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Pensamentos Nómadas

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Acabar com as patologias

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE 

 

Há que acabar com o tratamento patologizante das pessoas que têm comportamentos que são prejudiciais para outros.

 

Ninguém nasce "criminoso", ninguém nasce "mau", ninguém nasce "niilista", ninguém nasce "psicopata" ou qualquer outra das designações subjetivas da gíria da psicologia que lhe queiram atribuir. As pessoas tornam-se em alguém que tem um determinado tipo de comportamento em consequência das associações que estabelece a nível cerebral entre as diferentes informações que recebe como influências do seu meio, sejam elas quais forem.

 

Não vale a pena vir com discursos intelectualmente comodistas, dizendo que há determinadas pessoas que partilharam um mesmo ambiente com outras que não se desenvolveram damesma maneira, e que isso é prova de que seriam intrinsecamente assim. Não existe nada de "natural", porque o cérebro humano não contém "a priori" informações que levem a que alguém se comporte de uma maneira ou de outra. O cérebro humano apreende isso do meio externo. No máximo, há uma influência pouco importante da genética. Aliás, até mesmo a genética não determina na "natureza" de alguém. Mais importante do que os genes que cada um possui, é a forma como se dá a sua expressão, e isso depende muito mais dos marcadores epigenéticos, que são adquiridos através da interação com o meio, desde o que comemos, o exercício físico que praticamos, se fumamos ou não, se consumimos álcool ou não, se consumimos drogas ou não, todas as substâncias e compostos a que somos expostos, e, também, tudo aquilo que recebemos como influência cultural.

Se não se sabe o que é que do meio em que determinada pessoa estava inserida levou a que ela desenvolvesse determinado comportamento, então diz-se algo tão simples, mas também tão complicado, como “Não sei”. “Não sei o que me influenciou para agir assim”, “Não sei o que na história dele o levou a adotar aquele comportamento”. Não se inventa tretas como “natureza humana”, que não tem qualquer validade empírica. As pessoas, tal como os restantes animais, não têm uma “natureza”. Todos os seres vivos estão equipados com um determinado sistema biológico que leva a que reajam aos estímulos externos de determinada maneira – o que se designa de tropismos – e isso determina o seu comportamento, os estímulos externos, não o sistema interno per se que conduz a determinado comportamento. Para os seres vivos cujo sistema nervoso central é complexo o suficiente para produzir memória associativa, entra em ação uma capacidade de processar estímulos externos mais complexa. Mas, ninguém é livre. Por que raio é que o ser humano se há de considerar o único ser vivo que está além das leis da natureza, ao ponto de inventar algo tão arrogante como o “livre arbítrio”? Isso não existe. Tal como não existe “natureza humana”, pelas razões que já apontei. O que existe é um organismo que reage, integra e transforma os estímulos externos em ação, através de vários mecanismos, e muito do comportamento humano deve-se à capacidade de armazenar memória e associar as memórias entre si. Também por isso é que ninguém “inventa” nada, no sentido de conseguir criar na sua mente algo “original”, que não tem qualquer relação com nada com que alguma vez tenha tido contacto. A criatividade passa por associar diferentes coisas conhecidas para criar novas, mas essa novidade resulta precisamente da associação de coisas conhecidas, a partir de um referencial, que quando é desconhecido por outra pessoa tem tendência a considerar quem criou algo de novo como sendo um “génio”, alguém “talentoso”, quando na verdade apenas não tem acesso ao sistema de referências do autor.

 

Voltando ao caso específico das pessoas que têm comportamentos prejudiciais para outras. Essas pessoas, tal como todas as outras, são o resultado das influências externas que recebem ao longo da vida e das interações complexas, através do mecanismo de memória associativa, que estabelecem entre elas. Não há ninguém “bom” nem “mau”, há pessoas com diferentes influências. Aquilo que se pode considerar cientificamente para alguém que adota um comportamento desfavorável para si e/ou para os outros é que ela padece de “doença associativa”, querendo dizer que recebeu influências que levaram a que estabelecesse um padrão associativo que é prejudicial para si e/ou para os outros.

 

Por isso, é que a única maneira de mudar as pessoas é mudar o ambiente em que nascem e se desenvolvem. Não há outra maneira. O que muda matar alguém que fez “mal”? O que muda prender alguém que fez “mal”? Se essas pessoas desaparecerem ou a sua liberdade for limitada, nada vai contribuir para o melhoramento da sociedade. Muitas outras pessoas se desenvolverão assim. Aliás, praticamente ninguém que é punido o é individualmente. As famílias também o são, e sofrem as consequências da punição de um dos seus membros. Os amigos, a sociedade em si, porque se desperdiçam recursos desnecessariamente a manter alguém sob tortura, que é aquilo que a prisão é, quando poderiam todos contribuir para modificar as condições ambientais e evitar que outras pessoas desenvolvessem “doença associativa”. Poderiam apostar na reabilitação das pessoas que já padecem dessa condição.

 

E eu bem sei como a psicologia ainda não é uma ciência, como precisamos tanto do contributo da neurociência para a tornar numa verdadeira disciplina médica. Porque não vale a pena vir com discursos subjetivos, catalogar alguém e identificá-lo com uma condição estabelecida de forma subjetiva e, se for o caso, um psiquiatra drogar a pessoa, nada disso contribuindo para a melhoria da sua condição. Tem de se fazer ainda um grande progresso a esse nível.

Assim como tem de se progredir na comunicação intercultural. Uma das formas é ensinar às pessoas todos estes mecanismos, que eu descrevi aqui de uma forma muito sucinta, mas que implicam aprender muita coisa sobre muitas disciplinas diferentes do conhecimento. E, também por isso, a educação do futuro tem de ser necessariamente uma generalista. As especializações são importantes, mas as pessoas têm de ter um sentido geral acerca de determinados aspetos, como sejam o comportamento humano, a psicologia social, a neurociência, etc. É a forma mais eficaz de levar a que as pessoas se compreendam melhor entre si. Alguém que está “equipado” com estes conhecimentos, mais facilmente consegue estabelecer relações sãs, é mais tolerante para com culturas diferentes, o que abre o caminho para questionar o seu próprio centrismo cultural e libertar-se dele.

 

Também não vale a pena tentar mudar as pessoas com discursos bonitos e ambíguos. Não vale a pena dizer que é preciso amor, que é preciso tolerância, que é preciso isto ou aquilo. O que raio significa “Ama o próximo”? Não significa nada. As pessoas precisam de ter acesso a conhecimentos relevantes e apoiados na evidência.

 

Também por isso, é que eu digo que a arte, a filosofia, o esoterismo, a religião e demais formas de atividade intelectual humana não apoiadas na evidência e na validação empírica são fontes de influências que podem facilmente contribuir para a tal “doença associativa”. Não se pode encher a cabeça das pessoas de conceitos ambíguos, de coisas bonitas e feias e esperar que elas melhorem. Aliás, tudo o que contribua para afastar as pessoas da realidade é nocivo.

 

Acima de tudo, temos de perceber que todos somos limitados, todos somos vítimas da nossa cultura. Todos somos vítimas das influências externas que recebemos, e as nossas ideias e o nosso comportamento não podem ser algo diferente do resultante disso. E aí é que está a verdadeira igualdade entre as pessoas, nesses mecanismos biológicos que levam a que processemos as informação da mesma maneira, mas que por existirem informações com conteúdos diferentes, nos desenvolvemos como pessoas diferentes. Para modificar a humanidade, é preciso modificar as condições ambientais. E isso começa pelo mais básico, que é providenciar a todos, incondicionalmente, acesso aos bens de necessidade primária: água potável, ar limpo, comida, terra arável, habitação, higiene. E continua com tudo o resto que é essencial para manter uma sociedade a operar no maior grau de sanidade possível: acesso a uma educação relevante, acesso incondicional a informação, sistema de transportes de acesso universal. Tudo isso implica uma profunda alteração da cultura e da aplicação que se faz da ciência e da tecnologia já disponível. Nunca se atingirá uma “utopia”, porque não se pode atingir uma fronteira final no que diz respeito ao melhoramento das condições de vida, apenas fazer-se o melhor possível a cada fase de desenvolvimento. E, hoje em dia, claramente não se está a aproveitar ao máximo os recursos científicos e tecnológicos disponíveis.

 

Para terminar, deixo apenas mais um exemplo de como pessoas normais se podem tão facilmente tornar em pessoas “más”, se podem “desumanizar”. Em defesa das nossas condições materiais, da nossa segurança e dos nossos valores – aquilo que se pode definir como sendo a unidade de informação cultural – qualquer pessoa pode facilmente reagir a um atentado contra a integridade de todas estas componente dirigindo ao “inimigo” o mesmo tipo de tratamento que foi dado aos integrantes da sua sociedade. Fala-se da “desumanidade” dos nazis, mas dificilmente se discute a “desumanidade” que serviu de base ao julgamento de Nuremberga. A mesma informação que tornou legítima para muitos alemães e seus apoiantes a aniquilação dos judeus, legitimou para os seus opositores o cometimento do mesmo tipo de atrocidades. E nisto não vale a pena discutir se se matou as pessoas de uma maneira ou de outra. Todos eram pessoas, e todos perderam a mesma coisa: a sua vida. Aliás, se o problema é o recurso a campos de concentração, então talvez mereça a pena saberem que também houve nazis condenados a uma pena de prisão em campos de concentração no Canadá.

 

Ricardo Lopes

 

 

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