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Pensamentos Nómadas

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A criação do mundo - Capítulo 3/5

 

 

Um novo "antigo testamento"

o deus imperfeito - origem do mundo 2 copy2

 

O deus imperfeito RELIGIÃO Luís Garcia 

 

Vendo que o homem e a mulher, mesmo passando cada vez mais tempo a observar os frutos da árvore proibida e ficando cada vez mais tensos e nervosos, não cediam contudo à tentação de desrespeitar o sei criador, deus compreendeu que tinha chegado a hora de trazer a este mundo a sua próxima arma de guerra, de última geração por sinal, com a ajuda da qual ele estava seguro que Adão e Eva iriam finalmente cair na tentação. Fazendo uso uma vez mais da sua desmesurada frieza e crueldade chamou junto de si precisamente o animal mais desventurado e azarado que então vivia no paraíso, a serpente, que por distracção ou manifesta falta de jeito de deus para moldar animais, a tinha criado sem pernas, barbatanas, asas ou outro qualquer tipo de membros que lhe permitisse ser livre para se movimentar no mundo em que nascera. Tal como os bons governantes que temos hoje por esse mundo fora, à imagem e semelhança do primeiro governador, o deus imperfeito, também este na altura decidiu utilizar o primeiro animal deficiente que existiu, ou seja, a primeira vítima dos seus próprios erros de trabalho, para servir como bode expiatório nas suas posteriores e perversas atitudes de gestão sobre o mundo, quais habitantes do nosso Médio-Oriente feitos carne para canhão e tubagens para oleodutos em favor dos objectivos de quem impera e que em troca são invariavelmente apelidados de fanáticos, terroristas ou incivilizados.

 

          Não tendo alternativa, a pobre serpente teve de aceitar as condições divinas, que numa primeira etapa seria simplesmente se deslocar até às proximidades da árvore proibida onde posteriormente poria em prática aquilo que deus (depois de um minucioso make up cerebral) lhe impôs que realizasse e que consistia em persuadir de todas as formas possíveis a mulher a experimentar o fruto proibido, assim como convencer o seu homem a comê-lo também! Durante a preparação da serpente para a sua ignominiosa missão, deus tinha-lhe então limpado da mente os simples e rudimentares instintos de sobrevivência característicos do reino animal e dotara-a de algo muito superior, substituindo-os por uma inteligência semelhante à de deus em qualidade e quantidade, para que esta pudesse eficazmente aplicar toda a arte de retórica divina nos posteriores diálogos com as suas vítimas. No que deus na sua inata imperfeição não pensou foi que com este nível de inteligência a serpente poderia potencialmente ir muito mais além daquilo que ele lhe ordenara e que assim ela poderia ter a qualquer momento originais iniciativas próprias nas quais usaria o seu novo dom que dele recebera.

 

          Acabados então os preparativos a serpente dirigiu-se ao caminho que ia dar até ao lugar da árvore proibida e, enquanto não chegava ao seu destino, pôs-se a meditar sobre as razões e os motivos de deus que o teriam levado a encarregá-la de tal missão. Depressa concluiu que toda aquela ansiedade e inquietude demonstrada pelo todo-poderoso enquanto lhe explicara a sua missão eram muito estranhas e nada típicas de um ser transcendentemente perfeito como a si próprio se definia deus, e começou então a desconfiar que haveria por certo segundas e obscuras intenções naquela ordem. Por nada mais ter para ocupar o seu tempo e por não conseguir abstrair-se um minuto sequer de tão inquietantes pensamentos, a serpente concentrou-se até ao final da caminhada a procurar na sua mente explicações plausíveis para o misterioso porquê deste mais recente capricho de deus.

 

          Depressa acabou a serpente por concluir que aquela situação não passava efectivamente de um perverso jogo e de uma caprichosa diversão para deus pois este, enquanto lhe explicava a missão exigida, acabou por se descair ao dizer que a situação vivida pelos humanos era bem semelhante à sua, o qual tinha, segundo confessou, uma miserável vida aborrecida fruto da certeza de uma eternidade a viver e do tédio permanente a que esta o obrigava. Tudo era agora claro para a serpente. Aquelas duas cópias humanas da entediante vida de deus instaladas no paraíso não passavam de facto de uma distracção criada por ele para contrariar o aborrecimento que sofria e a missão que ela, a serpente, fora encarregue de levar avante, mais não era que um mero episódio planeado por deus para tornar o seu jogo um pouco mais interessante do que até então tinha sido.

 

          Ao contrário do que possam pensar, a serpente, depois de toda este encadeamento de pensamentos e conclusões, não fugiu nem colocou sequer a hipótese de fugir à execução da tarefa a si exigida por deus. Continuou a sua penosa deslocação em zigue-zagues e chegada à árvore instalou-se nela da melhor forma possível, que é como quem diz, enrolou-se ao longo do seu tronco pois, graças à imbecilidade e/ou à manifesta má vontade de deus aquando da sua criação, era a única forma que tinha para repousar na fonte do fruto proibido.

 

A saber, a sábia serpente não desistiu de facto da sua missão, não por sentir algum dever de obrigação ou por lhe atormentar alguma espécie de temor face à negativa reacção do todo poderoso governante que lhe incumbira de tal missão, mas sim porque compreendia e sentia agora que era para ela uma obrigação livrar aqueles ingénuos humanos, por deus enganados, da tortura psicológica a que estavam a ser submetidos.

 

          Na primeira oportunidade de contacto com os dois humanos que a serpente teve, esta não hesitou e começou a conversa dizendo: É verdade ter-vos deus proibido comer o fruto de alguma árvore do jardim? A mulher respondeu-lhe: Podemos comer o fruto das árvores do jardim, mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, deus disse: Nunca o deveis comer, nem sequer tocar nele, pois, se o fizerdes, morrereis. A serpente retorquiu à mulher: Não, não morrereis; mas deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como deus, ficareis a conhecer o bem e o mal. Não vos afligis portanto, continuou a serpente, caso queiram matar a curiosidade de provar o mais saboroso e sublime fruto jamais plantado por deus no vosso paraíso. Por algum motivo lhe deu o nosso bom e amado mestre tal nome, se pelo nome de paraíso é conhecido, certamente haveria este de vos deliciar com paradisíacas frutas, as quais, depois de saboreadas, vos elevará imensamente a sensação de também paradisíaca ser a vossa terrena vida. Pelo contrário, se não provarem a mais que todas apetecível criação de deus nosso senhor, estarão a caminhar na direcção contrária ao destino que o todo poderoso misericordiosamente vos planeou, uma vida própria dum lugar paradisíaco como o que têm a sorte de habitar. Insisto, uma vida paradisíaca. Julgo que estão a seguir o meu raciocínio e que compreendem tão bem quanto eu que logicamente não há formar de conjugar este divino conceito de vida paradisíaca com o constatado aborrecimento de que têm vindo a ser vítimas ultimamente devido à ausência de novas distracções e, mais grave ainda, não é de todo compatível esse tipo de vida com o sofrimento e a tortura psicológicas de que têm vindo a sofrer por insistirem em ingenuamente concluir que tal acto vos estaria interdito.   

 

A serpente teria certamente preferido dizer-lhes que depois de transposta irrevogavelmente essa fronteira do conhecimento, a espécie humana passaria a ter a partir de então e tal como deus, a consciência do mal e a possibilidade de o usar conforme o desejasse, mas ela em toda a sua sapiência compreendia o quão arriscado seria proferir discursos além dos programados por deus e nos quais de forma directa ou indirecta se revelasse algum aspecto negativo da sua majestosa divindade. Estava portanto bem consciente que se o fizesse, se desviasse o seu discurso um pouquinho que fosse do combinado, ele certamente executaria o que ameaçadoramente lhe tinha prometido fazer: usar das suas infinitas forças para se vingar em caso de mau comportamento desta, denegrindo (como acabou mais tarde por fazer) a sua imagem e reputação para toda a eternidade e difamando-a e desacreditando-a até ao último recanto olvidado do mundo terreno.

 

Quanto a deus e à sua confiança no conteúdo do discurso por ele encomendado à desgraçada serpente, a certeza no sucesso eram tais que a questão que mantinha ocupado o seu pensamento já não era o bom desenrolar ou não desta sua brilhante intriga. O que preocupava agora unicamente era a palavra Quando? Quando se decidiriam finalmente Adão e Eva a cometer os actos que os precipitaria na desgraça por ele prometida, pois na sua mente egoísta e cega pelo prazer da diversão com o sofrimento alheio não havia de facto a mínima dúvida que, a partir do momento da mais que certa transgressão humana, o seu divino comportamento limitar-se-ia a passar da ideia à acção, castigando incessantemente Adão e Eva e todas as futuras gerações de humanos suas descendentes.

 

Voltando à mal amada serpente, esta, sem antes jamais ter colocado a hipótese de falhar ao combinado com deus, reflectia agora sobre as razões secretas que a tinham (além do medo do castigo divino) levado a executá-lo até ao fim. Não deixou nunca de achar errado o seu comportamento de participar activamente num jogo perverso de alguém que queria de forma infame divertir-se à custa de outros, mas continuava ainda assim bem segura que mais importante que ser cúmplice de tais ultrajantes actos, era o facto de que participando nestes teria talvez pela primeira e última vez a oportunidade de elucidar Adão e Eva acerca dos conhecimentos de que evidentemente deveriam ser possuidores e, consequentemente, ajudá-los a alcançar a plena liberdade, independência e autonomia intelectual, pois tanto o homem como a mulher, a partir do fatídico momento em que provassem o proibido fruto, passariam a conhecer o bem e o mal e a vital importância contida na radical diferença entre os dois conceitos.

 

          O crucial acto aconteceu então naturalmente e um mundo completamente novo em todos os aspectos abriu-se para aqueles que até então não passavam de dois inocentes humanos. Até ao último instante antes do provar do fruto proibido existia apenas um ser em todo o mundo plenamente consciente do conceito de maldade e de todo o seu consequente potencial (embora como tivemos oportunidade de constatar anteriormente também a serpente em certa medida já tivesse experimentado o privilégio de ser possuidora de tal conhecimento, aquando da execução da sua missão, privilégio este contudo bem efémero como ainda iremos descobrir). Quanto a Adão e Eva, e por expressa decisão do todo poderoso, tinham em grande parte sido criados à imagem e semelhança do seu mestre, mas na ignorância de tais conceitos centrava-se como é sabido a grande diferença entre os humanos e aquele que além de único conhecedor era também até à data o único que ousara de tais conhecimentos fazer uso.

 

E foi assim que o homem e a mulher entraram na sua nova realidade, sem que os possamos acusar de terem agido maldosamente (uma vez que desconheciam na altura o que significavam estas palavras), mas como vítimas da inteligente retórica divina face à qual a sua ingenuidade não poderia de forma alguma fazer face. Imaginem portanto, caros leitores, qual não deve ter sido o espanto com que receberam o planeado castigo, ainda mais que nessa altura já eram definitivamente possuidores das faculdades que melhor lhes permitiria analisar a origem e os porquês de tal vingança divina.

 

Deus, sempre que observava Adão e Eva,  auto-comprazia-se com a excelente obra que realizara quando das suas grandes qualidades fizera uso, mas agora, apercebia-se ele, com uma brincadeira estúpida e irresponsável que mais não lhe teria dado que uma fugaz e ligeira distracção, acabara aparentemente de manchar a sua maior obra com a maior de todas as nódoas, e teria também deitado a perder talvez a devoção dos seus mais sinceros, fiéis e honestos súbditos. Ou não.

 

Não é caso contudo para nos deixarmos levar em sentimentalismos e daí sentir qualquer tipo de pena ou empatia consoladora para com este imperfeito ser, pois enquanto o diabo (ou deus?) esfrega um olho, a omnipotente criatura concluiu que a melhor forma de superar a tristeza que lhe causara o término deste seu último passatempo seria, simplesmente, esquecer-se dele e começar a organizar os seus há muito imaginados planos de castigos e privações com que iria presentear Adão e Eva após que estes tivessem cometido o primeiro grande acto de desobediência.

 

Luís Garcia

Primeira versão: Dezembro de 2009, Audin-le-Tiche, França

Última versão: 11.04.2016, Lampang, Tailândia

 

 

 

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