Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

A mentalidade artística e o seu papel num sistema de escassez - Parte 4, por Ricardo Lopes

 

 

A mentalidade artística e o seu papel num sistema

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE

 

4 - Considerações finais

O que está por detrás do papel que a arte ocupa na cultura humana e, principalmente, na cultura moderna é algo extremamente complexo, e que eu poderia explicar, pelo menos na extensão até à qual tenho conhecimento sobre o assunto, mas que demoraria mesmo muito tempo.

 

O que me apraz acrescentar acerca do assunto é que é muito importante aprender a comunicar com os outros, adaptar-se e fazer cedências para promover a cooperação e o bom funcionamento social e as relações interpessoais. A solução não passa por suprimir emoções ou banir as artes. Nada disso. Aliás, eu sou contra proibições e banimentos de qualquer tipo, que apenas conduzem à alienação social das pessoas que se identificam com elas e à sua prática clandestina. Proibições, banimentos e linchamento público não servem, a não ser como solução precária num sistema que precisa que se mude muita coisa, nomeadamente a nível cultural.

 

Ao contrário do que se possa pensar, eu não sou contra a arte por ser contra tudo o que existe de emocional no ser humano. Pelo contrário, acho que as pessoas deveriam comunicar muito mais honestamente e exprimir o que sentem, porque não o fazerem é que cria a necessidade de arranjar subterfúgios como a arte, que acaba por ser também um subterfúgio à realidade. A questão é que para comunicar é preciso aprender a fazê-lo, e adaptá-lo a cada pessoa. Isso não é fácil, e nem sempre dá resultado, mas é muito melhor do que atacar os outros porque não se concorda com as suas ideias. É um equilíbrio muito frágil, porque as pessoas estabelecem relações de identidade com determinadas coisas e principalmente com ideologias.

 

Quanto ao que eu espero da humanidade, eu não espero absolutamente nada. Aliás, tanto que eu não prevejo o que vai acontecer no futuro. Aquilo que eu faço é pegar no conhecimento que adquiri através de diversas áreas científicas, principalmente ciência social, comportamento humano e biologia, entre outras disciplinas aplicadas, para me reportar à forma como se poderia empregar esse conhecimento, que corresponde mesmo a algo de real acerca do mundo e das pessoas com as quais vivemos, para mudar aspetos da cultura que representam entraves culturais, como sejam acreditar que o que se tem na cabeça sob a forma de ideias corresponde a algo de real, que a linguagem, sendo simbólica, corresponde a algo de real, questões de propriedade intelectual, de imposição pessoal, de ego, de ostentação de status moral, de ostentação de status material, e tudo o mais que são aspetos do comportamento humano que derivam do facto de vivermos num sistema cultural que foi criado e se desenvolveu em condições de escassez material e de conhecimento, e que já não faz sentido perpetuar-se artificialmente, como acontece no mundo moderno através do sistema económico vigente. É com base nisto que estabeleço a previsão de que, provavelmente, no futuro, num sistema no qual impere a sanidade mental e se tenham ultrapassado determinados preceitos culturais, e se atribua muito mais importância às evidências e à validação empírica do conhecimento, não existam atividades como a arte, tal como hoje já existe muita gente que olha para a religião da mesma maneira e considera que não faz sentido existir numa civilização avançada, na qual a vida é pautada pela ciência.

 

Agora, nem a religião, nem a arte, nem qualquer outra atividade ideológica são a causa ou a fonte dos problemas que existem no mundo. Pelo menos, não se pode, de todo, considerar que estejam na sua origem. Todos esses métodos ideológicos são, essencialmente, formas primitivas de tentativas de conhecer o mundo ou de lidar com fenómenos inexplicáveis. Mas o comportamento humano deriva, primordialmente, do facto de se viver em sistemas de escassez consecutivos. Por isso, é tão fácil identificar características comuns, em termos comportamentais, entre pessoas que viveram em qualquer época histórica anterior àquela em que vivemos, e os nossos coetâneos. Aquilo que considero importante é que as pessoas sejam imunizadas contra os perigos inerentes à atividade artística, tal como muita gente já o é em relação à religião, podendo ter contacto com ela e não se deixar afetar, nem por isso a adotar como sistema de crenças. Também é importante que se faça oposição aberta ao que artistas, tal como se deveria fazer a outros ideólogos, transmitem em praça pública, e que, infelizmente, é considerado ainda por muitos como informação relevante acerca do assunto que estiver a ser tratado, para além de ensinar as pessoas tudo o que se sabe acerca da mentalidade artística e, principalmente, fazê-las perceber que, tal como acontece com a religião, tudo o que provém das artes não passa de algo fictício e que em nada corresponde ao mundo real. A mim, preocupa-me muito aquilo que pessoas que têm muita atenção e a quem é dado tempo de antena na praça pública transmitem como informação e a forma como influenciam as outras pessoas, que é algo muito mais importante e abrangente do que um dito anónimo pode fazer. Uma ideia como a do amor romântico pode disseminar-se (e disseminou-se, efetivamente) na cultura e ter uma força enorme na forma como, hoje em dia, as pessoas lidam umas com as outras em termos de relacionamento amoroso e como constroem as suas relações com base nesses ideais. E, neste caso, até foi algo criado pelos artistas e da sua inteira responsabilidade.

 

Todas as artes têm as mesmas características em comum, no que concerne à forma de apreender o mundo, que eu enumerei e descrevi. A palavra é um símbolo de algo, e não esse algo. A língua não corresponde a algo de real. E, mesmo em ciência, a linguagem que se usa é uma representação da realidade. E o ser humano está sempre limitado. A questão é que, dentro dessas limitações, que vão reduzindo também com a criação de instrumentos de estudo do universo cada vez mais aprimorados e rigorosos, a ciência é uma atividade na qual se valida o conhecimento empiricamente. Ou seja, não interessa o que quer que seja que alguém pense, se isso não for validado empiricamente através de experiências, recolha e tratamento de dados, então não constitui conhecimento. Este é o aspeto que diferencia o método científico e uma atitude empirista de todas as atividades a que eu costumo chamar de "ideológicas", como as artes, a filosofia, a política, a economia, o misticismo, a religião, etc.

 

O que eu quero dizer e reforçar, é que eu percebo porque é que existe arte e determinadas pessoas sentem necessidade de se exprimir dessa maneira. O problema está naquilo que eu referi, quando as pessoas começam a confundir ideias com realidade, símbolos com a realidade.

 

É óbvio que se eu ler, vir ou ouvir uma obra artística, eu sinto qualquer coisa, seja o que for, sinto-me bem ou mal, dependendo. Agora, a questão aqui é que a arte não tem o monopólio da expressão emocional nem das emoções. As emoções não são um exclusivo da atividade artística.

 

Para começar, aquilo que eu (ou outra pessoa) possa sentir quando vejo, leio ou oiço algo depende daquilo para o qual fui condicionado. Como deve ser fácil de perceber, pessoas de culturas diferentes, acham piada a coisas diferentes, experimentam emoções diferentes perante coisas semelhantes ou emoções semelhantes perante coisas diferentes. E o condicionamento a que somos sujeitos não depende apenas da cultura em que estamos inseridos, mas sim também da nossa própria experiência, que pode reforçar ou não o que a cultura nos transmite. Pode-se receber influências de diversos tipos, e tudo aquilo com que temos contacto nos molda enquanto pessoas, até porque aquilo que nós somos está contido no nosso cérebro, e já está demonstrado através da neurociência, que o cérebro é plástico e permeável, ou seja, muda, as conexões neuronais mudam, através da influência exercida por fatores externos, e é permeável a esses fatores que provêm do ambiente (que é tudo, desde a cultura à nossa experiência pessoal).

 

Portanto, como cada artista é apenas capaz de se reportar a si próprio, uma vez que a arte gira em torno da componente emocional do ser humano, e ninguém tem acesso direto ao que outras pessoas sentem, e pode apenas recolher informação disso através de símbolos, que são as palavras e a linguagem no geral, então aquilo que resulta da arte só pode ser o que o indivíduo experimenta na sua vida emocional e que tenta traduzir, seja em palavras, em sons, em imagens, em pinturas, a dançar, a esculpir, ou o que quer que seja a forma como decide exprimi-lo.

 

O que eu também quero dizer com isto tudo é que nem as artes são necessárias ao desenvolvimento emocional das pessoas, nem pessoas que não se interessem pelas artes são mais pobres emocionalmente do que quem é. Os artistas, ou os apreciadores de arte, simplesmente desenvolvem maneiras de se expressar emocionalmente de formas mais diversificadas, mas não necessariamente menos limitadas do que as outras pessoas. Por isso, também, é que eu digo que é tão importante que as pessoas aprendam a comunicar e a serem honestas umas com as outras, porque terminantemente nós apenas temos acesso ao "universo" emocional do outro se ele nos comunicar acerca de tal, sempre limitado pelo simbolismo da linguagem. A linguagem é altamente limitada quando se trata de alguém se reportar ao que pensa e sente. E simbolismo pode ser qualquer coisa, desde a palavra falada, à escrita (que não são equivalentes), à expressão corporal, à composição musical, etc.

 

Agora, como eu disse, não faz sentido banir nada disso, e eu compreendo que haja pessoas que sentem necessidade de ter contacto com arte e produzi-la para se expressarem. Mas, isso resulta de um condicionamento cultural e circunstancial para isso. Assim como percebo que haja pessoas que tenham necessidade de religião ou de outra coisa qualquer, porque isso faz parte da sua identidade pessoal. Agora isso não torna imperativo que alguém, para ser humano, necessite também disso.

 

O grande problema das atividades ideológicas, e em particular a arte, reside principalmente em não se conseguir ter contacto com algo inventado e lidar com isso como aquilo que é.

 

Como disse, uma pessoa não religiosa pode ter contacto com religião e não se torna religiosa nem se deixa influenciar necessariamente. Claro que pode ficar sempre exposta às ideias e numa determinada situação futura de, por exemplo, grande stress emocional sentir-se tentada a ou até aderir a elas, mais uma vez por desespero e por não encontrar recursos para lidar com a situação de outra maneira. O busílis do comportamento humano em todas as culturas que existiram até agora é escassez de recursos. Sempre. Numa situação de abundância, como nunca existiu até agora, muita coisa simplesmente não seria necessária ou não se criaria, de todo, para lidar com determinadas situações. E custa muito às pessoas perceber, mas tudo o que existe de ideológico brotou de uma condição de escassez e da necessidade de controlar o comportamento humano em tais circunstâncias. Tudo o que há de ideológico não é causa de nada no comportamento humano, a não ser a posteriori, quando integrado culturalmente e exercendo influência sobre os indivíduos. Mas, primordialmente, provém de uma situação de escassez. Escassez de recursos intelectuais para explicar determinados fenómenos naturais e o comportamento humano que resulta de uma situação de escassez.

 

Escassez de recursos materiais que conduz à necessidade de desenvolver determinados aspetos em termos de personalidade para poder sobreviver. Moralidade para controlar o comportamento humano, que não se consegue explicar de uma forma científica. Leis derivadas dessa moral para coagir o comportamento humano pela via física. Hierarquização social para proteger os privilégios de acesso a recursos escassos. Entre outras finalidades e outras ferramentas de controlo social, mas sempre tudo a girar em torno da escassez de recursos.

 

E o mesmo se aplica às relações humanas. Um número limitado de pessoas com quem alguém se pode relacionar modela o tratamento que é dado às relações e as ideias desenvolvidas em torno da forma como as pessoas se devem relacionar. Por que é que convém um modelo de relacionamento eterno entre duas pessoas? Porque a perda de uma relação, num mundo de relacionamentos escassos, é muito penosa emocionalmente, e convém que a pessoa por quem nos apaixonamos corresponda ao nosso ideal, porque há outra coisa que também é naturalmente escassa, e que até ver não há solução artificial para isso: o tempo de vida.

 

Portanto, principais fatores que determinam a vida em sociedade num sistema de escassez: escassez de tempo, escassez de recursos materiais indispensáveis à vida, escassez de relacionamentos humanos, escassez de conhecimento.

 

Solução para a escassez de recursos materiais: tecnologia. Solução para a escassez de relacionamentos humanos: comunicação real e efetiva. Solução para a escassez de conhecimento: ciência. Solução para a escassez de tempo: até agora, não há, mas é sempre possível aumentar a esperança média de vida através do desenvolvimento científico e tecnológico.

 

Por fim, é necessário alertar para a importância de tratar com cuidado toda a informação que se utiliza quando se estuda o comportamento humano, devendo-se sempre, dentro do possível, fazer correções para que os resultados sejam interpretados de acordo com o contexto em que se produz tal comportamento e não para supostos mecanismos inatos com que o cérebro vem incorporado desde o nascimento, ou ainda desde uma fase anterior ao desenvolvimento embrionário. Nunca é demais reforçar que algo que é comum, até ao momento, em todas as culturas que existiram e com as quais coabitamos atualmente, é o facto de se terem gerado e desenvolvido num sistema de escassez, aos níveis já apontados. Assim sendo, não é de estranhar que se encontrem manifestações semelhantes do comportamento humano. Daí provém o pessimismo até de muita gente das ciências sociais, de historiadores, e demais pessoas que se dedicam ao estudo de temas “transhistóricos” e transculturais. Perspetivando o comportamento humano como apresentando características universais e inalteráveis, e por não corrigir de acordo com o contexto, facilmente se cai no erro de considerar que, então, sempre tudo foi, é, e será de determinada maneira. Também tal conduz a menosprezar, ou desconsiderar completamente, a possibilidade de identificar os fatores ambientais que conduzem as pessoas a determinados comportamentos e arranjar soluções para os eliminar ou modificar. Tal crença pode ser reforçada quando se toma como modelos de estudo crianças já a partir do momento em que têm uma base de comunicação com elas, ou adultos.

 

Por não terem acesso ou ignorarem a importância destes conhecimentos, é que também se despreza o enorme potencial de mudar o mundo através da ciência e do método científico de aquisição de conhecimento (acerca do mundo real).

 

Também é comum, e isto é algo muito explorado por artistas, principalmente no domínio da ficção científica, interpretar negativamente o potencial da ciência para modificar o comportamento humano, associando a receios em torno das mais diversas ideias e projeções que fazem em torno da “engenharia social”, como se pode ler em obras como “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, ou “1984” de George Orwell.

 

Aquilo que estas pessoas que cultivam um discurso do medo realmente temem, quando falam em “engenharia social”, já existe, já se faz de qualquer maneira, e sempre se fez, através da cultura, do sistema de ensino, da televisão, dos meios de comunicação social no geral.  Não se trata de uma grande conspiração para tornar as pessoas em autómatos ou robotizá-las. Não tem de ter nada a ver com isso, é apenas uma questão de se fazer uma aplicação correta do conhecimento científico e da tecnologia. Tudo depende da forma como se aplica conhecimento relevante acerca do mundo real, e não de projeções que ideólogos se entretêm a fazer, extrapolando da “frieza” da tecnologia e da ciência para a “frieza” dos humanos resultado da “engenharia social”. O importante, no meio disto tudo, é perceber que as pessoas, por si só, não são nada nem carregam em si uma essência composta por ideias, valores, emoções, ou qualquer outro tipo de conteúdo. As pessoas são o resultado do ambiente em que vivem e das influências que recebem de tal ambiente, desde culturais a físicas.

 

Não queria terminar antes de fazer a ressalva de que este texto não procura esgotar, nem de perto, o tema da mentalidade artística, dos efeitos que tem no relacionamento interpessoal, das influências que a arte opera na componente abstrata da cultura humana. Utilizei aqui os conhecimentos que fui obtendo, não só em relação aos artistas e à sua forma de conceção artística, com quem fui tendo contacto ao longo da minha vida, de uma forma mais ou menos direta e mais ou menos pessoal. Procurei ser o mais rigoroso possível recorrendo a conhecimentos provenientes das ciências sociais, da neurociência e da biologia, evitando tratar tal informação de uma forma demasiado exaustiva, e pegando apenas nos pontos essenciais desse conhecimento para os aplicar ao tratamento deste tema. Procurei, também, evitar o recurso a conceitos da psicologia e psiquiatria, que são demasiado vagos. Ao mesmo tempo, tentei evitar tecer considerações acerca das emoções que os artistas sentem, tentando recorrer apenas a aspetos gerais do seu comportamento que permitem deduzir o seu comportamento psicológico. Recorri ao meu próprio caso, enquanto pessoa condicionada pela cultura artística e outrora produtor de arte, procurando sempre, dentro do possível, estabelecer paralelos com outros artistas, com todas as limitações que isso acarreta e, portanto, tudo o que aqui apresentei que não fundamentado cientificamente carece de validação empírica.

 

Ricardo Lopes

 

 

 
Vá lá, siga-nos no Facebook! :)
visite-nos em: PensamentosNómadas