Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

Sim, deve-se desperdiçar o talento

 

 

ricardo facebook2.jpg

  

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE 

 

Se há algo que o sistema capitalista, através da sua máquina de moldagem de mentes, propaganda e mediatismo, é profícuo, é na elucubração de ladainhas sem fundamento real.

 

Desta vez, venho exigir esclarecimentos às pessoas que repetem que outras devem dar a conhecer o seu talento “ao mundo”, caso contrário estão a “desperdiçá-lo”. Mas, o que é que o talento tem a ver com reconhecimento, fama, distinção ou capacidade de gerar dinheiro? Nada.

 

Por alguma razão, os filósofos antigos - e ainda Schopenhauer – se exprimiam contra a fama. É uma das tentações mais perniciosas para o ser humano. Fá-lo desviar-se do seu fim último e mais elevado. Neste caso, a criação que faz através do seu talento, seja ele artístico, científico ou de qualquer outra índole.

 

Em verdade, o que não nos falta são exemplos de muitos artistas – e foco-me nos artistas, porque são aqueles sobre quem mais facilmente é colocado este ónus de se “darem a conhecer” – que, na senda da exploração popular do seu talento se perdem completamente e, aí sim, o desperdiçam irremediavelmente. Michael Fassbender, por exemplo, um ator de cinema que admiro muito e que principiou a sua carreira com performances formidáveis em filmes como “Hunger” e “Shame”, anda a abafar as suas capacidades numa Hollywood já bem fomentada na sua ação de sensacionalismo opressivo a operar contra o talento dos seus artistas. Ele, tal como muitos outros artistas, dos mais diversos ramos, com o tempo tornam-se medíocres.

 

Porque o talento é uma questão de trabalho. Não vem de nascença, como é comum acreditar. E quem não o pratica, quem não o treina e quem não o trabalha, perde-o. Mas, pode-se perfeitamente fazê-lo no anonimato, resguardado do vício da fama que faz enveredar por uma espiral de mediocridade em crescendo.

 

No caso de crianças, o prejuízo que a fama pode representar para a sua mente é ainda mais nefasto. Quem de nós não conhece, ou pelo menos se lembra ainda que vagamente, de um caso de uma criança que tenha sido convencida pelos pais a participar num concurso de talentos? Mas não é isto de uma irresponsabilidade inominável? O que vai acontecer àquela criança quando, de repente, deixar de receber atenção? Vai procurar mais atenção. Como procuram muitas jovens, hoje em dia, criando autênticos espetáculos de horrores mascarados de arte, na senda da cultura de choque.

 

Por isso, sim, se o aproveitamento do talento significa a sua capitalização, a sua rentabilização, então deve-se desperdiçá-lo, contra tudo e contra todos.

 

Até a questão da imortalidade que supostamente se pode atingir com a obra que se cria é desprezível face ao risco. No fim, sobrará, de cada um, uma mera produção fria e impessoal. Durante uns tempos ainda haverá, possivelmente, quem consiga transmitir a outros algo da sua pessoalidade. Mas, depois disso, sobra uma pálida e miseravelmente ténue projeção de si próprio naquilo ao qual o seu nome ficou atribuído. E o que guarda o nosso nome de nós mesmos? Nada.

 

Ricardo Lopes

 

 

 
Vá lá, siga-nos no Facebook! :)
visite-nos em: PensamentosNómadas

Camionistas romenos, padroeiros dos viajantes à boleia II

 

 

BOLEIAS – EPISÓDIO 3

 

camionistas 2.jpg 

bw VIAGENS Luís Garcia

Esta insatisfação, não consigo compreender, sempre esta sensação, que estou a perder. Tenho pressa de sair, quero sentir ao chegar, Vontade de partir, p’ra outro lugar. (Estou Além, António Variações)

 

CAMIONISTAS ROMENOS, PADROEIROS DOS VIAJANTES À BOLEIA II (Itália, Eslovénia, 2007) – Eu e Diogo tínhamos o conhecimento teórico de que Itália seria um dos piores países europeus para andar à boleia mas, não tendo outras alternativas, tivemos que fazer pela vida e pedir a toda gente que encontrámos no parque que nos desse uma boleia dali para fora. Mais de cinco horas passaram, tínhamos interpelado uma multidão de italianos, mas todos, um por um negavam-se a dar-nos boleia, nem mesmo uns meros quilómetros para sairmos daquele amaldiçoado lugar e recomeçar noutro qualquer ponto, esperando que aí a sorte mudasse para melhor. Nos piores casos erámos ignorados grosseiramente ou até insultados. Por vezes éramos alvos de chacota. A maioria refugiava-se em desculpas absurdas para não nos dar boleia, como afirmar não poderem nos ajudar dado seguirem na direcção oposta à nossa já depois de termos explicado que não nos interessava nenhuma direcção em específico, apenas sair daquele frustante impasse. Houve também aqueles que ridiculamente refugiavam-se na ligeira “barreira linguística” para cortar-nos a palavra e seguir adiante. O melhor que se encontrava de tempos a tempos eram pessoas que, embora mostrassem sentimentos de empatia por nós e desejassem até ser parte da solução para o nosso problema, por outro lado demonstravam também medo (diria até pavor!) que o nosso pedido não passasse de uma trama para os assaltar, violar ou, sei lá, para os degolar doentiamente! Conclusão, pediam-nos desculpas por palavras, por expressões faciais, ou de ambas as formas, mas deixavam-nos na mesma na merda. Cinco horas e meia depois, num golpe de intuição mútua, arrancámos decididos em direcção a um jovem casal, bem vestidos, com ar moderno (e daí talvez uma mentalidade um pouco mais aberta), sorrindo de forma expontânea. Para melhorar a situação viajavam num carro pequeno e bem velhinho, alvo improvável de um hipotético roubo. Os sentimentos no casal eram mistos. Por um lado o rapaz, embora demonstrado um ligeiro receio, parecia entusiasmado com a ideia de dar boleia a dois aventureiros. Por outro, a rapariga, embora mais amável, mostrava-se amedontrada e temia o pior. Da longa e civilizada discussão entre o casal recheada de súplicas nossas, a decisão foi negativa, mas nós, proíbidos de perder aquela oportunidade única, colocámos um joelho no chão, juntámos as palmas das mãos levantadas ao nível da cabeça, e implorámos que nos salvassem dali, jurando pelo que lhes fosse mais sagrado que não correriam perigo algum ao nos ajudar.

 

 

Humilhação auto-imposta que nunca na vida tinha imaginado realizar, e que não voltei a repetir (começando por não mais andar à boleia em Itália), mas que na altura teve os seus frutos e safou-nos daquele maldito lugar. Entrámos no carro o mais ordeiramente possível e tomando todos os cuidados para evitar gestos ou palavras que pudessem ser mal-interpretados e que levassem a assustar de forma desnecessária o casal italiano que, aceitando nos dar boleia, se encontravam à beira de um ataque de pânico simultâneo e muito mal disfarçado. Diplomaticamente tentámos falar de coisa boas sobre Itália, procurámos pôr em evidência pontos em comum entre nós e eles que ajudassem a fazer a ponte social entre os quatro. Outro truque que me saiu da manga no momento, sem premeditação, foi o de lhes mostrar fotos na minha câmera digital tiradas com outras pessoas que nos haviam dado boleia nos últimos dias – como quem diz “estão a ver, estes deram-nos boleia e não foram degolados, estão bem e recomendam-se!”. O truque funcionou! Os dois, numa sincronia quase perfeita e involuntária, respiraram profundamente, expiraram devagar, descontrairam os músculos e sorriram um para o outro de alívio. A partir desse momento estava quebrado o gelo (ufa!) e a curta de viagem de 50 km até Modena desenrolou-se num clima cordial e divertido.


Modena era o nosso destino por várias razões: porque era também o destino do casal, porque qualquer outro lugar que não Parma soava-nos muitíssimo bem e, sobretudo, por aí podermos trocar da auto-estrada A1 para a A22 entrando na rota para leste que levarnos-ia até à Eslovénia. Chegados a Modena o casal de jovens despediu-se amigavelmente de nós e até saíram do carro para tirar um foto de grupo connosco mas. Por outro lado, cometeram um imperdoável equívoco. Deixaram-nos na saída errada, às 13h30m de um dia de verão no centro de Itália e quase já não tínhamos água! Desesperámos para trás e para a frente durante mais de uma hora, suando com as malas às costas e as gargantas terrivelmente secas, até que finalmente demos com uma estação de serviço e fomos à procura urgentemente do líquido precioso e talvez almoçar algo em conta. A refeição mais barata era um pouco cara para nós, mas decidimos lá almoçar, e aproveitámos para poupar em garrafas de água recolhendo várias ainda por abrir e deixadas nos tabuleiros pelos clientes do restaurante. Em vez de termos comprado os pratos de massa, pensámos nós ao ver aquele espectáculo de comida e bebida desperdiçados, deveríamos antes ter recuperado e comido algumas das muias pizzas deixadas a meio! Enfim.


De barriga cheia e eliminado o risco de desidatração, deslocámo-nos até à zona de parques de estacionamento. Como recusávamos de todo sujeitar-se de novo ao tipo de humilhação passada durante a manhã, e constatada a baixíssima probabilidade de receber boleia de um italiano, decidimos pedir boleia exclusivamente a camionistas, cientes que essa opção nos obrigava a ficar o resto do dia ali parados (Domingo). Dadas as nossas recentes experiências positivas com camionistas romenos, no parque de estacionamento, dedicámo-nos numa primeira fase a procurar camiões de matrícula romena ou que tivessem algum tipo de inscrição em romeno. Encontrámos um e rejubilámos de alegria mas não nos precipitámos de imediato na sua direcção. Praticámos primeiro em pensamento a frase “Merge la Romania?” (Vai para a Roménia?) que Ionica nos tinha aconselhado a usar, fiz um esforço enorme para relembrar algumas palavras e frases do meu romeno elementar, e lá fomos nós então,  sorridentes e amáveis, falar com o condutor do camião. Só o facto de ter começado o discurso em romeno despertou de imediato uma atenção prometedora por parte do camionista que até acreditou por momentos que também nós seríamos romenos. Quando se apercebeu que não éramos, muito espantado ficou o pobre homem ! Não estava de facto habituado, dizia ele, a que lhe falassem na sua língua materna. A conversa pegou por aí, e já só acabou com a garantia de nos levar na manhã seguinte até à Eslovénia! 


O resto da tarde foi passada no imundo e fétido parque de estacionamento da estação, toda ela no mesmo estado de sujidade. É impressionante o baíxissimo nível de higiene das estações de serviço das auto-estradas italianas! E se assim é num dia normal, imaginem com a ajuda dos tórridos 40ºC que se faziam sentir! Eu e o Diogo fizémos o nosso melhor, instalámos uns cobertores de viagem sobre a pouca relva limpa do parque, junto ao camião romeno, e aí passámos o resto do dia.

 

 

 

Na manhã seguinte partimos os três bem cedo. Antes de rumar a leste, o camionista romeno tinha ainda de descarregar parte da mercadoria transportada na zona industrial de Modena, mas daí em diante seguimos num bom ritmo, apenas interrompido pelas normais complicações de fronteira. Ainda assim, correu-nos bem melhor que o que seria de esperar, pois uns quilómetros antes de alcançar a fronteira o camionista romeno tinha-nos alertado para o facto de um e nós (ou os dois) ter de sair do camião 500 metros antes da fronteira italo-eslovena e passá-la a pé com a mochila, para não correr o risco de numa inpecção fronteiriça ao camião a polícia encontrar três passageiros na cabine, o que é ilegal. Nós sabíamos da regra e não hesitámos em colaborar mas ele, chegado às imediações da fronteira, mudou de ideias e pediu ao Diogo (que sentado atrás na cama) fechasse as cortinas e se escondesse no chão, e assim tentaríamos passar os três juntos! Com diplomáticos sorrisos e sem transparecer qualquer inquietação, o camionista geriu impecavelmente a conversa com as autoridades que nunca chegaram a saber da existência do meu colega Diogo e entrámos alegremente na Eslovénia. Ah, que belo país, verde, limpo, organizado, hospitaleiro... e barato, comparado com a Itália. Tínhamos a sensação de ter atravessado a fronteira do 3º para o 1º mundo!


Dado que o seu destino final coincidia com o nosso – Roménia, o camionista ofereceu-se para nos transportar até à sua terra natal. Nós, muito agradecidos, recusámos. Andávamos há cinco dias na estrada, dormindo e comendo mal, exaustos do mundo rodoviário e, além do mais, tínhamos a promessa de sermos hospedados por um casal de couchsurfers em Postojna. Em plena auto-estrada, junto à saída para Postojna, o condutor parou o camião e despediu-se de nós calorosamente, desejando-nos a melhor sorte! Nós corremos o mais rápido possível para fora da auto-estrada, seguindo depois descontraídos para essa pequena cidade onde viríamos a encontrar gente acolhedora e muito divertida, festival de música gratuíto e os melhores gelados do mundo!

 

Luís Garcia, 24.04.2016, Chengdu, China

 

leia aqui Camionistas romenos, padroeiros dos viajantes à boleia I

 

 

 
Vá lá, siga-nos no Facebook! :)
visite-nos em: PensamentosNómadas

Censorship on Facebook

 

 

maxresdefaultghjjh.JPG

 

Luís Garcia  SOCIEDADE TECNOLOGIA in english

 

After 2 days being censored by facebook (not allowing me to share links of any sort anywhere), as a punishment for not authorizing them to "install our anti-virus and check the files on your computer"!, which I am sure it is a spying tool (past examples of other uses prove it), I decided to write them an email, yesterday. Today they stop censoring me! Huhu, great! But, until when?


Here is the email I sent them:


"You Facebook are forcing me to accept your anti-virus virus or, if you want, you are blackmailing me to be (even more) spied!
But no, stop being childish. I will not allow you to hack my data and computer with your anti-virus.
No, my computer does not have a virus.
No, there's no logic relation between having (or not) a virus in the computer and be censored by facebook!
You want to lie, learn how to do it convincingly first!"

 

You know what, all started when Facebook introduced a new menu in my account where I had two choices: install an unknown software and allow them to scan the files in my computer? What, what, what? Or, tell them that what they were saying was a mistake. The option 2 sounded perfect, I tried several times, but it was leading nowhere. This second option was clearly a bad joke from Facebook.
 
Knowing that it could not exist a reasonable link between having a virus in my computer and being denied to share content in my facebook profile, in my facebook page, and in other people's profile, I understood I was under attack.
 
First idea: to try facebook app on my smarphone. The message "your laptop has virus" was not shown, hopefully, it would be too ridiculous, but in the other hand yes, the censorship was still on. No way to share nothing with nobody, except plain text on my facebook wall.
 
Later I found out that I was also able to upload pictures into my profile and page. What? How comes, I'm supposed to have an infected computer, facebook knows that, and they let me do so? Ah, fucking nonsense! There I was sure about what was going on.
 
I share too many inconvenient facts on facebook and in this last week my page Pensamentos Nómadas had a boom on the number of followers. The combination of this 2 facts turned on some pre-programmed alarm on their algorithm. From that moment on I would be blackmailed and being forced to choose the lesser evil: interdiction of sharing content while my page is growing fast on followers or, let facebook rape hard my computer and spy my private data.
 
In a second moment I found out that, actually, many people are complaining in forums about the very same kind of blackmail from facebook. And more, those who surrendered and installed the Kaspersky-Facebook-anti-virus proposed by facebook, soon after understood that it is rather a spying virus! As I suspected! According with some of them, to install facebook anti-virus is a very bad idea, because once installed you can't find its location in your computer, making therefore impossible to uninstall it!
 
In case I was not yet convince that it was a scheme, I discovered that I was also not allowed to comment on facebook comment box in external websites! What, because I have a virus and I do not accept the kind offer from facebook that proposed to install for free an anti-virus on my laptop, I can not comment any article in any website that uses that facebook tool!?! What a fuck? Come on, that is not a very professional way to convince me to accept to be either spied or censored!
 
An now, I will share this article on Facebook... while I can! 
 

(sorry for the bad English)

Luís Garcia, 18.04.2016, Lampang, Thailand

 

 

 

 
Vá lá, siga-nos no Facebook! :)
visite-nos em: PensamentosNómadas

Desespero mediático 6 - RTP, 1ª parte

 

 

DESESPERO MEDIÁTICO 6.jpg

 

Luís Garcia POLITICA SOCIEDADE

 

Por que raio desespero com uma notícia da RTP? Pelo que está errado nela. O que está errado na notícia? Tudo, começando por não ser sequer uma notícia! Convido o leitor a passar os olhos pelo artigo da RTP abaixo partilhado, e depois seguimos para a análise à trapalhada do pasquim: 

 

Receitas do grupo extremista Estado Islâmico caíram 30% em nove meses - estudo

As receitas do grupo extremista Estado Islâmico caíram cerca de 30% desde o ano passado, obrigando a organização a introduzir novos impostos no território que controla, incluindo uma taxa de reparação de antenas parabólicas, segundo um estudo hoje publicado.

"Em março de 2016, o rendimento mensal do Estado Islâmico caiu para 56 milhões de dólares [49 milhões de euros]", declarou Ludovico Carlino, analista chefe do IHS Jane, um instituto especializado que publica regularmente relatórios sobre os territórios controlados pelos extremistas. "Em meados de 2015, a receita mensal do Estado Islâmico era de cerca de 80 milhões de dólares [71 milhões de euros]", é indicado. O relatório da IHS, que se baseia em informações dos meios de comunicação e de fontes na Síria e no Iraque, afirma também que a produção petrolífera nas zonas controladas pelo grupo diminuiu de 33.000 para 21.000 barris por dia. Estas perdas estão largamente relacionadas com os ataques aéreos realizados pela coligação liderada pelos Estados Unidos e pela Rússia.

Cerca de metade das receitas do Estado Islâmico vem de tributação e confisco do comércio de bens, segundo o relatório. O petróleo representa 43% do total, com o restante a vir do tráfico de droga, da venda de eletricidade e de doações. Segundo o IHS, o Estado Islâmico perdeu cerca de 22% do seu território ao longo dos últimos 15 meses e impõe hoje a sua lei a seis milhões de pessoas, contra os nove milhões anteriores. Assim, a sua receita fiscal diminuiu. "O Estado Islâmico aumenta agora os impostos sobre os serviços básicos e procura novas formas de obter dinheiro da população", segundo o investigador. "Estes impostos incluem portagens para os condutores de camiões, taxas para a instalação ou reparação de antenas parabólicas, e `taxas de saída` a quem tente sair de uma localidade", afirma Carlino. Segundo o IHS, o grupo extremista introduziu também multas para os que não respondem corretamente a perguntas sobre o Corão, possibilitando pagamento em dinheiro em vez de punições corporais.

Desde o início do conflito sírio em 2011, metade da população do país foi deslocada, com cinco milhões de pessoas a fugirem para o estrangeiro. Mais de 270.000 morreram. O cessar-fogo decretado sobre a égide da Rússia e dos Estados Unidos em fevereiro não abrange os combates entre o Estado Islâmico e os grupos afiliados à Al-Qaida.

Lusa | 18 Abr, 2016, 07:11 

 

A FONTE - Comecemos pelo óbvio: a RTP, como é hábito, não produz sequer as suas não-notícias, antes as copia da agência de não-notícias e propaganda pró-imperialista Lusa, agência que por sua vez, e no que toca a política internacional, também mais não é que um cavaquiano "bom-aluno" mediático, traduzindo com muita submissão e pouca qualidade os folhetins orwellianos enviados desde o outro lado do atlântico ou desde o outro lado do canal da Mancha.

E não, não é só a RTP, quando uma trafulhice absurda como esta é transmitida pelo império e chega aqui ao feudo, uma vez (mal) traduzida, espalha-se pior que vírus por essa imensa rede digital de prostituição jornalística em língua portuguesa. Basta ver este resultado de pesquisa no Google

 

A LINGUAGEM - Como podem constatar a RTP/Lusa, apesar de publicarem um artigo sobre uma organização terrorista que degola pessoas, queima pessoas vivas, faz atentados suicidas, viola de forma sistemática mulheres e crianças, vende mulheres e crianças em jaulas e mercados, faz explodir monumentos, vende artefactos roubados, faz tráfico de armamento e drogas, e por aí fora, aterrorizando numa escala imensa civis indefesos como já não se via há muito, tiveram, os autores desta palhaçada, o descaramento de não qualificar o ISIS de terrorista um vez sequer! Revelador, não? Um muito mau hábito que começa deveras a meter nojo!

Todos os adjectivos negativos não chegam para denegrir e demonizar o chefe de estado sírio que faz o que pode para resistir (com o apoio esmagador do povo sírio, exprimido de forma democrática) às multi-agressões terroristas criadas pelo ocidente e arábia medieval. Pelo contrário, quase todos os adjectivos são demasiado fortes para poderem ser utilizados em referências ao ISIS, daí que os nossos media aduladores dessa organização terrorista nunca a apelidem assim, de "organização terrorista", ou aos seus membros de "terroristas"! E não, o uso de eufemismos como "grupo extremista" não são acasos nem distracção, são actos conscientes de manipulação linguística orwelliana, digo eu que leio muitas notícias deste tema (e detecto padrões).

Diria mais, que a insistência em utilizar a palavra "estado", juntamente a palavras escolhidas de forma meticulosa para a descrição irrealista do comportamento quasi-estatal dessa organização terrorista nesta notícia, de forma clara, mostra o esforço (já antigo) de passar de forma crescente e subliminar a ideia de legitimidade do ISIS (com ou sem terror, que pelos vistos é secundário para atlantistas, NATOnianos e companhia). Razões para tal esforço? Nem eles próprios sabem, quem cita tabuada de cor e de forma mecânica não sabe multiplicar. Quem recebe salários de merda para regurgitar até à exaustão manipulação mediática do império não sabe do que se trata aquilo que copia. Quanto aos patrões, é outra história...

 

A FONTE DA FONTE - Citam uma fonte desconhecida do público e não se dão ao trabalho de explicar quem é? Ah, simples, apenas comprovam que tenho razão quando afirmo que as não-notícias da agência Lusa mais não são que más traduções do inglês. E digo más traduções porque quando se passa para português, passa-se também para um outro ambiente social no qual não é suposto conhecer a britânica Jane's Information Group, uma editora especializada em assuntos militares e estórias da carochinha anti-Rússia, detida pela empresa de propaganda e lobbying militar norte-americana IHS Inc.! A RTP optou por misturar os nomes, criando a fictícia IHS Jane. 

Para terem uma ideia do tipo de propaganda militar inventada à bruta por esta revista especializada em temas militares, dou-vos o exemplo do artigo sobre a iminente e mais recente invasão da Rússia à Ucrânia que a revista IHS Jane's 360 publicou em 2015: SACEUR, analysts see Russia renewing invasion of Ukraine in next two months. Não só nunca chegou a acontecer, como é óbvio, como não podia ser de forma alguma "a mas recente"; visto que não houve invasão anterior, como nos querem fazer querer no texto de propaganda imperialista em inglês. Até hoje estou para ver imagens e vídeos a cores da fictícia invasão russa que a RTP e companhia nos venderam, assim como ainda estou para ver as reais imagens e vídeos que a Ruptly passa o tempo todo a produzir sobre a invasão da Turquia-ISIS no norte da Síria e que nunca, mas mesmo nunca passam na TV para gado domesticado portuguesa, embora sejam de acesso fácil e (quase) gratuito sobre a internet! Não, media tuga nacional não trabalha nessa área de informação internacional factual!  Temos pena!

 

Amanhã há mais, uma segunda parte deste artigo onde dissecarei os disparates de jornalista ignorante e submisso escritas no infeliz artigo aqui denunciado.

 

Luís Garcia, 18.04.2016, Lampang, Tailândia

 

 

 Desespero mediático 1 - Síria

 Desespero mediático 2 - Turquia

 Desespero mediático 3 - Diário de Notícias

 Desespero mediático 4 - France 24

 Desespero mediático 5 - Palmira

 

Fontes:

- páginas wikipédia: Jane's Information GroupIHS Inc.

Receitas do grupo extremista Estado Islâmico caíram 30% em nove meses - estudo

SACEUR, analysts see Russia renewing invasion of Ukraine in next two months

-

 

 

 
Vá lá, siga-nos no Facebook! :)
visite-nos em: PensamentosNómadas

A criação do mundo - Capítulo 5/5

 

 

Um novo "antigo testamento"

o deus imperfeito - origem do mundo 2 copy2

 

O deus imperfeito RELIGIÃO Luís Garcia 

 

            Acabado o assunto da serpente, deus foi de novo em busca dos seres humanos e, assim que os avistou, recomeçou com as suas ameaças dizendo-lhes que mais uma vez tinham escapado à armadilha que ele montara, mas que isso não era de forma alguma motivo de alegria pois muitas mais tentações e cruéis provas teriam eles e os seus descendentes de enfrentar e, além do mais, não teriam mais acesso à eficaz e preponderante ajuda da serpente, pois fora-lhe já retirada, como castigo pela sua desobediência, a inteligência anteriormente por ele atribuída para esta realizar a missão que lhe impusera no passado. Depois prosseguiu dizendo para a mulher: Aumentarei os sofrimentos da tua gravidez, os teus filhos hão-de nascer entre dores. Procurarás com paixão a quem serás sujeita, o teu marido. Não havia dúvida que deus tinha mesmo um carinho especial pela mulher. Sabe-se lá porquê mas a verdade é que ele, como bem se pôde constatar neste conto, escolheu-a desde o início das suas vidas para principal vítima da sua maldosa ira, poupando-a francamente menos do que ao homem. Quanto a este último e porque assim julgava o todo-poderoso, o pecaminoso crime tinha sido o de ouvir o que a mulher lhe dissera e daí ter provado o fruto, estando também já reservadas para ele as correspondentes consequências da sua perfídia.

 

É claro que todo este ridículo julgamento era desnecessário. Neste ponto da história já toda a gente se apercebeu, leitores incluídos, que tal não passa de mais uma farsa, de uma derradeira tentativa para se divertir à custa de Adão e Eva antes de os enviar ao seu próximo destino. Mas aposto que tão pomposo julgamento deve ter tido ainda outro motivo. Conhecendo sobejamente a ira de que padecia deus por ter sido traído pela serpente, não é de espantar que a sua omnipotente hipocrisia o tenha também levado a descarregar sobre os dois humanos o resto da raiva sentida pelo rastejante ser.

 

          Mas sigamos sem mais demoras o desenlace final do divino julgamento: para castigar o homem pelo seu pecado capital deus amaldiçoou a terra e disse-lhe: dela só arrancarás alimento à custa de penoso trabalho, em todos os dias da tua vida. Lembrando-se que era o momento indicado para pôr em prática aquilo que também sofrera aquando da criação do mundo e que lhe pareceu na altura algo muito interessante para utilizar oportunamente como castigo a infligir sobre futuras criações suas, proferiu ainda: Comerás o pão com o Suor do teu rosto, até que voltes à terra de onde foste tirado; porque tu és pó e em pó te hás-de tornar. Não há dúvida que podia ter sido mais benévolo e não ter dado ao homem uma vida tão árdua, podia ser um pouco mais suave o trabalho necessário para o seu sustento, mas dar-lhe acesso à árdua luta pela sobrevivência veio a ser o maior favor jamais concedido pelo todo-poderoso a ele e à sua mulher e, ao mesmo tempo, correspondeu ao segundo maior erro da existência de deus (o maior, se bem se lembram, passou-se com a serpente).

 

Quis intensificar a sua pré-planeada vingança para com Adão e Eva por estes e a serpente lhe terem estragado o jogo do fruto da tentação: a jocosa peça que não seguiu o guião e que acabou por se desenrolar num improviso de diálogos e confissões não desejadas. Contudo, ao fazê-lo, acabou por libertá-los da enorme tortura que era viver na completa apatia e sufocante aborrecimento característicos de uma vida levada num paraíso. Mas deus, na sua congénita imperfeição, não terá reparado em tão importante pormenor e prosseguiu o seu pseudo-julgamento. Dirigindo-se não se sabe bem a quem afirmou: Aqui está o homem, que pelo conhecimento do bem e do mal, se tornou como um de nós. Ou as suas alucinações tinham voltado ou então parece que há por aí uma história muito mal contada e deuses imperfeitos afinal existirão em abundância. Mas continuando com as suas palavras: Agora é preciso que ele não estenda a mão para se apoderar também do fruto da árvore da vida, comendo do qual, viva eternamente. Terminada esta última afirmação, expulsou-os então do paraíso. É decerto uma atitude egoísta guardar um tamanho poder só para si e não deixar homem algum chegar-lhe perto mas, bem vistas as coisas, mais um favor acabou deus por lhes fazer pois, se apática e aborrecida seria a vida no paraíso, imaginem caros amigos o que significaria suportar estas condições numa vida que não terminasse jamais? E, no sentido oposto, se duro seria viver fora do paraíso, num mundo pleno de dor, suor e trabalho segundo deus, não menos penosa seria, uma vez mais, a promessa de uma eternidade a ser vivida em tais condições... É notório portanto que nenhum tipo de eternidade será jamais benéfica a quem quer que seja. E se dúvidas houver, atente-se no exemplo da vida deus!

 

Quanto à argumentação final proferida por si, foi simplesmente ridícula e julgo que deus, embora imperfeito, poderia ter feito bem melhor. Queria enganar quem com tais sentenças? Com a sua famosa omnipotência provavelmente só tocaria na árvore da vida um homem se ele assim o permitisse e, deste modo, não teria sido necessário tomar nenhuma providência para afastá-lo de tão importante árvore, mesmo que este houvesse continuado a habitar no paraíso. Mas para não precisar sequer de correr tais riscos, o mais lógico seria não ter de todo criado árvores com frutos especiais, com um inesperado sabor a bem e mal ou um desconhecido aroma a vida eterna! E uma vez criadas as malditas árvores bastaria simplesmente cortar o mal pela raiz. Literalmente! Portanto, ou estaria mais uma vez a ser atacado por febres altas ou então as suas piadas teriam claramente descido de qualidade. Ou mais o mesmo, armadilhas para divina divversão...

 

          Quem parece que tomou religiosa atenção a esta piada de mau gosto divina foram os falcões lá do outro lado do atlântico. Basta ver como fazem hoje em dia uso dela como argumento para levar a cabo as suas agressivas aventuras de conquista e pilhagem por todo o mundo árabe. Não nos esqueçamos, por exemplo, que foram estas aves raras que ensinaram o despótico presidente do país onde outrora existiu a civilização da Mesopotâmia (e onde em tempos ainda mais remotos poderia ter existido o paraíso palco da nossa história) a criar e usar as famosas armas de destruição massiva que dizimaram milhares de curdos e persas, não uma árvore da vida mas sim de morte e, precisamente depois de lhes terem tirado completamente a capacidade de aceder a essa árvore mortal, acusaram-no traiçoeiramente de se preparar o pobre diabo para comer do seu proibido fruto e invadiram o seu país, levando-o posteriormente à forca que em má hora não foi compartilhada com os seus antigos cúmplices e padrinhos! [referências, respectivamente, a George Bush e seu governo, a Saddam Hussein e a Donald Rumsfeld e o governo de Ronald Reagan]

 

          Voltando à nossa história, o homem e a mulher, depois de saírem do paraíso deram de caras com uma terra agreste e infértil, que tal como deus havia prometido, lhes causaria muito trabalho e suor para nela cultivarem e dela arrancarem o seu sustento e a sua fonte de sobrevivência. Mas assim acharam bem e, sem lamentos ou saudades sentidas pelo mundo aparentemente perfeito deixado para trás, começaram desde logo a fazer uso das suas soberbas capacidades humanas de forma a melhorarem o novo mundo, agora sua casa, libertando-se lentamente das adversas e penosas condições iniciais por deus oferecidas. 

 

          Falta agora vos informar sobre o último acto de despotismo divino, com o qual podemos dar por terminado este primeiro grande confronto entre a humanidade e o deus aqui apresentado como seu possível criador. Essa derradeira medida, ao contrário do que deus imaginara, só viria a ser, uma vez mais, benéfica para o homem, para a mulher e para toda a sua futura descendência: Depois de ter expulsado o homem, colocou, a oriente do jardim do Éden, querubins armados de espada flamejante para guardar o caminho da árvore da vida.

 

Luís Garcia

Primeira versão: Dezembro de 2009, Audin-le-Tiche, França

Última versão: 17.04.2016, Lampang, Tailândia

 

PARA QUEM PERDEU OS PRIMEIROS EPISÓDIOS:

 

 

 

 
Vá lá, siga-nos no Facebook! :)
visite-nos em: PensamentosNómadas

Le franc CFA, instrument d'asservissement des pays africains

 

 

FRANCO CFA 1.jpg

Claire POLITICA ECONOMIA en français

 

Dans un entretien du 5 janvier 2014 accordé à Meta tv, Nicolas Agbohou, docteur en économie et enseignant à la Sorbonne, nous explique les spécificités du franc CFA qui en font un véritable instrument de soumission des pays utilisateurs de cette monnaie à leur colonisateur, la France. Ces informations sont essentielles pour comprendre une partie du fonctionnement de l'Afrique francophone, et comment les pays qui en font parti sont restreints dans leur activité économique, par une monnaie sur laquelle ils n'ont aucun pouvoir. Ce qui suit n'est qu'un aperçu de ce que nous apprend le professeur Agbohou dans son interview, dans laquelle il nous livre des explications extrêmement claires et illustrées (liens disponibles à la fin de l'article).

 

Le franc CFA est géré par 3 banques centrales:

Banque centrale des États de l'Afrique de l'Ouest (BCEAO)

Banque des États de l'Afrique centrale (BEAC)

Banque centrale des Comores (BCC)

 

La France siège au conseil d'administration de chacune de ces banques centrales (2 représentants par pays membre + 2 représentants français): les décisions doivent être adoptées à l'unanimité par les membres du conseil, par conséquent les pays de la zone franc CFA ne peuvent prendre aucune décision sans le vote favorable, donc sans l'accord de la France. La banque centrale finance le développement des pays: la France, par le rôle qu'elle y joue, impose un niveau de sous-développement économique à travers le franc CFA.

 

Le formidable racket: Les comptes d'opération

Le Franc CFA (des Colonies Françaises d'Afrique), a été imposé par la France à ses colonies en 1945. De 1945 À 1973, les pays utilisateurs du franc CFA avaient pour obligation de déposer 100% de leurs recettes d'exportation au trésor public français, dans des comptes d'opération ouverts en leur nom. A la réception de ces dépôts la France marque ces sommes au crédit du compte d'opération du pays dépositaire.  En 1973 l'obligation des dépôts passe de 100% à 65%. A partir de septembre 2005, la France ne réclame «plus» que 50% des recettes. Et ce système est resté en vigueur jusqu'à aujourd'hui. Non seulement les exportations mais toutes les devises que les pays de la zone franc CFA reçoivent finissent entre les mains de la France. Qu'advient-il de cet argent réquisitionné par la France, et dont les pays africains ne peuvent pas disposer?

 

  1. La France emploie ces devises pour payer sa propre dette.
  2. La France bénéficie des intérêts rapportés par ces capitaux.
  3. Les intérêts perçus par ces capitaux sont reversés aux pays africains sous forme de crédit, autrement dit utilisés pour endetter les africains.
  4. Les comptes d'opération sont débités pour s'approvisionner gratuitement en matières premières. Lorsqu'elle reçoit des matières premières, la dette est «marquée» dans le compte d'opération. Conclusion: c'est gratuit.

 

Durant la 2e guerre mondiale l'Allemagne nazie rançonnait la France de cette manière. Pour pouvoir bénéficier de l'argent se trouvant sur ce compte la France devait recevoir l'accord d'Hitler, accord qui n'a évidemment jamais été donné. A la fin de la guerre la France s'est empressée de montrer aux africains ce qu'elle avait appris et leur a imposé ces compte d'opération.

 

FRANC CFA BANANIA copy.jpg

 

Le franc CFA n'est pas convertible

On ne peut échanger de Franc CFA nulle part, et surtout pas en France. Les africains n'ont aucun contrôle sur l'impression de leur monnaie puisque l'usine fabriquant la monnaie papier se trouve en France (à Chamalières, près de Clermont-Ferrand). La France étant créatrice de cette monnaie, n'a pas le pouvoir de changer des francs CFA en euros, parce qu'elle n'a pas de pouvoir de contrôle sur l'euro, qu'elle ne crée pas. Le franc CFA n'est pas non plus interchangeables d'un pays de la zone à un autre: un ivoirien ne peut pas se rendre au Cameroun et utiliser sa monnaie. La zone franc CFA n'est pas une zone monétaire. Les relations économiques et commerciales entre les pays l'utilisant sont ainsi très limitées, ils sont maintenus économiquement vulnérables et dépendants.

 

Autre inconvénient: aucune devise ne peut être convertie en franc CFA par la France (fabricante de cette monnaie), la création monétaire est étouffée.

 

1 euro = 656 francs CFA

Ce taux de change est fixe et aligné sur l'euro. Les pays utilisateurs de cette monnaie n'ont aucun pouvoir de dévaluer ou de réévaluer leur monnaie et se trouvent lésés dans leurs échanges et, encore une fois complètement dépendants (de la France et) de l'euro. En tant qu'utilisateurs de l'euro, les autres pays européens de la zone euro vont également avoir un droit de regard sur les économies africaines, en conséquence la BCE s'ingère dans les programmes économiques des banques centrales et leur donne des directives.

 

Dans le vidéo, le professeur Agbohou nous explique également qu'une dévaluation artificielle du franc CFA par la banque centrale européenne permet à l'union européenne d'acheter des des biens aux pays africains à moindre coût (voire la vidéo suivante à 24min55sec).

 

 

 

Cette monnaie a été crée par les colons et pour eux. Le contrôle du franc CFA et ses limites retire toute souveraineté aux pays qui l'utilisent. La souveraineté monétaire est une condition indispensable à la souveraineté politique et au développement de tout pays Selon Nicolas Agbohou, frapper sa propre monnaie (la fabriquer) sur le sol national est une condition indispensable à l'obtention de cette souveraineté, et serait extrêmement facile à réaliser. Toujours selon les dires du professeur, les pays d'Afrique Francophone assujettis à cette monnaie sont victimes de propagande inculquant aux africains que l'indexation de cette monnaie sur l'euro est gage de sécurité et de stabilité économique.

 

Il est difficile d'obtenir des informations sur les comptes d'opération puisque les montants sont tenus secret. Officiellement les pays peuvent puiser dans ces comptes et disposer de leur «argent» comme bon leur semble. Mais au vu des gigantesques avantages que la France en retire, elle a tout intérêt à placer au pouvoir des dirigeants qui n'aborderont pas le sujet. L'histoire nous a montré que ceux qui ont tenté d'aller à l'encontre des intérêts français ou qui auraient approché le socialisme de trop près ont connu une fin tragique, comme Sylvanus OlympioModibo Keita ou Thomas Sankara, ou plus récemment le dirigeant ivoirien Laurent Gbagbo, jugé à la Cour pénale international (qui ne juge que des africains ou des serbes),entre autres.

 

Assez de l'attitude impérialiste et paternaliste d'une France qui infantilise les africains en les faisant passer pour trop corrompus, trop immatures pour gérer eux-même leur monnaie. C'est la France qui devrait être jugée à la Cour pénale internationale, au regard de la mort et de la faim qu'elle provoque pour garder la main mise sur ses colonies.La colonisation ne saurait être considérée comme passée dans de telles circonstances.

 

Claire Fighiera, 16.04.2016, Lampang, Thaïlande

 

SOURCES: 

- Interview à Meta tv:  partie 1 et partie 2          

Pourquoi un débat scientifique sur le franc CFA est-il tabou ?

« Le franc CFA freine le développement de l’Afrique »
« Aucun pays africain ne peut être Emergent avec le franc CFA »

 

 

 

 
Vá lá, siga-nos no Facebook! :)
visite-nos em: PensamentosNómadas

O Género e o sexo do cartão de cidadão

 

big-top-tent-hi.png

"Algo deve mudar para que tudo continue na mesma."

(Tomasi di Lampedusa)

 

  SOCIEDADE POLITICA

 

 

Não há meio de os intelectuais de Esquerda conseguirem destrinçar o conceito de "género" aplicado a pessoas (conteúdo dos papéis sociais convencionados culturalmente e atribuídos a um determinado sexo), do género gramatical (construção cultural de natureza linguística), do sexo (que é um conceito biológico e em relação ao qual, lamentavelmente para muitos, só existem duas alternativas possíveis).

 

Contudo, num país que bate os records europeus de feminicídios cometidos, que toca os píncaros das estatísticas relativas à violência doméstica, que tem uma das maiores disparidades da Europa no que diz respeito à diferença salarial entre sexos e que tem uma das mais elevadas percentagens de população ativa feminina, população feminina essa que é a que menos, na Europa, partilha as tarefas domésticas com o seu companheiro) certamente não existem outras prioridades. E querem-me convencer que a cruzada contra o género gramatical do "cidadão" do cartão é uma luta feminista. Não, não é uma luta feminista. É um circo, do tipo partidário, eleitoralista. Uma manobra de diversão que garante que nada de essencial muda mas que aplaca os ânimos de quem diz que é feminista só porque está na moda e soa bem no círculo que contactos no qual se move.

Ana Leitão

 

 

 

 
 
Vá lá, siga-nos no Facebook! :)
visite-nos em: PensamentosNómadas

A criação do mundo - Capítulo 4/5

 

 

Um novo "antigo testamento"

o deus imperfeito - origem do mundo 2 copy2

 

O deus imperfeito RELIGIÃO Luís Garcia 

 

Sem perder tempo e fazendo uso da sua consternante omnipotência, deus fez com que à mente dos dois rebeldes humanos chegasse a sensação de vergonha ao observarem mutuamente os seus corpos e assim, reconhecendo que estavam nus, prenderam folhas de figueira umas às outras e colocaram-nas como se fossem cinturões, à volta dos rins. Estes não compreendiam ainda plenamente porque agiam de semelhante modo e faziam-no como se algo infinitamente mais poderoso que eles lhes tomasse à força as suas mãos e as guiasse nestes primeiros actos de reacção ao constrangimento sentido pela nudez. Contudo, agora que eram também conhecedores do bem e do mal, não tiveram grande dificuldade em concluir que a nudez humana seria considerada errada para o seu deus e, tendo bem aprendido a lição, começaram a partir de então a cobrir os seus corpos com peles de animais que matavam para o efeito e a evitar a presença  junto do seu par nos momentos de prioridades fisiológicas durante os quais à nudez viam-se obrigados a recorrer.

 

Vendo estes e outros acontecimentos sucederem-se abruptamente e sabendo a origem de todos eles, a serpente, embora com medo das medidas de represália que deus lhe prometera caso contasse algo mais aos humanos do que aquilo que tinha sido previamente combinado entre os dois, não conseguiu contudo ficar parada a assistir àquela tremenda barbaridade e decidiu contar-lhes o resto da história do fruto proibido, para que eles percebessem quão egoístas eram os desejos que orientavam os desígnios de deus e quão distorcida era e seria sempre a sua noção de mal caso se deixassem indefinidamente levar na perversa artimanha de deus e continuassem a considerar algo tão natural e belo como a nudez humana um acto ou uma situação de vergonhoso mal, de manifesto pecado contra deus. Sentia-se bem na obrigação de lhes abrir os olhos e lhes despertar as mentes para que sábia e cuidadosamente começassem a triar os verdadeiros males dos ilusoriamente criados por deus para sua simples diversão.

 

Chegada ao mesmo local onde se encontravam os dois desorientados humanos, a serpente começou por lhes dizer: eu sei que vos poderá causar estranheza eu vir aqui neste altura ter convosco oferecer-me para fazer algo por vós, tão pouco tempo depois de vos ter conduzido ao fatídico acto que segundo a vossa compreensão terá sido um enorme castigo e representará o momento em que perderam inúmeros e valiosos privilégios, mas eu decidi vir porque vejo ser minha obrigação ajudar-vos a plenamente compreender a tempestade mental que têm sentido nos últimos dias com tantas e tão confusas ideias de mal a habitarem as vossas mentes. Quero vos ajudar a perceber o que é de facto a maldade e distingui-la do que não passam de meras ilusões criadas por deus para sua recreação, assim como vos fazer ver que ao final ganharam mais do que aquilo que perderam no momento em que comeram a maçã. Por isso vos convenci a comê-la, não para vos fazer cair em desgraça como agora deus apregoa e vos tenta fazer crer. A mulher tomou a palavra, pediu-lhe que então assim fizesse e atentamente ficou com Adão à espera das esclarecedoras palavras. Quando vos disse que deus sabia que vocês iriam conhecer o mal, tal como ele, caso ousassem comer o fruto proibido, não vos menti mas também não vos disse toda a verdade, pois mais do que passarem a ter o conhecimento do mal, seria deus o responsável por tal descoberta e era precisamente ele que queria que as coisas assim decorressem pois vocês não passavam na altura de meras marionetas nas mãos do todo-poderoso, das quais fazia uso para sua distracção sempre que caprichosamente se lembrava de o fazer. É, afinal, precisamente para que deixem de ser tais marionetas nas suas mãos, que vos peço que atentem nas minhas palavras e tirem as necessárias e urgentes ilações.

 

Os humanos estavam assombrados com o conhecimento de tal hipócrita atitude do senhor a quem deviam em princípio obediência e, agora que melhor podiam distinguir o bem do mal, percebiam que a serem de facto verdadeiras as palavras proferidas pela serpente, deus seria um nocivo e perigoso ser a evitar. Entretanto, a serpente continuou dizendo: Eu sei que ainda agora começam a perceber de facto o que está a acontecer mas de qualquer modo peço-vos desde já que fiquem bem atentos pois deus irá estar sempre a tentar convencer-vos a ver o mal mesmo onde ele não existe, como ainda agora. Vejam, por exemplo, porque se taparam dessa forma? Acham que é errado e maldoso poder ver os corpos um do outro inteiramente nus? É ridículo meus caros amigos que assim julguem a vossa nudez. Vejam como essa sensação de pecado não passa de uma divina artimanha para este se divertir com a culpa e vergonha por vós sentida e para vos poder castigar em caso de manifesta transgressão. Pois se assim não é, olhem por favor à vossa volta todos estes animais de todas as espécies e feitios por aí espalhados... vêem pelo menos um entre todo o reino animal que esteja preocupado ou receoso por estar nu em frente aos da sua espécie e de deus? Não é verdade que não só não sentem qualquer pudor em passearem-se completamente nus como tampouco receiam o castigo que vós temeis se em semelhante situação se encontrassem? É evidente meus caros humanos!

 

 

Quanto aos humanos que, atentos, seguiam o seu discurso, de tão atordoados que se sentiam não encontraram quaisquer argumentos ou força mental para interpelar as palavras da serpente e está insistiu: Pois é, vêem então que não existe mal nenhum na nudez em si, quer seja a vossa quer seja a dos restantes habitantes deste mundo, incluindo a minha. Apenas vocês a entendiam enquanto tal porque a omnipotente maldade de deus assim quis que fosse pois, uma vez acabada a vossa tortura por ele infligida no paraíso e que consistia em hesitarem entre seguir as ordens divinas ou a vossa imensa curiosidade, novas torturas psicológicas como esta da nudez já vos havia deus preparado e muitas mais há-de inventar, para que o seu passatempo não tenha tal como ele jamais fim. Bom, se assim é, retorquiu a mulher, porquê não nos disseste logo na altura em que toda esta história começou? E mais, como é que tu tens conhecimento de tudo isto? A serpente sentiu-se contente por ver que estava a ser seguido com atenção o seu discurso e continuou: bem, em primeiro lugar tenho de vos dizer que tudo o que fiz foi-me indicado por ele e eu agi tal como me ordenou, pois esse infame ser prometeu-me ameaçadoramente que se assim não o fizesse eu seria castigada e é disso que tenho agora medo pois sei que não deve tardar a sua vingança. Contudo, embora sabendo que poderia vir a sofrer graves consequências por este meu atrevimento, decidi vir aqui explicar-vos tudo o que sei, vocês estavam a ser enganados, gozados e mal tratados e eu, que tinha conhecimento de todos estes factos, não conseguiria ficar de consciência tranquila a assistir a esta situação sem nada fazer para o impedir de prosseguir com tamanha crueldade!

 

O homem, quiçá chocado com tais revelações, encontrou lógica nas palavras proferidas pela serpente, parecendo-lhe plausível a história que acabara de ouvir. Como consequência da sua crença nas palavras da serpente, Adão mostrou-se muito sensibilizado com a preocupação que a serpente tivera para com o seu bem-estar e o da sua mulher, tendo por isso agradecido-lhe imenso por tudo o que havia revelado e precipitadamente despediu-se em seu nome e em nome de Eva, arrastando esta pelo braço enquanto se preparava para caminhar apressadamente para fora do largo onde se encontrava a árvore proibida, como que dizendo que se sentia inferiorizado e constrangido pela sua nudez intelectual posta em evidência pela serpente que pelos vistos sabia muito mais sobre a vida de Adão e Eva que eles próprios. Contudo a serpente, não achando ser exagero insistir nos seus conselhos, pediu-lhes para ficar um pouco mais e adverti-os que tal como tinham caído naquela armadilha mental de achar que seria errado mostrar a sua nudez um perante o outro, muitas situações similares haverias de aparecer graças à inevitável omnipotência de deus e seria portanto de vital importância que ficassem bem atentos daí em diante. Além de prepará-los para a ilusão de males que não o seriam de facto, a serpente lembrou-se ainda de alertá-los para a situação contrária: Queria acrescentar se não se importam um aviso mais, o qual, devido à vingança divina cujo medo por mim sentido corrói o meu pensamento, quase me ia esquecendo. Não serão raras as vezes em que, tentando convencer-vos da necessidade e grandiosidade dos pedidos por ele feito a vós e à vossa futura descendência, o que na verdade estará a exigir-vos será que cometam actos horrendos e inumanos e, portanto, impregnados do mal que julgo quererem evitar. Já não me recordo bem de todos os planos que me contou, mas advirto-os que quando na vossa humanidade existir um homem chamado Abraão, cujo filho se não me engana a memória se há-de chamar Isaac, rogo-vos que o informem ou deixem recado às próximas gerações para desconfiar do repugnante acto que deus o convidará a realizar: sacrificar o sangue do seu bem-amado filho para demonstrar a sua obediência à divina autoridade. Lembro-me também vagamente de o ouvir murmurar sobre descobertas e conquistas de novos mundos num longínquo futuro, nas quais convidará a vossa mal aconselhada humanidade a invadir, roubar, matar, violar, torturar e destruir povos pelo menos tão civilizados quanto vós, apenas para que até junto desses desgraçados chegue a sua palavra, que é como quem diz, para que também esses pobres coitados se tornem súbditos e seguidores da sua ignominiosa má vontade. E se o fizerem, às mulheres mas sobretudo aos homens da altura, deus concederá magníficas e riquíssimas fortunas em ouro, prata e madeiras valiosas e condenáveis multidões de escravos capturados nesses novos mundos, com os quais erigirão monumentais templos religiosos e imponentes cidadelas (lembremos-nos por exemplo do espanhol Pizarro e da sua obra em Torrillo) cuja realização terá como objectivos essenciais e, por esta obrigatória ordem, agradecer Humildemente a ajuda de deus todo-poderoso por lhes haver concedido as imensas e maldosas forças sem as quais não poderiam ter jamais cometido semelhantes genocídios e, inevitavelmente, para que com toda a pompa e arrogância venham a poder vangloriar-se dos seus infames actos levados a cabo além-mar. Terminado este longo mas precioso monólogo, a serpente despediu-se pela segunda vez de Adão e Eva e sem hesitar virou as costas e segui o seu caminho, desaparecendo por entre a luxuosa vegetação do paraíso.

 

          Quando recuperam do imenso caudal de informação debitado pela serpente e voltaram finalmente a si, Adão e Eva recomeçaram a sentir de novo uma estranha sensação de vergonha pela sua nudez, agora não em relação um ao outro, mas devido à falta de à-vontade e confiança que sentiam para com o todo-poderoso que então chegara. Encontrando-se já perto deles o omnividente ser perguntou inutilmente a Adão: Onde estás? Ele respondeu: ouvi o ruído dos teus passos no jardim, e, cheio de medo, porque estou nu, escondi-me. O senhor deus perguntou: Quem te disse que estás nu? Comeste, porventura, alguns dos frutos da árvore da qual te proibi comer? O homem respondeu: A mulher, que trouxeste para junto de mim, ofereceu-me o fruto e eu comi-o. Em seguida deus perguntou à mulher porque cometera tal acto e ela respondeu: A serpente enganou-me e eu comi. Ao dizer isto tanto ela como o seu homem aperceberam-se de que o que se estava a passar era novamente uma armadilha montada pelo senhor e que era ele que brincado com as suas fraquezas os fazia dizer todos aqueles involuntários disparates. Compreenderam, portanto, com esta situação, como era de facto urgente seguir os conselhos da serpente e fazer os necessários esforços para se prevenirem dos maldosos ataques de deus e criarem rápida e eficientemente a melhor independência intelectual possível, de forma a diminuírem as suas vulnerabilidades face à toda-poderosa vontade divina. Apercebendo-se que aquela pequena brincadeira já tinha dado tudo o que poderia dar de jocoso, deus afastou-se deles e dirigiu-se à serpente.

 

Deus sentia-se, como é de imaginar (para quem vem conhecendo o seu mau feitio), tremendamente furioso por esta o ter desmascarado a si e ao seu maquiavélico jogo quando explicara atempadamente aos humanos as razões dos sofrimentos por eles vividos. Não lhe saía da mente a raiva infinita que sentia pela serpente e o seu traidor comportamento e portanto não pensava noutra coisa que não na pérfida vingança que tinha já anteriormente reservado para o asqueroso ser rastejante, caso este se desviasse do combinado. Quando deu finalmente de cara com a serpente disse-lhe rancorosamente: Por teres feito isto, serás maldita entre todos os animais domésticos e entre os animais ferozes dos campos. Rastejarás sobre o teu ventre (grande novidade!), alimentar-te-ás de terra todos os dias da tua vida. Farei reinar a inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta esmagar-te-á a cabeça, (pondo em prática, como podem constatar os meu caros leitores, a maldade para a qual deus lhe abrira os olhos) ao tentares mordê-la no calcanhar. Deste modo acabou por marginalizar o mais por ele prejudicado dos animais, conduzindo a serpente e toda a sua descendência a uma vida de solidão e esquecimento.

 

Quanto ao futuro deste animal estava sentenciada portanto, e por vingança, a vontade de deus (má-vontade diria eu!). Ela, a desafortunada serpente, seguiu o seu caminho amargurada e sentindo-se vítima de uma tremenda injustiça mas, como tinha consciência da sua impotência para mudar o rumo dos acontecimentos, achou por bem tentar se esquecer deste período manifestamente negro da sua até então curta existência e, para o conseguir, concentrou-se em relembrar que ao menos agira de forma justa, coerente e honrada, o que lhe permitia sair daquela fatídica situação de cabeça erguida e consciência tranquila. Quem não ficou mesmo nada contente com o desfecho desta história de frutas, ingénuos humanos e serpentes traiçoeiras, embora possuidor de todas as capacidades suficientes e necessárias para a seu bel-prazer se vingar da serpente, foi deus, claro está. E não é difícil adivinhar porquê. Por mais que vociferasse efusivamente contra todos os diabos e anjos caídos que ainda havia ele de inventar e, por mais divinos murros que desse descontroladamente na mesa da cozinha da sua celeste mansão (sim, porque a ter estômago, cozinha há-de utilizar certamente), não havia nada que o pudesse consolar e libertar da enorme frustração que sentia por se ter deixado enganar de forma tão ingénua por um ser que ele mesmo criara! Um ser que ele mesmo provera com as capacidades que permitiram tal traição! Pois não é que peguei naquela maldita criatura, lamentava-se deus, apetrechei-a com tudo e mais alguma coisa (Ui, que exagero!), preparei-a cuidadosamente para de afinada ferramenta servir no meu elaborado divertimento de estimação e a desgraçada, afinal, deu-me a volta ao texto, qual tiro saído pela culatra ou feitiço virado contra o feiticeiro!...

Ò meu deus, porque me abandonei a mim próprio!, poderia ter ele dito, como mais tarde haveria de fazer o profeta que segundo a lenda era simultaneamente homem e deus, deus e homem, a mistura dos dois ou nem uma coisa nem outra.

 

Luís Garcia

Primeira versão: Dezembro de 2009, Audin-le-Tiche, França

Última versão: 15.04.2016, Lampang, Tailândia

 

 

 

PARA QUEM PERDEU OS PRIMEIROS EPISÓDIOS:

 

 
Vá lá, siga-nos no Facebook! :)
visite-nos em: PensamentosNómadas

Camionistas romenos, padroeiros dos viajantes à boleia I

 

 

BOLEIAS – EPISÓDIO 2

 

camionistas.jpg

 

bw VIAGENS Luís Garcia

Esta insatisfação, não consigo compreender, sempre esta sensação, que estou a perder. Tenho pressa de sair, quero sentir ao chegar, Vontade de partir, p’ra outro lugar. (Estou Além, António Variações)

 

CAMIONISTAS ROMENOS, PADROEIROS DOS VIAJANTES À BOLEIA (França, Itália, 2007) – Poucos minutos depois de começarmos a procurar por motoristas no parque de estacionamento, encontrámos um natural da Roménia que se encontrava em vias de partir para Espanha passando por Lyon e que, timidamente, aceitou nos dar boleia até ao sul de França.


Durante o percurso, com tempo e paciência, usando eu os meus limitados conhecimentos de romeno (aprendido com amigos Erasmus romenos na universidade) e ele (o condutor) o seu espanhol também bastante limitado, conseguimos perceber que o camionista romeno trabalhava desde há muito para uma companhia espanhola porque, executando rigorosamente a mesma tarefa – conduzir camiões pela Europa fora -, desta forma ganhava um salário bem melhor que o que ganharia trabalhando para uma empresa romena.

 

 

 

Entre muitas outras conversas veio finalmente o “porquê” de nós termos como destino o sul de França. Mal entendido, não era esse o nosso destino final explicámos nós, a razão era antes de reentrar na rota em direcção a leste, rumo à Roménia, ao que ele reage dando-nos uma ideia genial em forma de pergunta: “por que não tomam vocês atenção às matrículas dos camiões passando na estrada e assim que avistarem um camião italiano pedem-lhe boleia em andamento, enquanto eu o ultrapasso?”. Ah, genial, assim fizemos nós! Menos de cinco minutos depois avistámos uma matrícula italiana, apressadamente escrevemos “Milano?” em letras garrafais numa folha em branco e encostámo-la ao vidro da janela no momento da ultrapassagem propositadamente demorada. O condutor do camião de matrícula italiana, muito sorridente, fez um sinal de “ok” seguindo de várias sinaléticas que nós interpretámos (bem) como sendo um convite para parar na próxima estação de serviço. Antes de estacionar na estação de serviço pedimos ao camionista romeno que assegurasse em conversa com o outro camionista que nós éramos “muito bons rapazes”, de forma a garantir-nos a próxima boleia. Entendendo e concordando com o nosso ponto, saiu em primeiro lugar do camião e tomou a iniciativa de ir falar com o seu colega de trabalho. Poucos segundos depois seguimos-lhe em passo inseguro e hesitante, como quem quer ouvir a conversa que muito lhe interessa mas sem querer dar sinal de presença. Ah, para nosso espanto, não só eram colegas de trabalho com também eram compatriotas alegremente falando sobre os “viajantes malucos” em bom romeno! Estava garantida a boleia!


Chamava-se Ionica (lê-se Iónitsa), o senhor que nos oferecia uma boleia possivelmente para além de Milão. Realizar essa distância dependeria do trânsito, em especial nos túneis da fronteira franco-italiana onde frequentemente ocorrem engarrafamentos, pois só conduziria até 23h. A viagem correu bem, passada alegremente a conversar com o afável camionista numa mistura de portunhol, italiano e romeno, enquanto observávamos a incrivelmente bela paisagem repleta de picos e montanhas verdejantes. Atravessámos a fronteira era já noite escura, e parámos no lado italiano para esticar as pernas e beber umas cerveja oferecidas pelo Ionica numa loja onde encontrámos o mais inesperado peluche jamais criado: um boneco cor-de-rosa electrónico em forma de porco que repetia mecanicamente uns provocadores movimentos das ancas ao qual demos o elucidativo nome de Porno Pig:

 

 

De volta ao camião fizemo-nos de novo à estrada até alcançarmos a cidade de Parma. Durante este percurso Ionica telefonou a um colega romeno camionista da mesma empresa de transporte italiana e pediu-lhe para vir ter connosco à estação privada exclusiva para camiões nos arredores da cidade. No momento não nos apercebemos do real motivo deste convite, críamos que desejasse apenas ter a companhia de um colega e amigo, mas o seu plano, genial, ia bem mais além: os camiões daquela empresa, muito modernos, tinham duas camas instaladas em cada cabine. Junto os dois camiões haveria quatro camas disponíveis para quatro pessoas, o que para nós significava passar a primeira noite em conforto desde que deixáramos o Fundão há vários dias atrás!


Além do conforto de uma verdadeira cama, fomos presenteados com condições que nos dias de hoje qualquer ocidental considera uma banal necessidade básica mas que para nós naquele momento soavam a verdadeiro luxo: tomar um duche de água quente nas casas de banho ultra-asseadas da estação de camiões privada. Ah, como dormimos bem naquela noite e como acordámos de baterias recarregadas e boa-disposição em quantidade suficiente para enfrentar o grande tédio que inevitavelmente estava programado para esse dia de Sábado.

 

 

Por muito absurdo que soe, é um facto (até então por nós desconhecido) que em Itália todos os transportes pesados estão interditos de circular aos fins-de-semana. Estávamos na manhã de um Sábado, numa zona industrial feia, suja e caótica, por tanto imaginem a loucura da situação. Depois do pequeno almoço, a maior excentricidade que arranjámos para no ocupar o tempo foi o convite de Ionica para no juntarmos a ele e irmos num carro ligeiro até aos shoppings da zona procurar uma caixa para guardar bagagem, daquelas que se prendem no tejadilho dos carros. Dizia-nos ele que, embora a sua viatura privada fosse espaçosa, sempre que viajava de férias com a sua mulher e três filhos, “é impossível meter toda a tracalhada que eles sempre insistem em trazer atrás”. Com a nova caixa, o problema “seria resolvido de vez”. Entre loja e loja, o tempo foi passando, assim como se foi gastando a minha paciência e a do Diogo para percorrer incessantemente todos aqueles corredores de shoppings (e logo nós!). Para compor-nos os ânimos, Ionica ia mimando-nos com cafés e gelados e, já depois de ter comprado “a caixa perfeita”, presenteou-nos com um pack de vinte cervejas que trouxemos para a estação e que estavam reservadas exclusivamente para nós visto que nem Ionica nem o seu colega camionista bebiam álcool.

 

  

As primeiras foram abertas e bebidas ainda no carro, no percurso de volta à estação de serviço. As seguintes bebêmo-las enquanto fazíamos companhia a Ionica que, sacando da parte lateral do camião uma cozinha digna do substantivo, nos preparou um saboroso prato tradicional romeno com carne de galinha e muitas especiarias. Que requinte de almoço, ainda mais de todo inesperado! Depois de enchermos a barriga e já um pouco bebidos, instalámo-nos na companhia dos dois camionistas nos confortáveis sofás do salão da estação, conversando sobre a Roménia e a nossa aventura, vendo televisão e até passando um pouco pelas brasas. Numa dessas muitas conversas informámos Ionica que um dos nossos destinos principais na Roménia viria a ser Sibiu, cidade que em 2007 tinha sido elegida Capital Europeia da Cultura. Coincidência das coincidências, embora já não lá morando com a sua mulher e filhos, Ionica era natural de Sibiu, cidade que o encantava profundamente e que segundo ele, após a enorme remodelação sofrida para receber os eventos culturais programados para aquele ano, tinha passado de uma imunda cidade de terceiro mundo para “uma das mais limpas cidades da Europa onde até se poderia cozer ovos no chão da praça central de tão imaculado se encontrar”. Exagero que mais adiante na viagem constatámos, mas não deixava de ter razão de ser o seu orgulho pela positiva transformação de Sibiu. Além do mais, deu-nos nesse dia o número de telemóvel da sua “jovem e muito bela sobrinha” que morava ainda na cidade, em casa da sua mãe, e que “falava fluentemente inglês”. Fizemos várias tentativas para a contactar em Sibiu, mas jamais com sucesso. :(

 

 

Depois do conforto dos sofás laranja veio a hora da parvalheira, quando fomos para o meio do parque de estacionamento jogar à bola e tirar fotografias acrobáticas de nós mesmos sobre o ligeiro efeito inebriante das muitas cervejas ingeridas. Entretanto juntavam-se a nós outro camionista romeno e a sua esposa grávida e todos juntos, passámos uma alegre tarde e serão de convívio, uma vez mais alimentados por um delicioso jantar preparado pelo nosso quase-pai Ionica.


Na madrugada do dia seguinte (Domingo) decidimos tentar a nossa sorte e pedir boleia a carros ligeiros, visto que não nos apetecia de todo gastar mais um dia da nossa viagem – limitada no tempo – de novo na estação de serviço. Voluntarioso, Ionica levou-nos de carro até à bomba de combustível mais próxima e desejou-nos toda a sorte do mundo, pediu-nos para explorarmos as desconhecidas maravilhas do seu amado país e insistiu que tentássemos entrar em contacto com a sua sobrinha.

Antes de partir, voltou para trás, deu-nos dois fortes abraços notoriamente comovido, tirou uma nota de vinte euros do bolso e disse-nos: “peguem, é para beberem dois cafés na minha bela cidade de Sibiu”!


No parque de estacionamento da estação de combustível esperava-nos uma penosa manhã de humilhação e desespero, mas que acabou por terminar bem...

 

Luís Garcia, 13.04.2016, Lampang, Tailândia

 

 

 
Vá lá, siga-nos no Facebook! :)
visite-nos em: PensamentosNómadas

A criação do mundo - Capítulo 3/5

 

 

Um novo "antigo testamento"

o deus imperfeito - origem do mundo 2 copy2

 

O deus imperfeito RELIGIÃO Luís Garcia 

 

Vendo que o homem e a mulher, mesmo passando cada vez mais tempo a observar os frutos da árvore proibida e ficando cada vez mais tensos e nervosos, não cediam contudo à tentação de desrespeitar o sei criador, deus compreendeu que tinha chegado a hora de trazer a este mundo a sua próxima arma de guerra, de última geração por sinal, com a ajuda da qual ele estava seguro que Adão e Eva iriam finalmente cair na tentação. Fazendo uso uma vez mais da sua desmesurada frieza e crueldade chamou junto de si precisamente o animal mais desventurado e azarado que então vivia no paraíso, a serpente, que por distracção ou manifesta falta de jeito de deus para moldar animais, a tinha criado sem pernas, barbatanas, asas ou outro qualquer tipo de membros que lhe permitisse ser livre para se movimentar no mundo em que nascera. Tal como os bons governantes que temos hoje por esse mundo fora, à imagem e semelhança do primeiro governador, o deus imperfeito, também este na altura decidiu utilizar o primeiro animal deficiente que existiu, ou seja, a primeira vítima dos seus próprios erros de trabalho, para servir como bode expiatório nas suas posteriores e perversas atitudes de gestão sobre o mundo, quais habitantes do nosso Médio-Oriente feitos carne para canhão e tubagens para oleodutos em favor dos objectivos de quem impera e que em troca são invariavelmente apelidados de fanáticos, terroristas ou incivilizados.

 

          Não tendo alternativa, a pobre serpente teve de aceitar as condições divinas, que numa primeira etapa seria simplesmente se deslocar até às proximidades da árvore proibida onde posteriormente poria em prática aquilo que deus (depois de um minucioso make up cerebral) lhe impôs que realizasse e que consistia em persuadir de todas as formas possíveis a mulher a experimentar o fruto proibido, assim como convencer o seu homem a comê-lo também! Durante a preparação da serpente para a sua ignominiosa missão, deus tinha-lhe então limpado da mente os simples e rudimentares instintos de sobrevivência característicos do reino animal e dotara-a de algo muito superior, substituindo-os por uma inteligência semelhante à de deus em qualidade e quantidade, para que esta pudesse eficazmente aplicar toda a arte de retórica divina nos posteriores diálogos com as suas vítimas. No que deus na sua inata imperfeição não pensou foi que com este nível de inteligência a serpente poderia potencialmente ir muito mais além daquilo que ele lhe ordenara e que assim ela poderia ter a qualquer momento originais iniciativas próprias nas quais usaria o seu novo dom que dele recebera.

 

          Acabados então os preparativos a serpente dirigiu-se ao caminho que ia dar até ao lugar da árvore proibida e, enquanto não chegava ao seu destino, pôs-se a meditar sobre as razões e os motivos de deus que o teriam levado a encarregá-la de tal missão. Depressa concluiu que toda aquela ansiedade e inquietude demonstrada pelo todo-poderoso enquanto lhe explicara a sua missão eram muito estranhas e nada típicas de um ser transcendentemente perfeito como a si próprio se definia deus, e começou então a desconfiar que haveria por certo segundas e obscuras intenções naquela ordem. Por nada mais ter para ocupar o seu tempo e por não conseguir abstrair-se um minuto sequer de tão inquietantes pensamentos, a serpente concentrou-se até ao final da caminhada a procurar na sua mente explicações plausíveis para o misterioso porquê deste mais recente capricho de deus.

 

          Depressa acabou a serpente por concluir que aquela situação não passava efectivamente de um perverso jogo e de uma caprichosa diversão para deus pois este, enquanto lhe explicava a missão exigida, acabou por se descair ao dizer que a situação vivida pelos humanos era bem semelhante à sua, o qual tinha, segundo confessou, uma miserável vida aborrecida fruto da certeza de uma eternidade a viver e do tédio permanente a que esta o obrigava. Tudo era agora claro para a serpente. Aquelas duas cópias humanas da entediante vida de deus instaladas no paraíso não passavam de facto de uma distracção criada por ele para contrariar o aborrecimento que sofria e a missão que ela, a serpente, fora encarregue de levar avante, mais não era que um mero episódio planeado por deus para tornar o seu jogo um pouco mais interessante do que até então tinha sido.

 

          Ao contrário do que possam pensar, a serpente, depois de toda este encadeamento de pensamentos e conclusões, não fugiu nem colocou sequer a hipótese de fugir à execução da tarefa a si exigida por deus. Continuou a sua penosa deslocação em zigue-zagues e chegada à árvore instalou-se nela da melhor forma possível, que é como quem diz, enrolou-se ao longo do seu tronco pois, graças à imbecilidade e/ou à manifesta má vontade de deus aquando da sua criação, era a única forma que tinha para repousar na fonte do fruto proibido.

 

A saber, a sábia serpente não desistiu de facto da sua missão, não por sentir algum dever de obrigação ou por lhe atormentar alguma espécie de temor face à negativa reacção do todo poderoso governante que lhe incumbira de tal missão, mas sim porque compreendia e sentia agora que era para ela uma obrigação livrar aqueles ingénuos humanos, por deus enganados, da tortura psicológica a que estavam a ser submetidos.

 

          Na primeira oportunidade de contacto com os dois humanos que a serpente teve, esta não hesitou e começou a conversa dizendo: É verdade ter-vos deus proibido comer o fruto de alguma árvore do jardim? A mulher respondeu-lhe: Podemos comer o fruto das árvores do jardim, mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, deus disse: Nunca o deveis comer, nem sequer tocar nele, pois, se o fizerdes, morrereis. A serpente retorquiu à mulher: Não, não morrereis; mas deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como deus, ficareis a conhecer o bem e o mal. Não vos afligis portanto, continuou a serpente, caso queiram matar a curiosidade de provar o mais saboroso e sublime fruto jamais plantado por deus no vosso paraíso. Por algum motivo lhe deu o nosso bom e amado mestre tal nome, se pelo nome de paraíso é conhecido, certamente haveria este de vos deliciar com paradisíacas frutas, as quais, depois de saboreadas, vos elevará imensamente a sensação de também paradisíaca ser a vossa terrena vida. Pelo contrário, se não provarem a mais que todas apetecível criação de deus nosso senhor, estarão a caminhar na direcção contrária ao destino que o todo poderoso misericordiosamente vos planeou, uma vida própria dum lugar paradisíaco como o que têm a sorte de habitar. Insisto, uma vida paradisíaca. Julgo que estão a seguir o meu raciocínio e que compreendem tão bem quanto eu que logicamente não há formar de conjugar este divino conceito de vida paradisíaca com o constatado aborrecimento de que têm vindo a ser vítimas ultimamente devido à ausência de novas distracções e, mais grave ainda, não é de todo compatível esse tipo de vida com o sofrimento e a tortura psicológicas de que têm vindo a sofrer por insistirem em ingenuamente concluir que tal acto vos estaria interdito.   

 

A serpente teria certamente preferido dizer-lhes que depois de transposta irrevogavelmente essa fronteira do conhecimento, a espécie humana passaria a ter a partir de então e tal como deus, a consciência do mal e a possibilidade de o usar conforme o desejasse, mas ela em toda a sua sapiência compreendia o quão arriscado seria proferir discursos além dos programados por deus e nos quais de forma directa ou indirecta se revelasse algum aspecto negativo da sua majestosa divindade. Estava portanto bem consciente que se o fizesse, se desviasse o seu discurso um pouquinho que fosse do combinado, ele certamente executaria o que ameaçadoramente lhe tinha prometido fazer: usar das suas infinitas forças para se vingar em caso de mau comportamento desta, denegrindo (como acabou mais tarde por fazer) a sua imagem e reputação para toda a eternidade e difamando-a e desacreditando-a até ao último recanto olvidado do mundo terreno.

 

Quanto a deus e à sua confiança no conteúdo do discurso por ele encomendado à desgraçada serpente, a certeza no sucesso eram tais que a questão que mantinha ocupado o seu pensamento já não era o bom desenrolar ou não desta sua brilhante intriga. O que preocupava agora unicamente era a palavra Quando? Quando se decidiriam finalmente Adão e Eva a cometer os actos que os precipitaria na desgraça por ele prometida, pois na sua mente egoísta e cega pelo prazer da diversão com o sofrimento alheio não havia de facto a mínima dúvida que, a partir do momento da mais que certa transgressão humana, o seu divino comportamento limitar-se-ia a passar da ideia à acção, castigando incessantemente Adão e Eva e todas as futuras gerações de humanos suas descendentes.

 

Voltando à mal amada serpente, esta, sem antes jamais ter colocado a hipótese de falhar ao combinado com deus, reflectia agora sobre as razões secretas que a tinham (além do medo do castigo divino) levado a executá-lo até ao fim. Não deixou nunca de achar errado o seu comportamento de participar activamente num jogo perverso de alguém que queria de forma infame divertir-se à custa de outros, mas continuava ainda assim bem segura que mais importante que ser cúmplice de tais ultrajantes actos, era o facto de que participando nestes teria talvez pela primeira e última vez a oportunidade de elucidar Adão e Eva acerca dos conhecimentos de que evidentemente deveriam ser possuidores e, consequentemente, ajudá-los a alcançar a plena liberdade, independência e autonomia intelectual, pois tanto o homem como a mulher, a partir do fatídico momento em que provassem o proibido fruto, passariam a conhecer o bem e o mal e a vital importância contida na radical diferença entre os dois conceitos.

 

          O crucial acto aconteceu então naturalmente e um mundo completamente novo em todos os aspectos abriu-se para aqueles que até então não passavam de dois inocentes humanos. Até ao último instante antes do provar do fruto proibido existia apenas um ser em todo o mundo plenamente consciente do conceito de maldade e de todo o seu consequente potencial (embora como tivemos oportunidade de constatar anteriormente também a serpente em certa medida já tivesse experimentado o privilégio de ser possuidora de tal conhecimento, aquando da execução da sua missão, privilégio este contudo bem efémero como ainda iremos descobrir). Quanto a Adão e Eva, e por expressa decisão do todo poderoso, tinham em grande parte sido criados à imagem e semelhança do seu mestre, mas na ignorância de tais conceitos centrava-se como é sabido a grande diferença entre os humanos e aquele que além de único conhecedor era também até à data o único que ousara de tais conhecimentos fazer uso.

 

E foi assim que o homem e a mulher entraram na sua nova realidade, sem que os possamos acusar de terem agido maldosamente (uma vez que desconheciam na altura o que significavam estas palavras), mas como vítimas da inteligente retórica divina face à qual a sua ingenuidade não poderia de forma alguma fazer face. Imaginem portanto, caros leitores, qual não deve ter sido o espanto com que receberam o planeado castigo, ainda mais que nessa altura já eram definitivamente possuidores das faculdades que melhor lhes permitiria analisar a origem e os porquês de tal vingança divina.

 

Deus, sempre que observava Adão e Eva,  auto-comprazia-se com a excelente obra que realizara quando das suas grandes qualidades fizera uso, mas agora, apercebia-se ele, com uma brincadeira estúpida e irresponsável que mais não lhe teria dado que uma fugaz e ligeira distracção, acabara aparentemente de manchar a sua maior obra com a maior de todas as nódoas, e teria também deitado a perder talvez a devoção dos seus mais sinceros, fiéis e honestos súbditos. Ou não.

 

Não é caso contudo para nos deixarmos levar em sentimentalismos e daí sentir qualquer tipo de pena ou empatia consoladora para com este imperfeito ser, pois enquanto o diabo (ou deus?) esfrega um olho, a omnipotente criatura concluiu que a melhor forma de superar a tristeza que lhe causara o término deste seu último passatempo seria, simplesmente, esquecer-se dele e começar a organizar os seus há muito imaginados planos de castigos e privações com que iria presentear Adão e Eva após que estes tivessem cometido o primeiro grande acto de desobediência.

 

Luís Garcia

Primeira versão: Dezembro de 2009, Audin-le-Tiche, França

Última versão: 11.04.2016, Lampang, Tailândia

 

 

 

PARA QUEM PERDEU OS PRIMEIROS EPISÓDIOS:

 

 
Vá lá, siga-nos no Facebook! :)
visite-nos em: PensamentosNómadas

Pág. 1/2