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Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

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A mentalidade artística e o seu papel num sistema de escassez - Parte 4, por Ricardo Lopes

 

 

A mentalidade artística e o seu papel num sistema

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE

 

4 - Considerações finais

O que está por detrás do papel que a arte ocupa na cultura humana e, principalmente, na cultura moderna é algo extremamente complexo, e que eu poderia explicar, pelo menos na extensão até à qual tenho conhecimento sobre o assunto, mas que demoraria mesmo muito tempo.

 

O que me apraz acrescentar acerca do assunto é que é muito importante aprender a comunicar com os outros, adaptar-se e fazer cedências para promover a cooperação e o bom funcionamento social e as relações interpessoais. A solução não passa por suprimir emoções ou banir as artes. Nada disso. Aliás, eu sou contra proibições e banimentos de qualquer tipo, que apenas conduzem à alienação social das pessoas que se identificam com elas e à sua prática clandestina. Proibições, banimentos e linchamento público não servem, a não ser como solução precária num sistema que precisa que se mude muita coisa, nomeadamente a nível cultural.

 

Ao contrário do que se possa pensar, eu não sou contra a arte por ser contra tudo o que existe de emocional no ser humano. Pelo contrário, acho que as pessoas deveriam comunicar muito mais honestamente e exprimir o que sentem, porque não o fazerem é que cria a necessidade de arranjar subterfúgios como a arte, que acaba por ser também um subterfúgio à realidade. A questão é que para comunicar é preciso aprender a fazê-lo, e adaptá-lo a cada pessoa. Isso não é fácil, e nem sempre dá resultado, mas é muito melhor do que atacar os outros porque não se concorda com as suas ideias. É um equilíbrio muito frágil, porque as pessoas estabelecem relações de identidade com determinadas coisas e principalmente com ideologias.

 

Quanto ao que eu espero da humanidade, eu não espero absolutamente nada. Aliás, tanto que eu não prevejo o que vai acontecer no futuro. Aquilo que eu faço é pegar no conhecimento que adquiri através de diversas áreas científicas, principalmente ciência social, comportamento humano e biologia, entre outras disciplinas aplicadas, para me reportar à forma como se poderia empregar esse conhecimento, que corresponde mesmo a algo de real acerca do mundo e das pessoas com as quais vivemos, para mudar aspetos da cultura que representam entraves culturais, como sejam acreditar que o que se tem na cabeça sob a forma de ideias corresponde a algo de real, que a linguagem, sendo simbólica, corresponde a algo de real, questões de propriedade intelectual, de imposição pessoal, de ego, de ostentação de status moral, de ostentação de status material, e tudo o mais que são aspetos do comportamento humano que derivam do facto de vivermos num sistema cultural que foi criado e se desenvolveu em condições de escassez material e de conhecimento, e que já não faz sentido perpetuar-se artificialmente, como acontece no mundo moderno através do sistema económico vigente. É com base nisto que estabeleço a previsão de que, provavelmente, no futuro, num sistema no qual impere a sanidade mental e se tenham ultrapassado determinados preceitos culturais, e se atribua muito mais importância às evidências e à validação empírica do conhecimento, não existam atividades como a arte, tal como hoje já existe muita gente que olha para a religião da mesma maneira e considera que não faz sentido existir numa civilização avançada, na qual a vida é pautada pela ciência.

 

Agora, nem a religião, nem a arte, nem qualquer outra atividade ideológica são a causa ou a fonte dos problemas que existem no mundo. Pelo menos, não se pode, de todo, considerar que estejam na sua origem. Todos esses métodos ideológicos são, essencialmente, formas primitivas de tentativas de conhecer o mundo ou de lidar com fenómenos inexplicáveis. Mas o comportamento humano deriva, primordialmente, do facto de se viver em sistemas de escassez consecutivos. Por isso, é tão fácil identificar características comuns, em termos comportamentais, entre pessoas que viveram em qualquer época histórica anterior àquela em que vivemos, e os nossos coetâneos. Aquilo que considero importante é que as pessoas sejam imunizadas contra os perigos inerentes à atividade artística, tal como muita gente já o é em relação à religião, podendo ter contacto com ela e não se deixar afetar, nem por isso a adotar como sistema de crenças. Também é importante que se faça oposição aberta ao que artistas, tal como se deveria fazer a outros ideólogos, transmitem em praça pública, e que, infelizmente, é considerado ainda por muitos como informação relevante acerca do assunto que estiver a ser tratado, para além de ensinar as pessoas tudo o que se sabe acerca da mentalidade artística e, principalmente, fazê-las perceber que, tal como acontece com a religião, tudo o que provém das artes não passa de algo fictício e que em nada corresponde ao mundo real. A mim, preocupa-me muito aquilo que pessoas que têm muita atenção e a quem é dado tempo de antena na praça pública transmitem como informação e a forma como influenciam as outras pessoas, que é algo muito mais importante e abrangente do que um dito anónimo pode fazer. Uma ideia como a do amor romântico pode disseminar-se (e disseminou-se, efetivamente) na cultura e ter uma força enorme na forma como, hoje em dia, as pessoas lidam umas com as outras em termos de relacionamento amoroso e como constroem as suas relações com base nesses ideais. E, neste caso, até foi algo criado pelos artistas e da sua inteira responsabilidade.

 

Todas as artes têm as mesmas características em comum, no que concerne à forma de apreender o mundo, que eu enumerei e descrevi. A palavra é um símbolo de algo, e não esse algo. A língua não corresponde a algo de real. E, mesmo em ciência, a linguagem que se usa é uma representação da realidade. E o ser humano está sempre limitado. A questão é que, dentro dessas limitações, que vão reduzindo também com a criação de instrumentos de estudo do universo cada vez mais aprimorados e rigorosos, a ciência é uma atividade na qual se valida o conhecimento empiricamente. Ou seja, não interessa o que quer que seja que alguém pense, se isso não for validado empiricamente através de experiências, recolha e tratamento de dados, então não constitui conhecimento. Este é o aspeto que diferencia o método científico e uma atitude empirista de todas as atividades a que eu costumo chamar de "ideológicas", como as artes, a filosofia, a política, a economia, o misticismo, a religião, etc.

 

O que eu quero dizer e reforçar, é que eu percebo porque é que existe arte e determinadas pessoas sentem necessidade de se exprimir dessa maneira. O problema está naquilo que eu referi, quando as pessoas começam a confundir ideias com realidade, símbolos com a realidade.

 

É óbvio que se eu ler, vir ou ouvir uma obra artística, eu sinto qualquer coisa, seja o que for, sinto-me bem ou mal, dependendo. Agora, a questão aqui é que a arte não tem o monopólio da expressão emocional nem das emoções. As emoções não são um exclusivo da atividade artística.

 

Para começar, aquilo que eu (ou outra pessoa) possa sentir quando vejo, leio ou oiço algo depende daquilo para o qual fui condicionado. Como deve ser fácil de perceber, pessoas de culturas diferentes, acham piada a coisas diferentes, experimentam emoções diferentes perante coisas semelhantes ou emoções semelhantes perante coisas diferentes. E o condicionamento a que somos sujeitos não depende apenas da cultura em que estamos inseridos, mas sim também da nossa própria experiência, que pode reforçar ou não o que a cultura nos transmite. Pode-se receber influências de diversos tipos, e tudo aquilo com que temos contacto nos molda enquanto pessoas, até porque aquilo que nós somos está contido no nosso cérebro, e já está demonstrado através da neurociência, que o cérebro é plástico e permeável, ou seja, muda, as conexões neuronais mudam, através da influência exercida por fatores externos, e é permeável a esses fatores que provêm do ambiente (que é tudo, desde a cultura à nossa experiência pessoal).

 

Portanto, como cada artista é apenas capaz de se reportar a si próprio, uma vez que a arte gira em torno da componente emocional do ser humano, e ninguém tem acesso direto ao que outras pessoas sentem, e pode apenas recolher informação disso através de símbolos, que são as palavras e a linguagem no geral, então aquilo que resulta da arte só pode ser o que o indivíduo experimenta na sua vida emocional e que tenta traduzir, seja em palavras, em sons, em imagens, em pinturas, a dançar, a esculpir, ou o que quer que seja a forma como decide exprimi-lo.

 

O que eu também quero dizer com isto tudo é que nem as artes são necessárias ao desenvolvimento emocional das pessoas, nem pessoas que não se interessem pelas artes são mais pobres emocionalmente do que quem é. Os artistas, ou os apreciadores de arte, simplesmente desenvolvem maneiras de se expressar emocionalmente de formas mais diversificadas, mas não necessariamente menos limitadas do que as outras pessoas. Por isso, também, é que eu digo que é tão importante que as pessoas aprendam a comunicar e a serem honestas umas com as outras, porque terminantemente nós apenas temos acesso ao "universo" emocional do outro se ele nos comunicar acerca de tal, sempre limitado pelo simbolismo da linguagem. A linguagem é altamente limitada quando se trata de alguém se reportar ao que pensa e sente. E simbolismo pode ser qualquer coisa, desde a palavra falada, à escrita (que não são equivalentes), à expressão corporal, à composição musical, etc.

 

Agora, como eu disse, não faz sentido banir nada disso, e eu compreendo que haja pessoas que sentem necessidade de ter contacto com arte e produzi-la para se expressarem. Mas, isso resulta de um condicionamento cultural e circunstancial para isso. Assim como percebo que haja pessoas que tenham necessidade de religião ou de outra coisa qualquer, porque isso faz parte da sua identidade pessoal. Agora isso não torna imperativo que alguém, para ser humano, necessite também disso.

 

O grande problema das atividades ideológicas, e em particular a arte, reside principalmente em não se conseguir ter contacto com algo inventado e lidar com isso como aquilo que é.

 

Como disse, uma pessoa não religiosa pode ter contacto com religião e não se torna religiosa nem se deixa influenciar necessariamente. Claro que pode ficar sempre exposta às ideias e numa determinada situação futura de, por exemplo, grande stress emocional sentir-se tentada a ou até aderir a elas, mais uma vez por desespero e por não encontrar recursos para lidar com a situação de outra maneira. O busílis do comportamento humano em todas as culturas que existiram até agora é escassez de recursos. Sempre. Numa situação de abundância, como nunca existiu até agora, muita coisa simplesmente não seria necessária ou não se criaria, de todo, para lidar com determinadas situações. E custa muito às pessoas perceber, mas tudo o que existe de ideológico brotou de uma condição de escassez e da necessidade de controlar o comportamento humano em tais circunstâncias. Tudo o que há de ideológico não é causa de nada no comportamento humano, a não ser a posteriori, quando integrado culturalmente e exercendo influência sobre os indivíduos. Mas, primordialmente, provém de uma situação de escassez. Escassez de recursos intelectuais para explicar determinados fenómenos naturais e o comportamento humano que resulta de uma situação de escassez.

 

Escassez de recursos materiais que conduz à necessidade de desenvolver determinados aspetos em termos de personalidade para poder sobreviver. Moralidade para controlar o comportamento humano, que não se consegue explicar de uma forma científica. Leis derivadas dessa moral para coagir o comportamento humano pela via física. Hierarquização social para proteger os privilégios de acesso a recursos escassos. Entre outras finalidades e outras ferramentas de controlo social, mas sempre tudo a girar em torno da escassez de recursos.

 

E o mesmo se aplica às relações humanas. Um número limitado de pessoas com quem alguém se pode relacionar modela o tratamento que é dado às relações e as ideias desenvolvidas em torno da forma como as pessoas se devem relacionar. Por que é que convém um modelo de relacionamento eterno entre duas pessoas? Porque a perda de uma relação, num mundo de relacionamentos escassos, é muito penosa emocionalmente, e convém que a pessoa por quem nos apaixonamos corresponda ao nosso ideal, porque há outra coisa que também é naturalmente escassa, e que até ver não há solução artificial para isso: o tempo de vida.

 

Portanto, principais fatores que determinam a vida em sociedade num sistema de escassez: escassez de tempo, escassez de recursos materiais indispensáveis à vida, escassez de relacionamentos humanos, escassez de conhecimento.

 

Solução para a escassez de recursos materiais: tecnologia. Solução para a escassez de relacionamentos humanos: comunicação real e efetiva. Solução para a escassez de conhecimento: ciência. Solução para a escassez de tempo: até agora, não há, mas é sempre possível aumentar a esperança média de vida através do desenvolvimento científico e tecnológico.

 

Por fim, é necessário alertar para a importância de tratar com cuidado toda a informação que se utiliza quando se estuda o comportamento humano, devendo-se sempre, dentro do possível, fazer correções para que os resultados sejam interpretados de acordo com o contexto em que se produz tal comportamento e não para supostos mecanismos inatos com que o cérebro vem incorporado desde o nascimento, ou ainda desde uma fase anterior ao desenvolvimento embrionário. Nunca é demais reforçar que algo que é comum, até ao momento, em todas as culturas que existiram e com as quais coabitamos atualmente, é o facto de se terem gerado e desenvolvido num sistema de escassez, aos níveis já apontados. Assim sendo, não é de estranhar que se encontrem manifestações semelhantes do comportamento humano. Daí provém o pessimismo até de muita gente das ciências sociais, de historiadores, e demais pessoas que se dedicam ao estudo de temas “transhistóricos” e transculturais. Perspetivando o comportamento humano como apresentando características universais e inalteráveis, e por não corrigir de acordo com o contexto, facilmente se cai no erro de considerar que, então, sempre tudo foi, é, e será de determinada maneira. Também tal conduz a menosprezar, ou desconsiderar completamente, a possibilidade de identificar os fatores ambientais que conduzem as pessoas a determinados comportamentos e arranjar soluções para os eliminar ou modificar. Tal crença pode ser reforçada quando se toma como modelos de estudo crianças já a partir do momento em que têm uma base de comunicação com elas, ou adultos.

 

Por não terem acesso ou ignorarem a importância destes conhecimentos, é que também se despreza o enorme potencial de mudar o mundo através da ciência e do método científico de aquisição de conhecimento (acerca do mundo real).

 

Também é comum, e isto é algo muito explorado por artistas, principalmente no domínio da ficção científica, interpretar negativamente o potencial da ciência para modificar o comportamento humano, associando a receios em torno das mais diversas ideias e projeções que fazem em torno da “engenharia social”, como se pode ler em obras como “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, ou “1984” de George Orwell.

 

Aquilo que estas pessoas que cultivam um discurso do medo realmente temem, quando falam em “engenharia social”, já existe, já se faz de qualquer maneira, e sempre se fez, através da cultura, do sistema de ensino, da televisão, dos meios de comunicação social no geral.  Não se trata de uma grande conspiração para tornar as pessoas em autómatos ou robotizá-las. Não tem de ter nada a ver com isso, é apenas uma questão de se fazer uma aplicação correta do conhecimento científico e da tecnologia. Tudo depende da forma como se aplica conhecimento relevante acerca do mundo real, e não de projeções que ideólogos se entretêm a fazer, extrapolando da “frieza” da tecnologia e da ciência para a “frieza” dos humanos resultado da “engenharia social”. O importante, no meio disto tudo, é perceber que as pessoas, por si só, não são nada nem carregam em si uma essência composta por ideias, valores, emoções, ou qualquer outro tipo de conteúdo. As pessoas são o resultado do ambiente em que vivem e das influências que recebem de tal ambiente, desde culturais a físicas.

 

Não queria terminar antes de fazer a ressalva de que este texto não procura esgotar, nem de perto, o tema da mentalidade artística, dos efeitos que tem no relacionamento interpessoal, das influências que a arte opera na componente abstrata da cultura humana. Utilizei aqui os conhecimentos que fui obtendo, não só em relação aos artistas e à sua forma de conceção artística, com quem fui tendo contacto ao longo da minha vida, de uma forma mais ou menos direta e mais ou menos pessoal. Procurei ser o mais rigoroso possível recorrendo a conhecimentos provenientes das ciências sociais, da neurociência e da biologia, evitando tratar tal informação de uma forma demasiado exaustiva, e pegando apenas nos pontos essenciais desse conhecimento para os aplicar ao tratamento deste tema. Procurei, também, evitar o recurso a conceitos da psicologia e psiquiatria, que são demasiado vagos. Ao mesmo tempo, tentei evitar tecer considerações acerca das emoções que os artistas sentem, tentando recorrer apenas a aspetos gerais do seu comportamento que permitem deduzir o seu comportamento psicológico. Recorri ao meu próprio caso, enquanto pessoa condicionada pela cultura artística e outrora produtor de arte, procurando sempre, dentro do possível, estabelecer paralelos com outros artistas, com todas as limitações que isso acarreta e, portanto, tudo o que aqui apresentei que não fundamentado cientificamente carece de validação empírica.

 

Ricardo Lopes

 

 

 
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A mentalidade artística e o seu papel num sistema de escassez - Parte 3, por Ricardo Lopes

 

 

A mentalidade artística e o seu papel num sistema

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE

 

3 – O contributo da arte em formas de cultura abstrata

Relativamente à cultura de género feminina, pelo menos no que se refere à cultura globalizada moderna e que é mais ou menos semelhante pelo mundo fora, um dos aspetos que se apresenta como crucial na determinação da suscetibilidade das mulheres aos “encantos” dos artistas é o facto de serem criadas para associarem tudo aquilo que pode ser considerado um ato bom a tudo aquilo que é acompanhado de sentimentos positivos. E, também, são educadas para atribuir uma importância muito maior às emoções e aos sentimentos do que à informação e ao conteúdo. Claro que isto é apenas uma generalização, e estas observações visam apenas a cultura à qual as mulheres são submetidas e que pretende determinar-lhes o comportamento, e não são para ser interpretadas como uma crítica às mulheres, individual ou coletivamente, até porque não existe o que é ser “mulher” nem o que é ser “homem”. Cada cultura o determina e impinge os preceitos para cada sexo, de acordo com as ideias e valores prevalecentes em cada época, e também de acordo com o papel social e divisão de tarefas que é estabelecido para homens e mulheres. Existem muitas mulheres que não seguem à risca os preceitos que a sua cultura de género determina, e isso também tem a ver com as experiências que têm e o contacto com informação diferente daquela que é disseminada pela cultura hegemónica. Aliás, devido ao facto de a experiência e o contacto com nova informação constituírem também fatores externos que operam sobre a modulação do comportamento dos indivíduos e serem fontes de influência externa, que sempre existiram indivíduos que decidiram fazer diferente da maioria, depois de terem sido mudados por experiências novas, e a cultura foi modificando em alguns aspetos ao longo do tempo, num ritmo inconstante, caso contrário ainda viveríamos todos no paleolítico e, possivelmente, nem sequer pertenceríamos a esta espécie, mas a outra qualquer de hominídeos. Mas, o que interessa aqui avaliar são tendências, e não criar estereótipos ou basear a análise neles. E, perante a importância que as mulheres são condicionadas para atribuir a aspetos emocionais e sentimentais, e porque, na sua oposição, os homens são condicionados para não se sentirem à vontade em comunicar acerca da sua dimensão emocional e sentimental, é terrivelmente fácil levar uma mulher a nutrir interesse por um artista que, como já mostrado, se apresenta como alguém aparentemente mais maduro emocionalmente, alguém que consegue lidar com e ajudar os outros a trabalhar a sua componente emocional e, também, porque as mulheres também são levadas a acreditar que a capacidade de sentir e o seu desenvolvimento e diversificação representam a essência da humanidade, então creem que não poderão desenvolver uma melhor relação do que com um ser humano íntegro na sua “natureza”, como é, aparentemente, um artista. Por isso, acontece frequentemente mulheres, como no caso de se relacionarem com pessoas comummente designadas de sociopatas, psicopatas ou manipuladores perversos – digo comummente porque os conceitos criados em psicologia e psiquiatria, por se basearem no mesmo problema de distanciamento importante entre emoção e a sua simbologia, em nada podem provar da incapacidade de alguém de experimentar determinados tipos de emoções ou sentimentos ou até de os experimentar de todo -, se deixarem enredar numa teia construída essencialmente através da apropriação de todo o seu espaço emocional pelo artista. E, também, é importante não ignorar o facto de todos os mecanismos artísticos que operam no condicionamento do artista para as artes e a produção artística, poderem também operar da mesma maneira na mente de quem tem contacto com tal, embora podendo não levar a pessoa a tornar-se artista ou até a fazê-la depender da expressão artística para manter a sua identidade. Com isto quero dizer que todas as armadilhas nas quais o artista cai quando tem contacto com a expressão artística de outros, desde o problema da ambiguidade linguística e comunicacional até à possibilidade de participar involuntariamente na reescrita da própria memória e, portanto, da própria identidade.

 

Outro dos aspetos nocivos promovidos quando se coloca o cerne na emoção como fonte de orientação moral é o facto de operar na normalização de comportamentos insanos, como sejam a vingança, a exploração emocional (como já expliquei), a dependência emocional de outrem, gostar de ver os outros sofrer e morrer, até mesmo tolerar violência física e apreciá-la quando cometida sobre alguém por quem desenvolvemos animosidade ou sentimentos negativos mais fortes. Por isso, é que recentemente tem havido um apelo contra a empatia, e pela retirada do aspeto emocional na tomada de decisões importantes, e do panorama político, por exemplo. Apenas é possível dirigir empatia, no sentido de ser-se capaz de se colocar na pele do outro quando ele passa por algo ao qual se possa associar um estado emocional, a pessoas com as quais conseguimos estabelecer relações de identidade e, como não haverá com certeza dificuldade em perceber, emoções negativas apenas justificam e legitimam ações insanas cometidas contra outras pessoas. Por isso, é que tantos artistas, das mais variadas áreas, falam em produzir arte com o objetivo de “ter um efeito positivo na vida de outros”, mas, perante toda a informação que já aqui expus, sabe-se que isso é impossível, ou pelo menos praticamente impossível.

 

Tudo isto tem uma relação estrita com a promoção de viés emocionais, que nos levam a tratar e a interpretar as ações de forma diferente no caso de provirem de pessoas de quem gostamos ou de outras das quais não gostamos. Os artistas particularmente, e por terem uma grande tendência para adotar uma postura furtiva em relação a pessoas que intuem possuir determinadas características ou defeitos de “caráter” considerados por eles suficientemente graves para invalidar até uma mera interação, quanto mais uma relação, e, no caso de se verem obrigados a comunicar com alguém assim, para além da atitude furtiva, evitam comunicar diretamente o que pensam. Algo que também exploram na sua arte, mais uma vez pela vida da subjetividade, ambiguidade e redundância, através da colocação do foco na forma, em figuras de estilo, em duplos sentidos, e em quaisquer outros utilitários de expressão artística que minam a clareza da mensagem e o processo de comunicação.

 

Para além disso, existe também o problema de confundir os artistas com pessoas mais sensíveis ou emotivas, ou ainda com uma maior capacidade emocional, o que tem somente que ver com o facto de eles se terem treinado para se exprimir de tal forma, aliado ao facto de a comunicação entre as pessoas ser, de uma forma geral, precária e desonesta. Nesta base, acredita-se, culturalmente, que os artistas são pessoas mais vocacionadas para dar atenção aos problemas humanos e aos outros, algo absolutamente incorreto.

 

No início do texto referi que, quando inseridas num sistema cultural, as pessoas são condicionadas para adotar tudo quanto faz parte da cultura abstrata – sob a forma de crenças, ideologias, normas, preconceitos, estereótipos, etc. – e comportarem-se, em termos de pensamentos, comportamento linguístico e corporal, de acordo com tal. Ora, os artistas sempre tiveram uma associação forte com as elites e classes sociais privilegiadas, por um lado porque, ao longo de praticamente toda a história humana, apenas pessoas provenientes dessas classes tinham contacto com o que era considerado cultura intelectual, existindo um grande distanciamento entre essas pessoas e todas as restantes, que poderia acontecer que nem sequer falassem a mesma língua, como aconteceu na atual Grã-Bretanha quando William, o Grande, da Normandia, conquistou grande parte do território, tornando o francês antigo na língua oficial da corte, do clero e dos demais intelectuais, ao mesmo tempo que o povo mantinha o inglês antigo como língua comum. Por outro lado, e quando não fazendo parte de famílias privilegiadas, os artistas viram-se obrigados a ir de encontro ao que agradava às elites, para serem por elas apadrinhados, e poderem fazer vida da sua arte. Assim sendo, os artistas, praticamente todos eles, sempre estiveram muito associados aos valores do status quo e à sua defesa, fazendo a apologia de tal na sua obra, de maneiras diferentes. Em todo o caso, e sejam quais foram as circunstâncias, quer o artista seja distinguido entre as elites intelectuais quer seja um artista popular, mesmo no mundo moderno a sua obra terá de preencher um número mínimo de preceitos e ir de encontro aos valores do público-alvo, para que possa ser distinguida e lhe permita fazer vida da arte. Portanto, o artista, por defeito das circunstâncias impostas por um sistema de escassez, nunca poderá inovar. Aliás, a bem dizer, há quanto tempo é que não perduram na cultura humana conceitos primitivos referentes a ideais de relacionamento entre as pessoas? Alguma vez os artistas se desfizeram de tal? Não. E quem fala deste exemplo, pode falar de muitos mais. Os artistas sempre reforçaram, através da sua obra, ideias acerca de uma suposta natureza humana imutável, que se manifesta sob a forma de comportamentos que se puderam ir observando ao longo da história humana, mas que não se preocuparam em perceber que tal apenas se verificou, e ainda se verifica, porque existem aspetos comuns na forma de organização social e no acesso das pessoas a recursos materiais, relacionais e intelectuais. Um bom exemplo de como um artista, neste caso uma mulher, pode associar a produção intelectual, seja ela de que tipo for, às elites, é Virginia Woolf que, e não obstante a grande distinção que recebeu no meio artístico, se ficou a saber, após a sua morte, que nutria profundo asco pelas pessoas das classes mais baixas, repudiando a ideia de sequer elas terem contacto com a sua literatura, defendendo que apenas as crianças provenientes das elites deveriam ter acesso a educação e humilhando intelectualmente os seus empregados, com os quais deixou a determinada altura de falar, passando apenas a deixar pela casa bilhetes com ordens para eles cumprirem.

 

Para terminar esta parte, resta-me tratar a questão da importância atribuída à emoção na determinação de objetivos de vida, construção de sonhos e do planeamento a longo prazo. Refiro-me ao facto de as pessoas serem condicionadas/educadas para apenas sentirem vontade de ou quererem dedicar-se a atividades que lhes permitam experimentar emoções da maneira mais forte possível. Todos esses grandes slogans que existem atualmente de “viver a vida ao máximo”, de fazer algo em que alguém se sinta perpetuamente bem, de participar em atividades que coloquem a “emoção à flor da pele”, de apenas se dedicar a algo que permita experimentar o máximo possível de emoções e sentimentos positivos. Isto não é completamente novo, mas é novo no sentido de ter sido transportado para a cultura popular e servir para produzir mensagens para incentivar as pessoas a fazer algo. Nunca antes na história passaria pela cabeça das pessoas que se dedicassem a algo porque gostavam de o fazer. Podia calhar que, concomitantemente, se sentissem bem com o que faziam. Mas, mesmo isso, não era algo que experimentassem continuamente, com toda a certeza. É perfeitamente normal que, mesmo quando a pessoa faz algo de que gosta, tenha momentos em que se sente frustrada, em que perde a paciência, momentos em que coloca em causa aquilo que faz e se questiona se tal lhe permite atingir os objetivos que estabeleceu para si própria. Não, não tem de se viver perpetuamente feliz, nem sequer num estado contínuo de bem-estar, e convencer as pessoas de que tal é possível apenas lhes coloca um novo ónus e as faz sentir-se mal por não conseguirem estar à altura das expectativas criadas para elas. Mais, não só achar que as pessoas se devem sentir continuamente bem faz mal, como é imaturo e causa ou agrava problemas existentes. É normal que uma pessoa não se sinta bem quando toma contacto com determinadas coisas com que é preciso tomar contacto para conhecer o mundo em que vive e estudar possíveis soluções para problemas existentes e para ajudar outras pessoas. É normal porque se toma contacto com muita coisa horrível e graficamente impressionante. Por isso, é bem melhor e saudável decidir fazer determinadas coisas com base em informação relevante sobre o assunto, e não porque algo nos faz sentir bem. Aliás, se vamos pelo que nos faz sentir bem e evitamos ou desprezamos o que nos faz sentir mal, então já estamos encaminhados para normalizar atrocidades como as que já referi anteriormente. A certa altura, tudo vale para alguém se sentir bem e evitar sentir-se mal. Ou, até, e porque os artistas não se limitam a pretender experimentar boas emoções, mas normalmente também procuram experimentar más sensações ao rubro, numa espécie de masoquismo, pode-se normalizar todo o tipo de comportamentos que estão relacionados com emoções, sensações ou sentimentos exagerados. Mas, retornando à questão da imaturidade, sim, é imaturo insistir em dedicar-se apenas a coisas emocionantes. Tal remete para uma fase precoce do desenvolvimento, na qual a apreensão do mundo se faz por via emocional. Também por isso, tanta gente gosta de fantasia e sente-se paralisada se não puder fazer algo emocionante ou se tentar resolver problemas ou encontrar soluções para elas trouxer muito de desagradável. É por isso que a apologia dos ideais feita pelos artistas é ridícula e nociva. Tem de andar sempre tudo a girar em torno de ideais, de sonhos. Por isso, Fernando Pessoa escreveu “Sem a loucura que é o homem/Mais que a besta sadia,/Cadáver adiado que procria?”. Pois, mas a incapacidade de atribuir propósito à vida para além de experimentar a loucura, que tem uma relação forte com a atitude hedonista-masoquista da experimentação de emoções à flor da pele, é tão somente uma limitação intelectual, e não tem de se ficar preso entre dois extremos, um no qual tudo tem de envolver emoção ao máximo, e outro no qual não se existe para mais do que cumprir com desígnios biológicos, já agora também eles inventados, como expliquei quando me referi ao problema do propósito e da intencionalidade. Assim, e com base nesta cultura do histerismo emocional, é fácil perceber porque é que se consegue levar as pessoas a preocuparem-se mais, e a estabelecerem uma relação de empatia ou simpatia, com personagens fictícios do que com pessoas reais com problemas reais, que são bem mais aborrecidos do que a grande saga para combater a ameaça dos mortos para a qual um Jon Snow foi o “escolhido” ou a grande saga para combater a ameaça do feiticeiro mau para o qual um Harry Potter é o “escolhido”. Aliás, poder-se-ia, também, tratar aqui da síndrome do salvador que corre pelos livros de fantasia e pela mente de pessoas que regem a sua vida pelo que lhes é ditado por figuras de autoridade ou ficam à espera que uma grande personagem profetizada surja, ou nasça, algures para sozinha resolver todos os problemas do mundo ou, como também é comum, os seus problemas pessoais ou que dizem respeito a algo que representa uma ameaça para a sua vida.

 

Ricardo Lopes

Próxima parte:

4 - Considerações finais

 

 
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A mentalidade artística e o seu papel num sistema de escassez - Parte 2, por Ricardo Lopes

 

 

A mentalidade artística e o seu papel num sistema

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE

 

2 – Efeitos comportamentais, em termos de pensamento e ação

Após a análise das características gerais da mentalidade artística, encontramo-nos agora em condições para prosseguir para a análise dos efeitos que tal tem sobre o comportamento do artista, principalmente no que se refere ao tratamento que dá às outras pessoas, enquanto fontes de informação para as suas criações.

 

Na senda da inversão de necessidades e da submissão da produção artística ao que tem uma boa receção entre as outras pessoas, sejam o público no geral (arte popular) ou um público restrito de privilegiados (arte elitista), que ainda assim é o suficiente para permitir ao artista uma situação económica estável para se dedicar exclusivamente à produção artística, chega-se facilmente a uma situação em que a arte é o centro da vida do artista, em redor do qual tudo o demais que lhe diz respeito gravita. Ao artista deixam de interessar as relações propriamente ditas com as outras pessoas, ou interessam apenas para delas poder recolher mais material, como fonte de inspiração para as suas obras. O que não interessa, com certeza, são as outras pessoas, que deixam de ser os indivíduos que são e com os quais eles se relacionam, e portanto aos quais têm de ceder um mínimo de afetos e dedicar tempo, para passarem a ser meros organismos que recebem determinados estímulos e produzem reações emocionais, que são o produto de interesse do artista. O objetivo último de produzir uma obra de arte sobrepõe-se a tudo o resto que faça parte da vida do artista, ao ponto de já nem ser certo que ele sinta aquilo que diz sentir e os sentimentos e emoções que diz tratar nas obras que faz, mas tão simplesmente trabalha com os símbolos de tal.

 

E, há outro grande problema que afeta os artistas. É que, geralmente, eles criam melhor e mais facilmente no momento emocional, ou seja, no momento em que estão a experimentar algum tipo de sentimento ou emoção, que por se manifestar num determinado contexto ou ser provocado por uma determinada situação tem para o artista um caráter mais genuíno, o que se interrelaciona com as questões do ego, do “eu” e da originalidade que já qui tratámos. Portanto, ao artista interessaria uma situação ideal na qual, ao mesmo tempo que está a sentir algo o pudesse imediatamente transpor para a obra a criar, uma vez que as emoções são um dos mais eficazes gatilhos de memórias, memórias que trazem consigo muito conteúdo e formas sensoriais e sentimentais que podem ser exploradas em conjunto pelo artista no momento em que as experimenta, mas que se esvanecem ou se misturam uma vez ultrapassado o efeito emocional. Por isso, tantos artistas recorrem a psicotrópicos como forma de hiperestimular o cérebro e trazer de volta determinadas emoções e com elas as memórias que vêm atreladas e que normalmente são mais vívidas. Um bom exemplo disso é o que Lars von Trier disse há uns anos atrás. Ele afirmou que se tinha libertado da dependência de drogas e que, portanto, considerava que seria muito difícil ou praticamente impossível que fosse capaz de voltar a criar algo de relevante ou com tão boa “qualidade” como outras das suas obras. E deu o exemplo do filme “Dogville” cujo guião, se bem me lembro, escreveu no espaço de semanas e resultou num dos seus mais aclamados filmes, enquanto que demorou 18 meses a escrever o guião do filme “Nymphomaniac” que, segundo o próprio, ficou muito aquém do anterior em termos de qualidade. A questão prende-se sempre com a capacidade de estabelecer mais associações entre diferentes informações que têm na cabeça e estarem numa condição o mais hipersensível possível, para experimentarem emoções e sentimentos com maior intensidade. E é isso que as drogas ou outros psicotrópicos, como o álcool, permitem.

 

Agora, em relação ainda a este assunto, é importante perceber que a dependência das drogas é causada, não pelo contacto com as drogas em si e os efeitos cerebrais que têm, mas sim com as condições materiais, e de vida no geral, que as pessoas têm. Há pessoas que ficam internadas no hospital a receber morfina para o alívio das dores que sentem e, quando saem, por terem uma vida material e psicologicamente estável, não sentem necessidade de continuar a usar a droga. Há pessoas que simplesmente por amadurecerem e assumirem determinadas responsabilidades, colocam de parte o hábito de consumir drogas que adquiriram durante a adolescência e mantiveram durante alguns anos. As pessoas que mantêm a dependência das drogas são, geralmente, aquelas que têm condições de vida precárias, e que necessitam da droga como um escape. Ora, os artistas necessitam das drogas, quando as usam – e muitos usam -, normalmente por várias razões. Uma delas, e talvez a principal, é que têm uma vida emocional e psicológica bastante precária. Ao contrário do que seria de esperar de pessoas que, supostamente, têm uma maior densidade e maturidade emocional, a esmagadora maioria dos artistas padece de um ou vários distúrbios psicológicos e pelo menos de um nunca se livram, que é a insanidade, correspondente à incapacidade de distinguirem ideias e símbolos da realidade. E, perante a explicação que aqui deixei, é fácil de perceber porque é que tal não só acontece, como é o mais provável de acontecer. Os artistas, devido à sua necessidade de trabalhar a vida emocional e de explorá-la para produzir arte e para apreender o mundo em que vivem, habituam-se a remoer e remoer infindavelmente os mesmos assuntos, os mesmos acontecimentos, as mesmas situações e as mesmas relações que tiveram ou têm com outras pessoas. E, com o tempo, e através de todos os processos que operam na mente artística que eu descrevi, podem entrar em conflito interno com as memórias que modificaram acerca de determinadas pessoas e acontecimentos, podem fazer-se sofrer desnecessariamente por se levarem a acreditar que, afinal, relações que tiveram ainda foram mais precárias do que aquilo que tinham sentido na altura, podem entrar em ciclos infernais de crises de identidade pela diversificação emocional que operam dentro de si mesmos, e podem ainda padecer de todo o stress, ansiedade e demais estados psicológicos negativos provocados pelas exigências laborais do sistema capitalista, podendo ser obrigados a produzir de acordo com calendários que não os satisfazem, ter de lidar com críticas negativas ou críticas positivas que consideram falhar na interpretação do que fizeram e representar mal a sua obra, entre muitas outras coisas. Mas, para além disso tudo, os artistas podem recorrer às drogas, também, para produzirem mais facilmente e de acordo com determinados critérios de qualidade que estabelecem para si próprios ou lhes são impostos por outros.

 

E é por toda esta necessidade adquirida de explorar as situações emocionais que surgem na sua própria vida, que são a única fonte de informação para a sua produção artística que é comum que, por exemplo, no decorrer de uma conversa ou de outro tipo de interação comunicacional com outra pessoa, de repente entrem em mutismo, se tornem taciturnos e que pareça que estão distantes e não estão a dar importância ao que a outra pessoa está a dizer. É altamente comum porque, perante algo com o qual têm contacto naquele momento, que pode ser qualquer coisa, desde a entoação, até uma frase específica que a pessoa profere, até à cascata de emoções que lhe é provocada pelo facto de a pessoa estar numa determinada disposição, ou até qualquer outra coisa que esteja presente no ambiente no momento em que acontece algo, funciona como gatilho (que é aquilo a que chamam de “inspiração”) para trazer à mente toda uma miríade de associações estabelecidas através da memória, que podem envolver pessoas, situações, acontecimentos passados ou, então, apenas uma experiência emocional considerada importante pelo próprio. Por isso, também, com o tempo, participam, de forma mais ou menos voluntária na destruição das relações interpessoais que estabelecem. Isso é bem apresentado e explorado em filmes como “Through a Glass Darkly” ou “Autumn Sonata” de Ingmar Bergman. No primeiro, temos a história de uma mulher que vai passar férias com o marido juntamente com o resto da família, incluindo o pai, que é um escritor que explora literariamente a condição psicológica da filha, não se preocupando particularmente em resolvê-la, e tal é revelado pelo genro numa discussão entre os dois, algo que o próprio acaba por não negar, e situação para a qual a própria filha descobre provas, quando lê as notas e os textos do pai. No segundo, encontramos uma situação muito semelhante, de afastamento emocional e pessoal de um dos pais (neste caso, a mãe) em relação aos filhos, sendo que as principais vítimas são normalmente mulheres devido à sua cultura de género (algo que irei tratar a seguir) e aos distúrbios emocionais provocados pelo distanciamento físico e emocional de uma ou das duas principais referências para o desenvolvimento emocional. Nos dois casos, qualquer uma das pessoas que não se dedica a nem demonstra pretensões artísticas é apresentada como sendo bem mais sã, a nível psicológico, do que os artistas, para além de ser mais empática para com as pessoas de quem gosta, dispor-se a ajudar e estar legitimamente preocupada com a sua situação.

 

Ricardo Lopes

Próximas partes:

3 - O contributo da arte em formas de cultura abstrata

4 - Considerações finais

 

 
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A mentalidade artística e o seu papel num sistema de escassez - Parte 1, por Ricardo Lopes

 

 

A mentalidade artística e o seu papel num sistema

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE

 

Tendo já tratado, aqui no blogue, dos problemas da atividade artística e dos produtores e amantes de arte de uma forma sintética e superficial, vou agora redigir aquele que poderá ser um extenso artigo, no qual me disporei a tratar os seguintes tópicos:

 

- Condicionamento artístico (fatores externos aos quais alguém é submetido que o levam a desenvolver uma mentalidade artística; progressão psicológica de uma necessidade de expressão emocional até que a atividade em si se torna numa necessidade; fatores paralelos, como o reconhecimento e a pressão social sob a forma dos mais variados tipos de distinções, e como conduzem ao reforço de tal disposição para a vida e para a apreensão do mundo e das pessoas; questões de ego que brotam num sistema de escassez; viés culturais; problemas gerais da linguagem e particulares da expressão artística; neuroplasticidade, neuropermeabilidade, memória);

- Efeitos comportamentais, em termos de pensamento e ação (capacidade emocional; densidade; exploração das relações interpessoais; relação com psicotrópicos);

- O contributo da arte em formas de cultura abstrata (relação com a cultura de género feminina; normalização de comportamentos insanos por via da sobrevalorização da componente emocional nas relações; crença no papel humanitário imprescindível; promoção do tratamento diferencial por via emocional; associação dos artistas com personalidade sensível, empática e emocionalmente mais complexa e rica).

- Considerações finais e enquadramento do comportamento artístico num cenário cultural mais amplo.

 

Parte 1 - Condicionamento artístico

 

Para compreender o artista, é necessário, tal como acontece com qualquer outra pessoa cujo comportamento se pretende estudar, enquadrá-lo, primariamente, no seu contexto cultural. Todos vivemos em culturas que, por via da escassez de recursos (algo de que me socorrerei na quarta parte deste texto, e cujos efeitos procurarei expor de forma abreviada), integraram conteúdos abstratos (tudo o que faz parte da cultura ideológica, não material) que, através de um sistema simbólico de comunicação, como é a linguagem, reforçaram uma certa forma de epistemologia que implica que sejamos condicionados para adotar (e isso acarreta um processo de identificação) determinadas crenças, normas, ideologias, preconceitos e demais valores. Munidos de tal, saímos a projetar todas essas abstrações no mundo em nosso redor e, principalmente, nas outras pessoas e no seu comportamento. Permitimo-nos tirar conclusões precipitadas (e daí também derivam as primeiras impressões e os seus efeitos na apreensão que fazemos do outro, ainda antes sequer de lhe termos dado oportunidade de fazer o que quer que seja) e formular juízos desinformados acerca das outras pessoas. Convencemo-nos de que isso corresponde à realidade, que o que temos na cabeça sob a forma de abstrações tem uma correspondência direta com algo que se encontra no mundo ou que observamos no comportamento alheio ou em qualquer tipo de fenómeno material. E, por fim, lá vamos nós lançados a cristalizar o que resulta desse processo como uma verdade universal, categórica, ou o que lhe queiram chamar.

 

O que é que dá?

 

 

Sim, dá merda.

 

E a forma como dá merda e o que essa merda representa nas relações humanas será tratado ao longo deste artigo.

Portanto, temos estas características gerais de modulação da mentalidade e princípios epistemológicos difundidos culturalmente e integrados por todos os seres humanos que vivem em qualquer uma das culturas hegemónicas que se podem encontrar pelo mundo fora, e também por todos aqueles que viveram em todas as culturas que existiram ao longo da história. Isto porque me estou a reportar a características basais acerca da forma como o ser humano trata informação abstrata de um ponto de vista cultural, ou seja, em termos dos conteúdos que são transmitidos entre pessoas de um determinado grupo, ou tribo, maior ou menor que seja em termos de número de indivíduos que o compõem.

 

Até ver, nada disto diferencia os artistas de todos os outros. Estamos apenas a falar de características da cultura hegemónica e da forma como determinados princípios epistemológicos condicionam a forma de pensar, de ver o mundo, de interpretar os outros e o seu comportamento. Tudo isto fomenta o pensamento ideológico e é um dos fatores que opera (outros ainda anteriores e mais primordiais são de ordem material, mas isso não é para ser tratado aqui) na formação da mentalidade e na estruturação das atividades ideológicas, entre as quais se contam a filosofia, a religião, a arte, a política, a lei, a economia, o misticismo, o esoterismo, entre outras coisas do mesmo género.

 

O que distingue, em particular, os artistas de outros tipos de ideólogos é que, para além de, por uma via ou por outra, serem levados a apreciar arte e, mediante a exposição continuada a manifestações e expressões artísticas do mais variado tipo (ou apenas de um único tipo, não interessa), adquirirem uma especial apetência para a apreciação deste tipo de atividade ideológica e criarem uma relação de identidade com ela. Eu faço questão de reiterar o processo de identificação, uma vez que é extremamente importante para perceber como opera o condicionamento cultural, principalmente quando diz respeito a algo de ordem imaterial, como são as ideias e demais abstrações. Aquilo com o qual as pessoas se identificam e integram no conceito de “eu”, correspondente à ideia que constroem acerca de si próprias através das mais diversas influências que vão recebendo ao longo da vida, tem uma força muito grande, no que diz respeito à profundidade de condicionamento que produz.

 

Continuando, temos, então, as influências da cultura hegemónica (na sua componente abstrata) e as influências da cultura artística. Ora, sendo que o indivíduo, enquanto unidade cultural, tende a adotar formas de expressão com as quais estabelece relações de identidade – como seja alguém que se identifica como adepto de um clube de futebol e se exprime através da participação na assistência de um jogo; alguém religioso exprime-se frequentando cerimónias religiosas e demais rituais associados à sua religião -, o apreciador de arte, muito facilmente, desenvolve uma necessidade de se expressar artisticamente. Essa expressão artística pode fazer-se através do consumo de arte produzida por outros, mas muitas vezes transforma-se numa necessidade de produzir o seu próprio conteúdo artístico.

 

Agora, o que é que a arte tem de característico, que normalmente está ausente, pelo menos em teoria, ou que não é tão vincado noutras atividades ideológicas? A componente emocional. A arte revolve toda em torno da emoção, daquilo que provoca o “belo”, o “feio”, da criação de estruturas próprias que permitem veicular determinadas emoções, como sejam as figuras de estilo na escrita, a tonalidade na música, a técnica e as cores na pintura, a relação de proxémica entre a câmara e um determinado personagem no cinema, entre uma grande diversidade de aspetos nas várias artes. Portanto, a arte representa a atividade ideológica egocêntrica por excelência, porque se centra em algo que apenas o indivíduo pode experimentar, e que é incomunicável, até mesmo por via linguística, devido a evidentes limitações. Se eu me quero reportar ao que sinto, então tenho de me centrar em mim próprio. Se eu me quero reportar ao que os outros sentem, tenho também, necessária e invariavelmente, de me reportar a mim próprio, porque existe um obstáculo comunicacional inultrapassável na tentativa de acesso direto às emoções alheias. Portanto, está-se sempre dependente dos relatos que as outras pessoas fazem que, por sua vez, dependem da forma como foram condicionadas. Por um lado, e como não se tem acesso às emoções alheias, tem de se ficar irremediavelmente dependente daquilo que aprendemos a associar às palavras que usamos para nos referirmos às emoções, ou então das impressões que fazemos acerca daquilo que as outras pessoas sentem quando nos dizem que se sentem de determinada maneira. Não quero aqui entrar em discussões do ovo e da galinha, até porque não me parece que tal tenha fundamento. O que interessa é que, nas fases mais precoces de desenvolvimento humano, incluindo o desenvolvimento linguístico, as pessoas, neste caso as crianças, podem aprender a estabelecer associações entre determinados vocábulos e emoções de diversas maneiras. Podem experimentar uma emoção e, por força do hábito, aprenderem dos pais que aquilo que sentem é estar “triste” ou estar “contente” ou estar “chateado” ou estar “frustrado”, ou o que quer que seja. Podem experimentar um determinado tipo de comportamento da parte de outra pessoa, ouvir de alguém que essa pessoa está “feliz” ou “furiosa” ou “aborrecida” e associar isso à expressão facial que o visado ostenta nesse momento, ou à memória disso. Podem até associar vocábulos para exprimir emoções, ou até expressões (mais do que uma palavra), àquilo que sentem quando alguém se comporta de determinada maneira e diz que se sente de tal forma, confundindo o seu próprio sentimento ou emoção com aquilo que a outra pessoa sente. E, enfim, isto não esgota todas as possibilidades de estabelecimento associativo entre desenvolvimento linguístico e emocional. Serve apenas para ilustrar, sob a forma de exemplos, como tudo isso parte do condicionamento cultural ao qual a criança é submetida e, claro, também das particularidades das experiências que tem. Este último aspeto é importante, porque permite estabelecer uma ainda maior distanciação entre as emoções quando tratadas pela cultura hegemónica – já a carregarem com todos os problemas referentes a ambiguidade linguística, barreiras comunicacionais insuperáveis, etc. – e o desenvolvimento emocional de cada pessoa individualmente que resulta das complexas interações precoces que estabelece com outros e, também, da língua e do vocabulário utilizado pelas pessoas com quem aprende a falar.

 

Em resumo, temos pessoas que são condicionadas de uma maneira única para estabelecer associações entre emoções que não podemos conhecer enquanto tal e determinadas palavras, que foram influenciadas pela cultura artística, pela epistemologia ideológica, que estabeleceram uma relação de identidade com a arte e que, com tal, desenvolveram a necessidade de se expressar pessoalmente através do seu consumo ou da sua produção.

 

Para além disso, há ainda um outro aspeto relacionado com a forma como o cérebro humano se desenvolve em sociedade, que é o facto de o indivíduo ser submetido a várias formas de pressão social e, neste sistema, aprender a construir a sua identidade em torno da aceitação que recebe dos pares, e ainda mais do reconhecimento de que é alvo, quando tal acontece e atinge proporções importantes. Para além disso, também é necessário estar integrado socialmente e ter sucesso na área de atividade a que alguém se dedica para poder fazer vida dela. Portanto, e como a expressão artística se torna uma necessidade para o seu praticante, por fazer parte da sua identidade, o artista rapidamente transita de uma necessidade de trabalho da sua vida emocional, para a necessidade de produzir arte e, mais tarde, para a necessidade de produzir algo que lhe permita receber a distinção dos seus pares, uma vez que lhe é tão necessário poder, idealmente, dedicar-se à expressão artística a tempo inteiro, visto que se tornou o cerne da sua vida, da sua identidade e da sua pessoa, do seu “eu”.

 

Assim sendo, opera-se uma inversão de necessidades. Algo que originalmente correspondia apenas a uma forma adquirida de expressão e desenvolvimento emocional, transformar-se na necessidade de praticar o ato artístico, e ainda na necessidade de corresponder a determinados critérios que permitam ao indivíduo ser distinguido pela sua obra. Pode tal até tornar-se num círculo, que começa e acaba na necessidade do trabalho da componente emocional, que entretanto se tornou no cerne e em praticamente tudo aquilo com o qual o indivíduo se identifica. Mas muito facilmente o artista começa a confundir e a misturar todas essas necessidades, que derivam do funcionamento de um sistema de escassez, no qual é preciso competir por lugares de destaque para que se tenha a oportunidade de exercer determinada atividade. Ou seja, toda a vida do artista passa a girar em torno da arte e da produção artística, tornando-se tudo o resto absolutamente secundário e, provavelmente, até prescindível. Isto porque o ato artístico em si passa a carregar toda a identidade do artista, sob a forma da sua vida emocional (que, para ele, é a única que existe, e também por isso é que com tanta facilidade temem o desenvolvimento tecnológico e a instrumentalização mental que fazem da ciência, como uma ferramenta de engenharia humana e social. Tudo o que possa atuar num ambiente que consideram emocionalmente estéril, tão simplesmente porque as emoções não são o foco comunicacional das pessoas que a tais atividades se dedicam, é-lhes hostil.), juntamente com o reforço das influências artísticas que receberam e, ainda, é a única coisa sobre a qual incide a aprovação de outrem e o reforço social da individualidade.

 

Ainda, entram também todas as questões em torno da sua identidade. As questões do “eu”, do ser “eu próprio”, questões de originalidade relacionadas com a atribuição de mérito pela obra artística. O problema da originalidade é um dos que mais apoquenta os artistas. Isso deriva também muito do facto de viverem numa cultura que promove o culto da personalidade, sob a forma de figuras de autoridade, que são aqueles que, de uma forma ou de outra, se distinguiram nas respetivas áreas de atividade. No mundo artístico, tal opera exatamente da mesma maneira. Tanto que o principal foco é o autor das obras e o seu estilo particular. Um que se distinguiu na poesia porque desenvolveu um novo sistema de rima, outro que se distinguiu na pintura porque desenvolveu uma nova técnica de pintura, outro que se distinguiu no cinema porque modificou o posicionamento da câmara em relação aos personagens. Enfim, os autores distinguem-se principalmente pelo estilo. Aliás, a verdade é que os possíveis conteúdos de criação ficcional já foram todos esgotados, e apenas se podem criar novas perspetivas sobre os mesmos. E, quando a perspetiva impera sobre o tema ou o conteúdo, mais uma vez se promove o egocentrismo, porque tudo passa a reduzir-se à peculiaridade da forma como o autor decide abordar um determinado assunto. Tudo revolve em torno da forma, e não do conteúdo. O conteúdo, até, se torna em algo que se explora para compor a forma. Por isso, é comum ouvir dos artistas que foram influenciados por determinados autores, mas que divergiram para fazer as suas próprias criações. Ou seja, custa-lhes admitir, e até ter contacto com a informação, que tudo aquilo que fazem, e o que designam de criatividade, não passa da combinação de elementos conhecidos em novos arranjos. E, esses novos arranjos são aquilo que se designa comummente como algo “original”. Toda a gente é o fruto da cultura em que vive, mais as experiências que tem. Mas, considerar que o que fazem não os distingue de qualquer outra pessoa, é demasiado penoso para os artistas, uma vez que, de acordo com a sua mentalidade, implica uma perda de individualidade. E possuir individualidade é uma condição necessária no processo de identificação. Por isso, e porque para ser possível um processo de identificação tem de existir algo no indivíduo que seja permanente, é que artistas como Fernando Pessoa sentiram necessidade de criar novos personagens dentro de si próprios, aos quais atribuir pensamentos, emoções e características que eram estrangeiras à pessoa com a qual se identificavam. Isso pode também ser resultado do processo de diversificação artística do trabalho emocional. A necessidade de se tornar progressivamente mais complexo em termos emocionais, e com um maior leque de emoções e perspetivas ao dispor, pode provocar, claro que apenas a nível estritamente mental, uma rutura psicológica.

 

Este processo de rutura psicológica pode ser também aquele ao qual se submetem os artistas quando pretendem criar personagens que querem distintos deles próprios. Já sabemos que é impossível lidar com emoções para além daquilo que é possível experimentar intrapsiquicamente e que, portanto, todas as considerações que se possam estabelecer em termos de análise emocional partem do próprio e estão relacionadas com o seu ego. Mas, se se acredita que, por um trabalho de aprofundamento e diversificação emocional se pode conhecer as emoções alheias e, até, reduzi-las ao simbolismo artístico, então também rapidamente se transita disso para a crença de que é possível ler as emoções e os pensamentos derivados dessa expressividade emocional de outras pessoas e ter acesso, dentro da psique do observador, à intimidade emocional incomunicável do outro. Isto não é exclusivo dos artistas, devido ao caráter de promoção da mentalidade ideológica da cultura humana construída num sistema de escassez, mas é agravado fortemente neles. Por isso, se convencem que são capazes de criar personagens realistas distintas deles próprios. E consideram a realidade desses personagens, a sua credibilidade em termos humanos, porque não existe para eles nada de mais genuíno no ser humano do que as suas emoções. Então, não é possível ser humanista sem explorar as emoções humanas numa atividade que se promove para chegar aos outros, como se carregasse em si a derradeira verdade acerca da essência da condição humana.

 

E, por via dessa crença inabalável na capacidade de leitura das emoções alheias, pelo facto de se convencerem que calibraram um suposto mecanismo de leitura pelo facto de se terem dedicado durante muito tempo e muito profundamente ao tratamento das suas próprias emoções, sempre que alguém faz ou diz algo, sempre que alguém exibe alguma forma de comportamento, já vão por ali fora desgovernados a fazer suposições e a atribuir significados aos mais mínimos detalhes da interação com outras pessoas. Detalhes esses que podem estar presentes por mero acaso. Mas, também não esqueçamos que desde o século XIX, com autores como Schopenhauer, Dostoiévski e Freud, ainda mais se legitimou a crença em que se pode conhecer a psique de outra pessoa ainda melhor do que ela própria por vida de sinais subtis detetados no seu comportamento. Não pretendo com isto negar que o comportamento humano é essencialmente determinado por processos subconscientes e tem muito mais de automático e determinístico do que os arautos da liberdade pretendem ceder que tenha. Mas, partir daí para arrogar mais conhecimento acerca das emoções alheias e dos pensamentos associados a elas do que os próprios autores do comportamento, com todas as limitações comunicacionais já consideradas, é por demais arrogante, para dizer o mínimo.

 

Outro aspeto importante que determina a mentalidade artística, e que também não é exclusivo da mesma mas, mais uma vez, concorre para agravar a condição, está relacionado com viés culturais, que é algo que vou aprofundar mais à frente, mas que pretendo referir agora para me reportar a um importante tipo de viés que condiciona fortemente a forma como apreendemos a informação que nos chega do exterior e as relações e associações que estabelecemos entre diferentes elementos. Refiro-me ao viés que nos leva a confundir correlação com causalidade. Correlação é tão simplesmente tudo aquilo que se pode dizer de duas coisas que acontecem simultaneamente ou sequencialmente e que são identificadas na cadeia de acontecimentos. Ou seja, pode-se observar que um acontecimento precede outro ou que o acompanha. E, é apenas isto que significa correlação. Não tem nada a ver com causalidade, que diz respeito ao estabelecimento de uma relação de causa-efeito entre dois acontecimentos. Porque algo precede ou acompanha outra coisa, por si só não implica que seja causa dessa mesma coisa que precede ou acompanha. Porque é que isto é importante? Porque é um aspeto comum da mentalidade humana atribuir um significado ou um propósito que se deriva de uma cadeia de causa-efeito. Ou seja, considerar que se algo provocou outra coisa, então aquilo que constitui a causa acontece com o propósito de permitir que aconteça o que lhe sucede. É como considerar que a evolução das espécies é intencional, que segue um trajeto de melhoramento progressivo das características das espécies, que tem um determinado objetivo definido, que o sexo existe com o propósito de dar continuidade às espécies, entre outras considerações comuns estabelecidas em torno da biologia evolutiva. Tal é completamente erróneo, como poderão ler aqui. Eu decidi incluir isto nesta exposição acerca da mentalidade artística porque é por via deste tipo de mecanismos mentais que os artistas são levados a fazer leituras excessivas dos mais mínimos detalhes do comportamento humano. Tudo tem de querer dizer alguma coisa, tudo tem de ter um propósito, tem de existir uma intenção por detrás de tudo o que as pessoas fazem e, algumas vezes também, por detrás dos fenómenos naturais que ocorrem no universo, tudo tem de ter um significado. Também por causa disto é que tão facilmente enveredam por histerias observacionais, quando, para eles, todos os mais mínimos detalhes que digam respeito à postura corporal, à expressão facial, ao tom de voz, ao conteúdo daquilo que as pessoas dizem tem de concorrer necessariamente para a formulação de um significado único ou múltiplo acerca do seu comportamento. Nada pode ser por acaso e, normalmente, calha que vai de encontro aos preconceitos que já formularam acerca da pessoa em causa e diz tudo respeito a eles próprios. Por isso, existem obras terrivelmente claustrofóbicas nas quais, por exemplo, um artista que se representa a si próprio como um transeunte consegue transformar tudo em seu redor num ambiente hostil porque consegue interpretar tudo como sendo dirigido a ele. Tudo o que as outras pessoas fazem tem-no a ele como alvo. Até podem existir outras coisas dentro da cabeça das pessoas mas, assim que sai à rua, não só toda a gente repara nele, como fica exposto, como que nu, aos julgamentos de toda a gente que o encontrar no seu campo visual.

 

Neste momento, vamos retroceder um pouco, e retornar às influências que os artistas recebem da parte de outros artistas e a forma como processam essa informação. Ora, penso que seja fácil de perceber a ideia de que é inevitável para alguém que tem contacto com algo tão subjetivo como é tudo aquilo que se foca na componente emocional da psique humana, neste caso a arte, preencher o espaço criado pela ambiguidade a bel-prazer e com o que quer que seja que conheça e com o qual consiga estabelecer uma relação de associação com a restante informação. Por outras palavras, toda a subjetividade inerente a uma obra de arte é espaço a ser preenchido pelo observador com aquilo que lhe assome à mente sob a forma de memória que é despoletada pelo contacto com determinados sinais externos. Pode-se ter associado mentalmente, por via de memória, um odor a uma emoção ou um acontecimento específico, ou até a outra obra de arte qualquer. Pode-se ter associado uma palavra a um acontecimento, ou a vários de entre os quais um é mais facilmente recordado. Pode-se ter associado uma música a alguém. Tudo isto para dizer que aquilo que determina a interpretação que alguém faz de uma obra artística resulta completamente da informação prévia com que se teve contacto e com a qual se estabeleceu memória associativa. Portanto, mais uma vez, a obra artística promove o egocentrismo pela via da subjetividade, sendo que cada pessoa pode forçar nela qualquer tipo de projeção que tenha ao dispor por via da memória. Por isso, é que tantas vezes se leem críticas nas quais se estabelecem paralelos tão absurdos como considerar que aquilo que determinado artista representou numa obra corresponde a acontecimentos que apenas tiveram lugar após a conceção da obra ou após a morte do próprio autor, como se o mesmo fosse dotado de uma capacidade de profecia, quando, na verdade, o crítico está apenas a estabelecer uma associação com algo que lhe é familiar e com o qual estabelece uma relação de semelhança ou, até, de identidade por via da subjetividade da obra, que permite tudo.

 

Por isso, há quem diga que a arte pode ser usada como um tubo de ensaio, para testar hipóteses e cenários alternativos, mas o grande problema é que tudo o que possa resultar dessa experimentação está acorrentado às limitações do autor, em termos daquilo que conhece, da sua memória (que é altamente falha), e de toda a informação com a qual alguma vez teve contacto. É impossível superar as limitações impostas por aquilo que se conhece e é por isso que não existe realmente liberdade de pensamento, ao contrário da crença que é veiculada pelos artistas e outros ideólogos. Para além disso, e apenas como uma pequena nota, é arrogante considerar que se é capaz de testar algo dentro da própria cabeça e, através dos resultados de tal, tirar ilações acerca da própria realidade, do mundo e do comportamento humano.

 

Também há a considerar outros aspetos que resultam da ambiguidade e da redundância inerentes à linguagem. Antes de mais, e porque já se faz tarde, deixo-vos o link para um artigo acerca da origem e evolução da linguagem humana, através de exemplos de algumas das línguas mais faladas no mundo, para que possam perceber melhor porque é que não existe uma relação de correspondência entre a palavra (escrita ou falada, que são diferentes) e o que quer que seja de real que pretende meramente simbolizar. Prosseguindo, o problema da ambiguidade e da redundância na língua é importante, porque permite compreender os mecanismos (diria mais malabarismos) aos quais os artistas recorrem para fabricar uma maior abrangência emocional. A ambiguidade permite que diferentes pessoas façam diferentes interpretações de algo que é apresentado como sendo emocionalmente importante e atribuir uma certa universalidade à obra, pelo que também é comum ouvir de artistas que se sentem satisfeitos quando a sua obra provoca uma grande diversidade de reações emocionais. A redundância permite que se trate das mesmas coisas de uma muito grande diversidade de maneiras, transmitindo a impressão de que se está a inovar a forma de olhar para uma determinada coisa, quando se está simplesmente a referir a ela, e possivelmente aos mesmos aspetos dessa coisa, mas de maneira diferente. Mais uma vez, o foco na forma e não no conteúdo. É também por isso que há autores que, principalmente numa fase mais tardia da vida, quando já esgotaram todos os temas que podem abordar nas suas obras - e que geralmente são muito limitados, daí que aquilo que se considera como sendo obras de autor (cinema de autor, por exemplo) sejam tão repetitivas nos temas tratados e simplesmente sofram modificações, muitas vezes ligeiras, em termos de forma – se dediquem a meras elaborações de forma, como o António Lobo Antunes, em obras mais tardias, cujos temas já estão mais do que rotos, mas pretende, de certa forma, fazer ensaios com a linguagem escrita para testar a sua versatilidade linguística e a capacidade de inventar novas formas de falar das mesmas coisas. Aliás, dando continuidade ao aparte que fiz, as obras de autor são extremamente limitadas em termos de temáticas, porque algo que resulta da exploração das emoções pessoais apenas pode estabelecer associações com o muito limitado rol de situações que estiveram na génese e no reforço da construção pessoal dessas mesmas emoções, de maneira que a recorrência de determinadas emoções associadas por via da memória a situações semelhantes impede que se diversifiquem os temas para além de um determinado ponto.

 

Um fenómeno cerebral importante é a forma como o cérebro processa a memória e, neste caso particular, como é possível que, de cada vez que alguém traz algo à memória, a possa reescrever. Deixo aqui um link sobre o assunto. Isto é importante na análise da mentalidade artística, porque pode acontecer, e parece-me algo frequente, que os artistas carreguem em si memórias associadas a determinadas emoções ou memórias de emoções associadas a determinadas pessoas ou acontecimentos e, por identificação com o que é representado na obra de outros autores, e que interpretam como correspondendo às memórias que guardam, aproveitarem tal informação para as reescreverem. Ilustrando a situação, guardam memórias de acontecimentos mais ou menos traumáticos para os quais ainda não arranjaram uma explicação - ou seja não arranjaram ainda maneira de os racionalizar e, portanto, tornar em algo que seja coerente para eles, de acordo com o que conhecem – e, ao terem contacto com uma obra artística que aborda, ou consideram que aborda, uma situação semelhante, e perante uma interpretação do que é exposto sob a forma de explicação para tal situação que lhes soa bem, ou que permite racionalizar o que lhes aconteceu, adotarem essa explicação e, por via da repetição da associação entre tal explicação e o acontecimento de cada vez que, subsequentemente, o recordam, a partir de uma certa altura já nem sequer se lembrarem do que aconteceu na realidade ou da forma como pensavam acerca do acontecimento. Portanto, estamos a falar de uma imensa capacidade, não só para reconstruir, e portanto manipular, o mundo à sua volta através do trabalho artístico da informação que recebem dele, não só também de uma grande capacidade em convencer os outros de que têm acesso a algo de si próprios e deles que normalmente lhes é inacessível mas ao qual conseguem chegar por via do desenvolvimento de determinadas capacidades emocionais fictícias, mas também para reescrever completamente a própria história pessoal e, consequentemente, transformar a sua pessoa e identidade, por via do mecanismo de reescrita da memória. Aproveito também para chamar a atenção para o facto de que aquilo que soa bem e que as pessoas tendem mais facilmente a aceitar como explicação para acontecimentos, situações e experiências na sua vida que ainda não tiveram oportunidade de racionalizar, corresponde normalmente ao que desresponsabiliza as pessoas de algo que lhes aconteceu de mal e atribui demasiada responsabilidade ao que lhes acontece de bom. Pode também acontecer o contrário, e isso é evidente em determinados artistas, que se responsabilizam demais por tudo o que lhes acontece de mal e subvalorizam a sua participação no que lhes acontece de bom. No entanto, ambas as situações resultam de um enviesamento na leitura da informação proveniente das experiências, sendo portanto igualmente nocivas, e a primeira continua a ser mais prevalecente. E, por o ser, é que também é comum entre os artistas encontrar aqueles que relatam a forma como reagem perante determinados estímulos como se fosse algo que fizesse parte da sua identidade, da sua “essência” enquanto pessoa e, portanto, imodificável, fazendo uso de tal crença para se desresponsabilizarem completamente do trabalho necessário (que há quem acredite que se deve operar essencialmente a nível mental, mas que eu considero que deva ser feito através da exposição da pessoa a informações relevantes acerca do seu caso e da situação no geral) para a modificação do seu comportamento.

 

Assim, é possível, através de todos estes subterfúgios e mecanismos (malabarismos mentais), convencer-se a si próprio e aos outros de que, por força do trabalho da forma das emoções, se adquiriu uma maior densidade emocional e uma maior capacidade de penetração no mundo emocional dos outros. Isso e o facto de centrarem toda a sua vida no trabalho fictício das suas emoções e, portanto, estarem mais habituados a pensar sobre elas, parecer que sentem mais do que os outros. Quem é que pode saber isso? Até ao momento não temos instrumentos suficientemente precisos, nem sequer conhecimento suficientemente desenvolvido, para determinar tal coisa. É impossível saber se existem pessoas que sentem mais do que outras ou a intensidade das suas emoções ou sentimentos. Está-se completamente dependente do relato do próprio. E, como eu mostrei, da forma mais exaustiva que me foi possível, é possível manipular toda essa informação por via do condicionamento.

 

Ricardo Lopes

Próximas partes:

2 - Efeitos comportamentais, em termos de pensamento e ação

3 - O contributo da arte em formas de cultura abstrata

4 - Considerações finais

 

 
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Carta ao presidente François Hollande sobre o conflito sírio - ANEXOS, por Pierre Le Corf

 

 

Carta ao presidente François Hollande

 

Pierre Le Corf  SOCIEDADE POLÍTICA 

 

Eis alguns dos testemunhos destes últimos meses que publiquei nas redes sociais, para ilustrar esta carta e para que possam compreender o que se passa, para que criem a vossa própria opinião. Insisto, eu não estou aqui para vos dizer aquilo em que devem acreditar ou como devem pensar, apenas vos peço, caso vos interesse, que leiam aquilo que escrevi. Se os media vos contam o que se passa aqui a partir dos seus escritórios em Paris, deixai-me então também partilhar o que se passa aqui, a partir de aqui. O movimento civil de 2011 já não tem nada a ver com o que sepassa aqui, não há libertação de coisa nenhuma, apenas conquista.

 

Poderia vos fornecer inumeráveis testemunhos de media russos aqui presentes, testemunhos terríveis, mas é evidente que muitos utilizariam essa possível partilha para destruir a minha mensagem e as daqueles que aqui vivem, qualificando as suas histórias de “propaganda”.

 

Esta guerra é uma guerra, não guerras boas, nada é a preto e branco, muitos morreram vítimas de bombas largadas de avião, é verdade, mas peço-vos encarecidamente que tentem se distanciar da versão que vos foi vendida, Para que possam compreender porquê, como e, sobretudo, quem. Esta guerra deverá servir de lição a todos nós que a apoiámos de forma cega, na medida em que confiámos em demasiada, apesar da nossa desconfiança.

 

  • Testemunhos dos meus alunos - Vídeos da aula do 9º ano e gl/w6KePY 11ºano goo.gl/W2ImRJ
  • Crianças de Alepo Leste (snipers, grupos terroristas, comida) Vídeo gl/izc6St
  • Família cristã arménia refugiada (Midane) Vídeo gl/NoG49N
  • Criança de Alepo Leste, sobre snipers (Jabreen) Vídeo gl/t8NKJ2
  • Crianças após um ataque “quero morrer” (Khaldie) Vídeo gl/2Nz1Gl
  • Mensagens de jovens escuteiros (Maristes) Vídeo gl/DgDfuJ
  • Mahmoud, muito jovem, amputado (mina terrorista) gl/nTTDb9
  • Jovem estudante, os seus sonhos e a guerra gl/PcSuYK
  • Jovem mulher, sua irmã morta na rua gl/5HGFKI
  • Mulher deslocada 8 vezes devido aos avanços terroristas gl/4lqf9b
  • Família de refugiados internos, crianças com deficiência (1070) gl/FB57qB
  • Família de refugiados internos (Myasar) gl/Rq3Lht
  • Família de refugiados internos (Ashrafié) gl/zmwavk
  • Família de refugiados internos (Muhafaza) gl/Wkfh6l
  • Família de refugiados internos (Halab Ajdide) gl/2V7AAI - goo.gl/yMOtID
  • Freira do hospital francês gl/vlQX1a
  • Família de refugiados internos (1070) gl/643kXm
  • Família de refugiados internos (Banizeid) gl/BgVC2y
  • Família de refugiados internos (Sekaye) gl/D55YZD
  • Criança refugiada interna (Sheikhtaha) gl/LtcLY8
  • Crianças refugiadas internas (Old city) gl/XBiV6A
  • Família de refugiados internos (Midane) gl/lMeMRR
  • Família de refugiados internos (Salahadin) gl/Hjy9Ti
  • Criança várias vezes deslocada gl/8aGkbp
  • Família de refugiados internos (parque de Khaldie) gl/8UOJH7
  • Tawfik, criança de rua (Souleymanieh) gl/72MWu6
  • Criança deslocada (Midane) gl/DAWjVg
  • Crianças mostrando os impactos de balas de snipers nos seus corpos gl/jK7qFg
  • Família cristã deslocada interna (Midane) gl/AaRwRE
  • Discurso de crianças de Damascos gl/r1l5JS

 

Várias publicações que demonstram a realidade aqui vivida, numa tentativa minha de testemunho para abrir uma janela sobre Alepo em guerra.

 

  • O Quotidien avec Yann Barthès, entrevista com Ismael Al Abdullah, falso civil, para contar o que se passa em Alepo gl/qKC63I mensagem goo.gl/b7Kt5W
  • As bandeiras pretas de Alepo gl/Olo5Ju -- goo.gl/VvhIC2 -- goo.gl/u6DqG8 --
  • O falso “Presidente da Câmara” de Alepo (nota: em Alepo, não há Presidente da Câmara mas sim Governador) gl/tChKTL
  • Porquê vos foi escondida a VIDA em Alepo gl/za8UCx
  • Apanhado no meio de ataques, os mortos gl/qulAQb
  • Zonas de habitação para refugiados gl/8LJ21a
  • Por que nos condena o mundo? gl/H6iw4e
  • Caros jovens, o mundo inteito não sabe que vocês existem gl/hMDweu
  • Retorno às habitações destruídas (Ramouseh) gl/fyyuck
  • Após algumas semanas em Alepo gl/h1YO4J
  • Por que razão estar em Alepo gl/sG24fv
  • As crianças não desenham a guerra gl/RALVyy
  • Um olhar sobre Maaloula gl/uI0gE0
  • Alepo, o antes e o depois gl/WHhKWR
  • Os invencíveis de Alepo gl/IXK5yp
  • A guerra que não avisa, roquetes aqui e ali gl/Y9N4XF
  • Na igreja as pessoas davam as mãos gl/BQuJRo
  • Não há guerra maniqueista, a morte atacava aqui e lá, o medo partilho gl/56w4OP
  • A menina que enfrentava os snipers gl/7htclN
  • Visitar as famílias na linha de frente gl/yieZGx
  • Os Russos desminam, tudo foi armadilhado gl/Ykp6o1
  • Os terroristas descolados de Alepo com as suas próprias armas ligeiras gl/zINoNc
  • Fotos da entrada da zona histórica de Alepo libertada gl/Vyngkc
  • Aparte, os animais na guerra gl/6PbJnF
  • Roquetes feitos com botijas de gás gl/jPoL1A
  • Civis escapando por meios alternativos aos corredores (snipers terroristas) gl/KeDZVL
  • Cartas de crianças sobre a vida e a guerra gl/lkUs9x
  • O derradeiro símbolo que demonstra que vida é o que há de mais forte em Alepo gl/1SZOXi
  • Água em Alepo gl/WH3Yl6
  • As balas explosivas em lugares públicos gl/TBv87c
  • O que faz mais falta? As suas casas gl/cTvdu2
  • A Síria, rico pela vida em conjunto gl/gBxCM9
  • Publicarei mais, pouco a pouco, em função do tempo e da energia.

 

Publiquei pouco conteúdo chocante para, ao contrário dos media, me concentrar na vida, e também porque na maior parte dos casos era difícil de fotografar, por uma razão respeito. Mas a morte esta presente, quotidianamente.

 

  • Ataques sobre Khaldié, família morta – atenção, conteúdo chocante gl/m4zO7Y
  • Ataques no centro da cidade, parque – atenção, conteúdo chocante gl/cbdFSU
  • Ataques, últimas semanas – atenção, conteúdo chocante gl/Ystg2f
  • Ataques contínuos, 2 escolas – atenção, conteúdo chocante gl/qkAeY2
  • Uma bala na cabeça – atenção, conteúdo chocante gl/aI6aXf
  • Acordar e encontrar sangue – atenção, chocante gl/XPtOzF

 

Escrever para transmitir mas também para desabafar.

 

 

Por vezes em vídeo, já não conseguia me exprimir sobre a guerra; as implicaç+ssonseguia me exprimir sobre a guerra, as implicaçs tiva minha deficando as suas hist quetes onamento as suas instituiç outrasões para mim próprio.

 

  • O meu primero testemunho em Alepo, numa escola gl/X4yfOW
  • O meu segundo testemunho em Alepo, durante os combates gl/Ya0Jo9
  • O meu testemunho em vídeo sobre a sitiação antes da libertação gl/yIlByS

 

Outros - A ver: Os 9 primeiros dias de guerra em Alepo,  por Issa Touma goo.gl/lhhp6O

 

Pierre Le Corf

(Traduzido por Luís Garcia)

(versão original em francês aqui)

 
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Rui Costa

Rui Costa, Portugal

 

Artigos:
 

Os "WhatAreyous"

 

 

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Carta ao presidente François Hollande sobre o conflito sírio - parte 2, por Pierre Le Corf

 
 

 

Carta ao presidente François Hollande

 

Pierre Le Corf  SOCIEDADE POLÍTICA 

 

 

De acordo com os testemunhos, a maioria das suas equipas prestavam socorro, para começar, aos combatentes e depois, eventualmente, aos civis. Tendo cada equipa como particularidade o facto de ter um cameraman, e de prestarem auxílio a estes últimos enquanto a câmara filmava. Muitos civis me disseram que numerosas pessoas foram abandonadas sob os escombros sem qualquer ajuda, uma vez que eles se recusavam a dá-la. Outros afirmaram que eles encenavam ataques, falsos bombardeamentos com falsos feridos e falsas intervenções. O nosso governo financia igualmente associações como “Syria Charity”, ostentando uma bandeira com 3 estrelas, a qual se chamava inicialmente “liga por uma Síria livre”, designação que figura, hoje em dia, nos relatórios. Ainda que prestando ajuda humanitária, uma associação que ultrapassou a linha vermelha ao participar numa guerra de opinião para justificar a inversão do governo na ocultação da realidade no terreno, a sua proximidade de grupos armados (a sua presença, também, cuidadosamente apagada de todos os vídeos) e prestando auxílio médico constante aos jihadistas.

 

Numerosas associações e organizações humanitárias francesas e internacionais em zonas “rebeldes” fizeram mais mal do que bem, ao instrumentalizar o sofrimento da população para manipular a opinião em nome de uma causa e de doações falsas. Elas também mantiveram a população civil refém, permitindo que esta guerra continuasse, legitimando-a de maneira desonesta, permitindo que os combatentes perdurassem, e que a morte ocupasse o quotidiano.

 

Nos dispusemos, de resto, a bandeira síria de três estrelas no Eliseu, ao tempo de receber o (falso) prefeito de Alepo com honrarias, um homem que nunca foi eleito pelo povo sírio, que não vem de Alepo, mas reconhecido e eleito pelos líderes dos grupos jihadistas, assim como por alguns membros de partidos e estrangeiros. Esta bandeira não mais simboliza a liberdade na Síria, aqui é um símbolo de morte quotidiana, doravante associada à ASL, um conglomerado de grupos terroristas próximo da al-Qaeda que apenas advoga a democracia para os media e que nos apoiam. Não devemos, sobretudo, confundir com o movimento civil de 2011 e aqueles que dele se serviram, aqui e por todo o mundo, para criar esta guerra.

 

Sim, muita gente morreu. Nenhuma guerra é justa, eu não tenho o papel de negar ou defender a violência extrema dos bombardeamentos do este de Alepo, que no lugar de permitirem a sua queda, permitem a sua libertação. É uma realidade.

 

Uma outra realidade é que, colocando de parte as crianças feridas, as bombas e os gritos, nós eliminámos a presença de grupos armados mas, sobretudo, eliminámos os civis, a vida. Privámo-los de voz, deixando as pessoas compreender a situação a partir das suas próprias emoções, face a uma situação continuamente ilustrada de maneira catastrófica, utilizando frequentemente as crianças. Como recolocar em questão o que se passa aqui, quaisquer que sejam os argumentos e provas propostas quando vos apresentamos uma situação na qual vos fazemos acreditar que toda a Síria está a ferro e fogo, de maneira unilateral por culpa do seu governo? Que tudo o que se passa aqui e que não corresponde a esta imagem da propaganda? Que a prioridade é de impor zonas “no-fly”; as quais, graças a Deus, nunca se concretizaram. Sim, elas teriam alimentado o conflito, aumentado o número de mortos, e teriam permitido aos grupos armados tomar Alepo, ao invés de a libertarem da guerra e da morte. As pessoas que escaparam do este experimentaram o inferno mas a maioria viveu a chegada aqui como uma libertação, não uma deportação, dado que a maior parte retornou agora à sua casa. Ninguém assinalou que 85%  dos civis vieram refugiar-se livremente do lado oeste de Alepo, lado governamental, visto que os autocarros foram tomados pelo Idlib, transportando combatentes e civis voluntários.

 

A “legitimidade” atribuída a estes grupos e à sua causa pelos media e o auxílio externo permitiram-lhes avanços críticos ao redor da cidade, forçando centenas de milhares de pessoas ao abandono das suas casas. Lembro-me que, ao longo de semanas, dormimos vestidos, as mochilas preparadas ao lado da cama, os terroristas e os combates eram de tal forma próximos que, por vezes, as balas atravessavam as ruas e que, quanto mais eles avançavam as suas posições, mais eu os conseguia ouvir berrar “Allah Akbar” antes e depois do disparo de cada morteiro sobre a cidade.

 

Quaisquer que sejam os países onde foram utilizados os vídeos e os conteúdos pelos combatentes e partidaristas, por vezes completamente orquestrados, eles foram difundidos em horário nobre através dos media, instrumentalizando a mote e o sofrimento das pessoas que viviam no meio dos combates, o amor e a compaixão daqueles que observavam as imagens. Como estes grupos armados fanáticos, nós vendemos um tal medo que ninguém se apercebeu que estes conteúdos tinham todos uma finalidade e tinham sido criados em consequência disso, sem alguma vez dar voz às preocupações dos civis, senão à dos partidaristas ou terroristas (eu preciso que os civis não podiam facilmente entregar-se à dor, então uma câmara e sobretudo uma conexão 3G à internet eram inatingíveis, custando o equivalente a 5 quilos de carne). A fim de ter o número de combatentes para destruir o governo, completámos o nosso impacto sobre o conflito, ao jogar com os sentimentos para influenciar a opinião pública e o seu consentimento tácito neste conflito.

 

Do lado oeste, documentar em tempos real a situação nunca foi tarefa para qualquer um, uma vez que era demasiado perigoso, e para além disso as informações não saíam da Síria. Fazer um “live Facebook” ou publicar uma reportagem mostrando os lugares dos ataques permitia-lhes precisar, reajustar os disparos e de visar as zonas densas. Num duplo discurso e na sua própria cadeia de televisão, aqui na Síria, “Free Syrian Army ***”, por um lado falavam de uma suposta libertação da população, e, por outro lado, apresentavam os ataques como punições, e a nós como “infiéis vivendo do lado de Bashar Al-Assad”. Este canal de televisão é acessível a qualquer pessoa aqui. Do lado da libertação, as reportagens dos russos e os testemunhos dos sírios sob ocupação terrorista foram imediatamente classificadas como propaganda, de maneira a descredibilizar tudo o que poderia emergir da própria Síria, daqueles que nela viviam ou que estavam no terreno.

 

Este ano que passou foi verdadeiramente o da desinformação.

Um combate pela “liberdade” do povo sírio. Nós utilizamos esta palavra para tudo sem jamais a ter argumentado ou justificado. Que liberdade? Que povo sírio? Destruir o governo, sufocar o país com sanções para lá levar o quê? O nosso bom savoir-faire democrático? Colocaram os franceses a questão de saber qual seria o programa do “após”? Não! A liberdade, ponto. Fácil. O programa político e social destes grupos terroristas está em oposição com a liberdade, a democracia, os nossos valores ou aqueles da maioria dos países do mundo. É em nome dos nossos interesses, não em nome da liberdade, que instrumentalizamos estes grupos que apelam à criação de um Estado Islâmico na Síria. Não se perguntem, então, o que eles contam oferecer ao povo sírio, perguntem-se antes o que eles lhe pretendem roubar e impor. Todos os civis com os quais me deparo no meu quotidiano recusam imaginar esta opinião por um só instante, aqueles que dela fugiram tentam esquecê-la.

 

Senhor Presidente, nós temos, como outros numerosos países, uma grande responsabilidade nesta guerra que tentámos conduzir ao seu termo, termo subentendido como a capitulação do governo sírio a todo o custo. Estes últimos anos, ao lado de muitos outros países, participámos na destruição da Síria, um país em grande parte francófono e no qual o povo adora a França, numerosos são aqueles que falam francês. Ainda que o seu governo seja imperfeito e quaisquer que sejam os seus erros, e os nossos ao cabo dos tempos, nós suportamos atualmente a instauração de uma ditadura, uma verdadeira ditadura num país onde uma verdadeira oposição existe, ao passo que grupos armados são apenas motivados pelo sectarismo, a frustração, o rancor e o ódio. Servirmo-nos de tais grupos para concretizar os objetivos geopolíticos ou económicos não tem nada de democrático, pelo contrário condenamos os sírios. Tendo percorrido o país, pude constatar que, não obstante certas críticas e o que quer que seja que dizem de tal, a vasta maioria dos sírios suporta honestamente e sinceramente o seu governo e suporta aquele que chama de presidente, e não de ditador, Bashar al-Assad.

 

Eu concebo esta mensagem como um dever. Eu sou um humanitarista e criei a minha própria organização não-governamental, não religiosa, que se autofinanciou até agora. Eu vivo numa zona de guerra, pago o preço de tal e passo pelos riscos necessários para ajudar modestamente os civis. Transmitir a realidade aqui mereceu-me ataques dos media mainstream e dos seus partidaristas que me tentam fazer ocultar, indo ao ponto de me designar como alvo. Eu estou ainda sob mais risco ao assumir a responsabilidade de escrever esta carta, cujo peso e responsabilidade eu medi para denunciar uma situação que observei todos os dias ao levar ainda mais longe a minha investigação. Não tenho nada a ganhar nem nenhum interesse pessoal, eu assumo os riscos desde há vários meses para combater o terrorismo através da transmissão da verdade, da realidade do que se vive entre os sírios daqui, do que eles testemunham, ao denunciar os grupos jihadistas e a manipulação mediática arrancando todos os dias vida das pessoas.

 

Exigimos ao povo sírio que, ao invés de desejar para o seu país que se fale em seu nome, de lhe roubar a voz, as liberdades, o seu presente, o seu futuro. É o povo sírio que deve decidir o seu futuro e não nós que devemos decidir por eles. É uma forma de ditadura ainda mais terrível que a nossa ilegítima ingerência até lá. A democracia começa por si própria, além da nossa responsabilidade no que diz respeito aos sírios, sendo tempo de consultar o povo francês acerca da sua vontade de implicação neste conflito, visto o perigo que tal representa para a segurança presente e futura.

 

Convoco a minha França, o país que eu amo e no qual cresci, a deixa de condenar a população e de encorajar grupos terroristas que já atingem as nossas famílias, as nossas crianças, os nossos cidadãos, quaisquer que sejam os interesses económicos e geopolíticos em jogo. Não podemos tomar partido, nem suportar, grupos armados que conduzem uma revolução para retornar à idade do obscurantismo.

 

Senhor Presidente, a quem de direito ou de coração, lanço um apelo à França, da qual partem os valores com que cresci e que me incitam a perseverar na minha ação quotidiana aqui, para levantar as sanções contra a Síria que penalizam antes toda a população e não o governo, para encontrar soluções diplomáticas alternativas a esta guerra em favor da paz, tanto pelo povo sírio como pelo povo francês que arrisca sofrer as consequências dos nossos envolvimentos em favor de grupos que semeiam o terror e cujas ambições são claramente internacionais.

 

Em vos desejando muita coragem, Senhor Presidente, assim como ao que lhe sucederá, vos peço que aceite a expressão dos meus melhores sentimentos.

 CONTINUA

Pierre Le Corf

(Traduzido por Ricardo Lopes)

(versão original em francês aqui)

 
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Pierre Le Corf

Pierre Le Corf

Pierre Le Corf, França

 

Artigos:
 

Carta ao presidente François Hollande sobre o conflito sírio - parte 1

Carta ao presidente François Hollande sobre o conflito sírio - parte 2

Carta ao presidente François Hollande sobre o conflito sírio - ANEXOS

 

 

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Carta ao presidente François Hollande sobre o conflito sírio - parte 1, por Pierre Le Corf

 
 

 

Carta ao presidente François Hollande

 

Pierre Le Corf  SOCIEDADE POLÍTICA 

 

NOTA: Artigo publicado com a autorização de Pierre Le Corf. O primeiro de muitos, esperamos!

 

Pierre Le Corf  Trabalhador humanitário francês  residente em Alepo, Síria.

Associação We are superheroes

 

Carta também entregue pessoalmente ao presidente.

Sr. Presidente da República francesa François Hollande

Cópia para os candidatos à eleição presidencial.

 

Sr. Presidente,

 

Hoje ponho em questão os valores com os quais eu cresci, os valores de um país que eu amo, o meu país, a França. Dirijo-me a si enquanto cidadão francês que chegou à cerca de um ano em território sírio, sem ideias preconcebidas,  na qualidade de humanitário politicamente neutro, vivendo em Alepo Ocidental, agora de novo chamada Alepo. Não é algo fácil de realizar, não só porque eu sou o único francês habitando aqui, o que me coloca na linha de fogo com o meu testemunho em contra-corrente, como também pela dificuldade em testemunhar o que aqui vivemos, horrores por vezes impossíveis de descrever. Sou testemunha de um massacre e de uma situação humanitária catastrófica cujos actores e patrocinadores, por apoiar o terrorismo, somos nós próprios. Dedico esta mensagem a vós e a todas as pessoas susceptíveis de tomar decisões que façam da paz e dos civis as suas prioridades.

 

Todos os dias tive de confrontar-me com a morte, como todos nesta cidade,  e, a missão de que me encarreguei a mim próprio, levou-me a visitar famílias que viviam lado a lado com aqueles que descrevemos como "oposição" desde o início do conflito. Pessoalmente, em todas as linhas da frente, mais não vi que bandeiras negras, com os símbolos identificativos dos grupos que combatemos há anos em França, e tenho fotografias para o comprovar.

 

Hoje em dia a população está unida, não para lutar contra o governo, mas sim para combater os grupos terroristas, independentemente dos títulos que pudermos lhes atribuir para "moderar" as suas acções e a sua razão de existir. Estes grupos terroristas autodenominam-se por al-Jaich al-Hour (Exército de Libertação Sírio ou ELS), Jabhat al-Nusra (também chamado Fatah al-Sham, um ramo da al-Qaeda), Jaich al-Islam, Harakat Nour al-Din al-Zenki, Brigada Sultan Mourad, etc. É verdade que existe oposição anti-governamental como é o caso para qualquer outro governo, uma oposição mais ou menos pacífica, mas esta é deveras minoritária. Desde o início até hoje, a quase totalidade das forças envolvidas, e que continuam combatendo em Alepo, são os combatentes armados pertencentes a grupos terroristas dispostos a fazer de tudo.

 

Eu utilizo o termo “terrorista” porque não existem rebeldes em Alepo nem nada  que permita os considerar enquanto tal. É irresponsável continuar a jogar comas palavras e a optar por os denominar de “rebeldes” na Síria, enquanto que em França catalogamo-los na lista de organizações terroristas. Os combatentes foram evacuados na posse das suas armas pessoais, por acordo com o governo, e partiram “todos” rumo a Idlib, a qual é quase exclusivamente controlada por vários grupos armados e suas famílias. Lamentavelmente, muitos deles voltaram aos arredores de Alepo e reiniciaram os ataques suicidas e os bombardeamentos sobre civis, tal como fazem no resto da Síria.

 

Tudo aquilo que afirmo, estou em condições de o provar. Todos os dias me ocupo, desde há meses, e em função do que a guerra me permite, a recolher testemunhos filmados ou escritos de civis, independentemente da sua religião ou opinião política, e sem a presença de militares ou membros do governo. São testemunhos que publico, e que por vezes envio a uma comissão de investigação da ONU encarregada de analisar os crimes da “oposição”, num esforço de tentar metê-la em contacto com as testemunhas.

 

Houve uma focalização da opinião pública sobre os bombardeamentos de zonas minoritariamente oponentes e maioritariamente terroristas, nas quais todos os dias morriam civis, sem nunca se informar que a maioria dos civies de Alepo Leste não podiam sair por culpa dos combatentes. Foi por tentarem sair pelos corredores humanitários recentemente organizados pelos russos e pelos sírios (corredores esses indicados com 1 a 2 dias de avanço, com as horas de abertura, através do envio de SMS a todos os proprietários de telemóveis com uma conta nas redes  sírias MTN ou SYRIATEL, como é o meu caso) que inúmeros civis foram abatidos, numa tentativa de fuga interdita pelos grupos armados. Felizmente, milhares de civis conseguiram escapar usando caminhos alternativos, parte deste em zonas minadas.

 

Raros foram os media que informaram que os civis eram usados como escudos humanos, facto este confirmado pelos testemunhos. Optaram quase sempre por descrevê-los como vítimas do fogo cruzado entre combatentes revolucionários e governo, governo este que defendia o seu povo contra os terroristas cuja maioria são mercenários estrangeiros que entraram na Síria fortemente armados, fanáticos para os quais a vida humana pouco ou nada vale. Tomando por exemplo Alepo, estes vieram invadir a cidade e as suas zonas periféricas, bombardeando diariamente a população da zona oeste, e outorgando a si próprios o direito de assassinar civis da zona leste pela mais ínfima razão.

 

Os grupos terroristas presentes no terreno nunca mostraram a sua suposta “moderação” face à população. Constatei como os meus próprios olhos que os terroristas possuem armas e munições de vários países, muitas destas de fabrico francês, norte-americano,  inglês, saudita, etc., armas, estas utilizadas diariamente contra aspopulações civis da cidade, quer por grupos reconhecidamente terroristas, que por grupos agrupados sob a bandeira do suposto Exército de Libertação Sírio, na sua maioria constituídos por terroristas que nós tentamos fazer passar por combatentes pela liberdade.

 

Estes atiravam sobre a zona oeste a partir de  zonas mais densamente povoadas de leste, por vezes até de hospitais, de forma a limitar os tiros de resposta. Tal não impediu contudo que houvessem combates entre os grupos armados e as Forças Armadas Sírias. Eu tenho testemunhos que recolhi de civis de leste que sobreviveram a estes combates, dos quais eu me ocupo, assim como outras organizações internacionais aqui presentes o fazem. Alepo Leste contava com 120.000 pessoas encurraladas entre os combates (das quais 15.000 a 20.000 eram combatentes), incluindo em grande parte inúmeras famílias que haviam recusado abandonar as suas casas por medo que estas fossem ocupadas, destruídas ou pilhadas. Na Síria poucos são os que vivem em casas arrendadas. Leva muito tempo a uma pessoa tornar-se dona da sua casa, mas é uma questão cultural, visto que a casa é o símbolo da família. O ponto essencial é que ocultámos uma realidade, a realidade de 1.300.000 de sírios de todas as confissões vivendo na parte ocidental e que tentavam, apesar da morte omnipresente, de manter em funcionamento as suas instituições e enviar os seus filhos à escola e à universidade. Nós, por razões políticas, apagámos a sua existência, devido ao facto destes viverem numa zona controlada pelo governo sírio. Ao fazê-lo, ocultámos um número de pessoas 10 vezes maior que o de Alepo Leste, e, nos 2 casos, fizemo-lo em nome de uma minoria que luta apenas pelos seus próprios interesses.

 

Não houve um único dia em que não tenhamos sido vítimas de tiros de snipers ou de ataques com morteiros, balas explosivas, roquetes de verdade, botijas de gás ou aquecedores de água transformados em roquetes, etc., sobre ruas, casas, hospitais e escolas. Não houve um único dia em que não tenham morrido dezenas de pessoas, ou que feridos não fossem evacuados em estado crítico para hospitais sobrepovoados devido aos contínuos ataques, isto numa cidade onde não estavam presentes militares, com a excepção de alguns checkpoints; o exército e as milícias as linhas de frente. Todos os dias, adultos, crianças, famílias foram mutiladas por todo o tipo de projécteis. Se me exprimo enquanto sírio, é por ter sido quotidianamente confrontado com esta guerra. Tenho a sorte de ainda estar vivo pois Alepo era um verdadeiro campo de batalha, os roquetes chegam sem avisar. Sendo assistente de primeiros socorros, tentei salvar vidas, por vezes sem sucesso, as vítimas apareciam com pernas, braços e outras parte do corpo arrancadas, queimadas ou até derretidas... Não tenham palavras para descrever o que estas pessoas sofreram aqui, é demasiado difícil de partilhá-lo, vi demasiada gente morrer, e a cada dia perguntávamo-nos se iríamos nós mesmos sobreviver.

 

Encontrei-me inúmeras vezes com civis realojados pelo interior do país. Os seus testemunhos são unânimes. Em Alepo Leste reinava a lei da xaria reinava através dos “tribunais islâmicos” sumários constituídos por combatentes e Xeiques que, pelo decreto de fátuas (decretos religiosos), aplicavam a prisão, a tortura, o casamento de crianças e a execução de quem bem entendessem. Depois da libertação de Alepo Leste descobriu-se tambémque os terroristas dispunham de uma enorme quantidade de comida armazenada. Eu vi montes de kits de ajuda humanitária suficientes para resistira um ano de cerco. As famílias testemunham sobre a impossibilidade de usufruírem destes bens e sobre a fome vivida devido também ao cerco imposto pelo exército, mas sobretudo devido ao monopólio dos preços ou trocas proibitivas praticados pelos grupos armadas e que iam até 50 vezes o preço normal. Aqueles que aceitavam lutar junto aos grupos armados eram beneficiados. No entanto, tal como me contaram recentemente alguns dos seus simpatizantes que ficaram em Alepo Leste: “Nós não gostamos deste governo mas, se alguém critica os combatentes do ELS ou de outros grupos, eles matam-nos. Onde está a liberdade?”.

 

Infra-estruturas, hospitais, escolas eram parcialmente utilizadas por estes grupos como quartéis generais que serviam também de prisões e de armazéns de armas. Numa dessas escolas pude constatar que fabricavam armas químicas usando produtos importados de diferentes países. E, neste último mês, na sequência dos combates mais violentos, assisti à chegada de feridos cuja pele ardia, literalmente, devido ao cloro. A Leste, os hospitais tratavam sobretudo os combatentes e suas famílias, ou aqueles que pudessem pagar. Também aí, depois da libertação, vi com os meus próprios olhos toneladas de medicamentos e hospitais que permaneciam ainda assim em funções, apesar da destruição parcial, os mesmos hospitais que por diversas vezes haviam sido anunciados “completamente destruídos”.

 

Os Capacetes Brancos (White Helmets), financiados pelo governo francês e outros governos, e que nós recebemos no Eliseu, em grande parte, prestam ajuda humanitária de dia, e de noite são terroristas, e vice-versa. Estes estão intimamente ligados à Jabhat al-Nusra (al-Qaeda), como provam os documentos encontrados após a sua partida e como testemunham os habitantes.

 

 CONTINUA

Pierre Le Corf

(Traduzido por Luís Garcia)

(versão original em francês aqui)

 
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(In)Capazes de perceber o que é importante para o feminismo, por Ricardo Lopes

 

 

Incapazes

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE POLÍTICA

 

 

Alguém conhece as Capazes? Eu, infelizmente, conheço. Ou melhor, felizmente conheço. É importante conhecer as pessoas que compõem o movimento feminista com maior visibilidade num país, neste caso, Portugal. É importante, porque essas pessoas serão as responsáveis pela comunicação do feminismo e daquilo que consideram importante nele, na sua versão de “feminismo”.

 

Mas, quem são realmente as Capazes? Segundo o próprio site, “Capazes é uma Associação Feminista que tem como objectivo promover a informação e a sensibilização da sociedade civil para a igualdade de género, defesa dos direitos das mulheres e empoderamento das mesmas, definindo-se assim como entidade promotora de uma ocupação igualitária das mulheres no espaço público.”; “Assumindo-se como feminista, a Associação englobará nos seus objetivos a luta contra a discriminação de mulheres, população lésbica, gay, bissexual, intersexo e transgénero na promoção da cidadania, dos direitos humanos e da igualdade de género.”; “A par da Associação , a plataforma on -line pretende ser um  espaço nobre da afirmação da mulher e de discussão dos feminismos, reflexão da condição feminina a nível global(…)”; “Capazes pretende ser o contributo português para esta causa global – o feminismo – afirmando a mulher portuguesa no mundo, dando-lhe poder, incentivando o debate, a reflexão e a discussão e ao mesmo tempo inaugurando uma enorme e luminosa sala de exposições do talento com o holofote apontado para as mulheres.”.

 

Nas atividades a desenvolver, pode ainda ler-se, “Fomentar e patrocinar a realização de investigação e estudos sobre o papel da mulher na sociedade, com o objetivo de combater as desigualdades identificadas, contribuindo assim para que esta possa assumir e exercer de forma plena e justa os seus direitos(…)”.

 

Portanto, meus amigos, a agenda sociopolítica das Capazes baseia-se, mais uma vez, e para não destoar com a modinha pós-moderna, na promoção de uma luta e uma política identitárias e exclusivas. Apenas permite a identificação das mulheres. E, claro, como soaria mal não os incluir, já que é preceito obrigatório nos movimentos atuais que se querem apresentar como plurais, movimentos do tipo arco-íris, os LGBT, e os I vá, também, que também lá referem os intersexo. Entretanto, alguém se esqueceu de as avisar que já estão a perder na luta intergrupal pelo status moral, porque a sigla já vai em LGBTQQIP2SAA:

 

Lesbian, Gay, Bisexual, Transgender,

Two Q’s to cover both bases (queer and questioning);

I for Intersex, people with two sets of genitalia or various chromosomal differences;

P for Pansexual, people who refuse to be pinned down on the Kinsey scale;

2S for Two-Spirit, a tradition in many First Nations that considers sexual minorities to have both male and female spirits;

A for Asexual, people who do not identify with any orientation; and

A for Allies, recognizing that the community thrives best with loving supporters, although they are not really part of the community itself.

 

Assim sendo, esqueceram-se dos queer, dos pansexuais, dos que têm dois espíritos (deve ser uma espécie de heteronímia), dos assexuais e…tan tan tan tan…dos aliados!, que é uma maneira hipócrita de darem a entender que defendem os direitos de toda a gente, mas, MAS!, desde que os apoiem. Ou seja, defendem os direitos de toda a gente que não se insere em qualquer um destes grupos, desde que os apoiem a eles. Aliás, na verdade, nem é bem isso, porque o que se pode ler é que “the community thrives best with loving supporters, although they are not really part of the community itself.”. Desta forma, percebe-se que eles nem sequer assumem qualquer tipo de compromisso para com as pessoas que, mesmo os apoiando, não fazem REALMENTE (atentar nesta palavra) parte da comunidade.

 

Portanto, estas lutinhas ridículas não passam de pessoas que se juntam, normalmente com interesse próprio - porque tem graça que não há pessoas que façam REALMENTE parte da comunidade que não se identifiquem com algum dos grupos sociais por cujos direitos se pretende lutar. Mulheres a defenderem mulheres, gays, lésbicas, transexuais e afins, a defenderem gays, lésbicas, transexuais e afins. – para decidir, entre elas, quais são os grupos de pessoas que verdadeiramente são vítimas do sistema ou da sociedade, quais é que não são, separá-los, chamar os primeiros de “minorias” e os segundos de “maioria”, e defender, seja por que via for, os primeiros, ao mesmo tempo que se ataca os segundos. Ora, políticas e lutas identitárias, como eu já expliquei no meu texto acerca daquilo que o Trump representa para os progressistas, dão merda. E, se não confiam em mim, podem ler o mesmo aqui. Aliás, por isso é que os ditos liberais e progressistas, parecendo mais abertos do que os conservadores e retrógrados, partilham com eles mecanismos mentais iguais, de entre os quais se destaca o facto de discriminarem contra aqueles que não pensam como eles. Portanto, lá se vai a tolerância para o galheiro.

 

Um dos principais mecanismos de difusão da cartilha (sim, é cartilha, e não informação relevante acerca do assunto, mas já lá iremos em mais pormenor) - e porque quem não gosta de aprender sobre o assunto, simplesmente recorrendo à informação que recebeu da cultura para a qual foi condicionado, e também porque assim é mais fácil de produzir conteúdo, aprecia bastante os discursos cheios de floreados, bem-sonantes, politicamente corretos e, principalmente, moralistas – é a crença na capacidade da empatia para mudar o mundo. Isto, mais uma vez, remete para o problema que afeta os progressistas, como referi acima, porque a empatia não serve, nem nunca servirá, para melhorar o mundo, nem que seja para um grupo exclusivo de pessoas, ou vários. Porquê? Porque a empatia é um sentimento que se dirige às pessoas que partilham semelhanças connosco, em termos de aparência ou maneira de pensar e ver o mundo (ideologia), apenas se dirige às pessoas com as quais somos capazes de estabelecer uma relação de identidade. Ora, é possível estabelecer uma relação de identidade com pessoas com quem não temos nada em comum, ou sequer com as pessoas em relação às quais divergimos em questões consideradas por nós importantes? Não. Por isso, se vamos basear a luta na empatia, então podemos mandar para o galheiro a tolerância, a pluralidade e a “inclusividade”. Mais uma vez, aquilo que eu digo soa-vos mal? Então, fiquem aqui com uma palestra do especialista no assunto. Demasiado longa? Então, tomem uma versão de 8 minutos. Não me interpretem mal, por favor. Eu não estou a tentar diminuir intelectualmente os leitores do Pensamentos Nómadas, mas sim dirigir sarcasmo às pessoas às quais me refiro.

 

Se os grupinhos exclusivos, incluindo o das Capazes, não conseguem perceber que fazer uma luta pelos direitos e interesses de grupos sociais exclusivos nunca resulta em nada de duradouro, pelo menos a longo prazo, uma vez que, na melhor das hipóteses, remeterá grupos opostos para a clandestinidade, até que se criem condições favoráveis a uma contrarrevolução e a estratificação social seja reposta, então não sei bem o que hei de dizer mais.

 

Agora, voltando especificamente ao caso do feminismo, e particularmente do feminismo que as Capazes promovem.

 

Para começar, quem são, realmente, as Capazes? Podem encontrar aqui as 125 cronistas e integrantes do movimento. Sim, eu contei-as, uma a uma. Logo aqui se pode ter uma visão panorâmica da coisa. Principalmente para um grupo (mais um, nada de novo), que defende a estupidez das quotas, chega a ser cómico verificar que não se encontra nas suas fileiras uma única mulher preta (sim, uso o termo, porque também há grupos de defesa dos direitos dos pretos, e tratam-nos como tal, não me venham com merdas), uma única mulher muçulmana, pelo menos daquelas que recorram a qualquer peça da indumentária típica, uma única mulher asiática. Enfim, poderíamos prosseguir na enumeração, mas o que interessa perceber é que a totalidade do movimento é composto por mulheres brancas, 90 e tal porcento (e só não digo 100% porque não posso asseverar a origem de umas poucas) portuguesas, e praticamente todas com aspeto de dondoca tia de Cascais (que, portanto, ou o são mesmo ou fazem parecer que são). Aliás, até em pequenos aspetos se verifica a extrema homogeneidade das Capazes. Apenas consegui contabilizar 12 com um corte de cabelo que se pode considerar curto (embora seja algo relativamente subjetivo, mas reporto-me ao padrão de beleza feminino) e, de entre essas, apenas uma com corte de cabelo normalmente não associado às mulheres, meio rapado.

 

Mais, a que temas é que as Capazes pretendem recorrer para sensibilizar as mulheres para a luta pelos seus direitos (porque já se viu que não lhes interessa sensibilizar mais ninguém, exceto talvez crianças, que aí já pareceria mal distinguir entre meninos e meninas como alvo. Tem de se jogar sempre com aquilo que soa bem e é socialmente aceite.)?

 

Convido-vos a divertirem-se a pesquisar palavras ou expressões chave na barra de pesquisa do site. Eu diverti-me alguns minutos nessa tarefa, e valeu a pena. O que recolhi? Pesquisei “chorar” e obtive 22 páginas de resultados. É importante fazer um aparte, para dizer que cada página apresenta 10 resultados. Depois, pesquisei “amor” e, pau!, 111 páginas de resultados. A seguir, “sozinha”, e 35 páginas de resultados.

 

Agora, e como me interessa conhecer a disposição das capazes para o moralismo, sob a forma da prescrição de comportamentos aos outros, pesquisei “ser mulher”, e obtive, cum raios que me partam!, 161 páginas de resultados! Atenção, as Capazes não só lutam pelos direitos das mulheres, como lutam principalmente pelo direito inalienável de as mulheres serem exatamente como elas dizem que uma mulher deve ser. Caso contrário, não gastariam tanto latim nestas prescrições, incluindo dizer às mulheres como devem fazer sexo.  

 

E, como não poderia deixar de ser, um bom site feminino, e não feminista como diz ser, tem de ter uma secção de “lifestyle”, porque não podes ser mulher sem partilhares hábitos e práticas com as ‘migas. E, começa logo bem, porque o primeiro tópico é “Moda”. Agora, será uma crítica à moda e a seguir tendências? Não, é, como sempre, a ditar tendências, ao ponto de fazerem todo um texto, não a desconstruir o facto de ditas feministas mesmo assim abraçarem os ditames da moda, mas sim a mostrar com as feministas se vestem. Depois, ainda no separador de “lifestyle”, temos tópicos como “Beleza”, “Alimentação” e “Saúde”. Porque, ‘migas, nós bem podemos ser feministas…perdão, femininas…mas não vamos para a luta sem estar no nosso melhor, a dar nos nossos queridos detox e bem de saudinha. Ai ‘migas, tenham lá paciência, mas há que ter estilo a pegar num cartaz, não nos viemos meter numa luta para ter ainda mais tempo de antena na praça pública e suprir a nossa necessidade de atenção desmesurada, para dar isso tudo a perder. Vá, fachabor de irem lá fazer os liftings da L’Óreal, arranjar as sobrancelhas e dar nas saladas do tio Goucha, que se faz tarde! Há um sítio onde irmos todas juntas pegar num cartaz para as câmaras, e depois temos mesa reservada no Hemingway.

 

Mas, se já achavam isto demasiado mau para fazer parte dos conteúdos de um site dito feminista…feminino, raios!...então deem uma olhada nos resultados que aparecem quando se pesquisa “publicidade”. Agora, sim, está o forrobodó instalado ao máximo. Desde publicidade camuflada como artigo/crónica, até publicidade camuflada como entrevista, até publicidade à descarada. E, claro, mais uma vez, temos de nos amar a nós próprias, ‘migas, mas precisamos dos produtos e das marcas certas para nos podermos amar, quem é que vai por aí fora desgovernada a amar-se sem Matinal e Corpos Danone para cuidarem do nosso corpinho escultural? (Quem é que vai por aí fora desgovernada a amar-se, sem ler os livros do Gustavo Santos?) Aliás, não é o próprio slogan da Corpos Danone, que apareceu mais do que uma vez em textos no site? Vamos lá, ‘migas, apoiar o movimento #PorqueMeAmo, com a nossa querida Jessica Athayde (quem melhor do que alguém que aparece na televisão?) a fazer publicidade sob a forma de entrevista, ou entrevista sob a forma de publicidade, ou a falar de si própria para promover os Corpos Danone, ou promover os Corpos Danone para falar de si própria.

 

Aliás, se pesquisarmos “entrevista”, rapidamente verificamos que apenas têm tempo de antena - talvez por serem as únicas pessoas que têm conhecimentos suficientes sobre o assunto na cabeça desta gente – mulheres famosas, padres (famosos) gays e homens famosos gays.

 

Perante isto, só me resta oficializar a saída à rua do circo das malucas, e que comece o espetáculo.  

 

Bem, voltemos às pesquisas.

 

Também pesquisei “homens”, porque, afinal de contas, algo que só tem a ver com mulheres (e LGBTIABJVSBDJBSK, vá) não deveria dar muita atenção aos homens. Mas, quem tal pensou, enganou-se, porque surgem logo 81 páginas de resultados, com artigos/crónicas ao longo dos quais as senhoras vão prescrevendo o comportamento masculino para com as mulheres, e dizer aos homens o que são e o que deveriam ser.

 

Agora, e para dar um exemplo do proselitismo que corre neste site, decidi dedicar-me a pesquisar nomes de políticos, para ver o nível de atenção que foi dado a promover uma clara agenda política contra Donald Trump e a favor de Hillary Clinton. “Trump” devolve 3 páginas de resultados, assim como “Hillary” e “Obama”.

 

Para quem ligou o cérebro para falar de política quando calhou estar em causa a disputa entre uma mulher e um homem, seria de esperar que também o fizesse, pelo menos com uma regularidade semelhante, para falar acerca de problemas provocados por outro dos seus adorados, Barack Obama. Assim, pesquisei “Síria”, e obtive apenas 2 páginas de resultados, e que mesmo assim são compostas, na sua maioria, por textos provenientes de pessoas externas ao site, e, ao que me parece, escolhidos a dedo para não incluírem dedos metidos em feridas. Vamos tentar outra vez. “Líbia”, ah!, um único resultado, e que pode simplesmente ter o nome do país lá pelo meio, sem dizer nada de relevante sobre o assunto. Mas, a esperança é a última a morrer, principalmente na cabeça de ideólogos que acham que mudam o mundo com discursos bonitos, floreados e palavras rebuscadas. “Iémene”, ah, só 3 textos!, e pelo menos dois deles moralistas! Vamos mas é lá buscar o vocabulário moralista para chamar nomes às pessoas que mantêm determinado tipo de costumes em países destruídos social e economicamente. Ainda por cima um deles a insistir na parvoíce de que as regras de indumentária estabelecidas para as mulheres em sociedades predominantemente islâmicas são menos libertárias do que aquelas que são determinadas para as mulheres do dito “mundo ocidental”. Minhas caras, tenham vergonha, e vão ler este livro, para ver se, finalmente, conseguem enfiar na porra da cabeça a compreensão de que o problema está na cultura de género e, neste caso específico, na imposição, sob a forma de padrão de beleza, exercida sobre as mulheres, de qualquer cultura. Principalmente, tenham vergonha porque usam o site para promover o padrão de beleza para a mulher do mundo ocidental, como já aqui mostrei. Tenham mesmo muita vergonha.

 

Enfim, pode-se continuar a pesquisar nomes de países destruídos e com povos chacinados pela administração Obama, na continuidade do trabalho começado pela administração Bush, que os resultados são os mesmos. Isto, até que eu decidi pesquisar “Palestina” que, entre os seus 4 resultados, devolveu um texto, com o qual ainda não tinha tido contacto, mas que é das coisas mais asquerosas e repugnantes, do ponto de vista humanitário, que alguma vez li. Um texto que transpira moralismo e ignorância por todos os poros. Um texto onde se podem ler pérolas como "Mais, a cultura cristã tem evoluído, repudiando, maioritariamente, a aplicação literal das regras do Antigo Testamento. A mesma evolução tem sido mais difícil na cultura islâmica." ou "Não me parece que os muçulmanos tenham de escolher entre a cultura islâmica (a parte que é compatível com os direitos humanos) e a tolerância. Contudo, terão de lutar ativamente pela tolerância e pela igualdade de género. Não podem ficar calados.". Ó minha cavalgadura, mas alguma vez a senhora se dedicou a estudar a sociedade dos países pilhados pelos americanos a partir da década de 70, antes das invasões? Alguma vez estudou a sociedade, por exemplo, do Iraque ou do Afeganistão, antes das intervenções bélicas e económicas americanas? Sabe, por acaso, que existe uma tendência, confirmada por via de estudos sociológicos, para as sociedades e as pessoas se manterem agarradas a valores retrógrados ou os reforçarem em situações de precariedade material? Sabe que, para provocar golpes de estados nos países em que intervieram, os americanos alinharam com forças políticas e sociais que tinham sido depostas anteriormente, e que, essas sim, eram conservadores e trouxeram de volta todos esses valores que tinham sido remetidos à clandestinidade? Não, não sabe. Não sabe, e também prefere utilizar frases bem-sonantes para branquear as atividades dos cristãos, que incluem católicos e protestantes. Está-se a borrifar para a participação de autoridades provenientes de países maioritariamente cristãos em campanhas de esterilização forçada em zonas rurais da Índia que, só por acaso, é país maioritariamente hindu, aquela religião muito bonita e adorada por frequentadores de resorts, a religião da “paz” que promoveu a divisão da sociedade em castas, que continuam a funcionar nos dias atuais, embora, oficialmente, tal sistema tenha acabado há mais de 50 anos atrás, e que portanto o alvo de tais campanhas são as mulheres de castas inferiores, e baseando-se no mito de que o planeta está sobrepovoado de humanos. Também se está a borrifar para as atrocidades sociais promovidas por evangélicos na América do Sul, EUA, América Central, etc. Também de está a borrifar para o facto de terem sido adorados cristãos europeus a utilizar a mesma forma de argumentação a que recorreu, para fazerem campanha contra ao refugiados, criar propaganda contra o islamismo, para defender a sua querida cultura cristã. Enfim, entre muitas outras coisas, que apenas servem para invalidar completamente o texto referido.

 

Enfim, as Capazes são sabem, claramente, o que é importante para o feminismo. Promovem um feminismo exclusivo, que ficou muito bem definido por Emma-Kate Symons, num artigo para o New York Times, “It saddens me to see the inclusive liberal feminism I grew up with reduced to a grab-bag of competing victimhood narratives and individualist identities jostling for most-oppressed status.”. É que é exatamente isto em que assenta esta forma de feminismo, considerado de terceira vaga. É uma competição aberta entre as mulheres para ver quem é que leva para casa a taça de maior vítima de entre elas. Por isso, mostrei as pesquisas que mostrei. É um feminismo exclusivo, que apenas serve para provocar ou agravar atritos sociais. Espero que este artigo cumpra com todos os requisitos das Capazes para poder ser considerado válido, uma vez que é redigido por uma MULHER BRANCA, NASCIDA E QUE VIVE NUM PAÍS OCIDENTAL, AINDA POR CIMA O “MELHOR” DE TODOS, para um JORNAL MAINSTREAM, ainda por cima AMERICANO.  

 

Por isso, quando surgiu um artigo raríssimo de encontrar em sites/páginas deste tipo como este, não só teve extremamente poucas leituras, comparando com artigos de choradeira e publicidade a produtos femininos, como também não se viu nenhuma das habitués a ir lá fazer o típico comentário histérico de “Ai, ‘miga, que texto tão lindo! Disseste tudo! Adoro-te!”.

 

Um texto que eu comentei da seguinte forma, e que aproveito para citar, porque inclui aquilo que é realmente importante para a luta feminista:

 

“"Dá-me um arrepio gélido na espinha sempre que alguém, principalmente feminista, começa uma frase com “as mulheres” ou “os homens”, “as raparigas” ou “os rapazes”."

Excelente! O que já andei aqui meses a comentar, mas as variadas autoras preferiram começar a ignorar ou a comentar com base no desprezo, sem se disporem a discutir o conteúdo.

As mulheres e os homens não nascem de uma determinada maneira. O seu comportamento é completamente moldado pela cultura na qual estão inseridos, e na qual são criados e educados. Tudo numa determinada cultura concorre a reforçar os papéis de género, todos os conteúdos culturais, tudo o que determina o que devem vestir, as atividades a que se devem dedicar, a forma como devem falar, aquilo de que devem gostar, o que devem sentir.

Não há mulheres assim ou homens assado. Há pessoas! Há mulheres muito diferentes e homens muito diferentes. Há mulheres que parecem homens e homens que parecem mulheres. E essas parecenças são todas artificiais, porque manifestam-se quando a pessoa de um sexo decide adotar os preceitos determinados para o género cultural do sexo oposto.

Por isso!, passei meses a comentar contra os textinhos que incitavam às quezílias entre duas construções artificiais, a do género masculino e a do género feminino, os textos que estão repletos de "as mulheres são isto", "os homens são aquilo", "as relações dão errado, porque os homens são assim, as mulheres são assado", "as mulheres são melhores porque isto", "os homens são piores porque aquilo". Isto é completamente absurdo!

 

Aquilo que há de mais importante a combater, e aquilo que deveria ser o alvo primordial do feminismo, é a cultura de género! A cultura de género não afeta só mulheres, mas também homens! A cultura de género não faz prescrições apenas para as mulheres, mas para os homens também! Se têm uma ideia de que as mulheres são assim e os homens assado, é porque existe uma tendência para as mulheres e os homens de uma determinada cultura se comportarem de forma idêntica, porque é criado um padrão de comportamento artificial por via do condicionamento cultural!

 

É assim tão difícil de perceber?

Finalmente, alguém escreve este texto tão necessário e tão importante!

O melhor texto que alguma vez li aqui!

Parabéns!

Ricardo Lopes

 
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