa com o nariz como quem lhe pergunta se está inquieta com o que se tinha passado entre mim e o senhor Klaus. Para confirmar que sim, abanou a cabeça de forma muito subtil, receosa que Klaus se encontrasse a observar-nos. Pisquei-lhe o olho sorrindo, como quem diz “está tudo bem”. Ela percebeu a mensagem, sorrindo aliviada, dizendo-me adeus e voltando ao seu trabalho de arrancar ervas daninhas, pelo menos as pequenas, pois há ervas daninhas tão grandes e tão poderosas que jamais haverá quem as consiga arrancar dos solos férteis deste mundo social...

 

Luís Garcia, 27.07.2016, Chengdu, China

 

 

 

 

 

 
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