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Pensamentos Nómadas

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A criação do mundo - Capítulo 4/5

 

 

Um novo "antigo testamento"

o deus imperfeito - origem do mundo 2 copy2

 

O deus imperfeito RELIGIÃO Luís Garcia 

 

Sem perder tempo e fazendo uso da sua consternante omnipotência, deus fez com que à mente dos dois rebeldes humanos chegasse a sensação de vergonha ao observarem mutuamente os seus corpos e assim, reconhecendo que estavam nus, prenderam folhas de figueira umas às outras e colocaram-nas como se fossem cinturões, à volta dos rins. Estes não compreendiam ainda plenamente porque agiam de semelhante modo e faziam-no como se algo infinitamente mais poderoso que eles lhes tomasse à força as suas mãos e as guiasse nestes primeiros actos de reacção ao constrangimento sentido pela nudez. Contudo, agora que eram também conhecedores do bem e do mal, não tiveram grande dificuldade em concluir que a nudez humana seria considerada errada para o seu deus e, tendo bem aprendido a lição, começaram a partir de então a cobrir os seus corpos com peles de animais que matavam para o efeito e a evitar a presença  junto do seu par nos momentos de prioridades fisiológicas durante os quais à nudez viam-se obrigados a recorrer.

 

Vendo estes e outros acontecimentos sucederem-se abruptamente e sabendo a origem de todos eles, a serpente, embora com medo das medidas de represália que deus lhe prometera caso contasse algo mais aos humanos do que aquilo que tinha sido previamente combinado entre os dois, não conseguiu contudo ficar parada a assistir àquela tremenda barbaridade e decidiu contar-lhes o resto da história do fruto proibido, para que eles percebessem quão egoístas eram os desejos que orientavam os desígnios de deus e quão distorcida era e seria sempre a sua noção de mal caso se deixassem indefinidamente levar na perversa artimanha de deus e continuassem a considerar algo tão natural e belo como a nudez humana um acto ou uma situação de vergonhoso mal, de manifesto pecado contra deus. Sentia-se bem na obrigação de lhes abrir os olhos e lhes despertar as mentes para que sábia e cuidadosamente começassem a triar os verdadeiros males dos ilusoriamente criados por deus para sua simples diversão.

 

Chegada ao mesmo local onde se encontravam os dois desorientados humanos, a serpente começou por lhes dizer: eu sei que vos poderá causar estranheza eu vir aqui neste altura ter convosco oferecer-me para fazer algo por vós, tão pouco tempo depois de vos ter conduzido ao fatídico acto que segundo a vossa compreensão terá sido um enorme castigo e representará o momento em que perderam inúmeros e valiosos privilégios, mas eu decidi vir porque vejo ser minha obrigação ajudar-vos a plenamente compreender a tempestade mental que têm sentido nos últimos dias com tantas e tão confusas ideias de mal a habitarem as vossas mentes. Quero vos ajudar a perceber o que é de facto a maldade e distingui-la do que não passam de meras ilusões criadas por deus para sua recreação, assim como vos fazer ver que ao final ganharam mais do que aquilo que perderam no momento em que comeram a maçã. Por isso vos convenci a comê-la, não para vos fazer cair em desgraça como agora deus apregoa e vos tenta fazer crer. A mulher tomou a palavra, pediu-lhe que então assim fizesse e atentamente ficou com Adão à espera das esclarecedoras palavras. Quando vos disse que deus sabia que vocês iriam conhecer o mal, tal como ele, caso ousassem comer o fruto proibido, não vos menti mas também não vos disse toda a verdade, pois mais do que passarem a ter o conhecimento do mal, seria deus o responsável por tal descoberta e era precisamente ele que queria que as coisas assim decorressem pois vocês não passavam na altura de meras marionetas nas mãos do todo-poderoso, das quais fazia uso para sua distracção sempre que caprichosamente se lembrava de o fazer. É, afinal, precisamente para que deixem de ser tais marionetas nas suas mãos, que vos peço que atentem nas minhas palavras e tirem as necessárias e urgentes ilações.

 

Os humanos estavam assombrados com o conhecimento de tal hipócrita atitude do senhor a quem deviam em princípio obediência e, agora que melhor podiam distinguir o bem do mal, percebiam que a serem de facto verdadeiras as palavras proferidas pela serpente, deus seria um nocivo e perigoso ser a evitar. Entretanto, a serpente continuou dizendo: Eu sei que ainda agora começam a perceber de facto o que está a acontecer mas de qualquer modo peço-vos desde já que fiquem bem atentos pois deus irá estar sempre a tentar convencer-vos a ver o mal mesmo onde ele não existe, como ainda agora. Vejam, por exemplo, porque se taparam dessa forma? Acham que é errado e maldoso poder ver os corpos um do outro inteiramente nus? É ridículo meus caros amigos que assim julguem a vossa nudez. Vejam como essa sensação de pecado não passa de uma divina artimanha para este se divertir com a culpa e vergonha por vós sentida e para vos poder castigar em caso de manifesta transgressão. Pois se assim não é, olhem por favor à vossa volta todos estes animais de todas as espécies e feitios por aí espalhados... vêem pelo menos um entre todo o reino animal que esteja preocupado ou receoso por estar nu em frente aos da sua espécie e de deus? Não é verdade que não só não sentem qualquer pudor em passearem-se completamente nus como tampouco receiam o castigo que vós temeis se em semelhante situação se encontrassem? É evidente meus caros humanos!

 

 

Quanto aos humanos que, atentos, seguiam o seu discurso, de tão atordoados que se sentiam não encontraram quaisquer argumentos ou força mental para interpelar as palavras da serpente e está insistiu: Pois é, vêem então que não existe mal nenhum na nudez em si, quer seja a vossa quer seja a dos restantes habitantes deste mundo, incluindo a minha. Apenas vocês a entendiam enquanto tal porque a omnipotente maldade de deus assim quis que fosse pois, uma vez acabada a vossa tortura por ele infligida no paraíso e que consistia em hesitarem entre seguir as ordens divinas ou a vossa imensa curiosidade, novas torturas psicológicas como esta da nudez já vos havia deus preparado e muitas mais há-de inventar, para que o seu passatempo não tenha tal como ele jamais fim. Bom, se assim é, retorquiu a mulher, porquê não nos disseste logo na altura em que toda esta história começou? E mais, como é que tu tens conhecimento de tudo isto? A serpente sentiu-se contente por ver que estava a ser seguido com atenção o seu discurso e continuou: bem, em primeiro lugar tenho de vos dizer que tudo o que fiz foi-me indicado por ele e eu agi tal como me ordenou, pois esse infame ser prometeu-me ameaçadoramente que se assim não o fizesse eu seria castigada e é disso que tenho agora medo pois sei que não deve tardar a sua vingança. Contudo, embora sabendo que poderia vir a sofrer graves consequências por este meu atrevimento, decidi vir aqui explicar-vos tudo o que sei, vocês estavam a ser enganados, gozados e mal tratados e eu, que tinha conhecimento de todos estes factos, não conseguiria ficar de consciência tranquila a assistir a esta situação sem nada fazer para o impedir de prosseguir com tamanha crueldade!

 

O homem, quiçá chocado com tais revelações, encontrou lógica nas palavras proferidas pela serpente, parecendo-lhe plausível a história que acabara de ouvir. Como consequência da sua crença nas palavras da serpente, Adão mostrou-se muito sensibilizado com a preocupação que a serpente tivera para com o seu bem-estar e o da sua mulher, tendo por isso agradecido-lhe imenso por tudo o que havia revelado e precipitadamente despediu-se em seu nome e em nome de Eva, arrastando esta pelo braço enquanto se preparava para caminhar apressadamente para fora do largo onde se encontrava a árvore proibida, como que dizendo que se sentia inferiorizado e constrangido pela sua nudez intelectual posta em evidência pela serpente que pelos vistos sabia muito mais sobre a vida de Adão e Eva que eles próprios. Contudo a serpente, não achando ser exagero insistir nos seus conselhos, pediu-lhes para ficar um pouco mais e adverti-os que tal como tinham caído naquela armadilha mental de achar que seria errado mostrar a sua nudez um perante o outro, muitas situações similares haverias de aparecer graças à inevitável omnipotência de deus e seria portanto de vital importância que ficassem bem atentos daí em diante. Além de prepará-los para a ilusão de males que não o seriam de facto, a serpente lembrou-se ainda de alertá-los para a situação contrária: Queria acrescentar se não se importam um aviso mais, o qual, devido à vingança divina cujo medo por mim sentido corrói o meu pensamento, quase me ia esquecendo. Não serão raras as vezes em que, tentando convencer-vos da necessidade e grandiosidade dos pedidos por ele feito a vós e à vossa futura descendência, o que na verdade estará a exigir-vos será que cometam actos horrendos e inumanos e, portanto, impregnados do mal que julgo quererem evitar. Já não me recordo bem de todos os planos que me contou, mas advirto-os que quando na vossa humanidade existir um homem chamado Abraão, cujo filho se não me engana a memória se há-de chamar Isaac, rogo-vos que o informem ou deixem recado às próximas gerações para desconfiar do repugnante acto que deus o convidará a realizar: sacrificar o sangue do seu bem-amado filho para demonstrar a sua obediência à divina autoridade. Lembro-me também vagamente de o ouvir murmurar sobre descobertas e conquistas de novos mundos num longínquo futuro, nas quais convidará a vossa mal aconselhada humanidade a invadir, roubar, matar, violar, torturar e destruir povos pelo menos tão civilizados quanto vós, apenas para que até junto desses desgraçados chegue a sua palavra, que é como quem diz, para que também esses pobres coitados se tornem súbditos e seguidores da sua ignominiosa má vontade. E se o fizerem, às mulheres mas sobretudo aos homens da altura, deus concederá magníficas e riquíssimas fortunas em ouro, prata e madeiras valiosas e condenáveis multidões de escravos capturados nesses novos mundos, com os quais erigirão monumentais templos religiosos e imponentes cidadelas (lembremos-nos por exemplo do espanhol Pizarro e da sua obra em Torrillo) cuja realização terá como objectivos essenciais e, por esta obrigatória ordem, agradecer Humildemente a ajuda de deus todo-poderoso por lhes haver concedido as imensas e maldosas forças sem as quais não poderiam ter jamais cometido semelhantes genocídios e, inevitavelmente, para que com toda a pompa e arrogância venham a poder vangloriar-se dos seus infames actos levados a cabo além-mar. Terminado este longo mas precioso monólogo, a serpente despediu-se pela segunda vez de Adão e Eva e sem hesitar virou as costas e segui o seu caminho, desaparecendo por entre a luxuosa vegetação do paraíso.

 

          Quando recuperam do imenso caudal de informação debitado pela serpente e voltaram finalmente a si, Adão e Eva recomeçaram a sentir de novo uma estranha sensação de vergonha pela sua nudez, agora não em relação um ao outro, mas devido à falta de à-vontade e confiança que sentiam para com o todo-poderoso que então chegara. Encontrando-se já perto deles o omnividente ser perguntou inutilmente a Adão: Onde estás? Ele respondeu: ouvi o ruído dos teus passos no jardim, e, cheio de medo, porque estou nu, escondi-me. O senhor deus perguntou: Quem te disse que estás nu? Comeste, porventura, alguns dos frutos da árvore da qual te proibi comer? O homem respondeu: A mulher, que trouxeste para junto de mim, ofereceu-me o fruto e eu comi-o. Em seguida deus perguntou à mulher porque cometera tal acto e ela respondeu: A serpente enganou-me e eu comi. Ao dizer isto tanto ela como o seu homem aperceberam-se de que o que se estava a passar era novamente uma armadilha montada pelo senhor e que era ele que brincado com as suas fraquezas os fazia dizer todos aqueles involuntários disparates. Compreenderam, portanto, com esta situação, como era de facto urgente seguir os conselhos da serpente e fazer os necessários esforços para se prevenirem dos maldosos ataques de deus e criarem rápida e eficientemente a melhor independência intelectual possível, de forma a diminuírem as suas vulnerabilidades face à toda-poderosa vontade divina. Apercebendo-se que aquela pequena brincadeira já tinha dado tudo o que poderia dar de jocoso, deus afastou-se deles e dirigiu-se à serpente.

 

Deus sentia-se, como é de imaginar (para quem vem conhecendo o seu mau feitio), tremendamente furioso por esta o ter desmascarado a si e ao seu maquiavélico jogo quando explicara atempadamente aos humanos as razões dos sofrimentos por eles vividos. Não lhe saía da mente a raiva infinita que sentia pela serpente e o seu traidor comportamento e portanto não pensava noutra coisa que não na pérfida vingança que tinha já anteriormente reservado para o asqueroso ser rastejante, caso este se desviasse do combinado. Quando deu finalmente de cara com a serpente disse-lhe rancorosamente: Por teres feito isto, serás maldita entre todos os animais domésticos e entre os animais ferozes dos campos. Rastejarás sobre o teu ventre (grande novidade!), alimentar-te-ás de terra todos os dias da tua vida. Farei reinar a inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta esmagar-te-á a cabeça, (pondo em prática, como podem constatar os meu caros leitores, a maldade para a qual deus lhe abrira os olhos) ao tentares mordê-la no calcanhar. Deste modo acabou por marginalizar o mais por ele prejudicado dos animais, conduzindo a serpente e toda a sua descendência a uma vida de solidão e esquecimento.

 

Quanto ao futuro deste animal estava sentenciada portanto, e por vingança, a vontade de deus (má-vontade diria eu!). Ela, a desafortunada serpente, seguiu o seu caminho amargurada e sentindo-se vítima de uma tremenda injustiça mas, como tinha consciência da sua impotência para mudar o rumo dos acontecimentos, achou por bem tentar se esquecer deste período manifestamente negro da sua até então curta existência e, para o conseguir, concentrou-se em relembrar que ao menos agira de forma justa, coerente e honrada, o que lhe permitia sair daquela fatídica situação de cabeça erguida e consciência tranquila. Quem não ficou mesmo nada contente com o desfecho desta história de frutas, ingénuos humanos e serpentes traiçoeiras, embora possuidor de todas as capacidades suficientes e necessárias para a seu bel-prazer se vingar da serpente, foi deus, claro está. E não é difícil adivinhar porquê. Por mais que vociferasse efusivamente contra todos os diabos e anjos caídos que ainda havia ele de inventar e, por mais divinos murros que desse descontroladamente na mesa da cozinha da sua celeste mansão (sim, porque a ter estômago, cozinha há-de utilizar certamente), não havia nada que o pudesse consolar e libertar da enorme frustração que sentia por se ter deixado enganar de forma tão ingénua por um ser que ele mesmo criara! Um ser que ele mesmo provera com as capacidades que permitiram tal traição! Pois não é que peguei naquela maldita criatura, lamentava-se deus, apetrechei-a com tudo e mais alguma coisa (Ui, que exagero!), preparei-a cuidadosamente para de afinada ferramenta servir no meu elaborado divertimento de estimação e a desgraçada, afinal, deu-me a volta ao texto, qual tiro saído pela culatra ou feitiço virado contra o feiticeiro!...

Ò meu deus, porque me abandonei a mim próprio!, poderia ter ele dito, como mais tarde haveria de fazer o profeta que segundo a lenda era simultaneamente homem e deus, deus e homem, a mistura dos dois ou nem uma coisa nem outra.

 

Luís Garcia

Primeira versão: Dezembro de 2009, Audin-le-Tiche, França

Última versão: 15.04.2016, Lampang, Tailândia

 

 

 

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