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De Čačak a Niš, por Luís Garcia

 

 

DOS BALCÃS AO CÁUCASO – EPISÓDIO 4

  

De Čačak a Niš

bw VIAGENS Luís Garcia

Estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem... aonde não estou. (Estou Além, António Variações)

 

08.06.2014 - Bem cedo desmontámos a tenda, fizemos as malas e caminhámos de regresso ao centro de Čačak. Precisávamos de um autocarro para sair daquela enorme zona urbano-industrial mas não queríamos gastar todo o orçamento do dia às 7h30 da manhã, de forma que apanhámos um autocarro apenas para a próxima cidade de tamanho médio: Trstenik. De Trstenik fomos de boleia até Kruševac, na companhia de Ivan e a sua adorável família que dispensou meia hora da sua vida para nos fazer uma visita guiada à cidade, antiga capital do reino sérvio. Ivan e a sua mulher são a prova viva do choque de gerações na Sérvia, aqueles que nasceram na era de Tito são, em média, cultos, interessantes, interessados, criativos, com raciocínio brilhantes, mas sempre humildes, não hesitando em afirmar que são o contrário. Os jovens, de 15, 20, 25 anos, são oposto, também em média. Gabam-se do que não sabem, orgulham-se do seu sotaque inglês-americano, aceitam MacDonalds, Rihannas e Hollywoodices sem pestanejar, e até se dão ao luxo de vestir camisolas com a bandeira dos EUA, como se não tivessem sido dizimados à 15 anos atrás pelo imperialismo militar e bárbaro de além-mar (“NEOGUERRA”, NATO E O ASSASSÍNIO DA SÉRVIA). E não têm curiosidade nenhuma quando comparados com a geração “jugoslava”… enfim. Curiosidades desta boleia: CD da Mariza no carro, garantia de Ivan de que adora Madredeus e fado em geral, informação sobre um programa de TV no qual um sérvio (que vive em Portugal à 2 anos) percorre o nosso país de ponta a ponta provando e mostrando as maravilhas gastronómicas lusitanas. Para acabar na perfeição, fizeram uns quilómetros extra para nos deixar no sítio certo de boleia, onde pouco tempo depois passou um montenegrino de Žabljak, de nome Nenad, também com CD de Mariza no carro! Incrível! E para não variar, fez uns quilómetros extra para nos deixar numa estação de combustível da auto-estrada Belgrado-Niš! Agora só faltava um boleia para chegar ao destino final do dia!

 

Antes de procurar boleia fomos beber um café turco e descansar à sombra! E ainda bem que o fizemos pois, enquanto bebíamos o café, reparámos que todos os camionistas sentados na esplanada eram turcos. Camionistas turcos é sinónimo de boleia fácil e, com os conhecimentos de lingua turca de Claire, é boleia garantida! E assim foi, ao segundo pedido já estava tudo organizado. Fomos para Niš com um senhor de natural de Bursa, que só por acaso, voltava de uma viagem de Nantes, a mesma cidade onde trabalhámos e poupámos para tornar esta viagem possível!

 

Por volta das 14h30 chegámos finalmente a Niš, terra onde nasceu Constantino O Grande!

 

09-10.06.2014 - Dois dias passados a vaguear, pela cidade, a comer fruta deliciosa e baratíssima, a comer Pljeskavicas gigantes e baratíssimas, a comer gelados deliciosos e também baratíssimos! Quanto à cidade, é interessante, muito grande e com espaço para tudo, velho e novo, indústria e espaço verde, chique e castiço, uma enorme salada ao bom jeito balcânico de encantar os olhos e ouvidos! O castelo, ah sim, o castelo e a vista para o centro, que belo passeio que por lá demos.

 

Parte má da estadia em Niš: na última noite na cidade, depois de muita caminhada e também de cansativas horas em frente ao PC organizando coisas de viajante, não pudemos descansar como queríamos e precisávamos. O nosso anfitrião Nikola, couchsurfer amigo de um amigo de Claire, lembrou-se de fazer um festão em casa dele! Às 23h eu já não conseguia manter os olhos abertos, mas a festa durou até às 5h30 da manhã. Como o quarto-de-hóspedes-para-nós e o salão-de-festas-com-música-americana-ensurdecedora-e-gajas-a-gritar-de-histeria se situavam no mesmo espaço: sala da casa de Nikola, não tive outro remédio que ir procurar outro sítio onde dormir. Tentei várias vezes à beira-rio e em parques do bairro, mas os mosquitos e cães selvagens não deixaram. Acabei por adormecer no correr do rés-do-chão do prédio! Que filme, não entendo, ou se faz festa ou se recebe convidados, ou pelo menos informa-se os convidados! É que se eu soubesse teria instalado a nossa tenda no parque ao lado e não levaria mesmo nada a mal, todos ficariam contentes, assim não, ver um convidado a dormir no chão na rua e vir prometer que se baixa um pouco a música! Ah raio de défice de empatia! Enfim, contra-tempos de viagem… Ainda assim valeu a pena pela diversão que foi a farsa de apresentação de tese de Nikola na universidade, assim como pela loucura extrovertida de Nikola, e pela simpatia e delicadeza da mãe de Nikola que vende pipocas com especiarias no parque do bairro!

 

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Luís Garcia, 07.11.2016, Chengdu, China

 

 
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