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Boleias eslovenas, por Luís Garcia

 

 

BOLEIAS – EPISÓDIO 13

Boleias eslovenas.jpg

  

bw VIAGENS Luís Garcia

Esta insatisfação, não consigo compreender, sempre esta sensação, que estou a perder. Tenho pressa de sair, quero sentir ao chegar, Vontade de partir, p’ra outro lugar. (Estou Além, António Variações)

 

BOLEIAS ESLOVENAS (Eslovénia, 2007) – Ouvindo-me contar as minhas mil e uma estórias de viagens, têm me perguntado diversas vezes qual será, no meu ponto de vista, o melhor país europeu para se andar à boleia. Seria lógico que respondesse Turquia, de longe o país no qual experenciei as mais excêntricas aventuras à boleia e onde em média se espera o menor tempo até ser recolhido por alguém. No entanto há quem não considere Turquia Europa. É relativo. Geograficamente 95% do território turco pertence ao continente asiático, assim como 95% será mais ou menos a proporção das boleias que recebi no lado asiático da Turquia. Depois há um pormenor mais técnico: a maior parte dos turcos, sobretudo os de maior idade, desconhecem por completo o conceito de andar à boleia e muito nem sequer percebem o que significa uma mão fechada com um polegar apontando para cima. Quase todos param para ver se precisamos de ajuda, saber se há alguém ferido ou se nos perdemos. Na sua infinita bondade acabam por decidir dar-nos boleia. Mas aí está, na maior parte das vezes a boleia turca não é um exemplo de boleia, apenas um exemplo do quão extraordinária é a hospitalidade turca (o que não é de desprezar, evidentemente, pelo contrário). Mas, tecnicamente, nem sempre é boleia. Arredava a Turquia por questões técnicas e geográficas, a Eslovénia é sem dúvida o melhor país europeu para se andar à boleia. Porquê? Por vários motivos.


Em primeiro lugar, pára para dar boleia todo o tipo de pessoas, dos 18 aos 80, ou até mais velhos, homens ou mulheres, sozinhas ou com companhia, milionárias ou pelintras, feias ou muito belas, faladoras ou mudas, enfim, toda a gente!


Em segundo lugar, o acto de dar ou receber boleia é ainda uma espécie de instituição oficiosa, reminiscências quiçá de uma cultura socialista onde imperaria mais a sinergia do que a competitividade individual, Um pouco à imagem de países de leste como a Lituânia, Estónia ou Letónia, antigos membros do bloco soviético, que no entanto vão erdendo estes bons hábitos. Poderão contrapor-me que a razão da partilha de carros seria mais a falta de dinheiro para comprá-los do que a sinergia inerente ao sistema social. Respondo: não só mais também. Quer na Eslovénia quer nos países bálticos acima referidos, ainda hoje é muito comum encontrar jovens utilizando a boleia como meio de transporte principal para se deslocarem entre escola e casa, ou para partirem de férias. Polónia, Hungria e a ex-Checoslováquia também são exemplos do mesmo, mas em menor escala, creio eu. E hoje é o capitalismo selvagem e não o comunismo estatal que os impede de ter meios de locomoção... 

 

Terceira razão, de explicação sucinta mas fulcral: quase toda a gente fala inglês, independentemente da idade. Se não, é garantido que falam alemão.

 

Quarta razão: o tempo médio de espera muito reduzido. Eu diria em média menos de quinze minutos para se receber uma boleia, embora o meu recorde na Eslovénia seja de cinco segundos.


Quinta e mais interessante razão: a instituição da boleia está de tal forma enraizada na cultura eslovena que nem sequer é preciso indicar num pedaço de papel o nome completo da cidade que se deseja visitar. Basta escrever apenas duas letras. Não duas quaisquer mas sim as que aparecem no início de todas as matrículas eslovenas e que representam o nome da cidade em que a viatura se encontra registada. Por exemplo, se se quiser pedir boleia para a cidade de Celje basta escrever CE, de preferência em letras garrafais. Só há vantagens aderindo-se a este sistema. Quem andar à boleia pode tomar atenção às matrículas e focar-se nos carros com as letras certas. Como são precisas apenas duas letras, poupa-se imenso tempo a preparar o cartão de boleia. Usando-se as tais garrafais letras, facilitamos a vida aos condutores que passam a poder detectar o nosso destino com muito mais antecedência, permitindo-lhes ter tempo para tomar uma decisão e de desacelerar o carro de forma a pararem em segurança junto a nós e não umas dezenas de metros à frente, tal como acontece normalmente. Além de todos estes factores técnicos positivos, existe um outro de factor psicológico que poderá entrar em jogo. Se usarmos o sistema das duas letras o potencial dador de boleia recebe pelo menos uma informação positiva sobre nós, a de que conhecemos já algo sobre o seu país, pelo menos o truque das duas letras o que, não sendo de facto grande coisa, corresponde ao útil acto de dizer “Olá, boa tarde” na língua de alguém a quem estivermos prestes a pedir ajuda. A empatia linguística costuma actuar como factor decisivo para quebrar o gelo inicial e activar a boa vontade que costuma andar em stand by dentro de cada um de nós. Isto mesmo me disse uma das pessoas que nos recolheu na sua viatura, referindo-se no seu caso às duas letras pintadas no nosso cartão. Depois de parar para nos dar boleia e já dentro do carro, confessou-nos que havia se apercebido que éramos estrangeiros e que havia apreciado o facto de já nos havermos inserido no sistema esloveno, daí que tivesse acabado por decidir nos ajudar. Este sistema está de tal forma enraizado que até mesmo pessoas na casa dos oitenta ou noventa estão familiarizadas e reagem oferecendo igualmente boleia!

 

Poder-me-ão dizer que também noutros países europeus as matrículas das viaturas contêm duas letras correspondentes à cidade ou região de origem, Espanha por exemplo. Sem dúvida que sim, mas em Espanha nem vale a pena tentar andar à boleia! França sim, é um bom país para andar à boleia, mas ainda assim não me lembro de encontrar ninguém na berma da estrada com painéis indicando apenas o número da região para a qual pretende viajar. O contrário faço eu em França, tomar particular atenção às matrículas na esperança de avistar uma com o número do departamento onde se encontre o meu destino.


Exemplo perfeito da vantagem de usar o sistema das duas letras foi a boleia que eu e Diogo recebemos de Postojna até à capital da Eslovénia, Ljubljana. À saída da primeira cidade fomos recolhidos por um jovem muito simpático, agricultor de profissão e mais fluente em inglês que nós os dois juntos. Apesar da enorme velocidade com que se deslocava (100 km/h) havia tido tempo para parar junto a nós. Chegou a hesitar se pararia para nos levar, não que tivesse dúvidas de parar a tempo, mas por ter receio que o (imenso) cheiro a merda de vacas dentro do carro nos incomodasse em demasia. Ah, incomodava sim, sem dúvida, mas o mais importante era avançar, e à velocidade com que seguia não tivemos de aturar por muito tempo o fétido odor.


Exemplo do quão destemido, idoso e sábio pode ser um esloveno oferecendo boleia aconteceu nos subúrbios de Maribor, numa manhã chuvosa, quando nos encontrávamos de partida para a Hungria. Hesitando imenso sobre qual seria o melhor lugar para pedir boleia, gastámos mais de cinco minutos, eu e o Diogo, para nos decidirmos. Desde o momento em que pousámos as mochilas no chão e estendemos o cartaz com a inscrição “Hungary” até receber uma resposta levou, acreditem nas minhas palavras, apenas cinco segundos! O tempo necessário para que o senhor de 85 anos que acabara de estacionar lesse o nosso cartaz e nos acenasse. Num primeiro momento, e dada a visível idade avançada do senhor, pensámos que estivesse a resmungar connosco por termos as malas pousadas no asfalto, ou que simplesmente não compreendesse o que estávamos ali a fazer. Na dúvida recuámos as mochilas para cima do passeio. O velho continuava a acenar e começa também a dizer algo. Fui ter com ele, receoso de ouvi-lo resmungar algo em esloveno, mas não, disse-me num perfeito inglês: “então vêm, ou não vêm. Se querem boleia despachem-se pois eu aqui estou muito mal estacionado”. Que loucura! Entrámos, pois claro, e seguimos uns cinco quilómetros com o senhor que, embora não tivesse como destino a Hungria, tinha muito bom-senso e igual dose de boa-vontade. Explicou-nos que a sua boleia iria ser curta mas essencial para o bom sucesso da nossa viagem. Segundo ele tínhamos escolhido um péssimo lugar para andar à boleia, problema “felizmente com solução”. Levou-nos até a um estrada fora dos subúrbios de Maribor junto à qual se encontrava o cruzamento que dava acesso à via rápida que liga a cidade eslovena à zona fronteiriça com a Hungria. E tinha toda a razão o sábio senhor. Cinco minutos depois recebemos boleia de um casal de viajantes nómadas espanhol que nos levou os dois até às portas de Budapeste!


Para completar o quadro sobre as boleias eslovenas, falta contar o exemplo da miúda destemida e muito altruísta que nos tirou da estrada e nos levou até Celje, cidade onde uma amiga minha couchsurfer nos esperava para irmos fazer um percurso guiado pela ruínas do castelo local.


Estávamos eu e o Diogo à boleia numa saída de Ljubljana, um de polegar esticado e o outro segurando no cartaz com a inscrição CL, quando para nosso espanto vimos um pequeno carro vermelho estacionar uns metros antes de nós, conduzindo por uma jovem beldade eslovena, loira e de olhos verdes, passe o cliché. Partimos do princípio que não tinha parado por causa de nós! Impossível, dissemos um para o outro, e não ligámos. A rapariga, tal como o velho de 85 anos, começou a dar aos braços com ar de estar com muita pressa. Fomos tentar perceber qual era o seu problema e pensando que nos chamava para a ajudar a resolver um qualquer problema mecânico (passe o preconceito, e se fosse mesmo esse o caso estaria com azar que nisso sou um zero à esquerda). Mas não, tinha mesmo parado para levar aqueles dois jovens com aspecto de vagabundos. Ainda lhe perguntámos se tinha a certeza de nos querer dar boleia, e se não estaria porventura a troçar de nós. Respondeu-nos exaltada “mas qual quê, entrei que estou com pressa!”.

 

Com certeza, entrámos incrédulos e muitíssimo contentes. Afinal não tínhamos assim tanto aspecto de sermos gente perigosa como julgávamos. Não que pareçamos imensamente maus, não. A experiência de andar à boleia na nossa querida Europa é que nos ensinou que é extremamente difícil arranjar uma boleia para dois homens. Uma mulher sozinha encontra facilmente boleia, mas é igualmente arriscado fazê-lo. Duas mulheres ou um casal contínua a ser fácil. Um homem sozinho hoje em dia vê-se negro para ser levado de boleia. Dois homens juntos à boleia, têm quase tantas hipóteses de ver um carro parar à sua frente como a probabilidade de ganhar a lotaria. Pelo menos fora da Eslovénia. Dentro da Eslovénia os milagres de boleia acontecem com uma frequência e consistência incrível. De uma forma pragmática, confesso que esperávamos ter sucesso com as boleias naquele país, mas esperávamos ser recolhidos sobretudo por veículos com mais de uma pessoa, seguindo a elementar lógica dos números: um homem sozinho teria medo de dar boleia a dois homens. Para nos baralhar por completo as contas apareceu a tal beldade, mulher e sozinha!


A sua suposta bravura impressionou.nos imenso. O nosso espantou confundia de forma igual. Conversando sobre o tema enquanto nos íamos aproximando de Celje, a jovem garantiu-nos que na Eslovénia a sua decisão de nos dar boleia não tinha nada de extraordinário. Era aliás algo que considerava muito banal. Ainda bem pensámos nós. Boleia não haveria nunca de faltar naquele país!


Continuando a conversa, a jovem explicou-nos que estava “assim tão bem vestida porque ia de férias para a Áustria com uns amigos”, e “by the way”, aproveitou para nos dar uma má notícia. Teria de cortar à direita, na próxima saída da autoestrada, para seguir em direcção ao aeroporto onde já se encontravam os seus amigos à espera dela. Essa saída encontrava-se a uns meros oito quilómetros de Celje. Dissemos-lhe que não havia problema nenhum, que já nos tinha feito um enorme favor e que oito quilómetros não eram nada para quem andava à boleia na Eslovénia. Após hesitar um pouco, ligou do seu telemóvel para um dos amigos no aeroporto. Assim que desligou, informou-nos que o seu amigo lhe havia garantido que tinha tempo suficiente para nos levar aos dois até Celije e regressar a tempo de apanhar o seu avião. Dissemos-lhe que não valia a pena, que seria um risco desnecessário. A miúda, não ligou, sorriu divertida e acelerou a fundo. Nos minutos que sobravam para chegar a Celje explicou-nos o motivo da sua inesperada decisão. Sabendo que nós nos deslocávamos àquele cidade para uma curta visita de três ou quatro horas e que de seguida ainda iríamos tentar ir de boleia até Maribor (onde tínhamos casa de couchsurfer para três noites), não partiria descansada por causa da inquietação de não saber se nós encontraríamos ou não boleia para cumprir a nossa apertada agenda. De forma que nos levou até ao centro da cidade e ainda teve tempo de sorrir para a fotografia de grupo!


E bom, mais coisa menos coisa, é assim a boleia na acolhedora Eslovénia!

 

Luís Garcia, 15.10.2016, Chengdu, China

 

 

 
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