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Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

Organismos geneticamente modificados (OGM’s)

 

RICARDO MINI copy  Ciência Política

 

 

Estou farto, fartinho de gente ignorante e que promove a ignorância. Uma coisa é fazerem-no de uma forma inadvertida, como eu bem creio que seja o caso, pelo menos, da maioria das pessoas, senão até de todas, outra é toda a gente se calar perante isto.

 

Agora a nova fonte de entretenimento do PCP são os organismos geneticamente modificados. Como bons políticos que são, só sabem “resolver” problemas com base em legislação. E, o que é a legislação? Leis. E, o que é que normalmente implicam as leis? Proibições. Pelo menos, para esta gente, que não tem competência, conhecimentos nem criatividade para mais.

 

Ai agora os organismos geneticamente modificados têm de ser proibidos porque são nefastos para a saúde humana? Ai sim? Não! Os organismos geneticamente modificados são todos aqueles que podem ser alterados através de engenharia genética, modificando os seus genes, para que sejam traduzidos em proteínas que modificam as características do organismo. E, na cabeça desta gente, isto é incondicionalmente negativo. Não é negativa a instrumentalização monetária da ciência, na qual empresas como a Monsanto utilizam as técnicas de modificação genética para melhorarem os organismos visados com vista à maximização dos lucros, podendo produzi-los mais rápido, fazê-los crescer mais rápido, permitir que desenvolvam características que são mais “vendíveis”. Não, não é isto. Porque a proposta de lei é absoluta, não descrimina quais as práticas que podem ser penalizadas. O que é penalizada é a comercialização de organismos geneticamente modificados. Não é regulamentada a sua produção, não é regulamentado o controlo de qualidade dos produtos, não são exigidos estudos que comprovem a segurança dos organismos quando ingeridos por um ser humano ou um outro animal que só são rigorosos quando submetidos a peer review. Aliás, isto com certeza que estes burocratas desconhecem completamente.

 

Ou seja, criam-se leis, com base em ignorância e em modas. Porque, sim, agora é moda para o pessoal de esquerda ser contra os OGM. Tanto que desconhecem completamente quais as técnicas utilizadas para modificar geneticamente um organismo, desconhecem os princípios em que se baseiam, desconhecem biologia molecular e celular, desconhecem engenharia genética, desconhecem genética, evolução e ciências ómicas. Desconhecem tudo isto, e só porque gente sem escrúpulos de determinadas corporações instrumentaliza o processo para maximizar os lucros, não se vai sancionar estas práticas, não se vai penalizar a empresa, que é o razoável. Não, não. Vai-se atacar tudo quanto é organismo geneticamente modificado, na mais absoluta ignorância das vantagens que estes organismos podem ter, se as modificações genéticas forem estudadas com rigor, assim como os seus efeitos no organismo em si e nos organismos com os quais interage molecularmente.

 

E, claro, vamos começar mais uma caça às bruxas. Agora são os OGM’s. Portanto, quem quiser fazer trabalho científico decente em relação a OGM’s, provavelmente também nem nunca vai cheirar bolsas, porque deve ser outro que quer andar para aí a causar doenças às pessoas.

 

É o que dá ter gente ignorante, que só porque tem um cargo que publicamente é associado a uma especialização em tudo e mais alguma coisa, tem legitimidade para mandar bitaites ignorantes sobre temas que desconhece em absoluto e para condicionar o progresso da humanidade através do conhecimento científico apenas porque faz parte da cartilha do pólo político ser contra esse algo.

 

Mais uma coisa. Para aqueles que acham que por não se alimentarem de produtos geneticamente modificados, estão a alimentar-se de algo mais “natural”, vão aprender algo sobre história da agricultura, para perceberem que não há um único organismo vegetal do qual se alimentem que não tenha sido geneticamente modificado, mas de forma indireta, pelos vossos antepassados, para que se possam sequer alimentar dele. Pensem nisso, para ver se começam a tirar macaquinhos da cabeça.

 

Ler: Proibição de transgénicos em debate no parlamento (Sic Notícias)

 

Ver:

 

 

 

Ricardo Lopes

 

 

 
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Tirana é um lugar… (3ª parte)

 

 

HOLLYWOODICES – EPISÓDIO 9

tirana

 

bw VIAGENS Luís Garcia

Eu tenho visto tanta coisa nesse meu caminho, Nessa nossa trilha que eu não ando sozinho, Tenho visto tanta coisa tanta cena, Mais impactante do que qualquer filme de cinema. (Tás a ver?, Gabriel O Pensador)

 

TIRANA É UM LUGAR… (Albânia, 2005) – Numa bela tarde de sol e calor tomei a feliz decisão de entrar num edifício que me atraiu a atenção por ser grande e de estrutura original: A Piramida, que tal como o nome indica se assemelha a uma pirâmide. Dentro, para meu grande espanto, encontrei a Feira Anual de Livros de Tirana cuja existência desconhecia de todo. Passei cerca de 30 minutos passeando calmamente pelos corredores repletos de expositores, tomando sobretudo atenção às imagens pois de albanês sabia zero, até que dei por uma banca com 3 belas jovens da qual uma era mesmo muito bela (e que contraste com o resto dos expositores representados por velhinhos carrancudos!). Como se não bastasse, tinham à venda livros em francês e inglês, além das versões originais na língua materna do tio poeta de uma delas (da mais bela). Foi amor à primeira vista, só faltava uma desculpa para meter conversa, que acabaram por ser as versões francesas e inglesas dos livros do poeta, para mim inteligíveis.

 

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 As três apresentaram-se muito simpáticas e com boa fluência nas duas línguas acima referidas, mas Jonida (nome da tal mais bela e que se lê Iónida) surpreendeu-me completamente com as suas capacidades de poliglota: era fluente em albanês, inglês, francês e italiano, falava razoavelmente bem alemão e espanhol e, espantei-se, nada mal em português (ou portunhol). Explicou-me orgulhosamente que aprendera os dois idiomas ibéricos sozinha, acompanhando as novelas mexicanas e brasileiras que costumam passar legendadas na TV albanesa! Tudo isto num país em que apenas se fala e mal a língua local! Claro que a convidei para sair e beber um copo depois da feira fechar. Jonida compareceu, mas escoltada pela duas outras meninas que ao contrário dela usavam o véu islâmico.

 

Num país cuja população é maioritariamente muçulmana (80%) não iria ser fácil ver-me livre das outras duas. Vestiam-se de forma menos exuberante, eram simpáticas mas mostravam um decoro religioso, uma certa timidez socialmente enraizada que não lhes permitia falar com um homem desconhecido olhando olhos nos olhos. Não se atreviam-se a começar qualquer tema de conversa. Limitavam-se a responder de forma muito cortês, ainda que expondo para minha alegria as suas opiniões pertinentes e as suas ideias bem formuladas. Que prazer! Jonida comportava-se de forma oposta e fazia questão de olhar olho nos olhos de forma confiante, desafiadora e até intimidante! Era, pois claro, um peixe fora do aquário. A prova chegou quando me confessou que estudava na prestigida universidade de Sorbonne em Paris! Daí que com tantas línguas por onde escolher, Jonida fazia questão de falar comigo em francês. Além do mais o seu tio Pëllumb Muka, segundo ela o maior poeta vivo (e talvez único diria eu, hehe) da Albânia, tinha lhe incutido o amor pela “língua da poesia” e da “beleza verbal” por excelência desde muito cedo e Jonida considerava ser o francês a sua primeira língua, à frente do albanês. Garantia-me que começara a falar francês ainda criança. Como o seu país é, par efeitos práticos, um estado pária, arranjar vistos para sair daquela prisão a céu aberto é quase impossível, mesmo para quem conhece a nata da sociedade albanesa e é sobrinha do tal poeta. Daí que, mesmo tendo já frequentado os primeiros dois anos de licenciatura, o estado francês insistia em lhe passar visto de apenas 10 meses por ano, correspondentes ao período lectivo. Para seu desespero, já haviam começado as aulas do terceiro ano (estávamos a finais de Outubro) e a autorização para regressar a França continuava a não aparecer. Do mal o menos, não fosse esse atraso e não teria tido a (má?) sorte de me conhecer, ahah! Brinco, pois claro. que desespero não poder voltar a tempo para as suas aulas devido a primitivas porcarias burocráticas. No primeiro dia, com a confiança das meninas-sombra ainda por conquistar, foi assim mesmo que passámos o tempo, falando de línguas, estudos e países, pois nem por um segundo nos deixaram a sós!! As malandras!

 

Ao fim do terceiro dia em Tirana mudei-me do hotel para a casa do rapaz que morava na “zona negra”. Jonida e as suas amigas tinham me avisado e exigido que não me aproximasse daquela zona negra, cheia de gente perigosa. As três, dando o exemplo, nunca na vida lá tinham entrado. A aventura na Albânia a partir nesse momento subia vários degraus no nível de excentricidade e de inverosimilhança. As circunstâncias obrigavam-me a adoptar uma quase dupla-personalidade, convivendo ora com familiares de poetas da classe privilegiada, ora com o refugo esquecido do Casal Ventoso albanês. E tomava contornos pouco práticos como a situação de impasse em que me fui meter no dia seguinte:

 

Depois de encerrada a Feira dos Livros naquele dia apareceu o motorista do poeta, um gigantão de metro e noventa e tal musculado, para nos buscar a mim e a Jonida numa Mercedes de vidros fumados e levou-nos até a casa do poeta onde me foi oferecido um simpático banquete pela sua mulher e onde tive o prazer de travar conhecimento com outros membros mais da família, como o génio do filho mais novo de 12 anos. Serão bem passado, sem dúvida, mas teríamos preferido escapar um pouco daquele cerimónia toda. Não deu, é a vida! Findo o acontecimento social, e como já era muito tarde, ofereceram-me (impuseram-me) que o seu motorista me fosse levar a casa! Deixou-me à porta do hotel onde eu não habitava mais e desconfiado não arredava pé! Vi-me então obrigado a entrar no hotel, inventar na recepção a desculpa de que vinha saber se tinham encontrado um meu leitor de música que havia esquecido. Ao fim de alguns minutos saí, sem dizer mais nada, ficando contente pelo alívio de já não lá estar estacionado o Mercedes.

 

Num Sábado à tarde, dia principal da Feira do Livro, a Piramida encheu-se de gente: políticos, artistas, escritores, e claro, TV’s e rádios acompanhando o mediático evento ao vivo. Até o presidente e o primeiro-ministro do país compareceram. Tive a oportunidade de dar um passou-bem a um deles por intermédio da apresentação que nos fez um colega de Jonida, mas já não me lembro a qual. Nessa noite, depois de fechar a exposição,  Jonida e o seu tio poeta convidaram-me para fazer parte de um convívio com malta importante do país. O seu tio Pëllumb Muka, alguns políticos albaneses e kosovares, vários jornalistas e artistas amigos do seu tio. Jonida era a única mulher no grupo, e dava para perceber que era vista pelos homens (sobretudo os mais velhos) como útil tradutora, mas não parte integrante do debate, por ser mulher, claro está. Com todo o respeito pelo ancião seu tio e o seu ritual de boas vindas, depressa me virei para o grupo mais jovem de politicos e jornalistícos com quem mantive uma acesa discussão sobre a situação do Kosovo na altura. Um político kosovar garantiu-me durante aquela conversa que o Kosovo seria independente em 2008. E estava certo, mais ou menos. Um outro sentado a meu lado, para me provar ser jornalista da televisão nacional albanesa, convidou-me a ligar uma TV no dia seguinte por volta da hora de jantar. Confirmava-se, era mesmo ele o apresentador do jornal da noite! Depois de muitos comeres e beberes, e muita conversa com a nata da sociedade albanesa, voltei (pouco) tranquilamente para a casa do meu amigo na favela de Tirana e fui dormir...

 

Daiti Mountains

 Num belo dia de sol, Jonida propôs-me que eu fosse dar um passeio às montanhas Daiti com o seu primo de 12 anos filho do poeta, enquanto ela estava ocupada na feira e para não dar demasiado nas vistas passando diariamente tanto tempo com ela na Piramida. Já não se falava noutra coisa nos expositores vizinhos do dela na feira, garantia-me, e já tinham chegado também uns boatos aos ouvidos da família. O miúdo adorava-me e ficou encantado por eu aceitar o convite pois a ideia do passeio tinha partido dele. Fomos de táxi até à porta do teleférico, pago por ele, todo sorridente, do molho de notas que trazia na carteira. Apesar dos seus 12 anos, falava fluentemente inglês e mostrava uma maturidade acima da média. Andava sempre bem vestido e aquele dia não foi excepção. Fez-me a visita guiada ao parque no cimo da montanha e descreveu-me o melhor que pôde a capital Tirana da qual naquele ponto se tem uma perspectiva panorâmica de toda a sua extensão. Comemos gelados, tirámos fotos e voltámos à cidade.

 

Ah, gelados! Enquanto estive em Tirana ofereci vários gelados ao miúdo. Mas ele ofereceu-me mais! E passava o tempo a comprar gelados também para mim (a Jonida não gostava muito). Comi muitos gelados em Tirana não só porque sou um fanático e louco por gelados, mas sobretudo os gelados albaneses são os melhores do mundo e na altura eram ao preço da chuva. E se não fossem, enquanto eu andava a contar moedas o rapaz dava gorjetas a taxistas que para mim chegaria para comprar 3 refeições completas! Portanto também tinha guito para me comprar gelados! E sim, só se deslocava de táxi o miúdo, o que não era um problema, dado o maço de notas das grandes sempre no bolso. Aliás, problema seria não andar de táxi trazendo um miúdo franzino de 12 anos tanto dinheiro consigo! Muito bom miúdo, inteligente e altruísta, por várias vezes levou-me a descobrir a cidade e os seus habitantes, orgulhoso do seu papel de tradutor e guia do seu novo amigo português!

 

Quanto ao teleférico, era de fazer inveja às luxuosas instâncias de esqui suíças (que eu nunca visitei, hehe), novinho em folha, num pais daqueles tão, digamos, não-turístico ! E pobre! Dá para acreditar que foi obra de uma santa trindade do género das máfias portuguesas – políticos, empresários de construção civil e presidentes de clubes de futebol, excepto as equipas de futebol no caso albanês. É de facto um grandessíssimo elefante branco que, numa tão pequena economia como a da Albânia, representará quiçá um rombo nas contas do estado proporcionais ao que foi a Expo 98 para as contas públicas lusitanas. Mas bom, dá um jeitaço a quem, como eu, tem preguiça em se meter na empreitada de subir uma montanha a pé que nas melhores das hipóteses levaria dois dias a realizar. E depois, é um teleférico que proporciona vistas panorâmica sobre Tirana, o Mar Adriático e quase metade da Albânia que, como diriam os mais instruídos especialistas paisagísticos, são de cortar a respiração!

 

E o teleférico das Montanhas Daiti são apenas a ponta do icebergue do enorme caos económico que prolifera e do grotesco despesismo que espezinha a população albanesa ignorada e extremamente pobre (a maioria). Veja-se o exemplo do comportamento dos funcionários das Nações Unidas que se encontram supostamente na Albânia para combater a corrupção e ajudar a controlar as contas de um país no qual urge realizar-se a sempre adiada justiça social. Esses tais funcionários passeiam-se, quais fidalgos, em caríssimos jipes da ONU que se contam às dezenas, ignorando de todo a plebe e confundindo-a com calhaus soltos na estrada. Estacionam junto ao parlamento e aos ministérios, saem engravatados e serenos, vagueando entre reuniões políticas e festins, de nariz empinado, cuspindo altivamente para o chão como quem desdenha das crianças albanesas que fazem desse mesmo chão casa, cama e colchão, faça frio ou faça sol. Tanto luxo e tanta miséria, extremos que quase se tocam e que se desconhecem por completo. A classe política albanesa e os bandidos da ONU estão de facto bem uma para a outra, partilham os mesmos valores: corrupção e indiferença pela miséria humana, o que é incompreensível se se tiver em conta as razões oficiais da presença destes no país. Se os funcionários da ONU se comportam assim, não vale sequer a pena descrever a prepotência daqueles que supostamente deveriam fiscalizá-los. O leitor pode facilmente imaginar...

 

Falta a 4ª parte que será a última!

 

Luís Garcia, 20.01.2016, Lampang, Tailândia

 

 

 
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Tirana é um lugar… (2ª parte)

 

 

HOLLYWOODICES – EPISÓDIO 8

tirana

 

bw VIAGENS Luís Garcia

Eu tenho visto tanta coisa nesse meu caminho, Nessa nossa trilha que eu não ando sozinho, Tenho visto tanta coisa tanta cena, Mais impactante do que qualquer filme de cinema. (Tás a ver?, Gabriel O Pensador)

 

TIRANA É UM LUGAR… (Albânia, 2005) – Uns metros mais à frente, ainda numa perfeita linha recta mas mudado o nome da rua para Bulevar Dëshmoret e Kombit, encontra-se a praça central de táxis, seguida do parlamento e dos edifícios ministeriais. Todos eles recentemente remodelados, excepto os táxis e respectiva praça. Para lá dos edifícios ministeriais encontra-se o único jardim que encontrei merecedor do nome pois tinha, para meu espanto, árvores, flores e relva verde. No meio do jardim encontra-se um mini-shopping com bom aspecto e uns bares engraçados, mas não me encantou, por várias razões, Primeiro porque não gosto de shoppings. Depois porque os bares eram muito caros e mal-frequentados por indivíduos engravatadamente suspeitos (tipo funcionários da ONU). Continuando sempre em sentido oposto ao da estação e ainda em linha recta, chega-se à Piramida, local onde se passou metade da acção da estória ainda por contar, e por detrás deste edifício o único prédio moderno do país, daqueles muito altos e todos cobertos de vidros espelhados, à americana.

 

No fim do Bulevar, à esquerda existe um restaurante fast-food cujo logotipo são uns rabiscos amarelos que ao longe pareciam formar um M grande. Mas não, não é um restaurante dessa cadeia que estão a pensar. Essa cadeia, segundo me contou um rapaz que mais tarde me deu casa em Tirana, não têm licença para abrir na Albânia pois os seus “abusivos regulamentos de franchising vão contra a lei albanesa”. Pois é, afinal até a lei na Albânia tem o seu quê de interessante! E logo uma lei daquelas que impossibilita práticas comerciais como essa de só se vender sanduíches com carne de plástico produzida no país sede da cadeia de restaurantes. A ser verdade, surpreende pela positiva a legislação albanesa. Quanto à cadeia sósia daquela que vos levei inicialmente a pensar, chama-se Kolonat!

 

Para finalizar a visita guiada, falta só indicar que a seguir a esse restaurante, ainda de costas voltadas para a já distante gare, encontra-se a Universidade Politécnica de Tirana (com mais aspecto de universidade que a outra), e por detrás uma colina com algumas árvores. Do lado oposto da colina encontrei uma surpresa que aposto quase nenhum dos poucos visitantes estrangeiros dão conta. Trata-se de um lago, razoavelmente limpo, tranquilo, com uma bela vista para os montes no horizonte e com um interessantíssimo motivo de fotografia: ruínas em cimento de umas intrigantes estruturas à tona d’água espalhadas pelas margens do lago!

 

https://plus.google.com/photos/110526527280876576102/albums/5858120433674653969

 No meu primeiro dia em Tirana o desafio inicial foi encontrar um lugar razoavelmente barato onde me hospedar. Num país em que quase toda a gente é extremamente pobre e uma minoria privilegiada é muitíssimo rica, não faz sentido existirem hotéis para a classe média. Hotéis em conta ou pousadas da juventude para turistas? Tampouco! Afinal, ninguém faz turismo na Albânia! Diria mais, na minha humilde opinião, a Albânia e especificamente a sua capital, na sua vertente turística, tem de facto o pior de um estado africano falhado (e falido pelas dívidas eternas ao FMI) e o melhor de digamos... nenhures! Ah, têm os prédios multicoloridos de tendências surrealistas que eu adorei, mas ficam na “zona-negra” da cidade, e como o próprio nome indica, não é suposto serem visitados ou sequer vistos por olhos estrangeiros.

 

Depois de uma intensa busca acabei por encontrar um estabelecimento cuja definição mais apropriada seria a de um híbrido entre uma estalagem, um pousada da juventude e um hotel. Os quarto continuavam a ser caros como no resto dos estabelecimentos disponíveis, mas neste caso a despesa era partilhada pelo número de clientes no quarto. Um no mínimo, quatro no máximo. Quantos mais colegas de quarto desconhecidos melhor o preço e também maior a probabilidade de voltar no fim do dia ao quarto e não encontrar sequer a mochila! Não havia lugar de segurança para mochilas pois não se trava de uma pousada da juventude. Havia casa de banho privada em cada quarto mas não havia privacidade pois não era um quarto de hotel... A Albânia é uma caixinha de surpresas! Do mal o menos, o lugar de dormida estava situado, por incrível que pareça, a poucos metros dos edifícios ministeriais, pese embora escondido num beco um bocado manhoso. Seria de todas as formas uma solução temporária.

 

No primeiro dia na cidade confirmei o que tinha me apercebido em Fier, que não se via mulheres na rua, ou muito raramente, fazendo apenas específicos trajectos entre casa e escola ou entre mercearia e casa. Em oposição extrema, a maior parte dos homens (desempregados imagino) encontravam-se na rua, aos grupos de 20 ou 30, parados, tentando fazer câmbio de dinheiro ou vendendo telemóveis nas praças espalhadas pela cidade. As poucas mulheres presentes eram muito tímidas e reservadas e olhavam para o chão sempre que passavam por um homem. Os homens falavam imenso, gritavam imenso e tinham uma insaciável predilecção para atazanar a cabeça do único viajante que por ali andava, eu!

 

 No segundo dia na capital decidi-me por apanhar um autocarro até à cidade costeira de Durrës, para espairecer um pouco e quiçá tomar os banhos no Mar Adriático. Levei comigo inclusive uns calções de banho que não chegaram a servir o seu propósito pois não encontrei nenhuma praia suficientemente limpa onde se pudesse saltar para dentro de água. Em contrapartida deparei com uma interessante situação. Um jovem, na casa dos vinte, com semblante nostálgico e desesperado, de olhos no vazio virados para o mar, com o qual parecia conversar. A um dado momento o jovem, ainda que bem distante, apercebeu-se da minha indiscrição e olhou para mim, uns segundos, voltando depois à sua conversa agastada com o Adriático. Em vez de tomar o tão ansiado banho, fui descobrir a cidade, visitei as suas ruas principais, o porto e umas ruínas supostamente romanas. Quando voltei à marginal o rapaz continuava no mesmo lugar e a sua expressão mudara pouco, mas desta vez interrompeu o seu monólogo e veio ter comigo. Numa inesperada mistura de inglês e italiano (num país onde só se fala albanês) fez-me um breve resumo da sua vida, a relação entre a sua história individual e o facto de ali estar tão compenetrado a olhar o mar. Ele percebera perfeitamente que eu tinha curiosidade em ouvir a razão daquele seu comportamento. Fiquei a saber que era o filho mais novo de uma senhora víuva que tinha partido para Itália há alguns anos atrás onde vivia e trabalhava com o seu outro filho. O meu interlocutor, de seu nome Aleksandër, não tivera a sorte de obter um visto e continuava “preso” na Albânia. Como não “havia rigorosamente mais nada para fazer” e como se considerava “um pouco mais inteligente que a média albanesa”, confessou que, com remorsos do seu ganha-pão, era um pequeno traficante de drogas no “bairro-negro” de Tirana. E, como se não houvesse nada mais ilógico para seguir o seu inesperado discurso, ofereceu-se para me dar casa enquanto eu continuasse na capital. Recusei no momento, mas aceitei por outro lado a sua companhia para voltar de comboio até Tirana.

 

O regresso de comboio com Aleksandër foi um verdadeiro filme, as carruagens pareciam ter acabado de sair da segunda guerra mundial (mesmo), era noite escura e o comboio de vidros partidos e portas abertas seguia sem luz alguma. A velocidade máxima não passava dos 20km/h, bastando, para comprovar, olhar os putos do lado de fora que nas suas bicicletas BMX ultrapassavam-nos que nem ferraris dobrando fiats estacionados. Estavam portanto reunidas todas as condições, inclusive o país em si, para se ser assaltado em andamento e não chegar sequer a ver a cara dos bandidos. Felizmente era tranquilizado pelo meu companheiro que dizia não “ter medo da situação dada a sua área de negócio que reduzia imenso a probabilidade de alguém se meter com ele” e por ser “gajo de não ter problemas em se defender quando é preciso”. Não me convenceu a lógica do seu argumento, mas enfim. Sorte ou não, chegámos ilesos a Tirana. Durante a curta viajem, tivemos tempo, imenso tempo para continuar a conversa sobre a sua vida e a sua forma de sobreviver. Já na estação terminal, como um tiro dado no escuro (ou não), certo é que acreditei na sua sinceridade após uma longa conversa e aceitei a sua hospitalidade. Ainda bem que o fiz, pois mais tarde acabou por se provar genuína e, sem a convivência com Aleksandër apenas teria conhecido metade da realidade albanesa. Para me auto-desculpar do possível erro gravíssimo que estaria a cometer ao aceitar ficar a dormir na casa (que era do tio) de Aleksandër, um traficante de droga, elaborei para mim mesmo uma paupérrima desculpa envolvendo lógica. Seria por certo mais seguro ser hospedado por alguém que honestamente admitia o que fazia e o considerava errado, do que continuar a partilhar um quarto de hotel com albaneses que segundo os conhecimentos até então adquiridos sobre a sociedade masculina albanesa tinham muito boas hipóteses de ser ou traficantes de droga ou consumidores de drogas. E apostaria mais na primeira hipótese pois não imagino os segundos desperdiçando dinheiro em hotéis. Ou políticos, ou aspirantes a políticos, pior ainda! Traficantes por traficantes, corruptos ou não, antes um nostálgico sonhador,  com o dom de falar em voz alta com o mar...

 

Luís Garcia, 15.01.2016, Lampang, Tailândia

 

 

 
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Gente deprimida

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE 

Estou farto de ouvir e ler tretas sobre "gente deprimida". Sabem quem é que tem o direito de se sentir deprimido, porque tem razão para tal?  Quem é pobre, quem é escravizado no trabalho, quem perdeu entes queridos, quem tem entes queridos com doenças graves, quem está preso (independemente de ter cometido algum crime ou não), quem está ou esteve na guerra, quem vive na rua, quem passa fome, quem passa sede, quem tem uma doença grave.

 

E o que é mais curioso é que muita gente que se encontra em situações assim não deprime. Ou, se deprime, a depressão acaba por lhes passar.  Sabem porquê? Porque têm problemas reais, e não problemas inventados, e têm de os tratar para continuar a viver ou para ajudar outras pessoas a continuar a viver. Não têm tempo para alapar a puta da peida no sofá e ficar a congeminar merdas com as quais encher a cabeça e depois, ainda por cima, tentar contaminar outras pessoas com isso. Não têm tempo para se preocupar com merdas. Não têm tempo para serem uns materialistas consumistas de merda. Não têm tempo para andar a consumir arte melancólico-depressiva e achar que o mundo todo é uma merda e sempre será, e que nem vale a pena fazer nada em relação a isso, muito melhor é ficar do púlpito a mandar bitaites com base na sensitivo-psiquiatrice. Não têm tempo para andar a inventar merda.

 

Quem tem tempo para andar a inventar merda, e depois de ter enchido a cabeça com isso acha que já não consegue libertar-se, tem bom remédio, que é a melhor solução para si próprio e para os outros. Enfia a porra de um balázio nos cornos, e já nem tem de se andar a arrastar nesta existência que para si próprio é infernal nem obrigar outras pessoas (porque infelizmente, há sempre outros com os quais tem contacto) a aturar tretas e a terem contacto com coisas que também têm o potencial de as contaminar.

 

Ricardo Lopes

 

 

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Tirana é um lugar… (1ª parte)

 

 

HOLLYWOODICES – EPISÓDIO 7

tirana

 

bw VIAGENS Luís Garcia

Eu tenho visto tanta coisa nesse meu caminho, Nessa nossa trilha que eu não ando sozinho, Tenho visto tanta coisa tanta cena, Mais impactante do que qualquer filme de cinema. (Tás a ver?, Gabriel O Pensador)

 

TIRANA É UM LUGAR… (Albânia, 2005) – A aventura pela Shqipëria, que em português é mais conhecida pelo nome de Albânia, começou na cidade portuária de Vlorë. Como os voos que aterram em Tirana são escassos e invariavelmente muito acima do poder de compra de um vulgo mortal, optei por aterrar em Brindisi com uma companhia de aviação low-cost (15 euros de Londres à cidade italiana), e daí segui num ferry-boat até a referida Vlorë, no sul da Albânia. Durante a travessia, que levou uma noite inteira, passei o tempo à conversa com um senhora de meia-idade albanesa emigrante em Itália. Vivia há muitos anos em Itália, falava fluentemente italiano e considerava-se até um pouco italiana, embora as saudades dos familiares, que não tiveram a sorte de obter (legal ou ilegalmente) documentos para fugir do estado falhado que é a sua terra natal, a levavam a visitar a Albânia de tempos a tempos. Se por um lado se mostrava incantadíssima com o milagre de encontrar um estrangeiro interessado em explorar o seu país desconhecido (eu), por outro, o seu tema principal daquelas 10 horas de viagem foi o de convencer-me a apanhar o primeiro ferry-boat disponível e regressar a Itália! Daí que, não se espantem muito com os relatos seguintes. Se até um albanês fala assim da Albânia, que mais poderá se esperar de um não-albanês! Não me tendo convencido a tomar tão drástica decisão insistiu, no entanto, e com sucesso, que eu não gastasse na cidade de Vlorë mais que o tempo necessário para encontrar o primeiro autocarro de partida para longe dali. Se a Albânia das suas palavras suavam a bombardeamentos americanos no Vietname, e se Vlorë seria aí umas 10 vezes pior, o que há de bonsenso em mim aconselhou-me ao ouvido para correr dali antes mesmo de chegar.

 

Assim o fiz, com a preciosa ajuda do seu marido que a esperava no cais, um senhor de bigode e barrigudo com cara de português, que tomou conta das operações assim que me apertou a mão. Correu a pontapé com o bando de carregadores de malas que tentavam arrancar à força a mochila das minhas costas, para a carregar, claro está, e depois assaltarem legitimamente a minha carteira. Resolvido o percalço levou-me junto de outro bando, o mais popular naquelas terras: cambistas de rua. Eu fiz as contar e ele tratou de regatear o melhor câmbio de euros para leks. Devolveu-me o dinheiro e foi comigo até a uma área que, pela quantidade de transportes públicos privados, deveria ser a central de camionagem. Aí encontrou um autocarro com apenas um lugar por ocupar e, portanto, prestes a partir, bastando para tal que eu pagasse e me sentasse no lugar vazio. Encontro intenso, frenético mesmo, mas uma inesquecível memória da ajuda que tive de um albanês de bigode, sorridente, e com cara de português…

 

 O primeiro destino planeado era Fier, no centro país, ou seja, mesmo ali ao lado. Tinha inclusive pedido a um couchsurfer inglês para me hospedar 2 ou 3 noites naquela cidade. Como mudara os planos em relação a Vlorë (cheguei um dia antes do combinado), decidi telefonar ao couchsurfer e perguntar se poderia me receber um dia antes, caso contrário teria de procurar um hotel para aquele dia. Como podem imaginar, comunicar com albaneses na ausência de uma língua em comum (eles só falam albanês e eu não) é praticamente impossível. E não era de todo fácil encontrar um lugar onde telefonar! Mesmo recorrendo à tradicional linguagem gestual, de tão frustrado pelas inúmeras tentativas falhadas, momentaneamente abandonei a empreitada e fui passear, tirar umas fotos. Imaginem, vezes sem conta tentem o gesto de fechar os 3 dedos do meio da minha mão esquerda, deixando o polegar e o mindinho esticados, e encostando a mão ao ouvido como quem fala ao telemóvel, enquanto que a minha mão direita apontava para números de telefone escritos no meu diário. Reacção: todos me queriam vender telemóveis! Cheguei a mostrar um conjunto de moedas com um gesto de quem tenciona os entregar, enquanto apontava para os telemóveis pessoais dos vendedores e curiosos que me cercavam, mas nada, ninguém compreendia o meu desespero. Procurei um hotel onde ficar pelo menos aquela noite e só mais tarde fui tentar resolver o problema do telefonema sozinho. Acabei por encontrar um ciber-café que tinha computadores e telefones mas que no entanto não tinha electricidade! Por capricho de um qualquer deus (ou não), a electricidade não chegava naquele dia ao quarteirão onde se encontrava o único ciber-café da cidade. Duas horas depois restabelecia-se a ordem precária e eu tive finalmente direito ao telefonema que não me serviu de nada pois o couchsurfer secamente informou-me que, leiam bem, tinha “mudado de ideias” e ia fazer não sei o quê com uns amigos, despachando-me indelicadamente e desligando abruptamente o telefone.

 

De volta ao hotel, informei a recepcionista que pretendia ficar mais uma noite na cidade. Não vos conto as condições do hotel, não vale a pena perder tempo agora. Para tal vão ter que ler uma estória ainda por vir sobre os hotéis birmaneses, é ela por ela, até nos preços exorbitantes. A diferença significativa é a margem de manobra para regatear o preço das dormidas. Se na Birmânia, ao fim de 1 hora de negociação, se passa de 20 euros para 20 euros, em Fier depois de menos de 2 minutos foi possível passar de 50 para 12 euros e negócio fechado! E acreditem que não valia um décimo dos 12 euros que paguei! Com isto fica explicado tudo o que se passou de interessante em Fier, da qual um dia e meio depois parti com destino a Tirana.

 

 Tirana é um lugar, digamos, um pouco badalhoco, mas vale a pena a visita pelo seu burlesco exotismo. Pelo menos era-o em 2004 aquando da minha única vista e, como prefiro acreditar que a realidade albanesa não terá mudado substancialmente (dá mais piada à história), optei por descrever a cidade no presente. Para começar, quando se põe os pés fora de um autocarro na gare ferroviária e rodoviária principal do país, é-se capaz de lá ficar atolado, não por areias movediças, mas sim por dois palmos (dos meus que tenho as mãos grandes) de uma mixórdia não-movediça que cheira a não-rosas e é composta, na sua essência, por frutas e legumes podres do mercado (que ali tem lugar diariamente), lama em quantidades colossais e… cocó de animais domésticos pouco domesticados cujos donos serão seguramente não-domesticáveis! É daquelas aventuras que toda a gente deveria experimentar uma (só) vez, excepto para os animais (e também para os donos), pois parecem ter desenvolvido capacidades especiais que lhes permite arriscar ali a vida numa rotina diária.

 

Se se sobreviver à mixórdia movediça, pode-se encontrar logo em frente o Bulevar Zogu I, que atravessa toda a capital. Não muito longe da gare fica uma zona de agências bancárias novinhas em folha, reluzentes e impecavelmente inteiras, as quais ofuscam o olhar menos atento de um visitante (como eu) para o facto de ali se encontrar uma das poucas universidades do país. Só depois de muitas passagens e com a preciosa ajuda de uma amiga albanesa que conheci mais tarde, é que descobri o tal centro do conhecimento albanês. Fiquei contente por descobrir que há universidades na Albânia, mas muito triste com o triste estado dos edíficios universitários. Com tantos milhões para agências bancárias e jipes da ONU (falarei mais tarde destes) não há umas moedinhas para remendar as paredes em tijolo-vivo, comprar uns vidros inteiros para substituir os quebrados, comprar, sei lá, uma extravagância do género: quadros pretos para as salas aulas, ou no mínimo, uma latinha de tinta para pintar “Universidade qualquer coisa” junto ao portão de entrada. É difícil descrever o estado deplorável em que se encontra a instituição. Para quem conhece, a melhor comparação seria o Bairro Santa Tecla em Braga antes de ter sido remodelado pela câmara. Para quem não conhece, compare com as infraestruturas civis de Belgrado depois dos bombardeamentos da NATO. Seguindo sempre o mesmo Bulevar até ao centro encontra-se uma zona que merece de facto o nome de centro mas que mereceria igualmente umas obras de recuperação e restauração caso o pouco dinheiro disponível fosse investido ajuizadamente. Gostei do edifício do Museu Nacional, mas fiquei desapontado por encontrar os ladrilhos do mural espalhados no chão. Gostei da imponência da estátua de Skanderbeg mas podiam dar-lhe uma limpeza. São sofríveis as fontes e repuxos da praça central, mas garanto que seriam bem mais interessantes se não tivessem as canalizações rotas e enferrujadas, se as paredes não estivessem em cacos e, acima de tudo, se tivessem água! Para dar uma ideia do estado económico dos albaneses menos afortunados e mais ainda da indiferença reinante, nesse mesmo centro do centro, a única paragem de autocarros existente já não o é dado ter sido ocupada por um grupo de sem-abrigo que faziam daquele cubículo aberto sua casa permanente.

 

Em contrapartida, no lado oposto a essa estação, consegui comprar dois livros de Ismail Kadaré (o mais conceituado escritor albanês) traduzidos para português do Brasil! Vale a pena ler um deles, Os Tambores da Chuva, romance histórico que, embora de tom um pouco nacionalista e auto-vitimizante, é uma porta de entrada para um passado fascinante e praticamente desconhecido de nós portugueses: o tempo do Império Otomano, da sua colónia albanesa e dos seus imcomparáveis super-canhões!

 

Luís Garcia, 10.01.2016, Lampang, Tailândia

 

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A patranha do Subsídio Básico Universal

 

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE ECONOMIA

 

 

Tomei contacto com a ideia da criação de um Subsídio Básico Universal em setembro passado, através de um texto do editor da revista TVP Magazine, do Venus Project (ler mais aqui) que apontava para as vantagens da sua implementação, do ponto de vista da facilitação da abertura das pessoas, pela sua libertação de determinadas obrigações incutidas pelo sistema monetário, assim como do stress causado pela necessidade de fazer dinheiro para poder sobreviver neste mesmo sistema. Se abrirem este mesmo artigo agora, encontrarão, logo ao início, uma ressalva do próprio autor indicando que, embora mantenha disponível o artigo no seu site pessoa sem alterações, já não concorda com as ideias que deixou expressas em abril passado, aquando da produção do mesmo. Aconselho a leitura do artigo, até porque mesmo que eu vá desconstruir neste artigo a patranha que esta proposta é, ainda assim é uma boa oportunidade para terem contacto com algumas das ideias do Venus Project através de um tema que possa interessar a alguns e que tem algo em comum com a cultura de base da maior parte das pessoas que são criadas com os valores do sistema monetário, facilitando a identificação.

 

Ora, embora o Subsídio Básico Universal (SBU) seja uma proposta, ao nível da União Europeia, que data de 2013 e que foi criada por cidadãos independentes (ler mais aqui), já foi testado em algumas localidades dos EUA desde os anos 60, tendo sido até defendido por Martin Luther King (ler mais aqui), provavelmente um dos principais teóricos e impulsionadores do movimento pela sua implementação. Não me irei alargar acerca da história do SBU, uma vez que não é importante para cumprir o objetivo deste texto. Podem consultar os resultados de diversas experiências de distribuição de quantias monetárias previamente estabelecidas por pequenos grupos de pessoas, sem quaisquer condições impostas no que diz respeito à retribuição ou à sua utilização, na Índia , na Namíbia, no Líbano, assim como diversos artigos em que é feita a apologia do SBU e são apresentadas as suas vantagens "Universal basic income as the social vaccine of the 21st century", "welfare-reform-direct-cash-poor", "a-universal-basic-income-is-the-bipartisan-solution-to-poverty", "why-milton-friedman-supported-a-guaranteed-incom", "10-reasons-for-guaranteed-income", "adoption-of-basic-income-in-europe", "is-this-the-radical-road-to-prosperity". Mais uma vez, relembro, que todas as vantagens apresentadas, o são como tal do ponto de vista do sistema monetário que rege as atividades humanas na atualidade. Não concordo com elas, e vou passar brevemente a explicar, mas não pretendo obscurecer informação, faço apenas essa ressalva, porque convém que as leituras sejam feitas de uma forma o mais descentrada culturalmente possível.

 

Vou apresentar, então, as razões pelas quais o SBU não combate, de todo, os problemas basais do sistema monetário:

 

1 – A proposta do SBU inclui a eliminação de todos os outros subsídios auferidos por um indivíduo, dependendo da sua condição, do sistema de leis e da burocracia de cada país, assim como os benefícios associados à sua condição. Pensemos. O SBU é defendido por vários economistas de direita, porque, segundo os cálculos apresentados, implica menores gastos, reduzindo no global o valor dos subsídios auferidos pelos cidadãos. Ou seja, enquanto que, em determinadas situações, um cidadão poderia auferir de vários subsídios, para cobrir os gastos relacionados com necessidades básicas, acesso a serviços, criação e educação dos filhos, etc., neste caso todos os subsídios seriam eliminados – algo que é apresentado como argumento a favor, também pelo facto de facilitar o sistema burocrático – para dar lugar a um subsídio único, que seria entregue a cada cidadão de uma forma incondicional, como disse sem necessidade de qualquer retribuição, independentemente de o cidadão trabalhar ou não, independentemente de ter outras fontes de rendimento, derivadas do trabalho ou não, e independentemente da sua posição na hierarquia social. Aqui começa-se a desmontar a patranha. Em primeiro lugar, como poderia ser calculado de forma justa e objetiva um valor que permitisse que qualquer cidadão, independentemente das suas circunstâncias materiais, satisfazer as suas necessidades básicas – acesso a comida, a água potável, a cuidados de higiene, a habitação – e ter acesso a serviços – educação, saúde, serviços de telecomunicação, serviços de transporte, cultura? De todas as propostas que encontrei, nenhuma prevê, sequer a longo prazo, ultrapassar a fasquia dos 1200€ mensais. Expliquem-me como é possível para, por exemplo, um sem-abrigo com a nacionalidade de um país no qual a SBU seja adotado – e este é outro ponto importante que irei discutir -, seja em que país desenvolvido for – e a questão dos países em vias de desenvolvimento também será discutida – conseguir pagar a renda de uma casa, por mais simples que seja, as contas da água, da eletricidade, do gás, comprar comida e ainda estar seguro que terá dinheiro para cobrir os gastos com a saúde se acontecer padecer de, ou desenvolver no entretanto, uma doença mais ou menos grave que implica grandes gastos com consultas, hospitalizações, tratamentos e medicamentos? Temos de considerar todos estes aspetos porque, não esqueçamos, todos os outros subsídios e benefícios sociais desapareceriam. Também há outra questão que não esclarecem. Então, e  partir de que idade é que os cidadãos aufeririam do SBU? Podem sempre argumentar que isso não é importante, uma vez que a universalidade da proposta implica que todos os cidadãos, independentemente da idade, aufeririam do subsídio. Consideremos, então, que tal é verdade – ainda que deixando a ressalva de que não há clareza no que se refere a esta questão. Ora, perante o corte de todos os outros benefícios, como poderiam entregar um mesmo valor monetário a uma criança que já não teria mais acesso a educação gratuita – como existe em alguns países -, não teria mais acesso a saúde gratuita – como também existe -, não teria mais acesso a transporte gratuito para a escola – como também existe -, teria de pagar os cuidados médicos, se fosse o caso, e todos bem sabemos como as crianças adoecem com facilidade, que entregariam a um sem-abrigo nas condições que apresentei, a uma pessoa idosa que padeça de uma ou várias doenças crónicas e/ou agudas cujo simples tratamento em ambulatório pode ascender às várias centenas de euros por mês? E isto são só alguns exemplos. Se se pensar noutros casos, a situação torna-se ainda mais absurda. Enfim, do primeiro ponto fixem que todos os outros subsídios e benefícios sociais seriam anulados.

 

2 – É exclusivo para os grupos alvo, querendo dizer que mesmo em países nos quais o SBU vai ser experimentado, como sejam a Finlândia (finland-plans-to-give-every-citizen-a-basic-income-of-800-euros-a-month) ou a Holanda (several-dutch-cities-want-to-give-residents-a-no-strings-attached-basic-income), não há a garantia de que seja igualmente distribuído por todos os cidadãos. As experiências vão ser feitas com isso em vista e, no caso de não terem os resultados desejados – e isso pode ser qualquer “problema” que inventem, mas a isso já vamos com maior detalhe – o SBU será rejeitado como solução económica e burocrática para o Estado. Não que eu considere que tal tenha uma elevada probabilidade de acontecer, já que a aplicação do SBU traz várias vantagens para a economia monetária, como já comecei a destrinçar no último ponto, e continuarei nos próximos.

 

3 – Como terceiro ponto, apresento aquele que é, talvez, dos mais interessantes. Existem várias propostas de criação de um SBU (como o caso desta: "givedirectly-cash-transfers", por parte de empresas privadas e, pasmemo-nos, principalmente visando comunidades em países em vias de desenvolvimento. Ora, como qualquer bom economista do sistema monetário poderá calcular, ainda que o valor do SBU não seja elevado, representa uma grande despesa para o Estado, uma que muitos países não podem suportar. Então, há empresas “caridosas” que propõem criar o mesmo tipo de subsídios, através de dinheiro que elas próprias obtêm (hummm…) e distribuem sob a forma de subsídio sem qualquer tipo de vínculo, ou seja mais uma vez de forma incondicional, por uma determinada população. Agora, associem este ponto ao primeiro. Ora, temos empresas privadas a promover o SBU. Temos a supressão de todos os outros subsídios e benefícios providenciados pelo Estado. E temos as empresas privadas a promoverem isto porque, argumentam, estimula o empreendedorismo dos cidadãos. Já chegaram lá? Eu acho que sim. Pois, neste sistema para a economia funcionar, é necessário que haja um fluxo monetário constante entre as várias instâncias, nomeadamente Estado, cidadãos-trabalhadores-consumidores e empresas-providenciadores de produtos e serviços. Se este fluxo for interrompido em alguns dos pontos, a economia colapsa. Ou não? E se eliminarmos o Estado da equação? E se o Estado não existir mais do que na sua vertente legislativa e executiva? Ou, não existir de todo? Afinal de contas, a economia só precisa que existam produtos e pessoas para os consumir, de forma contínua. O Estado só é considerado na tríade económica, porque existe como entidade e é um dos pontos através dos quais o dinheiro flui. Se o fluxo monetário se fizer exclusivamente entre duas instâncias (cidadão-trabalhador-consumidor e empresas-providenciadores de produtos e serviços), para que é preciso o Estado? Aliás, mesmo que isto soe a uma ideia orwelliana, apenas a verificar-se num futuro longínquo, sejamos sérios, que papel é que o Estado tem hoje em dia na vida das pessoas? Criar leis e fazê-las cumprir? Até mesmo esse, será que sim? Veja-se o caso de todos os países nos quais o FMI interveio. Veja-se o recente caso da Grécia. Acham mesmo que é o sistema legal que vai salvaguardar os interesses da maioria da população? Não. As leis, os tratados, os acordos, os pactos, as cartas violam-se a bel-prazer se isso servir os interesses das elites económicas. Neste sistema, nada funciona sem dinheiro. E o dinheiro é controlado por quem o detém e por quem o investe. Só uma economia baseada em recursos, e não em dinheiro, pode contrariar este cenário. Nada mais, por mais bem-intencionado que seja. No limite, não há produto nem serviço que não possa ser privatizado. Aliás, exemplos disso há pelo mundo fora. Pode-se privatizar a educação, a saúde, a justiça e, com o SBU, pode-se privatizar também a “segurança social”. Com o papel do Estado reduzido, e eventualmente eliminado progressivamente, que instituição restará para salvaguardar os interesses do dito “povo”? Aliás, se a situação já é como é, e com a pressão, aliada ao secretismo, relacionada com a assinatura de tratados como o TTIP ou o TPP, que papel sobrará para o Estado? Mas, eu até diria que, seja como for, já não sobre nenhum. A política é obsoleta, tanto neste sistema viciado, no qual nada pode fazer para além de remendos bastante circunscritos no tempo e no espaço, e na qual mesmo o surgimento de pessoas bem-intencionadas de nada serve, porque não estão equipadas com os conhecimentos necessários para resolver os problemas que afligem a humanidade, se até mesmo quando tentam jogar de acordo com as regras do sistema monetário são prontamente esmagados por quem tem verdadeiramente poder, e esse está nas mãos, repito, dos que detém o dinheiro e o podem investir.

 

Revoluções? Revoltas? Por que terão de existir, então? Por que terão de existir se a aniquilação final do Estado for acompanhada da aplicação de um SBU, que confere aos cidadãos a “liberdade” de poderem empreender como nunca, de terem garantia uma “almofada” para consumirem e manterem a economia a funcionar de acordo com os parâmetros definidos de aquisição exponencial de lucros, com completo desprezo pela sustentabilidade ambiental e dos recursos naturais?

 

4 – Neste ponto, recuemos um pouco, embora me vá repetir parcialmente. Com a quantidade de burocracia relativa à obtenção da nacionalidade que existe em todos os países, com os diferentes tipos de sistemas políticos ao redor do mundo, como poderia o SBU, considerando que não seria do interesse dos líderes (políticos e/ou económicos) de alguns países adotá-lo, ser implementado a nível mundial? Como se poderiam ultrapassar essas barreiras labirínticas? Assim sendo, as desigualdades certamente manter-se-iam.

 

5 – Os valores criados pelo sistema monetário, ainda que com mais força pela sua vertente capitalista, manter-se-iam e, provavelmente, seriam reforçados. Haveria mais margem para criar competição entre as empresas privadas, com uma maior procura, com um mercado mais amplo para explorar, composto por um maior número de pessoas, com todos os graves prejuízos e desperdícios que isso implica. Com mais gente a poder educar-se através do sistema educativo institucional – público ou privado, não interessa -, mais gente fica é educada para os valores de consumismo, acumulação de dinheiro e bens materiais, ostentação de bens materiais, necessidade de atenção, para além de não ser ensinado a empregar o método científico de aquisição de conhecimento, tornando-se em meros debitadores de informação que é fornecida de forma manipulada, principalmente nos domínios das ciências sociais, para servir os interesses do status quo, mas também em todos os outros domínios, para servir os interesses económicos – escrever sobre isto implicaria um sem-número de artigos, tal a quantidade de coisas que envolve. A juntar a isso, ainda o mais fácil e maior acesso a meios de comunicação social também eles manipulados. Se pensarmos também que quanto mais marginalizado do sistema alguém é, mais facilmente tem contacto e aceita ideias diferentes, uma vez que não foi tão fortemente doutrinado para o aceitar cegamente, então imaginem como não se tornaria ainda mais fácil suprimir movimentos dissidentes, quando virtualmente toda a gente estaria bem integrada no sistema e a viver “bem”.

 

6 – Em seguimento do ponto anterior, as consequências da manutenção de um modelo económico insustentável agravar-se-iam. Enquanto que neste momento existe uma minoria seleta da população mundial que contribui significativamente para o consumo de recursos e para a destruição do meio ambiente de todas as formas possíveis, e uma esmagadora maioria que passa por grandes privações e mal consome e mal polui, imaginem como seria se virtualmente toda a gente tivesse um estilo de vida mais aproximado a um cidadão médio de um país desenvolvido. Aí sim, a população mundial humana seria excessiva. Mais uma vez, pelos comportamentos instigados pelos valores transmitidos culturalmente, e não por escassez de recursos.

 

Quando comecei este artigo, pensei em fazer uma conclusão mais alargada, incluindo vários dos aspetos que fui referindo ao longo dos pontos, mas, sendo que já os referi, e provavelmente o texto organizado desta maneira é mais compreensível, vou terminar fornecendo apenas mais uma informação importante, e que remete para o primeiro ponto. Os dados e indicadores do “combate à pobreza” são manipulados, como poderão ler neste artigo da AlJazeera, que explica detalhadamente como tal é feito: "exposing great poverty reduction". Portanto, isto vem em acrescento ao que tinha dito quando me referi ao facto de ser impossível calcular de uma forma justa e objetiva um valor de SBU.

 

Espero que o presente artigo seja útil para compreender a proposta do SBU e que a bibliografia associada seja a suficiente para complementar o texto.

 

Ricardo Lopes

 

 

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Um dia de extremos - 2ª parte

 

 HOLLYWOODICES - EPISÓDIO 6

 

bw VIAGENS Luís Garcia

Eu tenho visto tanta coisa nesse meu caminho, Nessa nossa trilha que eu não ando sozinho, Tenho visto tanta coisa tanta cena, Mais impactante do que qualquer filme de cinema. (Tás a ver?, Gabriel O Pensador)

 

UM DIA DE EXTREMOS - 2ª parte (Mónaco, 2007) – Depois do por-do-sol fomos de novo passear. Dessa vez entrámos num elevador escondido dentro da base do rochedo que ocupa a maior parte do principado e saímos bem mais acima numa avenida luxuosa com vista panorâmica para a costa monegasca. Não possuindo poder de compra para entrar em nenhum dos pomposos estabelecimentos instalados naquela rua, entretemo-nos a analisar pormenores e produzir irónicas conclusões. Uma delas, a título de exemplo, foi a correlação entre luxuosos restaurantes com nomes do género La Maison du Caviar e quantidade de desfibriladores gratuitos instalados nas vias públicas. É um brinquedo caro, mas não reste dúvidas que é bem preciso por aquelas bandas. Concordo que até pode parecer um exagero que o Mónaco disponha de mais aparelhos desses nas ruas do que Portugal tem de hospitais abertos mas, quando se tem tamanha concentração de gente de meia-idade que passa a vida entre mariscadas regadas de champanhe e hora ao sol deitados em iates, fazer o quê? Além disso, dinheiro para os instalar é que não deve faltar! Outra diversão engraçadamente estúpida que descobrimos para passar o tempo foi classificar diversos tipos de produtos expostos nas vitrinas em percentagem relativa do nosso orçamento de viagem (350 euros, 1 mês). Um bolo de aniversário para a criançada 15%. Um par de sapatos de senhora 130% do nosso orçamento. Um smoking 1200%! “Esquece!”, dizia eu para o Diogo e ele para mim. Seguimos sem pressas a rua principal na direcção do famoso Casino do Mónaco. Não, não entrámos, como é óbvio. Ficámos do lado de fora assistindo atónitos ao grotesco espectáculo proporcionado pela multidão de turistas que, de forma quase ordeira, esperava nas filas espontaneamente criadas até que chegasse a vez de cada um deles desfrutar do privilégio de tirar uma fotografia junto a um dos bólides estacionados no parque do casino pertencentes aos milionários apostadores.

 

Já quase noite descemos de regresso à marginal, junto à marina, e uma vez mais para ver bólides passar na estrada! Frustante monotonia monegasca não fosse um dos milionários se lembrar de nos pregar uma espécie de partida. Conduzindo aborrecido o seu Ferrari Enzo (segundo me indicou o Diogo, visto que de carros percebo menos que nada), o rapaz pouco mais velho que nós estacionou mesmo à nossa frente, abriu a porta do passageiro e interpelou-nos. Queria saber se algum de nós gostaria de desfrutar do prazer de dar uma volta ao circuito citadino num dos carros mais caros e mais potentes do mundo. Como eu não ligo nenhuma a carros disse de imediato ao Diogo que podia ir ele. Num segundo momento começámos os dois a dialogar sobre a estranheza do convite e se, parados ali à beira da estrada, feitos parvos, talvez se desse o caso (absurdíssimo) de o dono do Ferrari nos tomar, sei lá, por gente que vendia o corpo, literalmente! Enquanto hesitávamos se seria seguro ou não aceitar o convite, um quarto homem que caminhava no passeio apercebeu-se da situação e sem hesitar entrou no Ferrari. Estupefactos com toda aquela insólita história decidimos esperar e assistir ao seu desenlace. Poucos minutos depois víamos o carro voltar ao ponto de partida. O “sortudo” passageiro sorria como se estivesse nas nuvens. O Diogo, perante a constatação que a proposta era genuína e inocente, ficou chateado por ter perdido a oportunidade única de sentir o poder dum Ferrari Enzo... por dentro!

 

Continuávamos nós a nossa caminhada pela marginal, vagarosos e pensativos quando, de súbito, um senhor parou à nossa frente e meio ofegante começou a contar o seu problema numa fraca mistura de italiano com francês. Teria por certo mais de sessenta anos e o perfil físico típico de utilizadores de desfibriladores, se é que me faço entender. Com muito custo e só à terceira ou quarta tentativa conseguimos decifrar o seu discurso que aparentava ser absurdo. Mas não, o senhor estava era muito nervoso e quase à beira de um ataque cardíaco provocado pela birra do seu filho adolescente. Para seu desgosto, embora a sua fortuna milonária podesse segundo ele adquirir todos os bens que o seu filho desejasse, o rapaz passava a vida amuado com o pai ou embriagado! Ou as duas coisas ao mesmo tempo, como era o caso naquela noite. O pedido do milionário a um par de viajantes com uma fortuna acumulada nos bolsos de cerca de 100 euros era simples: tirar uma foto do seu filho junto nós os dois, “para ver se o raio do rapaz” se animava com a engraçada recordação de tirar uma fotografia ao lado de “gente assim”. “Gente assim” foi dito com um tom pouco diplomático, quase como se tivesse feito o pedido a dois animais falantes num zoo. Apercebendo-se do lapso, pois creio que não tinha sido intencional, o pobre senhor desfez-se em desculpas. Menos pelas desculpas e mais pelo aspecto do iate, com piscina iluminada e uma mesa com o jantar servido, aquiescemos (vendidos!) perante os seus constantes pedidos e fomo-nos colocar um de cada lado do jovem mimado. O rapaz, arrogante e estúpido só não nos espetou um pontapé porque não tinha forças sequer para isso, mas repeliu-nos com uns runhidos de imbecil. Nada feito, o senhor desolado deu-nos as boas noites e recomeçou a discussão com o filho bêbado, cambaleando em sincronia com os passos incertos do filho demasiado perto da berma do cais. Virámos as costas e seguimos na direcção que levávamos antes do incidente, praguejando más sortes e maus destinos àquele mimado que nos tinha feito perder um rico jantar, o qual nos tinha feito lembrar a fome que tínhamos!

 

De mal com a humanidade e armados em filósofos fomo-nos sentar à beira mar. Atrás de nós estava uma roulote de cachorros quentes e sandes. Ainda demos uma olhada mas os preços fizeram-nos mudar ideias. Teríamos de esperar até ao dia seguinte de manhã para comer em Itália. Voltámos a sentar-nos à beira mar, entretidos a admirar a festa ao estilo Fashion TV que estava a ter lugar num enorme iate mesmo à nossa frente, criticando os capitalistas esbanjadores, as beldades vendidas e... desejando encontrarmo-nos no seu lugar.

 

Para quem perdeu a primeira parte: Um dia de extremos - 1ª parte

 

Luís Garcia, 06.01.2016, Lampang, Tailândia

 

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Acabar com as patologias

 

RICARDO MINI copy  SOCIEDADE 

 

Há que acabar com o tratamento patologizante das pessoas que têm comportamentos que são prejudiciais para outros.

 

Ninguém nasce "criminoso", ninguém nasce "mau", ninguém nasce "niilista", ninguém nasce "psicopata" ou qualquer outra das designações subjetivas da gíria da psicologia que lhe queiram atribuir. As pessoas tornam-se em alguém que tem um determinado tipo de comportamento em consequência das associações que estabelece a nível cerebral entre as diferentes informações que recebe como influências do seu meio, sejam elas quais forem.

 

Não vale a pena vir com discursos intelectualmente comodistas, dizendo que há determinadas pessoas que partilharam um mesmo ambiente com outras que não se desenvolveram damesma maneira, e que isso é prova de que seriam intrinsecamente assim. Não existe nada de "natural", porque o cérebro humano não contém "a priori" informações que levem a que alguém se comporte de uma maneira ou de outra. O cérebro humano apreende isso do meio externo. No máximo, há uma influência pouco importante da genética. Aliás, até mesmo a genética não determina na "natureza" de alguém. Mais importante do que os genes que cada um possui, é a forma como se dá a sua expressão, e isso depende muito mais dos marcadores epigenéticos, que são adquiridos através da interação com o meio, desde o que comemos, o exercício físico que praticamos, se fumamos ou não, se consumimos álcool ou não, se consumimos drogas ou não, todas as substâncias e compostos a que somos expostos, e, também, tudo aquilo que recebemos como influência cultural.

Se não se sabe o que é que do meio em que determinada pessoa estava inserida levou a que ela desenvolvesse determinado comportamento, então diz-se algo tão simples, mas também tão complicado, como “Não sei”. “Não sei o que me influenciou para agir assim”, “Não sei o que na história dele o levou a adotar aquele comportamento”. Não se inventa tretas como “natureza humana”, que não tem qualquer validade empírica. As pessoas, tal como os restantes animais, não têm uma “natureza”. Todos os seres vivos estão equipados com um determinado sistema biológico que leva a que reajam aos estímulos externos de determinada maneira – o que se designa de tropismos – e isso determina o seu comportamento, os estímulos externos, não o sistema interno per se que conduz a determinado comportamento. Para os seres vivos cujo sistema nervoso central é complexo o suficiente para produzir memória associativa, entra em ação uma capacidade de processar estímulos externos mais complexa. Mas, ninguém é livre. Por que raio é que o ser humano se há de considerar o único ser vivo que está além das leis da natureza, ao ponto de inventar algo tão arrogante como o “livre arbítrio”? Isso não existe. Tal como não existe “natureza humana”, pelas razões que já apontei. O que existe é um organismo que reage, integra e transforma os estímulos externos em ação, através de vários mecanismos, e muito do comportamento humano deve-se à capacidade de armazenar memória e associar as memórias entre si. Também por isso é que ninguém “inventa” nada, no sentido de conseguir criar na sua mente algo “original”, que não tem qualquer relação com nada com que alguma vez tenha tido contacto. A criatividade passa por associar diferentes coisas conhecidas para criar novas, mas essa novidade resulta precisamente da associação de coisas conhecidas, a partir de um referencial, que quando é desconhecido por outra pessoa tem tendência a considerar quem criou algo de novo como sendo um “génio”, alguém “talentoso”, quando na verdade apenas não tem acesso ao sistema de referências do autor.

 

Voltando ao caso específico das pessoas que têm comportamentos prejudiciais para outras. Essas pessoas, tal como todas as outras, são o resultado das influências externas que recebem ao longo da vida e das interações complexas, através do mecanismo de memória associativa, que estabelecem entre elas. Não há ninguém “bom” nem “mau”, há pessoas com diferentes influências. Aquilo que se pode considerar cientificamente para alguém que adota um comportamento desfavorável para si e/ou para os outros é que ela padece de “doença associativa”, querendo dizer que recebeu influências que levaram a que estabelecesse um padrão associativo que é prejudicial para si e/ou para os outros.

 

Por isso, é que a única maneira de mudar as pessoas é mudar o ambiente em que nascem e se desenvolvem. Não há outra maneira. O que muda matar alguém que fez “mal”? O que muda prender alguém que fez “mal”? Se essas pessoas desaparecerem ou a sua liberdade for limitada, nada vai contribuir para o melhoramento da sociedade. Muitas outras pessoas se desenvolverão assim. Aliás, praticamente ninguém que é punido o é individualmente. As famílias também o são, e sofrem as consequências da punição de um dos seus membros. Os amigos, a sociedade em si, porque se desperdiçam recursos desnecessariamente a manter alguém sob tortura, que é aquilo que a prisão é, quando poderiam todos contribuir para modificar as condições ambientais e evitar que outras pessoas desenvolvessem “doença associativa”. Poderiam apostar na reabilitação das pessoas que já padecem dessa condição.

 

E eu bem sei como a psicologia ainda não é uma ciência, como precisamos tanto do contributo da neurociência para a tornar numa verdadeira disciplina médica. Porque não vale a pena vir com discursos subjetivos, catalogar alguém e identificá-lo com uma condição estabelecida de forma subjetiva e, se for o caso, um psiquiatra drogar a pessoa, nada disso contribuindo para a melhoria da sua condição. Tem de se fazer ainda um grande progresso a esse nível.

Assim como tem de se progredir na comunicação intercultural. Uma das formas é ensinar às pessoas todos estes mecanismos, que eu descrevi aqui de uma forma muito sucinta, mas que implicam aprender muita coisa sobre muitas disciplinas diferentes do conhecimento. E, também por isso, a educação do futuro tem de ser necessariamente uma generalista. As especializações são importantes, mas as pessoas têm de ter um sentido geral acerca de determinados aspetos, como sejam o comportamento humano, a psicologia social, a neurociência, etc. É a forma mais eficaz de levar a que as pessoas se compreendam melhor entre si. Alguém que está “equipado” com estes conhecimentos, mais facilmente consegue estabelecer relações sãs, é mais tolerante para com culturas diferentes, o que abre o caminho para questionar o seu próprio centrismo cultural e libertar-se dele.

 

Também não vale a pena tentar mudar as pessoas com discursos bonitos e ambíguos. Não vale a pena dizer que é preciso amor, que é preciso tolerância, que é preciso isto ou aquilo. O que raio significa “Ama o próximo”? Não significa nada. As pessoas precisam de ter acesso a conhecimentos relevantes e apoiados na evidência.

 

Também por isso, é que eu digo que a arte, a filosofia, o esoterismo, a religião e demais formas de atividade intelectual humana não apoiadas na evidência e na validação empírica são fontes de influências que podem facilmente contribuir para a tal “doença associativa”. Não se pode encher a cabeça das pessoas de conceitos ambíguos, de coisas bonitas e feias e esperar que elas melhorem. Aliás, tudo o que contribua para afastar as pessoas da realidade é nocivo.

 

Acima de tudo, temos de perceber que todos somos limitados, todos somos vítimas da nossa cultura. Todos somos vítimas das influências externas que recebemos, e as nossas ideias e o nosso comportamento não podem ser algo diferente do resultante disso. E aí é que está a verdadeira igualdade entre as pessoas, nesses mecanismos biológicos que levam a que processemos as informação da mesma maneira, mas que por existirem informações com conteúdos diferentes, nos desenvolvemos como pessoas diferentes. Para modificar a humanidade, é preciso modificar as condições ambientais. E isso começa pelo mais básico, que é providenciar a todos, incondicionalmente, acesso aos bens de necessidade primária: água potável, ar limpo, comida, terra arável, habitação, higiene. E continua com tudo o resto que é essencial para manter uma sociedade a operar no maior grau de sanidade possível: acesso a uma educação relevante, acesso incondicional a informação, sistema de transportes de acesso universal. Tudo isso implica uma profunda alteração da cultura e da aplicação que se faz da ciência e da tecnologia já disponível. Nunca se atingirá uma “utopia”, porque não se pode atingir uma fronteira final no que diz respeito ao melhoramento das condições de vida, apenas fazer-se o melhor possível a cada fase de desenvolvimento. E, hoje em dia, claramente não se está a aproveitar ao máximo os recursos científicos e tecnológicos disponíveis.

 

Para terminar, deixo apenas mais um exemplo de como pessoas normais se podem tão facilmente tornar em pessoas “más”, se podem “desumanizar”. Em defesa das nossas condições materiais, da nossa segurança e dos nossos valores – aquilo que se pode definir como sendo a unidade de informação cultural – qualquer pessoa pode facilmente reagir a um atentado contra a integridade de todas estas componente dirigindo ao “inimigo” o mesmo tipo de tratamento que foi dado aos integrantes da sua sociedade. Fala-se da “desumanidade” dos nazis, mas dificilmente se discute a “desumanidade” que serviu de base ao julgamento de Nuremberga. A mesma informação que tornou legítima para muitos alemães e seus apoiantes a aniquilação dos judeus, legitimou para os seus opositores o cometimento do mesmo tipo de atrocidades. E nisto não vale a pena discutir se se matou as pessoas de uma maneira ou de outra. Todos eram pessoas, e todos perderam a mesma coisa: a sua vida. Aliás, se o problema é o recurso a campos de concentração, então talvez mereça a pena saberem que também houve nazis condenados a uma pena de prisão em campos de concentração no Canadá.

 

Ricardo Lopes

 

 

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