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Terrorismo-colonização da Síria, por Luís Garcia

 

  

Terrorismo-colonização da Síria

 

Luís Garcia  POLITICA    

De onde vem o ISIS

 Acabei o último artigo falando sobre um grande desespero mediático por omissão. Ora essa mesma omissão, enorme e escandalosa, é o tema deste artigo: a terrorismo-colonização da Síria pelo Império da Guerra (aka EUA). Este plano de balcanização da Síria começou a ser implementado definitivamente em Junho de 2014, aquando da aparição súbita de 30.000 mercenários na Síria, vindos do Iraque através do deserto que separa os 2 países, apetrechados de novo e moderno equipamento militar norte-americano capturado em meia dúzia de dias às novas tropas regulares iraquianas do norte do Iraque que vinham de receber esses novos equipamentos e tinham sido dias antes abandonadas de forma súbita pelas tropas norte-americanas. O plano era simples e funcionou na perfeição. Os EUA, após transformar os polícias e militares iraquianos despedidos no tempo de Bush em mercenários de guerra, agora, no tempo de Obama (2014), esses mercenários seriam integrados numa nova organização terrorista norte-americana: o ISIS. Treino sim, entrega massiva e descarada de moderno equipamento norte-americano não. Então, para mascarar esse descaramento, os EUA armaram (enorme e estranhamente) as tropas regulares iraquianas e de forma também muito estranha abandonaram-nas subitamente no norte do país. Resultado: em poucos dias perderam quase toda a região norte para o recém-nascido ISIS, quase sem resistência, o que permitiu ao ISIS adquirir equipamento militar capaz de sustentar um exército moderno. A partir deste evento, o que tinha parecido estranho, passava a ser lógico.

 

Se os EUA tivessem a mínima intenção de parar a captura de armamento pelo ISIS e consequente construção de um exército terrorista poderoso, e dado que ainda se encontravam dezenas de milhares de militares norte-americanos no sul do Iraque, Obama poderia ter autorizado a destruição do exército do ISIS na sua fase embrionária. Se Obama quisesse evitar a fuga de 30.000 membros do ISIS para a Síria, poderia ter autorizado a facílima chacina desse exército do ISIS nos 2 ou 3 dias que levaram a atravessar o deserto sírio-iraquiano, período durante o qual esse exército terrorista seria alvo ridiculamente fácil de um massivo bombardeamento aéreo que mataria o mal pela raiz e não poria em risco a vida de civis inocentes. Mas não, Obama ficou a assobiar enquanto via a caravana passar. EUA tinha todos os meios para o fazer, e tinha a obrigação moral de o fazer, pois tinha sido o seu absurdo erro de organização que tinha permitido ao ISIS se armar e partir armado para a Síria. Não terem os EUA de Obama reagido a este desenrolar de eventos prova algo muito simples de compreender: os EUA desejavam a invasão da Síria pelo ISIS e, assim sendo, os eventos no norte do Iraque que levaram à criação do exército do ISIS não teriam afinal sido um erro de organização norte-americano mas sim o contrário, um sucesso de organização norte-americano.

 

Plano A e Plano B 

Este sucesso na criação e armamento indirecto do ISIS poderia vir a ser importante para as ambições colonialistas dos EUA na Síria, caso a agressão norte-americana disfarçada de guerra civil não alcançasse o seu objectivo fundamental, a destruição do estado laico de al-Assad. Como todos sabemos, foi mesmo isso que aconteceu, os EUA e seus aliados ocidentais não conseguiram nem conseguirão nunca derrubar o estado laico de al-Assad. Podem atacá-lo, enfranquecê-lo, impor-lhe sanções que torturam de fome e doença o povo sírio, mas não podem derrubar o estado sírio, em grande parte devido ao apoio essencial do Ezbolá, Irão e Rússia.

 

Assim sendo, sempre tinha valido a pena, para os EUA, a ocupação de mais de metade da Síria com o seus ISIS, pois só com a presença deste se poderia passar à segunda fase da agressão à Síria, fase que mais tarde passou a ser apelidada pelo próprio John Kerry de "Plano B" (em 2016). É que os EUA são governados por gente muito profissional nas artes da barbárie, do sofrimento e da morte, mas muitíssimo fraquinhos na arte de bem se exprimir. Quando se fala de um Plano B, subentende-se a existência de um Plano A, não?. Se os EUA tinham um Plano A, então tinham pelo menos um "plano" anterior para a Síria, certo? Pois claro, e o plano era derrubar o governo legítimo da Síria. Se o plano era dos EUA, e chamava-se Plano A, esse plano não poderia então ser de nenhuma oposição civil síria, tal como sempre nos quiseram vender! Aliás, basta ver de que forma bem armada e militarizada começaram os protestos "civis" e "pacíficos" em 2011 em Daraa para se perceber onde e como começou o Plano A. Esse plano começou numa mesquita de Daraa controlada pela anglo-saudita Irmandade Muçulmana a poucos quilómetros da fronteira com a Jordânia, onde armamento estrangeiro foi armazenado durante as semanas que se seguiram à assinatura do acordo de construção de um gasoduto na Síria em parceria com o Irão e a Rússia no início de 2011, gasoduto esse que era suposto trazer gás iraniano até junto do mercado europeu. Os EUA desde 2001 que pressionavam o governo Sírio para aceitar o seu próprio projecto, em parceria com a Arábia Saudita, e que deveria trazer gás qatari para o mercado europeu. Como al-Assad se portou mal, bem mal, a seguir às armas que encheram a mesquita até ao tecto, vieram os mercenários estrangeiros que, nas nossas TV's embrutecedoras, seriam pintados de "civis sírios protestando".

 

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Pese embora a miséria e a morte multiplicada por milhões, todos sabem que o norte-americano Plano A não deu em nada, não alcançaram o objectivo final, apesar das organizações "rebeldes" terroristas do Plano A ainda se encontrarem na Síria, organizações como o Exército de Libertação Sírio, a al-Qaeda/al-Nusra e mais um imensa lista delas que já me fartei de citar em artigos deste blog. Não terem dado em nada não significa no entanto que tenham perdido utilidade para os EUA. Não, bem pelo contrário. Mas já lá iremos.

 

Voltando ao Plano B, que não fique no ar a ideia que esse fosse a criação do Estado Islâmico (ISIS) no verdadeiro sentido do termo "estado". Não. O Plano B de John Kerry, como ele mesmo afirmou, é o de criar um estado curdo nas zonas ricas em petróleo e gás da Síria e pobres em percentagem de população curda. Sim, um Curdistão Sírio num país com poucos curdos, numa região desse país onde curdos são ridiculamente minoritários. Estranho? Bahhh, chama-se Engenharia de Estados, é uma arte que serve para inventar países como Kuwait, Brunei, Sudão do Sul, Kosovo e tantos outros! E para acabar já com esse assunto de minorias curdas, queria relembrar ao leitor que não só curdos sírios são minoritários quer na Síria inteira quer nesta zona específica do nordeste da Síria, como também a esmagadora maioria dos curdos sírios são fruto da perseguição de curdos na Turquia perita em limpezas étnicas e que tiveram a sorte de viverem ao lado do estado sírio multi-étnico e multi-confessional com uma longa tradição de acolhimento e assimilação de perseguidos e refugiados. Seguindo esta magnífica tradição antiga síria, já no século XXI, e por decisão de al-Assad, esse conjunto de curdos da Turquia refugiados na Síria obteve a plena cidadania síria. Portanto, mesmo que, em resultado desta política de recolha e nacionalização de refugiados, a Síria tivesse passado a ter um região habitada maioritariamente por curdos (o que não é verdade), não haveria argumento possível que sustentasse a criação de um estado independente curdo em território sírio. Façam-no na Turquia onde vivem mais de 15 milhões, ou no norte do Iraque. Agora na Síria, a sério?

 

Estratégia de Implementação do Plano B 

- a) ISIS conquista terreno à Síria;

- b) mediatiza-se o carácter demoníaco do ISIS;

 -c) alguém conquista terreno ao ISIS;

- d) Síria não tenta reconquistar terreno a esse alguém pois ainda tem de combater "rebeldes" terroristas de um lado e ISIS de outro;

- e) esse alguém declarar-se-á mais cedo ou mais tarde independente, mantendo-se sobre ocupação militar dos EUA, isto é, um estado vassalo dos EUA.

 

Todos estes pontos porque o Plano A, a guerra de procuração (proxy war), ou seja, a guerra de agressão de EUA e aliados contra a Síria, disfarçada de guerra civil, falhou. E mais, porque por mais que se venda na máquina de propaganda de EUA e aliados a imagem de uns "rebeldes" terroristas muito boa gente, não há forma de obter apoio das populações dos EUA e Europa para mais uma guerra convencial de conquista e subjugação de um estado, neste caso o Sírio. Pelo contrário, a luta contra a derradeira materialização do mal na terra poderia, com muita arte e efeitos especiais hollywoodescos, levar essas mesmas populações a aceitar ou pelo menos a fechar os olhos a uma intervenção militar directa na Síria que tivesse como objectivo oficial a destruição dessa encarnação do mal.

 

Claro que, antes de o fazer, teriam de mediatizar e bem os feitos grotescos do ISIS, essa encarnação do mal escolhida para o efeito. Daí toda a programada pornografia de jornalistas e reféns ocidentais vestidos de cor-de-laranja sendo queimados vivos ou decapitados por membros do ISIS. Para quem tenta encontrar a informação que procura, em oposição àqueles que aceitam de forma irreflectida aquilo que acreditam ser informação produzida pelos médias globais, foi por demais óbvia a existência de um plano objectivo dos EUA por detrás de toda essa sangrenta pornografia. Porquê? Porque o que não faltam online são imagens e vídeos de torturas e execuções de civis sírios e soldados sírios pelo ISIS e também pelos "rebeldes" terroristas. Uma pesquisa no youtube e uma pessoa pode encontrar, por exemplo, vídeos extensos de corpos de soldados sírios vivos sendo cortados e desmembrados; ou decapitados; ou executados às dezenas e centenas de uma vez só. Horror ISISiano era, portanto, matéria que não faltava, infelizmente. Por volta de 2015, mediatizar os hollywoodescos fatos-de-macaco cor-de-laranja, alguns possivelmente encenados, transparecia a necessidade do Império da Guerra de demonizar o mais possível o ISIS antes de poder declarar a guerra santa contra o ISIS, ou seja, a colonização do território sírio ocupado pelo ISIS.

 

Em paralelo a essa mediatizada demonização do ISIS iam sendo definitivamente implementadas as Forças Democráticas Sírias, os cruzados do século XXI encarregues de "destruir o ISIS", supostamente.

 

Forças Democráticas Sírias

Quem são as FDS -  Quem são as Forças Democráticas Sírias, ou melhor, quem não são? As Forças Democráticas Sírias não são nem democráticas nem tampouco são sírias. Antes uma mistela de organizações armadas sem organização política e, consequentemente, sem qualquer relação com o conceito de "democracia", não podem de todo ser democráticas. Mais, essa mistela de síria não tem coisa nenhuma! Irra! Uma mistela ilegalmente organizada e implementada pelos EUA, estado agressor, que combina EUA, NATO, Peshmergas (curdos iraquianos submissos a Israel), curdos turcos (PKK) e curdos turcos naturalizados sírios (YPG), temos pena, mas não é de forma alguma uma organização síria. Não dúvido das boas intenções de boa parte dos membros do PKK e do YPG quanto à vontade de libertar a Síria do terror ocidental mas, no entanto, é bem sabido que outra parte, sobretudo em posições hierárquicas superiores, deixaram-se comprar pelos EUA em troca de um prometido futuro estado curdo em terras roubadas à Síria. É uma questão delicada e constantemente saem informações contraditórias, é verdade. Se no início do conflito PKK e YPG combatiam sem dúvida ao lado do governo de al-Assad, hoje é certo que pelo menos uma parte desses curdos sírio-turcos, juntamente com os ladrões dos peshmergas, NATO e norte-americanos, estão firmemente envolvidos na criação desse tal Curdistão. 

 

Quando surgiram as FDS - Apesar de não poder citar aqui nomes de indivíduos, sei de fonte confiável que tropas da NATO de vários países (pelo menos da Polónia, França e EUA), pelo menos desde 2013, já se encontravam secretamente no norte da Síria, na altura em que chegou a grande ofensiva do ISIS à Síria vinda do norte do Iraque. Mais uma vez se prova indirectamente a ligação entre EUA e ISIS pois aqueles já preparavam secretamente as SDF que seriam mais tarde a vacina contra a doença (ISIS) que ainda não tinha alastrado no paciente (Síria). 

 

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Bandeira das FDS

 

A bandeira - Sei muito bem que a linha azul que atravessa o mapa sírio na diagonal representa o rio Eufrates, pois sim. Mas representa algo mais. Representava, quando foi criada, o território que os EUA planeavam roubar à Síria e representa hoje com todo o rigor quase todo o território efectivamente roubado, ou ocupado, ou colonizado, como quiserem. Quem duvidar têm uma boa solução, olhar para a imagem abaixo:

 

zona SDF

 

 

Função das FDS na perspectiva norte-americana - Cumprir 2 pontos da lista acima, o c) a médio prazo e o e) a longo prazo.

  • c) alguém conquista terreno ao ISIS; 
  • e) esse alguém declarar-se-á, mais cedo ou mais tarde, independente, mantendo-se sobre ocupação militar dos EUA, isto é, um estado vassalo dos EUA 

 

Precisamente por terem como objectivo o cumprimento dos 2 pontos acima, as FDS possuem 2 características bem peculiares. A primeira é um mistério (ou não). É um mistério como, quando se lembram, e após meses parados em alegre confraternização fronteiriça entre FDS e ISIS, as FSD conseguem conquistar terreno ao ISIS a um ritmo que leva a acreditar que estes combatem fantasmas num deserto. Por vezes são dezenas de quilómetros num dia, poucas ou nenhumas baixas, destruição mínima. E depois voltam à prolongada calmaria. Um gajo adepto das teorias da conspiração, hehe, seria capaz de afirmar que o ISIS recua sob ordens de alguém, não acham?

 

A segunda característica peculiar não é mistério nenhum e está bem documentada. Por estranho que pareça a quem não estiver muito dentro deste assunto, as FDS não têm como objectivo destruir o ISIS, ao contrário daquilo em que acredita a barata tonta do Trump. Não, as FDS apenas têm como objectivo criar um estado curdo sobre território predifinido pelos EUA. Território sírio ocupado pelo ISIS na Síria fora dessa zona predifinida, mesmo que faça fronteira com o futuro estado curdo das FDS, não parece representar problema nenhuma para essa FDS. Peculiar atitude tem esta organização que se diz "democrática" e também "síria", não acham? Peculiar atitude de uma organização que, segundo os médias ocidentais, é a força avançada da luta do "mundo livre" contra o "terrorismo islâmico", ahahaha! Sim, deixem-me rir!

 

Cumplicidade entre "rebeldes" e ISIS

O Plano B de criação de um estado curdo através das SDF não seria nunca possível sem a existência do ISIS. Certo. Mas há mais a analisar.  Olhemos agora o ponto d) Síria não tenta reconquistar terreno a esse alguém pois ainda tem de combater "rebeldes" terroristas de um lado e ISIS de outro. A Síria não tem meios físicos, logísticos e humanos para enfrentar avanços e ambições das FDS sem antes se ver livre de "rebeldes" terroristas e de ISIS. Portanto, a permanência prolongada destes é um problema para as forças sírias, facto óbvio que não merece grande análise. De análise mais interessante é, a meu ver, a interecção/cumplicidade entre rebeldes terroristas e ISIS, e as consequências positivas que têm para as ambições das FDS, ou seja, dos EUA na Síria.

 

Poderíamos falar sobre os inúmeros casos de mercenários estrangeiros que têm trocado de empregador vezes sem conta, para trás e para a frente, entre "forças rebeldes", todas as variações de al-Qaeda e o ISIS, mas nem vale a pena pois são factos bem documentados, basta procurar online esses factos facilmente acessíveis. Ainda assim deixo aqui um exemplo:

 

 

O que me interessa para este artigo são análises de comportamento e, neste tema, 2 padrões de comportamentos saltam à vista após um análise da evolução do mapa do conflito sírio num longo intervalo de tempo. Primeiro, existem várias zonas de fronteira entre "rebeldes" terroristas e ISIS que se mantêm estáveis ao longo do tempo e onde nunca se passa nada. Em segundo, ataques/conquistas das forças sírias contra um destes grupos ("rebeldes" terroristas ou ISIS) costumam ser seguidos de ataques quase sincronizados do outro destes 2 às forças sírias. Sabendo que a manta síria não é infinita e que não consegue tapar todas as partes do corpo ao mesmo tempo, alguma ficará inevitavelmente fria, não é? 

 

Querem exemplos gráficos de vizinha e convivência pacifica entre "rebeldes" e ISIS ao longo do tempo? Vejam os mapas abaixo:

 

arredores de Damasco

arredores de Damasco

 

sul da Síria

sul da Síria

 

centro da Síria

 centro da Síria

 

nordeste da Síria

nordeste da Síria

 

E agora, querem exemplos da sincronia entre "rebeldes" e ISIS na agressão ao estado sírio? Temos 2 exemplos perfeitos e bem recentes, um deles bem conhecido. Começo pelo bem conhecido. Perante a grande ofensiva síria contra os "rebeldes" terroristas em Aleppo Leste de Dezembro passado que obrigou os sírios a mobilizar uma grande parte das suas forças militares para o norte do país, o ISIS aproveitou para reconquistar Palmira no centro do país. No sentido contrário, na semana passada, perante o rápido avanço das forças sírias contra o ISIS na província de Aleppo rumo à cidade de Raqqa, os "rebeldes" terroristas realizaram uma enorme quantidade de ataques e atentados terroristas junto a Damasco e Hama que, claro, tiveram como consequência o congelamento por 2 dias dos ataques das forças sírias contra o ISIS. Entretanto, foi retomado o ritmo normal dos dias anteriores e os sírios continuam a conquistar várias vilas por dia junto à auto-estrada Aleppo-Raqqa.

 

A criação do "Estado Plano B" e a destruição da Síria 

Analisemos por fim e em concreto o ponto e) esse alguém declarar-se-á, mais cedo ou mais tarde, independente, mantendo-se sobre ocupação militar dos EUA, isto é, um estado vassalo dos EUA.

 

Desde já, tirando a cidade de Raqqa e o triângulo quase totalmente deserto junto à fronteira com o Iraque, a mixórdia FDS (inventada pelos EUA para servir de força motriz para a criação de mais um estado vassalo do Império) controla já a quase totalidade do território previsto para o futuro estado curdo-gringo no nordeste da Síria. Vejam o mapa abaixo, no qual as FDS aparecem a amarelo, e comparem-no com a bandeira das FDS já mostrada acima:

 

FDS

 

E depois, a ver pela carta branca de Trump às suas forças armadas para fazerem aquilo que bem entenderem na Síria sem a sua supervisão presidencial, tudo está preparado para que os EUA pelo menos tentem a colonização definitiva do nordeste da Síria. Sei que não passa nos médias desse país à beira-mar plantado e em morte cerebral mas, são factos comprovados e inclusive anunciados pelo Pentágono que, nas últimas 3 semanas, chegaram 5000 tropas norte-americanas à zona controlada pelas SDF, assim como um esquadrão de bombardeiros B-52. Objectivo oficial: conquistar a grande cidade de Raqqa ao ISIS que, a ver pelas palavras do ministro dos negócios estrangeiros do terrorista estado francês, Jean-Marc Ayrault, será uma cidade que, uma vez conquistada, não será entregue ao seu legítimo dono, a Síria.

 

Pior, metendo a carroça à frente dos bois, a agora mesmo auto-proclamada Administração Autónoma do Norte da Síria, que é como quem diz, FDS sem armas, avisou há 3 dias atrás que abrirá assim que possível representações diplomáticas... adivinhem... nos EUA e no Reino Unido, pois claro!

 

Mas rebobinemos um pouco os acontecimentos e vejamos como o jogo de xadrez da Terrorismo-colonização da Síria foi sendo jogado pelos EUA e quais têm sido as últimas jogadas sujas mais importantes dos EUA a caminho da sua nova criação imperialista. Para o fazer há que, em primeiro lugar, analisar no mapa abaixo aquilo que eu chamo a "estrada do ISIS" ou, se preferirem, o sistema sanguíneo do ISIS sem o qual este não teria tido jamais tão prolongada existência:

 

a "estrada do ISIS"

 

A "estrada do ISIS" segue ao longo do percurso do rio Eufrates e estendia-se desde a fronteira com o Iraque até à fronteira com a Turquia, o que permitiu durante muito tempo a movimentação de mercenários do ISIS entre Turquia, Síria e Iraque, assim como a entrada em território sírio de equipamento militar da NATO para o ISIS através da Turquia e, no sentido contrário, o roubo de petróleo sírio pelo ISIS transportado por camiões cisterna até à cidade turca de Adana. Embora continue a controlar ainda a quase totalidade desta rota, o ISIS perdeu no dia 3 de Setembro de 2016 a ligação por terra à Turquia (ver aqui) e, mais importante, perdeu a ligação ao território sírio ocupado pelo estado terrorista turco há um mês atrás, no dia 26 de Fevereiro (ver aqui). Com este corte acabou-se o abastecimento de armas por terra mas não se acabou pelo ar, como mostram as inúmeras notícias documentadas de entregas norte-americanas por para-quedas, notícias que teimam em não aparecer nos média em língua portuguesa.

 

O outro motivo estratégico desta "estrada do ISIS" é o de ser uma rota que coincide com a localização de uma boa parte das reservas energéticas sírias, o que permitiu sustentar economicamente o ISIS durante todo este tempo.

 

Os sírios não se aproximaram nunca, durante estes últimos 2 anos, da "estrada do ISIS" por razões óbvias. A Síria é um pequeno estado de recursos limitados que combate várias agressões e invasões em simultâneo vindas de Israel, da Turquia, dos "rebeldes" terroristas patrocinados pelo ocidente, da NATO, das FDS e claro do próprio ISIS noutras partes do país.  Pelo contrário, os EUA, ou a NATO, ou as FDS (como preferirem), há muito que podiam ter facilmente estrangulado o ISIS cortando a sua estrada num ou mais pontos vitais. Se o tivessem feito, há muito que o ISIS teriam deixado de poder circular armas, relíquias roubadas, petróleo e dinheiro e, sem nenhum destes, não teria resistido aos avanços por sul das forças sírias.

 

Mas aí está, precisamente para impedir que o governo sírio reconquistasse o seu próprio território ao ISIS, tendo como consequência a libertação de meios e homens para outras frentes antigas contra os "rebeldes" terroristas e quiçá novas frentes contra as FDS, os EUA nunca atacaram o ISIS a sul do rio Eufrates, a tal fronteira natural escolhida pelos EUA para dividir o futuro Curdistão-Gringo da Síria.  Pelo contrário, como se devem lembrar, os EUA atacaram durante 3 horas sem cessar o enclave militar sírio em Der-Ezzor, a única parte da "estrada do ISIS" controlada pelo estado sírio. Apesar dos inúmeros avisos da Rússia, apesar de ser sabido que Der-Ezzor é controlado desde há muito pelos sírios, apesar dos EUA terem os melhores satélites de mapeamento do mundo, os EUA destruíram parte dos tanques e aviões sírios ali estacionados e mataram mais de 100 soldados sírios. Resultado: o ISIS conquistou parte de Der-Ezzor aos sírios, mais uma prova indirecta da ligação entre EUA e ISIS. Outro resultado: com o enfraquecimento dos sírios em Der-Ezzor, o ISIS pôde descer até Palmira e conquistar de novo esta cidade histórica onde aproveitou para estilhaçar o que não teve tempo da primeira vez. Obrigado EUA!

 

Dada o infinito poder militar dos EUA que se encontra ali mesmo ao lado, a norte do rio na zona das FDS, se houvesse deveras vontade por parte dos EUA de estrangular o ISIS, tal poderia ser feito com facilidade e em poucos dias, sem necessidade de matar civis uma vez que boa parte da estrada é deserta. Se não o fizeram, insisto, foi porque o sul de Eufrates não está no projecto de país Curdistão-Gringo e porque quanto mais mortes sírias melhor (para os EUA, pois claro).

 

Os mais atentos devem ter reparado que no mapa se pode ver uma zona amarela (EUA/curdos/NATO) a sul do rio Eufrates mas, não, não há aqui contradição nenhuma minha, bem pelo contrário. Essa parte amarela a sul do Eufrates foi conquistada na semana passada, num só dia, o que comprova que tenho razão quando digo que é facílimo para os EUA estrangular, se quiserem, o ISIS e, muito importante, não é exemplo nem dessa estrangulação ao ISIS nem da expansão das FDS para sul do Eufrates. Há uma terceira explicação maquievelicamente simples. Mas, antes da explicação, há que comparar estes dois mapas:

 

avanço Síria contra ISIS, Março 2017

 

As forças sírias têm reconquistado desde o início do ano muito território ao ISIS, ao ritmo de vários quilómetros e várias vilas por dia. A continuar-se este ritmo, em poucas semanas as forças sírias chegarão às portas de Raqqa. É por este motivo que a máquina de guerra dos EUA activou a semana passada ataques contra sírios em Damasco e Hama, de forma a travar, como já disse acima, este rápido avanço sírio contra o ISIS. E é também aqui que entra a tal explicação para o atravessar do Eufrates por parte das FDS/NATO/EUA: os EUA decidiram sabotar o avanço sírio contra o ISIS. Simples. Querem ver as provas? Aqui vão elas, várias, ordenadas cronologicamente e antecedidas por mapas ilustradores:

 

 

22-03-2017

 

No dia 22 deste mês, há uma semana, e com enorme facilidade os EUA e companhia passaram para sul do Eufrates e conquistaram um pedaço da estrada Aleppo-Raqqa, com o resultado estratégico de cortar o acesso dos sírios a Raqqa vindos de Aleppo, precisamente a via na qual têm avançado rapidamente nestas últimas semanas.

 

23-03-2017

 

No dia seguinte, dia 23 de Março, os EUA bombardearam e destruíram uma ponte a sul de Maskanah (bola azul), tendo como resultado prático a sabotagem da via de avanço das forças sírias que hoje, 28 de Março, chegaram precisamente a essa vila de Maskanah onde combatem neste momento mercenários do ISIS.

 

25-03-2017

 

Dois dias depois, a 25 de Março, os EUA e companhia avançaram mais 5 quilómetros para leste, até ao cruzamento que liga a estrada Aleppo-Raqqa à estrada Hama-Raqqa. Objectivo: cortar a segunda via pela qual poderiam avançar as forças sírias rumo a Raqqa, vindas do sul.

 

Durante estes dias houve uma chuva de ataques dos "rebeldes" terroristas em Hama e Damasco que, consequentemente, e como já referi, paralisaram temporariamente os avanços sírios contra o ISIS na estrada Aleppo-Raqqa. Os avanços foram retomados ontem.

 

26-03-2017

 

Anteontem os EUA e companhia avançaram mais um quilómetro para leste e ocuparam al-Tabqa, uma grande base militar da Síria (quadradinho laranja a leste do cruzamento, na zona amarela, abaixo de al-Thawrah), acto que não deixa margem para dúvidas quanto à intenção dos EUA de impedir que as forças sírias se aproximem de Raqqa. Aposto que nos próximos dias ainda expandirão um pouco mais a sua zona de controlo para leste do cruzamento e da base, até junto do pequeno deserto ali ao lado, só para garantir o bloqueio às forças sírias. E, assim sendo, só sobra a terceira via, a estrada Der-Ezzor-Raqqa, opção que não conta pois corresponde à "estrada do ISIS" e não será tão depressa possível por ela avançar. Antes de o fazer, teriam de reconquistar o trecho Palmira-Der-Ezzor, o que não está acontecer devido à presença massiva de ISIS a leste de Palmira. Portanto, tecnicamente está cortado o acesso das forças de al-Assad a Raqqa, a não ser que na próxima semana, quando as forças sírias chegarem ao fatídico cruzamento gamado pelos norte-americanos, aqueles decidam atacar estes. Teriam toda a razão e direito de o fazer mas, grande problema, este ataque significaria o confronto directo entre militares russos e militares norte-americanos. Já estão haver no que daria, não estão?

 

E estão haver de que forma perversa se desenrola a terrorismo-colonização da Síria? E estão a ver como, para os EUA, é mais importante impedir que o sírios se aproximem de Raqqa do que libertar as gentes de Raqqa das mãos do ISIS? Ahhhh, qual libertação? Quais princípios humanistas? Qual altruísmo? Quais direitos humanos? Qual luta contra o terrorismo? Enfim...

 

Se infelizmente o imperialismo militar dos EUA for bem sucedido e se realizar a criação de um estado vassalo norte-americano no nordeste sírio onde se encontram boa parte das reservas de gás petróleo sírias, proponho para bandeira desse infame estado fantoche a capa deste artigo:

 

Futura Bandeira do Estado Plano (aka Curdistão Sírio, aka Rojava, aka Mais 1 Estado dos EUA)

 

Luís Garcia, 28.03.2017, Chengdu, China

 leia mais artigos sobre a Síria aqui

 

 
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De Istambul a Doğubeyazıt em 3 dias - III, por Luís Garcia

 

 

DOS BALCÃS AO CÁUCASO – EPISÓDIO 18  

De Istambul a Doğubeyazıt em 3 dias - III

 

bw  Luís Garcia VIAGENS 

Estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem... aonde não estou. (Estou Além, António Variações)

 

25.06.2014

Mais um dia na estrada mais 6 boleias à nossa espera. A primeira delas na saída sul de Trabzon, depois de termos tomado umas sopas turcas para animar o corpo mal-dormido e muito moído das 12 horas passadas dentro do camião. Foi uma viagem curta de 25 km até à pequena cidade de Maçka, mas bem útil pois tirou-nos rapidamente de Trabzon, deixando-nos na rota certa e longe da confusão urbana. Em Maçka a boleia “correu mal”. 10 minutos passados de braço esticado e ninguém parou para nos levar. Decidimos pôr as malas às costas e avançar um pouco a pé, o que não veio acontecer. Já de mochilas às costas e de costas para a estrada, um carro parou e o seu condutor perguntou se precisávamos de boleia! Voilá, afinal nem era preciso esticar o braço!

 

Com esta nova boleia, de um senhor muito bem educado e muito bem vestido que trabalha para uma empresa japonesa, tivemos direito a 3 paragens para tirar fotos em sítios magníficos na cadeia montanhosa da região e um saco de Köme delicioso (doçaria regional tradicional), além de termos avançado 80 km até Gümüşhane.

 

A terceira e mais curta boleia do dia foram os 3 km quilómetros atravessados numa velha carrinha, de Gümüşhane até a uma bomba de combustível no cruzamento da estrada que seguia para leste. Boleia curta mas eficiente!

 

Almoço no chão com o velhinho

 

Dez segundos depois de sair da carrinha, entrámos numa outra. O condutor era um senhor já velho mas ainda cheio de vida, divertido, sorridente, e também muito generoso. Poucos minutos depois de termos entrado na carrinha, o velhinho estacionou-a junto a uma fonte de água bem fresca e ofereceu-nos um almoço de pão, queijo fresco, azeitonas e melão! Só produtos caseiros e plenos de sabor! Que satisfação, para nós que estávamos com imensa fome e sede. Que alegria para o senhor que nos confessou ser a partilha da sua comida com outras pessoas desconhecidas a melhor satisfação que poderia tirar dela, e que a comida sabia melhor quando partilhada. Gente boa não falta por estes terras… Depois de almoçar aproveitámos a fonte para encher as nossas garrafas vazias com água fresca e voltámos à estrada, observando maravilhados o crescendo de cores e formas desconhecidas para os nossos olhos e tão abundantes nas montanhas desta região. Era o prenúncio do que ainda viria de melhor, lá nos confins orientais da Turquia…

 

O simpático velhinho levou-nos até Bayburt, cidade na qual passámos de uma carrinha para um camião TIR, o segundo da viagem que transportava combustíveis. Devido à mercadoria transportada que exige ritmo lento, e apesar das óptimas vias e do camião novo, desperdiçámos imenso tempo chegando a Erzurum muito mais tarde do que previramos. Eram quase 5 da tarde quando o condutor nos deixou numa estação de combustível à entrada desta cidade, havendo ainda em teoria 300 km de estrada a fazer até Doğubayazıt! Apanhando uma boleia logo de seguida e seguindo a uma média de 80 km/h ainda era possível chegar cedo, pouco depois do sol se pôr, de forma que permanecemos convencidos de conseguir chegar a Doğubayazıt no mesmo dia.

 

Aproveitámos para fazer compras na estação de serviço e voltámos ao nosso trabalho: a boleia, que apareceu poucos minutos depois… De início pareceu-nos muito interessante a boleia arranjada: o dono da viatura conduzia a mais de 100 km/h e logo na estação de serviço seguinte parou para nos comprar sumos! Parecia estar tudo a correr bem até que, ao entrar na cidade Horasan, deparámos com a estrada principal cortada devido a uma manifestação. Para mim haviam 2 soluções simples, contornar a manifestação por ruas secundárias da cidade e voltar à rota certa ou, sairmos do carro, atravessar a cidade a pé e recomeçar à boleia. Mas não, o condutor mudou de direcção e entrou numa estrada na qual as placas já não indicavam a distância para Doğubayazıt mas sim as distâncias para outras cidades a norte completamente fora da nossa rota. Pedi para parar e deixar-nos ali (ainda nos arredores da cidade) mas não, o condutor assegurou-nos que a estrada escolhida era uma alternativa boa e que uns quilómetros à frente iríamos encontrar uma estrada de novo na rota de Doğubayazıt. Contrariado calei-me, observando constantemente a minha bússola. Poucos minutos depois tinha já concluído que estávamos a fazer um imenso disparate seguindo aquela rota norte mas, que fazer naquele deserto montanhoso? Depois de sairmos de Horasan não havia mais casas, nem pessoas ou carros, apenas imponentes e belas montanhas perdidas na imensidão turca.

 

Além de estarmos fora da rota, a estrada era péssima e o ritmo da viagem abrandou de forma brusca. Comecei a recear não conseguir chegar a Doğubayazıt neste dia e muita razão tinha em pensar assim pois progressivamente o discurso do condutor tornou-se numa mixórdia de afirmações absurdas e incoerentes. Disse-nos, por exemplo, que estávamos a 25 km de Doğubayazıt quando o meu mapa e bússola me indicavam que estávamos ainda muito longe e a afastar-se de Doğubayazıt. Garantiu que chegaríamos daí a uma hora mas, passada essa hora, e de acordo com as placas de indicação, estávamos ainda muito longe! Garantidamente entráramos na rota errada, não para leste mas sim para nordeste e começámos a ficar impacientes. Para nos acalmar o condutor prometeu levar-nos até Doğubayazıt e não até à sua terra 50 km antes do nosso destino, como antes tinha sido combinado. Para mim a confusão foi ainda maior! Por que raio tinha este alucinado condutor saído da recta perfeita que nos levaria a Doğubayazıt passando obrigatoriamente pela sua terra, encaminhando-nos para uma rota que não seguia nem para uma terra nem outra. Nas melhores das hipóteses faríamos um arco por nordeste até por fim descer a Doğubayazıt. Quanto ao condutor, teria ainda de voltar à sua terra, rumando de novo para oeste de Doğubayazıt. Que confusão!

 

Álbum da viagem com o “psicopata”

 

As horas iam passando e a impaciência ia crescendo até nível insuportáveis, ao ponto de já só falar em português dentro do carro, ignorando-o completamente. Pelo contrário, o condutor parecia estar calmíssimo e a divertir-se imenso, ao ponto de parar numa aldeola no meio do nada onde nos encheu de chás e de parar já depois do pôr-do-sol para comprar uma meloa, a qual nos obrigou a comer sem fome. Ou melhor, não obrigou, mas opinou que deveríamos ter fome (não tínhamos, ainda mais com o stress!) e afirmou que só seguíamos de viagem quando acabássemos o raio da meloa! Esta gente por vezes até quer ser boa mas acaba por fazer uma grande merda. Se tivéssemos saído em Horasan e permanecido na rota, teríamos por certo feito esses 190 quilómetros restantes em menos de 3 horas, muito nas calmas, e chegado a Doğubayazıt por volta das 21h! Mas não, ainda havia uma grande filme pela frente… 20h, 21h, 22h…. o tempo ía passando, o stress aumentado e Doğubayazıt continuava sempre longe!

 

A dada altura chegámos a estar a 30km de Iğdır, uma cidade marcada não muito a norte de Doğubayazıt no meu mapa e que aparecia nas placas da estrada que seguíamos. Uma hora depois estávamos a 90 km dessa mesma Iğdır, que pesadelo! Impossível de perceber a psicologia deste bom-psicopata que dizia estar cansado e que tinha de voltar para casa para no dia seguinte conduzir um camião até à longínqua Istambul (de onde nós partíramos 2 dias antes, hehe) e, no entanto, fazia quilómetros e horas extra de viagem! Impossível de perceber a empatia de quem se oferece para nos levar ao nosso destino final e que no entanto não faz caso nenhum daquilo que lhe dizem as pessoas que ele supostamente quer ajudar: explicámos e bem que andávamos há 3 dias na estrada, que tínhamos semi-dormido a última noite num camião em andamento, que tínhamos amigos à espera para nos dar casa em Doğubayazıt, que morríamos de fadiga, que não aguentávamos mais estar sentados dentro de carros… mas não, o homem, possuído pelo demónio, continuava a inventar estrada.

 

Feliz da vida, já noite escura, apontou para um aglomerado urbano à nossa frente, muito iluminado, e afirmou: “Lá ao fundo fica Yerevan, capital da Arménia. Aqui está fronteira!”! E pois estava! Às 22h estávamos longe de Doğubayazıt e a 600 metros da fronteira com a Arménia! Que filme de terror!  Mas para quê, irra? Não restavam dúvidas que andávamos há horas a inventar caminho numa direcção completamente errada! Que filme! A partir daí começámos a ficar rudes e só repetíamos “Doğubayazıt, Doğubayazıt”. Por fim o psicopata decidiu acelerar a fundo, destruindo as suspensões do carro nas crateras da estrada mas, enfim, problema dele. Eram 23h15h quando por fim entrámos nos arredores de Doğubayazıt… mas o filme ainda não acabara!

 

Horas antes, às 20, tínhamos telefonado ao nosso amigo Mehmet em Doğubayazıt e informado-lhe que chegaríamos às 21h (previsão do psicopata). Eu pedi a Claire para dizer a Mehmet que seria “mais tarde”… Nessa altura o psicopata pegou também no telemóvel e chegou a falar em turco com o nosso amigo, mas ficámos sei saber o quê pois a chamada caiu. Perto das 23h tínhamos ligado de novo ao nosso amigo e garantido que estávamos mesmo a entrar na cidade. Mehmet, como é lógico, disse Claire que não havia problema e que nos esperava. No entanto, o psicopata pegou de novo no telemóvel, falou em turco e a chamada caiu de novo. Desligado o telemóvel, afirmou que o nosso amigo não estava à nossa espera e que só contava nos acolher no dia seguinte! Absurdo, impossível, há semanas que estava combinado chegarmos neste preciso dia a Doğubayazıt e Mehmet nem dormia de impaciência para que chegássemos. Certo é que, quando parámos numa estação de combustível à entrada de Doğubayazıt não conseguimos telefonar a Mehmet. O telemóvel estava desligado. Insistimos, mas em vão. Por seu turno, o psicopata continuava a afirmar que Mehmet estava chateado connosco e que só nos acolheria no dia seguinte. Não fizemos caso e pedimos para seguir até dentro da cidade, mas o raio do psicopata que tinha feito uma imensidão de quilómetros extra para nada agora recusava-se a entrar no centro da cidade com o carro, ali mesmo em frente,  defendendo-se com a desculpa de “não conhecer a cidade! E insistia que o melhor era irmos dormir na casa dele! Ah, mas não, mas não mesmo! Antes dormir ali no chão da estação! Tivemos que insistir e obrigá-lo a conduzir-nos para dentro da cidade! Afinal depois de 3 dias de viagem, não poderíamos morrer na praia, ficando a 4 km da cidade onde um amigo há muito que nos esperava!

 

Apesar de ser turco, tivemos de ser nós a pedir indicações aos locais e a guiá-lo até perto do centro. O psicopata, fluente em turco, “percebia” as indicações todas do avesso e teimava em nos levar para sua casa. Sem mais paciência mandámos parar o carro e fizemos o último quilómetro a pé até à rua onde se encontra a agência de turismo do nosso amigo. Faltava entrar em contacto com Mehmet, o nosso amigo. Tentámos várias vezes, com telemóveis emprestados por quem passava na rua. Nada. Desesperados começámos a afastar-nos da rua, à procura de sítio onde meter a tenda, mas seria impossível dada o amontoado de lama, lixo e podridão um pouco por todo lado… perto da meia-noite tentámos a nossa sorte com mais um telefonema e voilá, Mehmet atendeu! Estava bêbado, adormecera e desligara o telemóvel por acidente. Mas claro que nos esperava e claro que não estava chateado, antes muito preocupado. Coitado, veio a correr bêbado de chinelos e pijama suado pelas ruas de Doğubayazıt, da sua casa até à sua agência, para nos afogar em abraços e beijos!  Disse-nos que tinha muitos convidados a dormir na sua agência e, pegando-nos aos 2 pelas mãos, foi levar-nos a um bom hotel no qual pagou-nos uma noite… que filme, que filme...

 

Neste 3 dias na estrada, em vez dos 1500 km teóricos, acabámos por fazer 1850 km, e batemos de longe o nosso recorde de média diária de quilómetros percorridos à boleia! :)

 

Álbuns de fotografia

Luís Garcia, 27.03.2017, Chengdu, China

 

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Desespero Mediático por omissão, por Luís Garcia

 

 Desespero Mediático 19

DESESPERO MEDIÁTICO 15  

Luís Garcia  POLITICA SOCIEDADE    

 

RTP e terrorismozinhos

Sim, sei que mentira, propaganda e omissão de informação são uma epidemia que afecta a quase totalidade dos grandes e médios médias nacionais e internacionais. E por isso sim, poderia descarregar ataques em muitos mais média que não apenas a RTP, mas tenho uma razão para o fazer deste modo: a RTP, além de ser um média de informação criado no meu país natal e que é produzido na minha língua materna, é também público, pago pelos impostos de todos os portugueses e, portanto, carrega sobre si mais responsabilidades que os restantes privados. Daí a minha insistência em falar sobretudo da RTP e de brincar com o logo da RTP nos artigos do tema Desespero Mediático.

 

O tema de hoje são as omissões, mas comecemos pelo acontecimento que foi noticiado até à exaustão, o ataque supostamente terrorista em Londres que inundou os nossos médias de lágrimas e levou políticos de todo o mundo (Presidente da República Portuguesa incluído) a enviarem condolências ao pessoal lá do Reino Unido.

 

Não digo que não tenha acontecido ou que tenha sido simulado o ataque mas, por outro lado, não vejo terrorismo nenhum no caso. E não deveria ser só eu pois, quando há uma semana um jovem francês de pele branquinha realizou uma brincadeira semelhante (ler aqui), não só essa brincadeira foi quase por completo ignorada como, para os media que não ignoraram, a conclusão feita poucas horas depois foi a de que o jovem responsável pelo crime era maluquinho e que precisava de acompanhamento psicológico, imagine-se! E como chegaram a essa conclusão tão rápida? E como chegaram a conclusão tão diferente da conclusão da moda, "terrorismo"? Ahhh, querem ver que a diferença se encontra mesmo na cor mais branquinha da pele do rapaz, no azulinho da cor dos olhos do rapaz e no facto do rapaz ser francês não-muçulmano? Então, ver se compreendi, árabes muçulmanos, árabes não muçulmanos e muçulmanos não árabes serão uma espécie aparte incapaz de perder o juízo e, sabendo tal, podemos concluir com bastante rigor que sempre e quando árabes muçulmanos, árabes não muçulmanos e muçulmanos não árabes realizam um crime do qual resulte malta da nossa espécie ferida e/ou morta, esse crime entra na categoria de "terrorismo", certo? Acho que cheguei lá!

 

Omissões mediáticas

Quanto às omissões dos últimos dias o caso é grave, gravíssimo. Por exemplo, quem nos médias portugueses fez alguma referência, por exemplo:

  • Ao ataque das forças venezuelanas a um grupo de mercenários na posse de equipamento militar norte-americano dentro do seu território junto à fronteira da Colômbia: Fuerzas venezolanas incautan materiales de Ejército de EEUU. Então e estes mercenários, ilegalmente dentro da Venezuela, não são terroristas? E não merece notícia esta invasão gringa?
  • Chegada ao Mar Negro de barcos de guerra dos EUA desenhados especificamente para desembarques e carregados com tanques e militares norte-americanos: Buque de asalto anfibio de EEUU entra en el mar Negro. Dado o carácter ostensivamente ofensivo desta movimentação norte-americana, não deveria ser notícia em destaque durante o horário nobre?

 

Mas sim, sei que o que vende hoje em dia é terrorismo, o resto não interessa. Aliás interessa se for possível ser apresentado como uma prova do comportamento criminoso, perverso, tresloucado ou ilegal de Putin e restantes russos. Se não for possível encaixar uma notícia nessa estreita categoria, não há sequer notícia. Mas voltando ao terrorismo, é verdade que vende... em determinadas condições: tem de ser realizado contra malta branquinha não muçulmana, tem de ter lugar na Europa ou nos EUA e tem de ser realizada por árabes muçulmanos, árabes não muçulmanos ou muçulmanos não árabes. O resto não passa na inspecção do lápis azul. Aqui vão uns exemplos: 

 

  • Terrorismo de estado dos EUA que mata civis às dezenas e às centenas quase todos os dias em Mossul. Esta semana houve inúmeros bombardeamentos desse criminoso estado que acabaram assim, em morte de civis. Não vale a pena partilhar todas as as notíicias, fica apenas aqui a mais grave delas, de hoje, e que mereceu zero artigos da RTP: Mueren 200 civiles iraquíes en ataques de EEUU en Mosul. Como é possível que terror deste nível não seja noticiado? Como é possível que os nossos médias não acusem os EUA de cometerem "genocídios" ou "mega-cemitérios a céu aberto" ou "bombardeamentos indiscriminados"? Por que não acusam o "regime" norte-americano de ser "sanguinário"? Porque não exigem conselhos de segurança e reprimendas e castigos para este estado pária terrorista?
  • Nesta última semana, como nas anteriores, o exército sírio tem realizado enormes avanços contra a organização terrorista do ISIS, conquistando 2, 3, 5, 7 vilas e aldeias por dia, na província de Aleppo, na direcção da cidade de Raqqa. Anteontem conseguiram conquistar a cidade de Dayr Hafir, a maior aglomeração urbana que separa a região de Aleppo sob controlo sírio da cidade de Raqqa controlada pelo ISIS. Como é possível que nada disto seja noticiado na RTP e companhia? Como é possível que o mundo não festeje estas óptimas novidades sobre a libertação de dezenas de localidades e milhares de seres-humanos até então nas mãos dos bárbaros do ISIS? 

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  • Terrorismo dos "rebeldes libertadores", al-Qaeda e companhia, em Hama e Damasco, parece que passou completamente ao lado da RTP também.  Damasco desde há 6 dias e Hama desde há 4 dias têm sofrido inúmeros ataques na forma de roquetes, de bombistas suicidas e de carros bombas, assim como tem sofrido percas de terreno para os mercenários terroristas estrangeiros ("rebeldes moderados libertadores" na gíria ocidental), sobretudo Hama, onde esses trogloditas pagos pelo ocidente já estão quase às portas da cidade. Leram bem? Até ataques de bombistas suicidas. Ataques esses que em médias anglófonos são noticiados enquanto "sucessos de combatentes anti-regime" e que em Portugal não são de todo notícia. Um gajo tolo tentando espetar uma navalhada num bófia no Museu do Louvre é terrorismo do pior, leva jornalistas à histeria parva e a ovelhada ao estado de choque bronco. Na Síria, afegãos fazem-se rebentar em atentados suicídios em Damasco e, claro, não passa nada!

 

E depois não é só o terrorismo contra a Síria que é censurado, grotescas omissões encontram-se em vários outros temas. Aqui vai uma:

  • Desconfio que, por não lhes agradar mesmo nada, RTP e companhia não noticiam o acordo realizado esta semana entre curdos do YPG-PKK (curdos sírio-turcos) e russos para a criação de uma base militar russa na zona síria sob controlo das FDS (curdos-sírio-turcos+NATO+EUA+curdoS-iraquianoS+toda a trafulhice) na parte ocidental do país. Os EUA devem estar fodidos com a estória e, portanto, os porta-vozes beija-cus têm de assobiar para o lado e fingir que não sabem nada. E assim na RTP ninguém informa que na cidade de Efrin já se encontram inclusive tropas russas.

 

 

E aqui vai outra omissão:

  • Pela 5ª vez em 10 dias o Pentágono anunciou ter enviado 1000 soldados norte-americanos para o nordeste da Síria, para a zona controlada pelas SDF. Para quem sabe contar, são 5000 soldados norte-americanos que entram ilegalmente no estado soberano sírio. Como flagrante acto de invasão que é, são coisas que não se devem dizer na RTP, orgulhoso média de mentira e propaganda pró-EUA, repleto de beija-cus prostituídos. E se fosse ao contrário, e se a Rússia entrasse com 5000 soldados em Israel, também assobiavam para o lado? Ahhh, puta que pariu, não há paciência! E mais, enviaram também um esquadrão de bombardeiros B-52! Assim, na boa, ilegalmente, sem autorização do estado em questão. Al-Assad tem repetido que o seu país está neste momento a sofrer um invasão armada dos EUA, mas que interessa o que diz esse senhor, não é? 

 

E só mais uma:

  • Esta semana, parte do território controlado pelas FDS foi entregue de forma completamente amigável ao exército sírio. As Forças Democráticas Sírias, que não são nem democráticas nem tampouco sírias, antes uma mistela intragável de NATO, EUA, curdos iraquianos (peshmergas fiéis a Israel) e curdos sírio-turcos. Desta mistela só se aproveitam os curdos da Síria e da Turquia, embora promessas norte-americanas de um Curdistão independente no território sírio tenham levado parte dos curdos sírio-turcos a trair temporariamente a Síria. Devido a várias razões que dariam um artigo à parte, voltaram a ganhar juízo e a aproximarem-se do governo legítimo sírio. A ideia por detrás desta entrega de território é a de se criar uma zona tampão (laranja no mapa abaixo) entre o território sírio ocupado pelo estado terrorista turco (verde-azulado) e a zona controlada pelas FDS (amarelo), de forma a evitar conflitos armados entre turcos e curdos, e que ficará sobre controlo do exército regular sírio (vermelho). O problema é que esta brincadeira não estava nos planos do estado terrorista norte-americano, é um grande embaraço para os EUA esta prova de falta de controlo sobre a totalidade das FDS e, assim sendo, não escapa ao lápis azul da RTP, pese embora a sua enorme importância.

 

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A próxima omissão merece um artigo à parte e fica para amanhã. 

 

Luís Garcia, 24.03.2017, Chengdu, China

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Dijsselbloem gasta o dinheiro em drogas psicadélicas, por Luís Garcia

 

Dijsselbloem gasta o dinheiro em drogas psicadélicas

 

Luís Garcia  POLITICA  ECONOMIA

“tudo em copos e mulheres” (Jeroen Dijsselbloem)

Não poderia deixar de discordar da visão populista, sensacionalista, hiper-simplista, mal-intencionada e desonesta deste aldrabão do Jeroen Dijsselbloempois por muita corrupção e roubo que haja em Portugal, não é daí que vem o descontrolo no pagamento da dívida portuguesa.
 
A origem está na bolha que rebentou com os preços das casas nos EUA e que mandou os criminosos "derivados" para o galheto. Na ressaca, todos queriam liquidez e ninguém encontrava cash, líquido, money money. Como boa parte dos "derivados" norte-americanos, sobretudo os mais "tóxicos", estavam nas mãos de europeus, depressa a crise passou para este lado do atlântico, com a banca europeia procurando também liquidez e, consequentemente evitando perder mais liquidez através do empréstimo a estados periféricos como Portugal.
 
Porquê? Simples, porque com uma crise financeira a decorrer, tendo como consequência a falta de liquidez (dinheiro disponível), torna-se demasiado arriscado emprestar dinheiro a países com menos capacidade produtiva, logo, com menos capacidade de criação de riqueza adicional que possa cobrir empréstimos e juros sobre esses empréstimos.
 
Com esta reacção negativa de emprestadores, Portugal entrou num ciclo-vicioso negativo que NÃO foi criado em Portugal. Eu explico-me. Ao não haver quem tenha muita vontade de emprestar dinheiro, empréstimos passam a custar mais para o estado português quando são pedidos, assim como a todos os portugueses, o que é negativo para os sectores económicos criadores de riqueza. Se assim é, se a falta de liquidez afasta os criadores de riqueza portugueses de possíveis empréstimos desejados e necessários, passamos naturalmente a ter uma epidemia de falências e desemprego, e com desemprego passamos a ter uma baixa no nível de consumo.
 
Com as falências e a baixa de consumo o estado português perdeu boa parte das suas fontes de riqueza (através de impostos), ao mesmo tempo que viu aumentar os seus gastos (pagamento de subsídios de desemprego e reformas antecipadas). Se juntarmos a tudo isto o facto de que agora menos vontade há na banca para emprestar a Portugal, o que torna os juros sobre empréstimos mais altos, o que leva a mais uma despesa extra do estado português (valor extra nos juros dos empréstimos), perde-se de vez o controlo sobre o ciclo negativo.
 
Agora outro ponto. Porquê filhos da puta como esse afirmam que andámos a gastar em gajas e vinho quando na altura, 2007, a dívida pública portuguesa em % do PIB era igual à da Alemanha, sim Alemanha? Então, também apanham a puta e vão às putas os alemães? Claro que sim, putas lá não faltam, assim como no país vizinho, a Holanda, começando pela mães holandesas de gajos como este!
 
Se a dívida alemã em percentagem do PIB era igual à nossa, por que razão a nossa dívida é lixo e a alemã vale ouro? Simples, porque a Alemanha produz produtos de valor muito acrescentado para o planeta inteiro, é um país fortemente exportador. Um EURO fortemente valorizado não perturba essas exportações, graças à qualidade e falta de concorrência contra esses produtos. Pelo contrário, significa riqueza extra para os alemães.
 
Em Portugal passa-se o contrário, ide analisar estatísticas da produção industrial de têxteis e calçados que sustentavam a nossa economia e permitiam que Portugal criasse riqueza, nem que fosse riqueza para pagar empréstimos. Pelo menos criava! Com o EURO fortemente valorizado Portugal perdeu a capacidade de produzir riqueza, o que é um problema quando há dívidas para pagar. Problema que se multiplica quando a falta de criação de riqueza leva à necessidade de pedir novos empréstimos, agora a juros mais altos.
 
Aí está o ciclo vicioso negativo que Portugal recebeu e que foi criado lá longe, no comportamento criminoso de gente que vende coisas que não existem e que especulam sobre elas (mercados colaterais norte-americanos cheios de absurdos "derivados").
 
Na Alemanha passou-se o inverso. Com a desconfiança em emprestar dinheiro a países a caminho de default como Portugal ou Grécia, a banca causadora de toda esta merda, a arriscar emprestar dinheiro a estados (compra de dívida soberana) arriscaria onde houvesse pouco ou nenhum risco: Alemanha! Daí que os juros de empréstimos para a Alemanha tenham baixado após a crise financeira enquanto que para Portugal tenham disparado.
 
Quer a Alemanha quer Portugal, que antes desta crise tinham dívidas em % de PIB semelhantes, eram países que conseguiam pagar com regularidade os seus empréstimos, apesar de tudo!
 
Parte do nosso problema começou com o começo da crise financeira (portanto privada, da banca e companhia). Como já disse acima, o estado perdeu várias fontes de riqueza e ganhou várias fontes de despesa.
 
A outra parte veio antes, quando se implementou o EURO em 2001, esse tremendo disparate! Quando se criou a moeda única, uniformizaram-se as taxas de juros sobre empréstimos de todos os estados da UE, o que não faz sentido nenhum. Criou-se uma falsa, uma absurdamente falsa sensação de segurança no empréstimo a estados periféricos, o que levou a um aumento enorme de empréstimos a países que "antes ninguém dava um tostão", o que era saudável. Se Portugal antes quisesse pedir dinheiro emprestado, teria de provar capacidade de produção de riqueza. Agora não, agora bastava constar da lista de nomes da zona Euro, isto numa altura em que, precisamente por fazermos parte do Euro, iríamos perder capacidade de produção de riqueza devido à forte valorização desse EURO que iria sabotar a nossa capacidade de exportação (logo de produção de riqueza necessária para pagar dívidas).
 
Ainda assim, perante o óbvio precipício (crédito fácil a países à beira de perder a capacidade de produzir riqueza capaz de pagar posteriormente esses créditos), o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia seguiram uma política de publicitar e incentivar o passo em frente nesse precipício, convidando a banca a emprestar, e quase obrigando os estados a pedir empréstimos, através de chantagens políticas e draconianas novas regras de modernização e de segurança.
 
A juntar a isto vem a parte da politiquice que toda a gente conhece bem: político que mostre obra feita é bom político, mesmo que também gaste em gajas e vinhaços. E foi o que tivemos, uma gigantesca modernização das infra-estruturas portuguesas que, embora tenham deixado Portugal muito bonitinho para inglês ver, bem mais bonito e moderno que boas partes de Inglaterra ou França, foi feita graças a empréstimos artificialmente fáceis que não se pagam com "beleza paisagística" mas sim com produção industrial ou agrícola. Sim, é verdade que essa modernização criou muitos postos de trabalho que por sua vez fizeram aumentar o consumo. Sim, mas esses trabalhos de construção e modernização pagos com empréstimos não criaram riqueza, enquanto que o consumo português em crescendo era realizado cada vez mais sobre produtos importados de economias que, precisamente por não terem EURO, tinham produtos mais competitivos que os nossos. E assim nos íamos endividando, orgulhosos de viver num país com mais auto-estradas e Parques das Nações e Casas da Música, tranquilos por fazermo-lo numa altura de calmaria. Culpa de quem? Do tuga que vota nos PS(D) e que se deixa levar por obras por eles feitas de arregalar o olho!
 
No dia em que a calmaria acabou, e aqui não foi por culpa de portugueses nenhuns, governantes ou governados, de repente a nossa dívida duplicou e passou a ser impagável. Resultado: regredimos uns séculos e passámos a ser de facto escravos que irão pagar para o resto das suas vidas o claustrofóbico dízimo na forma de juros de empréstimos impagáveis à banca, à mesma banca que começou a crise por andar a brincar ao deus criador de riqueza a partir do nada...
 
Perante tudo isto, temos muita malta, sobretudo a ovelhada PS(D)iana que, toda contente, afirma, batendo com a mão no peito, que "há que honrar a dívida"... 
 
Ahhh, triste Portugal... como se paga caro a ignorância meu triste Portugal....
 

Luís Garcia, 23.03.2017, Chengdu, China


 

 
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Outro disparate pago pelos nossos impostos, por Luís Garcia

 

 Desespero Mediático 18

DESESPERO MEDIÁTICO 15  

Luís Garcia  POLITICA    

 

O Sistema de defesa anti-aéreo 

Depois de ontem termos tido o disparate RTPiano sobre a mesquita que foi mas não foi mas foi bombardeada pelos norte-americanos, hoje temos um outro disparate RTPiano sobre o direito de Israel a invadir e atacar estados soberanos porque sim. Comecemos pelo início, ou seja, comecemos por ler ou assistir à notícia da RTP, para depois a dissecarmos:
 
Israel diz que irá destruir os sistemas de defesa aérea sírios se o exército de Bashar al-Assad voltar a disparar mísseis contra aviões israelitas.
O caso aconteceu esta sexta-feira e a Síria chegou a anunciar que tinha abatido um avião israelita mas Israel nega a informação.
Os dois países estão em guerra declarada há décadas.
Nos últimos tempos a situação piorou devido ao apoio que a Síria tem recebido do Hezbollah e do governo iraniano.
 
Os artistas de serviço que escreveram esta brincadeira começaram e bem por dizer uma verdade, que Israel ameaçou destruir os sistemas de defesa aérea da Síria. Muito bem, bravo! E depois? Não poderiam contextualizar e clarificar esta afirmação para, sei lá, informar a malta que veio ler isto? Não? Não são pagos para informar? Então são pagos para quê? Ahhh, cambada de beija-cus!
 
Só por manifesta falta de vontade não o fizeram pois o contexto é simples. Desrespeitando as leis internacionais e a soberania de estados como a Síria, o excepcional estado de Israel dá-se ao direito de invadir e bombardear quem bem lhes apetecer, quando bem lhes apetecer! Já está, simples não? E no que dá este comportamento ilegal e criminoso? Por norma dá morte e destruição nos países vítimas de Israel, e consequência absolutamente nenhuma para o estado criminoso de Israel. Mas parece que os ventos são de mudança e a partir de agora não me parece que a Rússia continue a permitir esse comportamento ilegal de Israel. Para o provar está aí a imediata convocação que o ministro dos negócios estrangeiros russo fez ao embaixador do estado sionista em Moscovo na sequência dos bombardeamentos israelitas em Palmira (é verdade, em Palmira, parece que os papagaios da RTP nem sequer sabem onde aconteceu aquilo que noticiam), reunião durante a qual repreendeu o representante sionista e avisou-o que a brincadeira não é para ser repetida! Finalmente!
 
Voltemos aos beija-cus RTPianos. Que nos dizem em seguida? Dizem que "Israel diz que irá destruir os sistemas de defesa aérea sírios se o exército de Bashar al-Assad voltar a disparar mísseis contra aviões israelitas". Podiam, por exemplo, ter referido o autor da ameaça, o ministro da defesa sionista Avigdor Lieberman, mas para quê, não é? E pior, bem pior, o papagaio de serviço põe ênfase no agredido (Síria de al-Assad) e não no agressor (Israel). Eu pergunto-me porquê? Bashar al-Assad não deveria ter atacado os caças sionistas em Palmira!?! Que deveria fazer então quando caças israelitas entram no seu território e bombardeiam uma base militar na qual se encontram militares e equipamento militar que neste momento combatem o ISIS nos arredores de Palmira? Para quê tamanha incoerência? Quiçá porque os jornalistas da RTP são fiéis aduladores do estado sionista, imagino, a ver pelo vergonhoso final de frase "Bashar al-Assad voltar a disparar mísseis contra aviões israelitas", como quem diz que o agressor foi al-Assad! Poupem-me! Então, mas se os caças entraram ilegalmente na Síria, se se encontravam no interior profundo da Síria (Palmira) e se atacaram uma base militar síria, que deveria ter feito al-Assad? Digam-me, raios, que deveria ter feito Bashar al-Assad? Bater as palmas? Assobiar para o lado? E ao contrário, e se a Síria enviasse caças sírios para dentro do espaço aéreo de Israel e bombardeasse uma base militar sionista? Ahhhhh, não têm um pingo de vergonha estes papagaios vendidos da RTP! A sério, olhai para um mapa e constatai quão absurda é a vossa apologia de Israel:

 

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Continuemos a dissecação: "O caso aconteceu esta sexta-feira e a Síria chegou a anunciar que tinha abatido um avião israelita mas Israel nega a informação". Hehehe, "chegou a anunciar" como quem depois voltou atrás e retirou em seguida o que disse ou "anunciou" ponto? Eu que leio diariamente a SANA News não dei por ninguém no governo sírio retirar o que disse! Ora essa! Portanto, estamos perante mais um caso RTPiano de jogar com as palavras tendo como objectivo confundir e desinformar, precisamente o contrário do que era suposto fazerem com os nossos impostos! Sim, é verdade que Avigdor Lieberman nega que um caça sionista tenha sido abatido, e eu acho muito bem, viva a liberdade de expressão do ministro da defesa sionista, deixai-o aldrabar à vontade. Agora, quanto à RTP, exige-se que informe e não que papagueie mentiras. O dever da RTP não é repetir frases (verdadeiras ou falsas) de Avigdor Lieberman, o dever da RTP é o de informar ou, neste caso, o de mostrar as imagens disponíveis que mostram o caça israelita abatido sobre os céus de Palmira:
 

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Se em vez de papagaiar se decidissem por informar, poderiam acrescentar que foram 4 caças sionistas que participaram no bombardeamento da Base Aérea de Tyas, junto a Palmira. Poderiam informar que, dos quatro, dois foram atacados pelo sistema anti-aéreo sírio S-200 (de fabrico russo). Poderiam afirmar que, desses dois, um foi abatido enquanto que o outro escapou aos ataques e voltou intacto a Israel. Poderiam informar que, na sequência deste acto de guerra (que em qualquer parte do mundo resultaria em condenação internacional e criação de uma coligação para punir o agressor, como a resposta à invasão do Iraque ao Kuwait em 1990, não é ovelhada?), a Síria pela primeira vez, em resposta a esta ilegal agressão, ousou e bem atacar o território israelita com mísseis lançados a partir da Síria, os quais foram interceptados com sucesso pelo novo sistema anti-aéreo Arrow na primeira vez que este foi chamado à acção.

 

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Se fossem gente honesta perguntar-se-iam se é normal defender Israel nesta situação, não apenas por ser Israel o agressor, não apenas por ser ilegal a agressão, mas também pela natureza do alvo atingido pelas forças sionistas, a Base Aérea de Tyas. Esta base encontra-se poucos quilómetros a oeste de Palmira e foi a partir dela que sírios, russo e Ezbolá organizaram e realizaram a reconquista de Palmira contra o ISIS há uns dias atrás (aconselho, a propósito, seguir os vídeos do Southern Front). A partir desta mesma base, neste momento, as mesmas forças continuam lançando ataques contra o ISIS (Estado Islâmico) a leste de Palmira, rumo à cidade de Der-Ezzor que ainda se encontra cercada por forças terroristas. Portanto, temos a RTP, através da ambiguidade, da desinformação e de eufemismos parvos, defendendo a causa nobre israelita de destruir os esforços do governo legítimo e soberano da Síria em Tiyas contra o Estado Islâmico, sim, contra o Estado Islâmico! Epá, parabéns, já agora mudem a cor do logo da RTP de azul e branco para preto e branco, não?

 

 

Eu sei qual é a ideia dos papagaios da RTP, defendem Israel nesta situação pois sabem que em Tiyas se encontram membros do Ezbolá que é suposto ser uma organização terrorista. Cada qual acredita na estória que quiser, uns no pai natal, outros no menino jesus e outros ainda no carácter imaculado do estado de Israel. Mas a realidade não deixa de ser o que é. Salazar chamava terroristas aos angolanos e cabo-verdianos que lutavam de forma legítima pela sua auto-determinação. Israel e a imprensa ocidental beija-cus chama de terrorista à organização política, social e militar do Ezbolá. O Ezbolá foi criado em consequência da ocupação da Palestina e do sul do Líbano, é uma organização que resiste à ocupação e agressão ilegal do estado sionista e, portanto, se alguém é terrorista nesta história, para mim, é o estado de Israel.

 

Quanto aos outros, aqueles que pensam como Salazar, ok, tudo bem, os ocupados, roubados e agredidos são terroristas e portanto Ezbolá é uma organização terrorista. Parabéns. Vocês, epá, batei palmas no dia em que membros do Ezbolá tentarem sem sucesso invadir Israel, morrendo nessa tentativa fracassada, por exemplo. Mas o caso aqui é outro. Estes membros do Ezbolá encontram-se no interior da Síria, bem longe de Israel. Por que artes mágicas poderão defender a legitimidade deste ataque de caças sionistas em Tiyas? Eu já vi um hoje dizer-me que os israelitas têm razão porque está escrito na bíblia, hehehe! Não, não dá, de forma alguma. Nenhuma lei internacional ou acordo internacional ou o raio que seja reconhece a legitimidade deste tipo de ataques. Mas vamos dizer que sim, que vocês têm razão, que o Ezbolá é terrorista e que portanto foi legítimo o ataque sionista em Tiyas. Muito bem, mas, e onde fica o Estado Islâmico nesta estória da treta? Se o Ezbolá é terrorista e merece ser atacado por Israel de forma a prevenir que o Ezbolá+sírios+russos continuem atacando o Estado Islâmico ali mesmo ao lado, querem ver então que para vocês (beija-cus de Israel) o Estado Islâmico afinal é que não é terrorista e até merece apoio aéreo sionista empurrando-os para a sua gloriosa conquista dos estados árabes vizinhos de Israel!?!?! Hehehe, pessoal, não se curem não!

 

Continuemos: "Os dois países estão em guerra declarada há décadas". Epá, não, que disparate! Israel e só Israel, continua ocupando território sírio, os Montes Golã, desde os anos 80. Israel e só Israel ataca o seu vizinho com regularidade. Numa guerra existe fogo cruzado, não? Então vá, irra, mostrai-me um exemplo, um só exemplo de um ataque sírio contra Israel desde o tempo da ocupação dos Monte Golã? O único, que vocês RTPianos desinformadores preferiram omitir neste artigo, foi o que aconteceu agora há pouco com aqueles mísseis sírios interceptados pelos sistema anti-aéreo Arrow, o que abre um precedente e deixa adivinhar o fim da impunidade para o estado terrorista de Israel. No entanto, e voltado à guerra declarada há décadas... qual guerra? Onde está a guerra sírio-israelita? Ahhh, que texto ridículo!

 

Continuemos: "Nos últimos tempos a situação piorou devido ao apoio que a Síria tem recebido do Hezbollah e do governo iraniano". Epá não, mas não, foda-se a vossa paralisia mental RTPiana! Desde já, que significa "últimos tempos", esta última semana ou estes últimos anos? É que no primeiro caso sim, piorou, para Israel, pois pela primeira vez em décadas levou a resposta síria que bem merecia. No segundo caso não, não piorou nada, pelo menos para Israel. Nos últimos anos o conflito Israel-Síria não piorou porque não existiu sequer! O que existiu e continua a existir são constantes agressões ilegais e criminosas do estado de Israel à Síria que nunca levaram resposta porque a Síria está demasiado ocupada a combater al-Qaeda+pseudo-rebeldes+NATO+ISIS+Turquia! Nestes últimos anos, vezes sem conta, algumas delas expostas neste blog, o estado de Israel tem atacado a Síria com caças ou com mísseis terra-terra e, na maior parte dos casos esses ataques ocorreram em perfeita sincronia com posteriores ataques por terra contra as forças sírias vindos quer dos rebeldes/al-Qaeda quer do Estado Islâmico. Se chamam a isto um "piorar da situação nos últimos anos", tudo bem, até concordo, mas apenas se a "situação" for a agressão múltipla que sofre a Síria e não a "guerra declarada há décadas" a que se referiam no parágrafo anterior! E depois, com ou sem constantes agressões israelitas à Síria, a sério, como é que o apoio do Ezbolá e do Irão à Síria na sua luta contra o conjunto de organizações terroristas presentes no seu território poderia piorar essa tal situação ambígua que se referem vocês RTPianos da piça? Ahhh, esperem lá, querem ver que, sem querer e por extrema burrice, vos começa a sair verdades pela boca? É que a situação está pior para "rebeldes" terroristas, para al-Qaedas e para ISIS na Síria, pois sim, está, claro que está pior! E a situação está pior também para Israel se considerarem verdade a realidade óbvia que sempre negaram: que rebeldes, al-Qaeda, ISIS e companhia são forças armadas terrestres da vossa amada Israel...

 

Para variar, hoje foi abatido mais um drone militar israelita em Quneitra, Síria: 

https://twitter.com/Mansourtalk/status/843937163515482117  

 

Luís Garcia, 21.03.2017, Chengdu, China

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1 disparate pago pelos nossos impostos, por Luís Garcia

 

 Desespero Mediático 17

DESESPERO MEDIÁTICO 15

 

Luís Garcia  POLITICA    

A mesquita

No dia 16 de Março de 2017, há 4 dias atrás, graças a médias ocidentais como a nossa prostituída RTP, ficámos a saber que uma mesquita em al-Jinah (região de Idlib) tinha sido alvo de um ataque aéreo do qual resultou a morte de dezenas de seres humanos. Por defeito, e na ausência de rigorosamente nenhuma prova sobre a origem do ataque, e como é hábito, a imprensa ocidental, RTP incluída, concluíram e desinformaram que os seres humanos mortos eram civis e que os autores, pois claro, tinham sido os mauzões dos russos. A RTP, através desta não-notícia Síria: Bombardeamento aéreo atingiu mesquita frequentada por rebeldes e provocou 40 mortos deixou bem claro que tinham sido com toda a certeza os russos quem haviam dizimado montes de gente boa numa região (Idlib) que por definição só tem gente boa pois é o grande ninho de "rebeldes libertadores" terroristas em território sírio. So que não, não foram os russos!

 

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Infelizmente para eles, jornalistas portugueses beija-cus prostituídos, as provas começaram a aparecer, sendo a mais importante os pedaços de um míssil norte-americano encontrado nos escombros da mesquita que passaram a circular nos média de informação (portanto não passavam nos média ocidentais como a RTP). E como não passava na RTP, disponibilizei-me para partilhar as fotos e vídeos em forma de comentário nessa notícia da RTP, comentários que foram repetidamente apagados (ler censurados) pelo lápis azul de serviço.

 

Outro contratempo enorme para os beija-cus RTPianos aconteceu quando o US Central Comand, uma das 6 divisões territoriais das forças armadas dos EUA espalhadas pelo mundo, informou de forma ambígua que tinha realizado naquele dia e naquele local um ataque aéreo a um edifício situado 15 metros ao lado. Perante as evidências, e deixando de todo ser possível sustentar a mentira de um ataque russo, os media ocidentais beija-cus, em sintonia com a ambiguidade do comunicado norte-americano, deixaram de falar em coitadinhas de vitímas civis e passaram a falar de membros da al-Qaeda (mudança que acarreta graves conclusões, já lá iremos). A RTP, como é mais papista que o papa, fez pior, apagou a totalidade do conteúdo do artigo partilhado acima (por isso se nele clicarem não já não encontrarão referência nenhuma à Rússia) e substituiu-o por esta orwelliana caganita de artigo que passo a citar na íntegra:

Provocou a morte a mais de 40 pessoas.

Os aviões atacaram a mesquita em plena hora de oração, quando estava cheia de fieis.

 

Fim de citação. Lindo, não é? De vários parágrafos acusando a Rússia, passaram a 2 curtas frases sem sentido nenhum. Desde já a primeira frase do artigo começa por "provocou", o que é grave, pois antes de indicar o número de mortos provocados, ficava bem dizer quem é que provocou. Interessante, não é? Antes de qualquer prova ou facto disponível (e até depois de estarem disponíveis), havia a certeza de terem sido os russos. Agora que há imagens dos destroços de mísseis norte-americanos e um comunicado norte-americano... ninguém o provocou... começa-se a frase por provocou porque sim,... ou porque a mesquita suicidou-se. Custava assim tanto a estes vendidos de merda escrever "o ataque aéreo norte-americano provocou a morte a mais de 40 pessoas"!?! Que merda-humana vendida! Enfim, alarmado com a situação, e como bom cidadão que sou, ahahahah, voltei a atacar com mensagens o artigo da RTP agora remodelado. Não gostaram nada da minha crítica à alteração desonesta do artigo e o resultado foi: o lápis azul de serviço desligou a caixa de comentários para esta notícia e, na dúvida, desligou também a da notícia seguinte sobre o mesmo tema, não fosse eu comentar, hehehe, que cromos!

 

Entretanto, os médias ocidentais beija-cus, portugueses incluídos, começaram a regurgitar uma estória sem sentido vinda do departamento de estado dos EUA. Vou fazer o resumo: os EUA realizaram de facto um ataque aéreo, e não os russos, portanto o alvo só podia ser malta má (da al-Qaeda) e não malta boa (civis) como antes nos queriam fazer crer; Os EUA não atacaram a mesquita mas sim um edifício 15 metros ao lado; A mesquita não foi atacada por ninguém e portanto deve ter desabado de desmaio, ao estilo do World Trade 7; De acordo com os próprios norte-americanos o alvo do seu ataque 15 metros ao lado da mesquita, pelo contrário, permanece de pé e intacto, fenómeno incrível, desafiador das mais elementares leis da física e indicador de que o Apocalipse deverá estar para breve. E a que conclusão chegam os média ocidentais? Baaaaahhh, nenhuma, repetem o mantra a ver se se convencem do disparate que rezam: mesquita cai sozinha 15 metros ao lado de um edifício que teima em não cair após levar com mísseis gringos! Fazer o quê? Não, não há limites para a parvalheira. Sim, parvalheira, isto não é propaganda, isto é parvalheira!

 

Mas por falar em propaganda, vamos lá então à al-Qaeda e à grave conclusão. Todos aqueles que, como eu, insistem dizer e mostrar provas da presença de organizações de terroristas pagos (mercenários) na região de Idlib passam por maluquinhos apoiantes de tresloucadas teorias da conspiração. Quando defendemos o direito da Síria de bombardeá-los, somos acusados de defender a barbárie, a chacina e o genocídio. Passamos por lunáticos quando dizemos que o que há na região de Idlib mais não é que a al-Qaeda e um vasto conjunto de sub-grupos relacionados. Ok, tudo bem, somos tolos. Mas fomos tolos até ao dia 16 de Março. A partir desse dia passámos a ter razão visto que, quer os EUA quer os média-ocidentais beija-cus de norte-americanos, insistem que os EUA nesse dia atacaram membros da al-Qaeda na vila al-Jinah. Na próxima vez que a força aérea russa ou síria bombardearem posições da al-Qaeda na região de Idlib, voltará a não haver al-Qaeda, pois claro. Mais, Ok, merci caros gringos, atacaram membros da al-Qaeda. Bravo! Mas onde? Na mesquita que não atacaram e que não tinha membros da al-Qaeda, ou no edifício 15 metros ao lado que tinha (supostamente) membros na al-Qaeda mas que continua intacto? Que curto-circuito!

 

E já agora, que dizer do segundo ataque, pouco tempo depois, também confirmado pelos EUA, hein? Pelos vistos voltou a ter como alvo o edifício que voltou a não cair, teimoso, e voltou a não atacar a mesquita que, coincidências das coincidências, nessa mesma noite e à mesma hora, sofreu um segundo ataque do qual resultaram mais destroços contendo também pedaços de mísseis norte-americanos mas que não foram disparados por norte-americanos pois a RTP diz que não e, como a RTP são os nossos impostos, e os nossos impostos não mentem, deve ter sido a mesquita que se suicidou, a bandida!

 

Agora, para aqueles que não gostam de me ver falar mal dos seus adorados norte-americanos, aqui vai uma prendinha, o "news release" das forças armadas dos EUA emitido no dia seguinte aos ataques aéreos:

 

U.S. forces strike Al Qaeda in Syria, news release, US Central Comand

 

Se acharem que é brincadeira minha cliquem na imagem acima para aceder ao documento na página oficial do US Central Comand. Se não acharem, melhor. E que nos dizem os cowboys neste documento? No primeiro parágrafo informam que as suas forças terroristas-militares realizaram um ataque aéreo contra a al-Qaeda na região de Idlib, o que é estranho, pois estes mesmos cowboys afirmam não haver al-Qaeda em Idlib sempre e quando russos-sírios realizam ataques contra a al-Qaeda em Idlib. Afirmam que do ataque resultou a morte de terroristas. Suponho que estarão a falar das (únicas) mortes que ocorreram como resultado dos ataques aéreos do dia por aqueles lados, ou seja, afinal não haveriam civis mas sim terroristas. Sim, é verdade que no dia seguinte o departamento de estado dos EUA, através do seu porta-vós, afirmou que aqueles civis mortos na mesquita nada tinham a ver com o ataque norte-americano, ok, tudo bem, mas se assim é, então onde estão os "vários terroristas mortos"? Não entendo.

 

No segundo parágrafo afirmam aquilo que os russos e sírios sempre disseram, afirmações que sempre mereceram escárnio por parte de média ocidentais como a RTP: "Idlib tem sido nos últimos anos um importante santuário para a al-Qaeda". Hehehe, jurem! No terceiro parágrafo trocaram os pés pelas mãos e fizeram uma grandessíssima cagada. Falam de um ataque dos EUA em Janeiro, contra o seu brinquedo de guerras de procuração chamado al-Qaeda, ataque do qual não tenho memória e que, dada a data tão vaga "Janeiro", vai ser difícil de encontrar informação sobre tão absurda afirmação. A sério, uma máquina planetária de guerra e barbárie que consome anualmente mais de um milhão de milhões de dólares não consegue ser um pouco mais precisa nas datas? E pior, não sabem a data mas sabem que o alvo teria sido um "campo de treino terrorista" onde trogloditas eram "treinados em tácticas de terror". Jurem, o que é que haveria de ser não? Treinados em técnicas de origami? Puta que pariu de idiotice. E pior, bem pior: que tem esta suposta história de supostos membros da al-Qaeda supostamente abatidos quando supostamente treinavam tácticas de terror a ver com o ataque aéreo em al-Jinah no dia 16? Ahhh, deixem-me adivinhar. Como é mais que óbvio que esta versão oficial dos EUA não faz sentido nenhum pois não explica nem o que aconteceu na mesquita nem como poderá ter acontecido o que não aconteceu em edifícios 15 metros ao lado, para ver se a malta engole, referem um suposto bom exemplo da dedicação gringa na caça a terroristas!?! Ahahaha, que risada, que infantilidade, por favor, poupem-me! Insisto, uma máquina planetária de guerra e barbárie que consome anualmente mais de um milhão de milhões de dólares não consegue arranjar um gajo que domine umas técnicas básicas de argumentação, de modo a evitar figuras tristes como esta? Ou, se não conseguem explicar o impossível, por que raio fazem estes comunicados à imprensa!?! Puta de império decadente!

 

Por fim, e para chatear só mais um pouco os mancos mentais defensores dos EUA, tenho aqui um vídeo de uma das suas vozes da moda, , o maluquinho que fingia estar em Aleppo cercada pelas forças sírias e russas em Dezembro último, enquanto realizava entrevistas para a Aljazeera e CNN, e que agora é correspondente do New York Times, hehe. Não se lembram? É aquele maluquinho que, enquanto entrevistava um terrorista com um cinto de explosivos, tentou convencer os telespectadores de que o cinto era um instrumento de segurança contra a falsidade do governo de al-Assad. Uma pérola, assistam se quiserem aqui está o link para essa surreal entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=hrGAyRHxpW0. Mas vamos lá então ao vídeo do dia, sobre este ataque aéreo à mesquita:

 

 

Ahhh, então não é que este boneco de propaganda se lembrou de contradizer os EUA afirmando que o alvo do ataque norte-americano foi a mesquita, a qual tem edifícios adjacentes (talvez aqueles que foram mas não foram atacados segundos os EUA e imprensa ocidental)!?! Muito bem, segundo Bilal Abdul Kareem, reportando desde o local em questão, quer a mesquita quer edifícios adjacentes (a 15 metros o tanas) foram bombardeados, o que o leva a concluir não ser claro como foi possível os EUA terem bombardeado os edifícios adjacentes (afinal destruídos mas não a 15 metros de distância e sim mesmo ao lado, adjacentes) e não terem bombardeado a mesquita destruída. Por uma vez, bravo Kareem, hehe! E não é só ele, não, os White Helmets também afirmam terem sido os norte-americanos os autores da chacina na mesquita. Aí que o império começa a perder controlo sobre as suas ferramentas de propaganda, e logo esta, os White-Helmets-al-Qaeda, acabadinhos de receber um Óscar em Hollywood, ahahahah! Puta de império decadente!

 

Amanhã falarei de um outro disparate pago pelos nossos impostos, ficai atentos! 

 

Luís Garcia, 20.03.2017, Chengdu, China

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Os "WhatAreyous", por Rui Costa

 

  

Os "WHatareyous"

 

Rui Costa POLITICA  SOCIEDADE 

 

Aprenda a distingui-los. O que são, como se manifestam e sua chave dicotómica. Qual a semelhança entre um “whatareyou” e tu? Simples: tu saberes quem são e eles têm dias que sim e dias que não.

 

Vejo-os aqui todos os dias [no facebook]:

- São incondicionalmente pró tudo o que seja “amaricano” mas são contra o artolas que o povo elegeu.

 

- Se Trump desenvolve políticas contra a imigração ilegal, ameaçando continuar um muro que já lá está desde o tempo do Bush velho e do Clinton, “é racista e xenófobo”. Se algum país o faz na europa, o “whatareyou” faz o Trump parecer o Dalai Lama e “rua com esta raça toda, é matá-los!”

 

- Se a NATO (EUA, UE e aliados) vão ao médio oriente rebentar com aquilo tudo porque tem interesses geoestratégicos lá, o “whatareyou” faz de conta que não vê e assobia para o lado. Assassinam presidentes, colocam lá outros, zangam-se com eles, voltam a matá-los e voltam colocar lá outros, e repetir. Se os habitantes não podem lá morar, pois têm que ir para outro lado. Para onde? Para a terra to “whatareyou”. Essa é a parte que o “whatareyou” não gosta.

 

- Os turcos:
Se Erdogan apoia e sustenta terroristas na Siria, e aparece a Bana ao colo (aquela miúda com uma conta criada  no UK e que usava net Turca para ir ao Twitter desde Alepo numa zona onde nem sequer havia electricidade hehehe), o “Whatareyou” bate palmas. Se o Erdogan manda umas papaias à Holanda (onde há políticos de relevo tanto ou mais racistas maus quanto ele) ou à Alemanha, “olha o filho da puta”, como se ele alguma vez tivesse sido outra coisa!

 

- Não gostam daquele tipo que disse aquelas calinadas depreciativas sobre a mulher em geral no Parlamento Europeu. Ora quem colocou aquele tipo no Parlamento Europeu? Foi o Lecht Walesa, aquele senhor simpático de bigode! Vai lá dizer mal dele ao “Whatareyou”! É o vais!

 

- Depois nenhum gosta do Hitler nem do neonazismo…EXCEPTO se estes não forem fantoches colocados à frente de governos depois de golpes de estado patrocinados pela UE e EUA como foi o caso da Ucrânia. Até acham graça! “Olha ali os nazis a porem políticos da oposição no caixote do lixo! Aqui também deveria ser assim!”. Depois, quando vêm ascender gajas como a Marine Le Pen ou aquele tipo Holandês que agora não me lembro o nome e que parece o drácula Bram Stoker, “ai eu nunca os apoiei”, apesar de agora remorderem entres os dentes "este é cá dos meus!". O Hitler também foi eleito pelo povo, mas se fossem a perguntar depois de sentirem na pele a besta, ninguém tinha votado nele.

 

- Os terroristas:
Se atacam os EUA ou a Europa, são isso mesmo, terroristas. Se os mesmos gajos, al-Qaeda, ISIS, al-Nusra, atacam países do médio oriente (Siria, Iémene, Iraque, Afeganistão, Somália), ainda por cima patrocinados por países do Ocidente e da NATO (alguns destes já vitimas de ataques terroristas), o “Whatareyou” bate palmas e diz que são uns “rebeldes” ou “corta-cabeças moderados”, ouvem assim nas noticias…Que fazer…?

 

- Em suma: o “What are you” gosta de guerra, tiros, foguetes, tudo o que rebente até garotos se for preciso.

 

- Um outra das características do “Whatareyou” é nunca assumir a sua xenofobia e o seu racismo, nem nunca o irá fazer, não porque seja só cobarde mas sim também porque para ele tudo o que tem pigmento para além do bege é igual (mulatos, pretos, árabes, islâmicos, muçulmanos, mouros), para ele é tudo a mesma coisa. Aliás, estou convencido que a Alexandra Lencastre começou a por base no sinal que tem que tem acima dos lábios com medo do “whatareyou”.

 

Conclusão a que chego:
O “Whatareyou” é bipolar, mas ainda assim vou perguntando que raio de espécie de bicho é este “What are you?”
Depois se está em dia sim responde “Hãn?”
Se está em dia não responde “Otáriú o caralho”.

 

Rui Costa, 16.03.2017, Portugal 

 
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De Istambul a Doğubeyazıt em 3 dias - II, por Luís Garcia

 

 

DOS BALCÃS AO CÁUCASO – EPISÓDIO 17  

De Istambul a Doğubeyazıt em 3 dias - II

 

bw  Luís Garcia VIAGENS 

Estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem... aonde não estou. (Estou Além, António Variações)

 

24.06.2014

De manhã começámos por um pequeno-almoço principesco, no jardim da casa de Mustafa Göztok (que nos acolhera na noite anterior), na companhia da sua mulher, da sua filha e duas amigas dela, um amigo seu e uma vizinha. Não tivemos mãos a medir para provar todas as maravilhosas iguarias que nos dispuseram, queijo e doces caseiros, legumes do jardim, pão caseiro, café, chá… ah, foi maravilhoso! E as conversas muito interessantes, pese embora a nossa urgência de partir pois ainda faltava-nos fazer quase todo o caminho de 1500 km e já íamos no segundo de viagem. Ainda assim, não partimos logo de seguida, fomos antes gentilmente “obrigados” a fazer um passeio guiado com Mustafa Göztok (presidente da junta de freguesia de Çaibükü) e companhia pela aldeia, com a obrigatória paragem para chás e cafés no bar da aldeia, durante o qual nos divertimos a disparatar e tirar fotos uns dos outros! Eram já 11 horas da manhã quando voltámos a casa de Mustafa para pegar nas malas, fazer a foto de grupo para mais tarde recordar e, finalmente, partir!

 

pequeno-almoço em Çaibükü 

A 1ª boleia do dia foi do próprio Mustafa que nos levou até Düzce, a tal cidade 10 km à frente onde jantámos no dia anterior com O Ditador num restaurante de estação de serviço. A boleia começou mesmo muito bem: quando vi um camião “engraçado” apontei para ele com o dedo e disse à Claire “É neste que vamos”! E fomos mesmo, segundos depois de começar a boleia já tínhamos encontrado transporte. O problema foi que o muito amável condutor tinha ainda umas entregas a fazer na zona antes de ir para Bolu (na nossa rota), facto que desconhecíamos e que fomos descobrindo pouco a pouco. Na primeira entrega esperámos tranquilos; na segunda tinha tantos frigoríficos para descarregar à mão que decidi ajudá-lo, até porque o pessoal da loja não estava muito animado para trabalhar. Pelo menos eram simpáticos, ofereceram nos água e convidaram-nos a visitar a loja à qual se destinavam os frigoríficos. Na terceira entrega, feita de um camião para o outro, dada a sonolência, má vontade para trabalhar e manifesta falta de inteligência do pessoal do outro camião, tomei conta das operações e organizei a transferência dos frigoríficos de forma a optimizar o espaço e despachar o trabalho! Afinal ainda havia uns 1300 km (teóricos) para fazer… Entre a 2ª e 3ª descargas bebemos uns chás, oferecidos pelo camionista. Acabadas todas as entregas almoçámos um super banquete, super em quantidade e qualidade, uma vez mais oferecido pelo camionista. Eram 13h quando por fim se pusemos a caminho de Bolu! Acredite quem estiver a ler que são estas as grandes memórias de viagem, ainda hoje consigo me lembrar em detalhe o aspecto da comida, e facilmente me vem à ideia o sorriso e a bondade infinitos do camionista que nos ofereceu esse banquete!

 

2ª descarga
2ª descarga

 

Em Bolu levámos 1 minuto para apanhar uma boleia de um azeri que nos avançou 10km. Aí apanhámos a 1ª grande boleia do dia, 290km até Kirikkale, a bordo de um camião transportando combustível!!! A viagem foi lentíssima, deu para editar fotos no portátil e até dormir na cama por detrás dos assentos. Além do mais o camião avariou uma vez, e também parámos (claro) para beber chá numa estação de serviço! Para nosso desespero era quase noite quando nos deixou num parque de camiões nos arredores de Kirikkale. Aí apanhámos logo de seguida uma outra boleia, mas não foi longe, apenas para Kirikkale, e ainda por cima fizeram o erro de nos deixar dentro da cidade (em frente a estação de autocarros). Corremos feitos loucos até uma entrada da estrada principal enquanto assistíamos desolados ao por-do-sol. De novo uma boleia instantânea, mas absurda: perguntei se ia para leste e o condutor disse que sim; poucos metros à frente apanhou a entrada para oeste. Pedi-lhe para parar o carro pois estávamos a ir no sentido errado. O condutor parou mas já longe do cruzamento onde eu poderia seguir para leste e pediu-me o mapa! Explicou-nos que ia para Istambul e queria ver no mapa qual a cidade que queríamos ir! Ah, mas Istambul fica a oeste de Kirikkale, não este, portanto não havia nada para mostrar, de modos que o mandei avançar e por-nos rapidamente na estrada onde estávamos a fazer boleia. O condutor calou-se e andou 2 quilómetros até a um local onde podia fazer inversão de marcha. Aleluia! Mas não, o raio do homem voltou a entrar em Kirikkale, em direcção à maldita estação de autocarros! Mandei para logo de seguida, na esperança de não ficar muito longe a pé da entrada da via rápida que nos interessava (e da qual acabáramos de sai estupidamente). Não fez caso, continuou a avançar. comecei a gritar e a ameaçar que lhe batia se não parasse. Por fim parou, já quase em cima da porcaria da estação de autocarros!!! Ahhhh, rrrrrr, que insistência com a estação de autocarros. Entretanto o céu ficara um pouco escuro, e nós estávamos exactamente no mesmo sítio onde a boleia anterior nos deixara! Mais uma corrida para a entrada da via rápida, desta vez já sem esperanças de apanhar boleia. Decidimos ficar à boleia mais uns 10 minutos, tempo de ficar noite escura.

 

10 minutos depois veio o mega-milagre do dia (ou melhor da noite)! Um camião com dois condutores parou. Iam fazer 650km durante a noite, sem parar, conduzindo por turnos, até à cidade de Trabzon, na costa norte (Mar Negro). Trabzon não estava bem na nossa rota centro-leste, mas era bem melhor avançar até Trabzon durante a noite e ficarmos a 575km (teóricos) de Doğubayazıt (destino final), que montarmos ali a tenda e no dia seguinte termos ainda 1075 km para fazer. E assim fomos, 4 pessoas num camião com 2 assentos e uma cama. Foi um grande filme para arranjar espaço e para dormir, mas lá nos entendemos, partilhando comida, trocando ideias num turco básico, entretendo-nos uns aos outros para ajudar a passar melhor a noite. Às 9h da manhã estávamos em Trabzon! Zombies, sonolentos… mas que  alegria de estar a menos de 600 km do destino planeado para os próximos tempos!

 

Álbuns de fotografia

Luís Garcia, 15.03.2017, Chengdu, China

 

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De Istambul a Doğubeyazıt em 3 dias - I, por Luís Garcia

 

 

DOS BALCÃS AO CÁUCASO – EPISÓDIO 16  

De Istambul a Doğubeyazıt em 3 dias - I

 

bw  Luís Garcia VIAGENS 

Estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem... aonde não estou. (Estou Além, António Variações)

 

23.06.2014

Era suposto arrancarmos de manhã bem cedo, rumo ao extremo oriental da Turquia, mas o cansaço e a má-disposição de Claire fez com que adiássemos por umas horas a partida. Saímos por fim às 13h, fizemos uma breve paragem para comer kebab e ayran num restaurante sírio, e fomos em busca de transportes públicos que nos levassem para fora de Istambul. Sim, transportes públicos, pois é quase impossível começar a boleia numa determinada direcção dentro de uma megalópole de 17 milhões de habitantes. Começámos por apanhar um autocarro do nosso bairro até junto ao porto de Karakoy. Aí apanhámos um ferry para Iminönü, e de Iminönü um outro para Kadikoy (no lado asiático de Istambul). Tempo de mudar de meio de locomoção e atravessar a megalópole debaixo de terra, no metropolitano que nos levou até à cidade Kartal. Em Kartal acaba a linha do metro, mas não a mega-zona urbana, de modo que tivemos de apanhar um último meio de transporte, um dolmuş (mini-autocarro) de Kartal até Gebze, onde poderíamos finalmente começar a pedir boleia. Eram 17h30m quando pusemos os pés em Gebze; a maior parte das horas de luz tinham já passado e nós ainda só tínhamos alcançado o limite da zona urbana. Prometia ser longa a viagem até Doğubeyazıt, cidade do Curdistão turco a 1500 km de Istambul (se se seguir a rota mais directa)!

 

Boleia para Izmit

 

Felizmente encontravamo-nos na Turquia, que é para mim o país mais fácil de fazer boleia (por entre todos os países que já visitei). De forma que não é de espantar que pouco tempo depois um jovem muito simpático, estudante de química que se deslocava para a universidade, tenha parado para nos levar não até ao seu destino, mas sim muitos quilómetros à frente, à cidade de Izmit. Em Izmit apanhámos uma mini-boleia muito prática que nos tirou do centro da cidade e nos deixou numa bomba de combustível na saída este da cidade. Com as garrafas de água vazias, fomos primeiro às casas de banho enche-las. Ao sair, demos com uma velha carinha estacionada na qual seguiam de viagem um velhinho muito simpático (condutor) e um alucinado dono de restaurante (à boleia). Ao contrário do costume, tirámos primeiro fotos juntos, e só depois entrámos na carrinha que nos levou até à cidade de Sakaria.

 

Agora começa o grande filme do dia… nessa mesma cidade de Sakaria parou minutos depois um camião para nos levar, conduzido por um jovem muito religioso e de aparência muito simpática. Apenas falava turco, o que não é entrave para as típicas conversas triviais de quando se anda à boleia em países estrangeiros. O problema era perceber onde e quando iria parar, pois tínhamos percebido que se deslocava até Düzce e que tinha ainda uma descarga a fazer, mas não entendíamos a relação entre os 2 factos. “Tudo bem”, confiámos nele e até o ajudámos a encontrar o local da descarga, que para nosso descontentamento se encontrava muito fora da nossa rota. Afinal ele era natural de Düzce (dentro da nossa rota e onde passámos às 20h30) e tinha uma descarga nos arredores dessa cidade. O problema era que ele não sabia a morada da descarga, e nós já não percebíamos pelo seu discurso paranóico se voltaria a Düzce ou não. Voltou, mas eram quase 22 horas!

 

Queríamos sair em Düzce, comer algo rápido e montar a tenda, mas não, ele quis nos pagar o jantar. Se até então tinha mostrado apenas alguns pormenores de ditador, como não deixar a Claire sair do camião para assistir à descarga), agora deixava sair todo o seu autoritarismo-absurdo: escolheu os lugares de cada um ao redor da mesa, obrigou a ir lavar as mãos, mandou despachar a comer mas mandou acalmar a beber o chá, mandou comer o pão com a refeição… e por aí fora! Se não tivéssemos as malas dentro do camião dele tínhamos largado a comida e ido embora! Enfim, estávamos zombies (literalmente) de sono e só queríamos montar a tenda o mais breve possível, antes que fosse tarde demais e acabássemos por não a montar dormindo no chão. Mas ainda não, depois do jantar e de imensidão de chás “à força” dentro do restaurante, ainda tivemos de beber uns outros mais na esplanada, ordem do “chefe”, pese embora ele próprio se queixasse de uma imensa dor de cabeça e da necessidade de ir dormir!!! Imagine-se! Fomos aos camião buscar as malas mas não, o ditador “convidou-nos” a seguir com ele pois “tinha lugar onde dormir” para nós, e insistiu imenso.

 

Para nosso espanto, voltou à estrada principal e começou a voltar para trás, donde tínhamos vindo antes, atravessando vários quilómetros. Pensámos que só poderia estar a levar-nos para sua casa,  e que o seu autoritarismo viesse da dor-de-cabeça e da falta de língua em comum. Assim se explicaria por que motivo não nos quis deixar sair horas antes em Düzce, antes da descarga, e porque perdera tanto tempo em chás e tretas, apesar de constantemente dizer-nos que “estava na hora de montar a tenda”! Ahhh, porque ia nos dar casa! Mas não, andámos 10km para trás para nada! Para parar numa estação de combustível muito suja e mais pequena que aquela onde jantáramos! Que absurdo? Perguntei-lhe onde dormiríamos. “Na cama do camião se quiserem”! Ah, por favor, 3 numa mini cama!?! Pegámos nas malas e despedimo-nos já bem fulos. O “ditador” ainda insistiu, queria então que montássemos a tenda por detrás da loja da estação, num solo de cimento imensamente imundo e a cheirar a podre, e até foi avisar 2 gajos de muito mau aspecto ali presentes que nós iríamos dormir ali! Para a merda com as boas maneiras, virámos as costas e fomo-nos embora, deixando-o a falar sozinho. Montar a tenda naquela situação seria sinónimo de não pregar olho a noite inteira!

 

Estávamos agora perdidos numa aldeia do interior turco, passavam das 23h e morríamos de sono. Atravessámos a estrada principal, de forma a desaparecermos dos olhares dos camionistas e dos 2 homens de mau aspecto, para irmos encontrar um grupo ainda pior de gente rude e estúpida fazendo troça de nós! Seguimos com indiferença pelas ruelas sombrias da aldeia, em busca de bons campos onde montar a tenda. Campos e erva macia não faltavam, o problema era haver tanta gente na rua, o que não permitia parar e montar a tenda sem dar nas vistas. Que pesadelo! Já não conseguíamos mais andar de tanto sono.

 

Por fim arranjámos um lugar aparentemente bom, tapado por um enorme monte de palha. Já tínhamos as malas no chão quando apareceram vários homens, um deles com uma carrinha grande cujos faróis apontavam para onde estávamos. O condutor veio falar connosco mas eu, de forma muito rude, virei as costas, peguei na Claire pela mão e partimos deixando os homens sozinhos. O dono do carro insistiu em falar connosco (e não parecia hostil), mas o extremo cansaço (que me torna agressivo e bruto) que sentia apenas me dizia para fugir dali e encontrar outro lugar urgentemente, para simplesmente montar a tenda e... raios,  dormir!!!  O coitado do homem persegui-nos a pé, depois de carro, até que na estrada passámos para o lado contrário e teve de correr atrás de nós, deixando o carro abandonado. Pelo caminho chamei-lhe um monte de nomes e muito agressivo mandei-o ir embora não sei quantas vezes. Por fim veio a razão, com a ajuda de Claire, dei a mão ao senhor e depois um abraço, pedi-lhe desculpa comovido e entrámos no seu carro. Era óbvio que nos queria ajudar! Levou-nos até à sua mansão onde a sua mulher nos ofereceu chás e cafés, mas não queríamos, queríamos dormir. Não sei quantas vezes pedi-lhe desculpas, arrependido por não ter tido calma e por ter descarregado sobre este bom homem o stress acumulado com as paranóias do camionista e com a rudeza da gente estúpida por quem passáramos 15 minutos antes. Mustafa Göztok (presidente da freguesia, ficámos depois a saber) não quis saber das desculpas e não dizia não estar minimamente chateado com a rudeza com que eu o tratara. Deu-nos um quarto maravilhoso, água e copos e desejou-nos um boa-noite. Eu só queria dormir, para esquecer a vergonha que sentia de estar a ser tão bem acolhido por alguém que minutos antes eu tratara tão mal… ah, que vergonha… mea culpa

 

Álbuns de fotografia

Luís Garcia, 11.03.2017, Chengdu, China

 

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Encontros muito especiais em Istambul, por Luís Garcia

 

 

DOS BALCÃS AO CÁUCASO – EPISÓDIO 15  

osama fb

 

bw  Luís Garcia VIAGENS POLITICA

Estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem... aonde não estou. (Estou Além, António Variações)

 

21-22.06.2014

Depois de vários dias na estrada, viemos para Istambul sobretudo para descansar e recarregar baterias em casa de Hasan e Matina, um turco e uma grega muito simpáticos amigos de Claire que vivem mesmo no centro da megalópole turca. Que sorte que tivemos, não só pela localização mas pelo acolhimento de gente boa e divertida que nos fizeram sentir em casa o tempo todo. Matina estava muito ocupada a acabar a edição do vídeo-clip para uma nova música pop de merda (enfim, é com estes contratos que pagam as contas) de uma cantora turca (os 2 são jovens realizadores ambiciosos, que ainda há pouco receberam o seu primeiro prémio), de modos que não pôde gastar o tempo que desejava gastar connosco. Ainda assim foram belos os momentos passados juntos, ah e maravilhosa a refeição tradicional turca que nos ofereceram na última noite em Istambul! 

 

Vídeo-clip pelo qual Hasan e Matina ganharam o prémio nacional de melhor edição (a música é estúpida, sim, mesmo!

 

 

O outro grande objectivo da estadia em Istambul era encontrarmo-nos com Osama, amigo de Claire, um jovem sírio muito simpático que em 2010 a ajudara imenso e a acolhera na casa da sua família. Com o ataque dos EUA e aliados à Síria disfarçado de guerra civil, Osama teve de se juntar ao Exército Sírio para defender o país da agressão estrangeira, pese embora em tempos de paz fosse crítico do governo de al-Assad. Eis portanto um homem sensato e pragmático, que entende que primeiro há que defender o país, depois sim se pode regressar às críticas ao governo de al-Assad e quiçá apoiar uma mudança de regime numa Síria estável, independente e livre de ingerências estrangeiras.

 

Estivemos com Osama na primeira tarde em Istambul onde passeámos pela zona central de Taksim e bebemos uns chás. Para o segundo dia combinámos uma viagem de barco até à ilha de Kinaliada no mar de Marmara. Antes de apanhar o barco tínhamos de nos encontrar perto de uma determinada estação de metro da cidade, tarefa quase impossível numa caótica megalópole de 17 milhões de pessoas. Precisávamos de ajuda e obtêmo-la com muita facilidade. Na rua junto à estação de metro perguntámos à primeira pessoa que encontrámos se nos poderia emprestar o telemóvel para telefonar a Osama. Irakli, um gigante businessman da Geórgia, muito simpático, pegou-nos pelo braço e foi nos levar a um ciber-café onde telefonámos gratuitamente e onde ele comprou um cartão SIM novo para si. Depois de entrármos em contacto com Osama, Irakli convidou-nos a segui-lo até um restaurante muito chique onde nos quis pagar uma refeição a cada, as quais recusámos. Ficámos apenas pelos cafés turcos. Do seu telemóvel com o novo cartão SIM telefonámos de novo a Osama para fornecer as novas coordenadas do encontro. Pouco tempo depois Osama apareceu e juntou-se a nós nos cafés turcos bebidos por entre conversas de futebol… ficámos a saber que Irakli era fã e conhecia o nome completo de Eusébio da Silva Ferreira!

 

Luís, Claire & Irakli, o senhor geórgio
Luís Garcia, Claire Fighiera & Irakli, o senhor geórgio

 

Após nos despedirmos de Irakli, fomos os três então apanhar o ferry-boat para a tal ilha de Kinaliada onde passámos a maior parte do dia comendo, tomando banhos naquele mar belo e de água tépida onde Claire ensinou Osama a nadar e boiar, passeando e, claro, conversando sobre a sua terrível experiência na Síria. Uma tarde interessante bem passada ao som de músicas de Fairuz, uma magnífica cantora libanesa conhecida no Ocidente pela música sobre o massacre palestiniano de Bissan, que iam tocando no telemóvel de Osama:

 

 

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Aqui fica o resumo das conversas com Osama nestes 2 dias e que estavam guardadas no diário de viagem. são apontamentos antigos, contêm dados desactualizados. Por exemplo, na altura a Rússia negava a presença de militares seus em território sírio, enquanto que hoje é um facto óbvio e oficialmente reconhecido: 

 

  • Enquanto ex-combatente do Exército da República da Síria, na Turquia, Osama é um alvo a abater e também alvo fácil de exploração e escravização. O Exército da Turquia, fiel cão de guarda do império militar dos EUA, tem sido um dos principais actores na desestabilização da Síria, oferecendo treino e armas aos falsos rebeldes sírios (que nem sírios são), facilitando a sua entrada na Síria e acolhendo os terroristas feridos (os media ocidentais chamam-lhes de “rebeldes” e de “freedom fighters”, enfim) em solo turco. Como é de adivinhar, alguém como Osama, não é bem vindo na Turquia, nem ele gosta de aqui estar, ao ponto de não ter coragem para aprender turco além do básico para sobreviver ao dia-a-dia. Osama tem um medo terrível de ser apanhado (está ilegal aqui, pois claro) e de vir a servir de moeda de troca do governo turco de forma que este possa recuperar soldados e espiões turcos por entre os rebeldes (aí está, estrangeiros e não sírios) que andaram a combater pelos interesses dos EUA na Síria e que agora se encontram em prisões sírias. Osama não pode voltar à Síria pois desertou ao exército sírio e é portanto considerado traidor de pátria. Deste tema (da deserção) falarei mais tarde. Dadas as circunstâncias, ilegal e mal-vindo, Osama não tem outro remédio senão submeter-se a trabalhos de escravo (18 horas de trabalho por dia) e ser mal-pago, por vezes roubado, não recebendo sequer o salário, Sim, é um inferno a vida dele aqui.

 

  • Osama tentou entrar ilegalmente em território da UE, pela Grécia, mas correu mal, muito mal. Como sabemos há sempre lixo-humano para se aproveitar da miséria humana e Osama foi vítima de um desses dejectos-humanos que lhe tomou 1500 euros (uma fortuna, é preciso passar fome para poupar este dinheiro nas condições em que Osama se encontra) para o fazer entrar na Grécia, e nunca mais apareceu… enfim, lixo-humanos, sim lixo-humano…

 

  • Para nosso enorme choque, Osama confessou-nos que éramos as primeiras pessoas em muitos meses com quem pôde falar livremente e descarregar tudo o que lhe ia na mente. Mas não é facto assim tão espantoso, dado o que escrevi acima.

 

  • Osama fugiu da Síria e desertou por 3 motivos principais, primeiro pelo medo de poder eventualmente matar o seu próprio irmão, algo insuportável para ele (não admira)! Depois porque, num acto rotineiro dos terroristas internacionais que os media vergonhosamente apelidam de “rebeldes”, a localização da sua família foi descoberta por esses monstros-mercenários e a partir desse momento Osama passou a receber de forma constante ameaças de morte para toda a sua família, por parte dos “rebeldes”, caso não deixasse o Exército Sírio. Em terceiro o lugar, a fatiga de um homem comum perante a obrigação de ver e ouvir todos os dias os horrores e monstruosidades perpetradas pelos “rebeldes” ao seu povo e ao seu belíssimo país agora em ruínas.

 

  • Osama passou a ter receio de poder vir a matar o próprio o irmão porque os mercenários internacionais ("rebeldes") raptaram o seu irmão e obrigaram-no a combater por eles. Para quem anda desatento e se deixa levar pela vergonhosa lavagem cerebral dos media portugueses, ovelhas fiéis e domesticadas do imperialismo norte-americano, pode soar absurdo o que aqui digo. Para quem tem seguido de perto o que de facto se tem passado na Síria nos últimos anos, não é nada de novo, apenas um relato, mais um exemplo concreto da “verdadeira” realidade desta agressão disfarçada de guerra civil. Quem anda atento sabe e Osama confirma que a quase totalidade dos “rebeldes sírios” não são sírios, e que a minoria síria dentro dos “rebeldes sírios” foram quase todos lá parar da mesma forma que o irmão de Osama! À força! Quanto aos mercenários estrangeiros, Osama confirmou-me o que já sabia, que a maioria são do Paquistão, Afeganistão e de países do Médio-Oriente, mas assegura que encontrou imensos franceses e também uns quantos de quase todas as nacionalidades europeias. Ah, e muitos tchetchenos, como era de esperar.

 

  • Osama fartou-se dos horrores da guerra, quem não se fartaria, e claro que, enquanto civil normal, não estava nem nunca estaria preparado para presenciar as monstruosidades perpetradas pelos mercenários internacionais extremamente bem treinados na arte do horror. Osama encontrava, relatou ele, com muita frequência, corpos morto com marcas de torturas, ou restos de corpos, ou corpos sem mãos, ou cabeças separadas dos corpos de amigos e pessoas conhecidas. E quanto aos desconhecidos, o mesmo problema, ver corpos que explodiram com gasolina injectada nas veias de civis e militares raptados, obra dos “freedom fighters”! Quem pode suportar tais visões? Ah, uma lista imensa de horrores difíceis de acreditar e que prefiro não continuar a descrever…

 

  • Não admira que este gentil homem que acolheu a Claire em sua casa em 2010, tratando estrangeiros como reis e rainhas, admita agora com vergonha que após tanto horror, passou deveras a ter ganas de matar, torturar e fazer sofrer fisicamente o mais possível esses lixos-humanos que trouxeram o inferno para a sua amada pátria… Eu acredito que sim….

 

  • Ainda assim Osama relatou-nos coisas boas também, como a aprendizagem de sobrevivência em condições extremas. Hoje ri-se de quando recusou tomar banho de água fria em pleno inverno, a nevar, pois agora sabe por experiência própria que tomar um banho frio e vestir depois roupas quentes e secas é a melhor forma de activar a circulação sanguínea e forçar o metabolismo a produzir calor. Recorda com nostalgia as muitas vezes que deixou de comer (e os seus colegas também) as rações de combate largadas de helicóptero pela Força Aérea Síria, para as oferecer às populações famintas, sem acesso nenhum a comida. Relatou-nos com sorrisos amargos as vezes em que por erro as rações lançadas de para-quedas caíram em território dos “rebeldes”, vendo-se por essa e outras razões obrigado a comer as poucas ervas secas que crescem no solo sírio, para enganar a forme.

 

  • Osama, desiludido com a humanidade, confessa não entender como ser humanos (“rebeldes” neste caso) podem colocar uma mulher fingindo de ferida no chão, servindo de isco para raptar ou matar soldados sírios! Ou bem pior, Osama criticou enervado o acto sujíssimo dos “rebeldes” de mandar ambulâncias atravessar zonas de civis ou de militares sírios, garantido (mentira) que dentro segue uma mulher a dar-à-luz, para depois fazer explodir a ambulância-bomba provocando grande quantidade de feridos e mortos. Garantiu-nos que ocorreram muitas vezes situações similares até que por fim, os alto-comandos das Forças Armadas Sírias, passaram a interditar quaisquer entradas de pessoas e veículos ou até animais dentro de território controlado pelo governo legítimo. Sim, animais também. Osama, que adora animais e que teve como melhor amigo durante parte dos 2 anos e 7 meses de guerra um cão que encontrou na rua, viu-se obrigado por ordens superiores a abandoná-lo, devido ao enorme perigo que representava aquele cão para as tropas sírias. Porquê? Simples, os “rebeldes” lembraram-se de passar de carros-bomba para cães-bomba e mesmo burros-bomba, inserindo as ditas bombas nos estômagos dos animais! Quanto ao seu cão, meses depois de ter sido forçado a abandoná-lo, num incrível golpe de sorte, voltou a encontrá-lo noutro local, magro, ferido e sem forças, mas feliz por reencontrar o seu amigo humano!

 

  • Embora a Rússia negue oficialmente o que sabemos, devido à necessidade de ser politicamente correcta, é um facto que forças militares russas e equipamento moderno russo se encontram na Síria, apoiando o exército nacional. Osama confirma-o e afirma que sem esta ajuda não teria sido possível realizar o “milagre” de reconquistar a quase totalidade do território do país, facto que o deixa muito feliz e descansado pela família que não vê há mais de 3 anos. 

 

  • Quanto ao seu irmão, conseguiu fugir dos “rebeldes” e agora encontra-se são e salvo, junto do resto da família, numa zona controlada pelo Exército Sírio. Aqui está, o seu irmão, sírio ex-combatente pelos “rebeldes”, não foi preso ou morto pelo exército sírio por ter traído a pátria, não, pois claro, é antes tratado e bem como vítima que foi de rapto perpetrado pelos mercenário terroristas internacionais. Uma boa prova de quem é quem neste conflito, de quem maltrata ou trata bem os civis (e al-Assad aqui marca pontos!). Até a TV portuguesa quis nos fazer crer que al-Assad teria usado armas químicas contra o seu próprio povo em Guta, apenas porque o palhaço-otário-marioneta do tal Barack Obush assim o disse. No entanto nunca se deram ao trabalho de transmitir as fotos e vídeos dos serviços de espionagem russos que mostraram, para quem quis ver, as preparações e o momento em que um grupo terrorista “rebelde” lançou armas químicas contra outro grupo “rebelde”. Quanto às crianças mortas supostamente pelas armas químicas de al-Assad de quem de forma primitivamente comovente foram mostradas imagens na TV portuguesa, as mesmas eram procuradas há meses pelos seus parentes. Inclusive a televisão síria passou várias vezes as suas fotos nas informações sobre pessoas desaparecidas, nos meses anteriores à "sua morte no ataque químico de al-Assad". Mais, eram todos alunos da mesma escola, pertencentes à minoria Alauíta da qual o presidente Assad também faz parte! Pensem bem nesta incoerência da propaganda ocidental! (leia a propósito: Cómo los servicios de inteligencia de Occidente fabricaron «el ataque químico» de la Ghouta)

 

  • Ainda assim, como pacifista e anti-militarista que era, e que continua a querer ser, Osama sonha com um mundo sem fronteiras, sem vistos, sem ataques às liberdades individuais, portanto um mundo sem países e, em consequência, um mundo sem guerras… Como pacifista que insiste querer ser, Osama desdenha tudo o que são forças armadas, mesmo as do seu país, pois se não existissem exércitos, armas e mercenários, não haveria guerras nem vítimas delas. Veja-se o exemplo do infeliz episódio que passou no exército sírio depois de ter sobrevivido por milagre a um ataque terrorista dos “rebeldes”: cercados por membros de um grupo fortemente armado de “rebeldes”, o grupo do Exército Sírio em que Osama estava inserido foi atacado e dizimado, sobrevivendo apenas Osama e outros 2 colegas sírios. Quando os reforços sírios vieram resgatá-los, começou um outro pesadelo. Osama e os 2 colegas foram violentamente interrogados por oficiais superiores que os acusaram de serem traidores, espiões dos “rebeldes”, soldados vendidos, uma vez que não podiam crer que os 3 tivessem sobrevivido por pura sorte (que era o caso)! E mais, acusaram-no de ser um soldado fraco, que não deu o corpo e a vida pela bandeira síria! Aqui está o problema de Osama, e meu também, de não conseguir compreender a lógica militarista na qual não existe pessoas no mundo, apenas peças de xadrez num grande tabuleiro planetário. Para um rapaz simples que adora roupa fashion e histórias de amor e romance, a lógica militarista pertence de facto a um outro mundo.

 

  • Um dos piores momentos da sua vida ocorreu quando acabadas quase todas as munições e sem comida nem água, o seu grupo se encontrava cercado por terroristas “rebeldes” fortemente armados. Seguro que iria morrer em breve, telefonou por telemóvel à sua mãe, pedindo desculpas por todos as birras e malandrices que fez a mãe aturar durante a sua infância. Incrivelmente Osama e os colegas resistiram à fome, à sede e às bombas durante 4 dias até que reforços da força áerea vieram bombardear as posições inimigas e resgatá-los.

 

  • Por último, conto-vos a sua estória no Líbano, no início da sua fuga. Acabado de chegar sem bens nem dinheiro, Osama andou pelas ruas procurando ajuda, sempre sem sucesso. Cansado da indiferença das pessoas que passavam na rua, foi tentar a sua sorte nas mesquitas, pensando que se se comportasse como bom muçulmano, rezando a Alá e seguindo os rituais dentro dessas mesquitas, alguém acabaria por o ajudar. Mas não, passou o dia a rezar em vão, quando o que queria era ajuda para telefonar a um amigo seu, e comida ou dinheiro. Com as mesquitas já fechadas e chuva caindo do céu feito maldição, Osama passou por acaso por um velho vagabundo, com problemas de locomoção. Este colocou-lhe dinheiro nas mãos e pediu a Osama para ir comprar não sei o quê para o mendigo. Osama pegou no dinheiro pensando em ir fazer o que o velho lhe pedira mas, a meio do percurso, teve um momento de lucidez pragmática e, embora contrariado pelos seus princípios morais, usou o dinheiro para telefonar ao amigo e nunca mais voltou a ver o mendigo. Pouco tempo depois recebeu no banco da cidade o dinheiro que o seu amigo lhe tinha prometido emprestar.

 

Apesar de todo o pesadelo que viveu e que vive, apesar das más condições económicas e sociais, Osama obrigou-nos a aceitar que ele nos pagasse bilhetes de transportes públicos e que nos comprasse comida e bebida! Eis a genuína hospitalidade síria de que me recordo com muitas saudades, alguém que dá o que não tem e afirma “ser esta a maior felicidade que pode ter”! Pela Europa, States e limitada, estás palavras dariam muito que pensar se vontade houvesse de as analisar…

 

Hoje, quase 3 anos depois deste encontro, causam-me profundo desgosto e nojo todos os portugueses que vomitam descaradas mentiras sobre a sociedade, a cultura e as tradições sírias. Que acusam sem fundamentos o povo sírio de seguir a sharia, num estado laico multi-religioso, imagine-se! Que dizem não querer ajudar nem salvar refugiados sírios pois estes são bárbaros primitivos que nunca ajudariam ninguém na situação inversa. Que mentem quando dizem saber que não há altruísmo nem hospitalidade na Síria. Que sem terem nunca saído da sua aldeia lusitana, juram de pés juntos que ocidentais na Síria são recebidos pelo povo à pedrada e à catanada! Eu li estas e muitas mais barbaridades infundadas nos últimos tempos no facebook.

 

Não consigo perceber este ódio profundo contra seres humanos desconhecidos, sejam estes portadores de bons ou maus princípios. Não entendo a teimosia de seguir o obscurantismo e os mitos que causam dano, em vez da informação e da pesquisa que trazem compreensão. Noam Chomsky tem sem dúvida razão quando argumenta que o estado calamitoso no qual se encontra a humanidade não é culpa da máquina, dos grandes mestres ou da ditadura económica mundial (como costumo eu apelidar o imperialismo neo-liberal). A culpa é das massas que compõem essa humanidade. Chomsky explica porquê. Porque "se nunca antes houve tanta propaganda como a que de somos vítimas hoje, também nunca antes houve tão grande e livre acesso à informação necessária". O mal não está na propaganda da SIC ou do Correio da Manhã,, ou da RTP, está nas mentes daqueles que, desconhecendo de todo a exponencialmente maior hospitalidade dos povos que compõem a sociedade síria, com arrogância e altivez, acusam-nos do contrário e de mais todos os outros males reais e/ou inventados.

 

Por tudo isto, por favor, poupem-me dessas tretas de um "povo de brandos costumes", de "somos dos povos mais hospitaleiros do mundo" e baboseiras do género. Não, não e não. Não somos! E estamos muito longe de o ser! Quem nunca saiu da aldeia, quem não tem bases de comparação ou só compara com exemplos piores (Inglaterra, Alemanha, etc.), quem não se interessa em saber o que se passa nos restantes 99,999% do terreno deste planeta... que não queiram receber refugiados sírios, epá, tudo bem, mas que também não abram a boca para vomitar fanatismo, ignorância, barbárie e clichés patrióticos como esse do povo hospitaleiro!

 

Ah, é verdade, hoje Osama vive na Suécia onde obteve direito de residência enquanto refugiado e pelos vistos gosta de lá viver! 

 

Álbuns de fotografia

Luís Garcia, 02.03.2017, Chengdu, China

 

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