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Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

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De Skopje a Struga, por Luís Garcia

 

 

DOS BALCÃS AO CÁUCASO – EPISÓDIO 9 

De Skopje a Struga

 

bw  VIAGENS POLITICA Luís Garcia        

Estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou, porque eu só estou bem... aonde não estou. (Estou Além, António Variações)

 

15.06.2014

Mais um amanhecer tranquilo, desta vez numa tenda escondida num jardim. Fizemos as malas e partimos em direcção ao centro com ideias de encontrar o Bulevar Partizanski,  uma avenida de 6 km em direcção a oeste, no fim da qual se encontra a entrada para a auto-estrada Madre Teresa de Calcutá (sim era albanesa mas da Macedónia) que atravessa o país de norte a sul, e que acaba perto do mítico lago Ohrid, a nossa próxima paragem prevista. Com ajuda de locais conseguimos descobrir o autocarro certo (número 2) e pegámos um. Tentámos explicar ao condutor que queríamos ir para perto da auto-estrada mas este não percebeu. Uns quilómetros à frente disse-nos algo, mas na dúvida não saímos. Não havia indícios nenhuns de fim de cidade nem de entrada de auto-estrada. Ainda assim saímos 2 estações depois, numa má decisão que tornou-se num pesadelo. Saímos, fomos às compras abastecer para o resto do dia e caminhámos em busca do fim da avenida que teimava em não aparecer. Afinal, tínhamos feito apenas 2 km de autocarro, e acabámos por caminhar mais de 3 km! Desesperados, sem mais energia para caminhar nem tampouco vontade de pagar mais um bilhete para andar, quiçá, apenas mais uma paragem ou duas, decidimos começar a fazer a boleia dentro da cidade, acto que por norma é mal-sucedido (boleias não funcionam dentro da cidade)… e foi. Acabámos por apanhar de novo um autocarro mas o condutor, simpático, e que já nos tinha visto 2 vezes no seu vai-e-vem, convidou-nos a entrar de borla! Hehe!

 

E pois claro, andámos menos de 1 km no autocarro e chegámos ao fim da linha, numa aldeola de realidade paralela. Via-se a auto-estrada relativamente perto, mas não havia coragem para andar nem vontade de arriscar seguir em frente para de seguida descobrir que a rua não daria para a auto-estrada e sim para um beco sem saída. Claire tomou a iniciativa e pediu ajuda a um homem sentado dentro do seu carro. Era polícia, macedónio de etnia albanesa e guarda-costas de ministros macedónios. Ofereceu-se prontamente a levar-nos até à entrada da auto-estrada no seu carro. O percurso foi curto, cerca de 1 km, pela rua que tínhamos pensado usar se houvesse forças. Ah, que alivio ter feito este último pedaço de estrada de carro.

 

Na portagem fomos encontrar uma viatura parada e não hesitámos em pedir boleia. O carro era de um simpático senhor, emigrante na Suiça e de férias na Macedónia, sua terra natal. Ia para Kičevo e aceitou nos levar. Que sorte, 2/3 do trajecto até ao lago Ohrid estavam garantidos. Pelo caminho, sobretudo nos últimos quilómetros antes de Kičevo, avistámos várias centenas de bandeiras da Albânia espalhadas pelos montes, sobre os telhados das casas, nas rotundas… ah, por todo o lado! De lembrar que a minoria albanesa na Macedónia tentou sem sucesso em 2001 uma rebelião no intuito de separar o noroeste do país e albanizá-lo ainda mais, em mais um etapa da criação da Grande Albânia da qual falam todos os albaneses da Albânia, Kosovo, Macedónia e Grécia. Felizmente para a Macedónia, debaixo do solo deste país não existem valiosíssimos minerais como os do subsolo da província sérvia do Kosovo. Por aí se explicatambém, talvez, que os EUA não tenham aplicado a estratégia do “dividir para reinar” como fizeram com a Jugoslávi e, consequentemente, deram em fracasso as operações terroristas do UÇK na Macedónia em 2001.

 

Quando chegámos em  Kičevo estava a chover e tínhamos muita fome. Sem hesitar entrámos no primeiro barracão-restaurante que encontrámos nas imediações da paragem de autocarro. Dentro fomos encontrar e “viver mais um filme de Kusturica”. Gente bêbada mas convivial, uma mulher que falava o tempo todo para nós e perdia-se de riso, um cigano velho e muito bem vestido a quem toda a gente local pedia para lhes pagar cerveja e aguardente, um jovem que acreditava saber falar inglês mas que só dizia disparate… ah que filme! Grande diversão, bem a calhar, para nos animar e fazer esquecer a chuva lá fora. Comemos, bebemos café, falámos pelos cotovelos num animado convívio absurdo… e fomos embora felizes da vida quando a chuva finalmente parou.

 

 

Parou sim, por muito pouco tempo. No tempo que nos levou a atravessar a estrada já chovia de novo. Tivemos que encontrar abrigo e pedir boleia aí, demasiado afastados da estrada. Não iria funcionar aquela boleia. Passada mais de uma hora, fomos à estação e investimos 3 euros cada num bilhete para Struga, uma cidade na costa de Ohrid, o lago Ohrid sim, finalmente! 

 

Chegámos a Struga quase às 6 da tarde, ainda a tempo de tomarmos os primeiros banhos naquela água linda, morna e cristalina. O sol aparecia de tempos a tempos e aquecia imenso. Quando desaparecia, dada a elevada altitude, ficava imenso frio. Que confusão. Mas foi muito bom, precisávamos de um banho a sério com água limpa e sabonete, e de nadar para descomprimir o corpo das caminhadas de malas às costas.

 

Ao fim do dia, com receio da chuva, fomos montar a tenda dentro da obra inacabada de um restaurante mesmo em frente ao lago. Convinha-nos o abrigo, mas montar a tenda sobre cimento não nos estava a apetecer muito. Em mais um golpe de sorte, com ajuda da nossa mini-laterna, encontrámos um monte de areia dentro da obra! Ah, que felicidade. Em poucos minutos aplanámos a areia numa área grande o suficiente para a tenda e montámo-la por cima. Estava tudo a correr bem até aparecer um matilha de cães abandonados para nos chatear a cabeça. Ainda tentei afastá-los várias vezes à pedrada (sim, lamento, teve de ser). O problema foi que, de cada vez que voltavam eram sempre mais e maiores. Chegou a um ponto que já não tive coragem de enfrentá-los e refugiem-me na tenda com a Claire. Foi difícil de adormecer ao início, mas o cansaço e o sono fizeram o seu trabalho, e acabámos por adormecer ao som ensurdecedor de uma matilha de cães tresloucados ladrando do lado de fora da tenda… hehe!

 

Álbuns de fotografia

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Luís Garcia, 22.01.2017, Chengdu, China

 

Se quiser ler mais estórias desta viajem clique em:

 

 

 
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O problema das figuras de autoridade e da propriedade intelectual, por Ricardo

 

 

O problema das figuras de autoridade e da propriedade intelectual

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE  ECONOMIA

 

Para mim, deixou de haver dúvidas, há muito, de que todos os problemas que existem no mundo moderno – e que sempre existiram ao longo da história humana, apenas agravados pelo facto de se ter vivido, até recentemente, em circunstâncias de real escassez de recursos, devido ao precário desenvolvimento tecnológico – derivam da cultura humana, ou das suas diversas culturas, que têm problemas em comum. Os problemas culturais em comum já referi de forma breve noutro artigo, podendo vir, no futuro, a trata-los de forma mais profunda.

 

Aqui, quero referir-me a um dos principais entraves ao desenvolvimento do conhecimento sobre o mundo material (o único que existe), portanto ao desenvolvimento científico e ao aproveitamento das capacidades humanas no geral e da instrumentalização com fins humanísticos e ambientais da tecnologia.

 

As figuras de autoridade são aquelas pessoas quem atribuímos o mérito por determinadas descobertas, pelo avanço do conhecimento sobre um determinado assunto, por determinadas invenções, por orientarem a vida de um grande número de pessoas através das suas ideias. Os problemas que derivam desta visão unidirecional e unifatorial de acontecimentos históricos no âmbito da produção intelectual, são variados.

 

O primeiro grande problema é construir, com base nisso, uma visão histórica errónea e altamente limitada, neste caso da evolução do conhecimento humano. Como eu expliquei brevemente neste artigo, é preciso conhecer todo o contexto em que os autores de determinadas ideias viveram, para perceber que as suas ideias foram tão somente o fruto das influências que receberam, da cultura para a qual foram condicionados e a sua própria experiência. Aliás, muitos avançaram grandemente o seu trabalho ao roubar ideias ou instrumentos criados por outros, que por sua vez foram o resultado de modificações graduais ao longo da história, pela mão de muita gente.

 

O segundo grande problema é que, a partir do momento em que se reconhece alguém como autoridade, e como há tanta informação para processar e somos condicionados para reconhecer incondicionalmente a autoridade daqueles que a adquirem ou nascem com ela (e antepassados deles adquiriram, normalmente por via da força), qualquer coisa acerca da qual teçam considerações é automaticamente levada a sério e tida em consideração. Não apenas isso, como normalmente adquire instantaneamente o estatuto de verdade. Querem um bom exemplo disto? Quando o Linus Pauling, depois de ter arrecadado dois Prémios Nobel, decidiu divulgar publicamente a crença em que a vitamina C curava a constipação. Até hoje não se produziu um único estudo científico que validasse a sua hipótese, antes pelo contrário. No entanto, não só isso se disseminou na cultura popular, como cerca de 50 anos depois, ainda é considerado verdade entre as pessoas não educadas para o método científico e que não fazem trabalho na área, até mesmo entre muitas pessoas com formação científica e, apenas porque Pauling o proferiu, adquiriu imediatamente estatuto de verdade, ou de teoria em termos científicos.

 

O terceiro grande problema, e em consequência do segundo, é que tal atitude para com as figuras de autoridade normaliza situações como aquelas em que se considera que tudo o que há de importante a considerar sobre um determinado assunto se resume ao que determinada figura de autoridade refere acerca dele. Numa linguagem mais simples, tudo o que há de importante sobre um assunto é aquilo que uma figura de autoridade identifica comofatoresatuantes nele. Por exemplo, se o Žižek, que agora é uma das grandes estrelas pop dos esquerdistas, diz que o único problema da disputa entre os produtos de agricultura biológica e os organismos geneticamente modificados é que o seu consumo está relacionado com o status que dele se pode derivar, então quem lhe reconhece autoridade sentir-se-á suficientemente informado para sair por aí a dizer que esta é a única questão. O facto de existir vasta bibliografia científica que demonstra os problemas dos produtos provenientes da agricultura biológica, as mentiras perpetradas pela indústria, e as vantagens atuais e futuras dos OGMs não interessa. Ou seja, alguém que reconhece autoridade a outra pessoa sente-se satisfeita com aquilo que essa pessoa é capaz de servir em termos de conhecimento sobre qualquer assunto que seja, que, normalmente, é muito pouco, principalmente nos dias atuais em que são publicados milhões de artigos científicos pelo mundo fora, tornando-se impossível para alguém manter-se atualizado sobre todos os assuntos. E, claro, também de outras áreas não consideradas científicas, mas de importância para o conhecimento do mundo real, como a História. Até mesmo ao nível da inteligência artificial é difícil desenvolver algoritmos suficientemente bons para manter uma monitorização e produzir resultados relevantes acerca de toda esta esmagadora quantidade de informação.

 

O quarto grande problema prende-se com o facto de, perante uma cultura de culto da personalidade, tende-se a menosprezar o facto de que qualquer pessoa que nasça com um cérebro funcional, se criada num ambiente propício, é capaz de contribuir tanto para a produção de conhecimento como qualquer outra. Não existem capacidade inatas. Existiram, e ainda existem, inúmeras pessoas ao longo da história humana que dedicaram toda uma vida à produção intelectual em torno de meras ideologias e, portanto, de coisas que nem sequer correspondem a nada de real, e foram consideradas génios. Outros houve, também, que se trabalharam com os recursos que tinham à disposição na altura para tentar fazer avançar o conhecimento sobre determinados assuntos, e não conseguiram, não por limitação cerebral, mas sim por limitação das circunstâncias que lhes determinaram as limitações da época. Leiam as histórias dos considerados grandes intelectuais da história humana. Não houve um único que não teve um acesso privilegiado a boas condições económicas, teve acesso a educação, foi incentivado pela família a ler e teve a sorte de ter tido contacto com determinadas ideias de outras pessoas. Não há um único com quem isso não tenha acontecido. Quem não nasceu privilegiado, conseguiu, de uma forma ou de outra, atingir uma situação de privilégio que lhe permitiu ter acesso a conhecimento sob a forma escrita. Ou seja, é um processo, é alto que resulta de muito trabalho, do contacto com muito conhecimento produzido por outros, do contacto com muitas teorias e instrumentos que foram sendo aprimorados ao longo de muito tempo. Nada disto é inato. Não há pessoas que nascem com mais capacidades do que outras. Há pessoas que recebem influências diferentes de outras e há os privilegiados que conseguem ter acesso a informação. Peguem em qualquer pessoa de onde quer que seja, ensinem-na uma determina língua, ou várias, ensinem-na a ler e, atualmente, a ver documentários, ensinem-na a utilizar determinadas ferramentas mentais e instrumentais para produzir conhecimento, ensinem-na o método científico e deem-lhe acesso irrestrito a fontes de conhecimento relevante sobre o mundo em que vive, e vão ver o grande “génio” que dali resulta. As pessoas são as suas circunstâncias, não há nada de inato em ninguém, exceto determinados mecanismos reflexos, que não têm nada que ver com capacidades intelectuais nem com desenvolvimento pessoal.

 

E, agora, e por fim, o quinto grande problema (que eu pretendo identificar neste texto, que não é, nem pretende ser, uma exposição exaustiva do assunto), é um grave entrave que o culto da personalidade representa para o avanço do conhecimento e o desenvolvimento científico e tecnológico no mundo moderno, já livre das amarras da escassez natural (mas insistindo na escassez artificial, da qual esta é um dos fatores, sob a forma de escassez de recursos intelectuais). É compreensível que, num sistema de escassez, se tenha promovido, outrora, a propriedade intelectual. Afinal e contas, é disso que depende a sobrevivência das pessoas que dedicam a sua vida à produção intelectual, ao desenvolvimento tecnológico, etc. Também é por isso, e porque vivemos atualmente num sistema de escassez artificial, que muita gente ainda se insurge contra a pirataria, existem direitos de autor, patentes, leis contra o plágio, e toda uma panóplia de legislações a defender das mais variadas formas a propriedade intelectual. Tudo isso, eu consigo compreender perfeitamente num sistema de escassez. Agora, quando temos ao nosso dispor todos os meios para superar a escassez, a propriedade intelectual impede o acesso a informação relevante por parte de pessoas que não têm meios económicos para lhe aceder e promove a competição, devido a questões de ego que se imiscuem na atividade. A competição até pode, pelo menos em algumas situações, motivar as pessoas a produzir seja o que for. No entanto, essa mesma competição promove o desperdício de tempo em atividades que não têm nada a ver com o objetivo final de produção de conhecimento, como a autopromoção, os debates e demais guerrinhas estabelecidos com os oponentes. No caso particular da competição no mundo comercial, conduz a um desperdício enorme de recursos naturais, uma vez que existem diferentes empresas que oferecem o mesmo tipo de produtos com ligeiras diferenças, que normalmente nem sequer estão relacionadas com a sua qualidade ou performance.

 

Os problemas de ego, claramente, surgem num sistema de escassez de recursos, materiais e intelectuais, no qual as pessoas têm de competir por recursos finitos e escassos. Mas, em conjunto, e aproveitando os biliões de cérebros humanos de que dispomos, e através de coisas como o Maker Movemente (ou Maker culture), que conseguiu tornar Shenzhen na capital mundial do desenvolvimento de hardware, um ambiente no qual participa muita gente, no qual cada um dá o seu contributo, cada um melhor um aspeto ou vários de uma peça de hardware, até chegar ao produto final que é o melhor desenvolvimento possível de um conceito que foi resultado de muitas pessoas e muitos cérebros a cooperarem em vista do mesmo objetivo, e que demonstra que se pode acelerar muito o desenvolvimento tecnológico com a participação de mais pessoas que aprendem fazendo e com acesso aos recursos e à informação certa, que está disponível para todos, numa cultura open-source. Juntem a todos os biliões de cérebros humanos a inteligência artificial aliada à Big Data derivada da Internet of Things, e poderão facilmente vislumbrar o quão poderíamos acelerar a produção e atualização do conhecimento e o desenvolvimento tecnológico. A automação de processos, o tratamento computacional de dados e o desenvolvimento da inteligência artificial não são coisas “más”. A aplicação da ciência e da tecnologia depende de quem as aproveita, da forma como a instrumentaliza, e do contexto no qual são aplicadas. Aquilo que pode conduzir a diversas formas de tumulto social, pelo facto de as pessoas perderem empregos por via da automação do trabalho, poderia, noutro contexto, conduzir a uma abundância de recursos materiais e intelectuais e a um aceleramento da aquisição de conhecimento sem precedentes históricos. 

 

A propriedade intelectual é apenas mais um dos entraves culturais que se perpetuam no sistema capitalista, com uma grande força histórica por sempre ter estado presente ao longo das diversas culturas hegemónicas. E, porquê? Porque o sistema capitalista promove a escassez e, como tal, tudo aquilo que se manifestava no comportamento humano e que determinava a formulação de normas e regras sociais num real sistema de escassez de recursos, como foi aquele em que todos os humanos viveram até há bem pouco tempo, de um ponto de vista histórico, foi continuado através do sistema capitalista, que promove a escassez de uma forma artificial.

 

Mas, as coisas não têm de ser assim e, depois daquilo que aqui expus, podem encontrar bastantes semelhanças entre o fim da propriedade intelectual, a apropriação coletiva dos meios de produção e do conhecimento, como uma defesa do marxismo. Mas, não é. Não é, porque Marx acreditava que o simples desenvolvimento tecnológico conduziria a uma abundância tal que as pessoas seriam libertadas do trabalho imposto pelos burgueses. Mas, tal não aconteceu, porque as pessoas não podem contribuir para soluções coletivas sem estarem munidas de conhecimento relevante acerca do mundo que as rodeia. O sistema educativo público foi criado no século XIX, na Prússia, com o intuito de criar trabalhadores e soldados, e de promover o nacionalismo, e não com o intuito de providenciar real conhecimento às pessoas. Por isso, muita coisa tem que mudar e, ao contrário do que Marx teorizou, as pessoas não conseguem unir-se e encontrar soluções coletivas alternativas espontaneamente perante um desenvolvimento tecnológico tal que cria condições de abundância, como nunca existiram antes. Não, isso não acontece se as pessoas não tiverem acesso a conhecimento relevante, se continuarem a ser condicionadas pela mesma cultura que se produziu num sistema de escassez natural e que continua a condicionar pessoas que vivem num sistema de abundância.

 

E também é por isso que, para terminar, vos deixo o link para um livro (The Money Game and Beyond) que faz uma exposição detalhada do sistema económico em que vivemos, de escassez artificial na sua forma moderna, e de soluções alternativas a tal, em conjunto com outros links que fui deixando ao longo deste artigo e todos os restantes artigos e livros que podem encontrar no site TROM (The Reality of Me).

 

Ricardo Lopes

 
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Syrie: qui croire? (partie 3), par Luís Garcia

 

 

Syrie, qui croire - 3 partie

 

Luís Garcia POLITICA SOCIEDADE  en français  

 

Les medias occidentaux, orwelliennement auto-dénommés « détenteurs de la vérité » disent une chose. La « propagande » du « régime syrien » et du méchant Poutine disent le contraire. Alors, qui devons-nous croire?

 

 

 

Incendies des bus pour les rebelles

 A en croire les récits des médias (mainstream) des méga-cimetières provoqués par les bombardements aériens russes, il ne devrait plus se trouver âme qui vive à Alep. A en croire les récits des médias (mainstream) des exécutions de civils et du vampire Al-Assad, il ne devrait plus se trouver âme qui vive à Alep. Et pourtant il s’y trouve! Et il s’y trouve tellement que rien que les terroristes «rebelles» se comptent par milliers! Comment ça!?!

 

Le fait qu’on en compte par milliers, et vu la défaite militaire des terroristes «rebelles », nous devrions être en train de recevoir des image et des vidéos nous montrant les soldats syriens les exécutant en masse, les torturant, les brulants vivants, mangeant leur cœur, non? Finalement, s’il a été prouvé que les bons terroristes «rebelles» ont commis tous ces types d’atrocités sur des soldats syriens capturés, pour quelle raison les mauvais soldats syriens ne feraient-ils pas de même, voire même pire ? Ahhh non, diable, ils en ont pardonné quelques-uns et ont laissé le reste fuir à Idlib dans des bus offerts par le gouvernement syrien lui-même! Ça alors!

 

Rebelles quittant Alep dans des bus partant vers Idlib

 

Et oui, c’est vraiment ce qui se passe. Les terroristes «rebelles» et leurs familles, au lieu de mauvais traitement, sont très bien traités par la Syrie et ses alliés, on ne peut pas le démentir. Pourquoi? Parce que lorsqu’on recherche la paix on est pragmatique, et qu’il importe peu de faire des concessions en apparence illogiques et contre-productives, si en le faisant on peut sauver des vies humaines. C’est pourquoi la Russie, la Syrie et l’Iran ont proposé aux terroristes « rebelles » l’accord suivant :

 

  1. Evacuer les civils d’Alep-est dans des zones contrôlées par le gouvernement syrien.
  2. Evacuer les civils blessés de Kafraya et Foua de la banlieue d’Idlib dans des zones contrôlées par le gouvernement syrien.
  3. Evacuer les militants [terroristes] d’Alep-Est dans les quartiers de l’ouest, et de là dans la région d’Idlib.

 

L’accord a été proposé par qui a obtenu la victoire militaire à Alep (Syrie et alliés) bien-sûr,  et cela démontre bien l’intérêt des ces derniers pour le respect de la vie humaine. Au lieu d’assassiner des «rebelles» (ainsi que des civils, selon les médias occidentaux), la Syrie les laisse partir en liberté de manière à pouvoir délivrer les civils des mains des  «rebelles libérateurs»! Quelle drôle d’histoire! Et pourquoi Krafaya et Foua? D’abord parce qu’elles sont contrôlées par des forces armées fidèles au gouvernement syrien bien qu’elles se trouvent dans une région contrôlée par des «rebelles» qui maintiennent complètement le siège sur ces terres. Ensuite parce leurs habitants sont majoritairement chiites, et l’Iran (chiite) craint la mort des ceux-ci aux mains des groupes terroristes «rebelles» financés par l’Etat barbare saoudien, ennemi de l’Iran. Troisièmement parce que 2000 civils ont été tués par ces groupes «rebelles», dont 400 enfants, et beaucoup sont blessés et n’ont pas accès à des soins médicaux. Il est donc urgent de secourir ces civils. De plus, aucune nourriture ne rentre plus dans cette zone à cause du siège «rebelle», et les survivants sont affamés depuis des semaines! Du coup où sont les pleurnicheurs d’AJ+ anti-siège militaire syrien qui «provoquent la famine» dans des zones contrôlées par des rebelles? Il y a la bonne faim et la mauvaise faim, c’est ça? Tristes sirs !

 

 

Pour une meilleure compréhension de cet accord je vous propose d’analyser la carte suivante, en gardant à l’esprit que les zones en rouges sont contrôlées par la Syrie et ses alliés et que celles en vert sont contrôlées par les terroristes «rebelles»:

 

 

Si la carte ne fonctionne pas cliquez ici 

 

Pourquoi l’accord a-t-il échoué? Pour plusieurs raisons. D’abord parce que les «rebelles» les plus radicaux (ou plus OTANiens) refusent de se rendre. Ensuite parce qu’ils trichent, en essayant d’emmener avec eux armement et otages. Troisièmement parce que certains «rebelles» ont eu l’idée de brûler les bus dans lesquels ils sont arrivés sains et saufs, dans la région contrôlée par les «rebelles». Les bus sont supposés emmener progressivement les terroristes  d’Alep à Idlib, et ramener au retour les civils blessés de Kafraya/Foua à Alep. Mais il n’était pas prévu que les chauffeurs (civils) des bus seraient tués par balles ! Quelqu’un a entendu parler des exécutions des chauffeurs civils sur RTP* ou Rede Globo ? Non, bien-sûr que non!

 

Au contraire, on nous vend du bafouillage vaseux, typique de ceux qui ne veulent pas dire ce qu’ils savent, et pire, ne savent même pas ce qu’ils devraient dire! Sur les bus, les médias occidentaux ont peu ou rien à nous raconter. En lisant les informations sur ce thème, on se retrouve avec de drôles de déductions qui sont les suivantes :

 

  • 1000 personnes ont quitté Alep pour se rendre quelque part.
  • L’interruption de l’utilisation des bus est due à un caprice des syriens ou à un caprice des iraniens.
  • Tout le monde veut sortir d’Alep, et tout le monde est contrarié par l’arrêt des bus.

 

Franchement, 1000 personnes ? Pas mille, plus. Ce serait beaucoup demandé d’ajouter que ces personnes sont des «rebelles» ou des familles de rebelles? C’est beaucoup! N’est-il pas honteux d’essayer de passer vaguement l’idée (encore une fois !) que les civils syriens veulent quitter Alep, en utilisant une manipulation si malhonnête! Oui! C’est honteux! N’est-il pas illogique de vouloir faire passer cette idée et en même temps, dans un flot de confusion, informer que les bus devaient ramener des civils! Si, c’est illogique! Soit les civils veulent quitter le « méga-cimetière d’Alep », soit ils veulent être sauvés du terrorisme « rebelle » à Alep. Les deux hypothèses émises simultanément, ça ne marche pas, non!

 

Il y a pire encore, il y a ceux qui tentent, dans certains médias occidentaux, de défendre que les bus ont été détruits par des «milices iraniennes» fidèles au gouvernement syrien! Vraiment! Pourquoi? Pour quoi faire? Pour que les blessés qu’ils protègent ne puissent pas sortir des zones assiégées!?! Où est la logique ? Oui, il existe des groupes armés par l’Iran qui protègent les zones chiites de Kafraya et Foua. Ils sont entrés légalement en Syrie et, malgré le fait que ses membres soient afghans et pakistanais, ce ne sont pas des «milices terroristes afghanes/pakistanaises» comme les appellent les médias occidentaux et du Golfe. C’est un genre de légion étrangère iranienne. Liwa Zainebiyoun est composée de pakistanais résidants en Iran et Liwa Fatemiyoun d’afghans résidants en Iran et en Syrie. Il n’y a aucun mystère, arrêtez d’inventer des milices-croque-mitaine ! Et s’il n’y a pas de croque-mitaines, il n’y a pas non plus de non-croques-mitaines qui  ne mettent pas le feu à des bus pour le plaisir !

 

Vidéo des bus en feu

 

Photos des bus en feu

 

Il est clair que les bus ont été incendiés, et ils l’ont été dans des zones contrôlées par des rebelles! Comment les médias occidentaux n’arrivent-ils pas à associer l’interruption temporaire des échanges de personnes avec le fait antérieur? Ahhhh, tristes non-journalistes!

 

D’ailleurs, pourquoi n’ont-ils pas expliqué le territoire repris, et comment il a été repris? Parce qu’ils n’ont pas informé que, pour qu’il n’y ait plus de comportement terroriste, on ne libère plus de «rebelles» terroristes que lorsque les civils blessés de Kafraya et de Foua arrivent en sécurité à Alep. Pourquoi ne disent-ils pas qu’au moins 7 bus ont amené au moins 511 blessés de Kafraya et de Foua jusqu’à Jebrin (Alep), où ils sont déjà installées dans des centres d’hébergement temporaire installés par le gouvernement syrien?
Ahhhh, triste non-journalisme!

 

Moi je préfère le journalisme :

 

 

Et les bons articles :

 

 

Et les reportages objectifs montrant des faits concrets :

 

 

Méthodologies opposées:

Si, de manière pragmatique, le «sanguinaire» Al-Assad amnistie et libère les «rebelles» terroristes en échange de pouvoir porter secours à des civils d’Alep, Kafraya et Foua, de l’autre côté, les « freedom fighters » payés par l’occident « humanitaire », à l’époque de la capture des soldats syriens et de leurs supporters déclarés (enfants inclus), n’ont eu aucun problème à utiliser la torture et à commettre des exécutions massives! Il n’y a pas grand-chose à dire devant la quantité de preuves filmées! Ne regardez pas les vidéos si vous êtes sensibles, surtout une vidéo comme celle de la torture de civils.

 

Soldats syriens exécutés par l’armée syrienne libre

 

220 soldats syriens exécutés par l’armée syrienne libre

 

28 soldats syriens exécutés par  l’armée syrienne libre

 

Civils torturés à morts par l’armée syrienne libre

 

Enfant décapité par l’armée syrienne libre

 

Choquante, oui, réalité immensément choquante, mais le plus choquant est que cette réalité soit complètement ignorée dans notre cher occident! Il y a plus, beaucoup plus de vidéos de ce genre, sur twitter, sur youtube, facebook, etc. Tragiquement, les preuves des horribles crimes réalisés par les organisations terroristes payées par nos impôts abondent. A ceux qui ne sont pas convaincus, cherchez. On trouve trop facilement.

 

Autres choses que les médias occidentaux ne nous racontent pas

Ils ne nous racontent pas que l’ambassadeur syrien à l’ONU, le gouvernement syrien et ses organes de communication ont informé de la capture de dizaines de militaires d’Etats membres de l’OTAN  et d’Etats alliés à l’Otan 14 noms ont été révélés :

 

 

 

 

Ils ne nous racontent pas que Cuba a envoyé en Syrie presque 300 000 vaccins contre la méningite pour une valeur d’un million de dollars:

 

 

 

Ils ne nous racontent pas que les militaires russes distribuent de l’aide alimentaire russe à Alep:

 

 

Ils ne nous racontent pas qu’à Alep, en ce moment, les fêtes de la libération de la ville se mélangent aux fêtes de noël. Ils ne nous disent pas que les chrétiens, les alaouites, les sunnites et chiites fêtent ensemble cette célébration chrétienne:

 

 

 

Ils ne démontrent pas, comme l’a fait Sputnik (https://fr.sputniknews.com) ou 21stcenturywire (http://21stcenturywire.com),  que la petite fille d’Alep, la «blogueuse Bana» est un «outil de propagande ultime»:

 

 

Au contraire, on trouve ce genre d’immonde non-information sur le site de LCI:

 

 

Maintenant, après avoir lu le non-article de LCI, regardez cette photo! Voyez l’excellente ambiance familiale et les magnifiques relations entourant Bana Alabed, la petite fille d’Alep, ahahahah :

 

por Tim Anderson

 

Bien-sûr la petite fille d’Alep n’y est pour rien, mais n’est-il pas étrange de trouver son père armé et entouré de «rebelles» terroristes? Ou posant pour la photo avec des armes et le logo d’ISIS? Et que dire de la famille de Bana Alabed, la petite fille d’Alep, réunie dans un décor de drapeaux turcs, avec Monsieur Erdogan président turc et la femme de Monsieur Erdogan? Hehehe! Celle-ci me rappelle une autre petite fille tout aussi (peu) innocente. La petite fille apeurée fuyant les horreurs de Saddam Hussein, témoignant sur les ordres de Saddam Hussein d’arracher les bébés des couveuses… laquelle a ensuite été découverte comme étant la fille de l’ambassadeur du Koweït aux Etats-Unis, et qui n’a jamais été dans les lieux où elle affirme avoir assisté à de telles atrocités, hehehe! La seule différence entre l’arnaque médiatico-émotionnelle de la fille de l’ambassadeur et la petite fille d’Alep, c’est que, dans les années 90, il n’y avait pas twitter ! Ahahahah !

 

*L’auteur étant portugais, il se réfère à des médias en langues portugaise. Toutefois une partie des articles en portugais auxquels il se réfère a été remplacée par des articles en français pour les lecteurs francophones.

 

Luís Garcia, 21.12.2016, Chengdu, Chine

(Traduit par Claire Fighiera)

 

 
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Elon Musk – o Moisés do capitalismo, o Cristo dos amantes da ciência, o Obama do sistema empresarial e o Iron Man dos empreendedores yuppies e millennials , por Ricardo Lopes

 

Elon Musk

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE TECNOLOGIA  ECONOMIA

 

Elon Musk – o Moisés do capitalismo, o Cristo dos amantes da ciência, o Obama do sistema empresarial e o Iron Man dos empreendedores yuppies e millennials

(Para fazer jus à tradição de nomes de meio quilómetro dos imperadores romanos e à megalomania do homem)

 

O que proponho fazer com este texto é desconstruir a imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo que, muitos amantes da ciência e outros demais analfabetos científicos mas que pensam que ciência se constrói com base no “senso comum” e que se dedicam a fazer “cherry-picking” de artigos que validam os seus preconceitos sobre os mais variados assuntos, atribuem a Elon Musk. Vou tentar analisar as principais ideias e ideologias de Elon Musk e, principalmente, fazer uma nova leitura da sua atividade empresarial, como CEO e CTO da SpaceX e como CEO da Tesla Motors e das suas ideologias sociopolíticas, como seja o facto de defender a implementação de um RBI (Redimento Básico Incondicional) ou UBI (Universal Basic Income), em inglês.

 

Para tal, e aproveitando o facto de estar repleto de citações do próprio Elon Musk, vou basear-me fundamentalmente neste artigo, que recomendo que leiam na íntegra, porque é importante perceber as ligações megalomaníacas e a personagens históricos intemporais que são estabelecidas com este novo suposto messias das novas tecnologias.

 

Ora, do primeiro até ao terceiro parágrafo somos, basicamente, brindados com a típica história contruída para reforçar a cenoura virtual do capitalismo do “self made man”. A típica história do desgraçadinho que foi da África do Sul para os EUA, e que se foi impondo por via do trabalho exaustivo, da resiliência e das capacidades inatas, no meio empresarial americano. A história do desgraçadinho, que, entretanto, o autor do artigo se esquece de referir (propositadamente?) que era filho de um engenheiro eletromecânico e de uma modelo e nutricionista e, como tal, conseguiu ter acesso aos cursos que queria na universidade e só não terminou o doutoramento porque não quis…cof cof…porque, tal como todos os grandes “visionários” que conseguiram transitar no ambiente intelectual tecnológico americanos dos anos 90, deixou-se levar pela maré e criou uma companhia de software online, com cuja venda arrecadou uns módicos 300 milhões de dólares, e, mais tarde, o PayPal, que vendeu ao eBay por 1,5 biliões de dólares. Portanto, logo aqui, começamos a vislumbrar o vanguardismo de Musk (seguir tendências e fazer dinheiro fácil) e o seu grande interesse pelos negócios. Aliás, ele tem curso de economia e, a determinada altura, poderão ler no artigo que ele não tem problemas nenhuns em dizer que gosta de ganhar dinheiro. Claro, quem é que gostando de economia e de ser empresário não gosta de nadar em dinheiro, se tiver a oportunidade?

 

Agora, e também antes que me acusem de ser um grande invejoso, porque na mente da tugalhada já se sabe que um tuga que se meta a criticar negativamente ou a maldizer alguém que ocupa uma posição social mais privilegiada só o pode fazer porque tem inveja, e maledicência é guardada para os pobres, os sem-abrigo, os ciganos, os imigrantes e os vizinhos, vou passar para a análise da sua mentalidade, e vou fazê-lo, principalmente, através de citações do artigo referido, já que melhor do que eu a escrever é mesmo ter a informação direta da fonte, para tentar inverter aqui os maneirismos do jornalismo moderno (ou até mesmo do antigo).

 

‘I think there is a strong humanitarian argument for making life multi-planetary,’ he told me, ‘in order to safeguard the existence of humanity in the event that something catastrophic were to happen, in which case being poor or having a disease would be irrelevant, because humanity would be extinct. It would be like, “Good news, the problems of poverty and disease have been solved, but the bad news is there aren’t any humans left.”’

 

Portanto, aqui ficamos a saber que Elon Musk considera a colonização interplanetária fundamental para sobrevivência da espécie humana, no caso, e sublinho NO CASO, de ocorrer uma catástrofe, perante a qual já não interessaria se se era pobre ou doente, porque toda a humanidade estaria extinta. Com o docinho no fim da citação de “Boas notícias, os problemas da pobreza e das doenças foram resolvidos, mas as más notícias são que não sobraram nenhuns humanos.”, que é já dica para o que se seguirá no seu pensamento altamente intrincado.

 

Mais à frente, temos a megalomania dos modernos tech-savvy multimilionários exposta em todo o seu esplendor:

 

They imply that humanity and civilisation are less good than their absence. But I’m not in that school,’ he said. ‘I think we have a duty to maintain the light of consciousness, to make sure it continues into the future.’

‘At our current rate of technological growth, humanity is on a path to be godlike in its capabilities,’

 

Veja-se, então, o enorme fardo que carrega o desgraçado do Elon Musk e seus congéneres: o de permitir que continue a existir iluminação no Universo, por via da consciência humana, e permitir que a humanidade atinja um estado deítico. Se Elon Musk, Bill Gates, os senhores da Apple, da Samsung, e mais toda a pitalhada yuppi e millennial das startups tecnológicas não intervir, o Universo ficará, para sempre, remetido ao desconhecimento de si próprio. O Universo sofrerá por ter de seguir uma existência sem propósito, por não ter meio de se conhecer a si próprio. O que poderá existir de pior do que isto? O que é a pobreza e a doença num minúsculo ponto no Universo, quando todo ele sofrerá se não se seguir esta via? Quem é que é mesquinho o suficiente para se preocupar com arranjos atómicos temporários sob a forma de seres humanos, quando o mais importante de tudo é salvaguardar o futuro psicológico de toda a matéria que compõe o Universo conhecido e, provavelmente, o ainda desconhecido?

 

Musk has a more sinister theory. ‘The absence of any noticeable life may be an argument in favour of us being in a simulation,’ he told me. ‘Like when you’re playing an adventure game, and you can see the stars in the background, but you can’t ever get there. If it’s not a simulation, then maybe we’re in a lab and there’s some advanced alien civilisation that’s just watching how we develop, out of curiosity, like mould in a petri dish.’ Musk flipped through a few more possibilities, each packing a deeper existential chill than the last, until finally he came around to the import of it all. ‘If you look at our current technology level, something strange has to happen to civilisations, and I mean strange in a bad way,’ he said. ‘And it could be that there are a whole lot of dead, one-planet civilisations.’

 

Eu amo, amo sinceramente, do fundo do meu sistema límbico, esta teoria. Somos uns grandes cientistas e tecnocratas, mas vamos lá inventar uma teoria altamente conveniente para podermos reforçar a lavagem das mãos dos reais problemas humanos. Ah e tal, isto até o mais provável é estarmos todos a viver numa gigantesca simulação. Gigantesca, do nosso ponto de vista, que para quem a criou ela até está provavelmente a correr num supercomputador. E é nesta altura que vos convido a ver esta rica e deliciosamente sarcástica palestra de Maciej Ceglowski, que expõe o grau de alienação da gente de Silicon Valley. Mas, enfim, se é tudo simulado, o que temos de melhor a fazer é mesmo levar isto como um jogo, que é na realidade, e andar a brincar à exploração espacial, enquanto se caga para os problemas humanos.

 

Musk identifies strongly as an engineer. That’s why he usually takes a title like chief technical officer at the companies he runs, in addition to chief executive officer. He had been reading stacks of books about rockets. He wanted to try building his own.

Six years later, it all looked like folly. It was 2008, a year Musk describes as the worst of his life. Tesla was on the verge of bankruptcy. Lehman had just imploded, making capital hard to come by. Musk was freshly divorced and borrowing cash from friends to pay living expenses. And SpaceX was a flameout, in the most literal sense. Musk had spent $100 million on the company and its new rocket, the Falcon 1. But its first three launches had all detonated before reaching orbit. The fourth was due to lift off in early Fall of that year, and if it too blew apart in the atmosphere, SpaceX would likely have numbered among the casualties. Aerospace journalists were drafting its obituary already. Musk needed a break, badly. And he got it, in the form of a fully intact Falcon 1, riding a clean column of flame out of the atmosphere and into the history books, as the first privately funded, liquid-fuelled rocket to reach orbit.

SpaceX nabbed a $1.6 billion contract with NASA in the aftermath of that launch, and Musk used the money to expand rapidly.

 

Aqui temos mais propaganda capitalista à descarada, mas também não podemos esperar mais do que o editor-chefe de uma das mais prestigiadas revistas americanas, a The Alantic. Afinal de contas, vamos cagar para a grande equipa de cientistas das respetivas áreas que Musk tem a trabalhar para ele. Musk é um Obama empresarial e, portanto, tem de lavar a própria imagem e a das empresas que encabeça. Musk é um ser todo-poderoso que avia altos calhamaços de engenharia aeroespacial e projeta sozinho os vaivéns. Mas, ao mesmo tempo, é um grande filantropo que projeta carros elétricos que ele quer que sejam completamente limpos, através das suas Gigafactories, projeta supertelhas com células fotovoltaicas que convertem energia solar em elétrica e a armazenam nas super powerwalls, projeta hyperloops para transporte supersónico de pessoas em tubos de vácuo e ainda tem tempo para ir coçando a tomateira e aparecer em vídeos do Big Think, ao lado de qualquer outro opinadeiro que tenha ideias “originais” a debitar para um vídeo entre 3 a cerca de 20 minutos, entre os quais se contam grandes analistas modernos como Slavoj Žižek, para quem o cinema de Hollywood tem feito um magnífico trabalho com filmes a representar criteriosamente possíveis futuros distópicos para a humanidade, caso alguém de esquerda, que não ele, não arranje uma solução que ele não encontra para um sistema alternativo, que ele ainda não conseguiu encontrar, provavelmente por ler as coisas erradas e perder tempo a consumir lixo audiovisual.

 

Mas, não nos afastemos do tema deste artigo, até porque a questão da filantropia e da genialidade de Elon Musk virão mais à frente. Só para terminar esta parte, é importante perceber que Elon Musk apenas emprega grandes entendidos no assunto, porque ele não tem tempo para tudo, há muito cálculo que tem de delegar a terceiros e precisa de justificar a existências das empresas deles através do número de empregos que cria. E, claro, como sempre, a injeção de dinheiro público que teve, através da NASA, não interessa incluir como premissa indispensável para o seu sucesso. Afinal de contas, ele só teve acesso a tais fundos por via do mérito pessoal demonstrado. Isso e ter nascido com capacidades inatas, não esqueçamos. ;)

 

Musk isn’t shy about touting the speed of his progress. Indeed, he has an Ali-like appetite for needling the competition. A Bloomberg TV interviewer once asked him about one of Tesla’s competitors and he laughed in response. ‘Why do you laugh?’ she said. ‘Have you seen their car?’ he replied, incredulously. This same streak of showmanship surfaced when Musk and I discussed the aerospace industry. ‘There have been a number of space startups,’ he told me. ‘But they have all failed, or their success was irrelevant.’

 

Eu não disse? Só quem atinge o topo da montanha, como Musk, se pode dar ao lixo de ser cagão à descarada. Respeitem. Não julguem!

 

‘SpaceX is only 12 years old now,’ he told me. ‘Between now and 2040, the company’s lifespan will have tripled. If we have linear improvement in technology, as opposed to logarithmic, then we should have a significant base on Mars, perhaps with thousands or tens of thousands of people.’

Musk told me this first group of settlers will need to pay their own way. ‘There needs to be an intersection of the set of people who wish to go, and the set of people who can afford to go,’ he said. ‘And that intersection of sets has to be enough to establish a self-sustaining civilisation. My rough guess is that for a half-million dollars, there are enough people that could afford to go and would want to go. But it’s not going to be a vacation jaunt. It’s going to be saving up all your money and selling all your stuff, like when people moved to the early American colonies.’

 

Agora, esta sim, é uma das partes, senão a parte mais interessante de todo o artigo: o masterplan de Musk para colonizar Marte. E o melhor é que fica exposto, pela sua própria boca, que o plano envolverá apenas pessoas com bastante dinheiro, com pelo menos 500000 dólares para gastar. E, claro, pessoas que estejam dispostas não só a estoirar a sua conta offshore, como também a vender toda a sua tralha.

 

Hum, agora tive uma branca, quem é que costuma oferecer a salvação às pessoas e pedir-lhes tudo de material em troca? Será deus? Serão os profetas? Será o professor Caramba, mestre em magia negra e branca mais forte? Será o Jim Jones? Serão os budistas? Eh pá, provavelmente não é nenhum destes mas, assim de repente, não consigo estabelecer outras associação. Não sei bem porquê…

 

It is possible that Mars could one day be terraformed into an Earthly paradise, but not anytime soon. Even on our planet, whose natural systems we have studied for centuries, the weather is too complex to predict, and geoengineering is a frontier technology. We know we could tweak the Earth’s thermostat, by sending a silvery mist of aerosols into the stratosphere, to reflect away sunlight. But no one knows how to manufacture an entire atmosphere. On Mars, the best we can expect is a crude habitat, erected by robots. And even if they could build us a Four Seasons, near a glacier or easily mined ore, videoconferencing with Earth won’t be among the amenities. Messaging between the two planets will always be too delayed for any real-time give and take.

Cabin fever might set in quickly on Mars, and it might be contagious. Quarters would be tight. Governments would be fragile. Reinforcements would be seven months away. Colonies might descend into civil war, anarchy or even cannibalism, given the potential for scarcity. US colonies from Roanoke to Jamestown suffered similar social breakdowns, in environments that were Edenic by comparison.

 

E eis que o editor do The Atlantic tem dois parágrafos de lucidez, depois de já ter passado todo um texto, e ir passar o restante, sob o jugo de uma embriaguez artística. Mas, será que Musk se deixa ficar? Será que Musk alguma vez é capaz de desistir perante as adversidades? Alguma vez ele o fez? Alguma vez ele deixou de frequentar a universidade e tirar vários cursos só porque o pai não era mais do que um engenheiro eletromecânico e a mãe uma modelo e nutricionista? Alguma vez ele baixou os braços depois de ter decidido aproveitar as negociatas dos primórdios da internet e ter feito quase dois biliões com dois websites? Alguma vez ele deixou de comer o pão que o diabo amassou a pedir empréstimos aos amigos para pagar a renda de casa enquanto ele batia recorde atrás de recorde a requisitar calhamaços e engenharia aeroespacial na biblioteca municipal? Nunca! Portanto, virá alguma solução.

 

Some individuals might be able to endure these conditions for decades, or longer, but Musk told me he would need a million people to form a sustainable, genetically diverse civilisation.

‘Even at a million, you’re really assuming an incredible amount of productivity per person, because you would need to recreate the entire industrial base on Mars,’ he said. ‘You would need to mine and refine all of these different materials, in a much more difficult environment than Earth. There would be no trees growing. There would be no oxygen or nitrogen that are just there. No oil.’

 

Ah, esperem, afinal ele tem mesmo solução, e, como não poderia deixar de ser, altamente inovadora. Algo que nunca se viu em milénios de história da humanidade: escravizar as pessoas para acelerarem o trabalho. Portanto, custa terraformar Marte? Ah, pois custa, e ele não o nega! Meus amigos, quem melhor para arregaçar as mangas e trabalhar horas extra do que os grandes paladinos do capitalismo que o fizeram para arrecadar fortunas? Vá, toca a pegar na enxada, que há batatas para semear!

 

Mais uma vez, quem é que isto me faz mesmo lembrar? Foda-se, só me consigo lembrar do Jim Jones!

 

E, e, e, atenção, não podemos deixar passar esta parte em falso. Onde é que ele foi buscar o número de 1 milhão de pessoas como o mínimo necessário para colonizar Marte? Porque, segundo o próprio, é o necessário para ter uma civilização com suficiente diversidade genética. Portanto, subam a bordo da nave espacial de Musk, rumo à terraformação de Marte, ao trabalho escravo, à renúncia de todos os bens materiais e…à eugenia encapotada. Bem diz o gajo que escreveu o artigo que ele é uma espécie de Moisés a levar o povo eleito para a Terra Prometida. Ah ah! Julgam que brinco? Então, levam já com a parte final do artigo, antes de eu continuar:

 

But he seems to see himself as a Moses, someone who makes it possible to pass through the wilderness – the ‘empty wastes,’ as Kepler put it to Galileo – but never sets foot in the Promised Land.

 

Vá, quando eu fizer piadas, não digam que sou eu que tenho mau feitio, porque, no fundo, até nem fui eu que as inventei. LOL!

 

After talking with Musk, I took a stroll through his cathedral-like rocket factory. I wandered the rows of chromed-out rocket engines, all agleam under blue neon. I saw white tubes as huge as stretched-out grain silos, with technicians crawling all over them, their ant-farm to-and-fro orchestrated from above, by managers in glass cube offices. Mix in the cleanroom jumpsuits and the EDM soundtrack, and the place felt something like Santa’s workshop as re-imagined by James Cameron. And to think: 12 years ago, this whole thrumming hive, this assembly line for spaceships, did not even exist, except as a hazy notion, a few electrified synapses in Musk’s overactive imagination.

 

Momento “pita histérica” do editor do The Atlantic. Eh pá, sim, já percebemos que tens sonhos molhados com o Elon Musk e que o vês como o Moisés, mas, por favor, baixa um pouco o tom de voz, que o que já começa a ressentir-se são as minhas sinapses da matéria cinzenta.

 

No entanto, não esqueçam, nunca, e que é a mensagem derradeira que o autor voz quer transmitir, de que tudo isto provém exclusivamente do génio de Elon Musk.

 

I asked Musk if he’d made peace with the possibility that his project could still be in its infancy, when death or infirmity forces him to pass the baton. ‘That’s what I expect will be the case,’ he said. ‘Make peace with it, of course. I’ve thought about that quite a lot. I’m trying to construct a world that maximises the probability that SpaceX continues its mission without me,’ he said. I nodded toward a cluster of frames on his wall, portraits of his five sons. ‘Will you give it to them?’ He told me he had planned to give it to an institution, or several, but now he thinks that a family influence might be stabilising. ‘I just don’t want it to be controlled by some private equity firm that would milk it for near-term revenue,’ he said. ‘That would be terrible.’

This fear, that the sacred mission of SpaceX could be compromised, resurfaced when I asked Musk if he would one day go to Mars himself. ‘I’d like to go, but if there is a high risk of death, I wouldn’t want to put the company in jeopardy,’ he told me. ‘I only want to go when I could be confident that my death wouldn’t result in the primary mission of the company falling away.’ It’s possible to read Musk as a Noah figure, a man obsessed with building a great vessel, one that will safeguard humankind against global catastrophe. But he seems to see himself as a Moses, someone who makes it possible to pass through the wilderness – the ‘empty wastes,’ as Kepler put it to Galileo – but never sets foot in the Promised Land.

And he can preach. He says we are doomed if we stay here. He says we will suffer fire and brimstone, and even extinction. He says we should go with him, to that darkest and most treacherous of shores. He promises a miracle.

 

Portanto, temos, como já se tinha visto, Moisés, Terra Prometida e…nepotismo. Nepotismo porque, claro está, em quem mais confiar para legar a salvação da humanidade do que os próprios filhos. Quem é que é o maluco que pensaria em deixar as empresas a uma instituição ou várias, que não fariam mais do que espremer o lucro? Quem é que é o maluco que vai na conversa do setor privado? Hum…

 

Este artigo até poderia parar por aqui, mas onde é que se encaixa tudo aquilo que eu tinha referido anteriormente (Tesla Motors, Gigafactory, Powerwall, supertelhas, Hyperloop) na simulação em que Musk diz que vivemos, e que a Google já pagou a engenheiros de computadores para tentarem hackear o sistema e libertar-nos dela (não acreditam? Vejam a palestra do Maciej, que vos deixei acima), e num Universo que é muito maior do que os problemas mundanos do minúsculo mundinho humano, acima do qual está, claramente Musk, como o Moisés do capitalismo?

 

Eh pá, para mim, e depois de saber que ele defende o RBI, não são mais do que manobras de distração, e até porque ele é o Obama do sistema empresarial, o Iron Man do empreendedorismo (é ele próprio que o diz) para manter o pessoal no geral convencido de que até é possível mudar o mundo por esta via, e os millennials que andam para aí a trabalhar na impressão 3D, na nanotecnologia, no ativismo verde e a criar revistas do Instagram, podem estar descansados, podem continuar a consumir produtos derivados de um sistema insustentável, porque o seu status moral já está a um tal nível que eles estão ilibados de toda a merda que lhes apeteça fazer, qual Napoleão ou César. Para além disso, até deus, até deus!, não se preocupava apenas com o Povo Eleito, mas sim com toda a humanidade, afinal todos eram seus filhos e todos somos irmãos uns dos outros, nesta bagunça incestuosa em que vivemos. Quem disse que alguém que tem uma fortuna superior ao PIB de muitos países do terceiro mundo não pode nutrir empatia por pessoas incapazes, por pessoas a quem faltam as características para se tornar pessoas distintas neste mundo selvático? Não, não, nada disso. Agora, entretenham-se a consumir os meus produtos super híper mega ambientalistas, que vos exoneram de quaisquer outros tipos de preocupações em relação aos vossos restantes irmãos, e, entretanto, fiquem aí a entreter-se com dinheiro oferecido, também para gastarem nos super híper mega produtos, quais velas acendidas aos santinhos, que salvarão este mundo, enquanto o Musk prepara a sua grande fuga para Marte, com o bolso cheio de 500000 dólares de cada uma das pessoas que compõem o milhão do Povo Eleito, e as vai submeter a trabalho escravo e, possivelmente, fazer beber um suminho de laranja com aditivos, que o que seria do Universo sem a consciência que adquiriu através da raça superior dos seres humanos e, ainda mais importante do que isso, sem um sistema para explorar insustentavelmente os recursos de todos os planetas pelos quais se espalhar? Vá, mãos à obra, toca a contribuir para a economia a explorar terceiros para fazer dinheiro suficiente para migrar para um novo planeta e usufruir de uma vida de luxo e requinte a trabalhar como escravo no local mais exótico da história da humanidade, ou a consumir para dinamizar a economia!

 

Musk nas alturas! Amém!

 

Ricardo Lopes

 
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Nelson Nunes – o aldeão na metrópole, por Ricardo Lopes

 

 

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE 

 

Ora bem, este texto refere-se a alguém que, provavelmente, ninguém, ou quase ninguém, conhece. E, ainda bem. Aliás, ainda bem que quase ninguém me conhece também. Só tenho pena que não haja mais pessoas a conhecer a ciência em que me baseio para escrever praticamente todos os meus textos, porque nem fui eu que tive o colossal trabalho de produzir centenas de anos de conhecimento nem o mérito particular de ser um cientista de profissão, apenas de formação. A questão do problema das autoridades e da propriedade intelectual será, provavelmente nos próximos tempos, tema para um texto da minha autoria, porque na era do open-source e da Big Data continuar a ter uma atitude de devoção para com pessoas é ridículo, retrógrado e constitui um grande golpe na progressão da aquisição de conhecimento sobre o mundo em que vivemos (ou o universo, se quiserem) e o desenvolvimento tecnológico.

 

Posto este pequeno aparte introdutório, vou passar a escrever sobre alguém que merece a pena tratar, não devido ao facto de ser uma personalidade particularmente distinta ou influente, mas devido ao protótipo que representa. E pretendo referir-me a este senhor, também porque, mais ou menos, tem tempo de antena na praça pública para andar a debitar as suas contradições e, como interessado em sociologia, aprecio o asseio da praça pública.

 

Nelson Nunes é alguém que escreve para o P3 do Público e, ao que parece, publica livros sobre temas do maior interesse público, como a liberdade que os humoristas podem ter para ofender quem quer que seja.

 

Agora, do que é que ele é o protótipo? É o protótipo do cagão que passa texto atrás de texto a falar acerca daqueles que considera distintas personalidades da praça portuguesa e que conheceu de uma forma mais ou menos pessoal. É o protótipo do cagão que passar texto atrás de texto a referir que lê muito e/ou a quantidade de livros que lê durante um determinado período de tempo. O mesmo faz em relação a outras formas de arte cujo consumo é possível contabilizar. É o protótipo do cagão que pode moralizar quem lhe apetece, pode inclusivamente camuflar insultos a outras pessoas, sem perder a oportunidade para mostrar como ele é que sabe fazer a adequada seleção de tralha para consumir, desde música, a literatura, a filosofia e, se calhar, que sinceramente não me lembro de ver tal coisa, de autores científicos. É o protótipo do menino mimado que pensa ser um grande entendido num assunto por ter lido a primeira coisa que lhe apareceu à frente sobre tal, mas que se nega a admitir erros. É o protótipo do menino mimado que saca de rótulos para toda a gente que comenta algo contra o conteúdo dos seus textos (e não contra a pessoa em si), principalmente “hater”. É o protótipo do egocêntrico que apenas consegue produzir texto que gire em torno de si próprio, dos seus gostos, das suas impressões sobre os mais variados assuntos, que os divulga em praça pública e que não tolera críticas. É o protótipo do egocêntrico para quem tudo o que ele diz, ainda que afete outras pessoas, é válido, mas que bloqueia na sua página de autor quem o afronta diretamente.

 

Bem, vamos seguir para exemplos, até porque cada um deles é bem mais ilustrativo da enumeração de características que fiz do que qualquer explicação que eu possa fazer.

 

O senhor é autor de textos nos quais se apresenta como autoridade máxima na determinação do que é boa ou má arte (aqui, aqui). E os textos linkados são apenas dois exemplos dos momentos típicos de cagão, nos quais Nelson Nunes puxa da soberba e do sticker com a lista de nomes de autores dos quais já leu algo e gostou, e desata a inferiorizar intelectualmente quem aprecia autores (ainda por cima artistas ou filósofos, que são dois dos grandes grupos de ditos intelectuais que vivem de produzir acerca de si próprios e das suas impressões sobre o mundo e as outras pessoas) que ele condena categoricamente como “lixo”, ao mesmo tempo que dá numa de guru para orientar as pessoas para os autores da verdadeira literatura, de acordo com os seus próprios critérios subjetivos e que ninguém conhece, nem interessa conhecer, uma vez que se poderiam trocar por quaisquer outros. Portanto, a Nelson Nunes não interesse aproveitar o facto de ter tempo de antena em praça pública para criticar o conteúdo produzido por pessoas influentes e indicar as suas falhas, ideias perigosas que veiculam, etc. Não, a ele interessa prestar-se ao trabalho de autoridade intelectual, considerando os seus critérios subjetivos como sendo objetivos, e tratando de condenar, de uma forma moralista e paternalista, quem não segue a palavra dos seus messias e não de outros. Aliás, até acaba por ter graça como os artistas não se apercebem que as guerrinhas em que entram uns com os outros são exatamente iguais às guerrinhas em que os teólogos entram, para tentar convencer toda a gente que um livro ficcional é melhor do que outro. E, claro, nesta senda, qual é a melhor estratégia retórica a empregar, e da qual Nelson Nunes se socorre frequentemente? Argumentos de autoridade. Ora, então, vamos lá pegar neste e naquele autores, relembrar as suas ideias, ou uma pequena citação dos próprios, para mostrar que, só por dizem isto, é verdade. O facto de soar bem ao Nelson Nunes coloca o que eles dizem ao nível de conhecimento baseado em evidências que, aliás, é a única forma de conhecimento possível, caso contrário voltamos ao problema das guerrinhas de livrinhos ficcionais, em que é cada um a tentar convencer que o que tem na cabeça se aproxima mais da realidade do que o que os outros têm, por mera via da dialética, ao invés de validar empiricamente o conhecimento. Também por isso é que, não só ele constrói a autoridade das pessoas que refere, através da forma como se refere a elas, como se apresenta a ele próprio como autoridade, por reconhecer e conhecer a autoridade dessas pessoas e por fazer questão de, vez após vez, dizer que privou com determinadas pessoas, leu toda a sua obra e que lê muito e vê muita coisa. Primeiro, constrói-se a própria figura de autoridade, depois tenta-se impingir sobre os outros, e, então, já se pode largar em praça pública tudo aquilo que vem à cabeça e que soa bem como se correspondesse a algo de real.

 

Outro tema recorrente nas crónicas de Nelson Nunes é a morte, o medo que ele tem dela, a explicação desse medo e a forma como lida (ou não) com esse medo. E, porque é que me refiro a este assunto? Porque o menino, tal como disse em algum sítio que não calha agora recordar, usa do humor para lidar com os seus afrontamentos psicológicos em redor da morte. E, é principalmente por isto que, já que determinadas flores de estufa que andam para aí armados em grandes pimpões fazem humor em torno da morte, mas calha que fazem também humor ofensivo sobre grupos sociais compostos por pessoas que são vítimas deste sistema, então tem que se aceitar o pacote completo. O menino aprecia humor negro porque o ajuda a lidar com aquilo que, pelos vistos, nem a arte ajuda (e claro que não ajuda, mas isso é tema para outro texto), e não admite que tentem assear a praça pública do restante humor grunho e ofensivo que os seus adorados ídolos produzem. Mais uma vez, tudo a revolver em torno do próprio, tudo questões de ego.

 

O problema das ofensas, principalmente quando são perpetradas por alguém a quem é dado o privilégio de ocupar espaço na praça pública, é um problema, sim. Mas o Nelson Nunes, tal como faz com outros temas, gosta de enfiar tudo no mesmo saco (gosta de fazer generalizações), porque generalizações são uma boa maneira de branquear ignorância sobre assuntos que são muito mais complexos do que a informação de que dispomos leva a considerar. O problema do politicamente correto não está na condenação aberta de pessoas que influenciam a sociedade em larga escala e que aproveitam esse privilégio para promover formas de comunicação altamente prejudiciais e que, ao invés de contribuírem para a resolução de conflitos e a promoção da comunicação entre pessoas de diferentes grupos sociais – isso, sim, progressista -, contribuem antes para a normalização de formas de expressão que promovem a discórdia e minam a coesão social. O que este senhor também parece não conseguir perceber é que a coesão social não tem nada a ver com a homogeneização das pessoas e a aniquilação individual – que, curiosamente, é algo para o qual ele parece querer contribuir quando quer toda a gente a ler, a ver e a gostar das mesmas coisas que ele. Ou, então, não, já que ele já de contradisse algumas vezes. -, mas sim com a possibilidade de convivência com pessoas diferentes. E, sim, isso implica compromissos e cedências entre todos. Implica respeitar a integridade alheia, física e psicológica. E isso não é promovido por pessoas inflexíveis que insistem em perpetuar uma forma de expressão desatualizada. Mas este senhor vive na ilusão criada pelos progressistas modernos de que a liberdade para ofender terceiros é algo que se obteve recentemente, de um ponto de vista histórico? Isso sempre existiu. Desde que existem normas sociais que sempre se aceitou que determinados grupos fossem alvos de ataque. E, dentro dos diferentes grupos sociais, sempre se aceitou que todos os outros, exceto o próprio, fossem alvo de ataques. Aliás, é também a linguagem que se usa que conduz a conflitos e a guerras, a indisposição para o diálogo. Mais ainda, e já que o senhor gosta tanto de dar uma no cravo e outra na ferradura, e também já tratou de redigir textos a condenar aqueles que considera serem os verdadeiros terroristas, como este, o facto de as pessoas não se disporem a ouvir aqueles que a sociedade estigmatiza e ostraciza é, também, uma das principais razões pelas quais existe radicalização. Mas, mais uma vez, de certeza que é algo que este senhor desconhece.

 

Nelson Nunes também teima em confundir “senso comum” ou “bom senso” com sabedoria, o que soa bem com o que é verdade ou corresponde a algo de real e tem uma capacidade bastante precária para, perante assuntos que desconhece, avaliar sequer o assunto que é tratado numa determinada exposição, oral ou escrita, como acontece quando, por exemplo, afirma que, neste vídeo, Zizek diz algo de relevante acerca de debate entre a agricultura biológica e os organismos geneticamente modificados (que, aliás, ele designa de “alimentos”, porque nem ele sabe distinguir uma coisa da outra, muito menos se está para preocupar com rigor), quando Zizek nem sequer é capaz de expor as diferenças entre uns produtos e outros e, como o próprio diz, isso nem interessa para a questão.

 

Mas, aquilo em que realmente Nelson Nunes mais dá pontapés, e ainda por cima sem se aperceber, uma vez que me respondeu uma vez que lê ciência, mas não a ciência que eu leio, é…a ciência. Já redigiu um texto no qual afirmava, com base num artigo fracamente redigido e completamente infundado, que curiosamente reparei que, entretanto, removeu o respetivo link da crónica, que “Sim, eu disse plantas, e se vêm já com essa cena de as plantas não terem sensações, desamparem a loja: há cientistas que dizem que as plantas têm sistema nervoso central e que sofrem muito quando lhes arrancamos uma folha.”. Eu nem sequer vou entrar aqui na explicação científica para o facto de o que ele diz não ter o mais mínimo fundamento. Se vos interessar, podem ler os comentários que eu fiz à crónica, porque contêm o essencial. O que interessa mesmo é o completo desconhecimento que este senhor demonstra em relação ao método científico. “Há cientistas que dizem (…)”. Pois, e há gente que diz muita coisa. A questão é que ciência não se faz com base em cherry-picking daquilo que nos soa bem, que vai de encontro às nossas crenças ou preconceitos, ou que dá jeito para, mais uma vez, atribuir força autoritária a um texto para o qual já vamos lançados para provar que aquilo que temos na cabeça corresponde a algo de real. A ciência não é uma democracia, em que cada um manda o bitaite que lhe apetece e no fim faz-se uma votação e o bitaite que tiver mais votos adquire o estatuto de teoria. Aliás, este senhor nem sequer deve conhecer o conceito de “teoria” em ciência, que é completamente diferente de uma teoria de qualquer outra área intelectual, na qual basta redigir um texto coerente sobre determinado assunto para se considerar tal como informação relevante acerca do assunto. Nisto, até aproveito para deixar aqui dois links para dois artigos essenciais, redigidos por um cientista a sério, acerca do método científico e em que princípios se baseia: aqui e aqui. E, já agora, deixo também, embora não o costume fazer, o link para um artigo da minha autoria acerca do problema do “senso comum”, da “razão” e da “lógica”, que não foi redigido com base no mérito que tive em construir este conhecimento, mas sim através do simples ato de me informar.

 

Outro tipo de ciência à qual Nelson Nunes gosta de andar aos pontapés, mais uma vez baseando-se na sua incapacidade total de distinguir aquilo que é baseado em evidência do que não é, aquilo que corresponde a algo de real ou não, é a sociologia, algo que já exemplifiquei quando me referi ao humor que ele defende, mas que ficou mais do que bem patente nesta crónica. Uma crónica na qual, curiosamente, foi alvo de críticas acérrimas de feministas a sério, e não daqueles/as feministas dos quais traçam o perfil em esplanadas de tascas e forçam a generalização entre todos/as os/as outros/as. Aliás, como eu já aqui disse, a generalização é uma arma essencial na construção do discurso do Nelson Nunes. “Precisamos de olhar para as mulheres como bichos encantadores, que é o que são.”, afirmação do próprio, que ele não é capaz de reconhecer como paternalista e como se referindo às mulheres como elas sendo o que lhes é ditado pela cultura de género, que é um dos principais alvos dos/as feministas. Não, para o Nelson Nunes, a mulher é um ser com determinadas características – e calha que são as típicas características de donzela em apuros e ser frágil que precisa de ser protegida e tratada de uma forma indulgente paternalista pelo homem – e o homem outro ser com outras determinadas características. Isto, claro, porque o senhor, como grande consumidor de arte e de demais baboseiras ideológicas, é grande apreciador de verdades universais, e, apesar de dizer que lê ciência – não se sabe bem é qual, muito mais até se duvida seriamente que tenha capacidade para a interpretar -, e que a arte e a filosofia, entre outras atividades baseadas puramente em ideias não validadas empiricamente e, portanto, não correspondente a nada de real, abrem a mente, continua enterrado até ao pescoço em estereótipos. Porquê? Porque, para facilitar a produção artística, e porque os artistas apenas se podem reportar a eles próprios, precisam, como do pão para a boca, de generalizações e de acreditar que aquilo que sentem pode ser projetado nos outros e que se se comportam de determinada maneira motivados por determinadas coisas, então se observam comportamentos semelhantes nos outros as motivações terão de ser necessariamente idênticas. Enquanto que nas ciências sociais se aprende que nada no comportamento humano é universal, nem sequer a expressão de emoções e que as palavras que as pessoas usam para se reportarem ao que sentem representam a mesma coisa em duas pessoas diferentes. Portanto, parabéns à grande abertura de mente que a intelectualidade ideológica permite. Aliás, como bom amante das artes, Nelson Nunes não poderia deixar de acreditar no amor romântico, não é?

 

Tudo o que referi, mais o facto de ler tanto mas continuar agarrado ao tal “senso comum”, que o faz ficar agarrado ao conhecimento popular, como se pode ver aqui, reforçar a associação entre os sentimentos positivos provocados por algo e a sabedoria (aqui) e não perder a oportunidade de se apresentar a ele próprio como exemplo perfeito de portador de características de alguém vencedor (aqui), como se merecesse ser ele mais guru do que o Gustavo Santos de quem passa a vida a falar mal e é frequentemente exemplo do que despreza nos seus textos, ao mesmo tempo que redige ele as suas próprias versões da forma como considera que as pessoas devem encarar a vida, como devem enfrentar os desafios, lidar com a morte, e toda uma panóplia de textos dignos de livros de autoajuda. Não, ele não consegue perceber que aquilo que ele faz é exatamente igual ao que o Gustavo Santos faz, embora com impacto social diferente, porque se trata de alguém lidar com o que lhe acontece na vida, ou lhe vai na cabeça, de determinada maneira e querer ir transmitir aos outros o grande “Segredo” que descobriu do qual toda a gente precisa de saber.

 

Só para terminar, uma mostra da hipocrisia do “moço”, como ele gosta de chamar a outros para se armar ao popularucho, como fazem outros seus grandes adorados, como o Marcelo Rebelo de Sousa.

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“é o meu olhar que tem de se adaptar à realidade”. Hum, a sério? E quando vais fazer cherry-pucking de informação para validar as tuas próprias ideias sobre um determinado assunto? Interessa-te a realidade ou, antes, confundes o que tens na cabeça com a realidade e, depois, a única coisa que fazes é ir à procura de informação que a validade e rejeitar o resto?

 

E, enfim, sobre o resto já falei, e deixo aqui apenas mais informação acerca do verdadeiro problema dos progressistas (associados ao politicamente correto) e do Trump.

 

Ricardo Lopes

 
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Xutos & Pontapés oferecem o cu ao Império, por Luís Garcia

 

  Desespero Mediático 16

Xutos & Pontapés oferecem o cu ao Império

 

Luís Garcia POLITICA SOCIEDADE  

 

Choradeiras mediáticas 

O desespero mediático costuma ser sobretudo provocado pelos media mainstream. No entanto nos últimos dias temos apanhado com mediatizações desesperantes vindo de actores e cantores.

 

A prostituída e muito boa actriz Meryl Streep veio com a sua choradeira anti-Trump que nem sequer começou a governar mas, no entanto, é uma amigalhaça da senhora Hillary que, como provam os documentos sacados pela Wikileaks ao DNC é responsável directa pelo financiamento e criação do ISIS, e mais, Meryl Streep Choradeiras nunca se mostrou muito impressionada por factos como: Obama ter invadido mais países que Bush, Obama ter morto imensamente mais civis inocentes com drones do que Bush, Obama ser o recordista de exportação de armas desde a 2ªGGM, Obama ser o recordista absoluto de investimento em bombas nucleares, Obama ter expulsado mais imigrantes ilegais do que Bush... ahhh, grande dama de ferro quando convém!

 

A Madonna veio dizer que a eleição de Trump é como estar "preso num pesadelo"! Tadinha! Sim, vai ser um pesadelo para gente hiper-privilegiada viver num país governado por Trump! Não, os 8 anos de Obama à frente do Império da Guerra não foram um enorme pesadelo para os muitos milhões que vivem no Afeganistão, Paquistão, Síria, Iraque, Líbia, Iémene, Sudão, Honduras, Haiti, Venezuela, Ucrânia, etc. Não, invasões, golpes de estado, tentativas de golpes de estado, guerras económicas e embargos, infiltração de mercenários terroristas ao milhares matando, torturando, roubando, destruindo, escravizando, violando, vendendo pessoas como se fossem gado, etc, não, não foi um pesadelo para ninguém!  

 

E depois ainda houve aquele molho de lobotimizados cantores que se lembraram de cantar I Will Survive, como quem diz que irá sobreviver à presidência do cavaleiro do Apocalipse chamado Trump! Jurem, um bando de privilegiados milionários irão sobreviver? Ahhh, que espanto! e os iemenitas, puderam sobreviver aos 100 biliões de dólares de armamento que Obama vendeu à invasora Arábia Saudita? Não! E os sírios, puderam sobreviver ao Estado Islâmico cuja criação foicomprovadamente planeada e financiada - em conjunto com outras pessoas - pela senhora Hillary Clinton? Não! Como esta gente vive numa absurda realidade paralela!

 

E agora só faltava que, no rectângulo sossegadinho à beira-mar plantado, aparecessem os Xutos & Pontapés fazendo campanha mediática pela organização terrorista White Helmets, secção de relações públicas da al-Qaeda! Como? Olhem para as imagens do vídeo-clip, são quase todas obra dos White Helmets, começando por aquela grotesca falsa notícia sobre o puto sentado na cadeira laranja! Como? Usando como fonte de texto para a letra da canção a suposta conta Twitter de uma menina síria, Bana Alabed, uma pobre miúda usada como cara para propaganda vergonhosa graças ao seu pai membro da al-Qaeda! Ahhh, bravo Xutos, grandes inspirações! Só falta agora é darem um concerto ao vivo, gratuito, em Idlib, em homenagem às "vítimas dos barris-bombas do sanguinário al-Assad"! Que dizem?

 

 

Bana Alabed com "d"

Não, a sério, vamos lá ver o que propuseram os Xutos & Pontapés à malta tuga! Começando pelo início, sinceramente, nem no nome da miúda síria acertam, e não me venham falar em erros tipográficos pois escreveram Bana Alabeb com "b" várias vezes, um pouco por todo lado, em vez de escreverem Bana Alabed com "d". Verificação de factos? Vamos lá. Vejamos a conta twitter da miúda aqui e vejamos as 2 imagens no slideshow abaixo retiradas das contas facebook e youtube dos Xutos & Pontapés:

 

 

Quanto à menina, vejam o excelente ambiente familiar e as magníficas relações pessoais em volta de Bana Alabed, A Menina de Aleppo:

 

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Sim, A Menina de Aleppo não tem culpa nenhuma, concordo, mas não é estranho encontrar o seu pai armado e rodeado de "rebeldes" terroristas da al-Qaeda? Ou pousando para a fotografia com armas e o logo do ISIS? E que dizer da família de Bana Alabed  toda reunida e acompanhada por bandeiras da Turquia, pelo senhor Erdogan presidente da Turquia e pela esposa do senhor Erdogan? Mas anda tudo cego?

 

Então a miúda tem uma conta Twitter que foi criada no Reino Unido, consegue publicar todos os dias a partir de um local sem electricidade (quanto mais internet de ligação rápida), escreve inglês melhor que Shakespeare, ousa dizer que preferia que houvesse uma 3ª guerra mundial do que ver a sua Aleppo destruída, quando lhe escrevem em árabe da síria responde em inglês, recusa ajuda para sair em segurança e ao mesmo tempo publica vídeos fazendo choradeiras de "último dia de vida", sai de Aleppo pelo corredor de segurança oferecido pelo governo e na companhia de terroristas da al-Qaeda que se deslocavam para Idlib e de repente aparece em Ancara na companhia do terrorista Erdogan! Mas está tudo parvo ou quê? Nem me alongo mais, pois já foi tudo dito. Leiam o meu artigo Síria, acreditar em quem? (parte 3) ou, bem melhor, leiam os artigos da Sputnik e da 21stcenturywire onde esta estória da treta é desmontada de ponta a ponta:

 

 

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Estão a ver as 2 fotos acima? Na primeira aparece Bana Alabed na companhia de um amigo do seu papá, aquando da saída de Aleppo nos autocarros destinados exclusivamente aos "rebeldes" terroristas. Nada de espantar, tendo em conta que o seu papá e os amigos do seu papá aparecem inúmeras vezes na companhia de membros de al-Qaeda, dos Estado Islâmico e outras organizações terroristas.

 

Estão a ver a segunda foto? Ora pois nesta aparece de novo o amigo do papá de Bana Alabed minutos antes de participar na decapitação de uma criança palestiniana de 12 anos cujo "crime" foi ter um pai pró al-Assad e anti terroristas como estes do bando al-ZInki.

 

Não acreditam? Vejam no vídeo abaixo o que fizeram os membros do al-Zinki (sub-grupo da al-Qaeda), e descubram que o senhor que levava Bana Alabed ao colo, também é gajo para se divertir a degolar vivas crianças inocentes:

 

O puto da cadeira cor-de-laranja 

Depois, que tremendo falhanço, a primeira imagem do vídeo-clip é aquela da farsa do puto não-ferido sentado numa cadeira laranja, filmado e fotografado por um conhecido e reconhecível membro da al-Qaeda (e dos White Helmets), o senhor Mahmoud Raslan! Mas há meses que esta grotesca mentira foi desmascarada e os Xutos & Pontapés têm o desplante de usar a falsa foto da al-Qaeda como PRIMEIRO frame do seu novo vídeo-clip? A sério!

 

Não acreditam? Ahhh, ora leiam este artigo em PORTUGUÊS e analisem com atenção todos os factos disponibilizados:

 

FAKE NEWS - tadinho do puto da cadeira laranja 

FAKE NEWS - tadinho do puto da cadeira laranja

 

As fotos dos White Helmets

E o resto das fotos, que dizer delas? Para começar posso garantir-vos que conheço de cor quase todas, sobretudo graças à exaustiva pesquisa que foi necessária realizar para escrever dois artigos sobre os White Helmets. E sim, as fotos são quase todas dos White Helmets!

 

White Helmets, humanistas ou terroristas? Parte 1 

White Helmets, humanistas ou terroristas? Parte 1

 

 White Helmets, humanistas ou terroristas? Parte 2

White Helmets, humanistas ou terroristas? Parte 2

 

Poderia dizer muitíssimo mais sobre a mais que comprovada mentira que são os "humanitários White Helmets", que são, isso sim, uma mais que comprovada organização terrorista comprovadamente financiada pelos EUA, Reino Unido e França! Não vale a pena dizer muito mais, já foi tudo bem explicado em PORTUGUÊS e bem documentado nos dois artigos que acabei de partilhar acima deste parágrafo. 

 

O palhaço do Palhaço de Aleppo

Para acabar em grande (merda) não podia faltar, pois claro, o não-palhaço de Aleppo, o tal Anas al-Basha que nunca ninguém viu vivo ou morto, nem ninguém viu o míssil russo, nem o local onde caiu o míssil, nem a porra da cratera provocada pelo tal míssil. Enfim, propaganda barata atrás de propaganda barata. Se esta malta das patadas e patadas, em vez de lamber o cu ao império da guerra e da barbárie fossem, por exemplo, ver quem é e o que faz o suposto irmão do palhaço e membro da al-Qaeda, o senhor Mahmoud al-Basha, talvez fizessem figuras menos tristes.

 

 Uma perspectiva crítica sobre o "Exército de Aleppo"

Uma perspectiva crítica sobre o Exército de Aleppo

 

 A letra da música

Epá, cliché atrás de cliché de meter nojo! Então e Tripoli, ou Cabul, ou Sana, ou centenas de outras cidades, vilas e aldeias diariamente bombardeadas pelo império? Nada não é, pois os rocalheiros tugas "do contra", em sintonia com os mainstream media mentirosos decidiram fazer mais do mesmo: repetir de forma pueril a propaganda do império! Epá, parabéns pelo feito! Que vendidos, cantando sobre falta de água mas não explicam que as condutas de água de Aleppo foram destruídas há 4 anos pelos terroristas "rebeldes libertadores" e que agora sim estão a ser reparadas pelo governo do "sanguinário" al-Assad. Falam de falta de água, que vergonha, na precisa altura em que 5 milhões de pessoas em Damasco não têm acesso a água graças à gasolina que os "rebeldes" terroristas despejaram nas condutas e graças aos explosivos que os "rebeldes" terroristas utilizaram para destruir as condutas que saem da barragem de Wadi Barada. Felizmente o exército sírio recuperou ontem parte da zona onde se encontra a barragem e promete que a água voltará em breve a Damasco. Mas isto não interessa aos Xutos nem a ninguém. Vá, ide tudo a assapar nos vossos carrinhos que funcionam a combustível roubado pelo ISIS aos sírios enquanto ouvem, com o volume das colunas no máximo, esse asqueroso vómito musical propagandista cantado pela marioneta do dia, o senhor Tim! 

 

Por fim, só queria informar que os Xutos & Pontapés, como são gente 5 estrelas e perante os inconvenientes factos comprovados que partilhei na sua conta facebook de forma a informá-los a eles e aos seus seguidores que os autores das fotos do vídeo-clip são membros de uma organização terrorista, ... pois claro, bloquearam-me! Como dizia o Cavaquinho, "há que alcançar o consenso", e não há forma mais eficaz do que calar (ler censurar) quem não papa as mentiras-verdades-oficiais! Parabéns pela censura, sois os maiores!

 

Luís Garcia, 14.01.2017, Chengdu, China

 

leia mais artigos de Desespero Mediático aqui 

 

 

 
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O que Trump representa para os progressistas, por Ricardo Lopes

 

 

O que Trump representa para os progressistas

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE POLÍTICA

 

Neste artigo, vou esmiuçar a histeria coletiva que se gerou recentemente em torno, primeiro da candidatura de Trump à presidência dos EUA, e depois da sua eleição.


Ora, para perceber a reação ao fenómeno “Trump”, é preciso perceber aquilo que representou e em que se tornou e a forma como cresceu o fenómeno “Obama”, e é preciso enquadrar os discursos progressistas e esquerdistas no quadro dos valores culturais atuais.


É comum ouvir dos progressistas modernos que a humanidade conseguiu grandes feitos, principalmente nos últimos 200 ou 200 e tal anos. Por exemplo, que acabou com a escravatura, que se instaurou a democracia de uma forma mais ou menos generalizada pelo mundo inteiro, graças à revolução francesa, que acabou o racismo, entre outras histórias da carochinha lindas para adormecer as crianças entre os 2 e os 7 anos à noite.


O que representou Obama? Obama foi o orquestrador perfeito (melhor teria sido quase impossível) de um processo de branqueamento do estado atual do mundo moderno, sob o sistema vigente do capitalismo. Obama foi o pretinho, que por ser pretinho, ninguém considerado “decente” podia criticar. Obama transformou uma coisa chata, enfadonha e muito difícil de compreender como a política numa coisa “cool”. Transformou a imagem do político como alguém série, muitas vezes sisudo, a recorrer a linguagem complicada de decifrar, numa estrela pop. Obama foi o político dos talk shows, dos discursos humorísticos, das paródias familiares, da abertura de portas da casa branca à populaça, das redes sociais.


Mas Obama, para os progressistas, através disso, representou algo muito mais profundo e importante, aquilo que dá alento a todas as lutinhas grupais ridículas, que é o facto de, finalmente, ter conseguido convencer as pessoas de que o mundo progrediu mesmo, de que o mundo mudou muito, e de que os atuais progressistas vivem num tempo privilegiado. Obama fê-los sentirem-se importantes. Os progressistas atuais, perante a imagem que Obama pintou do mundo e do país mais influente do mundo, sentiram-se os herdeiros do legado de grandes lutadores pelos direitos humanos. Com Obama à proa do mundo, os progressistas acreditaram que, não só era possível melhorar o mundo rápida e infinitamente, como eles poderiam participar, todos, nessa mudança, e imortalizar o seu nome.


O problema é que nada mudou. E é isso que Trump representa. Trump representa o falhanço total de tudo aquilo por que os progressistas acharam estar a combater e a conseguir concretizar, ao longo de 8 anos de Obama, contando já com o legado de franceses, Martins Luther King, Ghandis, Einsteins, John Lennons, Johns F. Kennedy, Malcolms X, Jiddus Krishnamurti, Karls Marx, e toda a panóplia de grandes oradores dos últimos dois séculos. Trump veio negar o mundinho das histórias de carochinha que os progressistas acreditaram existir, mas que nunca passou da cabeça deles.


Trump, acima de tudo, é o político da realidade. As suas ideias e opiniões são as ideias e opiniões de uma esmagadora maioria das pessoas, e que continuarão a ser durante muito tempo, como irei explicar.


Uma das principais armas de que os progressistas sempre se socorreram, e provavelmente a mais usada de todas, foi o sistema legal. Os progressistas que são tão progressistas, são tão ou mais rápidos a condenar o que é diferente deles, tal como os racistas, machistas, homofóbicos, chauvinistas, etnocêntricos, conservadores e retrógrados que tanto acusam de pretender interferir com a vida alheia. Os progressistas que são tão progressistas, e que não perdem dois segundos a apontar o dedo a alguém que consideram ser retrógrado e a acusá-lo de interferir com a vida alheia, nunca perderam dois segundos a condenar a uma vida miserável pessoas que pensavam de forma diferente deles. Os progressistas querem resultados imediatos, porque interessa que seja reconhecido o seu trabalho e a sua luta. E, como é que se conseguem resultados rápidos? Através de imposição, nomeadamente por vida legal. Ora, então, toca a proibir determinados tipos de comportamento.


Agora, isto não só é estúpido, como é altamente injusto e perverso. Os progressistas, que supostamente existem para representar os desfavorecidos, os que não têm voz, por via da sua estupidez, e por mais que tal lhes custe a aceitar, condenam precisamente esses. Os progressistas, que acham que toda a gente tem de papar a ideologia deles, porque só através de tal ideologia é que o mundo pode funcionar melhor do que funcionava antes de eles intervirem, querem saber de tudo, menos de providenciar condições materiais favoráveis à maioria das pessoas. E, mais, querem saber de tudo, menos de melhorar o sistema de ensino, para que as pessoas tenham acesso a conhecimentos relevantes acerca dos vários aspetos da vida em sociedade e do mundo no geral, e de facilitar o acesso das pessoas a esse mesmo sistema melhorado. Não, os progressistas querem resultados rápidos.


Por isso, são tão afins de revoluções, de manifestações, de protestos, de tentar influenciar o poder legislativo. Porque, sabem que mais? Mudar o mundo, como ele deveria ser mudado, dá muito trabalho, e leva muito tempo. Principalmente, leva muito tempo porque teria de se modificar drasticamente a cultura em que vivemos – e falo de uma cultura, porque o sistema é cada vez mais globalizado. Daria tanto trabalho e levaria tanto tempo a fazer, que provavelmente nenhuma pessoa ou grupo de pessoas sozinho o conseguiria fazer e, puf, lá se ia a imortalização com os porcos.


Agora, o Trump deu cabo dessa rica imagem do mundo moderno, da imagem que deu tanto tempo aos progressistas construir, e das ideias que tinham do mundo das quais tiveram tanto trabalho a convencer-se. Não, nós não vivemos num mundo no qual a escravatura acabou. Não, nós não vivemos num mundo no qual o racismo acabou. Não, nós não vivemos num mundo no qual imperam os valores democráticos. Não, nós não vivemos num mundo que cumpre com os direitos estabelecidos na Carta dos Direitos Humanos. Não!, nós vivemos num mundo que é tão primitivo como o mundo era quando alguém decidiu criar a primeira forma de linguagem escrita. Aliás, nós vivemos num mundo que é tão primitivo como o mundo era quando alguém decidiu criar uma forma de comunicar verbalmente. O problema, é que ainda ninguém reparou.


Ou, melhor, não tinham reparado até há bem pouco tempo, e continuam a insistir na sua negação com toda a força. Daí tanta gente agora se manifestar contra Trump, daí terem querido que se fizesse a recontagem dos votos, daí quererem recorrer a todas as vidas possíveis para impedir a sua indigitação. Mas, isso não vai acontecer, por mais que queiram. E, ainda bem que não vai, porque as pessoas precisam de olhar para o mundo tal como ele é. Trump traz consigo a iluminação, e não aquela que os iluminados progressistas disseram possuir durante tanto tempo.


Trump representa o fracasso total das tentativas de mudar o mundo através de discursos orais ou escritos bonitos e bem-sonantes. Trump representa o fracasso total da tentativa fútil dos progressistas de remeterem ao silêncio e ao ostracismo todos aqueles que defendem ideologias opostas.


A sociedade moderna continua carregada de primitivismos, porque a sociedade moderna continua a operar com base nos mesmos princípios de exclusão que todas as sociedades e culturas humanas operaram desde que existe organização e grupos sociais. Lamento, meus caros progressistas, mas o que tentaram fazer, e não resultou, tal como nunca resultou ao longo da história, nem nunca resultará, foi varrer o pó para debaixo do tapete, e deixá-lo lá escondido na esperança de que desaparecesse por si próprio, deixando simplesmente o tempo fazer o seu trabalho. A questão é que o tempo não faz trabalho nenhum. O tempo apenas cria condições para que, mais cedo ou mais tarde, capitalizando momento de descontentamento generalizado, as antigas figuras de proa dos valores que norteavam a humanidade assomem à superfície, em todo o seu esplendor.


Aprendam de uma vez. A sociedade não muda por via de revoluções, porque as revoluções são movimentos exclusivos. As revoluções fazem apenas com que determinados grupos sociais se vejam obrigados a operar na clandestinidade, até que surjam condições favoráveis ao seu ressurgimento e possam retomar o poder.


E, a sociedade não muda por via de imposições. Para além disso, as imposições são absolutamente injustas, porque a maioria das pessoas que carregam valores retrógrados vivem em condições desfavoráveis, tal como já disse.


Muitos sociólogos e historiadores olham para a história humana e veem ciclos que se repetem, e passam a acreditar que é uma questão de destino, de sina, de vontade divina, ou algo que não se pode mudar porque o ser humano é naturalmente de uma maneira ou de outra. Pois, mas eu tenho-vos a ensinar uma coisa: o ser humano não é naturalmente coisa nenhuma. O ser humano é o resultado do ambiente em que vive, das condições de vida que tem, das experiências e das influências que recebe.


A inveja, a avareza, a competitividade, e todas essas supostas vontades de se impor, não são mais do que o resultado da vivência num sistema que opera com base na escassez de recursos, materiais e intelectuais, e com base nas vantagens diferenciais. As vantagens diferenciais constituem tudo aquilo de que determinadas pessoas favorecem por pertencerem a determinado grupo social.


Ora, e se antes as pessoas viviam num sistema no qual a escassez era inevitável, agora vivem num sistema que cria situações de escassez, e é com base nisso que a sociedade opera. A tal ordem social que toda a gente, de todos os polos políticos, almeja, é mantida com base no princípio da criação de condições de escassez artificial.


O que esperam que aconteça, nestas condições?


Por isso, é que a história humana é cíclica. Por isso é que caem impérios, e reinos, e países, e uns tomam poder, para depois serem depostos por aqueles a quem o usurparam. Por isso é que esta fantochada de aparente progresso e constante retrocesso, numa espécie de tentativas frustradas de remendar um sistema obsoleto, para além do progresso tecnológico – que, esse sim, é real – não permite um verdadeiro progresso de valores.


Por isso, meus caros, é que toda a gente ficou muito chocada quando o Trump ganhou, e quando o “Sim” ganhou no Brexit, e quando se gerou uma vaga de xenofobia e discriminação religiosa, e de outros tipos, na Europa, perante uma vaga de refugiados de guerra e económicos.


Agora, se eu gosto do Trump como político? Sim, e não. Não, porque o Trump é um completo retrógrado. Sim, porque o Trump representa a verdade sobre o mundo moderno, com a qual os progressistas não querem ter contacto, principalmente porque é carregada pelos desgraçados deste mundo, os únicos que não têm voz e aos quais nenhum progressista quer dar voz… até que aparece alguém como o Trump, e permite, através da sua campanha e da sua posição privilegiada, que estas pessoas voltem a ter tempo de antena no espaço público. Trump deu voz aos verdadeiros esquecidos deste sistema. Trump deu voz aos desencorajados. Mais, Trump é uma evidência, Trump é honesto, Obama era uma mentira. Trump é muito menos perigoso que Obama. Obama era o palhaço mediático que, tal como qualquer outro palhaço, pintava a cara para ninguém o reconhecer. Por detrás da maquilhagem de pretinho progressista, estava a triste figura de um opressor sanguinário. A triste figura de alguém que, com os seus discursos cheios de floreados e esperança, conseguiu sufocar, vez após vez, os desfavorecidos e desencorajados que são uma maioria nos EUA. A triste figura de alguém que, com as suas atitudes populistas, conseguiu branquear o imperialismo, conseguiu entrar em mais guerras do que qualquer outro presidente da história dos EUA, transformando-as em “luta pelos valores democráticos”. A triste figura de alguém que foi figura de proa de um país onde ainda existe a pena de morte, onde existe a maior população prisional do mundo, onde a esmagadora maioria das pessoas vai parar ao sistema prisional, sem condições para alguma vez conseguir sair de lá, por fazer coisas tão inofensivas como drogar-se, faltar às aulas ou ter de cometer crimes porque não tem outra via através da qual se afirmar socialmente ou ter uma vida digna, um país onde a esmagadora maioria da população tem um acesso altamente precário a cuidados médicos, mesmo que pague um seguro de saúde, um país onde minorias são maltratadas e votadas ao desprezo desde que alguém se lembrou de as explorar e roubar-lhes a terras, como os pretos, os nativos americanos, os hispânicos, etc.


Admiram-se realmente que pessoas pertencentes a minorias tenham aderido tão facilmente à campanha do Trump? Meus caros, o Trump fez a campanha que lhes deu voz! Aquelas são as ideias de pessoas que vivem em condições desfavoráveis!


Podem vociferar o que quiserem, podem tentar ir atrás dos discursos bonitos que quiserem, mas as pessoas que carregam as ideologias do Trump não o fazem porque são merdosas, mas sim porque sofrem muito neste sistema! Vão estudar sociologia, mas a verdadeira, não a da serpente, ou dragão, de Ouroboros, que anda a morder a própria cauda, como que a cumprir com uma profecia demoníaca da qual não se consegue libertar?


Onde proliferam más ideias? Onde é que as pessoas mais facilmente aderem à religião? A que grupos sociais pertencem as pessoas que, estatisticamente, cometem mais crimes considerados violentos?


Foi a esta gente que Trump deu voz! Trump deu voz aos desfavorecidos! Trump não deu voz aos privilegiados, estragados pela forma como foram criados e educados. Não! Trump deu voz aos desfavorecidos! Por isso, é que deu voz a uma maioria!


A esmagadora maioria das pessoas neste mundo vive em condições precárias. Do dito terceiro mundo, acho que nem preciso de falar. Mas, no primeiro mundo, há cada vez mais pessoas que lutam para conseguir manter-se vivas e, muitas outras que, não lutando propriamente para sobreviver, são obrigadas a cumprir com determinados papéis que não as permitem realizar-se enquanto pessoas. São obrigadas a ter “bullshit jobs” – se não conhecem o conceito, vão ler David Graeber -, não encontram mais sentido na vida do que o de serem escravos-consumidores. Escravos de patrões que os exploram, de forma cada vez mais subtil, tão subtil que até aos países mais progressistas já conseguiram impingir trabalhos e formas de trabalho altamente prejudiciais à saúde mental dos seres humanos. Consumidores, porque o sistema capitalista é o sistema de consumo por excelência.


E, não é tão lindo como o novo slogan político de todas as campanhas, à direita e à esquerda, é o de “criar empregos”? Criar empregos, sejam eles quais forem e como forem. Criar empregos, nem que esses empregos não permitam ter um ordenado que sirva para satisfazer o acesso às necessidades da vida e a produtos e serviços básicos da vida moderna. Criar empregos, mesmo que se tenha de andar a ter mais do que um emprego ao mesmo tempo, e não se goste de nenhum. Criar empregos, mesmo que nenhum deles, na verdade, sirva para nada, e pudesse perfeitamente ser integrado no trabalho de um menor número de pessoas ou, até, automatizado.


Por isso, eu disse, no início, que os grandes progressistas, os grandes oradores líricos, os grandes ideólogos que não servem para nada porque nem sequer conhecem o mundo em que vivem, mas vivem e fazem atividade baseada exclusivamente nas merdas que têm dentro da cabeça, com a atitude que sempre tiveram todos os grupos sociais ao longo da história humana, e que esta gentalha considera diferente apenas por pretender transmitir valores diferentes, agarrados às suas políticas identitárias, vão arruinar o mundo. Não, não será o Trump a arruinar o mundo de vez, até porque já é mais do que hora de ultrapassar essa visão individualista da história e do mundo humano, como se alguém sozinho alguma vez tivesse causado impacto significativo no mundo, ou sequer num país.


Insistam nas políticas identitárias, das quais Hillary Clinton era a candidata representante nestas eleições, por ser mulher, tal como Obama era preto, insistam nos vossos sistemas legais que não mudam nada, mas que apenas alienam determinados comportamentos e os remetem para a clandestinidade, mas nunca para a inexistência, insistam em tentar fazer remendos num sistema que funciona com base no princípio do crescimento infinito na exploração de recursos naturais finitos, insistam em políticas acéfalas de ética do trabalho em vez de promoção do acesso universal a produtos e serviços, insistam nas revoluções, nas manifestações, nos protestos, na redação de textinhos cheios de floreados, de cartinhas e tratados cheios de palavras rebuscadas, que apenas há de piorar tudo com o tempo. É garantido. Podem passar mais 1000 anos a lutar nestes moldes, que nunca deixará de existir nenhuma prática condenada por moda. Aliás, a mentalidade primitiva é tão dos que são considerados retrógrados como vossa, como expliquei.


Principalmente, continuem a acreditar que os vossos mundinhos das ideias e as grandes artes servirão para dar propósito à vida dos escravos-consumidores, que, e já que os terroristas são uma das vossas principais preocupações, e que justificavam as ações do querido Obama nos países do Médio Oriente e do Norte de África, pode ser que, tal como já acontece mas intensificar-se-á, comecem a dar mais frequentemente de caras com pessoas que vos são familiares a lutar do lado dos terroristas, de tão desencorajados que já estão num mundo que não lhes permite a realização pessoal. Ou pensam que os jovens dos vossos idílicos países ocidentais decidem integrar grupos terroristas em países distante porquê? Porque são malucos? Não. Mais uma vez, vão ler os estudos sociológicos que traçam as condições de vida dos desencorajados do vosso sistema das histórias da carochinha.


Então, pode ser que chegue o dia, em que, mesmo depois de se terem negado a ver a realidade do mundo tal como ela é, porque arranjaram subterfúgios mentais e “safe spaces” a funcionar como câmaras de eco para sobreviver ao(s) seu(s) mandato(s), olhem na cara dos terroristas e já não os consigam distinguir de vocês próprios, porque quem está do outro lado é uma pessoa exatamente igual a vocês, com a mesma cor de pele, que fala a mesma língua, que nasceu e viveu a maior parte da vida no mesmo país, que foi criada na mesma cultura. A diferença é que essa pessoa terá sido alienada pelo sistema, por fatores externos, enquanto vocês se perderam no labirinto da própria cabeça, o qual criaram para não ter de ter contacto direto com o mundo humano tal como ele é atualmente. Não tal como ele era há 2000, há 500 ou há 200 anos, mas sim como ele continua a ser.


Portanto, continuem a viver nos mundinhos das vossas próprias cabeças, simplesmente não se julguem os salvadores da humanidade porque, isso, nunca serão.

Ricardo Lopes

 
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Comprovado sem provas, por Luís Garcia

 

 Desespero Mediático 15

DESESPERO MEDIÁTICO 15

Luís Garcia POLITICA SOCIEDADE   

A RTP

O que eu me riu a ler e a assistir "notícias" da RTP como esta: Serviços de inteligência americanos confirmam intromissão russa nas eleições! O texto desta notícia é tão hilariante que decidi partilhá-lho aqui na íntegra:

As suspeitas de que Vladimir Putin interferiu nas eleições presidenciais norte-americanas estão agora confirmadas num relatório assinado por várias agências, incluindo FBI, CIA e NSA. O relatório já está nas mãos de Donald Trump.

 

Se eu quisesse ser mauzinho até começaria já a chamar de analfabetos aos jornalistas deste serviço público cujas cabecinhas pequeninas (diria eu entretanto) não conseguem distinguir "americanos" de "norte-americanos"... mas não, não vou por aí! Duas pessoas trocando dois dedos de conversa usando a expressão "americanos" entende-se, eu também o faço, agora quando se escreve um texto no site da RTP... mas bom, não vou mesmo por aí, vou já directo ao assunto da "notícia". 

Quem escreveu esta brincadeira afirma que estão "confirmadas" as suspeitas sobre Putin. Diz o senhor Filipe Pinto, da RTP, que já está "confirmado", que é como quem diz "comprovado". Ora não! Ninguém CONFIRMOU nada, apenas AFIRMOU, o que é completamente diferente! Leia o relatório aqui e confirma que ninguém CONFIRMOU o que quer que seja! O relatório apenas contém insinuações, suspeitas e AFIRMAÇÕES assentes no vazio. 

 

 

A sério, insisto, e tendo em conta que CONFIRMAR pode ser sinónimo de COMPROVAR, para a RTP, COMPROVAR sem PROVAS é algo que faz sentido. Mas não faz! E eu perguntou-me, andará tudo xoné da cabeça? Esta malta pseudo-jornalista já nem entende o significado das palavras que utiliza? Mas desceu assim tão baixo o nível de conhecimento da língua portuguesa, quer por parte dos produtores de propaganda quer por parte dos consumidores desta? Que vergonha!

 

E afinal, para quê falar de CONFIRMAÇÃO ou COMPROVAÇÃO se o departamento de estado dos EUA, essas 17 agências de intelligentsia e o próprio Barack Oguerra já disseram que têm provas mas que não as mostrarão por "razões de segurança", o que, traduzido de politiquês para linguagem corrente, significa "não há provas"!

 

"Ahhh, e tal, mas o relatório é oficial e é um documento que foi entretanto desclassificado, portanto temos de o levar a sério". Mais coisa menos coisa foi isto que ouvi de um new-ager bem-pensante italiano que conheço aqui em Chengdu, hehe! Como ele, aposto que haverá por aí fora muitos dizendo o mesmo ou parecido. Mas não. Temos pena mas não. Não há como o levar a sério. Primeiro porque a fonte não disse que o documento foi desclassificado, pese embora os manipuladores media ponham em evidência o termo e o manipulem perversamente para dar um toque sensacionalista e apelativo, para que o leitor distraído e muito crente conclua erroneamente "ahhh, já viste, isto era classificado, era segredo, uohhhh, então é cena pesada"! Mas não, o que maquievelicamente é dito no início do documento é que esta PARTE acessível ao público foi retirada de um documento, este último sim, CLASSIFICADO! Sim, o documento é oficial, e depois? "Oficial" é sinónimo de "verdadeiro"? Não, não é, e além do mais foi apresentado por James Clapper, director da NSA, o mesmo que em 2003 tinha a certeza das PROVAS sobre as armas de destruição massiva de Saddam Hussein que NUNCA existiram! O mesmo James Clapper que em 2013 teve de fazer um forçado acto de contrição e admitir que a norte-americana NSA andava a vigiar ilegalmente o planeta inteiro, inclusive todos os seus aliados, inclusive os telefones privados dos chefes de estado dos países seus aliados! Irra, "levar a sério" esta gente? Ide comer merda pessoal lobotimizado! 

 

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Também já vi malta "argumentar", hehe, que "é um documento de 20 e tal páginas...". E? E se fossem 100 ou 1000? Que me interessa o tamanho se o conteúdo é nulo? Então e se as 17 agências de intelligentsia gringas tivessem produzido um documento de 1.000.000 de páginas no qual AFIRMASSEM, sem no entanto COMPROVAR com PROVAS, que "o céu afinal é verde"!?! A RTP e toda a ovelhada passaria a partir desse dia a considerar que a cor do céu é verde? Ou iriam à rua captar com os seus olhos a prova de que o céu não é verde mas sim azul! Ahhh...

 

Já agora, o documento de 25 páginas apenas apresenta 11 páginas de conteúdo, sendo parte do conteúdo gráficos e printscreens de transmissões da Russia Today! Sim, da Russia Today, ahaha! Mais, metade do relatório fala do canal russo Russia Today e não do Putin gamando dados ao Democratic National Committee (DNC)! Que risada!

 
E depois, mesmo que seja um dia COMPROVADO com PROVAS que a Rússia roubou os emails de Clinton, como, com que raio de jigajoga alucinante, esse roubo de documentos conseguiu segurar nas canetas dos votantes e forçá-los a por cruzes nas caixinhas correspondentes à candidatura de Trump? Mas como é que gente lúcida e com faculdades mentais em funcionamento engole uma destas? E como não reparam que toda esta estória da treta sem pés nem cabeça serve um só propósito: desviar as atenções do público para longe do conteúdo dos emails trocados entre Clinton e Podesta! Como por exemplo, a confirmação que Clinton e o rei saudita conversaram sobre a doação de dinheiro para financiar o ISIS! Isto sim é gravíssimo! E é bem documentado, PROVADO com as PROVAS que são os emails obtidos pela Wikileaks (e não os russos, e não Putin)!
 
 
Por fim, pegando num comentário de um seguidor do blog, Rui Portugal, há ainda outro argumento interessante: "A ser verdade, só prova a estupidez e incompetência do sistema eleitoral americano ... eles até deviam de ter vergonha de divulgar notícias destas ... o que mostra a palhaçada descomunal da política (e não só) americana...". Estou completamente de acordo. Se fosse verdade seria uma descomunal vergonha, não só para o sistema eleitoral norte-americano mas também para a multi-bilionária máquina de intelligentsia norte-americana!
 
 
O relatório
Quanto ao relatório, esta brincadeira de mau gosto, ao contrário daquilo que possa ser levado a acreditar, não afirma apenas que Putin pessoalmente espiou o DNS, não! Ahh, afirma muito, muito mais. Estórias de espiões dos anos 70, Russia Today culpada de ter alterado o resultado das eleições dos EUA, estatísticas COMPROVADAMENTE erradas, e por aí fora! A sério, leia o relatório, dá para sacar umas grandes gargalhadas:
 
Para aqueles mais cépticos em ralação ao que acabo de defender, aconselho assistir a este debate na Russia Today, no qual participou Brent Budowsky, um comentador político com ligações a Hillary Clinton e John Podesta, os 2 nomes por detrás do escândalo dos email tornados públicos. Assisti com atenção e espantai-se com os "argumentos" de Brent Budowsky em defesa das organizações de espionagem norte-americanas e dos seus amigos Podesta e Clinton! Muito bom mesmo!
 
 

 
Para os mais interessados pelo tema, aconselho mais alguns vídeos onde poderão ouvir argumentos e factos bastante pertinentes, nomeadamente o mais recente episódio de Cross Talk "Blaming RT" apresentado por Peter Lavelle:
 
 
 
E este 4 vídeos mais curtos:
 
 
 
Agora, só para meter nojo, e não sem antes vos lembrar que esta imensa máquina de intelligentsia norte-americana tem um custo anual de 80 biliões de dólares, a sério, vou apresentar um, apenas um exemplo da tremenda infantilidade de quem elaborou o raio do relatório! Como é que neste relatório pode ser afirmado que a RT em conjunto com a RT América tem 450.000 subscritores (subscribers) quando é infinitamente-estupidamente fácil de comprovar aqui que a RT tem mais de 2.000.000 de subscritores e aqui que a RT America tem mais de 400.000 subscritores! Total de subscrições: +2.400.000! A sério, abram o relatório na página 11 ou vejam o printscreen abaixo:

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Agora caro leitor, vá confirmar e comparar por si próprio os restantes dados sobre seguidores da Russia Today no Twitter ou facebook, etc...

 

Ahhhhh, deixem-me rir...

Luís Garcia, 10.01.2017, Chengdu, China

 leia mais artigos de Desespero Mediático aqui

 

 
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Vozes Insubmissas - Pierre Le Corf

 

 

Pierre Le Corf

ClaireVoix Insoumises  

Pierre le Corf é mais uma voz insubmissa à qual nós prestamos atenção aqui. Porquê insbumissa? Eis a explicação: 

 

Jovem empresário bem sucedido, Pierre Le Corf vendeu tudo o que tinha para criar a sua própria ONG We Are Superheroes. Apesar do seu sucesso empresarial, Pierre encontra-se a milhas dos modelos de sucesso sociais que nos são impostos. Ele acredita profundamente nos seres humanos e decidiu por-se ao serviço destes. Através da We Are Superheroes, Pierre acompanha comunidades marginalizadas e dá relevo às suas histórias.

 

Pierre confessa que chegou à Síria com a perspectiva de um francês, ou seja, com a perspectiva que nos impingem os media franceses*, e afirma ter rapidamente mudado de opinião após a sua chegada.

 

Pierre Le Corf levanta a voz sobre a verdade do que se passa em Aleppo porque o objectivo da sua iniciativa é precisamente a de dar voz aos esquecidos, e é o absurdo daquilo que nos contam ao longo do tempo nos medias ocidentais/franceses*, fazendo-nos ter pena dos "rebeldes" de Aleppo leste, que faz com que as pessoas da maior parte de Aleppo sejam esquecidas. Pierre Le Corf confirmou-nos isso mesmo ao retransmitir as vozes das gentes de Aleppo: não há rebeldes em Aleppo leste, apenas há terroristas.

 

Eis aqui um bela demonstração de vozes dissonantes na qual Pierre Le Corf é, imagine-se, tema do jornal da France 2:

 

 

Durante meses Pierre Le Corf percorreu as ruas da cidade, efectuando um verdadeiro trabalho humanitário 100% INDEPENDENTE, entregando como podia kits de primeiros-socorros e dando formações de primeiros-socorros à população sofrendo não somente com a guerra e com tudo o que ela acarreta, mas também com as consequências do embargo imposto ao país pela União Europeia, cortando assim aos sírios o acesso a bens essenciais como material médico. Humanitário neutro, sim, mas como evitar levantar a voz perante tal desperdício de vidas humanas, sabendo que uma parte poderia ser poupada se não houvesse este tipo de intervenção externa (embargo), dado que uma outra parte é já destruída por uma outra intervenção externa (envio de armas).

 

É importante falar de Pierre Le Corf, e sobretudo ouvi-lo a ele e aos testemunhos que partilha, visto que ultimamente Pierre Le Corf tem sido vítima de uma nauseabunda campanha de mentiras que não serão partilhadas aqui. E dado que desde há algum tempo certas vozes lhe têm sugerido que se cale, mais uma boa razão temos para o escutar:

 

 

 

 

Eis aqui, em entrevista, um muito bom resumo sobre Pierre Le Corf, o seu trabalho e aquilo em que ele crê: 

 

 

Por fim, uma entrevista que deu à televisão síria na companhia de Eva Bartlett:

 

 

Claire Fighiera, 30.12.2016, Chengdu, Chine

(Traduzido por Luís Garcia)

 

 

 
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O problema do senso comum, da razão e da lógica, por Ricardo Lopes

 

 

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RICARDO MINI copy  SOCIEDADE 

 

- Artigo parcialmente baseado no artigo “Reason and Logic”, que podem encontrar aqui. -

 

Decidi escrever este artigo motiva principalmente pelo facto de verificar que até mesmo pessoas que fazem da ciência a sua vida ou pessoas que se interessam por ciência, muito facilmente recorrem a termos como “senso comum”, “razão” e “lógica”, como se fossem princípios orientadores do método científico, como se fossem ferramentas de trabalho das quais se depende para se poder conhecer o mundo através da metodologia empirista da ciência.

 

Não são. Mas, antes de perceber porquê é preciso perceber a que é que corresponde cada um deles, e o que é que têm em comum.

 

O senso comum não é mais do que o conjunto de crenças e opiniões que são geralmente aceites numa determinada época e num determinado local. Ora, o que é que isto é exatamente? Cultura, certo? Corresponde ao conjunto de todas as ideias que são partilhadas por um grupo de pessoas numa época e local específicos. O que é que isto tem a ver com ciência? Zero. Isto é uma ferramenta utilizada pela ciência, recorrer ao que a pessoa comum pensa sobre um determinado assunto? Não. É um princípio orientador da ciência tratar a informação com base naquilo que a pessoa comum pensa? Não.

 

Por isso é que não percebo porque é que, por exemplo, cientistas se fartam de partilhar publicações no facebook a acusar a religião de não se guiar pelo senso comum. Mas, é absolutamente o oposto! A religião é senso comum! Lembram-se da parte do conjunto de “crenças”? Pois. E também porque é que ficam tão chateados quando alguém que se opõe ao conhecimento científico os acusa de não terem senso comum. Olha, e ainda bem que não. Qual é que é o problema? Se se guiassem por ele, nem sequer eram cientistas, não conseguiam produzir conhecimento ou informar-se sobre ciência de uma forma adequada. Aliás, na verdade nem sequer conseguiriam compreender o método científico.

 

Eu penso que o principal problema que promove a associação entre o senso comum, e também a razão e a lógica, com o pensamento “crítico” e científico é que muitos cientistas tendem a pensar que como a cultura é algo que vem depois do ser humano enquanto ser biológico, ou seja é algo pata o qual é condicionado, e que algo como a religião se adquire através de um processo de doutrinação, há de haver um período em que o cérebro ainda se encontra num estado “virgem” ou “imaculado” em que é capaz de trabalhar informação de uma forma que conduza a conclusões acertadas e produzir conhecimento que corresponde ao mundo real, que existe uma espécie de mecanismo inato de trabalhar informação que se recebe através dos sentidos e organizá-la de maneira a produzir conhecimento acerca do mundo. É também daí que advém a crença de que se deixarmos as crianças explorar o mundo, sem as contaminar com determinadas ideologias, através da sua simples “curiosidade” acabarão por descobrir coisas novas e produzir conhecimento empírico sobre o mundo que as rodeia.

 

O problema é que ninguém nasce, nem vejo que haja evidências para suportar tal teoria, com um mecanismo de raciocínio inato que permite trabalhar a informação que se recebe do exterior de uma maneira ou de outra. Na melhor das hipóteses, e como o sistema nervoso inclui determinado tipo de recetores para proteger o organismo, como recetores de dor, pressão, calor, frio, recetores papilares para determinados sabores e recetores olfativos para determinados odores – e, mesmo assim, isso é em muito maior extensão determinado pela experiência que a pessoa tem. É a experiência que determina os odores que a pessoa considera agradáveis ou repulsivos, o nível de dor que consegue suportar, etc. -, se deixarmos um bebé a explorar o mundo sem critério, então poderá aprender a não comer determinadas coisas depois de ter tido uma indigestão ou dores intestinais, a não beber determinadas coisas porque o deixam nauseado, a não meter a mão no fogo porque queima e dói, entre outras coisas que qualquer humano primitivo, sem acesso aos recursos intelectuais que temos hoje em dia teve de aprender, ou não chegou a aprender e morreu mais cedo e não transmitiu os seus genes à geração seguinte.

 

Isto tudo para dizer o quê? Para dizer que, deixados a explorar o mundo sem critério, e porque não, não há nenhum mecanismo inato de processamento de informação, principalmente do ponto de vista intelectual, os humanos não podem fazer mais do que reger a sua vida por tentativa e erro e ir acumulando viés. Por isso é que criaram a religião, numa tentativa de explicar fenómenos cuja causalidade desconheciam numa altura em que ainda nem sequer existia palavra escrita, quanto mais método científico, e aceitaram isso como conhecimento, porque era-lhes muito mais fácil perceber o mundo como sendo governado por um ou mais seres conscientes que faziam acontecer as coisas por diferentes razões, do que simplesmente ser tudo caótico e sem explicação e, daí, imprevisível. Se deixarmos as pessoas a explorar o mundo sem critério, é este o resultado. Cada um inventa a explicação que lhe parece mais plausível para um determinado fenómeno, de acordo com a experiência que acumulou a interagir com as coisas que existem neste mundo e aquela que soar melhor e der melhores resultados prevalece e dissemina-se entre os outros. O que é que tem de errado inventar uma reza ou um ritual de sacrifício a um deus? Nada, principalmente se se identifica essa ação como causa e, depois, nem que seja meses depois, volta o sol e se pode voltar a caçar com maior abundância ou a semear a terra. O que é que tem de errado inventar uma reza ou um ritual de sacrifício a um deus? Tudo. Primeiro, porque não resultado. Segundo, porque reforça uma ideologia acerca de como se pode conhecer o mundo que não corresponde a nada de real. Terceiro, porque decorrente da primeira acontece merda, e acho que toda a gente deve saber mais ou menos ao que me estou a referir. E, atenção, eu aqui poderia ter substituído a religião por arte, filosofia, economia, política, moralidade, ou qualquer outra atividade humana de produção de conhecimento que se baseie na produção exclusivamente mental de conhecimento.

 

Mas, percebem agora qual é o problema do senso comum e porque é que os cientistas têm a tendência a associar o senso comum ao pensamento crítico e ao método científico, e porque é que não tem nada a ver uma coisa com a outra?

 

Agora, passando à razão e à lógica, que são duas coisas que é praticamente impossível tratar em separado. Aliás, na verdade até é impossível tratar em separado com o senso comum, e nem vejo sequer que sejam três coisas diferentes, apenas porque as pessoas insistem em usar palavras diferentes para as definir. Mas, já lá vamos chegar.

 

Costuma-se designar Aristóteles como o pai da lógica. E a que é que corresponde a lógica exatamente? Bem, em termos de conteúdo, corresponde a qualquer coisa. Em termos de forma, corresponde à coerência discursiva ou textual. Agora, o que é um texto ou um discurso coerente? É aquele que segue uma cadeia de associações demonstradas entre diferentes informações provenientes do conhecimento científico? Não. Ou melhor, não necessariamente. A coerência é, também ela, determinada pelo conjunto de crenças e opiniões, pela totalidade das ideias, que operam numa determinada cultura, numa época e espaço definidos. Os textos do Aristóteles são lógicos, certo? Sim. Os textos do Kant são lógicos, certo? Sim. E quanto daquilo que eles desenvolveram como conhecimento foi validado empiricamente pela ciência? Nada! Ou, o pouco que foi, eles anunciaram-no sem se ater a evidências e calhou que aquilo que lhes soava bem a eles tinha correspondência com algo de real. Mas, por mera coincidência. Por exemplo, foi o Aristóteles que criou a teoria da geração espontânea. O que é que isto tem de verdade? Zero! O Kant baseou o raciocínio com base no qual redigiu os seus livros e criou as suas teorias epistemológicas, estéticas, éticas, etc., nas crenças e opiniões vigentes no seu tempo, como, por exemplo, a filosofia e a moral católicas.

 

Foi o senso comum a levar a que as pessoas acreditassem que a Terra era plana durante muitos séculos. E, de um ponto de vista meramente sensorial, e para quem não tinha acesso aos meios de locomoção modernos, muito menos ao conhecimento e às provas empíricas obtidas do espaço, não era algo perfeitamente “lógico”? Não vejo por que não. Exemplos não faltam, pela história humana fora, acerca de ideias, opiniões e teorias que hoje a pessoa comum considera absurdas e risíveis, mas que noutros tempos tinham a aprovação de todos (senso comum) e eram consideradas lógicas (porque soavam bem aos ouvidos de todos, ou de uma larga maioria, pelo que eram consideradas coerentes).

 

E o que é a razão? A razão, mais uma vez, em termos de conteúdo pode ser qualquer coisa. A razão corresponde simplesmente ao nome que atribuíram ao processo através do qual alguém raciocina. É o tal mecanismo inato de que falava, que muita gente continua a acreditar que existe e que permite que as pessoas atinjam conhecimento relevante acerca do mundo real simplesmente tentando dar-se ao trabalho de pegar na informação que têm na cabeça e estabelecer uma relação “lógica” entre as associações que consigam fazer.  

 

Por exemplo, porque é que o Darwin conseguiu chegar às conclusões que chegou e criar a sua teoria evolutiva das espécies, e o Aristóteles ficou-se pela geração espontânea? O Aristóteles viveu cerca de 2000 anos antes do Darwin. O Aristóteles apenas pôde “raciocinar” com a informação que tinha ao dispor naquele local e naquela altura. O Darwin foi exposto não só a novos dados empíricos que recolheu nas suas viagens, como a teorias de geólogos contemporâneos dele, que influenciaram determinantemente a sua própria, que ele demorou décadas a finalizar mesmo assim.

 

E o mesmo acontecerá no futuro. Aquilo que, para nós, hoje em dia, nesta época e no local em que cada um vive, embora o local seja cada vez menos importante graças à globalização, é “lógico”, é “racional” e faz parte do “senso comum”, mais tarde perderá o estatuto de conhecimento e será substituído por outra coisa qualquer, que, se ainda existir método científico, corresponderá a uma melhor aproximação à realidade do que a teoria que é agora vigente.

 

Se ainda é difícil perceber porque é que não existe uma “lógica”, uma “razão” e um “senso comum”, e porque é que nada disso conduz a conhecimento relevante do mundo, nem sequer são ferramentas ou fazem parte dos princípios do método científico, basta pensarem em tudo o que a ciência descobriu ao longo da história e que foi contra o conjunto de crenças e ideias vigentes na sociedade da época e do local e de tanta coisa “contraintuitiva” que foi validada empiricamente. Mais uma vez, imaginem viver no paleolítico e não terem acesso ao conhecimento moderno do mundo. Imaginem viver na Idade Média e não ter qualquer conhecimento acerca do movimento dos astros no céu, nem acesso a matemática, muito menos acesso a vaivéns espaciais. Imaginem viver num mundo em que os fósseis ainda não tinham sido descobertos. Imaginem não saber nada acerca de átomos e moléculas. O que seria “racional”, “lógico” e “senso comum” para vocês? Sem essa informação, e apenas com a pouca que tinham disponível no vosso cérebro para refletir e estabelecer associações, a que conclusões “lógicas”, “racionais” e “sensatas” é que chegariam?

 

Por isso, é que não serve para nada insistir com as pessoas para serem “racionais” ou usarem a “lógica” ou acusá-las de não serem nada disto e de lhes faltar “senso comum”. Nada disso vai mudar nada, se não for mudada a informação que as pessoas têm na cabeça.

 

E, também por isso, é que o raciocínio, a reflexão, ou o queiram chamar ao ato de tentar produzir conhecimento por um processo meramente ideológico, não pode nunca conduzir a descobertas ou a teorias que tenham validade empírica nem que correspondam a algo de real, a não ser por mera coincidência ou golpe de sorte.

 

O que interessa é a informação que as pessoas possuem e o seu grau de adequação à realidade, nada mais. O que interessa não é passar horas sentado num sítio a pensar muito, mas sim obter mais informação sobre um assunto ou, no caso de não existir, desenhar um método de estudo para obter mais informação e, então sim, estabelecer associações com toda a informação recolhida sobre um determinado assunto.

 

Termos como “lógica”, “razão” e “senso comum” são termos que foram criados e correspondem a uma forma primitiva de pensamento, a epistemologia ideológica, ou idealismo se quiserem usar o termo filosófico comummente aceite, que correspondem à crença na possibilidade de extrair conhecimento do “mundo das ideias”.

 

Ricardo Lopes

 
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