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Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

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Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

De vagão em vagão

 

 

 HOLLYWOODICES - EPISÓDIO 3

bulgaria train

 

 

bw VIAGENS Luís Garcia

Eu tenho visto tanta coisa nesse meu caminho, Nessa nossa trilha que eu não ando sozinho, Tenho visto tanta coisa tanta cena, Mais impactante do que qualquer filme de cinema. (Tás a ver?, Gabriel O Pensador)

 

DE VAGÃO EM VAGÃO (Turquia, Bulgária, Roménia, 2008) – Poucos minutos depois de termos entrado no comboio em andamento e graças ao romeno que nos ajudou a encontrar o revisor e a fazer a tradução de romeno para turco, conseguimos comprar um bilhete para cada um. Mas não para a Roménia! Não, o revisor recusou-se veemente a fazê-lo. Só nos vendeu bilhetes até Kapikulle (fronteira turco-búlgara) e, com modos brutos e antipáticos, exigiu-nos uma conversão de euros para liras turcas a fazer lembrar um assalto à mão armada. Enfim, bem que podíamos nos dar por felizes, afinal, ao contrário de todas as expectativas, estávamos a caminho de Bucareste! Quanto ao próximo bilhete, o romeno, enquanto nos encaminhava até uma cabine livre, garantiu-nos que no ponto fronteiriço sairia connosco e ajudar-nos-ia a comprar o bilhete até à capital do seu país. Excelente! Diria até ser boa demais para ser verdade a sua vontade de nos ajudar.

 

Contra todas as expectativas, a cabine que o romeno nos apresentou tinha (apenas) duas camas e não assentos, um mini-chuveiro, espelho e tomadas onde ligámos os nossos gadjets todos com bateria quase a zero. Mais surpreendente ainda era a decoração e os acabamentos, de madeira envernizada de cores vivas, muito bela, e com os candeeiros, maçanetas e caixilhos de metal impecavelmente pintados a dourado. A ideia era certamente de, além de oferecer conforto e qualidade aos clientes, oferecer-lhes a sensação de viajar no tempo de volta aos inícios do século XX. Daí que, quando parámos para reflectir, apercebemo-nos que estávamos numa luxuosa e requintada cabine que nos fazia parecer reviver os tempos áureos do mítico Expresso do Oriente, a uma época em que quando sonhar com tal viagem era sinónimo de atravessar aquelas latitudes usufruindo precisamente dos luxos que acidentalmente nos tinham vindo parado às mãos... Se nos tinha soado caro os 33 euros que o romeno tinha-nos dito que custava a viagem até Bucareste, depois de descobrir tão luxuosa cabine, o preço do bilhete parecia então muito barato. Demasiado barato para ser verdade! Tomados os banhos de todo inesperados, pese embora já tardios, deitámo-nos por entre os imaculados lençóis de linho e adormecemos, esgotados pelas extenuantes últimas 48 horas de viagens programadas e outras tantas inesperadas.

 

2h30m da madrugada de 24 de Agosto: O romeno acordou-nos e nós viemos para a rua. Estávamos às portas da Bulgária e era possível senti-lo, o ar respirava-se morno e pesado. Longe ia a extrema secura dos desertos da Síria e os planaltos agrestes da Turquia. Para começar bem o dia o guarda de serviço no controlo de passaportes embirrou com a barba do Diogo não ter equivalente na fotografia do documento. Nada que não estivessemos à espera, o homem dava-lhe para embirrar com toda a gente – negou-se inclusive a carimbar um passaporte de uma norte-americana devido à “sujidade extrema”, e quando chegou a nossa vez a única incerteza que tínhamos era o motivo que aquele invocaria para nos fazer perder tempo e paciência. Livres do mal disposto, fomos bater ao guiché de outro mais simpático que nos vendeu bilhetes para a Roménia por 28 euros! Ah, careiro! E ainda por cima não aceitava pagamentos com cartão de débito! Com a brincadeira ficámos apenas com 4 euros e 5 libras turcas em cash. Sem dinheiro vivo para desembolsar em possíveis contratempos ou necessidades inesperadas.

 

De volta à luxuosa cabine, tivemos a imediata visita do romeno que queria saber se tínhamos conseguido comprar os bilhetes e pedir-nos 33 euros adicionais pela cabine de luxo! Ele já antes tinha nos falado desse número, mas críamos que esse valor seria a totalidade a pagar pelo serviço. Afinal os 28 euros para atravessar apenas a Bulgária e um pouco da Roménia voltavam a ser absurdamente elevados. Com esse bilhete (caro) tínhamos apenas direito a viajar nos vagões sem camas, dos quais desconhecíamos a existência até àquele momento uma vez que tínhamos apanhado o comboio em andamento em Istambul e feito a viagem toda a dormir. Depois, mesmo que quiséssemos pagar aquele serviço não podíamos, ao fim de quase 2 meses de viagem tinham-se acabado as notas nos nossos bolsos! A reacção do romeno foi de quem não estava a acreditar numa única palavra do nosso discurso. Diria que o rapaz julgava que aquilo era choradeira nossa para regatear o preço da cabine. Só mais tarde, explicando vagarosamente para que o pasmado romeno entende-se o nosso aldrabado romeno, é que ele compreendeu que ali não havia dinheiro para a sua carteira! Ah, fulo, propôs-nos que lhe entregássemos os passaportes e que ele os retesse até ao fim da viagem como garantia nossa de lhe pagarmos o valor em dívida à chegada a Bucareste. Recusei veemente. Passaporte meu fora do meu alcance visual está sempre fora de questão, não importa em que país nem em que circunstância de viagem. Aí então ficou furioso, blasfemando (com razão) que tínhamos usado os lençóis e toalhas que agora teriam de voltar a ser lavadas para seu prejuízo. Respondemos-lhe (também com razão) que era culpa sua por não ter-nos explicado que havia outros vagões e outras condições no comboio. Fizemos-lhe compreender que se nos dessem a escolher nunca teríamos optado pela vagão mais caro e que ele, ao querer à força dois clientes de luxo tinha traído o seu suposto altruísmo de salvar-nos à porta de um comboio em andamento. Tinha, se quiserem, apostado em dois cavalos de corrida que para seu azar caíram por terra antes do fim da prova! “É a vida!”, acrescentámos nós. O romeno desistiu da batalha e mandou-nos sair da luxuosa cabine. Ah, música para os nossos ouvidos, tínhamos tomado uma banho quente, tínhamos dormido confortavelmente e críamos estar assim preparados para todas as possíveis intempéries de viagem. Quanto ao romeno, que não se calava com o trabalho extra e não pago, só lavaria com urgência os lençóis e as toalhas de banho se fosse um maníaco perfeccionista. É que além de nós os 3, naquele vagão, viajavam apenas 3 pessoas mais, a loiraça sua namorada e um par de velhos mafiosos romenos como aqueles que vêm nos filmes que vocês estão a imaginar.

 

Seguindo as indicações do romeno, deslocámo-nos até ao fim do comboio em busca dos vagões de assentos. Pequena vingança do homem, fez-nos andar para nada, do vagão em que dormiramos até ao último eram todos de camas. No fim do comboio um passageiro informou-nos (em inglês) que os vagões de 1º e 2º classe de assentos se encontravam “como de costume na parte da frente”. Ok chefe! Voltámos atrás cansados e aborrecidos de termos de atravessar de novo aqueles apertados corredores com as nossas malas de viagem. Passámos pelo vagão do romeno mas nem sinal dele. Devia estar na sua cabine esfregando as mãos de vingativo contentamento com a facada que nos espetara. Ahahah, exagero.

 

Chegados aos vagões da frente somos informados que temos à escolha lugares de primeira classe caros e outras de segunda classe com preços razoáveis, apenas “10 euros”! Que filme que começávamos a entrever! Há umas semanas atrás, aquando da nossa vinda desde Belgrado até Istambul - e possuidores de um pack promocional de 5 bilhetes para os Balcâs e Turquia-, fôramos obrigados a pagar mais 10 euros na troca de vagões junto à fronteira turco-búlgara. Agora, na mesma fronteira, voltavam-nos a pedir dinheiro de forma a podermos viajar dentro de um dos vagões disponíveis, pese embora tivéssemos já comprado e pago bem os bilhetes para o efeito. Uma fronteira ferroviária e uns comboios deveras peculiares!

 

Na altura da viagem Belgrado-Istambul não tivemos outro remédio senão pagar os 10 euros cada. Agora, não tínhamos de todo dinheiro para pagar. Tentámos o impossível, obter 2 assentos dando uso à nossa arte retórica. Argumentámos que se haviam suplementos para cada vagão, esses valores deveriam ser pedidos no momento da compra dos bilhetes e que, acima de tudo, para quem quisesse viajar, em segunda classe no vagão de assentos, nada mais além dos bilhetes já comprados deveria ser exigido. Qual quê! Fomos gentilmente convidados pelo revisor daqueles vagões a “saltar fora do comboio, seus vagabundos, se não têm dinheiro para pagar bilhetes”! Escandalizados e estupefactos, fizemo-nos de desentendidos e não arredámos pé do corredor daquele vagão. O revisor continuava a falar, nervoso, embrulhando-se em movimentos de braços atrapalhados. Nós mantivemo-nos firmes, não pestanejámos sequer. Esperámos até o revisor partir para o vagão seguinte, seguindo o seu trabalho, mandando ofensas para o ar enquanto desaparecia pela porta do vagão seguinte. Só aí nos voltámos a deslocar. E o destino foi voltar atrás à parte detrás daquele mesmo vagão onde minutos antes tínhamos reparado num senhor sentado no chão, entre a porta do vagão e a porta da casa de banho...

 

Embora sujo, de roupas gastas e barba muito comprida, o senhor com aspecto de vagabundo sentado naquele imundo chão falava inglês melhor que todos os revisores do comboio juntos. Sentámo-nos a seu lado e começámos uma desnecessária conversa explicativa do caso. O senhor ali sentado, búlgaro de nacionalidade, garantiu-nos já ter assistido inúmeras vezes a situações idênticas e insistia que “o revisor era louco”. Estava portanto em sintonia com a nossa crítica aos pagamentos extra naquele comboio. Convidou-nos a fazer-lhe companhia e a seguir viagem ali mesmo sentados, ignorando as reprimendas temporárias de revisores de passagem. Já mais sossegados e descontraídos, tirámos comida das malas, partilhámo-la com o nosso novo companheiro de viagem e continuámos à conversa. Meia-hora depois voltou o revisor, mais tímido dado o ânimo e a descontracção com que conversávamos com o búlgaro. Insistiu na sua lengalenga 100% em turco, mas com pouca convicção. Se antes apontara para a porta da rua, agora já só apontava para a porta da casa de banho. E resmungava imcompreencíveis lamechices enquanto apontava para o chão onde nos encontrámos sentados. Provavelmente estaria a queixar-se que perturbávamos o movimento dos clientes (mais pagantes que nós) deslocando-se entre vagões. Nós íamos respondendo com um “Tamam, tamam” ("sim, sim" em turco) de tempos a tempos e com ares de indiferença. Vendo que continuámos a rir e conversar, e que ignorávamos completamente calou-se, aborrecido, e partiu para o vagão seguinte. Voltou a passar por nós várias vezes mais durante o trajecto, por obrigação das suas funções de revisor, mas não mais nos chateou a cabeça com histórias de pagamentos extra.

 

Com o senhor sentado no chão falámos de Cristiano Ronaldo, Figo, Kostadinov e Balakov, do incrível terceiro lugar da Bulgária no mundial com o mágico Stoichkov. Falámos das nossas aventuras na Turquia e Síria. Os olhos iam pesando cada vez mais, pese embora o interesse daquela improvável conversa e, por fim, enroscados precariamente sobre as nossas malas, acabámos por adormecer, eu e o Diogo.

 

Quando voltámos a acordar, o nosso amigo búlgaro desaparecera, era quase dia e o revisor turco, transfigurado, indicou-nos com simpatia e sorrisos que dali a 30 minutos chegaríamos a uma estação onde se juntariam vagões “normais” ao comboio. E assim foi, não acreditámos naquele momento que estivesse a dizer a verdade, mas assim que vimos um conjunto de vagões aproximando-se lentamente ao nosso comboio parado numa estação, saltámos fora e caminhámos apressadamente para esses novos vagões. Sendo os primeiros a entrar, escolhemos uma cabine só para nós, fechámos as cortinas, trancámos a porta e tentámos dormir o melhor possível. Só abríamos a cabine de tempo a tempos para controlos de passaportes e de bilhetes e para surreais rusgas anti-tráfico. Ainda assim não pudemos evitar a visita à nossa cabine de um rapaz meio aluado que se dizia funcionário da companhia de comboios. Garantia-nos que aqueles novos vagões de assentos destinavam-se à Rússia (!) e que se queríamos continuar a viagem rumo à Roménia teríamos de segui-lo até aos vagões de camas e trazer “money, money” para desembolsar. Pois sim, um comboio na Bulgária, rumando a este na direcção de Bucareste e com a sigla da CFR (Caminhos de Ferro da Roménia) ia a caminho da longínqua Federação Russa sem passar pela Roménia. Dissemos lhe que “sim, com certeza, vamos já” para o calar e fazê-lo partir, voltámos a trancar a porta,  fechámos as cortinas e retomámos o sono tão desejado e preciso.

 

Horas depois, num estação desértica perdida entre densa vegetação e rodeadas por montanhas (apropriado portanto o nome da estação – Gora – que significa montanha em búlgaro) ouvimos os travões do comboio rugir esforçadamente enquanto que à porta da nossa cabine apareceu o nosso amigo revisor turco para avisar-nos de uma pausa de 2 horas e 15 minutos naquele deserto de vegetação e ferro velho. Atrás deste veio um inglês perguntar ao Diogo onde comprara as suas calças “so cool”. Que momento surreal...

 

Com a garantia de uma boa paragem pela frente, saímos à rua, para esticar as pernas, espreguiçármo-nos e vadiar um pouco para passar o tempo tirando fotos. Não podia pedir melhor cenário para uma sessão fotográfica! Para começar o nosso comboio visto agora com a luz do dia parecia saído de um rocambolesco filme de Kusturica. Depois tínhamos as linhas de comboio desgastadas e tortas como as linhas em que os deuses costumam escrever. Tínhamos vagões de carga espalhados em torno da estação que pareciam ter saído dum amestrador filme sobre Auschwitz-Birkenau. Para completar tínhamos uma jovem ucraniana fazendo umas bem ousadas poses para a câmara do namorado/irmão/primo/qualquer-coisa. A verdade é que a miúda parecia estar mesmo a divertir-se e mais se entusiasmou quando viu a minha câmara virada também para ela, sorrindo descarada e atrevida. O rapaz não gostou da brincadeira e disse-lhe algo em ucraniano que (obviamente) não entendi. A miúda fez uma pausa, respondeu amavelmente ao ucraniano, e voltou a sorrir para a minha câmara. Menos sorridente olhou o rapaz para mim e eu, para evitar filmes, além do mais perdido no interior búlgaro, baixei a câmara e fui ter com o Diogo para lhe contar as novidades e comparar as minhas fotos com as dele.

 

Ao fim de apenas 1 hora e meia, e para nosso completo espanto, o comboio começou a deslocar-se. Corremos apressados de volta ao comboio e instalámo-nos na nossa cabine, mas por muito pouco muito tempo, pois 500 metros à frente o comboio voltou a parar por mais meia hora, finda a qual recuou 700 metros imediatamente antes da estação. Passados poucos minutos, andou 500 metros para a frente e aí ficou até se completarem 3 horas de uma secante espera numa tarde de calor intenso durante a qual nos tinha acabado a água potável.

 

Horas depois, junto à fronteira turca, víamos saltar do comboio em andamento dois romenos com grandes sacos de plástico repletos de volumes de tabaco. Eu e o Diogo também saltámos fora, mas um pouco mais frente, depois do comboio ter parado na estação fronteiriça! Íamos em busca de água pois estávamos prestes a desfalecer de sede, literalmente. À nossa busca juntou-se um simpático inglês que se dizia professor de balé e que viajava de Istambul para Bucareste em busca de trabalho e de um velho amigo, queixando-se repetidamente das condições do comboio, sobretudo de não haver um vagão restaurante ou pelo menos algures dentro do comboio onde comprar comeres e beberes. "Olha-me este"!

 

No meio da confusão fronteiriça lá apareceu um cigano búlgaro com garrafas de água fria. Aceitava quer euros quer liras turcas mas pedia 3 euros por garrafa! Teve de ser, gastámos o resto do dinheiro em água! Felizes por beber dessa pequena coisa que é afinal tão grande, voltou-nos a vontade de tirar fotografias, a qual foi satisfeita pela vontade do francês em dar uns passos de ballet fora do comboio, enquanto esperávamos pelo controlo de passaportes. Inevitavelemente apareceu um polícia búlgaro chatear-nos pelas fotos tiradas. Déjà vu!

 

Às 21 horas chegávamos a Bucareste para descobrir que o último comboio com destino a Quichinau, capital da Moldávia, partira às 20 horas. Adiada a partida para leste, decidimos ficar 2 dias para dar uma volta a Bucareste que o Diogo ainda não conhecia. Àquela hora da noite e ainda na estação começava outro filme, não de comboios mas de peregrinação de mala às costas pela cidade em busca de uma pousada barata com quartos livres a meio do verão numa capital europeia...

 

Álbum de fotografias da longa espera na Bulgária:

Luís Garcia, 09.10.2015, Lampang, Tailândia

 

 

 

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Street Racing

 

 

 HOLLYWOODICES - EPISÓDIO 2

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bw VIAGENS Luís Garcia

 

Eu tenho visto tanta coisa nesse meu caminho, Nessa nossa trilha que eu não ando sozinho, Tenho visto tanta coisa tanta cena, Mais impactante do que qualquer filme de cinema. (Tás a ver?, Gabriel O Pensador)

STREET RACING (Turquia, 2008)  Depois de quase dois meses viajando na Turquia e Síria, o meu amigo Diogo e eu decidimos que era tempo de mudar de ares e rumar para um país culturalmente longe do Médio-Oriente. Queríamos enriquecer a viagem graças à diversidade. A primeira escolha era desde há muito a Geórgia, mas naquele pais continuava o cenário de guerra (entre os ataques geórgios às regiões da Abecásia e Ossétia do Sul patrocinados pelos EUA e levados a cabo com o apoio militar de Israel, e a resposta da Rússia em forma de  bombardeamentos aéreos às forças armadas geórgias e aeroportos) e, segundo as notícias que lia de vez em quando na internet, o conflito não acabaria tão cedo. Solução: Ucrânia, um país separado da Turquia apenas pelo Mar Negro e ao mesmo tempo culturalmente longínquo. Era a opção perfeita. Tomámo-la quando ainda nos encontrávamos na região do Curdistão turco, no sudeste do país e, portanto, com suficiente tempo pela frente para coordenar a operação ucraniana.

 

Depressa concluímos que a solução mais rápida, mais barata e também mais exótica seria atravessar o Mar Negro de ferry, desde Sinop, cidade da costa norte turca, até Odessa, a maior cidade da costa ucraniana. Este serviço era supostamente oferecido por uma companhia turca com um sítio de internet em que se podia aceder à informação completa sobre a travessia: tempo de viagem, calendário, preçário, etc. Escolhemos uma data que nos convinha e organizámos a nossa viagem pelo coração da Turquia de forma a chegarmos a Sinop um dia antes de umas datas em que a companhia efectuava o percurso Sinop-Odessa. Poucos dias depois chegávamos a Sinop na data prevista, numa madrugada aconchegada por um sublime lençol de céu rosa suave estendendo-se em toda a volta. O mar estava tão calmo como um lago congelado. Ouvia-se um silêncio profundo à beira-mar, nem as gaivotas por hábito ruidosas se atreviam a interromper o idílico momento. Foi um momento único na viagem, como se aquele porto fosse um portal para uma intemporal realidade sem ponteiros de relógio, nem filas de trânsito, nem gente nascida já atrasada... Mau presságio...

 

Toda esta calma era prenúncio de um grande contratempo. Aquelas dormentes águas há um ano que não eram rasgadas por proas de ferrys, há um ano que a companhia tinha aberto falência por falta de clientes e, no meio do desastre financeiro, ninguém se tinha lembrado de encerrar o sítio internet da empresa. Nem sequer os nossos amigos turcos que nos ajudaram, aquando da pesquisa por ferries na internet, se aperceberam que a empresa já não existia.

 

A solução de recurso foi apanhar o primeiro autocarro a partir com destino a Istambul, onde mais tarde procuraríamos uma solução. Muitas horas depois e perdida há muito a paciência fruto das dezenas de paragens durante o percurso, chegámos com um atraso imenso em relação à hora prevista e, possivelmente, já demasiado tarde (20h30) para seguir viagem rumo à Europa de Leste. Bom, em contrapartida mimaram-nos bem ao nos oferecer gelados durante o percurso! O autocarro levou-nos até Istambul, mas convém precisar que esta cidade e seus subúrbios contêm pelo menos quinze milhões de habitantes, o mais caótico trânsito entre todas as metrópoles ocidentais e estendem-se este-oeste por uma distância de mais de cinquenta quilómetros. E como se não bastasse, tínhamos terminado a viagem numa mega-estação perdida no tempo, antiquada, desorganizada e situada – para nós – no lado errado de Istambul: leste, a parte asiática. Nós queríamos partir ainda naquela noite rumo ao ocidente, à Europa!

 

Durante cerca de meia hora andámos de guiché em guiché analisando os destinos internacionais apresentados pelas inúmeras companhias familiares de transporte rodoviário. Soluções não faltavam, encontrámos ligações para a Bulgária, Roménia, Moldávia e até para a Ucrânia. O problema é que quase nenhuma tinha partidas marcadas naquela noite para esses destinos E poucas que haviam apresentavam grandes problemas: exigiam no geral preços absurdos, demasiadas paragens e tempos de espera nas trocas de autocarros tão longas que, segundo as nossas contas, se esperássemos ali um dia por um outro autocarro directo ao destino chegaríamos várias horas mais cedo à Ucrânia. E estava fora de questão pernoitar naquela imunda e caótica estação de autocarros!

 

No desespero, lembrámo-nos de ir à net procurar por comboios. Numa das janelas do edíficio principal avistámos um placa com a inscrição “cyber-café”. A entrada era do outro lado. Demos a volta apressadamente, entrámos e pedimos um computador com internet. O empregado de serviço informou-nos, meio envergonhado, que o sistema tinha avariadado e que só teria internet no dia seguinte! Muito simpático, o jovem indicou-nos um outro cyber-café aberto. A meio caminho entre os dois descobrimos uma restaurante de comida rápida turca e um cartaz com a informação “Tavuk Döner – 1lt”!  Ah, um kebab com bom aspecto custando apenas 1 lira (0,50€)! É que os dois estômagos ambulantes resmungando durante aquele tempo todo, de tão focados que estávamos em com encontrar transportes, ainda não tinham de nós recebido uma única refeição quente! Pois claro, não resistimos! Esfomeados e apressados, limpámos num instante os kebabs (que eram deliciosos) e saímos com destino ao cyber-café. Ai abrimos a página dos caminhos de ferro turcos, esperançosos que houvesse naquela noite um comboio que partisse com destino à Roménia ou, pelo menos, até a Bulgária. Caso encontrássemos um comboio garantíamos um lugar onde dormir naquela noite e, acima de tudo, não atrasávamos mais o nosso plano de viagem. Para nosso espanto havia um, que partia às 22 horas da estação central de Istambul situada no lado europeu! Eram 21h13m!

 

A missão mostrava-se quase impossível de realizar, sobretudo para dois estrangeiros sem a noção (na altura) do quão longe se encontravam da central ferroviária. Por outro lado, não tínhamos rigorosamente nada a perder. Tínhamos decidido que naquela horrível e fedorenta estação de autocarros é que não ficaríamos de certeza e como tal teríamos de nos deslocar até ao centro de Instambul (no lado europeu) onde telefonaríamos a uma amiga turca para nos hospedar caso não apanhássemos nenhum transporte naquela noite. Além do mais, em última instância, por que se viaja, por que razão aventuramo-nos nós, por que partimos às cegas por esse mundo fora? Para desfrutar de momentos irrepetíveis, descobrir os limites da sorte, sentir adrenalina uma vez por outra, não? Ahhh, às 21h15m decidimos tentar a nossa sorte e corremos dali para fora em busca da entrada do metro que tínhamos descoberto por acaso enquanto comíamos os kebabs uns minutos antes.

 

Olhando freneticamente o mapa com as linhas de metro e de tram da cidade e tentámos desvendar a forma de Istambul naquelas linhas estilizadas. Com a vital ajuda de reminiscências de alguns nomes de estações de tram onde semanas antes nos passeáramos, acabámos por descobrir a solução perfeita mesmo a tempo de apanhar um metro que chegava no momento à estação. Tínhamos, muito simplesmente, de seguir naquele metro até a estação terminal da linha e aí apanhar um tram da linha do centro histórico (que nós conhecíamos bem) até a estação central de comboio (da qual também nos lembrávamos muito bem). Único senão: eram 21h18m e não tínhamos a mínima ideia do tempo que levaria a chegar a estação terminal da linha que atravessávamos. 15 minutos? Uma hora? A melhor estimativa que podíamos produzir era contar o tempo médio gasto entre cada estação e multiplicá-lo pelo número de estações restantes. As primeiras estações (de subúrbios) encontravam-se (logicamente) muito distantes umas das outras, levando-nos a prever uma tempo total de viagem de mais ou menos 40 minutos e portanto estava perdido o comboio. Mas não, as últimas estações apareceram abruptamente, umas atrás das outras, e às 21h41m chegámos eufóricos à estação terminal.

 

Se tivéssemos a sorte de apanhar logo de seguida um tram, ainda era possível chegar mesmo a tempo para apanhar o comboio das 22h. Para nosso choque, a linha de tram estava, imaginem: fechada para obras! Do oitenta ao oito em poucos segundos, ficámos desolados. Olhando a linha de táxis à nossa frente corremos para o mais próximo deles e perguntámos ao condutor num turco super inventado se nos podia pôr na estação antes das 22h. Ele respondeu que “tudo é possível” e mandou-nos entrar. Arrancámos às 21h43m eufóricos! De novo, passávamos do oito ao oitenta, vibrando de adrenalina com a alucinante condução do taxista ziguezagueando entre uma míriade de carros s velocidades de 120 a 150 km/h, passando muitas vezes a escassos centímetros de outros veículos sem o mínimo sinal de nervosismo ou hesitação! Um verdadeiro piloto de Fórmula 1 em potência! Enquanto nos íamos aproximando da estação puz-me a contar as últimas liras turcas que tínhamos em moedas e, para meu desencanto, quando acabei de as contar, o taxímetro estava prestes a indicar um valor semelhante, faltando ainda uma boa distância a percorrer. Avisei o taxista que se não queria perder dinheiro, teria de parar o carro dali a pouco pois não tínhamos liras suficientes para pagar a totalidade do percurso. O taxista respondeu-me perguntando o valor que eu tinha na mão, a que eu prontamente retorqui. Sorrindo, disse-nos: “Tudo bem, eu levo-os, agora temos de levar esta aventura até ao fim! E eu quero ver se consigo lá chegar antes das 22h!” Ah, que maluco, e como ficámos felizes com a sua aventureira empatia! Às 21h56 o taxista estaciona em frente da estação central de comboios, quase partindo com as nossas malas na bagagem não fosse nós termos corrido atrás e batido no capô logo ao arranque.

 

Recuperadas as malas e colocadas estas às costas, corremos desenfreadamente até à zona de guichés onde chegámos já quase sem fôlego às 21h58m. Um velhinho, muito simpático e com ares de quem ainda não se terá adaptado às modernisses electrónicas avisou-nos com honestidade que: “Com o tempo que eu vou levar a tirar os bilhetes, quando vos os der já o comboio terá partido. O melhor é correrem para não perderem o comboio. Quanto aos bilhetes, tentem resolver isso no comboio.” Naquele momento a minha reacção mental foi pensar que os bilhetes deveriam ser comprados no guiché onde poderíamos pagar com cartão, uma vez que já não tínhamos um cêntimo sequer em liras turcas, e não num comboio! Contudo, dado o tempo restante, as alternativas eram nulas. Seguimos o conselho do senhor e corremos mais uns bons metros até junto do comboio com destino à Roménia.

 

Eram 21h59m. Acercámo-nos de um funcionário da estação parado em frente a uma porta do comboio conversando com alguém dentro do vagão e pedimos para entrar sem bilhete, explicando que por falta de tempo compraríamos os bilhetes dentro do comboio. O senhor, muito rude e falando apenas em turco, garantia-nos que sem bilhete não entraríamos no comboio. Enquanto insistíamos inútilmente em convencê-lo, apercebi-me que aquele outro senhor à porta do vagão com quem conversava antes o funcionário rude, estava agora falando em romeno com alguém atrás dele. Interrompi-lhes bruscamente a conversa e pedi-lhe ajuda no meu fraco romeno que, embora muito básico, era superior ao meu quase nulo turco. O comboio começava a movimentar-se lentamente. Expliquei-lhe o mais depressa possível o nosso problema enquanto eu e o Diogo caminhávamos ao ritmo do comboio. Quando o comboio começou a aumentar a velocidade ele finalmente gritou para o funcionário rude que nós entraríamos e convidou-nos a embarcar! Assim fizemos!

 

O relato desta aventura de comboio contínua na estória seguinte: De vagão em vagão.

 

Luís Garcia, 05.10.2015, Lampang, Tailândia

 

Nota – Os tempos precisos aqui descritos são verídicos pois eu e o meu colega de viagem controlámos minuto a minuto aventura, quer pela ansiedade de perceber se chegaríamos a tempo, quer pelo facto de logo no início da aventura (às 21h13m) nos termos apercebido que mesmo não apanhando o comboio teríamos ali uma bela estória para contar aos netos. Tão intensa foi aventura que ainda hoje, passados 7 anos, ainda me lembro de uma boa parte dos tempos sem recorrer ao diário de viagem.

 

 

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Os Traficantes

 

 

HOLLYWOODICES – EPISÓDIO 1

síria

 

 

bw VIAGENS Luís Garcia

 

 

Eu tenho visto tanta coisa nesse meu caminho, Nessa nossa trilha que eu não ando sozinho, Tenho visto tanta coisa tanta cena, Mais impactante do que qualquer filme de cinema.
(Tás a ver?, Gabriel O Pensador)

 

OS TRAFICANTES (fronteira turco-síria, 2008) No último dia da aventura síria eu e o meu companheiro de viagem Diogo encontravámo-nos em Aleppo, imemorial cidade de 5500 anos e a mais antiga do mundo ainda habitada. Pela manhã andámos a passear pela cidade, fazendo a despedida deste país encantador, procurando as últimas memórias-relíquias de contar aos amigos, e sim, encontrámos algo completamente inesperado: numa pequena loja de esquina onde se vendiam narguilés, malas e cintos, fomos descobrir perdido numa prateleira escondida, um pequeno Galo de Barcelos impecavelmente polido e cores ainda bem vivas. Não levámos o galo, levámos antes duas narguilés, mas fizemos notar ao dono da loja o nosso espanto e contentamento.

 

Daí fomos a pé até a uma das praças de autocarros situada nas traseiras do bairro dos grandes hóteis turísticos, onde procurámos o autocarro que fosse suposto ser o primeiro a partir para a Turquia. Primeiro é como quem diz, num mundo onde transportes públicos não têm horários marcados e só partem quando além de se encontrarem todos os lugares ocupados se espera ainda que entrem mais 20 passageiros que se ofereçam para fazer a viagem de pé, num mundo assim, dizia eu, o primeiro autocarro é aquele cujo condutor tenha ligado o motor e se esteja a preparar para por a primeira. Em poucos minutos encontrámos um em vias de arrancar, mas que assombrosamente continha apenas cinco passageiros, quatro adultos e uma criança. Na dúvida entrámos, ainda desconfiados que algo não batia certo, que provavelmente fosse uma falsa partida ou que tivéssemos compreendido errado devido à barreira linguística, mas não, o autocarro partiu mesmo daí a minutos e então é que ficámos deveras desconfiados!

 

Num ambiente muito calmo (tirando o condutor com os seus tiques de piloto de Fórmula 1 sofrendo de taquicardia), com os cinco sírios sentadinhos lá no fundo e nós os dois meio sonolentos, depressa demos por nós no posto de controlo sírio da fronteira internacional com a Turquia. E tivemos de nos libertar da sonolência para lutar pela sobrevivência, quando o motor do autocarro foi desligado e nos avisaram que era preciso ir tratar de um visto de saída que teria de ser pago!

 

Deslocámo-nos até ao primeiro guiché que encontrámos, cientes que tínhamos gasto as últimas libras em pêssegos e água minutos antes de termos apanhado o autocarro e que, portanto, a negociação para obter o visto não iria ser fácil. No guiché o funcionário pede-nos 500 libras sírias por pessoa, nós tínhamos apenas 2 ou 3 moedas, além de notas de liras turcas e notas de 10 e 20€. Como não queríamos ficar a perder dinheiro pagando em euros tentámos usar a habilidade do regateio, que tão constantemente nos foi exigida nas 2 semanas passadas no país, e oferecemos 10 euros (700 libras sírias) pelos 2 vistos, rezando que ele aceitasse para não termos de ir para o fim de uma das infinitas filas de espera das casas de câmbio no lado oposto da rua. Nada feito, como é óbvio (agora), vistos não se regateiam e portanto tivemos mesmo de escolher uma fila de câmbio e apostar na paciência, o que contrastava com estado enervado e apressado do condutor do autocarro em que viajávamos. Este, quando nos viu lá na fila veio-nos perguntar grosseiramente “que raio estão vocês a fazer, não tenho tempo para estas coisas!”. Ah, eu lá fui explicando o óbvio, que não tendo suficientes libras tinha de trocar dinheiro de forma a passar a tê-las! E que sem elas não poderia reembarcar no seu autocarro e sair do país! Ele arranca-me o dinheiro da mão e pediu ao rapaz do guiché que me desse 500 libras e o resto em dólares! Eu ripostei-lhe: “mas que filme, a mim e ao Diogo, portugueses de partida para Turquia, interessa-nos euros ou liras turcas, agora dólares? Pois claro que não!” Recuperei o meu dinheiro das mãos do motorista e este afastou-se praguejando impacientemente enquanto nós voltámos à negociação impossível. O rapaz não queria de todo dar-nos 500 libras e o resto em euros ou liras turcas (que tinha na mesa), e nós lá nos decidimos aceitar trocar a totalidade do valor da nota para libras sírias. Estabelecida à força a moeda de câmbio faltava tratar da taxa de câmbio. O funcionário do guiché propôs-me uma taxa tão absurdamente baixa que eu simplesmente virei-lhe as costas praguejando em português. O Diogo, mais tímido mas em contrapartida de temperamento mais calmo retomou a árdua tarefa de trocar o dinheiro e, cedendo no valor da taxa de cãmbio, chegou quase a um acordo. Já se preparava para pegar nas libras quando, ao exigir o recibo da transacção, o funcionário devolve-lhe os euros e diz-lhe para ir procurar outra casa de câmbio que ali “só trabalhavam com motoristas e camionistas”! Além daquela casa havia outras duas, mas só de olhar para o tamanho das filas nas quais teríamos de esperar e desesperar de novo, e vendo as batalhas de argumentos que proliferavam também entre os funcionários desses dois guichés e outros viajantes locais em busca de libras, engolimos todo o orgulho que tínhamos e voltámos ao nosso guiché ignorando a fila correspondente. Nada feito, o rapaz já nem queria falar connosco. Ouvindo a confusão um senhor de meia-idade com enorme maço de notas nas mãos veio propor-nos que trocássemos dinheiro com ele, mas quando nos informou que nos dava 1200 libras sírias por 20 euros que valiam no momento 1444 libras mandámos o senhor ir dar uma volta. Ele insistiu que a taxa estava “certa, certíssima”, a que eu respondi apontando para o painel electrónico da casa de câmbio onde se podia ler “1 € = 72,2 lb”. Ele defendeu-se afirmando que a taxa no monitor era antiga a que eu respondi informando-lhe que duas semanas antes, aquando da nossa chegada à Síria, a taxa cambial era de 70,5 lb e que nesse espaço de tempo seria absurdo que ocorresse uma descida tão abrupta. O senhor lá se convenceu de que nós conhecíamos o valor real da taxa de câmbio e então, como é exigido culturalmente por aquelas paragens, regateámos o valor da taxa até chegarmos a um acordo no valor óbvio: a média entre os dois valores inicialmente negociados!

 

Toda esta balbúrdia cambial tinha sido apenas o aquecimento para o que estaria para vir: qual injecção de adrenalina para nos libertar da profunda sonolência de que éramos portadores desde que saíramos do hotel e para nos preparar para o verdadeiro filme que viria a tomar lugar daí a pouco.

 

Quando regressámos ao autocarro os restantes passageiros já se encontravam ordeiramente sentados, esperando para partir, enquanto que o motorista e o seu ajudante (o “pica”) distribuíam caixotes de papelão por baixo de cada assento ocupado e umas pequenas caixinhas de cartão nas prateleiras por cima de cada passageiro, incluindo eu e o Diogo. Já depois do autocarro arrancar o ajudante veio ter connosco com um saco de plástico preto do qual retirou volumes de dez maços de tabaco e entregou três volumes a cada passageiro (máximo permitido por pessoa à entrada na Turquia! Tráfico de tabaco e sabe-se lá que mais!?! Mmmm, eu e o Diogo recusámos segurar nos volumes e, além do mais, pontapeámos os caixotes para os bancos da frente e afastámos também as caixas de papel guardadas por cima de nós. Traficar tudo bem (ou tudo mal), mas não contassem connosco para passar o risco de cometer ilegalidades na fronteira sírio-turca, ainda mais em circunstâncias nas quais teríamos tudo a perder e nada a ganhar (ao passar a mercadoria pela fronteira, o lucro para nós seria zero, pois claro)! Pouco depois de termos despachado a mercadoria para longe de nós, o ajudante voltou para repô-las onde as tinha colocado, a que nós respondemos imediatamente com mais 2 pontapés nos caixotes que os afastaram dois bancos para a frente. E fizemos questão que ele visse o acto, de forma a perceber a nossa posição em relação ao assunto, dada a clara impossibilidade de explicar por palavras o nosso desacordo em participar na sua façanha contrabandista. Quanto ao turcos que seguiam, permitiram todos mansamente (e ingenuamente diria eu) a presença das caixas e dos caixotes na sua proximidade e aceitaram inclusive segurar em três volumes cada. Até o miudinho enfezado que viajava com os pais atabalhoadamente segurava os “seus 3 volumes de tabaco”, mal conseguindo enxergar o que se passava à sua frente.

 

Pouco minutos depois, já no posto de controlo turco, o autocarro foi de novo desligado e as autoridades turcas convidaram-nos a evacuar o veículo para inspecção. Vendo o ajudante regressar à parte detrás do autocarro, deixámo-nos ficar um pouco mais para ver o que ele se preparava para engendrar. Ah, pois claro, tinha voltado para colocar os sinistros caixotes e um saco de plástico com volumes de tabaco debaixo dos nossos assentos! Nós insistimos e explicámos pacientemente que eles podiam fazer o que lhes apetecesse com a sua mercadoria que nós não tínhamos rigorosamente nada a ver com o assunto mas que, por outro lado, de forma alguma permitiríamos que a colocassem por debaixo dos nossos lugares. O pobre rapaz lá aquiesceu e saímos todos do autocarro.

 

Fora do autocarro iam já avançados os preparativos para o cenário do filme: enquanto um bando de autoridades fronteiriças desmanchavam completamente as malas dos passageiros turcos criando um monte de trapos no chão, o nosso motorista preparava-se para subornar o responsável da fronteira com… três garrafas de água! E logo que responsável! Viram o filme norte-americano Traffic? Aquele que chega uma parte em que um militar corrupto se encontra ao ar livre escorrendo suor sentado na sua cadeira com uma mesa de escritório na sua frente? E com os capangas em seu redor protegendo-o enquanto ele interroga não sei quem? Acrescente-se um guarda abanando um leque junto à cabeça do responsável e um motorista de autocarro tropeçando nas suas próprias pernas e nas suas próprias palavras e temos o filme da fronteira sírio-turca. Enquanto a infeliz cena de suborno se desenrolava (ao menos oferecesse uma garrafa de uísque, não!?!) eu e o meu colega Diogo tínhamos já voluntariamente oferecido as nossas malas a um dos guardas para que ele as inspeccionasse mas este, sorrindo divertido e acenando “não” com o dedo indicador respondeu-nos “not you”, e deixou-nos entregues à condição de espectadores do espectáculo ainda a decorrer. Um dos seus colegas tinha encontrado demasiados volumes dentro de uma mala de viagem de um passageiro turco, mas depressa o “pica” (e não o passageiro dono dessa mala, note-se!) veio mostrar 3 passaportes explicando que o tabaco pertenceria aos vários membros daquela família. Entre muita discussão e confusa negociação, os volumes de tabaco acabaram por ser todos permitidos e os passageiros receberam ordens para refazer as suas malas. Junto à mesa das negociações o processo continuava emperrado, julgávamos nós, pela avarenta hesitação do nosso motorista em desembolsar um bom suborno e pela sorridente ganância do responsável que mastigava, provocante e de forma exagerada, a sua pastilha elástica, protegido detrás de uns opacos óculos-de-sol. Nenhum cedia, nada mudava, e nós perdíamos já a paciência com a seca que nos estavam a impor. Se alguns metros atrás, extremamente impaciente, o motorista tinha por várias vezes ameaçado de nos deixar para trás se não nos despachássemos a trocar dinheiro e pagar o visto de saída, agora parecia se ter esquecido completamente da pressa que o dominara antes. Qual personagem principal da BBC Vida Selvagem, o raio do homem fazia como aqueles animais (sem o saber) passam horas sendo filmados na sua inacção, desesperando realizadores e técnicos até que finalmente, quando já ninguém acredita que se obterá material de valor para o documentário naquele dia, a presa lá tira umas notas do bolso e o predador deixa-a escapar para a segurança do assento de condutor do autocarro… tava difícil!

 

Voltou ao volante mas ainda não lhe tinha passado a tensão, o homem escorria de suor que nem uma cascata e agora dava mesmo mostras de estar à beira de um ataque cardíaco. Ainda assim, ligou o motor e fez-se á estrada. Poucos minutos depois travava a fundo sem aparente razão, no meio do deserto, o que nos levou a pensar que lhe tinha acontecido alguma coisa, que tivesse sucumbido ao stress da operação! Pelo contrário, tinha parado com uma bruta precisão o autocarro junto a uma carrinha de caixa fechada vermelha estacionada na berma da estrada da qual saíram dois brutamontes encapuçados que entraram no autocarro com grandes sacos de plástico preto e que em poucos segundos recolheram caixas, caixotes e volumes de tabaco, desaparecendo depois a alta velocidade pelo deserto deixando uma imensa nuvem de terra batida para trás! Finalmente o motorista e também o “pica” respiravam profundamente procurando desacelerar o alucinante ritmo cardíaco da última hora. Sem dúvida que a carrinha vermelha e os seus tripulantes faziam parte do esquema e que, levando a mercadoria com eles, tinham posto fim à tarefa dos nossos companheiros de autocarro.

 

O autocarro não chega a andar 3 km quando nos aparece à frente uma carrinha militar turca que ordena o motorista a parar e abrir as portas para uma inspecção exaustiva. Já não havia stress entre o piloto e co-piloto. Agora, de forma provocadora, até mandavam piadas e riam-se descaradamente enquanto os militares, broncos, olhavam aparvalhados para as folhas dos nossos passaportes. Vasculharam o autocarro de ponta a ponta, até uma tampa no corredor do autocarro dando acesso ao motor abriram perdendo imenso tempo. Cumpriram, oficialmente, todos os seus deveres de caça ao tráfico naquele autocarro mas, por outro, não cumpriram rigorosamente nada visto terem chegado tarde demais, por uma questão de minutos, por uma distância de 3 km. Por acaso, por azar? Ou antes porque assim estaria programado, combinado? Não cheguei a perceber na altura e ainda hoje não sei. Não sei se tudo não terá sido um filme muito bem encenado, e não faço a mínima ideia acerca do que viajava dentro das enigmáticas caixas, caixotes e caixinhas…

Luís Garcia, 30.09.215, Lampang, Tailândia

 

 

 

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