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Pensamentos Nómadas

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À boleia entre ilhas - Parte 1/5

 

 

BOLEIAS – EPISÓDIO 4

 

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bw VIAGENS Luís Garcia

Esta insatisfação, não consigo compreender, sempre esta sensação, que estou a perder. Tenho pressa de sair, quero sentir ao chegar, Vontade de partir, p’ra outro lugar. (Estou Além, António Variações)

 

À BOLEIA ENTRE ILHAS (Indonésia, 2011) – No último dia na ilha de Lombok tinha planeado entregar cedo a scooter que alugara por 3 dias a um primo da empregada do meu anfitrião, o senhor Klaus. Tínhamos combinado se encontrar em frente da casa por volta das nove horas da manhã mas, como é tradição na Indonésia, o rapaz chegou muito atrasado. Apareceu depois das dez horas, deitando por terra o meu plano de apanhar o autocarro das 10 para o porto de Lembar. Como se não bastasse, quando fui tentar saber o horário de partida do próximo autocarro com destino ao porto, informaram-me que o próximo só partiria no dia seguinte à mesma hora! Excelente, na próxima vou-me embora com a scooter! Não tive outra alternativa senão correr todas as lojas de transporte e férias radicais instalados na zona turística de Senggigi. Acabei por encontrar um senhor que se propunha me levar de carro, pedindo em troca mais de dez euros! Tentei regatear mas o teimoso não descia quase nada o preço, daí que desisti da opção. Pagar cerca de dez euros na Indonésia para fazer um percurso de pouco mais de vinte quilómetros? Nem pensar, querem ganhar tudo de uma vez, não levam nada.

 

Por sorte um viajante francês, que se encontrava no estabelecimento em busca de um tour para o pico de Lombok, ouviu a conversa e intrometeu-se para propor uma solução. Ben, o viajante francês, explicou-me que tencionava alugar naquele dia uma moto de forma a poder fazer um percurso pela zona costeira da ilha. A sua proposta era que eu pagasse parte do aluguer, permitindo-lhe a ele obter um preço mais barato pelo mota e a mim chegar ao porto por por preço razoável. O aluguer de uma moto por um dia naquela estância turística é mais cara que a média indonésia mas, pelo que aprendera nos últimos três dias, nunca custaria mais que quatro euros, daí que aceitei de pronto a sua proposta e combinei um encontro com ele para as duas horas da tarde no bar onde costumava utilizar internet, a poucos metros da loja onde nos encontrávamos.

 

Ia eu a meio do almoço quando Ben chegou ao bar com más notícias. Não tinha conseguido alugar um moto pelo preço que desejava (dois euros e meio era o seu objectivo!) e portanto havia mudado de planos. E já não pretendia fazer o seu tour. Os franceses são, sabe-o bem quem anda na estrada a viajar, negociadores muito duros e procuram por norma alcançar acordos nos seus negócios o mais baixo possível. São uns fuinhas, hehe! Mas há limites, digo eu! Senão vejamos, num país em que em média se paga dois euros para alugar uma moto por dia, Ben tinha encontrado uma por três euros, tinha a garantia de eu pagar metade, e ainda assim recusou! Impressionante! Aparentemente só me restava um outra opção económica, apanhar por cinquenta cêntimos um bemo (mini-autocarro publico) até à capital da ilha, Mataram, e aí tentar encontrar um autocarro para a cidade portuária. Sabia que os preços eram razoáveis em mataram (três euros no máximo), no entanto esta alternativa apresentava um enorme risco: não chegar a tempo ao porto. Sim, a distância entre as duas cidades é muito curta, pouco mais de vinte quilómetros. Mas é preciso não esquecer que na Indonésia um autocarro só parte quando se encontra cheio, desafio que tanto pode levar dez minutos como um dia em meio a se concretizar. Derrotado, ofereci-me para pagar a totalidade do aluguer da mota ao francês (três euros) e pedi-lhe para ir buscar a moto de imediato, enquanto eu terminava de almoçar. Continuando em maré de (mini) azar, o senhor das motos a três euros pedia agora cerca de três euros e meio, o que levou o francês a voltar ao bar de mãos vazia! Ah, que paciência. Bebi o ultimo gole de sumo à pressa e fui pelas minhas próprias mãos pagar os três euros e meio e pegar na moto!

 

Arrancámos os dois, ele a conduzir porque insistia em fazê-lo e eu dava as indicações, visto que dois dias antes tinha realizado o mesmo trajecto (ler estória Uma vida num só dia em 3 partes: parte1, parte2 e parte3). Nos primeiros dez quilómetros caiu uma chuva torrencial que me deixou completamente ensopado, mas não parámos pois eu tinha pressa de chegar a tempo ao porto. Quanto ao Ben, rapaz muito bem prevenido, viajava com um oleado muito bom que lhe custara um euro e lhe cobria o corpo inteiro. Quando a chuva finalmente parou pedi-lhe para estacionar junto a uma lojinha na berma da estrada, onde pedi um café para aquecer enquanto trocava a t-shirt molhada por uma outra guardada na mochila. Chegados ao porto confessei-lhe que tinha sido um enorme prazer conhecê-lo, embora achasse que devia rever um pouco o seu extremismo económico. Trocámos endereços electrónicos, partilhámos um com o outro os endereços dos nossos blogs de viagem e despedimo-nos com a promessa que todos os viajantes sempre fazem, a de voltarem a se encontrar de novo algures neste planeta.

 

Dois dias antes tinha-me informado sobre os preços da travessia e a única resposta que obtivera tinha sido acerca de um pack de onze euros que incluiria a viajem no shuttle bus que entretanto perdera de manhã mais o bilhete de ferry-boat de Lembar a Pandangbay, na ilha de Bali. Por outro lado, dois dias depois, à conversa com outros funcionários, pediram-me apenas três euros e meio pela travessia de barco. Graças ao dono da scooter que de manhã havia chegado atrasado para a recuperar, perdi algum tempo procurando soluções, travei conhecimento com novas pessoas e acabei por poupar dinheiro! Em vez de onze, acabei por gastar três e meio vezes dois! E fiz um francês feliz alugando-lhe uma moto com o meu dinheiro! É o que se chama sinergia de viajem, hehe!

 

 

Já no ferry boat e, enquanto o sol não se pôs, entreti-me a olhar a beleza infinita dos mares e ilhas de encantar que compõem a Indonésia, esse país de múltiplas realidades que mora numa dimensão à parte do meu pensamento de viajante. Em nenhum outro país, até hoje, me pareceu tão vaga a consciência do tempo que leva o tempo a passar como na Indonésia. Até uma pessoa irrequieta e hiperactiva consegue realizar a proeza de ficar a olhar o mar, tranquilo, horas a fio, e só acordar para realidade porque a chegada do pôr-do-sol fez alterar o padrão de cores no céu e diminuir a quantidade de luz! Durante esta travessia de barco acordei de um desses sonhos acordado estava o sol a poucos segundos de se esconder por detrás da linha do horizonte. Com o tempo que me levou a tirar a máquina fotográfica da mala e preparar-me para disparar, nem sequer fui a tempo de congelar no tempo aquele sublime pôr-do-sol. Ainda assim acabei por tirar umas fotos para mais tarde recordar, possivelmente belas...

 

Quando se fez noite fui-me recolher dentro da sala de estar do barco, onde entrei numa dimensão oposta, uma de stress e claustrofobia causados por um enxame de vendedores ambulantes. Mil e uma vezes, um por um, vieram ter comigo tentar vender coisas que eu não precisava a preços que eu jamais aceitaria! Que inferno social! Para me abstrair daquela cacofonia, liguei o portátil escolhi um álbum de música, coloquei os auriculares nos ouvidos e pus-me a escrever estórias no caderno de viagem. Enquanto permaneci ali, avistei por duas vezes um homem alto, de aspecto europeu, mas acabei por perdê-lo de vista e não mais o encontrei dentro do barco.


Por volta das nove e meia da noite o ferry boat atracou no porto de Padangbay e, eu, um mês depois, estava de regresso à ilha onde aterrara vindo da Europa entusiasmado com a perspectiva de começar a minha primeira aventura no Sudoeste Asiático. Poucos dias depois de aterrar em Denpasar, capital de Bali, tendo já visitado alguns dos destinos turísticos cliché da ilha, decidi correr dali para fora o mais rápido possível. Poluição, sujidade, densidade populacional absurdamente elevada, demasiados milhares de australianos bêbados, comércio claustrofóbico de bens e pessoas. Não que eu não estivesse há espera de conspurcação do género, mas ainda assim fiquei surpreendido por ultrapassar o que eu tinha imaginado. De qualquer forma apenas tinha optado aterrar em Bali devido ao facto da viagem de avião mais barata da Europa para a Indonésia aterrar naquela ilha hiper-turística. Faz sentido. O que não faz muito sentido é um estrangeiro não conseguir movimentar-se facilmente pela ilha, pois os transportes para as zonas não turísticas ou não existem ou são um segredo bem escondido pelos locais. E daí até faça sentido, é a lógica mercantil levada ao seu expoente máximo, de certo mais por culpa de australianos esbanjadores que de balineses gananciosos. Um mês antes tinha tentado partir de autocarro para este mesmo porto de Padangbay, para fugir de Bali, mas não cheguei a concretizar a fuga dessa forma devido aos negócios absurdos que me haviam proposto: muitas dezenas de euros para uma curta travessia, instalado em autocarros repletos de luxos e mordomias que eu não queria nem precisava. Autocarros normais a preços locais nem sinal deles!


Um mês depois estava de regresso a Bali não porque tivesse grande interesse em viajar dentro da amaldiçoada ilha, mas porque tentava seguir o meu objectivo traçado, o de percorrer a grande linha de ilhas da Indonésia sem apanhar nenhum vôo, viajando de barco, autocarro ou à boleia desde a aportuguesada Flores (ao lado de Timor-Leste), que visitara semanas antes, até ilha de Sumatra junto ao continente asiático. Bali encontra-se a meio-caminho. E uma vez mais deparei-me com problemas de transporte. Não havia nenhum autocarro normal estacionado no porto à espera para transportar os passageiros do ferry boat. Para um barco do mesmo tamanho atracando numa outra qualquer ilha indonésia encontrar-se-iam por certo umas dezenas de autocarros. Ali não. Muitos dos passageiros do barco eram vendedores (os tais chatos, chatinhos) cujo destino deveria ser dormir no porto e fazer o percurso marítimo inverso no outro dia. Havia também alguns turistas estrangeiros que tinham viajado escondidos na primeira classe e que se deslocavam em direcção aos tais autocarros de luxo com destino ao sul da ilha. Pelo norte da ilha, rumo a oeste, nada, nem sequer um bemo para a terriola seguinte. Eu que tanto anseava atravessar Bali o mais rápido possível e partir à descoberta da ilha de Java,via-me ameaçado pela hipótese de ter de passar uns tempos extra na ilha não desejada.

 

Completamente entalado naquele fim do mundo, sem solução nenhum em mente, pus-me a praguejar furioso até ao momento em que vi um grande vulto caminhar na minha direcção. Era o mesmo ocidental que eu tinha visto no ferry boat, o único estrangeiro além de mim que viajara em classe económica. Vinha em busca do seu jipe estacionado atrás de mim. Eu, bem consciente que naquela pessoa residiria a única hipótese de me ver livre de Padangbay naquela noite, respirei fundo, afinei a voz e fui meter conversa com o senhor. 

 

Luís Garcia, 03.05.2016, Chengdu, China

 

 

 

 

 

 
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