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Pensamentos Nómadas

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Contra a opinião

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE 

 

Sou contra a opinião. A meu entender, a máxima vigorante “Toda a gente tem direito à sua opinião” é das mais sub-repticiamente nocivas ao conhecimento humano. É como “Gostos não se discutem”. A partir do momento em que a pessoas se desenvolvem enquanto tal numa cultura que é permissiva relativamente à capacidade de qualquer um em proferir algo de relevante em relação a qualquer tema sobre o qual o/a questionem, as pessoas desresponsabilizam-se. As pessoas passam a tomar-se como suficientemente informadas sobre qualquer tema tão simplesmente por terem tido contacto com a mínima informação que lhe concerne, proferida por quem quer que seja, em qualquer situação.

 

Não nego com isto a capacidade de assimilar informação de uma forma positiva e construtiva da qual qualquer ser humano é dotado. Tão pouco enveredo por elitismos académicos, sendo que qualquer autodidata pode superar facilmente um académico em qualquer matéria, logo que a isso se dedique o suficiente. Digo apenas que a opinião, pressupondo uma formulação ideológica que se suporta sem necessidade de justificação, concorre à sobrevalorização do populismo acima do rigor e valor argumentativos e das evidências e factos.

 

Torna as pessoas incapazes de dizer “Não sei” e, portanto, aniquila o espírito científico-inquisitivo e a capacidade crítica. Algo tão saudável e bonito de se ver em crianças de tenra idade, mas que se perde rápida e progressivamente até à fase adulta do desenvolvimento humano, à custa de bombardear o indivíduo com pressupostos, normas e preceitos culturais. Porque é também isso que pretende quem brande hipocritamente o estandarte da democracia e da liberdade de expressão na representação do direito inalienável à opinião: tornar o indivíduo permissivo para com qualquer coisa que alguém profira em público. Perante uma opinião não existe discussão possível, posto que também não existe um corpo argumentativo a rebater. É como golpear o ar.

 

Não quero com isto dizer que deva ser negado às pessoas o direito de exprimirem o que tão bem entenderem, na observância do respeito interpessoal. Isso seria negar-lhes o direito à liberdade de expressão. O que digo é que a liberdade de expressão sem rigor ou critério redunda rapidamente em ruído de fundo e verborreia no espaço público.

 

E a minha tese não tem nada a ver com a diminuição intelectual de quem quer que seja, mas tão simplesmente com o apelo à humildade intelectual, à promoção do espírito científico e crítico. Se algo que a ciência (“exata” ou humana) pode implicar de positivo ao arranjo funcional do intelecto humano é, precisamente, a negação de qualquer verdade absoluta, de qualquer imperativo categórico. A ciência conduz as pessoas por uma insatisfação, pela insaciedade de se saberem na posse de uma verdade transiente.

 

A ciência aproxima-te do progresso, da mudança, do devir universal, da tua curiosidade natural. A opinião enrijece-te em convicções superficiais que, carregadas através do tempo, te mortificam intelectualmente.

Ricardo Lopes

 

 

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