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Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

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A guerra na Síria: um flashback

POLITICA Luís Garcia

 

 

Refugiados sírios. Neste momento não se fala noutra coisa na TV, nos cafés ou nos media sociais como o facebook. Porquê? Porque de um dia para o outro o altruísmo europeu cresceu exponencialmente? Não acredito. Porque de um dia para o outro houve um crescimento exponencial de refugiados sírios a caminho da Europa? Não, mentira. Porque há uma crise incontrolável de emigrantes e refugiados? Não, os números desmentem-no. Neste momento "há" refugiados por 2 razões interdependentes: os media criadores de opinião receberam ordem patronal para fazer crer em tal; os dirigentes políticos europeus receberam ordem patronal para mediaticamente fazer com "os refugiados sírios" o espalhafato que nunca fizeram com refugiados de outras origens (na mesma escala de números). 

 

E a força motriz por detrás desta tremenda confusão, desengano e paranóia? Eu aposto que a resposta esta contida no histórico acordo entre os EUA e o Irão assinado em Julho passado, o qual, pela vontade de Washington e contra a vontade do Pentágono, redefine por completo a estratégia politico-militar norte-americana no Médio-Oriente, que passa da Teoria do Caos  (do general  Petraeus, de Hillary clinton, do general john Allens, e companhia) para a divisão do Médio Oriente por 2 súbditos dos EUA. Um antigo: A Arábia Saudita, e um novo: O Irão.

 

Onde entram os refugiados sírios nesta história? Simples: O acordo EUA-Irão inclui ganhos e compromissos para ambas as partes, logicamente. Um dos ganhos principais para o Irão neste acordo será a estabilidade política nos estados aliados do Irão: Síria! Para tal os EUA têm agora de correr contra o tempo e limpar a merda que lá fizeram: terrorismo ISIS/ALQaeda/Rebeldes. Quando mercenários-terroristas pagos, como estes, recebem ordens para sair de um local de trabalho, terão de ir para outro, e neste momento saem a caminho da Ucrânia misturados na "crise de refugiados sírios" que os EUA montaram nestas últimas semanas.

 

Paranóia minha? Ok, fechem a janela do vosso browser agora se vos dá gosto não pensar nem reflectir, se vos agrada seguir obedientemente a propaganda de sempre, se vos assusta a possibilidade desconfortável de uma mudança de 180º na história que se habituaram a acreditar. Caso contrário, convido-vos a ler este artigo em 3 partes que escrevi no início de 2012 sobre o complôt de que a Síria começava a ser vítima, enquanto escrevo este fim de semana um artigo sobre a actual "crise de refugiados". Eu nunca disse ser dono da verdade, posso perfeitamente estar enganado nas minhas análises políticas mas, pelo menos, baseio-me em análise crítica de factos, em comparação com acontecimentos históricos em busca de paralelismos e de clarificadores exemplos passados, esforço que se encontra nos antípodas do que se faz nos jornais e canais de TV nacionais. Aqui fica o artigo de 2012:

 

PARTE 1/3

 

A REALIDADE SÍRIA

 

 Tendo viajado pela Síria no verão de 2008, inclusive por algumas das cidades que hoje fazem as manchetes da nossa ocidental máquina de propaganda, foram várias as situações que me possibilitaram constatar o défice democrático do regime de Bashar Al-Assad, nomeadamente o contacto com a sua população imensamente ignorante e pouco disponível para debater o assunto regime sírio. No país onde se encontra a mais antiga cidade do mundo ainda habitada - Alepo -, e onde algumas das principais e primeiras civilizações ocidentais despontaram e floresceram, é triste constatar que hoje em dia, por exemplo, um estudante do ensino secundário sírio não faça a mínima ideia "onde fica a Europa", e muito menos Portugal, e seja obrigado a ver a cara do seu "estimado" presidente em todas as esquinas e ruas do país. Tal nível ignorância por entre quem é suposto estar mais informado que a média nacional não será por certo obra do acaso. Basta lembrar a famosa saída de Salazar, quando se deu ao luxo de afirmar em público que uma população ignorante era mais facilmente controlável. Será também, creio, o caso da Síria de Bashar Al-Assad. Mas é premente relembrar que Salazar foi eleito O maior português de sempre (Os Grandes Portugueses) por uma população que hoje em dia, diz-se, vive numa democracia. Portanto, quem somos nós para julgar o apoio popular sírio ao seu ditador de estimação, quando nós próprios estimamos o nosso que já não é de uma ditadura que já se foi...

 

Diria mais, felizmente, e ao contrário das farsas de golpes de estado da América Latina, como o Chile ou a Nicarágua, o de Portugal não foi realizado pela CIA em nome dos "interesses nacionais dos EUA", mas sim por civis e militares de baixa patente que aprenderam na guerra do ultramar os ideais da independência, auto-determinação, liberdade e ânsia por democracia. Hoje em dia sabemos, através de documentos do Pentágono entretanto desclassificados que os EUA estavam prontos para publicitar na propaganda ocidental e realizar uma revolução do "oprimido povo açoriano", de forma a garantir a perpetuação da sua Base Militar das Lajes caso o povo português democraticamente decidisse virar à esquerda comunista. Felizmente ou não, os mesmos brincalhões americanos conseguiram, após várias negociações secretas em Bruxelas, limpar tudo o que fosse de esquerda nos governos provisórios que entretanto passaram a ser estáveis, e "recompensados" com a aproximação à CE. Não me parece ser o caso da Síria: os brincalhões americanos, sim, cá estão de novo a engendrar mais uma das suas, querendo isolar em definitivo o Irão pela conquista do seu aliado e vizinho, mas não, desta vez não vão haver negociações secretas em Bruxelas.

 

O DESCONTENTAMENTO SÍRIO

 

Por certo que existem sírios descontentes com o regime em que vivem, e ainda bem. Concordo plenamente que o povo sírio merece mais e melhor mas, tal como no caso de Portugal, tal deverá acontecer pelas mãos do povo descontente entretanto maioritário e imparável. Por muito que quisesse, nenhum ditador até hoje aniquilou a totalidade da população descontente do seu regime, primeiro pela impossibilidade material de o fazer, e em segundo porque seria inútil para si próprio pois perderia o poder de dominar quem até então era seu súbdito. Sim, é certo que pode um ditador dizimar uma considerável parte da sua população, mas a história mostra-nos bem que tais actos foram na maior parte das vezes motivo para o começo de revoltas organizadas.

Não é o caso da Síria actual. Sim, têm havido protestos, sim, tem havido violência e inclusive mortes. Não houveram também protestos, violência e mortes em 2006 em França e em 2011 no Reino Unido? Sim, mas e o que nos disse a nossa caixinha mágica e a sua propaganda? Mmmm, que os motivos da violência eram infundados, que os seus perpetradores eram anárquicos, terroristas ou bandidos, e que, na sua óbvia minoria não representavam a vontade popular gaulesa ou britânica. Pois bem, que seja. Mas então, e que dizer de protestos de 100 ou 1.000 ou 10.000 sírios num país com mais de 20 milhões de habitantes?

 

O APOIO POPULAR A BASHAR AL-ASSAD

 

Se até à poucos meses não seria de esperar encontrar na Síria muitos sírios vindo à rua demonstrar um improvável apoio ao seu ditador, hoje, graças às evidências de um golpe de estado sendo programado externamente, mais o medo da perda de soberania para o ocidente, mais o medo da guerra e barbárie trazida pelos EUA e a NATO, multidões de centenas de milhares de cidadãos encontram-se nas ruas com cartazes de apoio a Bashar Al-Assad e posters deste, sendo atacados e mortos não se sabe bem porquê nem por quem.

 

De tal maneira um facto que numa pesquisa feita à 5 minutos no google por imagens de "protestos na Síria", a maior parte dos resultados apresentavam imagens de manifestações de apoio ao presidente. Mais, boa parte das imagens anti-Al-Assad são de protestos ocorridos fora da Síria e, para cúmulo propagandista, encontram-se também muitas imagens de manifestações pró-Al-Assad erroneamente rotuladas de manifestações anti-Al-Assad. Dois bons exemplos desta muita baixa e vil propaganda em língua portuguesa: Exame.com.br ou Veja.com.br, do Brasil e, mais rídiculo ainda, este de um site português, que mostrando uma foto de apoiantes de Al-Assad, afirma que "os protestos contra o Governo de Bashar Al Assad já fizeram mais mortos": tvnet.sapo.pt. Se se prestar atenção aos resultados nos motores de busca, é espantoso notar que, pese embora a maioria das fotos seja de manifestações pró-Al-Assad, mais de metade destas contêm de facto títulos afirmando o contrário ou estão anexadas a notícias afirmando também o contrário! O mesmo acontece, com seria de esperar, com várias outras línguas.

 

Voltando ao apoio popular a Bashar Al-Assad, é triste constatar que um ditador seja agora apoiado pelos seus súbditos por força de temerem os mal maiores acima citados, que é como quem diz, graças à farsa de golpe de estado inventada pelos EUA com o objectivo mais que óbvio e até já confessado de cercar cada vez mais o Irão, o povo sírio apoia agora aquele que antes mereceria ser atacado e retirado do poder pela vontade popular. Mas, de um ponto de vista pragmático, o povo sírio está a rumar no sentido certo. Importante, por agora, é evitar ser mais um palco para as chacinas norte-americanas: sangue, morte, destruição, violência, terrorismo, perpétua incerteza e instabilidade. Apesar de tudo, na Síria vê-se TV, e ninguém quererá no seu país aquilo que viram e vêem acontecer no Iraque e no Afeganistão. Se forem bem sucedidos e/ou os pesos pesados da geo-estratégica mundial não permitirem desta vez uma invasão norte-americana, terão então todo o tempo do mundo e quiçá até mais discernimento sobre os seus direitos enquanto cidadãos sírios para derrubar popularmente o seu ditador e presidente Bashar Al-Assad.

 

Luís Garcia, 7 de Fevereiro de 2012, Toruń, Polónia

 

PARTE 2/3

 

REPRESSÃO DE PROTESTOS CIVIS

 

 Não nego que ocorram protestos civis na Síria contra o regime anti-democrático estabelecido, nem tampouco nego que protestos pacíficos do género sejam reprimidos violentamente pelas forças policiais e/ou militares. Mas interrogo-me sobre a dualidade de critérios exposta nos media ocidentais sobre a matéria. De cada vez que se organiza uma cimeira da organização terrorista da NATO, ou do G8 agora transformado em G20, os protestos civis e pacíficos são tratados sempre da mesma forma: carga policial, jactos de água, cidadãos presos, tudo isto dentro de países supostamente democráticos. A propaganda mediática ocidental apresenta-nos como sendo normal oprimir e violentar os nossos próprios povos - nós - para que se silencie as vozes descontentes sobre reuniões de senhores que se protegem (de nós) com múltiplas barreiras de segurança, milhares de forças especiais, snippers, helicópteros e tanques de guerra. Tudo isto, ocorrendo no ocidente dito livre, aparece na caixinha mágica rotulado de normal, óbvio, banal. No sentido inverso, quando protestos pacíficos são reprimidos num país não democrático noticia-se "o horror, a tragédia"! Não deveria ser ao contrário, não deveria a nossa (supostamente) livre imprensa questionar os porquês de tanto aparato militar em torno de quem nos quer (supostamente) bem, para os proteger precisamente de nós próprios e, mostrar-se menos surpreendida e menos sensacionalista sobre medidas anti-democráticas tomadas em regimes manifestamente não democráticos?

 

Podemos ir ainda mais longe: por que razão os nossos media não separam o trigo do joio, explicando a quem não esteve presente numa dada manifestação anti-NATO que 95% dos manifestantes eram pacíficos, apenas entoando cânticos e levantando cartazes, e que sempre, mas sempre mesmo, aparecem posteriormente, nunca se sabem bem de onde nem porquê, um pequeno grupo de gente encapuçada entrando a partir, incendiar e espancar? Eu sou levado a crer que estes encapuçados, desprovidos de quaisquer mensagens políticas ou ideológicas sejam trazidos e preparados por quem entende e bem que é preciso dividir para reinar, e de preferência espalhar o caos informativo, mas mesmo que não, mesmo que esses 5% de arruaceiros sejam genuínos manifestantes, será legítimo espancar e prender todo e qualquer manifestante que tenha o azar de passar demasiado perto de "agentes da ordem"? Se o é, então para que raio se espantam os mesmos media com a repressão de protestos na Síria? Brincamos?

 

E ainda estou para ver acontecer na Síria o que aconteceu à algumas semanas atrás nos EUA: um grupo de adolescentes, manifestando-se pacificamente, sentados no chão em silêncio, teimando em não arredarem pé, ser violentamente atacado por um grupo de policias; enquanto alguns orangotangos lobotimizados seguravam nas vítimas, outro abria os olhos destes à força, e um outro pulverizava gás mostarda nos olhos...

 

MODUS OPERANDI

 

Se existem protestos pacíficos, existem outros, menos pacíficos e certamente não enquadrando a definição de protesto, que têm sido a maioria, logicamente atacados militarmente pelas forças armadas sírias. São também estes protestos de que mais se ouve falar nos media ocidentais. Digo "protestos" porque assim lhes chamam os ditos media, mas são de facto grupos armados atacando alvos por vezes militares mas, na maioria das vezes, civis. Qual é a reacção óbvia e esperada de um líder de um país, democrático ou não, perante manifestos ataques bélicos? Ripostar, pois claro. Qual é o espanto?

 

A mim o que me espanta é que haja armamento em tão grandes quantidades nas mãos de supostos civis, organizados assim, a partir do nada, sem dinheiro nem conhecimentos para adquirir armamento, mas fazendo-o, pelos vistos, num ápice, como se os lança-rockets, as espingardas, os jipes, e até mesmo os tanques caíssem de para-quedas. Mmmm, às tantas caiem mesmo de para-quedas! Afinal já vimos o mesmo acontecer na Líbia, onde ao terceiro dia de protestos já havia futura bandeira oficial e até um banco revolucionário com 50 mihões de dólares em depósitos. Se um bando de nómadas analfabetos do deserto líbio consegue realizar improbabilidades tais, por que não haveriam de o conseguir também os citadinos sírios...

 

É claro que a Líbia não passou de uma farsa, com 20 figurinos disparando para o ar no deserto, uma mesma explosão ser noticiada como sendo 2000 diferentes explosões, idosos do deserto líbio expressando-se na CNN com um inglês claramente superior ao meu, manifestações encenadas nos estúdios da Al Jazeera em Doha (facto confirmado e admitido pelas "forças revolucionárias" líbias). Ou a melhor de todas, 20 putos na praça principal de Tripoli atirando para o ar, acompanhados ao fundo por fogo de artíficio, supostamente festejando a libertação da dita praça (depois ficou-se a saber que "estes factos" foram encenados um estúdio da Al Jazeera em Doha, Qatar). Estranho foi constatar que 3 dias depois, uma multidão de gente apoiando Gadafi encheu a "libertada" praça, levando Gadafi filho aos ombros. E poucos dias mais tarde, a mesmíssima praça recebia uma manifestação pró-Gadafi com mais de 1 milhão de pessoas (um sexto da população total).

 

Quando uma manifestação na Indía passa a revolta na Líbia

 

 

 

Revolução líbia filmada em estúdios de cinema da Aljazeera, Doha, Qatar

 

 

 

Teatralização muito fraca de um jornalista "atacado" pelo maus gadafianos

 

 

 

Manifestação pró-Gadafi, 1 de julho 2011

 

 

 

Exponho aqui o caso líbio porque é o mais recente e mais óbvio exemplo de golpe inventado e orquestrado por forças externas, ridiculamente incoerente e cheio de mentiras. A comparação com o caso sírio é necessário pois vislumbra-se o mesmo modus operandi: surgimento ilógico e repentino de uma oposição armada e com recursos económicos espantosos. Em contraponto estão as revoluções populares, sim populares, ocorridas na Tunísia e no Egipto, Nessas sim, o lógico e expectável aconteceu: milhões de pessoas cansadas dos seus regimes ditatoriais vieram para a rua, novos e velhos, mulheres com crianças ao colo, jovens, todos "armados" de tachos para fazer barulho e cartazes com slogans anti-regime; todos dispostos a permanecer dias ou semanas na rua num protesto pacífico, muitos até com tendas montadas nas praças principais. Houve violência também, sem dúvida, mas vinda sempre das forças policiais e militares dos regimes em questão, pois os povos tunisinos e egípcios, protestando contra ditaduras apoiadas e suportadas pelo pragmático ocidente, não viram cair do céu armamento algum. E esperaram, esperaram até os regimes caírem. Este segundo exemplo egípcio-tunisino nada tem a ver o caso sírio.

 

INTERVENÇÃO EXTERNA - FASE 1

 

Estamos portanto, claramente, perante uma intervenção externa na Síria, incentivando e patrocinando a violência necessária a instalar o caos no país, levando consequentemente à queda do regime vizinho e aliado do Irão e também restante quadrado de xadrez em torno do estado persa que ainda não é controlado política ou militarmente pelos EUA. E do ponto de vista pragmático do Pentágono, tem de passar a ser, o mais brevemente possível, umas vez que os mestres Sionistas vão demonstrando já claros sinais de impaciência pela demora do ataque militar ao Irão.

 

A forma de pôr em prática a intervenção externa, pelo menos na primeira fase - a actual-, é em tudo semelhante ao exemplo líbio. A diferença está na maior desconfiança global sobre a veracidade da estória que vão tentando vender e, acima tudo, na tomada de posição da Rússia e da China. Portanto o processo foi colocado em marcha da mesmíssima forma, mas não foi bem tão "vendido" e os interesses geo-estratégicos são aqui divergentes.

 

 Os passos seguintes começam a ser já preparados, mas engana-se quem julgar que esta primeira fase chegou ao fim. Ainda ontem aterrou em Beirute, no Líbano, um misterioso avião com carga proveniente dos EUA e do Brasil, contendo "uma enorme quantidade de dólares americanos, armas, passaportes especiais e cartões de crédito. O Ministro dos Negócios Estrangeiros Libanês assegura que esta carga interceptada tinha como destinatários membros da Al Qaeda que têm continuamente entrado na Síria através da fronteira libanesa. Nos últimos meses tem sido inúmeras vezes noticiada a entrada em território sírio de armamento ilegal através da referida fronteira.

 

Em alternativa à introdução ilegal e secreta, existe outra, também ilegal mas internacionalmente aceite graças à propaganda mediática anti-regime-sírio: fazer passar a ideia de que o próprio povo oprimido pediria ajuda externa para aquisição de armamento ou pediria para ser bombardeado! Incrível manobra de propaganda, mas bem real, e ocorreu também na Líbia. Numa revolução verdadeira, a última coisa que o povo comum quererá é a guerra (civil ou não). O povo não quer violência, quer o fim da opressão que possa existir. No máximo, perante a impossibilidade de tornar a revolução efectiva e perante o manifesto massacre de civis, o povo pediria ajuda a forças externas do tipo "capacetes azuís" para criar uma barreira física, um zona tampão que os protegesse. Jamais pediria ajuda para bombardear e destruir a sua própria nação. Veja-se a revolução tunisina, a egípcia, a romena ou até mesmo o nosso 25 de Abril? Alguém pediria ajuda militar para destruir as suas cidades mais importantes como Lisboa, Porto ou Coimbra? Eu não o faria, mas à poucos dias atrás o Conselho Nacional Sírio (coligação das forças de oposição ao regime do Presidente Bashar al-Assad) fê-lo.

 

INTERVENÇÃO EXTERNA - FASE 2

 

Em breve, a intervenção externa, tal como no caso líbio, poderá ser directa, através do desembarque de forças dos EUA e da NATO. Se ainda não aconteceu, deve-se à clara oposição russa e a tímida oposição chinesa. À poucas semanas atrás a Rússia estacionou um navio de guerra num porto sírio, e agora, junto com a China, vetou a mais recente resolução da ONU contra a Síria, sabendo perfeitamente que não vetando, os mestres ocidentais da reinterpretação daquilo que eles mesmos ditam levariam as forças armadas dos EUA e dos seus estados súbditos a invadir militarmente a Síria.

 

Desapontados com o veto sino-russo, os EUA já deixou transparecer nos últimos dias que poderá tomar uma decisão unilateral, desrespeitando o veto à resolução da ONU. Para o levar a cabo tem 2 trunfos que estiveram pouco presentes na Líbia.

 

O primeiro é a Turquia, pais com fronteira terrestre com a Síria e segundo maior exército da NATO. Se à um ano e meio atrás o governo turco surpreendeu pela positiva apoiando, juntamente com a Venezuela e o Brasil, o programa nuclear iraniano, ao ponto até de se oferecer para parceiro económico do Irão na obtenção de urânio enriquecido, agora a Turquia volta a dar-nos mais do mesmo: apoio ao expansionismo militar norte-americano, certamente por influência nos bastidores dos senhores defensores da Turquia republicana e militar. Se por um lado o governo actual é oficialmente pró-islâmico, por outro, as constantes ameaças de golpe por parte de militares turcos de alta patente pró-NATO e pró-EUA obrigaram o governo turco a rever as suas iniciativas de afastamento ao ocidente e de aproximação ao mundo islâmico. A propaganda destes deverá ser neste momento de tal forma pungente dentro da Turquia, que cheguei ao ponto, nos últimos dias, de discutir e rever algumas amizades que tinha com alguns turcos, pois estes, apoiantes de uma Turquia laica e republicana (que eu também apoio), parecem já não conseguir fugir à lógica extremista dessas forças republicanas turcas pró-EUA que além de uma Turquia laica e republicana, aceitam e incentivam também as invasões norte-americanas no médio-oriente. Amigos meus turcos, laicos e republicanos, mas que sempre se mostraram solidários com a causa palestiniana e contra o domínio dos EUA, mostram-me agora que mesmo as classes mais cultivadas e de mentalidade mais aberta na Turquia estão a cair na propaganda pró-guerra. E assim, com um inesperado apoio popular turco, mais a vontade expressa da facção militar turca, é bem provável que a Turquia invada a Síria.

 

Coincidência ou não, foi precisamente depois do exército Israelita cometer o mediático atentado terrorista em águas internacionais turcas que resultou na morte de 8 civis turcos e um norte-americano, que a Turquia voltou atrás para a sua posição pró-NATO. Só tinham 2 escolhas, e antagónicas, manter-se firme no repúdio ao assassínio dos seus cidadãos e quebrar de vez a sua relação militar e estratégica com a NATO/EUA por estes serem "defensores incondicionais de Israel" (como nos relembra frequentemente Barack Obama), ou engolir mais uma, em nome da perpetuação do estado turco que segundo a facção militar republicana se deve exclusivamente à inclusão da Turquia na NATO, voltando a aceitar ou até mesmo participar directamente no terrorismo israelo-americano sempre em marcha na sua vizinhança.

 

Depois temos Israel, parte directamente interessada no derrube de um dos únicos estados amigos do Irão. Certamente que a elite militar e política sionista vê a intervenção militar ocidental na Síria como o último e derradeiro passo para estabelecer o cenário requerido para o assalto ao Irão. E quando há vontade por parte das forças Sionistas, o resto é fácil, muito fácil graças à mais moderna, mais sofisticada e mais rebuscada máquina de espionagem e terrorismo de estado: a Mossad. Com o apoio do know-how Sionista, será por certo muito mais fácil introduzir armamento e dinheiro na Síria, armar e organizar guerrilhas, criar documentos falsos e introduzir agentes infiltrados, fazer propaganda interna e mobilizar apoios dentro e fora da Síria com o objectivo de fazer cair o regime de Bashar Al-Assad. Não seria nada de novo por aquelas bandas, têm os meios e vontade para tal e, essencial, entram e saem no sul do Líbano quando querem, encontrando-se portanto em posição privilegiada para comandar as operações de tráfico na fronteira entre a Síria e o Líbano.

 

Luís Garcia, 8 de Fevereiro de 2012, Toruń, Polónia

 

PARTE 3/3

RÚSSIA E CHINA

 

"Moscovo criticou o facto de o documento manter uma oposição contra Assad mas não referir os oponentes que lutavam contra o Governo. “A não ser que [a condenação] funcione para ambos os lados, estão a tomar partido numa guerra civil”, disseram as autoridades russas, citadas pela Reuters, na reacção ao veto da China e da Rússia.

 

À algumas semanas atrás assistimos à chegada de um navio russo à costa síria carregado com armamento, em claro desafio ao embargo de armas imposto pelo ocidente à Síria, e mostrando também que a Rússia não tolerará uma outra invasão como a da Líbia tão perto da sua zona de influência, e ainda menos contra um país (de facto) aliado.

 

Agora temos a Rússia e a China juntas no veto à mais recente resolução do conselho de suposta segurança da ONU que permitiria mais um ignóbil ataque a um estado soberano. Para a China uma invasão ocidental na Síria representaria certamente o passo final para o tão prometido ataque ao Irão, algo impossível de ser aceite por uma China em grande crescente económico e altamente dependente do petróleo iraniano. E impossível de ser aceite por uma China que já não pode tolerar mais crescimento territorial e militar norte-americano.

 

Diria mais, uma China altamente focada em relações externas basicamente resumidas a trocas comerciais e interdependência económica aceita desde já algum tempo, e de forma bem pragmática, todo e qualquer tipo de regime como parceiro económico, desde que haja algo para negociar, comprar ou vender, recusando-se na medida do possível a patrocinar ataques a potenciais parceiros. A China é portanto hoje um estado adverso a conflitos armados, compreendendo que pouco terá a ganhar e muito a perder, mesmo no caso de uma intervenção pela recuperação da sua ilha de Taiwan ocupada militarmente pelos EUA.

 

Quanto à Rússia, esta vê o cerco norte-americano apertando-se cada vez mais, rodeada de países aliados dos EUA ou ocupados por estes, onde proliferam bases militares e agora escudos anti-mísseis que desafiam descaradamente a soberania russa, empurrando o velho gigante soviético para o seu espaço de influência mínimo que é agora e quase apenas o do próprio território da Federação Russa. Portanto, mesmo que tradicionalmente a Rússia sempre tenha optado pelo jogo duplo, agradando a gregos e a troianos, vez sim vez não, e mesmo que depois de ter aceite uma invasão na Líbia fosse lógico que recusasse em seguida uma na Síria, o facto agora é que a Rússia não pode mesmo deixar que tão estratégico país caia nas mãos dos EUA. É portanto de esperar uma intervenção directa em defesa da Síria em caso de agressão, que é como quem diz, melhor mesmo que o ocidente desista desta farsa de revolução antes que nos precipitemos para um conflito armado que depressa chegaria à escala global. Melhor, muito melhor, deixar se instalar de vez a segunda guerra fria, desta vez mais difusa entre 2 potências (Rússia e China) menos ideologicamente diferentes do ocidente, mas agora com mais argumentos (recursos energéticos, poder económico, poder militar) que desafiam a hegemonia desejada pelas elites norte-americanas.

 

REACÇÃO DO POVO SÍRIO

 

Aleppo

Enquanto Aleppo foi controlada por Assad, o povo sírio tinha a liberdade e segurança para se manifestar na praça principal e afixar as bandeiras da SÍRIA, RÚSSIA e CHINA. Depois, com a "libertação" efectuada pelos "rebeldes" foi o que se viu....

 

Melhor que escrever aqui umas linhas sobre o assunto, será certamente partilhar o que foi inesperadamente publicado no jornal português de propaganda pró-EUA, o jornal Público. Começa a ser de tal forma difícil de ignorar o facto de que o povo sírio vê com bons olhos a ajuda russa para o cessar desta vergonhosa farsa, que até já dá para passar no filtro da censura ocidental este tipo de frases:

 

"Imagens difundidas pela televisão estatal mostram multidões em júbilo, gritando “Obrigado Rússia! Obrigado China!”, ao longo de uma das principais avenidas de Mazzé, na via circular de Damasco, no caminho do aeroporto para o centro da capital onde Lavrov – acompanhado do chefe dos serviços secretos externos russos, Mikhail Fradkov – se vai reunir com Assad, na tentativa de encontrar uma solução para o conflito que se arrasta há mais de 11 meses no país.

 

“Viemos aqui em nome do povo sírio para agradecer a Moscovo, a quem seremos eternamente gratos”, explicou um dos manifestantes, entrevistado pela televisão estatal, que descreveu o evento como uma “homenagem ao apoio da Rússia à Síria, ao seu povo e às reformas em curso”." (Público, 07.02.2012)

 

REACÇÃO OCIDENTAL E DA SUA MÁQUINA DE PROPAGANDA

 

A embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas, Susan Rice declarou-se “enojada” pelo veto e disse que “qualquer continuação da sangria [na Síria] vai estar nas vossas mãos”, referindo-se à China e Rússia.

 

“Qualquer Governo que brutaliza e massacra o seu povo não merece governar”, disse ontem o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

 

Sem dúvida, pois sim, e que dizer de governantes norte-americanos que brutalizam e massacram povos alheios, quer através de invasões declaradas como as do Afeganistão e Iraque, quer através de movimentos subversivos como na Líbia e neste momento Síria? Que dizer de si próprio portanto, caro Barack Obush, porta-voz incongruente da ditadura económica-militar?

 

E a melhor para mim, a reacção do nosso triste palhaço e Ministro dos Negócios estrangeiros Paulo Portas:

 

“Treze países, incluindo a África do Sul, a Índia e o Paquistão, e representando a diversidade da política internacional e todos os continentes, votaram a favor do texto [resolução contra a Síria vetada pela Rússia e pela China], expressando um muito amplo apoio da comunidade internacional aos esforços da Liga Árabe para a resolução pacífica da crise na Síria”

 

“todos os países europeus, africanos, asiáticos e os Estados Unidos votaram favoravelmente [a resolução, representando] um consenso muito alargado.”

 

"[Não fazer nada é] condenar o povo sírio a um autêntico massacre. (...) mais dia, menos dia, a comunidade internacional vai ter de fazer alguma coisa sobre a Síria” [pois] todos os dias o massacre continua”.

 

Mocinho de recados reles este Portas. Por que raio mostra-se tão chocado com a decisão sino-russa! Qual amplo apoio da comunidade internacional? Boa parte da América Latina rejeita qualquer intervenção externa na Síria, nomeadamente os Países membros da ALBA: Los países del ALBA denuncian la injerencia de los «Contras» en Siria. Qual consenso? Num mundo com 193 países reconhecidos pela ONU, de que serve que no Conselho de Segurança (CS) 9 tenham votado a favor, 4 abstido-se e 2 tenham votado contra? O CS composto de 15 países não representa a vontade mundial. Mais, apenas 5 têm poder de veto, os restantes fazem figura de ursos, participando na farsa de um CS equilibrado. Mais ainda, dos 5 com poder de veto, 2 são estados vassalos dos EUA: o Reino Unido por vontade própria e a França por força das circunstâncias. Digamos que temos um poder de veto tripolar, e desta vez houve 2 países contra a intervenção, Rússia e China, e um a favor: EUA e dependências. A maioria tem sempre razão, não é caro Portas? E depois, porque não exprime o senhor Portas descontentamento democrático quando vezes sem conta os EUA vetam sozinhos resoluções contra o terrorismo do estado de Israel? Resoluções que vêem da Assembleia Geral da ONU com os votos a favor da quase totalidade dos 193 países membros, mais umas quantas abstenções e 2 votos contra dos EUA e de Israel? Ou porque não se revoltam os fantoches da laia do senhor Portas quando os EUA intervêm militarmente em países soberanos, desafiando os vetos do conselho de segurança? Aliás, é o que está prestes a acontecer, os EUA já na passada semana fizeram passar a ideia que pretendem intervir mesmo à margem de uma resolução favorável na ONU. E é lógico que o senhor Paulo Portas e o semelhante lixo-humano verão com bons olhos tal medida. Portanto, vetando ou não, ou desrespeitando mesmo os vetos dos outros, os EUA, para estes vendidos, estará sempre certo. Agora Rússia e a China, por exercerem o seu direito de veto, são firmemente criticados e vaiados, mesmo que a população do país em causa, a Síria, tenha mostrado o seu contentamento com o veto, saindo à rua às centenas de milhares... Culpa de quem democraticamente elege este tipo de lixo-humano como o senhor Portas...

 

Cabe portanto a nós, opinião pública, informar-se e informar, lutar contra esta feroz propaganda que nos tenta vender o imperialismo bélico das elites norte-americanas. Não deixemos esta farsa acontecer! Não deixemos cair o soberano estado da Síria!

 

Luís Garcia, 14 de Fevereiro de 2012, Papiškiai, Lituânia

 

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