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Pensamentos Nómadas

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A criação do mundo - Capítulo 1/5

 

 

Um novo "antigo testamento"

o deus imperfeito - origem do mundo 2 copy2

 

O deus imperfeito RELIGIÃO Luís Garcia 

 

Jeová, que, de todos os bons deuses adorados pelos homens, foi certamente o mais ciumento, o mais vaidoso, o mais feroz, o mais injusto, o mais sanguinário, o mais despótico e o maior inimigo da dignidade e da liberdade humanas, Jeová acabava de criar Adão e Eva, não se sabe por qual capricho, talvez para ter novos escravos. Ele pôs, generosamente, à disposição deles toda a terra, com todos os seus frutos e todos os seus animais, e impôs um único limite a este completo gozo: proibiu-os expressamente de tocar os frutos da árvore de ciência. Ele queria, pois, que o homem, privado de toda consciência de si mesmo, permanecesse um eterno animal, sempre de quatro patas diante do Deus "vivo", seu criador e seu senhor. Mas eis que chega Satã, o eterno revoltado, o primeiro livre pensador e o emancipador dos mundos! Ele faz o homem se envergonhar de sua ignorância e de sua obediência bestiais; ele o emancipa, imprime em sua fronte a marca da liberdade e da humanidade, levando-o a desobedecer e a provar do fruto da ciência. Conhece-se o resto. O bom Deus, cuja presciência, constituindo uma das divinas faculdades, deveria tê-lo advertido do que aconteceria, pôs-se em terrível e ridículo furor: amaldiçoou Satã, o homem e o mundo criados por ele próprio, ferindo-se, por assim dizer, em sua própria criação, como fazem as crianças quando se põem em cólera; e não contente em atingir nossos ancestrais, naquele momento ele os amaldiçoou em todas as suas gerações futuras, inocentes do crime cometido por seus ancestrais. Nossos teólogos católicos e protestantes acham isto muito profundo e justo, precisamente porque é monstruosamente iníquo e absurdo. Depois, lembrando-se de que ele não era somente um Deus de vingança e cólera, mais ainda, um Deus de amor, após ter atormentado a existência de alguns biliões de pobres seres humanos e tê-los condenado a um eterno inferno, sentiu piedade e para salvá-los, para reconciliar seu amor eterno e divino com sua cólera eterna e divina, sempre ávida de vítimas e de sangue, ele enviou ao mundo, como uma vítima expiatória, seu filho único, a fim de que ele fosse morto pelos homens. Isto é denominado mistério da Redenção, base de todas as religiões cristãs. Ainda se o divino Salvador tivesse salvo o mundo humano! Mas não; no paraíso prometido pelo Cristo, como se sabe, visto que é formalmente anunciado, haverá poucos eleitos. O resto, a imensa maioria das gerações presentes e futuras arderão eternamente no inferno. (Citação retirada da obra "Deus e o Estado" de Mikhail Bakunin)

 

Depois de muito se interrogar e muito mais duvidar de ser capaz de algo fazer ou não, Deus decidiu criar os céus e a terra, isto antes mesmo de determinar o significado destas duas novas palavras, pois o pobre diabo era imperfeito demais para pensar em tais pormenores, pelo menos para ele, ou talvez não, pois assim como o termo cristão inicialmente usado neste conto, também talvez esses habitassem já no pré-existente universo das ideias do imperfeito deus. Como ele era e ainda contínua a ser, segundo se diz, o todo poderoso, não foi certamente por aí que a coisa se complicou e o facto é que então algo apareceu a preencher o espaço vazio primordial!

 

Como não era este deus imperfeito alguém que se contentasse com pouco, e motivado pelo entusiasmo que lhe dera a sua primeira criação, não perdeu muito tempo em se lembrar do próximo atributo para o seu novo e primeiro brinquedo de sempre - o mundo físico - e disse, segundo reza a lenda: faça-se a luz. Ditas estas palavras algo de novo surgiu, diferente da negridão do imenso nada e, como muito farto estava ele desse breu onde sempre vivera, conclui que a luz era boa e separou a luz das trevas. De forma a complicar ainda mais a coisa, qual homem ainda por existir a complicar o que era por enquanto fácil, lembrou-se de dar novos nomes aos seus feitos e chamou dia à luz e às trevas noite.

 

Para quem levava um eterno hábito de nada fazer, deus pensou que já tinha trabalhado muito e achou por bem acabar o primeiro dia por ali. Cansou-se muito e muito suou, descobriu o que era suar e não se esqueceu disso, pelo contrário, assim que se deitou e enquanto não adormeceu, ter-se-á metido (perversamente diria eu) a imaginar uma situação futura onde pudesse aplicar a sua nova descoberta no mundo que estava agora a criar.

 

No segundo dia deus disse: Haja um firmamento entre as águas para mantê-las separadas umas das outras. Não contente com a nova palavra deliberou então que uma outra deveria haver para dizer sensivelmente o mesmo e chamou-lhe céu (se não eu soubesse, seria mesmo capaz de apostar que falaria a língua de Camões este pobre diabo). E dá que pensar o seu comportamento... De males humanos sofrendo antes mesmo de estes inventar (Não será o inverso? Homens que sofrem de males divinos de deuses por eles inventados? Enfim.), cansou-se com pouco ou a ambição não era muita neste segundo dia e por isso por aqui ficou.

 

Talvez devido aos remorsos que sentia pela lassidão do dia anterior, no terceiro dia da criação do universo deus decidiu pegar num dos trabalhos que mais lhe puxaria pelo couro e meteu as águas para um lado, deixando do outro lado espaço para criar algo novo, a terra, onde se divertiu a espalhar verdura, erva com semente, árvores frutíferas, e muito mais. Achou que isto era bom e acabou assim o dia.

 

          Julgando que deveria pôr ordem na luz, deus criou o sol para ser astro rei durante o dia e a lua e as estrelas para príncipe e suas acompanhantes da noite, diferenciando assim o dia da noite e determinando as estações, os dias e os anos. Feito isto, descansou pela quarta vez. Não fosse deus omnipotente e estaríamos nós agora aqui a dar voltas à cabeça tentando compreender como terá ele conseguido levar adiante a incrível tarefa de contar sucessivamente os primeiros dias da criação, não só porque a definição deste conceito ainda não havia visto a luz do dia, mas também porque a essa definição seria preciso adicionar o conhecimento do funcionamento do calendário celeste. Mas bom, antes de começarmos a nos queixar dos seus infindáveis defeitos, é justo que lhe prestemos agora homenagem pela seu gesto de boa vontade que demonstrou neste quarto dia e que nos permite assim seguir com os devidos conhecimentos os restantes dias da sua criação.

 

Chegado o quinto dia deus lembrou-se de criar umas entidades vivas às quais deu o nome genérico de animais, para que com estes fossem povoadas as águas e os céus. E mais, mandou-os multiplicarem-se indefinidamente pelas vastas terras do novo mundo. Não surpreendentemente estes começaram, a partir dai, a passear-se livremente sem qualquer preocupação em relação à nudez, ao prazer ou ao pecado, inquietações estas que mais tarde tanto iriam afligir a espécie de Adão e Eva. Não encontro razão alguma para esta diferença de tratamento ou, se preferirem, esta descarada discriminação, mas deus é omnipotente e por isso faz o que bem entende e, além disso, estes temas tabus não tinham sido ainda inventados por ele. Enfim, no meio de tanta preocupação!

 

          No sexto voltou a dedicar-se ao fabrico de animais, desta vez para preencher de vida a terra, tendo no entanto aqui a preocupação de separar os animais em selvagens e domésticos. Providência perspicaz, não fossem os descendentes de Adão e Eva por vir, perante o possível esquecimento de deus desta separação, terem a infeliz ideia de brincar aos deus evolucionistas com selecções artificiais! Não se sabe bem se foi pelo cansaço dos dias anteriores, se foi por deus ter um espelho em casa ou porque havia e há então mais que um deus imperfeito, a verdade é que deus continuou a criação da sua obra proferindo: façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, (...) e sobre todos os outros seres. Não admira então que sejam tão anarquistas, incoerentes e desorientados os homens que por este mundo fora governam alguma coisa. Defeito de fabrico por defeito do molde! Mas pelo menos fazem e seguem o que deus lhes ordenou, governam os peixes, as aves, os répteis, as ervas com semente e todos os outros animais, plantas e restantes seres vivos como toda a gente pode comprovar. E sem dúvida que o fazem como deus então planeara! Mais, não satisfeitos com as ordens divinas de reinar sobre os restantes seres vivo, uma minoria atenta e perspicaz sempre se tem entretido, desde a criação do mundo, a reinar sobre a restante maioria desatenta e não pensante, não? E por vezes até baralham tudo: reis homens que são divinos, papas representantes de deus em carne e osso, profetas mensageiros do deus que ficou em casa a dormir... com frequência essas massas não pensantes não chegam sequer a notar a diferença e bajulam de igual modo deuses virtuais e seus imitadores em substância... e acabam com manuais de mau comportamento nas mãos, como o livro que de forma herética aqui ouso reescrever.

 

Voltando à semelhança entre deus e o homem por si criado e para deixar aqui explícito que tal situação é para mim de difícil aceitação, apresento-vos sem mais demoras um inquietante (ou cómico) problema teológico que parece ter perturbado a mente do então jovem Kundera, inquietação esta que ele nos conta numa das suas obras e que bastante me contenta no sentido de me fazer ver que não estarei por certo sozinho nesta insistente dificuldade em assimilar que existam semelhanças entre seres terrenos reais e ser divinos irreais:

 

“Era um velho senhor, tinha olhos, um nariz, uma longa barba e eu dizia a mim mesmo que tendo uma boca necessariamente teria também intestinos. (...) Sem a mínima preparação teológica, espontaneamente, a criança que eu era então compreendia desde já que existe uma incompatibilidade entre a merda e deus e, consequentemente, frágil seria a tese fundamental da antropologia cristã segundo a qual o homem foi criado à imagem de deus. Das duas uma: ou o homem foi criado à imagem de deus e portanto deus tem intestinos, ou deus não tem intestinos e o homem não se assemelha a ele.” (Citação retirada da obra “A Insustentável Leveza Do Ser” de Milan Kundera)

 

Quando acima foi afirmado que deus criou o homem à semelhança deles (Eles quem, continua a ser uma boa pergunta?), é preciso ter em conta que homem foi escrito com h pequeno e não grande. Insignificante diferença, aparentemente, mas com grandes consequências como podem facilmente concluir pois, se ao homem com h pequeno se referia de facto, não terá criado portanto nesse momento a humanidade na sua multitude de indivíduos nem na sua diferença de sexos, mas sim um simples homem. Poderia eu desde já começar a criticar a tendência machista de um deus que faz um homem e não uma mulher à sua semelhança mas, antes de seguir por essa via de argumentação contra este defeito de deus, gostava de lembrar ainda que não só a mulher foi criada depois do homem mas incrivelmente, e atente-se no detalhe, A Partir De Uma Costela Deste! Agora sim, embora vos possa parecer demasiado duro da minha parte começar numa fase tão precoce deste relato a usar nomes feios e acusar o nosso imperfeito deus da injusta tendência de ser machista, os factos no entanto falam por si e, como quero partir do princípio (neste texto) que esta história de facto se passou e não é obra de nenhum macho humano com complexos de superioridade face ao sexo que gostam de apelidar de fraco, a acusação de sexista, insisto, é para ser mantida e levada a sério como mais à frente poderão constatar.

 

Antes de dar por terminado o seu último dia de trabalho, deus ordenou e incentivou o homem e a Sua mulher a multiplicarem-se e a povoarem toda a terra, de resto, conselho infelizmente praticamente concretizado, atente-se nas cerca de sete mil milhões de almas humanas a que já chegámos e as terríveis consequências não só para o planeta e o conjunto das espécies nele existentes, mas também para as degradantes condições de vida para uma grande percentagem desses sete mil milhões que hoje não vivem mas sobrevivem. E se assim é no presente, como será quando a nossa população humana atingir o seu esperado máximo de dez mil milhões de seres, numa altura em que o seu problema maior poderá não ser a escassez de recursos para a manter viva, mas a simples inexistência destes, graças ao esbanjamento doentio de uma grande minoria por entre eles privilegiada. Voltando ao nosso relato, o mais hilariante mesmo é que o imperfeito deus que com as suas omnipotentes capacidades poderia muito facilmente ter previsto as tenebrosas consequências da sua última ordem, relembro, multiplicarem-se o homem e a mulher e com os respectivos frutos povoarem toda a terra, não só não se alarmou mas ficou, diz-se, muito contente com as suas últimas decisões. Devia estar mesmo cansado o pobre coitado!

 

          Como qualquer esforçado trabalhador, também deus achou por bem optar por descansar ao sétimo dia e, vendo a importância de tal facto, o descanso, ele abençoou e santificou este dia para que esse descanso periódico se pudesse eternizar. Eu faria o mesmo.

 

          A esse dia, ao sétimo e consagrado ao descanso, o deus imperfeito denominou de Sabat, Sábado em português... Sábado? Mmmm, Então o dia de descanso não é ao Domingo? Então o dia do senhor deus não é ao Domingo?, daí vem a palavra Domingo, de Dominicus, o dia do senhor! Ah, meu caro católico e leitor, boa pergunta, pertinente sem dúvida, mas veja, hoje em dia descansa-se ao sábado e ao domingo, não é (pelo menos até a troika permitir)? Ora e por que razão? Para agradar a gregos e troianos, pois claro, ou neste caso, a católicos e pagãos, pelo menos assim decidiram em tempos os poderosos senhores do Império Romano que viram na adopção e expansão da Igreja Católica um formidável instrumentum regni: Sabat era o dia do deus judeu, do tal deus imperfeito, estrela principal deste relato; Domingo era para inúmeras religiões pagãs o dia do deus principal, o dia do deus Sol, fonte de luz e vida. Atente-se na palavra Domingo em inglês, alemão ou sueco (entre muitas outras línguas europeias): Sunday, Sonntag e Söndag, respectivamente. Em todas o significado é “dia do sol”, pois claro, o dia do deus pagão. Mistela e remistura que é a Igreja Católica de preceitos e crenças quer judias quer pagãs (pois assim conveio em tempos ao poder romano), esta relegou então o Sábado (Sabat, dia do deus judeu, o deus bíblico) para um papel secundário, optando pelo dia do deus pagão, o deus sol, como o novo dia de descanso do seu senhor: Domingo. E não é por acaso que o ritual principal da igreja católica se realiza no domingo de manhã e não à tarde ou à noite; também nas manhãs de domingo (dia do sol) celebravam os pagãos os seus rituais principais, pois é de manhã que nasce o sol, era de manhã que nascia o seu deus. No entanto, na língua portuguesa, ainda se mantém uma pista sobre o Sabat/Sábado bíblico: o primeiro dia da semana é a segunda-feira, pois claro, se se convencionar o domingo como o último dia. Mas então porquê segunda e não primeira-feira? Bem, antes das remodelações impostas em tempos por Roma, aposto (não sei se foi assim) que havia uma primeira-feira (domingo). A semana iria então da primeira-feira à sexta-feira, e acabaria no sábado, no dia do descanso do senhor bíblico, obviamente!

 

Luís Garcia

Primeira versão: Dezembro de 2009, Audin-le-Tiche, França

Última versão: 20.03.2016, Lampang, Tailândia

 

 

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