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Pensamentos Nómadas

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À boleia entre ilhas - Parte 5/5

 

 

BOLEIAS – EPISÓDIO 8

 

bebe bali.jpg

 

bw VIAGENS Luís Garcia

Esta insatisfação, não consigo compreender, sempre esta sensação, que estou a perder. Tenho pressa de sair, quero sentir ao chegar, Vontade de partir, p’ra outro lugar. (Estou Além, António Variações)

 

À BOLEIA ENTRE ILHAS (Indonésia, 2011) –  A primeira etapa da travessia levou-nos até Denpasar, capital de Bali, sobrepovoada e suja. Parámos um pouco por lá, não por um especial interesse, mas apenas porque Enrico tinha combinado visitar um seu fornecedor de peixes para acertar uns detalhes. Não demorou muito pois, bem mais conhecedor da cidade do que eu, detestava-a ainda mais. O que nos empatou imenso foi o trânsito caótico, e logo às duas da tarde, com o carro a derreter debaixo do intenso calor tropical! Após sairmos da cidade continuámos rumo a norte, passando por Ubud, paragem obrigatória de todos os guias de viagem! Até eu um mês antes tinha equacionado a possibilidade de por lá passar dois ou três, plano que não foi avante pela razão do costume: preços proibitivos e falta de alternativas para orçamentos de viajantes nómadas. Enrico tranquilizou-me, assegurando-me que não tinha perdido nada especial, o que não me surpreendeu. Em contrapartida defendeu que Bali também não é tão mau como a pintam, que lá existem genuínos tesouros e ritmo de vida normal, terras e pessoas ainda não envenenadas pelo mercantilismo turístico do sul. Onde? No interior montanhoso da ilha, para onde nos dirigíamos!


Que sorte a minha de ter encontrado Enrico, uma pessoa que conhece melhor que qualquer balinês todas as ruas e ruelas, os tesouros escondidos da ilha, locais onde se pode facilmente observar vida selvagem, aldeias interessantes de visitar, lagos, arrozais, templos! E depois, alguém que respira altruísmo e paciência! Enquanto atravessámos no seu jipe o interior profundo de Bali, por inúmeras vezes parou o seu veículo na berma da estrada, reagindo amavelmente ao meu constante retirar da máquina fotográfica da mala e disparar em direcção de mais uma maravilha visual. “Sai do carro e faz a tua fotografia com calma, como deve ser. Eu espero, o que não falta é tempo”, dizia Enrico sorrindo!

 

Embora em viagem de trabalho, mostrou-se o mais sábio e paciente guia turístico que jamais conheci, tento além disso a vantagem de ser um guia gratuito fruto da sua vontade de partilhar. Tenho que confessar que foi uma sorte enorme encontrá-lo, não é todos os dias que se encontra alguém que nos faça uma tão grande quantidade de favores seguidos sem pedir nada em troca. E como companhia de viajem idem aspas. Eu que, em todas as minhas viagens percorri tantos milhares de quilómetros à boleia, muitas das vezes tive de me desdobrar em jogos e truques mentais para encontrar “desbloqueadores de conversa” essenciais para o quebrar do gelo inicial entre passageiro e condutor ou, para interromper longos silêncios sempre muito constrangedores. Com Enrico, foram dois dias de boleia seguida, não duas ou três horas, mas tema de conversa e vontade de falar foram coisas que nunca faltaram, quer da minha parte quer da dele. Diria mesmo que aquela viagem foi feita não na companhia de um estranho mas sim de um amigo em potencial. Esta minha estória não acabaria nunca se eu me dedicasse a contar todas as estórias de Enrico, mais absurdas e extremas que a maioria das minhas. Estórias como as das duas ocasiões em que sobreviveu a ataques de tubarões enquanto fazia mergulho, ou como aquela de ter sido atacado por uma serpente venenosa na selva indonésia a qual não o matou por ter espetado os dentes de raspão, falhando por milímetros a introdução de veneno na perna do meu companheiro de viagem. Mais sensato será ler esses relatos em primeira mão, todos eles escritos no diário de Enrico que espera pelo dia ser publicado em livro.

 

A meia da tarde, e com metade da distância percorrida chegámos ao interior norte de Bali onde se encontra, no meio das montanhas centrais, um enorme e formoso lago que, além de deixar boquiaberto visitantes como eu, garante comida para as bocas de muita gente, visto que irriga constantemente as ricas terras circundantes onde os locais recolhem três vezes ao ano a sua produção de arroz. O quadro é perfeito, montanhas, lagos, arrozais, uma harmonia de verde e azul salpicada ali e acolá com um templo hindu de cor laranja ou umas modestas casinhas de agricultores. Um espectáculo imperdível. Como se não fosse ainda suficiente, no local onde estacionámos o jipe para admirar o vale inundado a partir do topo de uma montanha, tivemos a sorte de encontrar uma família (ou clã, não sei) de uma espécie local de macacos que, curiosos e atrevidos, vieram se meter connosco. Aproveitei, como podem imaginar, para tirar um monte de fotos aos nossos primos peludos, mas não foi esse o melhor bem que trouxe comigo daquele encontro. Inesquecível mesmo foi estar a cerca de meio metro distância, frente a frente, olhos nos olhos, perante um dos macacos mais velhos. Sei que soa a gasto cliché, mas ainda assim, garanto que me arrepiou a pele e inquietou-me o espírito perante a constatação que aquele macaco me estudava tanto ou mais que eu a ele, e que se sentia uma profunda empatia mútua no ar, que de facto comunicávamos um com o outro através dos olhos as palavras que não podiam ser ditas. Poucos quilómetros à frente, esfomeados por uma tarde inteira sem comer, parámos a convite de Enrico numa aldeia que ele conhecia bem e na qual sabia onde comprar muito boa fruta tropical de produção local a preços ridículos. Enquanto Enrico regateou as suas negociatas aproveitei para lanchar no café à beira estrada, na companhia de gente sorridente e amável, e de uma bebé que se tornou numa impecável modelo fotográfica por breves momentos (capa deste artigo)

 

Clique na foto para ver o álbum do dia

Álbum de fotografias

 


Por volta das nove horas da noite chegávamos ao porto de Gilimanuk, na ponta noroeste de Bali, onde entrámos com o jipe num ferry-boat que nos haveria de levar no curto trajecto entre a ilha de Bali e a ilha de Java, separadas por apenas quatro quilómetros de mar. Durante a travessia aprendi mais um truque de viagens, óbvio, mas que nunca me ocorrera. Apesar de ao cabo de um mês na Indonésia ter tido a oportunidade de viajar diversas vezes em ferry-boats, em todas as ocasiões tinha entrado nesses barcos pelos meus próprios pés. Desta fez, porque viajava dentro do jipe de Enrico não me foi pedido que pagasse um bilhete para fazer a travessia. Ingénuo e pasmado, perguntei ao meu companheiro italiano se era normal que se esquecessem de pedir a um cliente para pagar o bilhete estando eu ali presente, a seu lado dentro do jipe, quando comprou o bilhete para si. Enrico respondeu, complacente, que os bilhetes para veículos incluem todos os passageiros que se encontrem dentro daquele no acto do pagamento. Ora, era esse mesmo o caso. Concluindo que eu não teria ainda reflectido no assunto, aconselhou-me a daí em diante pedir boleia nos portos e entrar dentro de um qualquer transporte antes de embarcar, evitando assim a compra de bilhetes de ferryboats. Garantiu-me ainda que pedidos do género são muito frequentes e que por norma a resposta é positiva. Por vezes há quem peça um pagamento simbólico, o que até é justo visto que assim ambos poupam na travessia! Sempre a aprender nesta vida!


Meia hora depois chegámos a Ketapang, uma cidade costeira de Java. Como tinha casa prometida por um couchsurfer habitante da ilha, assim que entrámos na ilha, dei o número de telemóvel do meu anfitrião a Enrico que já antes se oferecera para falar com ele (em indonésio, claro) e levar-me de jipe até sua casa caso esta não se encontrasse demasiado longe do seu destino. Supostamente seria até bem perto, visto que Enrico vive em Banyuwangi, mesmo ao lado de Ketapang, e o meu anfitrião havia me informado por email que vivia igualmente em Banyuwangi. No entanto, com é hábito por aquelas bandas, o couchsurfer que havia me oferecido alojamento não tinha sido nada preciso na descrição da sua morada. Banyuwangi não era a sua localidade mas sim a capital do município. O meu anfitrião que o não chegou a ser morava afinal numa outra terra no cimo de montanhas escarpadas a quarenta quilómetros dali, informou-me Enrico depois de desligar o telemóvel. Em seguida perguntou-me que quereria eu fazer perante os factos apresentados e ciente que era já demasiado tarde para apanhar um transporte público, ainda mais para uma aldeia perdida algures nas montanhas.

 

Hesitei um pouco, tentando ler o pensamento de Enrico e descobrir se ele equacionava a possibilidade de me hospedar naquela noite. A resposta surda que recebi foi não, Enrico não parecia ter cara de quem estivesse disposto a me hospedar, o que é natural. Tinha feito muitíssimo por mim, estaria fatigado e com saudades da família que não via há mais de duas semanas. O que precisava era de repouso e tranquilidade na intimidade do seu lar, e não de um hóspede caído de para-quedas. Daí que não tive o descaramento de lhe pedir para me dar casa naquela noite. Antes perguntei se conhecia algum hotel em conta onde eu pudesse ficar. Conhecer conhecia, tínhamos era de voltar atrás oito quilómetros atrás até Ketepang onde existem muitos hotéis baratos junto ao porto da cidade. Voltar atrás não seria o problema adiantou Enrico, problema seria encontrar um quarto vazio àquela hora da noite. Levou-me a dois hotéis cujos donos eram seus conhecidos mas tal como previsto estavam esgotados. Decidiu então levar-me até um outro hotel barato e um pouco mais afastado do porto. Por sorte havia ainda um quarto disponível. Enrico, sempre pronto a ajudar, negociou o preço do quarto por mim em Indonésio e apresentou-me aos dois empregados de serviço e ao dono do hotel. Antes de se ir embora combinámos um encontro para o dia seguinte naquele mesmo lugar, para “ir dar um passeio de jipe e beber um copo”, promessa que foi cumprida.

 

Após Enrico partir sentei-me junto dos três, começando por beber o café que um dos empregados gentilmente preparara para mim. Como sempre, começaram a conversa perguntado pela minha nacionalidade. Ao responder-lhes que era português reagiram eufóricos, contentes por receber um hóspede lusitano precisamente na noite em que iriam assistir pela televisão a um jogo do Benfica para a liga Europa, e mais ainda quando lhes informei que a minha amília era toda desse clube. Sem surpresa foi convidado a juntar-me ao grupo para assistir ao jogo que iria para o ar às três horas da manhã locais. Quando ando de viagem prolongada passos os dias a desbravar terreno entretido em aventuras, de forma que por hora de jantar costumo já estar ensonado e me deite muito cedo, entre as nove e as dez da noite. No entanto insistiram tanto para que eu os acompanhasse que acabei por prometer “tentar” levantar-me à hora da transmissão, promessa que não pude e não quis cumprir quando chegou a hora de levantar. Só soube do resultado na manhã seguinte quando me encontrei com eles ao pequeno de almoço. E para confirmar peguei no jornal da região onde vinham publicados os resultados da Liga Europa com uma fotografia de Pablo Aimar ao lado. Não percebo muito de indonésio mas graças às fotos publicadas fiquei a saber que naquele dia o jornal continha também artigos sobre Cristiano Ronaldo, José Mourinho e o Futebol Clube do Porto. Até na capa vinha imprimida a cores uma fotografia dos festejos de dois jogadores do Benfica pela empate que garantiu a passagem às meias-finais da competição europeia...

 

 

 

leia também: À boleia entre ilhas - Parte 1/5

leia também: À boleia entre ilhas - Parte 2/5

leia também: À boleia entre ilhas - Parte 3/5

leia também: À boleia entre ilhas - Parte 4/5

 

Luís Garcia, 12.06.2016, Chengdu, China

 

 

 

 

 

 
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