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Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

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De Skopje a Struga, por Luís Garcia

 

 

DOS BALCÃS AO CÁUCASO – EPISÓDIO 9 

De Skopje a Struga

 

bw  VIAGENS POLITICA Luís Garcia        

Estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem... aonde não estou. (Estou Além, António Variações)

 

15.06.2014

Mais um amanhecer tranquilo, desta vez numa tenda escondida num jardim. Fizemos as malas e partimos em direcção ao centro com ideias de encontrar o Bulevar Partizanski,  uma avenida de 6 km em direcção a oeste, no fim da qual se encontra a entrada para a auto-estrada Madre Teresa de Calcutá (sim era albanesa mas da Macedónia) que atravessa o país de norte a sul, e que acaba perto do mítico lago Ohrid, a nossa próxima paragem prevista. Com ajuda de locais conseguimos descobrir o autocarro certo (número 2) e pegámos um. Tentámos explicar ao condutor que queríamos ir para perto da auto-estrada mas este não percebeu. Uns quilómetros à frente disse-nos algo, mas na dúvida não saímos. Não havia indícios nenhuns de fim de cidade nem de entrada de auto-estrada. Ainda assim saímos 2 estações depois, numa má decisão que tornou-se num pesadelo. Saímos, fomos às compras abastecer para o resto do dia e caminhámos em busca do fim da avenida que teimava em não aparecer. Afinal, tínhamos feito apenas 2 km de autocarro, e acabámos por caminhar mais de 3 km! Desesperados, sem mais energia para caminhar nem tampouco vontade de pagar mais um bilhete para andar, quiçá, apenas mais uma paragem ou duas, decidimos começar a fazer a boleia dentro da cidade, acto que por norma é mal-sucedido (boleias não funcionam dentro da cidade)… e foi. Acabámos por apanhar de novo um autocarro mas o condutor, simpático, e que já nos tinha visto 2 vezes no seu vai-e-vem, convidou-nos a entrar de borla! Hehe!

 

E pois claro, andámos menos de 1 km no autocarro e chegámos ao fim da linha, numa aldeola de realidade paralela. Via-se a auto-estrada relativamente perto, mas não havia coragem para andar nem vontade de arriscar seguir em frente para de seguida descobrir que a rua não daria para a auto-estrada e sim para um beco sem saída. Claire tomou a iniciativa e pediu ajuda a um homem sentado dentro do seu carro. Era polícia, macedónio de etnia albanesa e guarda-costas de ministros macedónios. Ofereceu-se prontamente a levar-nos até à entrada da auto-estrada no seu carro. O percurso foi curto, cerca de 1 km, pela rua que tínhamos pensado usar se houvesse forças. Ah, que alivio ter feito este último pedaço de estrada de carro.

 

Na portagem fomos encontrar uma viatura parada e não hesitámos em pedir boleia. O carro era de um simpático senhor, emigrante na Suiça e de férias na Macedónia, sua terra natal. Ia para Kičevo e aceitou nos levar. Que sorte, 2/3 do trajecto até ao lago Ohrid estavam garantidos. Pelo caminho, sobretudo nos últimos quilómetros antes de Kičevo, avistámos várias centenas de bandeiras da Albânia espalhadas pelos montes, sobre os telhados das casas, nas rotundas… ah, por todo o lado! De lembrar que a minoria albanesa na Macedónia tentou sem sucesso em 2001 uma rebelião no intuito de separar o noroeste do país e albanizá-lo ainda mais, em mais um etapa da criação da Grande Albânia da qual falam todos os albaneses da Albânia, Kosovo, Macedónia e Grécia. Felizmente para a Macedónia, debaixo do solo deste país não existem valiosíssimos minerais como os do subsolo da província sérvia do Kosovo. Por aí se explicatambém, talvez, que os EUA não tenham aplicado a estratégia do “dividir para reinar” como fizeram com a Jugoslávi e, consequentemente, deram em fracasso as operações terroristas do UÇK na Macedónia em 2001.

 

Quando chegámos em  Kičevo estava a chover e tínhamos muita fome. Sem hesitar entrámos no primeiro barracão-restaurante que encontrámos nas imediações da paragem de autocarro. Dentro fomos encontrar e “viver mais um filme de Kusturica”. Gente bêbada mas convivial, uma mulher que falava o tempo todo para nós e perdia-se de riso, um cigano velho e muito bem vestido a quem toda a gente local pedia para lhes pagar cerveja e aguardente, um jovem que acreditava saber falar inglês mas que só dizia disparate… ah que filme! Grande diversão, bem a calhar, para nos animar e fazer esquecer a chuva lá fora. Comemos, bebemos café, falámos pelos cotovelos num animado convívio absurdo… e fomos embora felizes da vida quando a chuva finalmente parou.

 

 

Parou sim, por muito pouco tempo. No tempo que nos levou a atravessar a estrada já chovia de novo. Tivemos que encontrar abrigo e pedir boleia aí, demasiado afastados da estrada. Não iria funcionar aquela boleia. Passada mais de uma hora, fomos à estação e investimos 3 euros cada num bilhete para Struga, uma cidade na costa de Ohrid, o lago Ohrid sim, finalmente! 

 

Chegámos a Struga quase às 6 da tarde, ainda a tempo de tomarmos os primeiros banhos naquela água linda, morna e cristalina. O sol aparecia de tempos a tempos e aquecia imenso. Quando desaparecia, dada a elevada altitude, ficava imenso frio. Que confusão. Mas foi muito bom, precisávamos de um banho a sério com água limpa e sabonete, e de nadar para descomprimir o corpo das caminhadas de malas às costas.

 

Ao fim do dia, com receio da chuva, fomos montar a tenda dentro da obra inacabada de um restaurante mesmo em frente ao lago. Convinha-nos o abrigo, mas montar a tenda sobre cimento não nos estava a apetecer muito. Em mais um golpe de sorte, com ajuda da nossa mini-laterna, encontrámos um monte de areia dentro da obra! Ah, que felicidade. Em poucos minutos aplanámos a areia numa área grande o suficiente para a tenda e montámo-la por cima. Estava tudo a correr bem até aparecer um matilha de cães abandonados para nos chatear a cabeça. Ainda tentei afastá-los várias vezes à pedrada (sim, lamento, teve de ser). O problema foi que, de cada vez que voltavam eram sempre mais e maiores. Chegou a um ponto que já não tive coragem de enfrentá-los e refugiem-me na tenda com a Claire. Foi difícil de adormecer ao início, mas o cansaço e o sono fizeram o seu trabalho, e acabámos por adormecer ao som ensurdecedor de uma matilha de cães tresloucados ladrando do lado de fora da tenda… hehe!

 

Álbuns de fotografia

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Luís Garcia, 22.01.2017, Chengdu, China

 

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