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À boleia entre ilhas - Parte 3/5

 

 

BOLEIAS – EPISÓDIO 6

 

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bw VIAGENS Luís Garcia

Esta insatisfação, não consigo compreender, sempre esta sensação, que estou a perder. Tenho pressa de sair, quero sentir ao chegar, Vontade de partir, p’ra outro lugar. (Estou Além, António Variações)

 

À BOLEIA ENTRE ILHAS (Indonésia, 2011) – A principal atracção de cartaz era sem dúvida o exótico desequilíbrio de forças em jogo, razão que atraiu a aldeia em peso para assistir à luta. De um lado um italiano de um metro e noventa de altura, bem musculado e ignorante das técnicas de artes marciais da cultura Sakak. Do outro, uma homem com a típica fisionomia de Lombok (metro e meio de altura, magrinho) e famoso entre os seus semelhantes pelos seus dotes marciais. Enrico garantiu-me ser uma pessoa pacífica e pacifista, que apenas se tinha metido em tamanha embrulhada por amor à bela indonésia, menina dos seus olhos! Além do mais admitiu que aquando da decisão de reatar a luta ritual tinha feito uma interpretação muito ingénua daquilo em que acabava de se meter. E persistiu com essa ingenuidade até ao início da luta.

 

Contou-me Enrico, empolgado pelas memórias entretanto desenterradas, que quando foi dada ordem para o combate começar ele se manteve imóvel, receoso de magoar aquela pessoa de aparência tão frágil com um cacetada demasiadamente forte desferida com o bastão de bambu bem mais grosso do que ele tinha imaginado quando lhe descreveram as armas de combate. Supondo um luta mais simbólica e menos viril, Enrico cria que os bastões fossem da largura de um dedo ou dois e não, como veio a descobrir já na arena, da largura de um braço! Vários minutos passaram-se sem que ele nem o irrequieto indonésio tenham tentado coisa alguma até que, incitado pela desesperada plateia, este último precipitou-se sobre o italiano e desferiu-lhe um violentíssimo golpe nas costas que o fez encolher de dor e de orgulho ferido. Se Enrico se sentia confuso pelos vários minutos passados sem que o indonésio houvesse realizado manobra ritual alguma que o guiasse e o permitisse acompanhar a cerimónia com recurso ao mimetismo do sei oponente, muito mais confuso ficou quando levou com aquela pancada.

 

Crendo acreditar que o ataque agressivo tinha sido uma consequência dos eufóricos incitamentos do público, Enrico manteve-se calmo e sereno, esperando a iniciativa do adversário, o qual desferiu mais um preciso golpe com o bastão de bambu no joelho direito do italiano. Por momentos ficou caído no chão, gemendo de dores “horríveis”, não conseguindo de todo movimentar a sua perna direita. O indonésio esperou largos minutos, calmo e sereno, que Enrico se levantasse do chão. Quando o fez finalmente, já convencido do realismo da luta e fora de si, lançou-se enfurecido direito ao seu pequenote adversário e não mais parou de lhe bater e espancar até que a audiência os separou, vendo o indonésio já sem reacção. A mesma audiência recolheu o derrotado quase inanimado para ser assistido. Enrico vitorioso, foi convidado pelo homem mais velho ancião da aldeia a pegar na mão da sua futura mulher que assistira nervosa ao combate e declarou o divórcio consumado!


Assim que acabou o relato da sua surreal aventura, perguntei-lhe se me sabia dizer a localização dessa aldeia Sasak. Até lhe mostrei o meu mapa improvisado desenhado no diário de viagem. Pela explicação de Enrico, não ficava muito longe da zona onde eu me perdera e onde acabei por acidentalmente ir parar a Nangong, a pequena aldeola na costa onde encontrei o grupo de crianças (ver capa do artigo Um vida num só dia ). Surpreendido pela coincidência, liguei o computador portátil para lhe mostrar as fotografias tiradas com o grupo de miúdos junto à praia. Ainda mais surpreso que eu, Enrico garantiu-me reconhecer o miúdo de olhos esbugalhados e sem t-shirt, filho de um conhecido! Ah, e eu que havia acreditado ter sido o primeiro ocidental que aquelas crianças haviam visto! Afinal, tinham vindo tocar no meu corpo com os dedos esticados, hesitantes, como se confrontassem uma assombração! Contei este detalhe do encontro a Enrico e ele respondeu-me que lhe parecia natural. Achava compreensivel que aquelas crianças se comportassem assim, mesmo que tivessem visto mais um ou outro alienigena como nós, não pela novidade mas sim pela extrema raridade de aparições similares! Fiquei convencido com o argumento.


Hoje Enrico vive com a sua mulher Sasak e uma filha bebé na ilha de Java. No início foi um choque civilizacional para ambos. Ela nunca tinha saído da região sul de Lombok onde nascera e não estava habituada a confrontar uma realidade da qual fazem parte electricidade, televisão e filas de trânsito. Para Enrico o maior choque foi ter passado os três primeiros anos da relação na aldeia da sua mulher, privado de tudo aquilo que ela ainda não conhecia, desesperado por não se nutrir em condições na maior parte do tempo lá despendido e traumatizado com a tortura que tinha sido coabitar com tanto mosquito à sua volta. Segundo me explicou, a sua permanência durante esse tempo tinha sido uma imposição dos chefes da aldeia, um género de período de união à experiência, findo o qual seria decidido em conselho se Enrico e a sua noiva poderia o não se casar e mudar para outro lado. Felizmente, a decisão final dos teimosos velhinhos foi-lhe favorável. Organizou-se o casamento de acordo com os costumes locais e finda a cerimónia os dois receberam autorização para partir. Perguntei.lhe se não teria sido mais fácil fugirem os dois a meio da primeira noite no seu jipe, em vez de passar o martírio que me contou. Enrico explicou-me que a dureza da experiência lhe tinha feito, vistas bens as coisas, mais bem do que mal. Tinha saído da aldeia Sasak mais forte psicologicamente, mais adulto e mais ciente da realidade dos indonésios que, não possuindo quase nada do mundo moderno, sabem tão bem viver naquelas latitudes (uma clara mais valia para que pretende passar o resto da vida naquele país. Além de todas estas razões, adiantou-me um outra. Passar aquele período de tempo no interior esquecido de Lombok, na terra natal da sua esposa, tinha permitido realizar uma transição mais fácil entre realidades muito distintas. Se não o tivesse feito, apostava Enrico sorrindo triunfante, provavelmente a relação não teria durado meses sequer e a jovem indonésia ficaria para sempre perdida e abandonada. Uma vez mais convencia-me com todo o seu elaborado discurso. Dei-lhe os meus parabéns pela bravura e ousadia, e confessei-lhe que embora muito aventureiro e destemido, nunca na vida eu teria a força mental e resistência física para me meter num filme daqueles!


Ainda quis continuar a enumeração de factores positivos, acabando com o sólido argumento que o seu nível já bom de indonésio tinha, após os três meses de quarentena, melhorado imenso, ajudando-o a adaptar-se ainda mais à realidade indonésia e tornando praticável uma relação com um mulher iletrada que apenas falava indonésio e sasak. À data do nosso encontro levava já sete anos vividos na Indonésia e vários anos (não me disse quantos) casado com a jovem sasak. Falava um indonésio fluente e de vocabulário mais extenso que a maioria dos indonésios que ele conhecia. Não, não deve ser treta. Indonésio é uma língua simples e relativamente fácil de aprender. Por outro lado, a maior parte ds indonésios tem um acesso limitado a um sistema de ensino já de si medíocre. Para um estrangeiro há sete anos na Indonésia, neste caso um italiano, habituado a falar várias línguas, amante da leitura, que fez questão de tirar vários cursos de língua indonésio e casado com uma indonésia, ter um elevado domínio da língua franca do país é tarefa realizável, sem dúvida nenhuma. Além da fluência, o que me impressionava mais quando o ouvia falar indonésio era a beleza sonora com que soletrava todas as sílabas e letras, tornando o seu discurso apelativo e mais fácil de seguir por um principiante de indonésio como eu. No fundo é natural, um falante nativo de uma língua tem sempre hábitos orais enraizados que torna difícil a compreensão por parte de um não-nativo. A diferença estava no perfeccionismo impressionante que Enrico havia alcançado e que ele orgulhoso não fazia tensão nenhuma de negar com falsa humildade. Para mim acabou por ser uma excelente oportunidade para melhor o meu nível de indonésio, uma espécie de curso intensivo sobre rodas, com a vantagem do professor ser fluente quer em indonésio quer em inglês, e falante nativo de italiano que deu jeito alguma vezes para completar explicações em situações em que um dos dois não entendera por completo o outro em inglês!


E assim nos entretemos boa parte do caminho, falando um pouco de tudo, inclusive de estórias de viagem minhas, as mesmas contadas neste blog. Quando Enrico apontou para uma placa de estrada onde estava escrito Kuta, não quis acreditar. Com tanta e tão interessante conversa, tínhamos já alcançado o sul de Bali e, eu, distraído, estava convencido que não tínhamos feito nem sequer metade do caminho! (em breve, na parte 4/5)

 

leia também: À boleia entre ilhas - Parte 1/5

leia também: À boleia entre ilhas - Parte 2/5

 

Luís Garcia, 14.05.2016, Chengdu, China

 

 

 

 

 

 
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