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Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

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De Istambul a Doğubeyazıt em 3 dias - III, por Luís Garcia

 

 

DOS BALCÃS AO CÁUCASO – EPISÓDIO 18  

De Istambul a Doğubeyazıt em 3 dias - III

 

bw  Luís Garcia VIAGENS 

Estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem... aonde não estou. (Estou Além, António Variações)

 

25.06.2014

Mais um dia na estrada mais 6 boleias à nossa espera. A primeira delas na saída sul de Trabzon, depois de termos tomado umas sopas turcas para animar o corpo mal-dormido e muito moído das 12 horas passadas dentro do camião. Foi uma viagem curta de 25 km até à pequena cidade de Maçka, mas bem útil pois tirou-nos rapidamente de Trabzon, deixando-nos na rota certa e longe da confusão urbana. Em Maçka a boleia “correu mal”. 10 minutos passados de braço esticado e ninguém parou para nos levar. Decidimos pôr as malas às costas e avançar um pouco a pé, o que não veio acontecer. Já de mochilas às costas e de costas para a estrada, um carro parou e o seu condutor perguntou se precisávamos de boleia! Voilá, afinal nem era preciso esticar o braço!

 

Com esta nova boleia, de um senhor muito bem educado e muito bem vestido que trabalha para uma empresa japonesa, tivemos direito a 3 paragens para tirar fotos em sítios magníficos na cadeia montanhosa da região e um saco de Köme delicioso (doçaria regional tradicional), além de termos avançado 80 km até Gümüşhane.

 

A terceira e mais curta boleia do dia foram os 3 km quilómetros atravessados numa velha carrinha, de Gümüşhane até a uma bomba de combustível no cruzamento da estrada que seguia para leste. Boleia curta mas eficiente!

 

Almoço no chão com o velhinho

 

Dez segundos depois de sair da carrinha, entrámos numa outra. O condutor era um senhor já velho mas ainda cheio de vida, divertido, sorridente, e também muito generoso. Poucos minutos depois de termos entrado na carrinha, o velhinho estacionou-a junto a uma fonte de água bem fresca e ofereceu-nos um almoço de pão, queijo fresco, azeitonas e melão! Só produtos caseiros e plenos de sabor! Que satisfação, para nós que estávamos com imensa fome e sede. Que alegria para o senhor que nos confessou ser a partilha da sua comida com outras pessoas desconhecidas a melhor satisfação que poderia tirar dela, e que a comida sabia melhor quando partilhada. Gente boa não falta por estes terras… Depois de almoçar aproveitámos a fonte para encher as nossas garrafas vazias com água fresca e voltámos à estrada, observando maravilhados o crescendo de cores e formas desconhecidas para os nossos olhos e tão abundantes nas montanhas desta região. Era o prenúncio do que ainda viria de melhor, lá nos confins orientais da Turquia…

 

O simpático velhinho levou-nos até Bayburt, cidade na qual passámos de uma carrinha para um camião TIR, o segundo da viagem que transportava combustíveis. Devido à mercadoria transportada que exige ritmo lento, e apesar das óptimas vias e do camião novo, desperdiçámos imenso tempo chegando a Erzurum muito mais tarde do que previramos. Eram quase 5 da tarde quando o condutor nos deixou numa estação de combustível à entrada desta cidade, havendo ainda em teoria 300 km de estrada a fazer até Doğubayazıt! Apanhando uma boleia logo de seguida e seguindo a uma média de 80 km/h ainda era possível chegar cedo, pouco depois do sol se pôr, de forma que permanecemos convencidos de conseguir chegar a Doğubayazıt no mesmo dia.

 

Aproveitámos para fazer compras na estação de serviço e voltámos ao nosso trabalho: a boleia, que apareceu poucos minutos depois… De início pareceu-nos muito interessante a boleia arranjada: o dono da viatura conduzia a mais de 100 km/h e logo na estação de serviço seguinte parou para nos comprar sumos! Parecia estar tudo a correr bem até que, ao entrar na cidade Horasan, deparámos com a estrada principal cortada devido a uma manifestação. Para mim haviam 2 soluções simples, contornar a manifestação por ruas secundárias da cidade e voltar à rota certa ou, sairmos do carro, atravessar a cidade a pé e recomeçar à boleia. Mas não, o condutor mudou de direcção e entrou numa estrada na qual as placas já não indicavam a distância para Doğubayazıt mas sim as distâncias para outras cidades a norte completamente fora da nossa rota. Pedi para parar e deixar-nos ali (ainda nos arredores da cidade) mas não, o condutor assegurou-nos que a estrada escolhida era uma alternativa boa e que uns quilómetros à frente iríamos encontrar uma estrada de novo na rota de Doğubayazıt. Contrariado calei-me, observando constantemente a minha bússola. Poucos minutos depois tinha já concluído que estávamos a fazer um imenso disparate seguindo aquela rota norte mas, que fazer naquele deserto montanhoso? Depois de sairmos de Horasan não havia mais casas, nem pessoas ou carros, apenas imponentes e belas montanhas perdidas na imensidão turca.

 

Além de estarmos fora da rota, a estrada era péssima e o ritmo da viagem abrandou de forma brusca. Comecei a recear não conseguir chegar a Doğubayazıt neste dia e muita razão tinha em pensar assim pois progressivamente o discurso do condutor tornou-se numa mixórdia de afirmações absurdas e incoerentes. Disse-nos, por exemplo, que estávamos a 25 km de Doğubayazıt quando o meu mapa e bússola me indicavam que estávamos ainda muito longe e a afastar-se de Doğubayazıt. Garantiu que chegaríamos daí a uma hora mas, passada essa hora, e de acordo com as placas de indicação, estávamos ainda muito longe! Garantidamente entráramos na rota errada, não para leste mas sim para nordeste e começámos a ficar impacientes. Para nos acalmar o condutor prometeu levar-nos até Doğubayazıt e não até à sua terra 50 km antes do nosso destino, como antes tinha sido combinado. Para mim a confusão foi ainda maior! Por que raio tinha este alucinado condutor saído da recta perfeita que nos levaria a Doğubayazıt passando obrigatoriamente pela sua terra, encaminhando-nos para uma rota que não seguia nem para uma terra nem outra. Nas melhores das hipóteses faríamos um arco por nordeste até por fim descer a Doğubayazıt. Quanto ao condutor, teria ainda de voltar à sua terra, rumando de novo para oeste de Doğubayazıt. Que confusão!

 

Álbum da viagem com o “psicopata”

 

As horas iam passando e a impaciência ia crescendo até nível insuportáveis, ao ponto de já só falar em português dentro do carro, ignorando-o completamente. Pelo contrário, o condutor parecia estar calmíssimo e a divertir-se imenso, ao ponto de parar numa aldeola no meio do nada onde nos encheu de chás e de parar já depois do pôr-do-sol para comprar uma meloa, a qual nos obrigou a comer sem fome. Ou melhor, não obrigou, mas opinou que deveríamos ter fome (não tínhamos, ainda mais com o stress!) e afirmou que só seguíamos de viagem quando acabássemos o raio da meloa! Esta gente por vezes até quer ser boa mas acaba por fazer uma grande merda. Se tivéssemos saído em Horasan e permanecido na rota, teríamos por certo feito esses 190 quilómetros restantes em menos de 3 horas, muito nas calmas, e chegado a Doğubayazıt por volta das 21h! Mas não, ainda havia uma grande filme pela frente… 20h, 21h, 22h…. o tempo ía passando, o stress aumentado e Doğubayazıt continuava sempre longe!

 

A dada altura chegámos a estar a 30km de Iğdır, uma cidade marcada não muito a norte de Doğubayazıt no meu mapa e que aparecia nas placas da estrada que seguíamos. Uma hora depois estávamos a 90 km dessa mesma Iğdır, que pesadelo! Impossível de perceber a psicologia deste bom-psicopata que dizia estar cansado e que tinha de voltar para casa para no dia seguinte conduzir um camião até à longínqua Istambul (de onde nós partíramos 2 dias antes, hehe) e, no entanto, fazia quilómetros e horas extra de viagem! Impossível de perceber a empatia de quem se oferece para nos levar ao nosso destino final e que no entanto não faz caso nenhum daquilo que lhe dizem as pessoas que ele supostamente quer ajudar: explicámos e bem que andávamos há 3 dias na estrada, que tínhamos semi-dormido a última noite num camião em andamento, que tínhamos amigos à espera para nos dar casa em Doğubayazıt, que morríamos de fadiga, que não aguentávamos mais estar sentados dentro de carros… mas não, o homem, possuído pelo demónio, continuava a inventar estrada.

 

Feliz da vida, já noite escura, apontou para um aglomerado urbano à nossa frente, muito iluminado, e afirmou: “Lá ao fundo fica Yerevan, capital da Arménia. Aqui está fronteira!”! E pois estava! Às 22h estávamos longe de Doğubayazıt e a 600 metros da fronteira com a Arménia! Que filme de terror!  Mas para quê, irra? Não restavam dúvidas que andávamos há horas a inventar caminho numa direcção completamente errada! Que filme! A partir daí começámos a ficar rudes e só repetíamos “Doğubayazıt, Doğubayazıt”. Por fim o psicopata decidiu acelerar a fundo, destruindo as suspensões do carro nas crateras da estrada mas, enfim, problema dele. Eram 23h15h quando por fim entrámos nos arredores de Doğubayazıt… mas o filme ainda não acabara!

 

Horas antes, às 20, tínhamos telefonado ao nosso amigo Mehmet em Doğubayazıt e informado-lhe que chegaríamos às 21h (previsão do psicopata). Eu pedi a Claire para dizer a Mehmet que seria “mais tarde”… Nessa altura o psicopata pegou também no telemóvel e chegou a falar em turco com o nosso amigo, mas ficámos sei saber o quê pois a chamada caiu. Perto das 23h tínhamos ligado de novo ao nosso amigo e garantido que estávamos mesmo a entrar na cidade. Mehmet, como é lógico, disse Claire que não havia problema e que nos esperava. No entanto, o psicopata pegou de novo no telemóvel, falou em turco e a chamada caiu de novo. Desligado o telemóvel, afirmou que o nosso amigo não estava à nossa espera e que só contava nos acolher no dia seguinte! Absurdo, impossível, há semanas que estava combinado chegarmos neste preciso dia a Doğubayazıt e Mehmet nem dormia de impaciência para que chegássemos. Certo é que, quando parámos numa estação de combustível à entrada de Doğubayazıt não conseguimos telefonar a Mehmet. O telemóvel estava desligado. Insistimos, mas em vão. Por seu turno, o psicopata continuava a afirmar que Mehmet estava chateado connosco e que só nos acolheria no dia seguinte. Não fizemos caso e pedimos para seguir até dentro da cidade, mas o raio do psicopata que tinha feito uma imensidão de quilómetros extra para nada agora recusava-se a entrar no centro da cidade com o carro, ali mesmo em frente,  defendendo-se com a desculpa de “não conhecer a cidade! E insistia que o melhor era irmos dormir na casa dele! Ah, mas não, mas não mesmo! Antes dormir ali no chão da estação! Tivemos que insistir e obrigá-lo a conduzir-nos para dentro da cidade! Afinal depois de 3 dias de viagem, não poderíamos morrer na praia, ficando a 4 km da cidade onde um amigo há muito que nos esperava!

 

Apesar de ser turco, tivemos de ser nós a pedir indicações aos locais e a guiá-lo até perto do centro. O psicopata, fluente em turco, “percebia” as indicações todas do avesso e teimava em nos levar para sua casa. Sem mais paciência mandámos parar o carro e fizemos o último quilómetro a pé até à rua onde se encontra a agência de turismo do nosso amigo. Faltava entrar em contacto com Mehmet, o nosso amigo. Tentámos várias vezes, com telemóveis emprestados por quem passava na rua. Nada. Desesperados começámos a afastar-nos da rua, à procura de sítio onde meter a tenda, mas seria impossível dada o amontoado de lama, lixo e podridão um pouco por todo lado… perto da meia-noite tentámos a nossa sorte com mais um telefonema e voilá, Mehmet atendeu! Estava bêbado, adormecera e desligara o telemóvel por acidente. Mas claro que nos esperava e claro que não estava chateado, antes muito preocupado. Coitado, veio a correr bêbado de chinelos e pijama suado pelas ruas de Doğubayazıt, da sua casa até à sua agência, para nos afogar em abraços e beijos!  Disse-nos que tinha muitos convidados a dormir na sua agência e, pegando-nos aos 2 pelas mãos, foi levar-nos a um bom hotel no qual pagou-nos uma noite… que filme, que filme...

 

Neste 3 dias na estrada, em vez dos 1500 km teóricos, acabámos por fazer 1850 km, e batemos de longe o nosso recorde de média diária de quilómetros percorridos à boleia! :)

 

Álbuns de fotografia

Luís Garcia, 27.03.2017, Chengdu, China

 

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