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De Cetinje a Duži, por Luís Garcia

 

 

DOS BALCÃS AO CÁUCASO – EPISÓDIO 2

De Cetinje a Duži

  

bw VIAGENS Luís Garcia

Estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem... aonde não estou. (Estou Além, António Variações)

 

06.06.2014, Montenegro - Primeira paragem do dia: o restaurante de Ivan (o “armário sorridente”), para encher a garrafa de água gratuitamente. Segunda paragem: o mesmo lugar de boleia onde não avançámos no dia anterior. E sim, o mesmo problema, boleiadores recolhidos aleatoriamente, e sempre mais e mais a chegar. Quando éramos já 9, um autocarro para Kotor passou e decidimos entrar. Não queríamos por nada perder mais um dia no mesmo lugar. Dentro do autocarro fomos encontrar um casal polaco-espanhol que nos reconheceu do voo Bruxelas-Podgorica, com quem conversámos até ao fim do trajecto trocando informações sobre destinos e países a visitar. Ah, belas coincidências de viagem.

 

Vista parorâmica de Slansko com a cidade de Nikšić ao fundo

Nikšić Lake, Montenegro by Luís Garcia on 500px.com

 

A meio do caminho parámos na cidade turística de Budva e depois seguimos até Kotor ainda mais turística, uma cidade entalada entre um belíssimo conjunto de paredes-montanha negras, e um fjord-tropical, onde faz calor, a água é quente e límpida e abundam peixes. Lugar perfeito para tomar um banho 3 em 1: lavagem, tratamento para os músculos e ossos cansados e um momento de diversão. De Kotor arranjámos boleia até Risan, e de Risan uma boleia de 2 bósnios, sem sabermos bem para onde. Pensávamos que nos levariam para a Bósnia, mas afinal iam para o norte de Montenegro. Passámos a menos de 10 km da fronteira bósnia mas não deixámos a boleia. Dada a grande simpatia dos dois homens e o facto de termos sido convidados para ficar em casa de amigos seus no Montenegro, esta boleia foi a força motriz para a primeira alteração do trajecto da viagem. Não vamos passar de leve a Croácia e a Bósnia, ficará para a próxima. Quanto à viagem do dia...  que dizer das incríveis paisagens de montanhas, vales e lagos? Ah, só mesmo vendo as fotos poderão ter uma amostra do prazer que tivemos em fazer este imprevisto trajecto. Em Nikšić deparámos com um lago imenso com ilhas espalhadas no meio, O condutor, Ziad, atento à minha ânsia de fotografar o vale de Nikšić e o lago, parou o carro e convidou-me a sair para tirar umas fotos em condições. Fez o mesmo mais a frente, em Rudopolje para fotografar uma espécie de canyon e em Juta Greda para uma garganta profunda onde passa um pequeno rio! E que dizer destes dois homens, Ziad e Suad? Divertidos, atentos e com uma vontade imensa de partilhar a vida. Suad começou por brincar com a nacionalidade de Ziad, dizendo que aquele era árabe, um terrorista, mas não, claro que não, e mais tarde ficámos a saber que tinha estudado em Riade, na Arábia Saudita, daí a piada. Para compor o tema árabe até nos ofereceram umas tâmaras vindas também da Arábia Saudita. Em Šavnik, já com muitas dezenas de quilómetros de viagem feitos, pararam num bar onde pagaram-nos uns cafés turcos... e ovos cozidos. Hehe, que granda moca! Numa absurda mistura de palavras de inglês, russo, polaco, lituano, alemão, sérvio (e por incrível que pareça até árabe) conseguimos explicar o nosso projecto de viagem que deixou-os num estado de choque entusiasmado.

 

O sol estava quase a por-se quando chegámos a Duži. Primeiro parámos numa mansão/palácio em construção com vista para uma das mais idílicas paisagens montanhosas possíveis de imaginar. Não fomos visitar os donos (que ainda não moram na casa), mas sim os colegas de trabalho (bósnios e montenegrinos) de Ziad e Suad que moram estes sim na mansão enquanto a constroem. Fomos recebidos com muita sorrisos e boa disposição, curiosidade, cerveja, comida tradicional e até música ao vivo, pois um dos trabalhadores sabia tocar e bem um instrumento tradicional da região que parece um violino de 1 corda. Era já noite escura quando chegámos a casa do nosso primeiro hóspede, um velhinho muito culto e inteligente, que construiu sozinho a sua casa com um magnífico jardim no meio de montanhas lindas com vista para a Bósnia! Apesar da hora ainda fomos para a sala “conversar” os 5. Muito interessante o serão! O velhinho mostrou-nos as suas obras de arte, o seu livro de poesia, a árvore genealógica da sua família nos últimos 300 numa folha de papel gigante meticulosamente elaborada por ele… ah, e para provar os seus dotes em geografia portuguesa, proferiu de cor e por ordem norte-sul os nomes dos rios: Minho, Douro, Tejo e Guadiana! O quarto que nos ofereceu era grande, com camas muito confortáveis, e a varanda dava para os picos montanhosos! Tivemos de compartilhar o quarto com os 2 bósnios, daí que, enquanto Ziad, ajoelhado num tapete, rezava em direcção a Meca, eu escrevia em silêncio estas linhas (mais ou menos) no meu diário de bordo...

 

Álbuns de fotografia do DIA 2:

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Luís Garcia, 30.10.2016, Hongkong

 

 
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