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A criação do mundo - Capítulo 2/5

 

 

Um novo "antigo testamento"

o deus imperfeito - origem do mundo 2 copy2

 

O deus imperfeito RELIGIÃO Luís Garcia 

 

Após o merecido descanso, deus, contemplando a sua obra, achou-a grandiosa e magnífica, e portanto digna em teoria dos mais elevados elogios por parte dos seus divinos colegas de trabalho, mas a verdade é que até ao momento não tinha ainda recebido de nenhum dos restantes deuses do imaginário humano qualquer tipo de felicitação ou mostras de reconhecimento pelo novo mundo que havia criado. Fazendo então uso da sua afamada omnipotência, após ter observado minuciosamente a sua criação e reflectido vagarosamente sobre o funcionamento desta, deus achou que as coisas ainda estavam um pouco desorganizadas e lembrou-se de acrescentar ao já existente mundo uma nova região que passar-se-ia a chmar paraíso, a qual foi criada para que tanto o homem como a mulher podessem a partir daí obter fácil e gratuitamente todo o tipo de frutas, sementes, e restantes alimentos que viessem a ser necessários à concretização de uma qualidade de vida paradisíaca digna deste mesmo nome. Mas que deus simpático e altruísta!, devem estar agora os leitores destas linhas a exclamar! Calma, vou advertindo eu.

 

Como não há bela sem senão em tudo em que deus põe a mão e como este via-se no direito e com o poder necessário para tal, decidiu quase de imediato preparar uma engenhosa armadilha cuja função seria complicar a vida ao homem e à sua mulher. Afinal, tanto trabalho, tanto suor, tanto esforço mental e imaginação despendidos para ficar depois deus sem nenhum entretenimento ou diversão, sem nenhum proveito prático da sua obra, enquanto os dois felizardos regalar-se-iam sem cessar dos frutos da sua criação a eles oferecida?! Não, sussurrou deus num tom de voz que só ele terá ouvido, como quem fala sozinho no intuíto de se fazer firme face à hesitação numa decisão que deverá ser tomada em breve. Desta sua última atitude podemos se quisermos retirar duas ilações pertinentes: Em primeiro, que de mais um mal humano sofreria deus (e não há-de acabar por aqui a lista de defeitos em comum), a desgastante Incerteza, a corrosiva Dúvida, a humana Indecisão que todos nós temos de enfrentar em semelhantes momentos. Em segundo, que algo não muito simpático para a existência dos humanos habitantes do novo paraíso deveria estar a ser arquitectado na divina mente, caso contrário não se perceberia a razão de tanta hesitação. E foi mesmo esse o caso. Não tendo paciência para suportar a perpétua eternidade na mesma monotonia que antes o havia levado a criar o mundo, deus decidiu-se por acrescentar ao seu jogo de estimação sofisticados instrumentos que lhe permitiriam a partir de então extrair daquele o maior proveito lúdico possível, desviando-o consequentemente do seu velho amigo, o eterno aborrecimento.

 

          E foi por esta razão que um dia lembrou-se ele de criar uma árvore na qual cresceriam frutos especiais, os quais seriam de ingestão proibida para os inquilinos humanos, pese embora o seu atraente e apetitoso aspecto.  A ideia da diversão era simples: Após ter criado Adão e Eva em muito semelhantes a ele nas qualidades e nos defeitos, depois de os ter criado igualmente imperfeitos, acrescentou como agora se viu um paraíso destinado a eles, onde nada precisariam de fazer para continuarem vivos, inteiros e saudáveis. Em resumo, criou-os e recriou em seu redor as mesmas condições de aborrecimento intelectual que a si mesmo o atormentavam desde o início da eternidade. A partir deste momento, e dadas as condições oferecidas por deus, a única diferença crucial entre o casal e o seu criador era a posse dos invejáveis poderes de omnipresença, omnipotência e omnividência deste último, mas é importante não esquecer que o conjunto destas mesmas características do imperfeito deus era a razão pelo qual só ele e mais ninguém por si criado até à data no novo mundo conhecia as palavras bem e mal, assim como a diferença de significado entre estas duas, o que por sua vez nos leva a concluir que seria também deus o único a compreender a perversidade do jogo psicológico que estava a ultimar, em oposição à ingenuidade característica daqueles que não conheciam ainda os antagónicos conceitos. Assim, à fácil mas monótona vida de Adão e Eva, deus acrescentou uma árvore contendo o fruto proibido, na certeza de tornar menos apática a sua condição de espectador, caso os seus humanos inquilinos se começassem a interrogar sobre as suas também apáticas vidas. Com a concretização deste plano deus garantiria num primeiro momento entretenimento para si mesmo, enquanto Adão e Eva vivessem a batalha interior de comer ou não o único fruto ainda por provar no paraíso, no intuito de também eles combaterem a sua apatia ocupando-se com novas acções. Num segundo momento, deus encontrar-se-ia perante muitas e variadas hilariantes oportunidades de distracção, caso os humanos caíssem finalmente na tentação que os desprenderia da ingénua ignorância e que os levaria a viver a partir desse ignominioso acto inúmeras dificuldades, problemas e privações.

 

Aquando da introdução da tentadora árvore no paraíso por eles habitados, e apesar do provável aborrecimento, tanto o homem como a mulher gostavam da vida que tinham, de todos os prazeres disponíveis, dos frutos de infinitas variedades e sabores, dos novos animais que encontravam todos dias, das novas paisagens incrivelmente belas com que os seus olhos se deliciavam a cada vez que decidiam partir à descoberta e, desse modo, eram felizes e gostavam da vida que tinham, ao contrário do que se passava com o seu deus criador. No entanto, o tempo foi passando e eles percorreram todos os caminhos do paraíso, experimentaram todos os sabores e todas as sensações, tomaram conhecimento de tudo o que havia no paraíso e nada mais tinham de diferente para fazer. É claro que mesmo assim podiam perfeitamente continuar a viver alegres e contentes tal como todos os outros animais, dada a tamanha quantidade de regalias que tinham ao seu dispor. Assim seria de esperar, que pudessem continuar felizes e despreocupados com a sua inocente vida, mas não, não se perpetuou este destino porque deus, apercebendo-se que os motivos de distracção para os humanos estavam prestes a findar-se, lembrou-se de lhes apurar uma característica que tanto neles como nos restantes animais se apresentava numa forma residual, a curiosidade, ou seja, deu-lhes o impulso necessário para vencer a inércia inicial de que sofriam as mentes humanas, e que retardavam consideravelmente a diversão que deus tanto ansiava. Apesar de consciente da pura malvadez contida nesta sua última decisão e segundo reza a lenda, não há indicações algumas de que jamais se tenha arrependido de o ter feito, nem tampouco que tenha sentido remorsos depois de tão mal tratar os seus inquilinos, o que me leva a perguntar onde pode deus ir buscar argumentos para nos acusar, julgar e condenar contra os nossos inevitáveis actos pecaminosos, quando este pecava livremente já desde o início dos tempos? E mais, sempre foi possuidor (o que faz toda a diferença) da omnipotência que o poderia ajudar a ser cura e psicólogo de si próprio, advertindo-se da insensatez e gravidade dos seus planos, assim como elucidando-se de outras possibilidades, mostrando novos e alternativos caminhos de saúde mental. É uma questão que deve fazer pensar os leitores católicos. Quanto aos que não o são, deixo-os com a persistente dúvida: se omnipotente é o deus dos católicos, porque permite que peque o género humano sem jamais intervir? Por ser imperfeito, vou insistindo eu...

 

          Os acontecimentos posteriores à última mudança efectuada por deus no paraíso vieram demonstrar que foi acertada a sua escolha, pois a verdade é que quer Adão quer Eva, após adquirirem um elevado grau de curiosidade e, embora nada mais de significativo tenha ocorrido no paraíso no qual eram precários hóspedes (como se há-de descobrir em breve), começaram a mostrar-se cada vez mais impacientes, pois como é sabido viviam num lugar onde nada era preciso fazer, onde não era necessário de todo lutar para sobreviver, onde tudo se podia obter facilmente. As suas vidas cada vez mais aborrecidas e entediantes tomavam precipitadamente novos contornos, já não era somente aquele ritmo monótono e quotidiano ao qual se tinham bem adaptado. Os pobres humanos debatia-se agora com a verdadeira tortura psicológica que se tinha tornado a inesgotável curiosidade que sentiam quando para a àrvore do fruto proibido olhavam, e que os fazia roer unhas e cérebros nas incontáveis tardes em que passavam horas a fio sentados em frente a ela, admirando o esplendor do brilho fortemente alaranjado das suas enigmáticas maçãs.

 

A tentação de experimentar a única coisa que faltava naquele aborrecido paraíso era sem dúvida enorme, mas o respeito e o reconhecimento que tinham os primeiros seres humanos pelo imperfeita divindade que criara a eles e à aquele mundo eram de tal forma elevados que, embora várias discussões entre o casal-primeiro se tenham produzido e nelas todos os prós e contras que as suas ingénuas mentes se poderiam lembrar tenham sido analizados exaustivamente, o bom senso imperou (será que imperou mesmo?) e, firmemente unidos, decidiram que o correcto seria cumprir a vontade de deus de forma a poderem demonstrar-lhe a sua imensa gratidão pelo paraíso onde tinham sido acolhidos, apesar de obviamente acharem incompreensível a divina decisão relativa ao fruto proibido. Semelhantes a deus seriam certamente, por obra e vontade deste último, mas não tanto como se pode pensar. Basta nos lembrarmos por exemplo como eram ingénuos demais Adão e Eva para poderem imaginar e muito menos compreender a perversão, engendrada por deus, da qual estavam a ser vítimas.

 

          Tendo o casal em conjunto decidido não violar a vontade de deus, quem se começava agora a impacientar e bem era este último, que achava patética e absurda a respeitosa lealdade que decidiam os humanos manter para com a sua proibição e que os impedia assim de cair na esperada tentação de com a exótica fruta saciarem as suas barrigas e comum curiosidade. É que deus acreditava mesmo que Adão e Eva, semelhantes a ele nas suas muitas imperfeições, começassem pelo menos a se aproximar perigosamente e cada vez mais frequentemente da árvore proibida, o que para seu grande desespero teimava em não acontecer.

 

É interessante constatar que o homem e a mulher tenham de facto tomado a louvável atitude de honrar o seu compromisso para com quem se sentiam obrigados a fazê-lo, mas outro aspecto ainda mais importante a reter é que estes fizeram-no apesar da sua inata imperfeição, o que me leva a ironicamente concluir que estes primeiros humanos eram inesperadamente capazes de escrever direito por linhas tortas, ao contrário do seu criador, que pese embora fosse possuidor das mais direitas linhas existentes em todo o universo, haveria de cegamente insistir em escrever torto sobre tão perfeitas linhas a história dos primeiros tempo da humanidade.

 

Luís Garcia

Primeira versão: Dezembro de 2009, Audin-le-Tiche, França

Última versão: 26.03.2016, Lampang, Tailândia

 

 

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