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Pensamentos Nómadas

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À boleia na Bulgária, por Luís Garcia

 

 

DOS BALCÃS AO CÁUCASO – EPISÓDIO 13  

À boleia na Bulgária

 

bw  VIAGENS  Luís Garcia        

Estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem... aonde não estou. (Estou Além, António Variações)

 

19.06.2014

O pequeno-almoço, tomado no jardim da praça central, ao lado da tenda, foi uma sopa instantânea e ameixas que apanhámos numa das árvores que circundavam a tenda. Depois de desmontada a tenda fomos trocar dinheiro num banco e caminhámos cerca de 1 km até um bom lugar para pedir boleia na direcção de Sofia, a capital do país. A espera foi acima do normal, cerca de meia hora, mas apesar de tudo, conseguimos avançar umas dezenas de quilómetros até Simitli no carro de uma família de gregos da Bulgária. A filha era completamente apática, nem sequer tirou os fones, de onde eram berrada pop music norte-americana, para nos dizer “Olá”. A mãe era muito gentil e curiosa, mas o seu marido conservador e besta reprimia-lhe a fala. O chefe de família e condutor de serviço era um bronco com cara de mafioso que aceitou nos levar até Simitli de graça (a pedido da sua esposa). Para viajar com eles até Sofia teríamos de pagar. Disse que sim para Simitli e acabou o assunto. De Simitli apanhámos boleia de um búlgaro muito simpático, com sorriso de menino, que nos deixou junto à circular da cidade onde se encontra a saída para a cidade de  Plovdiv, na rota directa para a Turquia. Comemos o que foi possível naquele caos urbano pós-nuclear e recomeçámos a boleia numa bomba de combustível. Aí um jovem búlgaro-jordano ofereceu-se para nos tirar dali e deixar-nos uns quilómetros à frente, mais perto da estrada que leva a Plovdiv. Já estávamos a abrir a porta e agradecer a gentileza quando, para nosso espanto, o rapaz diz-nos que “Se esperarem 1h30m, durante a qual me encontrarei com amigos, posso levar-vos até Plovdid, onde vou visitar outros amigos”! Dada o péssimo local para fazer boleia em que nos encontrávamos (zona urbana de auto-estradas e circulares), aceitámos a proposta, e ainda bem, pois pouco depois começou a chover. No shopping em que ele se encontrou com os amigos aproveitámos para fazer compras, beber café, usar internet wi-fi, usar as casas-de-banho e nelas roubar um pouco de papel higiénico, hehe!

 

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Jordano-Búlgaro e Claire

 

Em Plovdiv andámos 1h30m a pé às voltas, cerca de 5km, de malas às costas e exaustos. Tínhamos um mapa do googlemaps, tínhamos bússola, e ainda assim, não víamos forma de sair daquele pesadelo. Aparentemente os nomes das ruas no google não batem certo com os nomes afixados nos prédios. Desistimos de seguir os nomes, pegámos na bússola e seguimos para leste em linha recta durante mais 15 minutos e por fim saímos da zona urbana! E mais, descobrimos que por 2 vezes tínhamos estado bem perto da saída! Que raio de trabalho fez o pessoal do googlemaps nesta cidade! Em contra-partida a cidade parece ser muito interessante, com história, com identidade. Se fossem restaurados os edifícios e espaços de valor, seria um maravilhoso lugar para viver, estudar ou passear, digo eu…

 

Na saída da cidade tivemos mais uma boleia até à entrada da via rápida, o que nos facilitou imenso a vida na tarefa de pedir boleia. E assim foi, arranjámos boleia depois do por-do-sol para Haskovo, uma cidade a 80 km da Turquia. A boleia foi muito interessante, o senhor falava fluentemente inglês e trabalhava em projectos de protecção ambiental. Entre muitos outros ensinamentos pertinentes, explicou-me algo que eu nunca tinha pensado antes embora agora pareça óbvio: ainda que parcialmente favorável ao antigo regime comunista pró-soviético, o senhor apontava um erro grave das decisões governamentais (ainda que a intenção pudesse ser boa). Durante o período comunista a produção alimentar era controlada totalmente pelo estrado central, no intuito de melhor distribuir os recursos alimentares e acabar com a fome na Bulgária. O plano funcionou, mas os danos colaterais foram graves. A Bulgária era um país com grandes tradições culinárias até ao início da era comunista; durante esta, a complexidade e riqueza gastronómica desceram drasticamente de forma a não permitir que elites e ricos esbanjassem em manjares de luxo, ou mais ou menos bons, matéria orgânica comestível que poderia alimentar 100% da população com comida que satisfizesse as necessidades nutricionais de toda o país, em detrimento do valor gastronómico tradicional. E assim, durante duas gerações em que a classe média (aquela que cria e mantém tradições gastronómicas) passou a comer, igual à classe pobre, ração de sobrevivência, o savoir faire da culinária búlgara morreu. Agora é, em princípio, tarde de mais, assegurou-nos o senhor.

 

Chegámos a Haskovo muito tarde, durante a noite, mas ainda assim tentámos a boleia numa bomba de combustível. Não funcionou e fomos montar a tenda numa plantação de milho à beira-estrada.

 

Álbuns de fotografia

Luís Garcia, 18.02.2017, Chengdu, China

 

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