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Pensamentos Nómadas

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Considerações sobre a eutanásia, por Ricardo Lopes

 

 

Considerações sobre a eutanásia

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE 

 

Vi, recentemente, este documentário acerca da lei e das práticas de eutanásia atuais na Bélgica:

 

Allow Me to Die: Euthanasia in Belgium

 

e tenho várias considerações a fazer sobre o mesmo, e sobre o tema em si.

 

São as mesmas ideologias derivadas do condicionamento cultural, dentro de cujos limites se estabelece a dita capacidade racional dos moralistas, que conduzem a um sofrimento desnecessário, e com isso deveriam estar preocupados, e não com discussões ridículas em torno de alguém poder colocar fim à sua própria vida, sem dar direito a palavra sobre o assunto a quaisquer outras pessoas.

 

O autor do documentário não sabe ser rigoroso na documentação dos casos, impingindo sempre sobre o espectador a sua visão pessoal.

 

As pessoas, e a vida delas, não é propriedade de terceiros, independentemente dos sentimentos que nutrem pela pessoa que toma a decisão de terminar a sua vida. Estas são discussões de cariz paternalista e moralista, e as suas conclusões impositivas e coercivas.

 

Se as pessoas não conseguem lidar bem com a ideia de morte, então dever-se-ia reformular a cultura no que a esse aspeto diz respeito, assim como providenciar às pessoas toda a educação cientifica em torno do assunto, tudo o que há a saber sobre o assunto, conhecimento proveniente da atividade que faz uma representação da realidade o mais aproximada possível, e não condenar moralmente – uma atrocidade cultural com repercussões graves sobre o bem-estar psicológico - quem pretende cometer um ato que diz respeito apenas a si próprio.

 

Nutrir sentimentos por outros que levam a desenvolver um sentido de propriedade sobre a vida alheia é, isso sim, um problema. As pessoas têm de perceber que a pressão psicológica e emocional que exercem sobre uma pessoa que se quer matar para que não o faça é sufocante e altamente opressiva.

 

E, depois, permitem irresponsavelmente que esta gente de merda, sem preparação para tratar do assunto seriamente, muito menos capacidade para estabelecer um distanciamento emocional do assunto, a fazer estes documentários em que pretendem manipular a informação e o público para fazer parecer que isto se trata de alguma forma de conspiração e mau funcionamento sistémico e condenar as práticas belgas.

 

Qual é a porra do problema de as pessoas que gostam daquela que pretende matar-se não sejam informadas acerca desta decisão, se assim for o desejo da pessoa? Mais uma vez, a vida do próprio é vista como propriedade de outrem por via de ligações emocionais? Os sentimentos conferem propriedade sobre a vida alheia? Quem é que é o maior doente, afinal? O que quer morrer porque está a sofrer, seja por que razão for, ou quem quer ter poder de decisão sobre a vida alheia?

 

E o gajo – o jornaleiro, o mestre do bitaite emocional, o “drama king” da razão prática kantiana, a carpideira pro bono - ainda tem a lata de ir buscar pessoas que sofreram a perda de entes queridos que tomaram a decisão de serem ajudados a morrer para construir o caso contra a lei belga?

 

Sempre que se faz um pintelho de progressão humana e social neste mundo, na forma como se trata os problemas humanos e se lida com as decisões individuais, assomam imediatamente à superfície os arautos dos velhos valores, ofendidos porque, mais uma vez, e sem que suas sumas autoridades fossem consultadas, alguém profanou displicentemente o seu santuário ideológico.

 

Metam uma porra na merda da cabecinha, por mais que esbracejem por causa disso: ninguém tem direitos sobre o que quer que seja que diga respeito exclusivo - e que envolva apenas – a alguém na plena posse das suas faculdades mentais, no que diz respeito a decisões que apenas impliquem o próprio. Todas as pessoas são independentes de qualquer outra. Bem sei que o conceito de propriedade é algo que é facilmente extrapolado do domínio material e consumista para o domínio afetivo, mas doença há de ter limites algures, embora a de muitos só termine com a sua morte.

 

Ai ui, e depois ainda acusam os médicos que se recusam a partilhar informação médica confidencial, quando estão simplesmente a cumprir com as suas obrigações deontológicas, e porque, digo eu, ninguém tem nada a ver com a informação medica de alguém que é legalmente independente de terceiros!

 

Sempre esta estupidez pegada de tentarem responsabilizar os profissionais de saúde que atendem aos pedidos dos pacientes, sem nunca considerarem que eles próprios é que pretendem exercer poder sobre a vida alheia. Toda esta manipulação emocional de merda da parte dos ideólogos pró-vida, que não querem saber de mais nada senão perpetuar um sistema cultural que faz as pessoas sofrerem desnecessariamente e projetar a sua vontade, que dizem desinteressada – à la moral heterónoma kantiana do século XVIII - , sobre aquilo que é exclusivo de cada um e nunca lhe deveria ser alienado - a vida e a morte. Todos estes esforços ridículos em tentar coagir as pessoas a adequarem-se a um mundo humano doente, e que eles próprios ainda tratam de deturpar através dos seus exercícios masturbatórios mentais, em vez de se focarem em arranjar soluções viáveis para este sistema falho e decadente.

 

Pessoas que, pelas mais diversas razões, sofrem para além daquilo que lhes é tolerável - e nem sequer importa que se tente medir isso, porque é a pessoa que deve decidir o que lhe é suportável ou não - e que, para além disso, ainda tem de estar a levar com a opressão moral e paternalista de terceiros. Para quando mais sanidade neste mundo humano?

 

Ricardo Lopes

 
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