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Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

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A nova moda é pensar como os nossos avós, por Ana Leitão

 

 

A nova moda é pensar como os nossos avós.jpg

 

  SOCIEDADE 

 

No século XXI, o neopacote obscurantista, inspirado na velha New Age, inclui tendências que estavam na moda há uns séculos atrás. É um pacote porque, quem o adota, toma como suas ideias que tendem a vir em cadeia, aos pares ou aos molhos. É neo porque o velho obscurantismo sofreu uma remodelação aparente que permite o emprego de termos em inglês e a utilização das novas tecnologias. Os seus fundamentos assentam em literatura de blogue e em preceitos ditos ancestrais, cuja fidedignidade é medida pelo número de pessoas que repetem as mesmas falácias e garantida pelo facto de a internet dar vida eterna aos boatos. Com efeito, ficam assegurados seguidores para qualquer ideia, por muito descabida, ilógica, desatualizada, desonesta ou aviltante que esta possa ser.

 

Assim, a inclinação geral do neo-obscurantismo é uma atitude anticiência que tende a colocar em pé de igualdade postulados pessoais de neogurus, com propósitos mais ou menos mercantilistas, a par da idolatria de tudo o que é considerado “natural” – esquecendo-se os seus defensores que nada é natural na cultura humana - e os princípios que sustentam o método científico. Consequentemente, em pleno século XXI, pode-se ter uma posição antivacinação, ser-se seguidor de um qualquer regime alimentar inspirado em mitos, assumir-se como apóstolo de um sincretismo religioso que faz depender a autenticidade dos seus princípios do seu caráter exótico e exibir-se como inflamado defensor de teorias da conspiração mal amanhadas, em desfavor de corpos teóricos assentes em evidências, até ao momento, cientificamente sustentadas. Gilles Lipovetsky designou de “hipermoderna” esta tendência para voltar ao passado e glorificá-lo, através da transformação de crenças e tradições em axiomas, que se opõem ao progresso mais básico. Contudo, aí reside um contrassenso fundamental: as tradições e os costumes ancorados no passado referem-se a formas antigas de fazer as coisas, a visões do mundo para as quais já não deveria haver lugar num sistema pautado pelo respeito pelo outro e pela inovação, em lugar da simples perpetuação, mecânica e demasiadas vezes desumana, irracional e até suicida. Não é o grau de cristalização do passado no presente que deve garantir a legitimidade e a autenticidade das ideias e dos comportamentos. Não é o “saber” de experiência feito, nem os exemplos dos nossos avós, que nos vão ensinar a gerir recursos finitos seriamente ameaçados, nem a respeitar o nosso entorno humano e não-humano, em toda a sua heterogeneidade e num contexto cada vez mais globalizado. Essas estratégias, apoiadas na memória, podem ser refúgios seguros para identidades pessoais e grupais cada vez mais em risco, terra firme para um tempo cada vez mais acelerado e para um espaço cada vez mais fluido. Mas o passado não é um valor por si só.  E o seu enaltecimento cego pode fazer-nos incorrer nos mesmos erros de sempre, tantas vezes cometidos ao longo da História, pelos mesmos motivos. O elogio do passado, nestes moldes agora preconizados, apenas poderá conduzir ao sério comprometimento do futuro e das suas oportunidades de mudança.

 

Ana Leitão

 

 

 
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Ricardo Lopes

Ricardo Lopes, Portugal

 

Artigos:

 

Não querer saber

O fado

O perigo da imigração

Só a ciência pode salvar o mundo

Contra a opinião

Contre L'opinion

Projecto Venus: uma introdução

A cultura da atenção e do consumismo

La culture de l’attention et du consumérisme

Acabar com as patologias

A patranha do Subsídio Básico Universal

Gente deprimida

Les gens déprimés

Organismos geneticamente modificados (OGM’s)

Acreditar faz mal

Cuidado com os artistas

O dinheiro TEM que acabar!

O Politicamente Correto

O problema da literatura ficcional

Animalismo

Sim, deve-se desperdiçar o talento

A influência do artista

O meu empirismo é melhor do que o teu

Boom! Explosão de estupidez

O que serve o pós-modernismo

Secretário-geral das Nações Unidas...

Dar uma chapada de vez em quando

Trump, o candidato da oposição

Os tuguinhas e o moralismo

Love You Mom

A esquerda: entre política e ciência

Utopias e Distopias

O estado atual do mundo humano e como o resolver (1/2)

O estado atual do mundo humano e como o resolver (2/2)

Manifesto contra o amor romântico e contra a deturpação da sexualidade e do corpo humanos

Considerações sobre a eutanásia

O sexo no século XXI (ou porque é que o bom bullying dá resultado)

Boas Férias

Deus é um puto mimado 1

Deus é um puto mimado 2

Deus é um puto mimado 3

Deus é um puto mimado 4

Bom sucesso para todos no Novo Ano

A moda de ostentar o status moral

Resumo das músicas populares de hoje em dia

Sistemas eleitorais alternativos 

O problema do senso comum, da razão e da lógica

O que Trump representa para os progressistas

Nelson Nunes – o aldeão na metrópole

Elon Musk – o Moisés do capitalismo, o Cristo dos amantes da ciência, o Obama do sistema empresarial e o Iron Man dos empreendedores yuppies e millennials

 - O problema das figuras de autoridade e da propriedade intelectual

 

 

x

Prefácio  A - B - C - D - E - F - G - H - I - J - K - L

- MN - O - P - K- R - S - T - U - V - W - X - Y - Z

 

- PREFÁCIO

Sebastianismo

Mania das grandezas

Virtude

 

 

 

 

 

 
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Pedro Anacleto

ANACLETO 200JPG.jpg

Pedro Anacleto, Portugal

 

Artigos:
 

Jesus teve mau perder

Viciados em decepção

Um outro Pensamento Nómada no Boom!

 

 

 

 
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Ana Leitão

Ana Leitão, Portugal

 

Artigos:
 

Esterilização: o aparelho reprodutor feminino não é um "espaço público"

A solução vegana: contra factos não há argumento

O Género e o sexo do cartão de cidadão

O assédio moral no local de trabalho é anti-capitalista

A nova moda é pensar como os nossos avós, por Ana Leitão

Não sou uma funcionária, sou uma colaboradora

O país em que os criminosos são boas pessoas

 

 

 

 
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Europa de leste: da URSS aos EUA, a vassalo-dependência contínua, por Luís Garcia

 

 

Europa de leste, da URSS aos EUA, a vassalo-depend

 

Luís Garcia POLITICA

 

Artigo de um blog antigo, escrito em 2012, que ressuscito aqui e agora visto que trata de um tema muito actual:

 

Hoje em dia, para "fugirem" ao improvável e propagandisticamente elaborado "Perigo Russo", os países da Europa Central e de Leste entregaram de mão beijada a sua dependência militar aos EUA que ocupam estes países com bases militares da NATO, com sistemas de vigilância e sistemas de resposta rápida, em clara demonstração de poder face à Rússia. E mais, as economias e governações dos países do ex-bloco soviético encontram-se já muito seriamente comprometidas pelas vontades e decisões de Washington e dos poderosos lobbies económicos norte-americanos e do seu fiel vassalo Alemanha. Como se não bastasse, estes países do antigo bloco comunista entregaram ainda "livre e democraticamente" a sua dependência económica e política aos senhores que mandam em Bruxelas. Poderá soar a infantil cegueira dos seus povos, e é-o certamente, mas não só, pois esta cegueira não explica totalmente este vertiginoso processo que levou a Europa de Leste e Central a passar das garras em riste da URSS para as garras escondidas por luvas de veludo dos EUA e da UE. Neste processo de anexação da "outra Europa" houve muita propaganda feroz, muita chantagem política e obscuros jogos de bastidores, tráficos de dinheiro e influências, muita mentira descarada pelas bocas de políticos pró-ocidentais facilmente vendíveis...

 

  • "Prevenir a colusão e manter a dependência em matéria de segurança entre vassalos, manter os súbditos dóceis e protegidos, e impedir os bárbaros de se reagruparem [são] os três imperativos da geoestratégia imperial" (de Zbigniew Brzezinski, judeu-americano, teórico e ideólogo da política externa imperialista dos EUA; vassalos serão estados artificialmente mantidos pelos EUA como a Arábia Saudita, o Iraque, o Iémene, o Bahrein ou o Egipto de Mubarak; súbditos serão certamente os membros da EU e da NATO mais Austrália, Nova Zelândia e Japão; os bárbaros são a Rússia e a China)

 

PROPAGANDA

Bom exemplo da dita propaganda foi a fortuna (roubada aos contribuintes) gasta pelos governo húngaro em anúncios publicitários pró-NATO, assim como a ignominiosa mensagem passada aos cidadãos do país: "a não darem o seu voto, estariam a faltar a um dever patriótico".1 Cúmulo dos cúmulos, "o governo de Budapeste deu-se mesmo ao trabalho de subsidiar alterações numa popular novela, para meter pelo meio um personagem que vai apimentando o enredo com umas dicas sobre os efeitos benfazejos da atlântica agremiação... até na paz dos lares".2

 

Este tipo de propaganda descarada reinou durante algum tempo nos países candidatos à NATO, principalmente nos 3 prioritários: Polónia, República Checa e Hungria, e colheu temporariamente os seus frutos mas, com o tempo passando sem que chegasse a prometida adesão, os povos destes países aumentaram as suas dúvidas e as suas inquietações, pois afinal, para que raio serviria a NATO num mundo sem o perigo soviético? Veja-se sondagens da altura: na R. Checa, entre 1994 e 1997 o apoio popular à adesão à NATO baixou dos 43% para os 27%; Na Polónia (de 1996 para 1997) passou de 92% para 65%; Na Hungria (de 1996 para 1997) passou de 51% para 32%; Na Eslováquia (de 1996 para 1997) passou de 63% para 27%. Ainda assim, num leste já com uma maioria da população contra a adesão e sem perceber a necessidade de tal, essa acabou por acontecer pelas mãos dos seus vendidos governantes.

 

  • "Ao fim e ao cabo, o que preocupa as pessoas que governam em Praga não é se a nação pereceria ou não numa guerra, mas apenas se morreriam do lado certo da barricada." (em NATO, what for?, de Oskar Krejici)

 

CUSTOS DA ADESÃO

Uma questão nunca falada e no entanto central é a do custo de adesão à NATO por parte destes países em processo de reconversão económica e portanto com poucos recurso para fazer face às necessidades básicas internas e das suas populações, quanto mais para gastar em equipamento militar aparentemente inútil. Caso flagrante, o da Polónia, "obrigada a duplicar o seu orçamento militar nos próximos cinco anos, para se adaptar aos standards da NATO",3 cortando ao mesmo tempo nas despesas com os programas de assistência social. Ou o da Hungria, obrigada a fazer crescer o seu orçamento militar em 35%. Ou o da República Checa, não capaz de "garantir a assistência social à população, mas vai gastar 30 milhões de coroas por ano na ficção de uma segurança militar". 4

 

  • "É que os novos aderentes não estão em condições de arcar com a factura do alargamento, e os actuais membros não parecem decididos a pagar. A União Soviética desapareceu, e toda a gente espera dividendos da paz - e não mais despesas com a expansão da NATO." (em Economic Aspects of the Expansion of NATO, de Ljubisa Adamovic)

 

O que os dirigentes destes países insistem em não perceber (ou então calam-se a troco de interessantes contrapartidas) é que não só os seus países não têm dinheiro para esta aventura da NATO, como evidentemente não precisam dela. Quem de facto está interessado é Washington que, com os acordos de adesão à NATO no leste, mata 4 coelhos de uma cajadada só: aumenta o seu espaço de influência político-económico-militar diminuindo ao mesmo tempo o da Rússia no seu histórico quintal, progride imensamente no cerco territorial à Rússia (ver teoria geopolítica do Anel e da Maçã), garante astronómicas encomendas para as indústrias de armamento norte-americanas e, acima de tudo, consegue pôr os seus estados vassalos a pagar as despesas da sua hegemonia militar a nível planetário, uma vez que, integrados na NATO, passam a ter de disponibilizar homens, armamento e equipamento militar para as aventuras bélicas do império (Afeganistão, Iraque, Líbia). Este último ponto mostra uma clara evolução na política militar externa norte-americana. Se antes forneciam equipamento militar aos seus estados vassalos (democracias ou ditaduras, indiferentemente) através de "ajudas económicas", hoje em dia o contrário é real, hoje fazem-os pagar pelas armas que hão-de usar ao serviço submisso do império.

 

  • "A Partir dos anos 50 o auxílio externo dos EUA passou a investir, sobretudo, no apoio aos países que combatiam o comunismo. Em dez anos, dos 50 mil milhões distribuídos pelos EUA a 90 países, apenas 5 mil milhões eram destinados ao auxílio económico não militar." 5

 

Quando hão custos, para alguém há-de haver ganhos. Pois bem, esse alguém é o complexo-industrial-militar privado norte-americano. É que os EUA, através da NATO, não só obrigam os seus estados vassalos a comprar equipamento militar e modernizar as suas respectivas forças armadas, como também não têm qualquer pudor em eliminar empresas de armamento estrangeiras concorrentes das norte-americanas nesses processos de militarização (pela chantagem, normalmente recorrendo à básica e repetida retórica: "ou fazem como queremos, ou desinteressamos-nos da Europa de Leste"). Ao fim ao cabo o complexo militar norte-americano (como a McDonell Douglas fabricante do f-16 ou a Lockheed Martin fabricante do f-18) merece esta protecção de Washington, depois de todo o dinheiro investido pelos primeiros:

 

  • "Muitos dos fundos do Comité dos EUA para expandir da NATO foram fornecidos por firmas de armamento que esperavam vender sistemas de armas americanos a novos estados membros." (em Misunderstanding Europe, de William Wallace e Jan Zielonka)
  • "(...) o sector privado armamentista contribuiu com 8 milhões de dólares para a cerimónia do cinquentenário da aliança, e representantes da Boeing, da Daimler-Chrysler, da General Motors, da Honeywell, da Motorola e outras figuravam entre os convidados de honra à cerimónia."6
  • "Só no ano de 1997, as empresas fornecedoras do Pentágono investiram cerca de 33 milhões de dólares nos dois partidos americanos e gastaram dezenas de milhares de dólares em acções de lobbying junto do Congresso e da Casa Branca. A essa pressão junta-se ainda a dos membros do Congresso, eleitos nos círculos uninominais de regiões onde estão sediadas empresas armamentistas." (em U.S. Arms Makers lobby for NATO Expansion, de Jeff Gerth e Tim Weiner)

 

AS RAZÕES DOS EUA

As verdadeiras razões, ou se preferirem, os verdadeiros motivos dos EUA quererem dar continuidade a uma organização que (aparentemente) já não teria razões de existir - sem a URSS e o Pacto de Varsóvia do bloco leste, a NATO deixava consequente e logicamente de ter inimigo a opor - não podem certamente ser os da defesa e protecção da Europa, dos seus vassalos ou dos estados amigos nas suas zonas de influência. Quanto aos europeus (juntamente com os EUA), estes produzem a maior parte do armamento mundial e também o mais sofisticado; Europa e EUA são ainda e de longe os maiores exportadores de armamento. Em tal cenário é difícil de imaginar um real perigo bélico para nós europeus, e se chegar a haver, será culpa nossa... de vender demasiado armamento.

 

Portanto que faz a NATO na Europa em pleno séc. XXI? Os nossos aliados de Washington insistem que aqui estão para nos proteger, mas os factos contradizem cada vez mais as suas cínicas palavras. Por exemplo, em Março de 1992 o New York Times publicou esta fuga de informação proveniente do Pentágono: "Os EUA devem impedir a todo custo a criação de uma estrutura de segurança estritamente europeia que enfraqueceria a NATO". Aí têm a resposta, aos EUA não interessa a defesa da Europa - para isso serviria a hipotética estrutura de segurança europeia - mas sim a manutenção dessa máquina de guerra e de ocupação que é a NATO - a face militar do Império -, e o controlo dos seus vassalos incumbidos de arcar com os respectivos custos. Ou como disse Brzezinski, "o domínio do xadrez eurasiático continuará a ser determinante para a estabilidade e a longevidade do domínio dos EUA". Sim, a Europa faz parte do "xadrez eurasiático".

 

  • "O império nunca esteve em causa - é aliás significativo que hoje a palavra já nem repugna, sequer, os mais pudicos. O problema da América é outro: pressionar os súbditos a pagar os estragos e a arcar com os custos da conquista. É esse o papel que cabe à Europa na nova ordem euroatlântica." 10

 

Mais do que perder o controlo de parte desse xadrez e, como anteriormente referi, perder vários estados vassalos fulcrais na partilha das despesas (e mortes) das aventuras bélicas norte-americanas, Washington, com a possibilidade de uma maioridade militar europeia, receia o nascimento de um potencial inimigo, ou pelo menos mais um concorrente na disputa sobre a supremacia mundial.

 

  • "Dois documentos do departamento da Defesa (...), a Bottom-Up Review, de 1973, e a Quadrienal Defense Review, de 1997, insistiram na mesma linha, invocando, entre ameaças que se colocam à América, o risco do surgimento de um competidor capaz de rivalizar com a América e de lhe disputar a sua até agora incontestada liderança"7

 

Além de recearem um possível nascimento do inimigo geo-estratégico europeu, os EUA dão-se mesmo ao luxo de continuar espezinhando e reprimindo essa Europa, evitando e prevenindo quaisquer possibilidades de relativa autonomia militar:

 

  • "Bastará uma leitura apressada dos textos emitidos em Bruxelas e em Berlim para perceber que o funcionamento das CJFT, tal como foi definido na antiga capital do Reich, confere aos EUA o controlo absoluto - e um real direito de veto sobre qualquer compromisso empreendido pelos Europeus. As forças europeias poderão agir quando for essa a decisão americana. E, mesmo na eventualidade de uma intervenção europeia, a América mantém, através das estruturas de comando da NATO, o controlo político e operacional da operação." 8

 

Felizmente nem toda a gente anda a dormir sobre este vital assunto. São cada vez mais as vozes de descontentamento e ataque ao ignominioso controlo da capacidade militar europeia por parte dos EUA, assim como do perverso usa dessas nas bélicas aventuras de Washington:

 

  • "No fundo, o que o Congresso e a administração realmente exigem é que os europeus paguem pela hegemonia americana" (em Misunderstanding Europe, de William Wallace e Jan Zielonka)
  • "Há [entre os aliados] um claro ressentimento pela tendência americana de vender acções unilaterais debaixo da retórica do multilateralismo" (Stephen Waltz)

 

Os próprios norte-americanos (ou parte deles) não fazem quaisquer cerimónias e são eles próprios a admiti-lo:
 
  • Os EUA "devem manter a capacidade de agir unilateralmente para defender os seus interesses. As acções unilaterais dos EUA não devem ser constrangidas ou depender das decisões políticas tomadas por governos aliados." (em The United States and European Security, de Paul Gebhard)

 

Voltando à Europa Central e de Leste, os senhores de Washington não tiveram nunca qualquer pudor em travar ou fazer adiar a sonhada entrada desses países na União Europeia, sua principal prioridade (e não a entrada na NATO). Através de chantagens económicas (congelamento de ajudas económicas) ou militares (ameaças de congelamento dos processos de adesão à NATO), os EUA foi controlando na década de 90 as agendas das políticas externas de Leste, de forma a garantir que estes países viessem a fazer parte da sua polícia mundial - a NATO - antes de se tornarem membros da União Europeia. Porquê?

 

Para começar, o cepticismo entre as populações desses países face à terrorista organização não era pequeno. Mas o real receio dos EUA era de que, uma vez membros da UE, os governantes (esses sim, pois a opinião das populações, cépticas ou não, para nada conta) de Leste passassem a ter a percepção de já estarem integrados no tão sonhado "Ocidente", forma de oficializar a sua libertação da histórica dependência face à Rússia. Se assim fosse, era plausível que também por entre as classes governantes crescesse desinteresse ou mesmo cepticismo pela integração na muito dispendiosa e inútil NATO. Este receio norte-americano e os reais actos destes nesta matéria, explicam boa parte dos atrasos da adesão do Leste à União Europeia. E não é uma suposição, é um facto.

 

A POSIÇÃO RUSSA

O facto da Rússia sempre se ter mostrado favorável à integração dos países de Leste na UE, e claramente desfavorável à integração desses na NATO diz quase tudo. Por manifesta falta de poder ou simples cansaço, a Rússia aceita a auto-determinação política e militar da Europa como consequência natural e até desejável do fim do mundo bipolar da guerra fria. O que não aceita e receia é ver o mundo pós-guerra fria se transformar num mundo unipolar e hegemónico nas mãos do Império Bélico-Económico Norte-Americano. Partindo do princípio (plausível) de que a Rússia enfraquecida e cansada seja adepta de um século XXI dominado por uma lógica multipolar, esta apresenta-se para nós europeus menos um perigo que os EUA frontal e publicamente concentrados numa hegemonia sem contestação possível, profundamente imbuídos na ideologia dos falcões neoliberais que sonham com o "The New American Century", ideologia na qual, nas melhores das hipóteses, ser-nos-á reservado (a nós europeus) o subalterno papel de carne para canhão e pagadores de dízimas e, nas piores das hipóteses, alvo a abater no futuro a médio prazo.

 

  • "Moscovo emitiu sinais múltiplos de que gostaria de ver a Europa partilhar, de forma mais equilibrada, as suas atenções entre a NATO e a Rússia - apontando a prazo para a perspectiva de a hegemonia americana evoluir para um triângulo." 9

Luís Garcia, 2012 

1, 2, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10 - Os Novos Muros da Europa, de Carlos Santos Ferreira;

3 - Economic and Financial Aspects of Integration of Poland with NATO Structures, de Elzbieta Firley e Pawel Wieczorek

 

 

 

 

 

 
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Livros de Ignacio Ramonet em português e espanhol (PDF)

 

 

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Do 8 ao 80, por Luís Garcia

 

 

DORMIDAS MÍTICAS – EPISÓDIO 4

8 a 80

 

bw VIAGENS Luís Garcia

Já houve tempos em que eu tinha tudo não tendo quase nada, Quando dormia ao relento ouvindo o vento beijar a geada, Fazia o meu manjar com pão e uva, fazia o meu caminho ao sol ou à chuva... (À Espera do Fim, Jorge Palma)

 

Do 8 ao 80 (Ilha de Lombok, Indonésia, 2011) – Encontrando-me eu na Indonésia com vários transportes por apanhar esperava que, como era hábito, me fosse colocar em complicações, confusões e atrasos. Naquele dia, por milagre (diria eu se acreditasse em poderes sobrenaturais), o exacto oposto aconteceu. Eu tinha comprado no dia anterior um bilhete de autocarro mais ferryboat para realizar a viagem de Maluk (costa ocidental da ilha de Sumbawa) até Mataram, capital da ilha de Lombok. Na minha ingenuidade, acreditei que naquela noite em que parti de viagem seria necessário trocar várias vezes de transporte, mas não. O serviço estava muito bem organizado. O autocarro partiu da estação de Maluk com extrema pontualidade e deslocou-se até ao porto mais perto da cidade. Aí se encontrava o ferryboat pronto a partir, esperando que o nosso autocarro nele entrasse.

 

A travessia por mar decorreu de forma normal e aconteceu inclusive o caso inédito de chegarmos ao destino (porto de Ginyar) muito antes da hora marcada. Olhando as horas, julguei que o condutor daria as habituais mil e uma voltas antes de levar o autocarro até à estação final, pois só assim se explicaria que nos encontrássemos em solo da ilha de Lombok horas antes da hora de chegada escrita no meu bilhete. Quando o autocarro saiu do ferryboat, e havendo recebido a garantia do condutor que não seria preciso trocar de transporte, recostei-me confortavelmente, imaginando que ainda teria umas horas para dormir, das duas da manhã que eram até às seis da manhã indicadas no bilhete. Uma vez mais falhei nas previsões.

 

O autocarro seguiu directo para a estação de Lombok e meia hora depois estacionava na entrada, para que os passageiros saíssem, partindo logo de seguida não sei para onde. Em vez de uma ou duas ou cinco horas de atraso, como é hábito na Indonésia, tínhamos chegado com 3 horas e meia de avanço! Eram duas horas e meia da manhã e eu não só não fazia a mínima ideia da minha localização como tampouco tinha planos para ocupar o tempo até às oito horas da manhã, altura em que deveria aparecer na casa do senhor Klaus, um couchsurfer alemão residente em Lombok que vários dias antes havia aceite o meu pedido para me albergar por um período de três noites em sua casa.

 

Perdido na imensa escuridão e desolação, ainda me arrisquei a dar uma volta pelo bairro de mochila às costas, crente que haveria de encontrar algum tipo de actividade onde me entretivesse, de forma a passar distraído as próximas cinco horas. Nada, luz todas apagadas, silêncio total e não havia vivalma que se aventurasse por aquelas ruas desertas. Não tive outro remédio senão voltar à base, que é como quem diz, regressar a estação também ela deserta e mergulhada na escuridão.


Sentia-me terrivelmente cansado e com vontade de me pôr a dormir, não sabia era onde me encostar para o fazer. No chão nem pensar, estava imundo, repleto de restos de comida lixo, insectos de aspecto pouco convidativo e, uma vez por outra, local de passeio de ratazanas! Acabei por me decidir sentar numas das mesas deixadas na rua em frente ao portão fechado de um pequeno restaurante instalado no edifício da estação. Para evitar toda aquela bicharada os meus pés repousavam num dos bancos espalhados à volta da mesa. E assim passei eu um bom bocado pensando como é bela a vida, por vezes de olhos fechados, tentando com todas as minhas forças não adormecer por completo. Esforço inglório, com as poucas forças que me restavam apenas poderia me manter acordado se encontrasse algo com que me entreter! Mergulhado naquele imenso tédio acabei por desistir da ideia e deitei-me, de forma muito precária, num outro banco.

 

Ter conforto nem pensar pois o banco era feito de madeira maciça. Para tornar a tarefa ainda mais complicada, o banco era muito estreito e tinha pouco mais de metade do meu comprimento. A única forma que encontrei para ali me deitar foi pôr-me de lado, com as costelas da minha magreza espetadas contra a madeira rija. Viajando com apenas dois ou três trapos na mochila, nem sequer pude utilizar grande coisa para tornar a cama mais macia, ficando separado do banco apenas pelo tecido muito fino do saco-cama, o qual fechei de tal forma que de fora só deixei o nariz para respirar. Não que tivesse muito frio, pelo contrário, mas sim porque receava o contacto com toda aquela bicharada, mal-amadas e muito feias criaturas da noite cuja metade (pelo menos), julgava eu, seria bem capaz de ser venenosa ou possuir outros atributos pouco simpáticos para o bem estar do meu corpinho. Ou não, enfim, mariquices de estrangeiro, talvez! 


Poucos minutos depois de eu me deitar e tentar a missão quase impossível de dormir naquele banco, dois locais, bem embriagados, aproximaram-se, puxaram um banco no qual se sentaram e meteram-se a falar para mim. Abri o saco de cama até à cintura e sentei-me também, meio confuso com o estranho evento ali a decorrer misturado com o sonho que havia começado a sonhar semi-acordado. Não posso dizer que chegámos a conversar, o que se passou foi mais uma divertida conversa entre surdos, eles embriagados de álcool, eu bêbado de sono. Eles falando indonésio, eu falando um mistura nem eu sei de quê. Acabou por ser uma absurdidade que se tornou real e ali ficámos nós em animada conversa até o sol nascer.

 

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Quando partiram, já dia, arrumei tudo dentro da mochila e fui me sentar na única mesa da esplanada de uma estação de serviço que abrira minutos antes. Bebi um café para aquecer e despertar a mente, aproveitei para roer uns doces e, entretanto mais desperto, pus-me a ler um dos livros que trazia na mochila. Por volta da sete e quarenta e cinco perguntei ao empregado da estação de serviço por um telefone público e liguei ao senhor Klaus, avisando-o que me encontrava em Mataram e pronto para me deslocar até sua casa tal como havíamos combinado. O senhor Klaus havia me pedido por email que eu aparecesse em sua casa às oito horas da manhã. Explicou-me que não seria agradável que eu chegasse antes ou depois dessa hora e insistiu que eu fosse pontual (sim, é alemão ou senhor)!  

 

Não tive outro remédio senão desenrolar toda a operação com a maior eficácia possível. Expliquei por telefone onde me encontrava e ele respondeu-me que o melhor seria eu apanhar um táxi e indicasse a sua morada completa ao condutor. Assim fiz, um pouco contrariado visto que por norma não utilizo táxis, mas quis acreditar que a sua casa estivesse localizada num muito remoto lugar ou que fosse difícil para mim descobrir sozinho. Quando cheguei ao portão de casa percebi que me tinha enganado. A casa estava situada num rua que fazia uma linha recta em direcção à praia e tampouco era de difícil de localizar. Para que eu lá chegasse, bastaria apanhar um qualquer autocarro que percorresse a estrada principal junto à costa que liga a capital Mataram à famosa zona de resorts de Sengiggi. Fiquei um pouco aborrecido pelo dinheiro desperdiçado no desnecessário táxi, mas enfim, dias não são dias, e além do mais não tinha gasto um cêntimo pela não-dormida da noite anterior! A razão pela qual o senhor Klaus me havia aconselhado a deslocar-me até sua casa de táxi foi-me dada pelo que os meus olhos viram após os primeiros passos dados dentro do jardim envolvente: luxo, mordomias, casa de sonho e piscina olímpica privada. Na mente daquele senhor com todo o aspecto de ser milionário já não deveria haver lugar para os conceitos de autocarros e transportes públicos em geral. O dinheiro em que pelos vistos nadaria seria a droga amnésica responsável pelo seu esquecimento.


Quaisquer dúvidas que me restassem sobre o nível de vida do senhor Klaus foram dissipadas pelo quarto em que uma das suas empregadas me foi instalar. Parecia estar a entrar numa suite de um hotel de cinco estrelas! O primeiro pensamento que me veio à cabeça foi: “por que é que pedi casa apenas para três noites e não para sete ou oito!


Nos três dias seguintes e para meu grande espanto, viveria na tropical Senggigi uma experiência mais parecida com umas férias caríssimas num resort daqueles que turistas sonham gastar todas as suas poupanças de um ano de árduo trabalho de uma assentada e sentirem a frívola sensação de se ser aristocrata por uma semana e, por conseguinte, menos parecida com as restantes muitas dezenas de hospedagens couchsurfing que havia eu experimentado até ao momento... 

 

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Quarto de luxo, casa-de-banho privada, comer só do bom e do melhor, empregada doméstica ao meu dispor a toda a hora e serões na esplanada bebendo bom vinho ao som de bossa nova enquanto discutia política internacional com o senhor Klaus. É o melhor resumo que posso oferecer dos dias passados dentro daquela mansão, rodeada de floresta tropical e a uns passos de praias desertas de inqualificável beleza. Havia ainda uma fenomenal piscina, enorme e feita em pedra, mas aí parei pouco. Mergulhei nas suas límpidas águas uma só vez, não que não achasse piada à piscina, mas porque não fazia sentido (para mim) perder tempo numa caixa com água e cloro quando se tem uma ilha com centenas de praias paradisíacas, na sua maioria desertas, e candidatas a aparecer num qualquer top das melhores praias do mundo, se é que fazem algum sentido esse tipo de classificações...


Era fantástico acordar, descer as escadas e encontrar na mesa da esplanada uma taça de café de tão sublime aroma. Para acompanhar, um prato com uma dúzia de tipos de fruta, todos descascados e cortados em pedaços, mais de metade deles desconhecidos por este português habituado a latitudes menos tropicais. Não julgue o leitor que era a dieta imposta na casa! Não, a empregada responsável pelos meus caprichos perguntava-me na noite anterior o que eu iria desejar para o pequeno almoço do dia seguinte. Respondia eu: “Fruta, muita e boa!”


Comer bem e bem beber não me causaram transtornos alguns, como é óbvio. Mais complicado era o que vinha depois. Habituado a fazer tudo sozinho e, quando hospedado por um couchsurfer, acostumado a ajudar nas tarefas domésticas, não conseguia controlar o instinto de, acabada a refeição, pegar na loiça por mim suja e ir lavá-la. Quem não apreciava nada estes meus gestos irreflectidos (mas normais, ah, muitíssimo normais) era o senhor Klaus que se queixava que agindo assim habituaria “muito mal a criadagem, que por norma já pouco ou nada tem para fazer e é muitíssimo bem paga.” O meu lado de hóspede couchsurfer agradecido pelo conforto pedia desculpa. O meu outro lado, mais pragmático e amante das pequenas coisas da vida (que acabam por ser de facto mais valiosas que tudo o resto), esse lado, dizia eu, sentia-se constrangido e fora do seu habitat natural.

 

Para demonstrar a frustração e o conflito entre mundos que aconteceram naquela morada, e para acabar a estória, vou contar o que me aconteceu na segunda manhã depois do pequeno-almoço. De barriga cheia e muito agradecido pelas frutas maravilhosas que havia preparado para mim, saí ao jardim para falar com a empregada. Apercebendo-me que ela estava a arrancar ervas do jardim, perguntei se me deixava ajudá-la e pus mão à obra contentíssimo. A minha intenção nem foi tanto o ajudá-la para que esta fosse descansar mais cedo, mas antes o de usufruir do profundo prazer que tenho em mexer em terra e plantas, em arrancar com os meus dedos nus as segundas da primeira. Ai está, uma daquelas pequenas coisas que eu dizia serem mais valiosas que tudo para mim.

 

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O senhor Klaus, muito politicamente correcto e muito alemão, chamou-me de forma delicada argumentando que queria partilhar comigo uma qualquer informação curiosa que cria ser do meu interesse. Assim que entrei na sala, o senhor Klaus esperava-me sóbrio e de expressão zangada. Pediu-me, numa voz pesada contrastando com o seu esforçado sorriso, que lhe jurasse ser aquela vez a última na qual ele me encontrava a realizar tarefas destinadas exclusivamente às suas empregadas! Ainda esbocei uns pensamentos e tentei organizar os meus argumentos para o fazer perceber que eu arrancara as ervas por prazer, que era um género de terapia anti-stress para mim ou uma treta do género... Porém, no último instante, imaginando que o senhor Klaus nunca me iriam compreender, apenas pedi repetidas desculpas e precipitei-me para a saída antecipando o meu passeio de mota do dia. Vendo-me sair assim de repente, de forma inesperada, a empregada que arrancava ervas parou a sua tarefa por instantes, olhando-me preocupada. Eu apontei para dentro de casa com o nariz como quem lhe pergunta se está inquieta com o que se tinha passado entre mim e o senhor Klaus. Para confirmar que sim, abanou a cabeça de forma muito subtil, receosa que Klaus se encontrasse a observar-nos. Pisquei-lhe o olho sorrindo, como quem diz “está tudo bem”. Ela percebeu a mensagem, sorrindo aliviada, dizendo-me adeus e voltando ao seu trabalho de arrancar ervas daninhas, pelo menos as pequenas, pois há ervas daninhas tão grandes e tão poderosas que jamais haverá quem as consiga arrancar dos solos férteis deste mundo social...

 

Luís Garcia, 27.07.2016, Chengdu, China

 

 

 

 

 

 
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Livros de Francesc Ferrer i Guàrdia em português (PDF)

 

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Os golpistas turcos, os bárbaros gregos e os angélicos europeus - PARTE 3/3, por Luís Garcia

 

 

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Luís Garcia POLITICA   

Golpistas turcos

 

 

Auto golpe?

 

Tenho lido e ouvido muito sobre um auto-golpe de Erdogan, uma operação de bandeira falsa do regime turco. Sinceramente, não faz sentido nenhum. Erdogan pode ser tresloucado, arrogante, ambicioso, imperialista, criminoso e até burro, mas não tão burro assim! Desde que é chefe de estado que passa o tempo a prender sobretudo altas patentes do exército e da polícia turcas. Só uns media voluntariamente desatentos, e uns seguidores desses media desinteressados pela realidade política turca podem ignorar a montanha de casos de turcos presos pelo regime por serem demasiado incómodos ou, no caso de jornalistas, professores universitários, escritores, etc., demasiado informados sobre a podridão do estado terrorista turco. Insisto, Erdogan não tem problema nenhum em passar por cima das leis turcas e dos turcos, aliás nunca teve, daí que não precise de operações de bandeira falsa para legitimar a prisão de mais militares ou quem quer que seja!

 

Um golpe de estado na Turquia, falhado ou não, faz transparecer fraqueza como escrevi ontem, mostra que é possível bombardear palácios presidenciais e ocupar militarmente localizações estratégicas como a capital Ancara ou o Estreito do Bósforo junto a Istambul. Tendo em conta que a Turquia está em guerra civil há meses, era preciso ser muito otário para dar mais más ideias a quem quer se ver livre dele, não?


É verdade que, como me disseram alguns amigos das redes sociais, "o golpe de estado fracassado cria condições para a implementação de medidas ainda mais securitárias e para a reimplementação da pena da morte, do saneamento (agora totalmente justificado) dos seus opositores internos e para a radicalização das políticas e da religião, bem ao gosto de Erdogan." (citando Ana Leitão) Sem dúvida, mas não prova auto-golpe nenhum, apenas demonstra aproveitamento da situação para continuar a sua já antiga política repressiva.

 

Outros tem explorado a questão da facilidade com que o regime Erdogan conseguiu parar o golpe, desconfiados que tantas facilidades indiciem um auto-golpe: "De fato, tem muitos pontos obscuros destes acontecimentos num país chave para os Eua-Otan na Europa que deverão ser foco de muitas análises, entre elas, por exemplo, a movimentação de toda a alta cúpula das forças armadas turca sem que o presidente não soubesse de nada quando sabemos que os melhores e mais sofisticados sistemas militares ocidentais de espionagem e guerra eletrônica encontram-se exatamente nas bases da Otan na Turquia. Sabemos de antemão, que toda a liderança militar "do golpe", cerca de 20, foram todos liquidados num único ataque ao um helicóptero." (citando Carlos Alberto Uchoa). Eu acho que se explica tudo isto com muita facilidade. Primeiro, por entre os militares turcos a mando dos EUA neste golpe contra o governo turco, pode ter havido quem tenha mudado de lado. Segundo, se foi possível  que tanta movimentação ocorresse sem o conhecimento antecipado de Erdogan, a razão reside no facto do Pentágono ter mais conhecimento das forças armadas turcas que o próprio governo turco, sobretudo quando falamos das organizações militares secretas da NATO (Gladio), que na Turquia são chamadas de Grey Wolf (ler Nato's secret armies - Operation Gladio and terrorism in Western Europe). O mesmo se aplica a quase toda a Europa, mas isso é outra história. Terceiro, é bem provável que a pragmática jogada de xadrez à Putin, que terá avisado Erdogan sobre o iminente golpe, tenha permitido ao regime turco reagir com prontidão e eficácia.

 

Em resumo, eu contínuo a achar que a pessoa mais assertiva em questões de política turca é o jornalista dissidente francês Thierry Meyssan, exilado há anos em Damasco, Síria, que já leva mais de um ano prevendo a desintegração do estado turco com golpes de estado, guerra civil ou revolta popular. Ora, o elemento que faltava apareceu esta semana, como previsto, mesmo que por agora tenha falhado e não tenha sido um muito genuíno exemplo de golpe de estado. 

 

Listas premeditadas? Sem dúvida!

 

A quantidade de gente demitida e/ou presa é assustadora, já ultrapassa as 50.000, daí que haja quem suspeite de que as listas negras já deveriam existir antes do golpe falhado. Pois claro que existiam, há anos que existiam, há anos que têm sido regularmente executadas mas, uma vez mais, objectivamente não provam auto-golpe nenhum. Provam antes ser ditatorial e repressivo o regime de Erdogan, esse mesmo "democrático regime" que a Europa e quase todo o Mundo felicitaram quando se soube que havia sobrevivido ao golpe. Que palhaçada! A título de exemplo, foram menos de 1500 as pessoas presas na Síria de Assad em 2011. Nem vale a pena discutir se estavam ao serviço ou não de uma revolução colorida made in USA. Basta constatar que essa foi a desculpa do ocidente para inundar a Síria de mercenários e organizações terroristas, enquanto que 50.000 detidos na Turquia recebe como reacção frases ocas de descontentamento da elite política europeia.

 

 

Aliás, pior, já é a própria União Europeia que afirma saber que as listas eram premeditadas, pela voz de um comissário europeu que não tem razão nenhuma para criticar o regime turco pois como todos sabemos nenhum dos comissários europeus são eleitos pelo voto dos povos europeus. São antes escolhidos (por quem? Aí está! Pelos mercados, quem mais haveria de ser), tal como o Presidente da Comissão Europeia. Não se espantem depois que um gajo como o Durão Barroso passe de presidente da Comissão Europeia a presidente do conselho de administração do Goldman Sachs International! Ahhh, pois é pessoal, Europa, essa "terra de paz, de liberdade" e de alucinação colectiva!

 

Mas voltando ao assunto, apesar das críticas europeias, "os ministros dos negócios estrangeiros da União Europeia pedem às autoridades turcas que os confrontos com os golpistas respeitem os direitos humanos!" É, tem se visto, espancamentos colectivos e decapitações em plena rua incentivadas pelo governo de Erdogan... Enfim! Nem me espanto. Mete nojo é ver estes prostituídos políticos europeus pedir o contrário daquilo que constatam na TV e não passar disso mesmo, de pedidos estéreis. Insisto, no caso da Síria, por mais que se saiba hoje que os protestos em 2011 tenham sido pagos pelo NED e USAID, a reacção dos mesmos prostituídos políticos europeus foi contrária: patrocinar, treinar e armar as organizações que, precisamente, não respeitam os direitos humanos na Síria! Nem de perto nem de longe! Que corja imunda!

 

 

 

 

O Império enjoou de Erdogan?

 

Pelos vistos sim. Porquê? Tenho enormes dúvidas, visto que tudo é decidido em segredo e não há forma de saber quem decidiu primeiro o quê. Ninguém consegue provar se as várias decisões turcas anti-EUA levaram à decisão nos EUA da necessidade de descartar Erdogan, ou se essas decisões foram feitas em reacção ao distanciamento a priori dos EUA. E uma pessoa pergunta-se que andam os donos do Império a preparar de novo!?!

 

Se o distanciamento vem dos EUA, não vale a pena tentar perceber. O Império tem vários governos paralelos (Presidente e seu gabinete, Pentágono, CIA, Complexo-Industrial-Militar, governo de Telavive, etc.), com interesses quase sempre dessincronizados, e mesmo quando sincronizados e em uníssono, não têm problema nenhum em, por exemplo, no mesmíssimo dia, entregar armamento a membros do ISIS pelo ar e assassinar outros membros do ISIS com um ataque aéreo. São factos provados. Insisto, não vale a pena tentar perceber manobras de um Império cujas premissas fundamentais são o dividir para reinar,  a guerra permamente e o caos permanente

 

Se o distanciamento começou do lado turco, explicações não faltam. Por exemplo, ter pedido desculpa à Rússia pelo caça russo abatido pela força aérea turca sob ordens do Império. Ou, Erdogan voltar a ponderar a construção do oleoduto russo "Turkish Stream", que no meu entender é uma gravíssima razão para destruir o governo de Erdogan (ler livro Guerra e globalização). Mas há mais razões:

 

Erdogan se negó a participar en las sanciones occidentales contra Moscú y compró a China misiles de defensa antiaérea HQ-9 y manifestó su deseo de integrarse en la Nueva Ruta de la Seda permitiendo inversiones del Banco Industrial y Comercial de China (ICBC) por lo que Erdogan sería un obstáculo para el diseño de la nueva doctrina de EEUU. En efecto, la nueva doctrina geopolítica de Erdogan pretende dejar de gravitar en la órbita occidental y convertirse en potencia regional (Germán Gorráiz López

 

Não é com compromissos estratégicos com a Rússia e China, nem tampouco com ambições de autonomia face aos EUA como ponto de partida para o estatuto hipotético de potência regional que Erdogan agrada o Império, pois claro que não. E neste ponto demonstra muita estupidez o senhor Erdogan. A Turquia só tem "poder" na actualidade para desrespeitar a lei internacional e a soberania de outros estados pois tem (tinha) as costas protegidas pelo Império e o seu instrumentum regni NATO. Sem o papá para proteger, o artificial estado turco mal se manterá de pé, quanto mais ser uma potência. Sonha aos impérios, nostálgico, o novo Pachá? Deixai-o  sonhar... Deixai-o acreditar que pode desrespeitar as ordens do Império em total impunidade. Que imbecil!

 

Voltando ao distanciamento entre Império e Turquia, desrespeito turco ou novo capricho norte-americano, ambas as opções acabam naturalmente com um golpe de Estado da NATO na Turquia, falhado ou não. Só quem anda distraído é que não sabe que a mais valiosa exportação norte-americana (para os norte-americanos) é a mudança de regimes...

 

Só quem anda distraído é que não sabe que o Império é constituído pelos EUA e Israel. E que Israel está profundamente envolvido em tudo o que se passa desde o Sudão do Sul (sua propriedade) ao Curdistão Iraquiano (seu vassalo), desde a Somalilândia (sua base militar) ao ISIS que ataca o exército sírio em sincronia com as forças armadas sionistas, como tantas vezes já foi provado pela agência de notícias síria SANA e inclusive implicitamente admitido por Benjamin Netanyah, ainda que para compor tenha apelidado ISIS de "inimigo".

 

E parece que Erdogan anda muito distraído, pois deixou-se ser vítima de uma tentativa de golpe de estado liderada pelo general Akin Ozturk, um senhor que foi muitos anos attaché militar da embaixada turca... em Israel! E quer Erdogan construir um império, eheh!

 

Vejam o general Akin Ozturk (na frente) e vários outros com claras mostras de terem sido espancados (é que estes são golpistas de gabinete, dos que dão ordens, não dos que foram à rua, daí que não haja razão plausível para se mostrarem feridos):

 

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Portanto, Erdogan não sabia que o Império enjoara?

 

Sabia bem, e por isso não hesitou em fechar as portas à valiosíssima base militar que o Império possui em terras turcas, a Base de Incirlig, juntou à Síria e da qual costumavam sair os caças da NATO em missões ilegais e terroristas na Síria. Não só mandou fechar como mandou também cortar a electricidade e fechar o espaço aéreo sobre a dita base.

 

 

E mandou prender o piloto turco que abateu o avião russo a mando dos EUA. Para calá-lo da merda a mais que sabe, para servir de bode expiatório e agradar à Rússia, ou simplesmente porque é mais um daqueles que está mais ao serviço das forças armadas do Império do que às turcas, o que provaria que a ordem de abater o caça russo teria vindo dos EUA. É que claramente, o abate do caça tinha como objectivo assustar a Rússia e afastá-la da síria, propósito estúpido, mas real. Os EUA não o poderiam fazer directamente, sobre risco de deflagrar uma guerra mundial nuclear, mas a Turquia com fronteira com a Síria (onde se podia inventar tretas de violações de espaços aéreos) podia fazê-lo, e depois, com os media e opinião pública mundial enganados, nada poderia fazer militarmente a Rússia em resposta (e não fez), pois Turquia é membro da NATO, logo um ataque militar russo à Turquia seria um ataque aos EUA, ou seja, a tal guerra mundial nuclear (ansiada por alguns dos governos do Império, acreditem. Esperem para ver o que fará Hillary Clinton, essa angélica defensora da guerra atómica)!

 

 

 Se não soubesse do enjoo do Império, e se não suspeitasse que o golpe falhado terá sido fruto desse enjoo do Império não teria reagido assim Erdogan com o piloto e com a base de Incirlig.

 

E será que o Gulen está metido na estória?

 

Não me parece, Gulen não é o exército (mesmo que haja simpatizantes de Gulen no exército), e o exército é controlado antes pelos EUA. Erdogan, quando se queixa de Gulen, seu inimigo politico exilado nos EUA, está a falar para consumo interno, tentando destruir o movimento político em torno de Gulen. Pior, hoje vi na TV apoiantes de Erdogan e do seu partido apelidarem os apoiantes de Gulen de "terroristas", tal como o próprio Erdogan já havia feito antes! Sim, terroristas! Porquê? Com que provas? Não interessa... Há que prendê-los, espancá-los e persegui-los. Pois, pois, ai está a guerra civil prestes a desdobrar-se em múltiplas frentes como adivinhava Thierry Meyssan. Na Turquia de hoje, ser-se simpatizante de um movimento politico é terrorismo, como é terrorismo um curdo ser apoiante do HDP ou do PKK curdos. Assim não sobra nada, fica apenas o partido no poder, que conveniente! E a esta palhaçada chama a UE de "regime democrático"!?! Cambada de otários!

 

 

Os EUA dizem, muito bem, que só o extraditam se Erdogan mostrar provas. Claro, pois sabem que não há provas contra Gulen. Pode haver sim contra os EUA, mas isso é outra história.

 

 

De qualquer modo não deixa de ser mais um ataque de Erdogan ao Império que o traiu, fazer ameaças neste tom! Eu acho bem, tudo o que implique auto-destruição do regime de Erdogan, acho muito bem, que continue a ameaçar os EUA, com ou sem fundamento! 

 

Para acabar com o tema Gulen, só queria alertar que tanto Gulen e a sua rede de influências como Erdogan e a sua rede de influências são dois grandes contribuintes de doações para a campanha presidencial de... pois sim, Hillary Clinton! Ah, the show must go on!

 

Rússia, China e Síria

 

Uma vez mais vou dizer algo pode chocar muita gente mas que não me choca nada a mim, habituado que estou a seguir as jogadas de xadrez geo-estratégico de Putin. Putin terá informado Erdogan com várias horas de antecedência sobre a tentativa de golpe de estado que vinha a caminho. Sem dúvida que a Rússia (pelos motivos já expostos antes neste artigo), de forma paradoxal (ou aparentemente paradoxal) se mostra interessada na continuação de Erdogan no poder na Turquia. A mim parece-me uma aposta fraca de Putin, mas Putin várias vezes já demonstrou estar eu errado com o meu cepticismo para com as suas jogadas incompreensíveis.

 

 

A imensidão de crimes que a Turquia realizou sob as ordens de Erdogan e ao serviço do Império são  indesculpáveis e impossíveis de ignorar, sobretudo para os sírios, vítimas directas. Putin, Xi Jinping e Assad sabem no bem, mas Erdogan não entende assim, pois enquanto os primeiros querem ver Erdogan parar com as suas ingerências criminosas e seus actos de terror, este quer, ingenuamente, continuar a fazer o que bem lhe apetece, agora de forma autónoma aos interesses e/ou ordens do Império,  o que não é a mesma coisa!

 

Adivinham-se acordos estratégicos entre Rússia e Turquia, pois ambos perdem muito economicamente. Erdogan tem a razão extra de ver neste inesperado apoio da Rússia eterna inimiga dos turcos a corda de salvação para o seu regime. No entanto o big player é Putin e sim, vamos sempre dar ao mesmo: Putin tem de construir oleodutos e gasodutos que cheguem ao mercado europeu! Com a Ucrânia nas mãos do Império, a única opção que sobra é a Turquia (olhem para o mapa da Rússia e seus vizinhos e, sobretudo leiam Guerra e Globalização).

 

Voltamos portanto atrás no tempo e recomeçamos com a história do oleoduto Turkish Stream, nada é perdoado, nada é esquecido, mas se Putin encontra fisicamente escoamento para o gás e petróleo russos em direcção à Europa, depois de mais de 25 anos de sabotagem do Império, ahhh, ficará para a história não como um grande líder russo, mas como O Grande Líder russo

 

Claro que é imperdoável para a Síria a destruição que sofreram e ainda sofrem, claro que a China abençoará tudo desde que a Turquia canalize os lucros provenientes do gasoduto na compra de material bélico chinês de última geração e claro que o grande vencedor desta aposta arriscada seria Putin e a sua Mãe Rússia. Só Erdogan continuará a meter nojo com a sua tresloucada ambição a potência regional num estado então puramente turco (a continuar-se a limpeza étnica e a perseguição a arménios, curdos, alevitas, etc).

 

Só não deixará de ser nunca uma tremenda humilhação ter Erdogan recebido do seu inimigo eterno a informação que o Império seu patrão, seu papá e seu protector de desvarios, estava prestes a dar-lhe com um golpe de estado. 

 

Mesmo que a Rússia, a China e a Síria não ganhem a confiança de Erdogan (aliás para que a querem, desde que haja alguém na Turquia que proteja o oleoduto russo), pelo menos rebaixam a Turquia para a sua posição real, que é a de um estado normal, banal, obediente e bem comportado, quando não têm as costas protegidas pela máquina de guerra do Império. E é importante (para Erdogan e sua ovelhada) não esquecer que, quem não está sob a protecção da NATO e ao serviço do terror da NATO, passa a ser alvo óbvio e inevitável do imenso poder de caos e destruição da NATO! É fodido, não é?  Putin, com toda esta jogatana fá-lo perceber que o lado russo não age assim, que nunca agiu assim, à ganster. Ao contrário do Império, a Rússia não é governada por gansters imprevisíveis e caprichosos. A Rússia é governada por jogadores de xadrez capazes de oferecer ajuda de inteligência a um inimigo directo menor no momento mais inesperado, de forma a poder superar todo o jogo sujo do inimigo directo maior e pelo menos numa partida poder fazer cheque-mate !

 

Wikileaks

 

Coincidências ou reacção de quem já tinha material preparado sobre a Turquia, a Wikileaks logo no dia seguinte ao golpe falhado já prometia publicar mais cerca de 300.000 documentos envolvendo directamente o governo de Erdogan. A reacção turca(?) veio em forma de ataques massivos à rede Wikileaks, que como esperado não se deixou intimidar e acabou mesmo por publicar os documentos prometidos. Também esperado, pois claro, era que Erdogan não gostasse da brincadeira. Resultado, mais um ataque à liberdade de expressão, com o bloqueamento dos sites Wikileaks em território turco:

 

 

Só falta um estado de emergência, não?

 

Ahaha, e já está! Estão a ver caros humanistas europeus, já está oficializada a repressão total na Turquia. Estado de emergência num país que ainda sem estado de emergência havia prendido 50.000 em poucos dias, um país que mesmo sem estado de emergência há 8 meses que estava em guerra civil com os seus curdos e os seus arménios, tudo isto num país que há anos anda aterrorizando os seus vizinhos iraquianos e sírios, comprando petróleo roubado pelo ISIS à Síria, e vendendo armamento ao ISIS! Agora imaginem como vai ser com estado de emergência!

 

Então caros humanistas da piça, para quando uma revolução colorida, um TurcoMaidan com vossa europeia e angélica benção, com a vossa polaca ou lituana bênção? Para nunca, pois quem as faz, como na Ucrânia, Geórgia e outros tais, são a CIA, o NED e a USAID, ao serviço dos interesses dos donos do Império, interesses privados e não "nacionais" como têm o descaramento de afirmar! E não, não é o povo desses países que sai à rua queimar polícias vivos, não, como genuinamente muito europeu, sobretudo de leste, tem a inocência de acreditar! (Já está em andamento a próxima, na Arménia, outra peça de xadrez russa que vai ser mandada ou não para fora do tabuleiro com mais uma revolução colorida da treta made in USA. Ficai atentos!)

 

E para quando a criação de um Exército de Libertação Turco composto por mercenários de mais de metade dos países do planeta, que com facilidade se aliarão a Al Qaedas, AQMIs, AlNusras, ISIS e outras belas criações ainda por inventar nos gabinetes do Pentágono. Para quando essa liberação armada de fora para dentro da qual resultará decapitações, mercados de venda de crianças ou implosões de locais históricos? É que estou ansioso por ouvir os cânticos de louvor que os humanistas europeus e ocidentais farão a toda essa barbárie, assim como hoje louvam a barbárie que impõem aos povos sírios! Pelo menos haveria uma grande diferença: poderiam esses humanistas-zombies-alienados afirmar com toda a justiça que o chefe do regime turco é um sanguinário!. Sim, sim e sim, por uma vez teriam razão! Apoiando terroristas, desde o Boko Haram na Nigéria ao ISIS na Síria, e ordenando a limpeza étnica actual na Turquia em forma de guerra civil, Erdogan, autor moral e cúmplice de derramamento de tanto sangue humano, é sem dúvida nenhuma um sanguinário! Deixem Assad em Paz! Deixem a Síria em Paz!

 

 

 (Leia aqui a parte 1)

(Leia aqui a parte 2)

Luís Garcia, 22.07.2016, Chengdu, China

 

FONTES:

- Guerra e globalização, Michel Chossudovsky, Editora Expressão Popular, 2004 (em PDF)

- Nato's secret armies - Operation Gladio and terrorism in Western Europe (em PDF)

US Hypocrisy: Turkey Allowed to Crack Down on Uprising but Syria Can’t

Desespero mediático 2 - Turquia (Pensamentos Nómadas)

- Crise de refugiados sírios. A sério? (PARTE 1/2) (Pensamentos Nómadas)

- Crise de refugiados sírios. A sério? (PARTE 2/2) (Pensamentos Nómadas)

Putin, o mestre da diplomacia xadrez (Pensamentos Nómadas)

Cumhuriyet publishes video for weaponry in lorries affiliated to Turkish intelligence

Turkish authorities arrest Zaman Al Wasl reporter in Gaziantep

Turkey Seizes Newspaper, Zaman, as Press Crackdown Continues

Turkey suspends European Convention on Human Rights in wake of coup

Turquía detiene a los dos pilotos que derribaron el avión ruso
Local authorities block access to air base in Turkey that houses US nukes

All Turkish academics banned from traveling abroad amid widening post-coup purge

Durão Barroso vai ser “chairman” do Goldman Sachs 

Erdogan como víctima colateral de la Guerra Fría EEUU-Rusia

Main Turkish General in Coup Served as Army's Attache in Israel

El Parlamento de Turquía aprueba el estado de emergencia

Turkish President Recep Tayyip Erdogan (File)Erdogan Declares Three-Month State of Emergency in Turkey

What Benjamin Netanyahu Said About Syria Might Surprise You

Turquía detiene a los dos pilotos que derribaron el caza ruso Su-24

Turquía amenaza con revisar lazos con EEUU si no extradita a Gülen

Informe: horas antes de golpe militar en Turquía, Erdogan fue advertido por Rusia

Hours Before Military Coup Attempt, Turkey Warned by Russia – Reports

Russia warned Turkey of imminent army coup, says Iran’s FNA

 

 

 

 

 

 

 
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Os golpistas turcos, os bárbaros gregos e os angélicos europeus - PARTE 2/3, por Luís Garcia

 

 

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Luís Garcia POLITICA   

Angélicos europeus

 

Sim, ontem não respeitei a ordem do título, tendo começado com os gregos em primeiro, e vou continuar a desrespeitar, deixando os turcos para o fim, já que, segundo a sabedoria popular, "os últimos são os primeiros", ou não. Vamos lá então aos europeus, habitantes dessas terras de pazes perpétuas cheias de sangue, racismo, caças de guerra que despejam bombas sobre árabes e, claro está, humanismo cruzado com demagogia e ignorância até mais não!

 

Tadinhos dos 8 turcos

 

Aos humanistas europeus e aos europeus em geral, sobretudo aqueles que nunca sabem o que se passa e o que se faz com os impostos europeus "lá fora", pergunto-vos escandalizado: Por que raio se preocupam tanto com a hipotética extradição de militares turcos pela Grécia? Ou, se preferirem, por que raio não se interessam por mais nada, como por exemplo, toda a merda que se passa na Turquia desde há vários anos? Para não andar sempre a dizer o mesmo, transcrevo parte do meu artigo Desespero mediático 2 - Turquia para aqui:

 

Durante anos refugiados sírios na Turquia foram tratados abaixo de merda enquanto que uma boa parte dos homens era obrigada a juntar-se aos grupos terroristas anti-Síria treinados em bases militares turcas como as de Karaman, Osmaniye e Sanliurfa, e enquanto uma boa parte das mulheres e meninas sírias eram vendidas como mercadoria a bárbaros dos estados árabes nossos aliados.

A crise de refugiados, do ano passado, a caminho da Europa só começou quando a Turquia deixou de os armazenar em campos de concentração e despachou-os a pontapé para as bordas do mar Egeu e da fronteira com a Grécia e a Bulgária. O próprio Erdogan afirmou há semanas, qual mafioso extorquindo suas vítimas, que se a Europa não lhes der mais dinheiro, mais refugiados serão empurrados para a fronteira Turquia-UE! Não ouviu falar desta afirmação tresloucada nos seus media predilectos? Não, não foi por acaso que não ouviu nada!

Assim que a Turquia foi aceite dentro da Coligação Ocidental anti-ISIS (parece uma piada mas não é), a primeira decisão militar que tomou foi bombardear cidades turcas habitadas por curdos, sobretudo aquelas (basta fazer um cruzamento de dados para se aperceber de tal) nas quais o partido curdo tinha ganho mais votos nas últimas eleições legais que deixou o país num impasse. Houve uma outra eleição depois, na qual esses mesmos curdos foram impedidos de participar e da qual saiu vencedor (da enorme farsa eleitoral) o inevitável Erdogan!

Com o golpe de estado concretizado e a população curda sendo massacrada dentro da Turquia, o exército turco lembrou-se de invadir o norte do Iraque com equipamento pesado e 1500 homens, por muito que o governo de Bagdad tenha insistido que tal se tratava (obviamente) de um acto de agressão turco. Algum jornalista fez esta reflexão nos media nacionais? Duvido!

 

Quando nesse artigo falava de golpe de estado, referia-me ao golpe de Erdogan contra a democracia turca, pois é impensável falar de eleições democráticas e livres quando se prende dezenas de membros do principal partido da oposição, e se cerca militarmente cidades onde habitam milhões de apoiantes desse partido (curdo), impossibilitados portanto de votar. Assim é fácil de ganhar eleições (não democráticas). E quanto ao humanismo europeu, por onde andava quando em vez de ir votar, o povo curdo era bombardeado nas suas casas na Turquia? Insisto, neste momento a Turquia conta com centenas de milhares de refugiados internos e milhares de mortos e desaparecidos, sobretudo devido aos cercos a cidades e regiões curdas inteiras às quais as autoridades turcas cortam o acesso a água, electricidade e comida durante semanas, e devido à guerra aberta contra as populações civis curdas e à sua organização de resistência (PKK). Como ninguém, por entre os humanistas europeus, lamenta toda esta barbárie?

 

E que dizer dos refugiados sírios que o governo de Erdogan empurrou para a Europa em 2015, depois de anos a escravizá-los, a vendê-los como gado e a treiná-los à força em campos terroristas na Turquia? Pior, que dizer do facto de nós humanistas europeus pagarmos a Erdogan 3.000 milhões de euros por ano pela deportação de refugiados de volta para a Turquia, onde serão de novo escravizados, onde meninas serão de novo vendidas em praças a trogloditas sauditas e onde homens e crianças serão de novo obrigados a tornar-se em sanguinários mercenários ao serviço do terrorismo do Império? Então pode-se deportar de toda a Europa, em total tranquilidade, refugiados que voltam para a Turquia para sofrerem tão horrível destino, e a Grécia não deve deportar 8 militares turcos porque talvez um dia o Erdoganistão volte a ter (ou não) a pena de morte? Como assim caros humanistas?

 

E aí está, possível pena de morte na mesma Turquia de Erdogan que recebe dos nossos impostos 3.000 milhões ano! Como podemos fechar os olhos a tudo e pagar com o nosso dinheiro a perpetuação deste estado bárbaro? Como podemos (em censura aos golpistas) exigir o respeito pela soberania deste estado turco terrorista, e mandar passear a soberania da Ucrânia em 2014 ou da Síria até hoje? Como se pode ao mesmo tempo celebrar o falhanço do golpe de estado e ao mesmo tempo criticar o possível retorno da pena de morte por decisão pessoal de um gajo não eleito democraticamente? Seja quem for que decida na Grécia, tem de deportar os militares turcos o mais cedo possível, pela paz na Grécia. Se depois voltar a pena de morte à Turquia, epá, caros humanistas europeus que engoliram à bruta a treta do EuroMaidan de Kiev, façam a porra de um TurcoMaidan, como adoram fazer, mas não venham culpar a Grécia pelo barbarismo turco patrocinado pelos nossos grandes estados europeus terroristas (como a França cuja força aérea ainda ontem matou mais de 140 civis na Síria com os seus bombardeamentos ilegais)! Mas ou se é pró-TurcoMaidan, ou pró-soberania da piça do estado turco, não há como apoiar os 2 ao mesmo tempo malta!

 

 

Dois pesos duas medidas 

 

Em 2011, dias depois da Assad assinar com o Irão e a Rússia a construção de um gasoduto a ser construído na Síria (ler o livro Guerra e globalização) contra a vontade dos EUA, Arábia Saudita, Qatar e Bahrein, países que também planeavam por lá criar um outro gasoduto concorrente, puta da "coincidência", rebentaram os famosos protestos do povo sírio e a consequente repressão policial. Onde é que já vimos esta receita? Virtualmente em todo o lado que interessa ao Império! Repressão policial da grande é coisa que não falta neste mundo, sobretudo na EUA e França, mesmo contra os mais pacificos protestantes do planeta.

 

Mas fazer o quê, parece que uns (Síria de Assad) não podem reprimir revoltas, por mais que tenham sido fabricadas por NED, USAID, Gladio e outras máfias made in USA, enquanto outros (Turquia de Erdogan) já podem, já podem reprimir tudo e mais alguma coisa: estudantes, professores, policias, militares, deputados, jornalistas, televisões, inspectores de alfândega, comunistas, curdos, arménios, alevitas, tudo e mais alguma coisa, que nós, europeus humanistas-zombies, perdoamos tudo, e não nos metemos para aí a desrespeitar a soberania e integridade do estado turco! PKP! Mesmo sabendo que provavelmente quem terá criado o golpe falhado na Turquia terão sido os mesmos NED, Gladio (Grey Wolf, secção turca do Gladio) e companhia, e que quem paga a conta da osadia do Império são os povos que compõem a Turquia... Ah, humanismo europeu, tão hipócrita, tão incoerente, tão absurdo! E tão ignorante que engole todas as tretas que as suas elites políticas lhe impinge, como EuroMaidan, I Am an Ukranian e merdas do género! Enfim, na Turquia deixam passar tudo e não exigem uma treta de um Exército de Libertação Turca!?! PKP!

 

 

 

Mas na Síria não, para a Síria os europeus ajudaram a trazer, sobre ordens do império, mais de 200.000 mil mercenários de 130 países, organizações terroristas made in USA antigas e outras novas, armamento pesado, guerra química, caos, horror, miséria, destruição, pilhagem, escravatura.... em resumo, o inferno na terra para aqueles que vivem em territórios não controlados por Assad. Sim não controlados, pois nos controlados, nesses, apesar de continuar a haver atentados terroristas levados a cabo por terroristas que apoiamos, financiamos e treinamos, a vida segue com a tranquilidade possível:

 

 

 

Tudo se fez na Síria nos últimos 5 anos e nunca ninguém nos nossos media beija-cus do Império se lembrou de falar da soberania do estado sírio, governado ou não por um ditador, e insisto neste ponto, pois nós europeus apoiamos muitas ditaduras sangrentas como a Arábia Saudita ou a Turquia, sim Turquia, e depois, vimos com a desculpa de repressão de protestos da ditadura síria como razão obscena para legitimar a completa destruição desse estado, aí está, supostamente soberano! Ou não? A Síria não é um estado soberano? Não tem direito a viver em paz com um ditador como tantos outros países aliados dos EUA? Não, parece que não...  Mas há um golpe falhado na Turquia? Aí Jasuz Credo que tem de se respeitar a soberania dos estados, tem de se respeitar a soberania do governo turco e a integridade do estado turco, e portanto felicitar a sobrevivência do terrorista, invasor e criminoso regime não-democrático turco! A sério?  

 

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E por falar em ditadura, falemos também em democracia: que falar das eleições de 2014 na Síria ganhas por Assad com mais de 2/3 dos votos? Então, e na Síria, não se respeita a vontade do povo porquê? Não se fala de soberania porquê? Onde anda o direito internacional? A integridade do estado sírio? Ahhhh, cambada de falsos europeus uns, e ovelhadas europeias outros. E não me venham dizer que não se podem realizar eleições num país em guerra, pois foi em guerra civil e com a oposição curda presa e/ou bombardeada que Erdogan ganhou as últimas e fraudulentas eleições na Turquia! Não sou só eu que o diz, são também os desconfiados observadores internacionais que foram escandalosamente impedidos de monitorizar as ditas eleições! E se assim é, para que tanto vómito-discurso felicitando a sobrevivência do "democrático" estado turco?  

 

Para quem não sabe, as eleições na Síria de 2014, apesar de se terem realizado em menos de metade do território do país, nelas participaram mais de 90% dos cidadãos sírios, houve observadores internacionais (na Síria sim!) que não encontraram violações por parte do governo de Assad. A única crítica foi a de não se ter realizado as eleições em toda a Síria, mas fazer o quê, quando os outros 10% vivem em territórios controlados por ISIS, AlQaeda, Frente Islâmica, Exército de Libertação Sírio e companhia? É culpa de Assad que haja na Síria tanta organização terrorista criada pelos EUA e aliados? Não, não e não! Outro lugar onde não puderam votar os sírios foi na Embaixada da Síria em Paris, visto que o Estado Autoritário-Policial Francês impossibilitou, de forma completamente ilegal, a entrada de sírios na embaixada síria durante o dia de eleições, recorrendo para o efeito, à força física dos seus polícias! Depois falem-me de Assad....

 

É mais do que óbvio que não faz sentido nenhum a elite política europeia chamar "democraticamente eleito" ao regime de Erdogan, assim com são falsas as suas acusações de falta de democracia na Síria, acusações vindas de (alguns) países europeus e de uma UE que pouco ou nada fazem de democrático. É mais do que óbvio que o apoio à brutal Arábia Saudita e à terrorista Turquia, e os ataques à Síria de Erdogan e à Ucrânia de Yanukovich nada têm a ver com democracia, liberdade, ou direitos humanos. Os povos europeus andam a ser embalados há muito com venenosos pseudo humanismos, e já é hora de acordar!

 

 

Redireccionar o humanismo europeu

 

Anteontem soubemos que um menino palestiniano de 11 anos, refugiado, foi degolado no norte de Aleppo por membros do Exército de Libertação Sírio (ELS)! Se alguém que não está chocado com a notícia sou eu, farto de ver factos similares que demonstram que o ELS não é um exército, antes um bando de mercenários e criminosos, não liberta coisa nenhuma (que óbvio orwellianismo!) e não é sírio, visto que muitos da minúscula percentagem de membros sírios foram integrados à força (em campos de treinos no leste da Turquia ou raptados na Síria e chantageados com a morte de famiiares, para dar 2 exemplos comuns)! Só se espanta quem engole as tretas da TV sobre barris de bombas de Assad e ataques químicos de Assad, e que não dorme com medo dos mísseis que a Coreia do Norte lança sobre a Coreia do Norte! Mééééé!

 

 

A notícia é chocante pela idade da vítima, concordo, mas deve ser sobretudo uma machadada no humanismo europeu ignorante da treta, que não sabe que ELS, AlQaeda e Frente Islâmica são tudo a mesma coisa, e são todos criações dos EUA e seus vassalos europeus:

  

Mas fazer o quê, a ovelhada engole tudo: os políticos europeus chamam-nos de "moderados" enquanto lhes fornecem milhões de dólares, equipamento bélico e treino militar. A CNN diz que a decapitação foi um engano (ler Rebels in Syria call boy's beheading a 'mistake'), o porta-voz do Pentágono fala de "incidente" (mas quando um afegão esfaqueia alemães num comboio já é "terrorismo"), os media europeus chamam eufemisticamente o rapaz degolado de "militante pró-Assad", e pronto, está tudo bem. Moderados Libertadores da Síria até já podem cortar cabeças de crianças, e filmar, e partilhar nas redes sociais, tudo bem, desde que a vítima seja um apoiante do "sanguinário" Assad! Tamanha parvalheira! Fico a pensar então é no real significado de sanguinário, o cognome mais vezes atribuído a Assad na estúpida imprensa ocidental. É-se sanguinário por derramar sangue de apoiantes de Assad (e de outros), ou é-se sanguinário por se ter nascido com o apelido Assad no nome? Ahhhh, orwellianismos a mais!

 

 

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E sim, para a ovelhada teleguiada Assad é que é sanguinário, o Assad é que teria (mentira comprovada) chacinado com gás crianças palestinianas, tudo tretas para telespectadores zombies que não reparam nem nunca repararão que palestinianos do Ézbolá, voluntários, morrem todos os dias na Síria combatendo lado a lado com as tropas de Assad pela libertação da Síria, contra os terroristas que nós humanistas europeus patrocinamos e chamamos de moderados como o ELS que ontem decapitou a criança palestiniana! Incoerências? Não, que ideia!

 

 

Precisa portanto urgentemente de um reset o humanismo europeu! Deixai lá os gregos em paz! Os 8 militares turcos não podem ser a prioridade do moribundo humanismo europeu!

 

 O povo turco veio à rua? Ora essa!

 

Voltando à Turquia e à carga aos angélicos europeus, como mete dó os ver, manietados até à exaustão pelos estupidificantes media mainstream, chorar de alegria empática para com O Povo turco que salvou a democracia turca! Mas qual povo turco, qual quê!?! Mas qual democracia!?! Está tudo drogado? O único golpe de estado contra uma democracia parado pelo povo aconteceu na Venezuela a 12 de Abril de 2002, quando um terço da população do país se deslocou até às ruas de Caracas ecoando cânticos pacíficos ao ritmo de tampas batendo em tachos, mas desse não nos contaram nada os não-jornalistas europeus, portanto agora é risível vê-los vomitar propaganda pró-Erdogan feitos bestas...

 

 

O regime não foi salvo pelo povo, foi salvo por militares pró Erdogan que venceram os militares pró-EUA/Israel. Senão, expliquem-me por que razão a base militar de Incirlig, onde os EUA guardam mísseis nucleares apontados à Rússia e de onde partem os caças norte-americanos para as suas ilegais e terroristas missões na Síria, foi fechada pelo governo turco, o qual também achou por bem cortar-lhes a electricidade e fechar o espaço aéreo da base!?! Ou, por que raio os pilotos turcos que, a mando dos EUA abateram há meses atrás o avião militar russo, se encontram também detidos pelo regime de Erdogan!?! E onde é que o povo turco entra ou cabe neste jogo de poderes? 

 

 

O povo tem medo, e não sai de casa, o povo comunista, o povo socialista, o povo ateu, os alevitas, os arménios, os curdos, os milhões de turcos que anseiam por viver num pais moderno pacífico civilizado... esses não festejam a continuidade do regime déspota que os subjuga pela força e pelo medo! O que o lixo televisivo e jornalístico português mostrou no dia do golpe falhado foi gente bárbara, infelizmente indoutrinada a obedecer e louvar um estado terrorista, gente capaz de degolar inclusive turcos como se viu, gente que não esconde o seu apoio ao terrorismo turco praticado na Síria!

 

Há meses atrás houve um grande protesto com dezenas de milhares de turcos em Ancara que exigiam o fim do terror de estado da Turquia imposto ao "vizinho e irmão povo sírio", como se podia ler nos cartazes. Esta manifestação, pelo que conheço da bondade e hospitalidade das gentes da Turquia, é bem mais representativa dos povos que constituem a nação turca que os poucos milhares de fanáticos pró-Erdogan e pró-barbárie tão televisados, mas dessa manifestação pouco ou nada se disse nos media portugueses! Quem festeja são trogloditas que não hesitaram em degolar na ponte principal de Istambul jovens soldados turcos que apenas cumpriam ordens superiores. Quem festeja são trogloditas que nem vergonha têm de mostrar o seu apoio ao terrorista Exército de Libertação Sírio na praça de Taksim em Istambul, como a foto abaixo comprova!  O tempo vai passando e quase todas as mentiras que os nossos media e os nossos especialistas vendidos nos contavam vão se desmontando de forma espontânea! É de um simbolismo enorme ver-se festejar a permanência do regime de Erdogan com a bandeira que hoje é de uma organização terrorista patrocinada pela Turquia e pela França, e que um dia foi a bandeira que os ocupantes franceses escolheram para a sua colónia chamada Síria! Pensem nisto...

 

Turcos pró-Erdogan festejando o falhanço do golpe de estado em Taksim, Istambul, com a bandeira turca e a bandeira colonial francesa da Síria que actualmente é utilizada como bandeira do a organização terrorista Exército de Libertação Sírio 

 

Regimes fracos, regimes fortes

 

Para acabar, por hoje, só uma piada de mau gosto: Este golpe, mesmo que falhado só serviu para mostrar quão fraco é o regime turco. A Síria depois de 5 anos de guerra contra dezenas de países donos do mundo, perdendo 100.000 militares, 300.000 civis, quase toda a infra-estrutura e indústria destruída, produção energética arrasada e milhões de sírios que fugiram do país, ainda assim mantém-se firme e de pé. A Turquia de Erdogan quase caiu com umas dezenas de militares golpistas. A Turquia de Erdogan treme por todos os lados e está prestes a cair. Não pode durar muito mais um regime que está em guerra civil com uma minoria curda de 15 milhões, que patrocina o terrorismo internacional, que destrói os seus vizinhos e que, muito importante, a nível interno destrói a ritmo acelerado o estado moderno laico turco, o que leva milhões de turcos a prepararem-se para mandar abaixo esta tremenda palhaçada de regime!

 

E mais, fica provado que é possível ser mais seguro para o governo de um país não se submeter aos caprichos do Império (Síria), que escancarar as portas e as pernas aos donos do Império (Turquia), cientes que no dia em que os donos do Império, por capricho ou com acerto, se enjoarem dos governantes do seu submisso estado vassalo, pelo facto desse vassalo estar minado de militares e de serviços secretos do Império até mais não, a qualquer momento o estado vassalo pode ser desmoronado a partir do interior a mando dos senhores do Império! Capitché!   

 

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Continua...

 

(Leia aqui a parte 1)

(Leia aqui a parte 3)

 

 

Luís Garcia, 21.07.2016, Chengdu, China

FONTES:

- Guerra e globalização, Michel Chossudovsky, Editora Expressão Popular, 2004 (em PDF)

Acts of War: U.S., French airstrikes kill 140 civilians in Syria

‘Bloody massacres’: Syria appeals to UN after French & US airstrikes ‘kill over 140 civilians’

US Hypocrisy: Turkey Allowed to Crack Down on Uprising but Syria Can’t

Rebels in Syria call boy's beheading a 'mistake'

Desespero mediático 2 - Turquia (Pensamentos Nómadas)

- Crise de refugiados sírios. A sério? (PARTE 1/2) (Pensamentos Nómadas)

- Crise de refugiados sírios. A sério? (PARTE 2/2) (Pensamentos Nómadas)

Putin, o mestre da diplomacia xadrez (Pensamentos Nómadas)

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