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Pensamentos Nómadas

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Crise de refugiados sírios. A sério? (PARTE 2/2)

 

 

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POLITICA  Luís Garcia

 

Porquê agora?

Bem, para ser honesto, a crise de refugiados não é de agora, e há anos que os países vizinhos da Síria acolhem juntos vários milhões de refugiados sírios, sobretudo o Líbano, a Jordânia e o Irão. Estes 200.000 que a TV garante estarem a caminho da Europa serão, a confirmar-se os números, uma gota de água num oceano de problemas. Problemas este que o português médio desconheceu ou pelo menos não compreendeu, durante 5 anos, com toda a tranquilidade, e não fez o mínimo esforço para saber mais através de fontes de informação alternativas ou pelo menos mais credíveis. De repente, quando os suspeitosos media estupidificantes e os aldrabões (por definição) dos mafiosos políticos no poder dizem que afinal "há problema", as massas acordam e entram em hipnose, em ataque cardíaco ou em crise patriótico-existencial... Enfim, é o que temos.

 

E na Europa, porquê agora? Muito simples. A crise de refugiados sírios na Europa surgiu agora nos últimos 2 meses, não porque tenha crescido exponencialmente o número de sírios fugindo do conflito (pelo contrário), mas sim porque os EUA e o Irão assinaram a meio de Julho um acordo histórico que muda por completo as regras do tabuleiro de xadrez do Médio-Oriente, O acordo era há muito esperado para fim de Junho. Atrasou-se 2 semanas devido às poderosas forças que tentaram sabotá-lo (sobretudo Israel e o Pentágono), mas a inevitável revolução geopolítica começa-se já a sentir. Analisemos as consequências deste acordo por países:

 

Síria

Em todos os acordos a dois, ambas as partes sempre ganham e perdem algo. E por norma o grande, EUA, terá de ganhar mais. Mas o pequeno, o Irão, assegurou um ponto essencial: a estabilidade política e respeito internacional pela soberania do seu aliado predilecto: a Síria. De forma que, assim que se assinou o acordo, o governo de Obama decidiu parar de entregar armamento aos grupos terroristas da Al Qaeda, ISIS e companhia, proibiu a Turquia e os estados árabes do golfo de o fazer e passou a atacar (agora deveras) as posições terroristas.

 

Até agora o que mandava fazer era bombardear instalações civis propriedade do povo sírio, como as refinarias e os poços de petróleo, supostamente para cortar as fontes de financiamento do ISIS que provinham em parte do petróleo roubado em zonas controladas por eles. Duplamente absurdo, e é preciso ser muito ingénuo para acreditar em tamanha palhaçada. Primeiro porque num mundo honesto deveria ser impossível a uma organização terrorista conseguir vender "o seu" petróleo! Então países poderosos como a Rússia, o Irão ou a Venezuela caiem em recessão ou crise económica criadas artificialmente por embargos aos seus produtos de origem fóssil e o ISIS não, saí por aí na boa a vender o seu petróleo e combustíveis no mercado negro! Por favor! E de negro não tinha nada, era bem claro. Os produtos roubados à Síria eram, para quem quis ver, transportados à luz do dia de zonas da Síria controladas por rebeldes para o estado de Israel, metidas em cargueiros na cidade judia de Haifa e exportados na boa para os nossos "civilizados" países europeus! Segundo porque, quando os EUA (falsamente) começam a atacar o ISIS, antes da assinatura do acordo EUA-Irão, não só não bombardeavam alvos militares das forças terroristas como, nas refinarias e poços de petróleo bombardeadas, não matavam terrorista nenhum. Estes foram sempre avisados com antecedência pela inteligência da NATO e as provas em vídeo mostram o bárbaro bombardeio de bens preciosos sírios vazios! Vazios sim, sem pessoas, sem terroristas!

 

 

 

Depois do acordo os bombardeamentos mudaram de estilo. Devido à insubmissão do Pentágono que funciona de facto como um segundo governo de cariz militarista dentro dos EUA e de várias figuras proeminentes norte-americanas (General Petraeus, Hillary Clinton, General Allens para citar os mais activos) com peso político real, Obama viu-se na necessidade de, caso inédito, utilizar a agência da CIA para realizar acções militares convencionais (a CIA é uma agência de espionagem e realiza operações secretas de sabotagem, quedas de regime, capturas, etc. Não faz parte das forças armadas!). Os interesses do complexo-militar-industrial dos EUA não coincidem sempre com os interesses de um dado governo, é verdade. Aqui está um belo exemplo. Bom, mas isso é outra história.

 

A outra consequência importante para os sírios foi a ordem que os EUA deram à Turquia de pararem de impedir a entrada de refugiados no seu território, nem de tampouco reenviá-los para a morte certa nas mãos dos grupos terroristas na Síria, acto quotidiano durante os últimos anos por aquelas paragens. Como era de esperar, em poucas semanas milhares começaram a atravessar a Turquia na direcção das fronteiras de países da UE: Grécia e Bulgária.

 

Ao contrário de há um ano atrás, quando era virtualmente impossível atravessar estas referidas fronteiras e quando o exército turco capturava refugiados sírios para usá-los como moeda de troca na recuperação de militares turcos capturados a combater na Síria contra o exército regular desse país, agora a Turquia aparenta ter perdido a capacidade de controlar as suas fronteiras e toda a gente as atravessa como se não existissem sequer. Como é possível uma absurdidade destas? Não sei, mas tendo em conta que a Turquia possuí um das mais modernas e poderosas forças armadas do planeta, a falta de controlo das fronteiras só pode se dever a ordens vindas de cima: EUA! Paranóia minha? Ok, mas arranjem explicação melhor.

 

Chega-se ao cúmulo de à 2 dias atrás, 17 de Setembro, assistir-se à decisão do governo búlgaro de enviar as suas forças armadas para a fronteira búlgaro-turca, em movimentações cujas proporções parecem tiradas de um cenário de guerra.

 

Dou-vos o exemplo do meu amigo sírio refugiado do qual vos relatei as desventuras vividas na Turquia no artigo À conversa com um refugiado e ex-combatente sírio. O seu maior medo era precisamente o de ser capturado e entregue como moeda de troca por soldados turcos combatendo pelos rebeldes/terroristas. Contei-vos que tentou entrar na Grécia com um passador que lhe exigiu 1500 dólares e que o deixou na merda. Conto-vos que continuou a planear passar ilegalmente, acto que sempre desaconselhei dado o risco de captura e repatriamento (enquanto desertor do deserto regular sírio, esperava-o grandes problemas na Síria se voltasse na altura). Agora com a torneira turca aberta, fiquei a saber há 3 dias atrás que já se encontra na Alemanha, são e salvo! :)

 

Outra alteração importante que influencia o futuro na Síria e, consequentemente, todos os estados que agora venham a receber refugiados desta derradeira avalanche: a NATO que, desde do início do conflito na Síria, tinha inúmeras unidades de sistemas anti-misseis Patriot estacionados na fronteira turco-síria, decidiu retirá-los, mostrando que os EUA não estão nada preocupados com o facto de deixarem essa fronteira vulnerável à entrada de terroristas desobedientes em solo turco. Daí a disfarçarem-se de refugiados e partirem para a Europa misturados com os verdadeiros refugiados vai só um passo.

 

Ou não. Ok, podem me dizer que ainda assim ficam no terreno as forças turcas, igualmente capazes de defender e patrulhar a sua extensa borda com a Síria. Tudo bem. Mas há outra forma, mais fácil e menos perceptível, para os terroristas entrarem na Turquia e no resto da Europa. Se quiserem e/ou se receberem ordens para tal: usar passaportes sírios falsos. É fácil? Sim, facílimo, por 2 razões. Primeiro porque os rebeldes que não eram rebeldes mas sim mercenários estrangeiros pagos pelo ocidente e estados do golfo, jogavam umas vezes o papel de rebeldes, noutras o de terroristas islâmicos. No primeiro papel, o de rebelde, convêm ser-se, por definição, cidadão do país em "guerra civil". Caso contrário é-se invasor estrangeiro e a guerra civil passa a ser guerra de invasão. Como em 95% dos casos eram estrangeiros, encontrou-se uma solução, oferta do governo do Qatar: passaportes falsos sírios a distribuir pelos mercenários incluídos na ficha de pagamento da aventura síria! Isso mesmo! Segundo porque, salvo a República Checa e a Roménia, os estados europeus deixaram há muito de manter relações diplomáticas com a República Árabe da Síria, de modo que não podem consultar as autoridades sírias nem pedir-lhes informação que permita distinguir refugiados sírios de rebeldes/terroristas não sírios. Aqui se encontra o único ponto que poderá satisfazer a cegueira anti-refugiados sírios de algum leitor fascista islamofóbico desatento. Desatento sim, pois poderá satisfazê-lo, sim, mas pelas razões erradas. Vai gritar que "há sempre tinha razão, os bandidos dos refugiados são todos uma cambada de terroristas do demónio!" E eu, em avanço, digo já que não, não são todos, são uma minoria, e não são sequer refugiados esses terroristas. Serão quanto muito terroristas disfarçados de refugiados. Tampouco poderá o fascista europeu culpar os refugiados vítimas há 5 anos desses mesmos terroristas. Não! Culpe antes quem os treinou e os financiou: entre outros, o  governo e forças armadas do seu próprio país! Dói a verdade? Temos pena, é mesmo para doer.

 

Restantes países

As consequências do acordo EUA-Irão para os restantes países e organizações implicadas (Irão, EUA, Turquia, Estados árabes do golfo, Israel e Palestina, Rússia e Ucrânia, Pentágono e Complexo Militar-industrial) serão explicadas no próximo artigo que levará o título de:

 

  • Acordo EUA-Irão e suas consequências geo-estratégicas 

 

Quem são afinal os refugiados da moda?

Para começar, é preciso clarificar a questão. Andamos todos a falar de refugiados sírios ou de refugiados no geral? É que há muitos anos que a Turquia é porta de entrada na UE para emigrantes e/ou refugiados provenientes do Irão, Paquistão, Iraque, Iémene, Palestina, Líbano, Palestina, para mencionar apenas os principais. A Grécia há anos que está atolada de estrangeiros ilegais e o problema começou bem antes da guerra civil síria. E como é óbvio, quando as autoridades turcas fecham os olhos e abrem oficiosamente as fronteiras à passagem de clandestinos, não há forma de distinguir as suas nacionalidades. Daí que, desta "crise de refugiados" sírios que os media tentam nos fazer crer que está a acontecer nos Balcãs, apenas uma pequena minoria vêm da Síria, e dentre aqueles que vêm da Síria, nem todos são sírios, haverão por certo mercenários estrangeiros (rebeldes/terroristas) que aproveitam a porta a aberta para entrar na Europa sem problemas. Perguntem à malta do Pentágono, eles conhecem bem a próxima missão desses mercenários: a Crimeia!

 

Voltando ao tema da origem dos mediáticos refugiados, analisemos alguns números:

 

Haverá mesmo uma crise de refugiados na Europa?

Tendo em conta que a Síria tinha mais de 20 milhões de habitantes antes da guerra à distância (de proxy, como dizem os anglófonos) que o ocidente lhes impôs, e sabendo que os turcos oficiosamente abriram as fronteiras aos refugiados para que estes inundem a Europa, não há forma de perceber por que são apenas 5000 aqueles pontapeados, maltratados e humilhados refugiados que andam para trás e para a frente nos Balcãs, marionetas inocentes da propaganda mediática e dos governos locais que descaradamente multiplicam os eventos provocados em torno daqueles de forma a parecerem 100 vez mais! Mas sim, se tomarem atenção, entre comboios para a Alemanha e Áustria, perseguições e raptos na Bulgária e na Hungria, estamos sempre a falar dos mesmos 5000. Numa Europa que recebe centenas de milhares de emigrantes e refugiados anualmente, vindos dos 5 continentes, não dá mesmo para perceber este Orwelliano aparato mediático!

 

Que os poucos milhares estejam a sofrer e que precisem de ajuda, não à forma de o negar, e estou do lado deles e de quem os alimentar, hospedar e de alguma forma os ajudar. Que aí venham mais também não digo que não pois as condições são propícias. Agora fazer crer que vivemos um Apocalipse de refugiados sírios numa contexto em que semanalmente a mesma quantidade de africanos tenta chegar de barco às costas do sul da Europa. Não, não me convencem, não há nenhuma crise de refugiado sírios na Europa.

 

Vejamos esta tabela. ela indica bem que os números de refugiados na Europa avançados pelos media lunáticos, certos ou errados, não saem da escala das centenas de milhares típicos dos últimos 20 anos (o gráfico começa em 2004 mas é sabido que à 20 anos com a tragédia jugoslava alcançaram-se valores anuais de 700,000 refugiados):

 

JPEG - 14.4 kb Fluxo de emigrantes para a União Europeia (em centenas de milhares), Fonte : Eurostat[/caption]

 

Já li por aí na web que o número de refugiados e emigrantes com Europa como destino atingirá este ano os 700.000. Sim, é grave, mas apenas uma minoria serão sírios, Sim, é grave, para os próprios migrantes e refugiados que fogem de crises económicas e guerra e que vêm agora para a Europa ser explorados. Sim, é grave, mas então e os números idênticos durante a guerra de destruição da Jugoslávia há 20 anos atrás, chocou alguém? Não, foram enormes as vagas de croatas e bósnios que inundaram a Europa e ninguém parece se ter chateado com o assunto. E ninguém parece ter reparado que na sua maioria esses refugiados dos Balcãs eram muçulmanos, sim, muçulmanos? Então e os bandidos não islamizaram a Europa, não incendiaram igrejas, não implementaram a sharia por essa Europa fora!?! Como assim? É que tenho lido também que "essa raça de muçulmanos é toda a mesma merda, todos um cambada de terroristas"? Em que ficamos?

 

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Onde há então crise de refugiados sírios?

Síria

Eu começaria pela Síria onde, de acordo com as informações estatais, quase metade da população encontra-se numa situação de refugiados internos: em acampamentos de refugiados do governo, hospedados por amigos, familiares ou simplesmente por outros concidadãos, entre outras formas. Ou seja, podemos falar de uma quantidade de deslocados/refugiados a rondar os 10 milhões, só na Síria!

 

Líbano e outros estados vizinhos

O Líbano, um pequenito país, 10 vezes menor que o nosso Portugal, além de destruído e empobrecido pelas constantes agressões do estado de Israel e apesar de acolher à décadas uma boa parte dos refugiados palestinianos vítimas da ocupaçao sionista, consegue neste momento acolher entre 700.000 a 1 milhão de refugiados sírios (dependo das fontes), ou seja uma gigantesca avalanche que corresponde a 16% ou 24% de acréscimo populacional. Comparemos estes valores com o 0,04%  de acréscimo de população em Portugal com a vinda dos 4000 sírios e percebemos que o povo luso, se não os quer ajudar, não será por não poder, mas sim por não querer. Não venham portanto com essa cantiga, essa mentira descarada de que "somos um povo hospitaleiro". Não, a ser assim não somos! Igual para a UE, cujos líderes falam de 200,000 refugiados sírios a distribuir equitativamente. Não entendo onde foram buscar esse número. Refugiados potenciais são milhões na Síria e refugiados reais são alguns milhares os que chegaram à Europa. 200,000 parece um número saído do nada, sem explicação. Mas mesmo sendo verdadeiro, numa UE com 508 milhões de habitantes, representará um acréscimo populacional também de 0,04%. Onde está a crise de refugiados na Europa? Andamos a brincar? Crise há sim, no Líbano, mas nenhum europeu parece estar a reparar.

 

A crer nos números oficiais do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, apenas 5% dos refugiados sírios se encontram na Europa. Os outros 95 por cento encontram-se a viver em apenas cinco países vizinhos. São eles: o Líbano, a Jordânia, o Iraque, o Egipto e a Turquia. Estes números são uma boa resposta aos posts e comentários no facebook de fascistas possuídos pelo demónio que insistem em perguntar "por que raio os refugiados querem vir para o nosso país e não escolhem um países vizinhos, árabes como eles e muçulmanos com eles?" Ahhh... mas é precisamente esse o caso!

 

Portanto, sim, há uma crise de refugiados.  Mas não ela não ocorre na Europa! Podem parar com a histeria colectiva porque  não se passa nada que ponha em causa a economia, a cultura ou a liberdade religiosa na Europa.

 

 Os tugas são ignorantes e alguns são fascistas

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Vejam esta apologia do desprezo pelo sofrimento humano! Esta gente que perde tempo a fazer fotomontagens e posts do género acha mesmo que a malta um dia acorda com a preguiça de ir trabalhar e decide passar a ser refugiado!?! A sério? Esta gente não mede o que diz? Não entende os conceitos de estado de excepção e de situação extrema? Acreditam mesmo que esta gente foge da morte, que morre à fome se a ajuda humanitária falha, que morre no caminho da fuga, que morre à chegada,.. porque simplesmente são calões?

 

E o país arrasado, as montanhas de mortos acumulados, os horrores vividos ou presenciados, são acontecimento virtuais? São porventura algum jogo de computador que se "mete no pause para ir dar uma mija"? Claro que não, e então a pergunta que se coloca, perante imagens como a de acima, é: como é que alguém em Portugal, na posse de todas as suas capacidades mentais, poderá acreditar que as razões para a chegada de refugiados sírios são uns T4 mobilados e uns Rendimentos Sociais de Inserção!?!

 

E quanto aos sem-abrigos portugueses (o novo cliché da direita reaccionária e dos fascisóides do costume), só os descobriram agora? Para fazer o quê, comparar o incomparável? Não se pode comparar situações crónicas com situações de emergência. Essa gente pensava assim no rescaldo do tsunami de 2005 na Indonésia? As pessoas morrem ou não numa questão de dias, de fome, de frio, de sede, se forem ou não ajudadas. Nesta situação extrema (acreditando nos números dos nossos governantes europeus) vamos acolher ou não acolher 200.000 pessoas, deixando-as morrer ou não! É só escolher.

 

Em 2005 com o  tsunami no sudoeste asiático morreram 200.000 pessoas. Em reacção a esta catástrofe, a propaganda de ajuda humanitária foi tanta e tão histérica, que em Portugal foram recolhidos fundos suficientes para reconstruir a Indonésia inteira! Exagero, de propósito. Mas a agora que a propaganda é inversa, o mesmo povo lusitano recusa ajudar vítimas de uma catástrofe de guerra. Que se passa com a nossa sociedade portuguesa? Será que ao contrário do que se crê, não somos nada livres nem donos das nossas próprias decisões, antes uns embrutecidos seres de reacções pavlovianas à beira-mar instalados?

 

Sim, há sem-abrigos em Portugal. Muitos. Demasiados sem dúvida, mas não vão morrer 200.000 nem, 20.000 nem 2.ooo nem sequer 200 este mês, quer os ajudemos quer não. E há ajuda, esta gente fascista é que não sabe. Porquê? Porque nunca os ajudou nem teve jamais a mínima intenção de fazê-lo. E quando se encontram com copos até são malta  para se divertir a espancar um velhinho sem-abrigo, magro e esfomeado. Portanto não se armem em virgens ofendidas, suas rameiras fascisóides! E fiquem a saber que 70% dos sem abrigo em Portugal, mesmo que aceitem ajuda alimentar e de cuidados médico (e ainda bem que aceitam, e ainda bem que há quem os ajude), não querem sair da rua. Os outros 30% é culpa vossa, é culpa nossa enquanto sociedade falhada, não culpa dos refugiados sírios que fogem das atrocidades pagas com os nossos impostos. Impostos desperdiçados que davam e sobravam para pagar suites presidenciais a todos os sem abrigos do mundo se não os gastássemos em guerras inventadas no Afeganistão, Iémene, Iraque, Líbia, etc. E ainda teríamos o bónus de não haver refugiados de guerra da Síria para acolher! Vantagem para os fascistas acolhedores de refugiados de má vontade, mas sobretudo para eles (refugiados) que são pessoas de carne e osso, como todos nós, que bebem, comem e cagam, que têm sonhos imbecis ou grandes ambições como nós, que querem ser jogadores de futebol ou actrizes de cinema famosos como os nossos jovens o querem, que não lhes passa pela cabeça vir queimar santuários de Fátima, vir repetir o terrorismo do qual fogem, que não odeiam religião nenhuma pois sabem melhor que nós portugueses viver numa sociedade multi-religiosa, e sei do que falo pois já estive na Síria e noutros países do Médio-Oriente. Sobretudo a Síria de Assad, antes da invasão terrorista estrangeira, era de facto um estado laico. Na mesma rua vi mulheres com véu muçulmano, mulher sem véu e freiras católicas com véu. Num país que apesar de ser vitima de ocupação militar de Israel nos montes Golâs, havia judeus vivendo em paz com xiitas, sunitas, cristãos (junto com os da Arménia são os mais antigos do mundo) e outras crenças menores, até que um dia os nossos rebeldes e os nossos ISIS apareceram.

 

Portanto, não sejam imbecis, não digam que esta gente adora barbárie, que vem exportar terrorismo, e diarreias mentais do género! Seria como dizer que o Aristides de Sousa Mendes era um tresloucado anti-patriótico por ter salvo e trazido uns milhares judeus para Portugal, os quais teriam chegado com ideias de construir em Portugal campos de concentração para os  portugueses, e exterminar os nossos avós em câmaras de gás (bom, exagero talvez. pois já visitei Auschwitz-Birkenau e, tal como diz o famoso revisionista Robert Fourisson, também não vi nem câmaras de gás, nem nenhuma prova contundente sobre a sua existência, nem tampouco lá ninguém me conseguiu convencer de tal). Espero que estejam a seguir o paralelismo. confundir agressor com vitima e, pior, acreditar que o refugiado exportará para o país de acolhimento terror semelhante aquele do qual fugiu!

 

Mas bom, em Portugal (e no resto da Europa) acredito ser possível toda a estupidez imaginável. Sim, acredito que tudo é possível desde o dia em que na minha terriola de Ribamar, concelho da Lourinhã, distrito de Lisboa, se passou esta estória: num belo de sol dia em que estava a dar Portugal-Israel na televisão do Café do Caracol, o pessoal lá presente, e que conhece bem o meu gosto para discutir política internacional, provoca-me dizendo: Ó Luís, já viste, estamos a jogar com os talibãs? E eu: O quê, um Portugal-Afeganistão? Então não era para o campeonato da Europa o jogo? Ah, Israel, estou a ver, mas pessoal, nada a ver! E eles: Sim, sim, isso, é tudo a mesma coisa. E digo eu: Afegãos não são palestinianos, vocês estão a confundi-los, e é mau pois são histórias bem diferentes. Além do mais palestinianos não são israelitas mas sim vítimas do apartheid israelita. Não confundam por favor ocupados com ocupantes! E dizem-me ele: Ah Luís, isso é tudo igual, cambada de barbudos terroristas, fanáticos e de lenço na cabeça! .... Estão a ver o filme?

 

Porque vêm para as nossas terras?

Como já foi explicado acima, estatisticamente NÃO VÊM! É insignificante a percentagem de refugiados sírios que chegou ´´a Europa ou que está a caminho da Europa.

 

No entanto existem outros refugiados e sobretudo, outros emigrantes que não cabem na categoria de refugiados de guerra (mas por que não numa outra de refugiados económicos), e que tentam sem cessar alcançar a terra prometida europeia. A esmagadora maioria vêm do Norte de África e África Subsariana, os restantes do Médio Oriente e da Ásia Central.

 

Foquemo-nos na maioria, os provenientes de África, que por norma chegam de barco às costas europeias do Mediterrâneo e que produzem, estes sim, uma verdadeira crise humanitária, uma crise de emigrantes e, se quiserem, uma crise de REFUGIADOS ECONÓMICOS. Em resumo, ao contrário do que a maioria pensa ou é levada a pensar pelos media parciais, os africanos não são mais pobres que os europeus por causa de serem menos inteligentes, mais belicosos e mais corruptos. Não, e os pretos de Cuba, um país com 100% de alfabetismo e de elevada cultura, está aí para provar que a inteligência não varia em função da raça. Mais corruptos? Também não creio, pois não há corrompido sem corrompedor, e os corrompedores de governos africanos são os milionários ocidentais com impérios económicos mais poderosos que a maioria dos estados africanos. De forma a perpetuar um estado corrupto africano e ao mesmo tempo as vantagens económicas dos ocidentais com quem compactua, há que que armar até aos dentes esse estado africano ditatorial e, com o poder físico dessas armas, reprimir e escravizar as massas desse estado. E de onde vêm essas armas? Do ocidente, uma vez mais. Nove dos dez maiores exportadores de armas são ocidentais. A China é a excepção.

 

A ditadura económica mundial, através das ditaduras políticas africanas que patrocina ou através do apartheid económico que impõe (dívidas eternas, austeridade, implementação de medidas neoliberais extremas), é em todos o caso a primeira responsável pelo empobrecimento das populações africanas e consequente êxodo rumo à Europa. Maquiavélicos perdões de dívidas (ou empréstimos bancários) em troca da aceitação de medidas neoliberais são o pão nosso de cada dia em África. Por cá, em Portugal, estes factos são de todo desconhecidos, daí que o lusitano ache sempre ache que o africano ainda mais empobrecido depois de perdões de dívidas só pode ser calão ou otário, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Também ignora a figura de otário que faz ao aceitar submissamente as mesmíssimas medidas de austeridade e reestruturação macro-económicas que destroem a África, hipnotizados que foram com a trapaça mental de "honrar a dívida".

 

Portanto sim, há uma crise de refugiados económicos, e vêm sobretudo de África. Para não estender mais este tópico, convido o leitor a assistir a um documentário onde a destruição económica dos países africanos é bem explicada com o gravíssimo caso do Gana:

 

Quand le FMI Fabrique la Misère

 

E um outro, que não sendo sobre África mas sim sobre a Jamaica e o México, fornece também uma excelente análise sobre a destruição económica produzidas pelo FMI e Companhia:

 

Life & Debt

 

Outra razão para virem os africanos até às nossas terras é mais recente e mais fácil de explicar. A Líbia rica de Gadafi (maior IDH de África e PIB per capita superior a muitos estados europeus) era um bom destino de emigração para os refugiados económicos de África. Mais, era um estado tampão que inclusive mantinha acordos e parcerias com o governo italiano que ajudavam a controlar e deter as vagas de migrantes rumo à nossa Europa. Com a invasão e destruição da Líbia, apenas porque Gadafi decidiu passar a transaccionar crude em Euros e não mais em Dólares, os estados europeus vassalos dos EUA (sobretudo a França) submissamente perderam uma oportunidade de ouro para tornar o Euro a moeda mais importante do planeta. Mais, abriram de uma vez por todas as portas da Europa aos migrantes africanos que já existiam, mais aqueles que criaram ao arrasar por completo o estado líbio. Tiros no pé atrás de tiros no pé. O patrão Tio Sam agradece.

 

Porquê o súbito interesse da política europeia e dos media pelos refugiados sírios?

Várias hipóteses me vêem à cabeça mas não posso garantir que estejam certas, apenas que possam fazer sentido dados os últimos desenvolvimentos e tendo o conhecimento de eventos históricos semelhantes. Por exemplo, o livro "Os exércitos secretos da NATO", de Daniele Ganser, é uma excelente obra de investigação na qual se podem aprender muito sobre acontecimentos históricos similares e as suas reveladoras consequências.

 

Mas vamos às hipóteses:

 

  • É bem provável que, com o caos e pavor provocado pelo sensacionalismo mediático que amplifica artificialmente a "crise de refugiados sírios", os governos europeus que encomendaram este sensacionalismo estejam a preparar novas medidas e leis que possibilitem travar de forma efectiva a verdadeira crise de emigrantes africanos. Pior, poderão usá-la inclusive para justificar a invasão armada (da qual já se fala abertamente em Bruxelas) da Líbia e outros estados do norte de África pela NATO.

 

  • Poderão estar a preparar o estado de medo propício para nos roubar a nós, cidadãos europeus, a única vantagem que ainda sobra de pertencer à União Europeia: a liberdade de movimentos dentro do espaço Schengen. Na Áustria, na Alemanha e na Eslováquia já há encerramento provisório deste espaço. Entretanto, a definitiva tragédia para os povos europeus que acaba de chegar, o TTIP (Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento), esta completamente ausente nos nossos media nacionais. Ninguém que se informe com jornais da noite, públicos ou correios da manhã jamais ouviu falar de TTIP, o que é grave. É gravíssimo desconhecer a enorme tragédia de que vamos ser todos vítimas muito em breve! E não, não é por acaso que não nos informam sobre o TTIP! Em contrapartida o Kaos En La Red e outros corajosos media alternativos dispõem de muito bons artigos sobre o tema, os quais vos aconselho ler:  http://kaosenlared.net/category/no-ttip/.

 

  • O medo de refugiados sírios e da suposta islamização da Europa produzida pelos media são ferramentas de manipulação muito úteis de controlo da opinião pública, que serão exploradas de forma pragmática quando o terrorismo islâmico criado pelo Ocidente começar a atacar em força Crimeia e noutros alvos escolhidos pelos EUA. Estão para breve e, quando começarem os ataques, estes media irão nos dizer: estão a ver como os fascistas islamofóbicos tinham razão quando afirmavam o seu ódio aos refugiados sírios! Deste modo não só legitimarão o ataque à Rússia na Crimeia com o terrorismo islâmico, como ainda nos farão sentir culpados pelo nosso humanismo de supostas consequências nefastas e abençoarão medidas como o fim do espaço Schengen ou a invasão da Líbia pela NATO. Um tudo em um, uma tremenda embrulhada que estou farto de ver acontecer, e que portanto acredito que se repita em breve. Sobre este tema aconselho a ler, entre outros, o artigo de Thierry Meyssan intitulado "Ucrania y Turquía han creado una brigada internacional islámica contra Rusia". O livro "Os exércitos secretos da NATO", de Daniele Ganser, fornece também excelentes pistas para fazer perceber que, ainda que sem provas, apenas com raciocínio lógico, os atentados de Londres a 7.7.2004, poderão ter sido uma false flag operation iguais às que estavam por acontencer na Crimeia. Esses 4 em atentados de Londres por coincidência ocorreram no mesmo dia em que as forças policiais executavam simulações de 4 atentados, ficando assim convenientemente incapazes de lidar com os verdadeiros atentados. Tenho em conta o que já se sabe sobre a presença de terroristas islâmicos chegados à Crimeira vindos da Síria, já estou adivinhar operações do género nos próximos tempos. Para quê? Ah, é óbvio!

 

  • Preparar a opinião pública, nas vésperas de algum absurdo plano contra o Estado sírio. Uma das grandes alterações estratégicas na Síria desde que os EUA e o Irão assinaram o acordo foi o sub-acordo EUA-Rússia para a instalação de forças militares russas na Síria que serão as responsáveis pela eliminação dos grupos terroristas presentes nesse país, em colaboração com as forças armadas sírias. No entanto os nossos medias ocidentais já começam, ainda que de forma envergonhada, a falar da "invasão russa da Síria", subentendo que será "preciso fazer algo". Anedótico, para não dizer algo mais ofensivo. Não entendo por que razão o governo dos EUA que assinou um acordo que leva à paz na Síria, decidiria em seguida invadir ostensivamente a Síria, muito menos com tropas russas e equipamento militar russo lá dentro (consentidas oficialmente por Obama). Não faz sentido. Ou talvez sim, mas apenas na perspectiva do Pentágono/Complexo-militar-industrial que não esconde a sua ambição desenfreada pela criação de uma 3ª Guerra Mundial. O golpe de estado na Ucrânia e a consequente tentativa de fazer a Rússia perder a sua base naval na Crimeia são um bom exemplo desta ambição. Os russos, bem melhores jogadores de xadrez, reentregaram a Crimeia na sua federação e acabaram com o assunto. Agora poderão estar tentando de novo com a Síria. Os mais importantes representantes eurpeus deste belicismo suicida, como Alain Juppé ou Laurent Fabius, para quem anda atento, andam a fazer passar a mensagem na Europa. Só não vê quem anda distraído

 

A foto de capa deste artigo

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A famosa e víral fotografia do miúdo sírio morto dando à costa não será uma montagem das forças de propaganda governamentais turcas? Vejam esta fotografia censurada nos nossos media e que eu usei como capa do artigo. Não digo mais, apenas deixo-vos a opinião de Thierry Meyssan sobre a foto acima:

 

  • "A parte esquerda desta fotografia foi repetidamente publicada pela imprensa atlantista. A vítima, uma criança síria curda, Aylan Kurdi, é suposta ter sido devolvida pelo mar. No entanto, o seu cadáver está perpendicular às ondas em vez de lhes ser paralela. A presença, sobre a parte direita da imagem, de um fotógrafo turco oficial confirma a ideia de uma encenação. Ao longe, distinguem-se alguns banhistas."

 

Albúns de fotografia que tirei na Síria em 2008

Por último, umas nostálgicas memórias fotográficas desse belo país e desse hospitaleiro povo que tenho todo o gosto em partilhar com o leitor interessado:

o povo       Aleppo       Palmira

Veja os restantes álbuns em Living A Nomad Life.

 

Luís Garcia, Lampang, Tailândia, 19.09.2015

 

 

 

 

BARRA EM CIMA

BIBLIOGRAFIA:

Livros

  • Os exércitos secretos da NATO, de Daniele Ganser
  • Confessions of an Economic Hit Man, de John Perkins
  • Os novos muros da Europa, de Carlos Santos Pereira
  • The grand chessboard, de Zbigniew Brzezinski

 

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