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Chae Son, um parque nacional como os outros... ou não!

Crónicas Tais

cronicas tais quais

 

SOCIEDADE VIAGENS Luís Garcia

 

 

Esta semana, aproveitando o feriado do dia da constituição tailandesa, decidi finalmente ir visitar o Parque Nacional de Chae Son, um dos mais próximos da cidade de Lampang e do qual já muito de bom tinha ouvido falado, sobretudo devido às suas inúmeras cascatas e às suas fontes de águas termais.

 

Como em vários outros parques nacionais já visitados aqui na Tailândia, deparei com uma proibição que eu considero paternalista e desrespeitadora dos mais básicos direitos humanos (na minha perspectiva de estrangeiro europeu): umas dezenas de metros antes do início do caminho que leva às cascatas encontra-se uma quartel de inspecção de artigos ilegais indicados nos painéis em tailandês e inglês e procurados pelas ovelhinhas de serviço. É, neste e muitos outros parques do país, proibido circular com comida, bebida (água incluída) ou tabaco. Parece-vos razoável? Não, não é! Porquê?

 

Porque neste e outros parques as caminhadas de exploração possíveis (ver mesmo propostas) podem levar horas. Os fumadores podem fazer o esforço de aguentar, embora não veja eu por que razão não possam esses fumar ao ar livre, desde que tenham a consciência de apagar e deixar os cigarros nos baldes de lixo (ilogicamente, portanto) postos à disposição nessas zonas restritas. Igual para a comida, uma pessoa pode encher a barriga antes de começar a aventura mas, a meu ver, não dá jeito andar a subir rochedos e explorar florestas de barriga cheia e, uma pessoa consciente poderá sempre guardar o lixo produzido na sua mochila ou usar os tais baldes do lixo. Quanto à água, não há argumento de defesa possível! Eu já passei horas em aventuras do género e não vejo como poderia ter caminhado e escalado tanto se não tivesse traficado ilegalmente uma garrafa de água comigo! Uma garrafa deitada ao chão é lixo e fere o paraíso natural? Sim, em parte, pois com tanto cimento e construções humanas já não se pode falar propriamente de natureza virgem e, quem disse que eu iria mandar a garrafa de plástico para o chão uma vez acabado o seu conteúdo?

 

Mas não, na Tailândia, ao que parece, não existem conceitos de consciencialização e sobretudo, de responsabilização! O que impera, em total conformidade com o sistema político vigente, é a infantilização brutal dos adultos locais, a proibição por tudo e por nada e a total falta de responsabilidade pelos actos realizados. Em vez de se ensinar que encher os parques de lixo é errado, e de se explicar o porquê de ser errado, confisca-se de forma ritual aquilo que se consegue confiscar e o resto, o que passa, é ostensivamente usado para poluir e destruir essas mesmas zonas onde eu estou proibido de entrar com a minha garrafa de água, por mais que jure de pés juntos que nunca a deitarei fora, o que é verdade.

 

Resultado: quem passa na confiscação aleatória e pouco séria, fuma cigarros e manda-os para o chão. Bebe 1/5 da sua cola fresca e manda a garrafa para dentro do lago perante uma manada de ovelhas sem reacção alguma de condenação do acto nem tampouco de limpeza. Quem passa com comida faz incriveis banquetes e deixa um monte de lixo IMPRESSIONANTE, sem sequer tentarem esconder os seus actos dos olhares dos restantes visitantes ou dos guardas florestais! Sim, dos guardas florestais, pois excepto se a sua função seja a de inspeccionar na casota de inspecção, de forma robotizada, uma guarda nunca fará caso se a sua função não for essa. E é vê-los fumar cigarros nas zonas protegidas enquanto cumprem a sua tarefa diária que consiste em caminhar no parque.

 

Conclusão, uma pessoa consciente e responsável que tenha programado fazer uma exploração de um dia inteiro, ou desiste da ideia, ou tem de arranjar forma de fazer batota. Um local que passe na inspecção, pode cagar tudo, poluir tudo, partir tudo, provocar um incêndio com uma beata mal apagada que, os restantes tailandeses a centímetros de distância, guardas florestais incluídos, nunca farão uma crítica nem tampouco farão nada para remediar o mal feito! Um exemplo perfeito de sociedade infantil! Como o monge budista que encontrei uma vez no Parque Nacional de Erawan a fumar tranquilamente na zona protegida rodeado de dezenas de locais e com placas de interdição de fumar por todo o lado!

 

Mas bom, tudo o que disse até aqui aplica-se à generalidade dos parques. Agora vou vos contar o que realmente me chocou no parque de Chae Son. Ao contrário de outros parques tailandeses onde me diverti imenso a mergulhar, nadar ou escorregar de rochedos até às lagoas e cascatas, neste, não fiz nada disso. Porquê? Porque é proibido! E a proibição está escrita por todo lado em todas as cascatas e lagoas! E mais, ao contrário da comida para pessoas, a comida para peixes nas zonas de reserva natural não só não é proibida como é mesmo incentivada a sua compra! Os locais compram saquinhos com comida para peixe nas lojas do parque, passam sem problemas na inspecção de comida para humanos e vão se entreter a mandar pedaços para dentro das lagoas. Resultado: Primeiro, uma concentração anormal de peixes nas lagoas, por sinal gordíssimos, o que de natural tem pouco! Segundo, montes de sacos de plástico vazios à beira das lagoas, uma violação flagrante do principio por detrás da proibição de entrada de comes e bebes para humanos! Ou não! Afinal, isto é Tailândia, aquele país em que se aplicam regras à ocidental não porque se tenha percebido a premência da regra, e concordado com ela, mas apenas porque sim, porque fica bem ser moderno, daí que com frequência uma pessoa dê de caras com incumprimentos ilógicos mas espectáveis um pouco por todo o lado (um bom tema para uma próxima crónica tailandesa)!

 

Portanto, em Chae Son, é proibido tomar banho nas lagoas e cascatas, apesar do logo do parque estampado nas t-shirts turísticas oficiais do parque mostrarem um boneco todo contente tomando banho numa reprodução da lagoa e da cascata principais! É proibido trazer comida e bebida, para supostamente evitar poluir o parque, mas é permitido espalhar centenas ou milhares de sacos de plástico de comida para peixe, como se sacos de plástico de comida para peixe poluíssem menos que sacos de plástico de comida para pessoas! Enfim...

 

Conclusão, tailandês que venha a este parque fã-lo (mecânica e inconscientemente, seguindo a manada) para poder dar comida a peixes, tirar selfies a mandar comida a peixes ou fotografar amigos e familiares dando comida a peixes. Tal qual fazem nos restantes parques, com o extra da comida dada a peixes!

 

O que nos leva de novo ao comportamento tailandês em parque nacionais no geral. Sim, sem exagero garanto-vos que esta malta simpática vem apenas para tirar fotos juntos à tradicional placa de entrada ou juntos À Placa ou À Estátua de tirar fotos e selfies dentro de um determinado parque. Façam amizades no facebook com tailandeses e dêem uma olhada nas suas fotos de escapadelas se não acreditam! E mais esta malta trás literalmente a casa às costas se vierem para acampar uma noite: comida para um batalhão, loiça, mesas, cadeiras, televisão portátil, candeeiros, etc. E como vêm por vezes em grandes grupos, uma pessoa tem a sensação que está a acampar no centro de Banguecoque e não num parque natural perdido nas montanhas!

 

Quando a visita não inclui acampar, vêm vestidos para casamento. A esmagadora maioria não toma banho, e os poucos que o fazem, fazem-no completamente vestidos. Não critico, são questões sociais e culturais que convêm respeitar. O que me inquieta mesmo é que esses 99% vêm para parques nacionais com animais raros, plantas raras, cascatas lindas, lagoas perfeitas para nadar ou mergulhar, locais pelo menos de valor para fazer umas boas fotos de natureza, ou simplesmente para desfrutar de um contacto "meditativo" e tranquilizador com a natureza... e não, nada disso! Não, vêm para comer que nem uns porcos, sujando o mais possível e no fim, para ajudar à digestão, tiram umas boas dezenas de selfies! E eu que sempre gostei de brincar com a caricatura do saloio tuga que quando vai passear leva a bagageira do carro transbordando de farnel, ahahah! São uns meninos, os portugueses, nesta matéria! A sério, por que raio não o fazem (os tailandeses) em casa ou num parque público com mesas na cidade onde vivem! Por que raio fazem dezenas ou centenas de quilómetros até a um parque de cujas riquezas naturais se estão pouco marimbando! Parece que a resposta é uma vez mais "porque sim", seguem-se as modas, seguem-se as manadas, e ninguém parece sequer se aperceber para onde e porquê se está a deslocar.

 

Não esquecer que as entradas são praticamente gratuitas... para tailandeses. Para não-tailandeses... há a taxa de entrada estrangeira ou, como dizem os tailandeses, "foreign fee"!

 

Até uma próxima crónica! Obrigado pela leitura! E sim, podem me chamar nomes como "racista" ou "preconceituoso", ou "paternalista", ou "ocidental arrogante", pois vale tudo... mesmo! Afinal, não somos o Charlie Hebdo!

 

Luís Garcia, 13.12.2015, Lampang, Tailândia

 

 

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