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O deus imperfeito – Introdução 3/3

 

 

o deus imperfeito - INTRODUCÇÃO

 

O deus imperfeito RELIGIÃO Luís Garcia

 

Antes de acabar esta introdução, queria trazer a este palco aqueles que nos nossos dias dão pelo nome de padres, bispos, abades e por ai em diante, até ao topo da santa hierarquia. Embora em plena consciência das mudanças sociais e culturais ocorridas no mundo cristão desde o início da era até agora, não vislumbro nesta classe de operários da palavra divina qualquer mudança significativa no seu comportamento quotidiano, quando comparado com o dos seus antecessores, e tal constatação deixa-me inquieto. Não vou negar que mudanças na estrutura e nas instituições da igreja católica não tenham ocorrido, pois felizmente já não se condena hoje à morte na fogueira, como anteriormente, homens cujos únicos pecados terão sido os de demonstrar racionalmente a veracidade das leis físicas por deus criadas. Mas voltando ao quotidiano dos curas e companhia, tirando o árduo trabalho de perpetuar a troca de personagens, só lhes resta a menos penosa tarefa de salvar o único adorado que julgo terem, o corpinho de carne e osso e suas extensões físicas, alimentá-lo e cuidar de satisfazer todos os seus hábitos, vícios e desejos, única santa trindade que eu aprovo e única que estes parecem respeitar, e para isso há que continuar a espalhar a santidade do outro, do deus que tanto citam, não vá este e daí todos os iluminados seguidores se esquecerem de lhes pagar a conta ao final de cada santa missa! Menos duraria assim o adorado corpinho que ainda por cima nem eterno é! Compreendo, mas não aceito. Aceitam apenas aqueles que não me compreendem!

 

Voltando à história do nosso pobre diabo perdido na negra imensidão do nada e que até então nada tinha feito para contrariar essa negridão, parece que um dia se fartou do nada e de nada fazer e pôs finalmente mãos à obra. É disso mesmo que iremos falar aqui no Pensamentos Nómadas a partir de amanhã. Acaba-se a Introdução e começa-se A criação do mundo, que é mais ou menos uma recriação do início do Génesis da bíblia sagrada. Se andarem atentos, irão perceber que esta tentativa de obra literária será, do início ao fim, um género de nova bíblia. Mais ou menos sagrada que a anterior? Iremos...

 

Luís Garcia, 23.09.2015, Lampang, Tailândia

 

 

 

PARA QUEM PERDEU OS PRIMEIROS EPISÓDIOS:

 

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Agarrem que é polícia 3

 

 

 

 CASOS DE POLÍCIA - EPISÓDIO 5

policia a correr bulgaria

 

 

 bw VIAGENS Luís Garcia

 

AGARREM QUE É POLÍCIA 3 (Bulgária, 2008) – Esta estória passou-se no quinto dia do Sudeleste 2008, quando eu e o meu amigo Diogo nos encontrávamos na estação central de Sofia. Tínhamos acabado de sair da carruagem em que viajáramos desde Belgrado na Sérvia e dávamos os primeiros passos dentro da estação onde deveríamos aguardar pela programada mudança de comboio quando, em reacção a uma foto que eu tirei do edifício principal da estação, um polícia búlgaro apressadamente aproximou-se de nós e abordou-me com agressividade. Vociferava – para escândalo dos demais passageiros esperando no cais – acusações absurdas e ofendia-nos toscamente, exigindo que eu lhe pagasse dez euros de multa pela foto tirada "ilegalmente" ao edifício búlgaro, ameaçando de me “arrastar até à esquadra” se não o fizesse! Tentei convencê-lo a ter bom-senso, reflectir no absurdo da sua afirmação e fiz-lhe notar que, na qualidade de cidadão da União Europeia, tinha quase tantos direitos cívicos quanto ele naquele país, e que de forma alguma me deslocaria a uma esquadra sem um fundamento lógico. Além do mais tínhamos um comboio para apanhar daí a um minuto ou dois e não me passava pela cabeça a hipótese de perdê-lo por um capricho daquele estúpido troglodita corrupto. Quando lhe falei do comboio que estaria prestes a partir, o ignóbil polícia aumentou o seu tom agressivo e os decíbeis da sua voz grotesca, garantindo-me que se não lhe desse “imediatamente” os dez euros perderia de certeza o comboio. Estivemos ali brevemente negociando, num surreal e agressivo impasse, quando atempadamente chega o nosso próximo comboio e é informada nos altifantes a sua partida imediata. De repente, uma multidão de centenas de passageiros pouco ordeiros (felizmente, para o caso) começa a corre e a tropelar-se anseando todos obter um lugar sentado. No meio da confusão que se gerou, eu e o meu amigo corremos abruptamente para o meio da multidão, baixando-nos enquanto caminhávamos em direcção a uma das portas de embarque, de forma a nos camuflarmos por entre os restantes passageiros e fazê-lo perder o nosso rasto. O maldito polícia, perdido de raiva vociferava de louco, praguejando incompreensíveis injúrias contra nós! Felizmente, assim que todos os passageiros se encontravam dentro do comboio, este arrancou de imediato (já vinha atrasado). Com todas as portas fechadas e o comboio em andamento, pusémo-nos finalmente de pé, abrimos a janela e colocámos a cabeça de fora para lhe dar o merecido troco de pragas em bom português e gozar eufóricos com o desgraçado, descarregando a carga de stress que tínhamos acumulado por sua causa! Acalmados os ânimos instalámo-nos no conforto dos bancos da nossa cabine, aproveitando o melhor possível o resto do trajecto do mítico Expresso do Oriente que nos conduziria até à cidade eterna de Istambul!

 

Luís Garcia, 21.09.2015, Lampang, Tailândia

 

 

 

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Crise de refugiados sírios. A sério? (PARTE 2/2)

 

 

refugiados sírios 2

  

POLITICA  Luís Garcia

 

Porquê agora?

Bem, para ser honesto, a crise de refugiados não é de agora, e há anos que os países vizinhos da Síria acolhem juntos vários milhões de refugiados sírios, sobretudo o Líbano, a Jordânia e o Irão. Estes 200.000 que a TV garante estarem a caminho da Europa serão, a confirmar-se os números, uma gota de água num oceano de problemas. Problemas este que o português médio desconheceu ou pelo menos não compreendeu, durante 5 anos, com toda a tranquilidade, e não fez o mínimo esforço para saber mais através de fontes de informação alternativas ou pelo menos mais credíveis. De repente, quando os suspeitosos media estupidificantes e os aldrabões (por definição) dos mafiosos políticos no poder dizem que afinal "há problema", as massas acordam e entram em hipnose, em ataque cardíaco ou em crise patriótico-existencial... Enfim, é o que temos.

 

E na Europa, porquê agora? Muito simples. A crise de refugiados sírios na Europa surgiu agora nos últimos 2 meses, não porque tenha crescido exponencialmente o número de sírios fugindo do conflito (pelo contrário), mas sim porque os EUA e o Irão assinaram a meio de Julho um acordo histórico que muda por completo as regras do tabuleiro de xadrez do Médio-Oriente, O acordo era há muito esperado para fim de Junho. Atrasou-se 2 semanas devido às poderosas forças que tentaram sabotá-lo (sobretudo Israel e o Pentágono), mas a inevitável revolução geopolítica começa-se já a sentir. Analisemos as consequências deste acordo por países:

 

Síria

Em todos os acordos a dois, ambas as partes sempre ganham e perdem algo. E por norma o grande, EUA, terá de ganhar mais. Mas o pequeno, o Irão, assegurou um ponto essencial: a estabilidade política e respeito internacional pela soberania do seu aliado predilecto: a Síria. De forma que, assim que se assinou o acordo, o governo de Obama decidiu parar de entregar armamento aos grupos terroristas da Al Qaeda, ISIS e companhia, proibiu a Turquia e os estados árabes do golfo de o fazer e passou a atacar (agora deveras) as posições terroristas.

 

Até agora o que mandava fazer era bombardear instalações civis propriedade do povo sírio, como as refinarias e os poços de petróleo, supostamente para cortar as fontes de financiamento do ISIS que provinham em parte do petróleo roubado em zonas controladas por eles. Duplamente absurdo, e é preciso ser muito ingénuo para acreditar em tamanha palhaçada. Primeiro porque num mundo honesto deveria ser impossível a uma organização terrorista conseguir vender "o seu" petróleo! Então países poderosos como a Rússia, o Irão ou a Venezuela caiem em recessão ou crise económica criadas artificialmente por embargos aos seus produtos de origem fóssil e o ISIS não, saí por aí na boa a vender o seu petróleo e combustíveis no mercado negro! Por favor! E de negro não tinha nada, era bem claro. Os produtos roubados à Síria eram, para quem quis ver, transportados à luz do dia de zonas da Síria controladas por rebeldes para o estado de Israel, metidas em cargueiros na cidade judia de Haifa e exportados na boa para os nossos "civilizados" países europeus! Segundo porque, quando os EUA (falsamente) começam a atacar o ISIS, antes da assinatura do acordo EUA-Irão, não só não bombardeavam alvos militares das forças terroristas como, nas refinarias e poços de petróleo bombardeadas, não matavam terrorista nenhum. Estes foram sempre avisados com antecedência pela inteligência da NATO e as provas em vídeo mostram o bárbaro bombardeio de bens preciosos sírios vazios! Vazios sim, sem pessoas, sem terroristas!

 

 

 

Depois do acordo os bombardeamentos mudaram de estilo. Devido à insubmissão do Pentágono que funciona de facto como um segundo governo de cariz militarista dentro dos EUA e de várias figuras proeminentes norte-americanas (General Petraeus, Hillary Clinton, General Allens para citar os mais activos) com peso político real, Obama viu-se na necessidade de, caso inédito, utilizar a agência da CIA para realizar acções militares convencionais (a CIA é uma agência de espionagem e realiza operações secretas de sabotagem, quedas de regime, capturas, etc. Não faz parte das forças armadas!). Os interesses do complexo-militar-industrial dos EUA não coincidem sempre com os interesses de um dado governo, é verdade. Aqui está um belo exemplo. Bom, mas isso é outra história.

 

A outra consequência importante para os sírios foi a ordem que os EUA deram à Turquia de pararem de impedir a entrada de refugiados no seu território, nem de tampouco reenviá-los para a morte certa nas mãos dos grupos terroristas na Síria, acto quotidiano durante os últimos anos por aquelas paragens. Como era de esperar, em poucas semanas milhares começaram a atravessar a Turquia na direcção das fronteiras de países da UE: Grécia e Bulgária.

 

Ao contrário de há um ano atrás, quando era virtualmente impossível atravessar estas referidas fronteiras e quando o exército turco capturava refugiados sírios para usá-los como moeda de troca na recuperação de militares turcos capturados a combater na Síria contra o exército regular desse país, agora a Turquia aparenta ter perdido a capacidade de controlar as suas fronteiras e toda a gente as atravessa como se não existissem sequer. Como é possível uma absurdidade destas? Não sei, mas tendo em conta que a Turquia possuí um das mais modernas e poderosas forças armadas do planeta, a falta de controlo das fronteiras só pode se dever a ordens vindas de cima: EUA! Paranóia minha? Ok, mas arranjem explicação melhor.

 

Chega-se ao cúmulo de à 2 dias atrás, 17 de Setembro, assistir-se à decisão do governo búlgaro de enviar as suas forças armadas para a fronteira búlgaro-turca, em movimentações cujas proporções parecem tiradas de um cenário de guerra.

 

Dou-vos o exemplo do meu amigo sírio refugiado do qual vos relatei as desventuras vividas na Turquia no artigo À conversa com um refugiado e ex-combatente sírio. O seu maior medo era precisamente o de ser capturado e entregue como moeda de troca por soldados turcos combatendo pelos rebeldes/terroristas. Contei-vos que tentou entrar na Grécia com um passador que lhe exigiu 1500 dólares e que o deixou na merda. Conto-vos que continuou a planear passar ilegalmente, acto que sempre desaconselhei dado o risco de captura e repatriamento (enquanto desertor do deserto regular sírio, esperava-o grandes problemas na Síria se voltasse na altura). Agora com a torneira turca aberta, fiquei a saber há 3 dias atrás que já se encontra na Alemanha, são e salvo! :)

 

Outra alteração importante que influencia o futuro na Síria e, consequentemente, todos os estados que agora venham a receber refugiados desta derradeira avalanche: a NATO que, desde do início do conflito na Síria, tinha inúmeras unidades de sistemas anti-misseis Patriot estacionados na fronteira turco-síria, decidiu retirá-los, mostrando que os EUA não estão nada preocupados com o facto de deixarem essa fronteira vulnerável à entrada de terroristas desobedientes em solo turco. Daí a disfarçarem-se de refugiados e partirem para a Europa misturados com os verdadeiros refugiados vai só um passo.

 

Ou não. Ok, podem me dizer que ainda assim ficam no terreno as forças turcas, igualmente capazes de defender e patrulhar a sua extensa borda com a Síria. Tudo bem. Mas há outra forma, mais fácil e menos perceptível, para os terroristas entrarem na Turquia e no resto da Europa. Se quiserem e/ou se receberem ordens para tal: usar passaportes sírios falsos. É fácil? Sim, facílimo, por 2 razões. Primeiro porque os rebeldes que não eram rebeldes mas sim mercenários estrangeiros pagos pelo ocidente e estados do golfo, jogavam umas vezes o papel de rebeldes, noutras o de terroristas islâmicos. No primeiro papel, o de rebelde, convêm ser-se, por definição, cidadão do país em "guerra civil". Caso contrário é-se invasor estrangeiro e a guerra civil passa a ser guerra de invasão. Como em 95% dos casos eram estrangeiros, encontrou-se uma solução, oferta do governo do Qatar: passaportes falsos sírios a distribuir pelos mercenários incluídos na ficha de pagamento da aventura síria! Isso mesmo! Segundo porque, salvo a República Checa e a Roménia, os estados europeus deixaram há muito de manter relações diplomáticas com a República Árabe da Síria, de modo que não podem consultar as autoridades sírias nem pedir-lhes informação que permita distinguir refugiados sírios de rebeldes/terroristas não sírios. Aqui se encontra o único ponto que poderá satisfazer a cegueira anti-refugiados sírios de algum leitor fascista islamofóbico desatento. Desatento sim, pois poderá satisfazê-lo, sim, mas pelas razões erradas. Vai gritar que "há sempre tinha razão, os bandidos dos refugiados são todos uma cambada de terroristas do demónio!" E eu, em avanço, digo já que não, não são todos, são uma minoria, e não são sequer refugiados esses terroristas. Serão quanto muito terroristas disfarçados de refugiados. Tampouco poderá o fascista europeu culpar os refugiados vítimas há 5 anos desses mesmos terroristas. Não! Culpe antes quem os treinou e os financiou: entre outros, o  governo e forças armadas do seu próprio país! Dói a verdade? Temos pena, é mesmo para doer.

 

Restantes países

As consequências do acordo EUA-Irão para os restantes países e organizações implicadas (Irão, EUA, Turquia, Estados árabes do golfo, Israel e Palestina, Rússia e Ucrânia, Pentágono e Complexo Militar-industrial) serão explicadas no próximo artigo que levará o título de:

 

  • Acordo EUA-Irão e suas consequências geo-estratégicas 

 

Quem são afinal os refugiados da moda?

Para começar, é preciso clarificar a questão. Andamos todos a falar de refugiados sírios ou de refugiados no geral? É que há muitos anos que a Turquia é porta de entrada na UE para emigrantes e/ou refugiados provenientes do Irão, Paquistão, Iraque, Iémene, Palestina, Líbano, Palestina, para mencionar apenas os principais. A Grécia há anos que está atolada de estrangeiros ilegais e o problema começou bem antes da guerra civil síria. E como é óbvio, quando as autoridades turcas fecham os olhos e abrem oficiosamente as fronteiras à passagem de clandestinos, não há forma de distinguir as suas nacionalidades. Daí que, desta "crise de refugiados" sírios que os media tentam nos fazer crer que está a acontecer nos Balcãs, apenas uma pequena minoria vêm da Síria, e dentre aqueles que vêm da Síria, nem todos são sírios, haverão por certo mercenários estrangeiros (rebeldes/terroristas) que aproveitam a porta a aberta para entrar na Europa sem problemas. Perguntem à malta do Pentágono, eles conhecem bem a próxima missão desses mercenários: a Crimeia!

 

Voltando ao tema da origem dos mediáticos refugiados, analisemos alguns números:

 

Haverá mesmo uma crise de refugiados na Europa?

Tendo em conta que a Síria tinha mais de 20 milhões de habitantes antes da guerra à distância (de proxy, como dizem os anglófonos) que o ocidente lhes impôs, e sabendo que os turcos oficiosamente abriram as fronteiras aos refugiados para que estes inundem a Europa, não há forma de perceber por que são apenas 5000 aqueles pontapeados, maltratados e humilhados refugiados que andam para trás e para a frente nos Balcãs, marionetas inocentes da propaganda mediática e dos governos locais que descaradamente multiplicam os eventos provocados em torno daqueles de forma a parecerem 100 vez mais! Mas sim, se tomarem atenção, entre comboios para a Alemanha e Áustria, perseguições e raptos na Bulgária e na Hungria, estamos sempre a falar dos mesmos 5000. Numa Europa que recebe centenas de milhares de emigrantes e refugiados anualmente, vindos dos 5 continentes, não dá mesmo para perceber este Orwelliano aparato mediático!

 

Que os poucos milhares estejam a sofrer e que precisem de ajuda, não à forma de o negar, e estou do lado deles e de quem os alimentar, hospedar e de alguma forma os ajudar. Que aí venham mais também não digo que não pois as condições são propícias. Agora fazer crer que vivemos um Apocalipse de refugiados sírios numa contexto em que semanalmente a mesma quantidade de africanos tenta chegar de barco às costas do sul da Europa. Não, não me convencem, não há nenhuma crise de refugiado sírios na Europa.

 

Vejamos esta tabela. ela indica bem que os números de refugiados na Europa avançados pelos media lunáticos, certos ou errados, não saem da escala das centenas de milhares típicos dos últimos 20 anos (o gráfico começa em 2004 mas é sabido que à 20 anos com a tragédia jugoslava alcançaram-se valores anuais de 700,000 refugiados):

 

JPEG - 14.4 kb Fluxo de emigrantes para a União Europeia (em centenas de milhares), Fonte : Eurostat[/caption]

 

Já li por aí na web que o número de refugiados e emigrantes com Europa como destino atingirá este ano os 700.000. Sim, é grave, mas apenas uma minoria serão sírios, Sim, é grave, para os próprios migrantes e refugiados que fogem de crises económicas e guerra e que vêm agora para a Europa ser explorados. Sim, é grave, mas então e os números idênticos durante a guerra de destruição da Jugoslávia há 20 anos atrás, chocou alguém? Não, foram enormes as vagas de croatas e bósnios que inundaram a Europa e ninguém parece se ter chateado com o assunto. E ninguém parece ter reparado que na sua maioria esses refugiados dos Balcãs eram muçulmanos, sim, muçulmanos? Então e os bandidos não islamizaram a Europa, não incendiaram igrejas, não implementaram a sharia por essa Europa fora!?! Como assim? É que tenho lido também que "essa raça de muçulmanos é toda a mesma merda, todos um cambada de terroristas"? Em que ficamos?

 

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Onde há então crise de refugiados sírios?

Síria

Eu começaria pela Síria onde, de acordo com as informações estatais, quase metade da população encontra-se numa situação de refugiados internos: em acampamentos de refugiados do governo, hospedados por amigos, familiares ou simplesmente por outros concidadãos, entre outras formas. Ou seja, podemos falar de uma quantidade de deslocados/refugiados a rondar os 10 milhões, só na Síria!

 

Líbano e outros estados vizinhos

O Líbano, um pequenito país, 10 vezes menor que o nosso Portugal, além de destruído e empobrecido pelas constantes agressões do estado de Israel e apesar de acolher à décadas uma boa parte dos refugiados palestinianos vítimas da ocupaçao sionista, consegue neste momento acolher entre 700.000 a 1 milhão de refugiados sírios (dependo das fontes), ou seja uma gigantesca avalanche que corresponde a 16% ou 24% de acréscimo populacional. Comparemos estes valores com o 0,04%  de acréscimo de população em Portugal com a vinda dos 4000 sírios e percebemos que o povo luso, se não os quer ajudar, não será por não poder, mas sim por não querer. Não venham portanto com essa cantiga, essa mentira descarada de que "somos um povo hospitaleiro". Não, a ser assim não somos! Igual para a UE, cujos líderes falam de 200,000 refugiados sírios a distribuir equitativamente. Não entendo onde foram buscar esse número. Refugiados potenciais são milhões na Síria e refugiados reais são alguns milhares os que chegaram à Europa. 200,000 parece um número saído do nada, sem explicação. Mas mesmo sendo verdadeiro, numa UE com 508 milhões de habitantes, representará um acréscimo populacional também de 0,04%. Onde está a crise de refugiados na Europa? Andamos a brincar? Crise há sim, no Líbano, mas nenhum europeu parece estar a reparar.

 

A crer nos números oficiais do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, apenas 5% dos refugiados sírios se encontram na Europa. Os outros 95 por cento encontram-se a viver em apenas cinco países vizinhos. São eles: o Líbano, a Jordânia, o Iraque, o Egipto e a Turquia. Estes números são uma boa resposta aos posts e comentários no facebook de fascistas possuídos pelo demónio que insistem em perguntar "por que raio os refugiados querem vir para o nosso país e não escolhem um países vizinhos, árabes como eles e muçulmanos com eles?" Ahhh... mas é precisamente esse o caso!

 

Portanto, sim, há uma crise de refugiados.  Mas não ela não ocorre na Europa! Podem parar com a histeria colectiva porque  não se passa nada que ponha em causa a economia, a cultura ou a liberdade religiosa na Europa.

 

 Os tugas são ignorantes e alguns são fascistas

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Vejam esta apologia do desprezo pelo sofrimento humano! Esta gente que perde tempo a fazer fotomontagens e posts do género acha mesmo que a malta um dia acorda com a preguiça de ir trabalhar e decide passar a ser refugiado!?! A sério? Esta gente não mede o que diz? Não entende os conceitos de estado de excepção e de situação extrema? Acreditam mesmo que esta gente foge da morte, que morre à fome se a ajuda humanitária falha, que morre no caminho da fuga, que morre à chegada,.. porque simplesmente são calões?

 

E o país arrasado, as montanhas de mortos acumulados, os horrores vividos ou presenciados, são acontecimento virtuais? São porventura algum jogo de computador que se "mete no pause para ir dar uma mija"? Claro que não, e então a pergunta que se coloca, perante imagens como a de acima, é: como é que alguém em Portugal, na posse de todas as suas capacidades mentais, poderá acreditar que as razões para a chegada de refugiados sírios são uns T4 mobilados e uns Rendimentos Sociais de Inserção!?!

 

E quanto aos sem-abrigos portugueses (o novo cliché da direita reaccionária e dos fascisóides do costume), só os descobriram agora? Para fazer o quê, comparar o incomparável? Não se pode comparar situações crónicas com situações de emergência. Essa gente pensava assim no rescaldo do tsunami de 2005 na Indonésia? As pessoas morrem ou não numa questão de dias, de fome, de frio, de sede, se forem ou não ajudadas. Nesta situação extrema (acreditando nos números dos nossos governantes europeus) vamos acolher ou não acolher 200.000 pessoas, deixando-as morrer ou não! É só escolher.

 

Em 2005 com o  tsunami no sudoeste asiático morreram 200.000 pessoas. Em reacção a esta catástrofe, a propaganda de ajuda humanitária foi tanta e tão histérica, que em Portugal foram recolhidos fundos suficientes para reconstruir a Indonésia inteira! Exagero, de propósito. Mas a agora que a propaganda é inversa, o mesmo povo lusitano recusa ajudar vítimas de uma catástrofe de guerra. Que se passa com a nossa sociedade portuguesa? Será que ao contrário do que se crê, não somos nada livres nem donos das nossas próprias decisões, antes uns embrutecidos seres de reacções pavlovianas à beira-mar instalados?

 

Sim, há sem-abrigos em Portugal. Muitos. Demasiados sem dúvida, mas não vão morrer 200.000 nem, 20.000 nem 2.ooo nem sequer 200 este mês, quer os ajudemos quer não. E há ajuda, esta gente fascista é que não sabe. Porquê? Porque nunca os ajudou nem teve jamais a mínima intenção de fazê-lo. E quando se encontram com copos até são malta  para se divertir a espancar um velhinho sem-abrigo, magro e esfomeado. Portanto não se armem em virgens ofendidas, suas rameiras fascisóides! E fiquem a saber que 70% dos sem abrigo em Portugal, mesmo que aceitem ajuda alimentar e de cuidados médico (e ainda bem que aceitam, e ainda bem que há quem os ajude), não querem sair da rua. Os outros 30% é culpa vossa, é culpa nossa enquanto sociedade falhada, não culpa dos refugiados sírios que fogem das atrocidades pagas com os nossos impostos. Impostos desperdiçados que davam e sobravam para pagar suites presidenciais a todos os sem abrigos do mundo se não os gastássemos em guerras inventadas no Afeganistão, Iémene, Iraque, Líbia, etc. E ainda teríamos o bónus de não haver refugiados de guerra da Síria para acolher! Vantagem para os fascistas acolhedores de refugiados de má vontade, mas sobretudo para eles (refugiados) que são pessoas de carne e osso, como todos nós, que bebem, comem e cagam, que têm sonhos imbecis ou grandes ambições como nós, que querem ser jogadores de futebol ou actrizes de cinema famosos como os nossos jovens o querem, que não lhes passa pela cabeça vir queimar santuários de Fátima, vir repetir o terrorismo do qual fogem, que não odeiam religião nenhuma pois sabem melhor que nós portugueses viver numa sociedade multi-religiosa, e sei do que falo pois já estive na Síria e noutros países do Médio-Oriente. Sobretudo a Síria de Assad, antes da invasão terrorista estrangeira, era de facto um estado laico. Na mesma rua vi mulheres com véu muçulmano, mulher sem véu e freiras católicas com véu. Num país que apesar de ser vitima de ocupação militar de Israel nos montes Golâs, havia judeus vivendo em paz com xiitas, sunitas, cristãos (junto com os da Arménia são os mais antigos do mundo) e outras crenças menores, até que um dia os nossos rebeldes e os nossos ISIS apareceram.

 

Portanto, não sejam imbecis, não digam que esta gente adora barbárie, que vem exportar terrorismo, e diarreias mentais do género! Seria como dizer que o Aristides de Sousa Mendes era um tresloucado anti-patriótico por ter salvo e trazido uns milhares judeus para Portugal, os quais teriam chegado com ideias de construir em Portugal campos de concentração para os  portugueses, e exterminar os nossos avós em câmaras de gás (bom, exagero talvez. pois já visitei Auschwitz-Birkenau e, tal como diz o famoso revisionista Robert Fourisson, também não vi nem câmaras de gás, nem nenhuma prova contundente sobre a sua existência, nem tampouco lá ninguém me conseguiu convencer de tal). Espero que estejam a seguir o paralelismo. confundir agressor com vitima e, pior, acreditar que o refugiado exportará para o país de acolhimento terror semelhante aquele do qual fugiu!

 

Mas bom, em Portugal (e no resto da Europa) acredito ser possível toda a estupidez imaginável. Sim, acredito que tudo é possível desde o dia em que na minha terriola de Ribamar, concelho da Lourinhã, distrito de Lisboa, se passou esta estória: num belo de sol dia em que estava a dar Portugal-Israel na televisão do Café do Caracol, o pessoal lá presente, e que conhece bem o meu gosto para discutir política internacional, provoca-me dizendo: Ó Luís, já viste, estamos a jogar com os talibãs? E eu: O quê, um Portugal-Afeganistão? Então não era para o campeonato da Europa o jogo? Ah, Israel, estou a ver, mas pessoal, nada a ver! E eles: Sim, sim, isso, é tudo a mesma coisa. E digo eu: Afegãos não são palestinianos, vocês estão a confundi-los, e é mau pois são histórias bem diferentes. Além do mais palestinianos não são israelitas mas sim vítimas do apartheid israelita. Não confundam por favor ocupados com ocupantes! E dizem-me ele: Ah Luís, isso é tudo igual, cambada de barbudos terroristas, fanáticos e de lenço na cabeça! .... Estão a ver o filme?

 

Porque vêm para as nossas terras?

Como já foi explicado acima, estatisticamente NÃO VÊM! É insignificante a percentagem de refugiados sírios que chegou ´´a Europa ou que está a caminho da Europa.

 

No entanto existem outros refugiados e sobretudo, outros emigrantes que não cabem na categoria de refugiados de guerra (mas por que não numa outra de refugiados económicos), e que tentam sem cessar alcançar a terra prometida europeia. A esmagadora maioria vêm do Norte de África e África Subsariana, os restantes do Médio Oriente e da Ásia Central.

 

Foquemo-nos na maioria, os provenientes de África, que por norma chegam de barco às costas europeias do Mediterrâneo e que produzem, estes sim, uma verdadeira crise humanitária, uma crise de emigrantes e, se quiserem, uma crise de REFUGIADOS ECONÓMICOS. Em resumo, ao contrário do que a maioria pensa ou é levada a pensar pelos media parciais, os africanos não são mais pobres que os europeus por causa de serem menos inteligentes, mais belicosos e mais corruptos. Não, e os pretos de Cuba, um país com 100% de alfabetismo e de elevada cultura, está aí para provar que a inteligência não varia em função da raça. Mais corruptos? Também não creio, pois não há corrompido sem corrompedor, e os corrompedores de governos africanos são os milionários ocidentais com impérios económicos mais poderosos que a maioria dos estados africanos. De forma a perpetuar um estado corrupto africano e ao mesmo tempo as vantagens económicas dos ocidentais com quem compactua, há que que armar até aos dentes esse estado africano ditatorial e, com o poder físico dessas armas, reprimir e escravizar as massas desse estado. E de onde vêm essas armas? Do ocidente, uma vez mais. Nove dos dez maiores exportadores de armas são ocidentais. A China é a excepção.

 

A ditadura económica mundial, através das ditaduras políticas africanas que patrocina ou através do apartheid económico que impõe (dívidas eternas, austeridade, implementação de medidas neoliberais extremas), é em todos o caso a primeira responsável pelo empobrecimento das populações africanas e consequente êxodo rumo à Europa. Maquiavélicos perdões de dívidas (ou empréstimos bancários) em troca da aceitação de medidas neoliberais são o pão nosso de cada dia em África. Por cá, em Portugal, estes factos são de todo desconhecidos, daí que o lusitano ache sempre ache que o africano ainda mais empobrecido depois de perdões de dívidas só pode ser calão ou otário, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Também ignora a figura de otário que faz ao aceitar submissamente as mesmíssimas medidas de austeridade e reestruturação macro-económicas que destroem a África, hipnotizados que foram com a trapaça mental de "honrar a dívida".

 

Portanto sim, há uma crise de refugiados económicos, e vêm sobretudo de África. Para não estender mais este tópico, convido o leitor a assistir a um documentário onde a destruição económica dos países africanos é bem explicada com o gravíssimo caso do Gana:

 

Quand le FMI Fabrique la Misère

 

E um outro, que não sendo sobre África mas sim sobre a Jamaica e o México, fornece também uma excelente análise sobre a destruição económica produzidas pelo FMI e Companhia:

 

Life & Debt

 

Outra razão para virem os africanos até às nossas terras é mais recente e mais fácil de explicar. A Líbia rica de Gadafi (maior IDH de África e PIB per capita superior a muitos estados europeus) era um bom destino de emigração para os refugiados económicos de África. Mais, era um estado tampão que inclusive mantinha acordos e parcerias com o governo italiano que ajudavam a controlar e deter as vagas de migrantes rumo à nossa Europa. Com a invasão e destruição da Líbia, apenas porque Gadafi decidiu passar a transaccionar crude em Euros e não mais em Dólares, os estados europeus vassalos dos EUA (sobretudo a França) submissamente perderam uma oportunidade de ouro para tornar o Euro a moeda mais importante do planeta. Mais, abriram de uma vez por todas as portas da Europa aos migrantes africanos que já existiam, mais aqueles que criaram ao arrasar por completo o estado líbio. Tiros no pé atrás de tiros no pé. O patrão Tio Sam agradece.

 

Porquê o súbito interesse da política europeia e dos media pelos refugiados sírios?

Várias hipóteses me vêem à cabeça mas não posso garantir que estejam certas, apenas que possam fazer sentido dados os últimos desenvolvimentos e tendo o conhecimento de eventos históricos semelhantes. Por exemplo, o livro "Os exércitos secretos da NATO", de Daniele Ganser, é uma excelente obra de investigação na qual se podem aprender muito sobre acontecimentos históricos similares e as suas reveladoras consequências.

 

Mas vamos às hipóteses:

 

  • É bem provável que, com o caos e pavor provocado pelo sensacionalismo mediático que amplifica artificialmente a "crise de refugiados sírios", os governos europeus que encomendaram este sensacionalismo estejam a preparar novas medidas e leis que possibilitem travar de forma efectiva a verdadeira crise de emigrantes africanos. Pior, poderão usá-la inclusive para justificar a invasão armada (da qual já se fala abertamente em Bruxelas) da Líbia e outros estados do norte de África pela NATO.

 

  • Poderão estar a preparar o estado de medo propício para nos roubar a nós, cidadãos europeus, a única vantagem que ainda sobra de pertencer à União Europeia: a liberdade de movimentos dentro do espaço Schengen. Na Áustria, na Alemanha e na Eslováquia já há encerramento provisório deste espaço. Entretanto, a definitiva tragédia para os povos europeus que acaba de chegar, o TTIP (Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento), esta completamente ausente nos nossos media nacionais. Ninguém que se informe com jornais da noite, públicos ou correios da manhã jamais ouviu falar de TTIP, o que é grave. É gravíssimo desconhecer a enorme tragédia de que vamos ser todos vítimas muito em breve! E não, não é por acaso que não nos informam sobre o TTIP! Em contrapartida o Kaos En La Red e outros corajosos media alternativos dispõem de muito bons artigos sobre o tema, os quais vos aconselho ler:  http://kaosenlared.net/category/no-ttip/.

 

  • O medo de refugiados sírios e da suposta islamização da Europa produzida pelos media são ferramentas de manipulação muito úteis de controlo da opinião pública, que serão exploradas de forma pragmática quando o terrorismo islâmico criado pelo Ocidente começar a atacar em força Crimeia e noutros alvos escolhidos pelos EUA. Estão para breve e, quando começarem os ataques, estes media irão nos dizer: estão a ver como os fascistas islamofóbicos tinham razão quando afirmavam o seu ódio aos refugiados sírios! Deste modo não só legitimarão o ataque à Rússia na Crimeia com o terrorismo islâmico, como ainda nos farão sentir culpados pelo nosso humanismo de supostas consequências nefastas e abençoarão medidas como o fim do espaço Schengen ou a invasão da Líbia pela NATO. Um tudo em um, uma tremenda embrulhada que estou farto de ver acontecer, e que portanto acredito que se repita em breve. Sobre este tema aconselho a ler, entre outros, o artigo de Thierry Meyssan intitulado "Ucrania y Turquía han creado una brigada internacional islámica contra Rusia". O livro "Os exércitos secretos da NATO", de Daniele Ganser, fornece também excelentes pistas para fazer perceber que, ainda que sem provas, apenas com raciocínio lógico, os atentados de Londres a 7.7.2004, poderão ter sido uma false flag operation iguais às que estavam por acontencer na Crimeia. Esses 4 em atentados de Londres por coincidência ocorreram no mesmo dia em que as forças policiais executavam simulações de 4 atentados, ficando assim convenientemente incapazes de lidar com os verdadeiros atentados. Tenho em conta o que já se sabe sobre a presença de terroristas islâmicos chegados à Crimeira vindos da Síria, já estou adivinhar operações do género nos próximos tempos. Para quê? Ah, é óbvio!

 

  • Preparar a opinião pública, nas vésperas de algum absurdo plano contra o Estado sírio. Uma das grandes alterações estratégicas na Síria desde que os EUA e o Irão assinaram o acordo foi o sub-acordo EUA-Rússia para a instalação de forças militares russas na Síria que serão as responsáveis pela eliminação dos grupos terroristas presentes nesse país, em colaboração com as forças armadas sírias. No entanto os nossos medias ocidentais já começam, ainda que de forma envergonhada, a falar da "invasão russa da Síria", subentendo que será "preciso fazer algo". Anedótico, para não dizer algo mais ofensivo. Não entendo por que razão o governo dos EUA que assinou um acordo que leva à paz na Síria, decidiria em seguida invadir ostensivamente a Síria, muito menos com tropas russas e equipamento militar russo lá dentro (consentidas oficialmente por Obama). Não faz sentido. Ou talvez sim, mas apenas na perspectiva do Pentágono/Complexo-militar-industrial que não esconde a sua ambição desenfreada pela criação de uma 3ª Guerra Mundial. O golpe de estado na Ucrânia e a consequente tentativa de fazer a Rússia perder a sua base naval na Crimeia são um bom exemplo desta ambição. Os russos, bem melhores jogadores de xadrez, reentregaram a Crimeia na sua federação e acabaram com o assunto. Agora poderão estar tentando de novo com a Síria. Os mais importantes representantes eurpeus deste belicismo suicida, como Alain Juppé ou Laurent Fabius, para quem anda atento, andam a fazer passar a mensagem na Europa. Só não vê quem anda distraído

 

A foto de capa deste artigo

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A famosa e víral fotografia do miúdo sírio morto dando à costa não será uma montagem das forças de propaganda governamentais turcas? Vejam esta fotografia censurada nos nossos media e que eu usei como capa do artigo. Não digo mais, apenas deixo-vos a opinião de Thierry Meyssan sobre a foto acima:

 

  • "A parte esquerda desta fotografia foi repetidamente publicada pela imprensa atlantista. A vítima, uma criança síria curda, Aylan Kurdi, é suposta ter sido devolvida pelo mar. No entanto, o seu cadáver está perpendicular às ondas em vez de lhes ser paralela. A presença, sobre a parte direita da imagem, de um fotógrafo turco oficial confirma a ideia de uma encenação. Ao longe, distinguem-se alguns banhistas."

 

Albúns de fotografia que tirei na Síria em 2008

Por último, umas nostálgicas memórias fotográficas desse belo país e desse hospitaleiro povo que tenho todo o gosto em partilhar com o leitor interessado:

o povo       Aleppo       Palmira

Veja os restantes álbuns em Living A Nomad Life.

 

Luís Garcia, Lampang, Tailândia, 19.09.2015

 

 

 

 

BARRA EM CIMA

BIBLIOGRAFIA:

Livros

  • Os exércitos secretos da NATO, de Daniele Ganser
  • Confessions of an Economic Hit Man, de John Perkins
  • Os novos muros da Europa, de Carlos Santos Pereira
  • The grand chessboard, de Zbigniew Brzezinski

 

Páginas da web

 

Artigos de relevo

 

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À conversa com um refugiado e ex-combatente sírio

POLITICA VIAGENS Luís Garcia

 

 

 

ENQUANTO ESCREVO A SEGUNDA PARTE DO ARTIGO "Crise de refugiados sírios. A sério?", DEIXO-VOS AQUI UMA IMPRESSIONANTE E COMOVENTE CONVERSA/ENTREVISTA COM UM REFUGIADO SÍRIO NA ALTURA EM SITUAÇÃO ILEGAL NA TURQUIA. O TEXTO ORIGINAL FOI REDIGIDO NOS MESMOS 2 DIAS EM QUE TIVERAM LUGAR AS CONVERSAS, OS DIAS 21 E 22 DE JUNHO DE 2014, DAÍ QUE SEJA SENSATO LÊ-LO TENDO EM MENTE O DIFERENTE CONTEXTO QUE HAVIA HÁ UM ANO ATRÁS. PARA FACILITAR, O TEXTO ORIGINAL ESTÁ A PRETO, OS ACRESCENTOS DE HOJE, NECESSÁRIOS PARA COMPOR ESTE ARTIGO, ESTÃO A AZUL. MAIS UM DETALHE: ESTE ARTIGO FOI ESCRITO ORIGINALMENTE PARA UM BLOG DE VIAGENS, NÃO DE POLÍTICA, DAÍ QUE NAS PRIMEIRAS LINHAS NÃO SE FALE DA SÍRIA. BOAS LEITURAS:

 

osama fb

 

ENCONTROS MUITO ESPECIAIS EM ISTAMBUL

21-22.06.2014, 17º e 18º dia de viagem

 

Depois de vários dias na estrada, viemos para Istambul sobretudo para descansar e recarregar baterias em casa de Hasan e Matina, um turco e uma grega muito simpáticos amigos de Claire que vivem mesmo no centro da megalópole turca. Que sorte que tivemos, não só pela localização mas pelo acolhimento de gente boa e divertida que nos fizeram sentir em casa o tempo todo. Matina estava muito ocupada a acabar a edição do vídeo-clip para uma nova música pop de merda (enfim, é com estes contratos que pagam as contas) de uma cantora turca (os 2 são jovens realizadores ambiciosos, que ainda há pouco receberam o seu primeiro prémio), de modos que não pôde gastar o tempo que desejava connosco. Ainda assim foram belos os momentos passados juntos, ah e maravilhosa a refeição tradicional turca que nos ofereceram na última noite em Istambul! :)

 

Vídeo-clip pelo qual Hasan e Matina ganharam o prémio nacional de melhor edição (a música é estúpida, sim, mesmo!):

 

 

 

 

O outro grande objectivo da estadia em Istambul era encontrarmo-nos com Osama, amigo de Claire, um jovem sírio muito simpático que em 2010 a ajudara imenso e a acolhera na casa da sua família. Com o ataque dos EUA e aliados à Síria disfarçado de guerra civil, Osama teve de se juntar ao Exército Sírio para defender o país da agressão estrangeira, pese embora em tempos de paz fosse crítico do governo de Assad. Eis portanto um homem sensato e pragmático, que entende que primeiro há que defender o país, depois sim pode regressar às críticas ao governo de Assad e quiçá apoiar uma mudança de regime numa Síria estável, independente e livre de ingerências estrangeiras.

 

Estivemos com Osama na primeira tarde em Istambul onde passeámos pela zona central de Taksim e bebemos uns chás. Para o segundo dia combinámos uma viagem de barco até à Ilha de Kinaliada no Mar de Marmara. Antes de apanhar o barco tínhamos de nos encontrar perto de uma determinada estação de metro da cidade, tarefa quase impossível numa caótica megalópole de 17 milhões de pessoas. Precisávamos de ajuda e obtêmo-la com muita facilidade. Na rua junto à estação de metro perguntámos à primeira pessoa que encontrámos se nos poderia emprestar o telemóvel para telefonar a Osama. Irakli, um gigante businessman da Geórgia, muito simpático, pegou-nos pelo braço e foi nos levar a um ciber-café onde telefonámos gratuitamente e onde ele comprou um cartão SIM novo para si. Depois de entrármos em contacto com Osama, Irakli convidou-nos a segui-lo até um restaurante muito chique onde nos quis pagar uma refeição a cada, as quais recusámos. Ficámos apenas pelos cafés turcos. Do seu telemóvel com o novo cartão SIM telefonámos de novo a Osama para fornecer as novas coordenadas do encontro. Pouco tempo depois Osama apareceu e juntou-se a nós nos cafés turcos bebidos por entre conversas de futebol… ficámos a saber que Irakli era fã e conhecia o nome completo de Eusébio da Silva Ferreira!

 

Luís, Claire & Irakli, o senhor geórgio
Luís Garcia, Claire Fighiera & Irakli, o senhor geórgio

Após nos despedirmos de Irakli, fomos os três então apanhar o ferry-boat para a tal Ilha de Kinaliada onde passámos a maior parte do dia comendo, tomando banhos naquele mar belo e de água tépida (ensinámos Osama a nadar e boiar), passeando e, claro, conversando sobre a sua terrível experiência na Síria. Uma tarde interessante bem passada ao som de músicas de Fairuz, uma magnífica cantora libanesa (conhecida no Ocidente pela música sobre o massacre palestinianio de Bissan), a partir do telemóvel de Osama:

 

 

.

Aqui fica o resumo das conversas com Osama nestes 2 dias:

 

  • Enquanto ex-combatente do Exército da República da Síria, na Turquia, Osama é um alvo a abater e também alvo fácil de exploração e escravização. O Exército da Turquia, fiel cão de guarda do império militar dos EUA, tem sido um dos principais actores na desestabilização da Síria, oferecendo treino e armas aos falsos rebeldes sírios (que nem sírios são), facilitando a sua entrada na Síria e acolhendo os terroristas feridos (os media ocidentais chamam-lhes de “rebeldes” e de “freedom fighters”, enfim) em solo turco. Como é de adivinhar, alguém como Osama, não é bem vindo na Turquia, nem ele gosta de aqui estar, ao ponto de não ter coragem para aprender turco além do básico para sobreviver ao dia-a-dia. Osama tem um medo terrível de ser apanhado (está ilegal aqui, pois claro) e de vir a servir de moeda de troca do governo turco de forma que este possa recuperar soldados e espiões turcos por entre os rebeldes  (aí está, estrangeiros e não sírios) que andaram a combater pelos interesses dos EUA na Síria e que agora se encontram em prisões sírias. Osama não pode voltar à Síria pois desertou ao exército sírio e agora é um traidor da pátria. Deste tema (da deserção) falarei mais tarde. Dadas as circunstâncias, ilegal e mal-vindo, Osama não tem outro remédio senão submeter-se a trabalhos de escravo (18 horas de trabalho por dia) e ser mal-pago, por vezes roubado, não recebendo sequer o salário, Sim, é um inferno a vida dele aqui.

 

  • Osama tentou entrar ilegalmente em território da UE, pela Grécia, mas correu mal, muito mal. Como sabemos há sempre lixo-humano para se aproveitar da miséria humana e Osama foi vítima de um desses dejectos-humanos que lhe tomou 1500 euros (uma fortuna, é preciso passar fome para poupar este dinheiro nas condições em que Osama se encontra) para o fazer entrar na Grécia, e nunca mais apareceu… enfim, lixo-humanos, sim lixo-humano…

 

  • Para nosso enorme choque, Osama confessou-nos que éramos as primeiras pessoas em muitos meses com quem pôde falar livremente e descarregar tudo o que lhe ia na mente. Mas não é facto assim tão espantoso, dado o que escrevi acima.

 

  • Osama fugiu da Síria e desertou por 3 motivos principais, primeiro pelo medo de poder eventualmente matar o seu próprio irmão, algo insuportável para ele (não admira)! Depois porque, num acto rotineiro dos terroristas internacionais que os media vergonhosamente apelidam de “rebeldes”, a localização da sua família foi descoberta por esses monstros-mercenários e a partir desse momento Osama passou a receber de forma constante ameaças de morte para toda a sua família, por parte dos “rebeldes”, caso não deixasse o Exército Sírio. Em terceiro o lugar, a fatiga de um homem comum perante a obrigação de ver e ouvir todos os dias os horrores e monstruosidades perpetradas pelos “rebeldes” ao seu povo e ao seu belíssimo país agora em ruínas.

 

  • Osama passou a ter receio de poder vir a matar o próprio o irmão porque os mercenários internacionais ("rebeldes") raptaram o seu irmão e obrigaram-no a combater por eles. Para quem anda desatento e se deixa levar pela vergonhosa lavagem cerebral dos media portugueses, ovelhas fiéis e domesticadas do imperialismo norte-americano, pode soar absurdo o que aqui digo. Para quem tem seguido de perto o que de facto se tem passado na Síria nos últimos anos, não é nada de novo, apenas um relato, mais um exemplo concreto da “verdadeira” realidade desta agressão disfarçada de guerra civil. Quem anda atento sabe e Osama confirma que a quase totalidade dos “rebeldes sírios” não são sírios, e que a minoria síria dentro dos “rebeldes sírios” foram quase todos lá parar da mesma forma que o irmão de Osama! À força! Quanto aos mercenários estrangeiros, Osama confirmou-me o que já sabia, que a maioria são do Paquistão, Afeganistão e de países do Médio-Oriente, mas assegura que encontrou imensos franceses e também uns quantos de quase todas as nacionalidades europeias. Ah, e muitos tchetchenos, como era de esperar.

 

  • Osama fartou-se dos horrores da guerra, quem não se fartaria, e claro que, enquanto civil normal, não estava nem nunca estaria preparado para presenciar as monstruosidades perpetradas pelos mercenários internacionais extremamente bem treinados na arte do horror. Osama encontrava, relatou ele, com muita frequência, corpos morto com marcas de torturas, ou restos de corpos, ou corpos sem mãos, ou cabeças separadas dos corpos de amigos e pessoas conhecidas. E quanto aos desconhecidos, o mesmo problema, ver corpos que explodiram com gasolina injectada nas veias de civis e militares raptados, obra dos “freedom fighters”! Quem pode suportar tais visões? Ah, uma lista imensa de horrores difíceis de acreditar e que prefiro não continuar a descrever…

 

  • Não admira que este gentil homem que acolheu a Claire em sua casa em 2010, tratando estrangeiros como reis e rainhas (eu tive a mesma maravilhosa experiência na Síria em 2008), admita agora com vergonha que após tanto horror, passou deveras a ter ganas de matar, torturar e fazer sofrer fisicamente o mais possível esses lixos-humanos que trouxeram o inferno para a sua amada pátria… Eu acredito que sim….

 

  • Ainda assim Osama relatou-nos coisas boas também, como a aprendizagem de sobrevivência em condições extremas. Hoje ri-se de quando recusou tomar banho de água fria em pleno inverno, a nevar, pois agora sabe por experiência própria que tomar um banho frio e vestir depois roupas quentes e secas é a melhor forma de activar a circulação sanguínea e forçar o metabolismo a produzir calor. Recorda com nostalgia as muitas vezes que deixou de comer (e os seus colegas também) as rações de combate largadas de helicóptero pela Força Aérea Síria, para as oferecer às populações famintas, sem acesso nenhum a comida. Relatou-nos com sorrisos amargos as vezes em que por erro as rações lançadas de para-quedas caíram em território dos “rebeldes”, vendo-se por essa e outras razões obrigado a comer as poucas ervas secas que crescem no solo sírio, para enganar a forme.

 

  • Osama, desiludido com a humanidade, confessa não entender como ser humanos (“rebeldes” neste caso) podem colocar uma mulher fingindo de ferida no chão, servindo de isco para raptar ou matar soldados sírios! Ou bem pior, Osama criticou ultrajado o acto sujíssimo dos “rebeldes” de mandar ambulâncias atravessar zonas civis ou de militares sírios, garantido (mentira) que dentro seguiria uma mulher a dar-à-luz, para depois fazer explodir a ambulância-bomba provocando grande quantidade de feridos e mortos. Garantiu-nos que ocorreram muitas vezes situações similares até que por fim, os alto-comandos das Forças Armadas Sírias, passaram a interditar quaisquer entradas de pessoas e veículos ou até animais dentro de território controlado pelo governo legítimo. Sim animais também. Osama, que adora animais e que teve como melhor amigo durante parte dos 2 anos e 7 meses de guerra um cão que encontrou na rua, viu-se obrigado por ordens superiores a abandoná-lo, devido ao enorme perigo que representava aquele cão para as tropas sírias. Porquê? Simples, os “rebeldes” lembraram-se de passar de carros-bomba para cães-bomba e mesmo burros-bomba, inserindo as ditas bombas nos estômagos dos animais! Quanto ao seu cão, meses depois de ter sido forçado a abandoná-lo, num incrível golpe de sorte, voltou a encontrá-lo noutro local, magro, ferido e sem forças, mas feliz por reencontrar o seu amigo humano!

 

  • Embora a Rússia negue oficialmente o que sabemos, devido à necessidade de ser politicamente correcta, é um facto que forças militares russas e equipamento moderno russo se encontram na Síria, apoiando o exército nacional. Osama confirma-o e afirma que sem esta ajuda não teria sido possível realizar o “milagre” de reconquistar a quase totalidade do território do país, facto que o deixa muito feliz e descansado pela família que não vê há mais de 3 anos.

 

  • Quanto ao seu irmão, conseguiu fugir dos “rebeldes” e agora encontra-se são e salvo, junto do resto da família, numa zona controlada pelo Exército Sírio. Aqui está, o seu irmão, sírio ex-combatente pelos “rebeldes”, não foi preso ou morto pelo exército sírio por ter traído a pátria, não, pois claro, é antes tratado e bem como vítima que foi de rapto perpetrado pelos mercenário terroristas internacionais. Uma boa prova de quem é quem neste conflito, de quem maltrata ou  trata bem os civis (e Assad aqui marca pontos!). Até a TV portuguesa quis nos fazer crer que Assad teria usado armas químicas contra o seu próprio povo em Ghoutta, apenas porque o palhaço-otário-marioneta do tal Barack Obush assim o disse. No entanto nunca se deram ao trabalho de transmitir as fotos e vídeos dos serviços de espionagem russos que mostraram, para quem quis ver, as preparações e o momento em que um grupo terrorista “rebelde” lançou armas químicas contra outro grupo “rebelde”. Quanto às crianças mortas supostamente pelas armas químicas de Assad de quem de forma primitivamente comovente foram mostradas imagens na TV portuguesa, as mesmas eram procuradas há meses pelos seus parentes. Inclusive a televisão síria passou várias vezes as suas fotos nas informações sobre pessoas desaparecidas, nos meses anterior à "sua morte no ataque químico de Assad". Mais, eram todos alunos da mesma escola, pertencentes à minoria Alauíta da qual o presidente Assad também faz parte! Pensem bem nesta incoerência da propaganda ocidental!

 

  • Ainda assim, como pacifista e anti-militarista que era, e que continua a querer ser, Osama sonha com um mundo sem fronteiras, sem vistos, sem ataques às liberdades individuais, portanto um mundo sem países e, em consequência, um mundo sem guerras… Como pacifista que insiste querer ser, Osama desdenha tudo o que são forças armadas, mesmo as do seu país, pois se não existissem exércitos, armas e mercenários, não haveria guerras nem vítimas delas. Veja-se o exemplo do infeliz episódio que passou no exército sírio depois de ter sobrevivido por milagre a um ataque terrorista dos “rebeldes”: cercados por membros de um grupo fortemente armado de “rebeldes”, o grupo do Exército Sírio em que Osama estava inserido foi atacado e dizimado, sobrevivendo apenas Osama e outros 2 colegas sírios. Quando os reforços sírios vieram resgatá-los, começou um outro pesadelo. Osama e os 2 colegas foram violentamente interrogado por oficiais superiores que os acusaram de serem traidores, espiões dos “rebeldes”, soldados vendidos, uma vez que não podiam crer que os 3 tivessem sobrevivido por pura sorte (que era o caso)! E mais, acusaram-no de ser um soldado fraco, que não deu o corpo e a vida pela bandeira síria! Aqui está o problema de Osama, e meu também, de não conseguir compreender a lógica militarista na qual não existe pessoas no mundo, apenas peças de xadrez num grande tabuleiro planetário. Para um rapaz simples que adora roupa fashion e histórias de amor e romance, a lógica militarista pertence de facto a um outro mundo.

 

  • Um dos piores momentos da sua vida ocorreu quando acabadas quase todas as munições e sem comida nem água, o seu grupo se encontrava cercado por terroristas “rebeldes” fortemente armados. Seguro que iria morrer em breve, telefonou por telemóvel à sua mãe, pedindo desculpas por todos as birras e malandrices que fez a mãe aturar durante a sua infância. Incrivelmente Osama e os colegas resistiram à fome, à sede e às bombas durante 4 dias até que reforços da força área vieram bombardear as posições inimigas e resgatá-los.

 

  • Por último, conto-vos a sua estória no Líbano, no início da sua fuga. Acabado de chegar sem bens nem dinheiro, Osama andou pelas ruas procurando ajuda, sempre sem sucesso. Cansado da indiferença das pessoas que passavam na rua, foi tentar a sua sorte nas mesquitas, pensando que se se comportasse como bom muçulmano, rezando a Alá e seguindo os rituais dentro dessas mesquitas, alguém acabaria por o ajudar. Mas não, passou o dia a rezar em vão, quando o que queria era ajuda para telefonar a um amigo seu, e comida ou dinheiro. Com as mesquitas já fechadas e chuva caindo do céu feito maldição, Osama passou por acaso por um velho vagabundo, com problemas de locomoção. Este colocou-lhe dinheiro nas mãos e pediu a Osama para ir comprar não sei o quê para o mendigo. Osama pegou no dinheiro pensando em ir fazer o que o velho lhe pedira mas, a meio do percurso, teve um momento de lucidez pragmática e, embora contrariado pelos seus princípios morais, usou o dinheiro para telefonar ao amigo e nunca mais voltou a ver o mendigo. Pouco tempo depois recebeu no banco da cidade o dinheiro que o seu amigo lhe tinha prometido emprestar.

 

Apesar de todo o pesadelo que viveu e que vive, apesar das más condições económicas e sociais, Osama obrigou-nos a aceitar que ele nos pagasse bilhetes de transportes públicos e que nos comprasse comida e bebida! Eis a genuína hospitalidade síria de que me recordo com muitas saudades, alguém que dá o que não tem e afirma “ser esta a maior felicidade que pode ter”! Pela Europa, States e limitada, estás palavras dariam muito que pensar se vontade houvesse de as analisar… é tudo.

 

Acrescento hoje, mais de um ano depois deste encontro, que me causam profundo desgosto e nojo todos os portugueses que vomitam descaradas mentiras sobre a sociedade, a cultura e as tradições sírias. Que acusam sem fundamentos o povo sírio de seguir a sharia, num estado laico multi-religioso, imagine-se! Que dizem não querer ajudar nem salvar refugiados sírios pois estes são bárbaros primitivos que nuca ajudariam ninguém na situação inversa. Que mentem quando dizem saber que não há altruísmo nem hospitalidade na Síria. Que sem terem nunca saído da sua aldeia lusitana, juram de pés juntos que ocidentais na Síria são recebidos pelo povo à pedrada e à catanada! Eu li estas e muitas mais barbaridades infundadas nos últimos dias no facebook de vários portugueses.

 

 

Não consigo perceber este ódio profundo contra seres humanos desconhecidos, sejam estes portadores de bons ou maus princípios. Não entendo a teimosia de seguir o obscurantismo e os mitos que causam dano, em vez da informação e da pesquisa que trazem compreensão. Noam Chomsky tem sem dúvida razão quando argumenta que o estado calamitoso no qual se encontra a humanidade não é culpa da máquina, dos grandes mestres ou da ditadura económica mundial (como costumo eu apelidar o imperialismo neo-liberal). A culpa é das massas que compõem essa humanidade. Chomsky explica porquê. Porque "se nunca antes houve tanta propaganda como a que de somos vítimas hoje, também nunca antes houve tão grande e livre acesso à informação". O mal não está na propaganda da SIC ou do Correio da Manhã, está nas mentes daqueles que, desconhecendo de todo a exponencialmente maior hospitalidade dos povos que compõem a sociedade síria, com arrogância e altivez acusam-nos do contrário mais de todos os males alheios reais e/ou inventados.

 

Por tudo isto, por favor, poupem-me dessas tretas de um "povo de brandos costumes", de "somos dos povos mais hospitaleiros do mundo" e baboseiras do género. Não, não e não. Quem nuca saiu da aldeia, quem não tem bases de comparação, quem não se interessa em saber o que se passa nos restantes 99,999% do terreno deste planeta... que não receba refugiados, tudo bem, mas que também não abra a boca para vomitar fanatismo, ignorância e barbárie!

 

Um bem haja aos restantes!

 

Luís Garcia, Lampang, Tailândia, 14.09.2015

 

 

 

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Crise de refugiados sírios. A sério? (PARTE 1/2)

 

 

 

 

 POLITICA Luís Garcia

 

 

I am a Ukranian & companhia

Por norma o povo, e digo isto sem nenhuma conotação paternalista, não gosta de política, não gosta de ouvir falar de política e tem raiva de quem gosta. Citando um dos meus escritores preferidos, Urbano Tavares Rodrigues, numa das suas melhores obras: "só os medíocres ou os egoístas são felizes, uns porque aceitam tudo, os outros porque se couraçam contra dores alheias e, na sua arte de viver, escolhem da existência só o que é gozo e logo fazem esquecer, ou esquecem mesmo, tudo aquilo a que voltam as costas." Tudo bem, não posso criticar quem escolhe este tipo de moral. Pelo menos é uma moral pragmática. Mas tenho moral para criticá-los quando se interessam de súbito por temas que por norma lhes desinteressa de todo. E não por vontade própria, mas antes levados pela avalanche de propaganda e mediatismo simplista. Querem um exemplo recente: "Je suis Charlie".

 

Querem um exemplo bem melhor: "I am a Ukranian", aquele fraco vídeo de propaganda produzido pela organização terrorista NED e hiper-viral no facebook no qual uma má actriz chama ditador ao presidente  democraticamente eleito da Ucrânia e lhe atribui a responsabilidade da violência que foi instalada pelo Gladio ucraniano, de forma a comover as massas ocidentais e convencê-las a apoiar um golpe de estado na Ucrânia como castigo por ter assinado um gigante acordo económico e energético com a Rússia 3 meses antes. Resultado: a Ucrânia é hoje governada por funcionários do FMI, por membros de organizações ucranianas nazis e por criminosos com mandato de captura internacional como o ex-presidente da Geórgia, Mikheil Saakhachvili, que obteve a nacionalidade ucraniana de um dia para o outro e é hoje governador da província de Odessa.

 

A malta não faz a mínima do que lá se passa agora pois, na falta de vídeo virais, desinteressa-se mais rápido do que se interessa por um tema. Por isso não faz a mínima ideia que Saakhachvili não é o único fantoche norte-americano nacionalizado ucraniano com posto de topo na política ucraniana. Querem mais? Mais 3: a ministra das finanças Natalie Jaresko, cidadã dos EUA; o ministro da economia Aivaras Abromavicius, cidadão da Lituânia e o ministro da saúde, Aleksandre Kvitashvili, cidadão da Geórgia.  Sei que enerva muita gente ouvir acusar os EUA de tudo, e que nos acusam aos acusadores de sermos paranóicos com infinitas teorias da conspiração que envolvem sempre os EUA. Mas não, não somos paranóicos. Temos pena mas, se aparece sempre o nome EUA onde haja sofrimento, guerra e horror, é porque eles são omnipresentes nos palcos de violência e guerra. Que mal tem uma pessoa atenta denunciar factos, por mais enjoados que estejam outros  (desatentos) de ouvir o nome EUA associado a verdades desagradáveis?

 

O português andou desatento

 

Voltando à Síria, este país tem sido vítima desde 2010 de todo o tipo de ataques: incursões militares convencionais turcas e israelitas; operações de serviços secretos ocidentais como os 19 militares franceses capturados e entregues discretamente ao chefe do Estado Maior dos exércitos franceses na fronteira com o Líbano; operações de bandeira falsa como as dos ataques químicos em Ghouta; guerra de 5ª geração com EUA e companhia que patrocinam e comandam à distância "rebeldes sírios" que não são nem rebeldes nem sírios; terrorismo extremo financiado por outros países; roubo de petróleo efectuada pelos ISIS e entregue à Turquia e a Israel; destruição de poços de petróleo e refinarias pela aviação da NATO que era suposto andar a bombardear os seus braço terroristas do ISIS e da Al Qaeda. Roubo das instalações industriais e maquinaria pesada do norte do país, levadas pelos rebeldes-ISIS para o leste da Turquia; destruição do património cultural e histórico e da sua imensa e pacífica diversidade religiosa e étnica. Perante tudo isto, e durante todo este tempo o português médio não quis saber pois a guerra passava-se lá bem longe e as vítimas eram "maus árabes".

 

Ataque aéreo à refinaria de Mayadin

 

Ataque aéreo à refinaria de Jeribe Ocidental

 

O português não sabe

O português não sabe e não quer saber que a Turquia, membro da NATO, durante toda este tempo, possibilitou a entrada de mercenários bárbaros na Síria, lhes deu  3 bases de treino militar (Şanlıurfa, Karaman e Osmaniye, esta última curiosamente instalada mesmo ao lado da base da NATO de Incirlik onde estão estacionadas ogivas nucleares dos EUA), lhe ofereceu resgate de feridos e apoio hospitalar a esses mercenários em solo turco e que os apoiou com missões aéreas de ataque a posições do exército sírio.

 

O português não sabe e não quer saber que Israel, o suposto inimigo número 1 do "terrorismo islâmico" é, coincidência do demónio, o único país da região que nunca sofreu um ataque da Al Qaeda, do ISIS ou de uma das inúmeras variações destes. O leitor desatento vai querer me chamar de anti-semítico se me ouvir dizer que Israel é parte integrante do terrorismo. Pois sim, Israel fá-lo e há provas. E não sou anti-semítico por que os povos árabes, vítimas de toda esta ingerência externa são também povos semíticos. E não sou anti-semítico conspirativo pois foi o próprio primeiro-ministro de Israel que afirmou que o ISIS, sendo inimigo do seu inimigo (Síria), era por conseguinte seu amigo! Isto dito num discurso a propósito de um raide da força aérea israelita contra o exército sírio nos arredores de Damasco que deixou estes últimos sem condições para se defenderem do posterior (e sincronizado com Israel) ataque do ISIS a esse batalhão. Resultado: a morte de dezenas de soldados sírios e a captura dessa zona pelo grupo terrorista. Até apareceu no Público, esse folhetim propagandista pró-imperialismo, mas o português padrão parece não ter reparado.

 

O português não sabe nem quer saber que o nome ISIS apareceu do nada, sem explicação, em Julho de 2014. Eu, que costumo seguir atentamente as mínimas mudanças que possam ocorrer no "tabuleiro de xadrez" do Médio Oriente e que na altura por acaso até me encontrava no Curdistão turco, bem perto da Síria, tendo acesas discussões de política com membros do Partido Democrático do Povo (curdo), foi apanhado de surpresa, tal como estes últimos. Abro sites de notícias de propaganda ocidental, assim como site de notícias do contra, e todos me falam do IS, que depois passou ISIS e um sem número mais de nomes.

 

Fiquei a saber na altura que o IS, uns poucos milhares de terroristas muçulmanos vindos do nada tinham, em apenas 2 dias, criado um "estado islâmico" e invadido quase metade do Iraque, um país agora aliado dos EUA e com forte presença de militares nacionais e estrangeiros!?! Estranho no mínimo, não? Não, muito simples. Dias antes o governo de Assad havia informado que as forças armadas da Síria haviam reconquistado 90% do território nacional e que os grupos terroristas (rebeldes patrocinados pelo ocidente) fugiam apressadamente em direcção ao deserto sírio, para zona fronteiriça com o Iraque. Só não percebe quem não quer.  Os mercenários contratados que do lado sírio da fronteira eram "rebeldes sírios" oficialmente apoiados por países com o Reino Unido, a França ou os EUA, do outro lado passaram a chamar-se Estado Islâmico. Podem dizer que estou a delirar, que o ocidente não cria nem muito menos patrocina o terrorismo islâmico. Tudo bem. Então expliquem-me como na mesma semana volatilizam-se milhares de barbudos armados no deserto sírio e criam-se por artes mágicas, ali mesmo ao lado, no deserto iraquiano, um grupo de milhares de barbudos armados. Ou pior, como é que essa macacada derrotada pelo exército de Assad conquista em 2 ou 3 dias um país do tamanho do Iraque sem a ajuda e/ou consentimento de quem os patrocinou na Síria e quem coloniza nesse momento o Iraque: sim, EUA!

 

Mais ainda, por que razão, em vez de serem neutralizados em poucos dias no Iraque pelas forças armadas da maior potência militar da história deste planeta, o raio dos rebeldes/terroristas/ISIS passaram de poucos milhares de feridos mal alimentados a perto de 100.000 homens equipados como um exército moderno. Porque os EUA não quiseram destruí-los. Porque os EUA lhe deram as armas. Porque os EUA criaram-nos! Daí que tenham reentrado em força na Síria e instalado a barbárie que conhecemos agora.

 

O português médio nunca viu este vídeo

 

Não sabe nada e vomita ignorância

O português nunca quis saber de nada que tivesse a ver com a barbárie criada pelo ocidente para destruir a nação síria. Espanta-me agora portanto que a maioria se importe tanto com o tema da vinda de refugiados sírios para Portugal, e não me espanta nada que uma minoria diga agora tanta barbaridade sobre quem desconhece por completo. Este povo que nunca luta por nada, que nunca reivindica nada, que não protesta, que crítica quem faz greves e que elogiam aqueles que apelam submissamente ao honrar de dívidas, este mesmo povo, ou melhor, de entre este povo saem agora milhares de ultra-nacionalistas que apelam ao massacre dos refugiados, que confundem vítimas da guerra com causadores da guerra, que falam de burcas e de leis que nunca existiram na Síria. Andam inclusive a organizar desfiles anti-refugiados para os próximos dias, negando o mais elementar princípio humanista de ACOLHER REFUGIADOS! Vejam, eles andam aí, por exemplo: Não aos refugiados em PortugalPortugal sem IslamismoDefender PortugalPerigo Islâmico.

 

Já encontrei no facebook, este dias, quem dissesse que estrangeiro em terra síria era obrigado a ser muçulmano e comportar-se como tal!?! Dito por gente que nunca saiu da aldeia. Eu estive na Síria e, tal como muitos outros, posso garantir que a Síria era dos países mais acolhedores e de mentalidade mais tolerante que se poderia encontrar, Eu vi com os meus olhos (e tenho fotos) de igrejas católicas na Síria, de freiras católicas passeando na rua, de mulheres sírias vestidas de camisa apertada e jeans mostrando as curvas todas do corpo.

 

  • Vários álbuns de fotografias que tirei na Síria em 2008: CLIQUE AQUI

 

Daí o meu porquê? Porquê tanta raiva, tanto ódio, tanto nojo, tanta baixeza contra supostos refugiados sírios, contra supostas vítimas do mais absurdos crimes que se pode imaginar e que estão de facto a acontecer com o apoio político, económico e militar dos nossos países ocidentais. Como se pode negar o carácter humano a essas pessoas? Ou mesmo negar o seu carácter animal, de seres vivos que sofrem e sentem dor física? Como pode haver portugueses que vomitam tamanho obscurantismo?  Sut Jhally, um realizador, professor universitário e grande humanista, explicou quase tudo o que há a dizer sobre a origem deste fenómeno anti-árabe e anti-muçulmano num dos seus documentários. Aconselho a visualização:

 

Reel Bad Arabs: How Hollywood Vilifies a People (2006)

 

Odiar árabes? Tudo bem.

 

Tudo bem não, brinco, tudo mal! É uma vergonha todo este ódio aos árabes, e é sem dúvida fruto do enorme nível de ignorância de quem o professa. Quem o professa ignora que um décimo das palavras da língua (portuguesa que usa diariamente) são de origem árabe. Ignora que, sem os conhecimentos árabes de matemática, astronomia e navegação, os portugueses nunca teriam conquistado nem escravizado uma boa parte do mundo, facto que tanto faz encher o peito destes nacionalistas anti-refugiados. Ignoram que a arquitectura árabe está um pouco por todo lado no seu país, nas cores usadas, nas formas, nos azulejos, nos tipos de construção. Ignoram, e esta faz doer, que virtualmente todos eles são de uma forma ou de outra DESCENDENTES de árabes, o que faz odiar imensamente a seus próprios antepassados malta obtusa que passa a maior parte do tempo enaltecendo os "feitos gloriosos" dos seus, precisamente, antepassados! Não vale a pena desconversar, a genética confirma-o.

 

Todo este ódio leva ao receio paranóico da islamização de Portugal a ser realizada por uns milhares de refugiados numa população de mais de 10 milhões de portugueses. Tirando a impossibilidade física de fazerem qualquer tipo de revolução cultural no nosso país, já algum desses trogloditas anti-árabes parou para pensar que já existe uma comunidade de milhares de muçulmanos em Portugal, que são pacíficos, que têm as suas mesquitas em solo lusitano, e que jamais estes e estas colocaram em perigo os "valores" da "civilização" portuguesa?

 

Não, não pensam. Republicam vídeos da treta de suposta propaganda do ISIS e acreditam na recriação do Al-Andaluz na península! Metem sacos de lixo preto na cabeça e acreditam que é tudo o que precisam para serem reconhecidos como refugiados e terem direito a casa de luxo e ordenado à patrão. Republicam vídeos de meninas sírias refugiadas no LÍBANO sendo compradas por SAUDITAS ricos como prova de que os refugiados sírios são bárbaros!!! A lista é grande e dá-me dor de barriga segui-la. São inúmeros exemplos do quão, incoerente, nojento e vil pode um ser humano chegar a ser. Para aqueles de estômago forte e que querem saber mais sobre estes monstros-humanos, visitem a página:  Peripécias dos Fachos PT. Estão lá quase todos! Ou então leiam os comentários ao artigo do Por Falar Noutra Coisa: 10 razões para não acolhermos refugiados. São mais que as mães e espumam de raiva por verem um português lúcido fazer troça da boa aos instintos reptílianos de certos portugueses. Muito bons o sarcasmo e a auto-crítica lusitana nesse artigo.

 

Odiar refugiados?

Ok, em condições normais, que odeiem árabes, agora odiar refugiados árabes apenas porque este professam uma religião diferente? Porque vêm supostamente impor burcas e leis islâmicas e não sei que mais!?! Mmmm, estupidez mais, incoerência a mais, ignorância a mais. Senão, onde andavam estes neo-nazis lusitanos aquando da guerra na Jugoslávia? Não se lembram que quantidades semelhantes (sim, semelhantes, vejam as estatísticas dessa guerra) de MUÇULMANOS croatas, bósnios e kosovares vieram para a Europa Ocidental e receberam aí refúgio. Que ficaram nesses países, criaram raízes, tiveram filhos e, ainda assim, esses países nunca se tornaram em estados religiosos muçulmanos! Querem exemplos? Noruega, Suécia, Finlândia, para mencionar apenas três onde passei tempo suficiente para fazer uma análise pessoal. Pode-se facilmente distingui-los dos autóctones pela cor da pele, mas não pelo comportamento supostamente terrorista, fanático e propagador da sua fé!  E não, não fazem atentados terroristas, são apenas noruegueses, suecos e finlandeses de olhos estranhamente negros e pele estranhamente escura. O único terrorista de que se ouviu falar por aquelas bandas foi Breivik, mas esse era loiro de olhos azuis e de linhagem escandinava., ahahah.

 

Por falar em Breivik, no século XXI na Europa este terrorista católico loiro de extrema-direita matou mais que todos os supostos atentados terroristas islâmicos juntos... sim, são factos, números oficiais. Não vale a pena discutir números....

 

PARTE 2

 

Nesta primeira parte do artigo decidi fazer um (impossível) resumo do que de mais importante tem acontecido no conflito sírio e ignorado pelos medias portugueses. Pelos portugueses, consequentemente.

Na segunda parte virei com as tais teorias da conspiração:

 

  • quem são afinal os refugiados?
  • por que vêm para as nossas terras?
  • porquê agora?
  • haverá terroristas por entre os refugiados?
  • de onde vem o interesse súbito da política europeia por refugiados?
  • de onde vem o interesse súbito dos media pelos refugiados?
  • haverá mesmo uma crise de refugiados?
  • quais as consequências do acordo Irão-EUA?
  • o que se vai passar na Síria nos próximos meses?
  • uma pista: Crimeia...

 

Luís Garcia, Lampang, Tailândia, 13,09,2015

 

 

 

BARRA EM CIMA

BIBLIOGRAFIA:

  • Gladio - Os exércitos secretos da NATO, de Daniele Ganser
  • Confessions of an Economic Hit Man, de John Perkins
  • Os novos muros da Europa, de Carlos Santos Pereira
  • VoltaireNet: Síria (http://www.voltairenet.org/mot119.html?lang=pt) VoltaireNet: Turquia (http://www.voltairenet.org/mot122.html?lang=pt)
  • A falsa «crise dos refugiados, Thierry Meyssan (http://www.voltairenet.org/article188626.html)
  • Foreign-born ministers in Ukraine's new cabinet, BBC (http://www.bbc.com/news/world-europe-30348945)
  • Mijaíl Saakachvili abandona su nacionalidad georgiana, VoltaireNet (http://www.voltairenet.org/article187783.html)
  • «Antigos» soldados franceses entre os jihadistas do Daesh, VoltaireNet (http://www.voltairenet.org/article186561.html)
  • Whose sarin?, por Seymour M. Hersh,  lrb.co.uk (http://www.lrb.co.uk/v35/n24/seymour-m-hersh/whose-sarin)
  • Cómo los servicios de inteligencia de Occidente fabricaron «el ataque químico» de la Ghouta, VoltaireNet (http://www.voltairenet.org/article180205.html)
  • U.S. Military Intelligence Involved in Chemical Attack in Syria, por Andrey Fomin, Oriental Review
  • Em direção ao fim do sistema Erdoğan, por Thierry Meyssan (http://www.voltairenet.org/article187903.html)
  • Na Síria, os EUA não visaram o E.I., mas sim instalações petrolíferas (http://www.voltairenet.org/article185467.html)
  • Les États-Unis et le CCG bombardent des objectifs inconnus en Syrie (http://www.voltairenet.org/article185400.html)
  • Por trás do álibi anti-terrorista, a guerra do gaz no Levante, por Thierry Meyssan (http://www.voltairenet.org/article185509.html)
  • US To Begin the Invasion of Syria. Washington Policymakers Call for the Division, Destruction and Military Occupation of Syria, (http://www.globalresearch.ca/us-to-begin-the-invasion-of-syria-washington-policymakers-call-for-the-division-destruction-and-military-occupation-of-syria/5458628)
  • The ISIL is in Ukraine: America’s “Agents of Chaos” Unleashed in Eurasia (http://www.globalresearch.ca/the-isil-is-in-ukraine-americas-agents-of-chaos-unleashed-in-eurasia/5446989)

 

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A guerra na Síria: um flashback

POLITICA Luís Garcia

 

 

Refugiados sírios. Neste momento não se fala noutra coisa na TV, nos cafés ou nos media sociais como o facebook. Porquê? Porque de um dia para o outro o altruísmo europeu cresceu exponencialmente? Não acredito. Porque de um dia para o outro houve um crescimento exponencial de refugiados sírios a caminho da Europa? Não, mentira. Porque há uma crise incontrolável de emigrantes e refugiados? Não, os números desmentem-no. Neste momento "há" refugiados por 2 razões interdependentes: os media criadores de opinião receberam ordem patronal para fazer crer em tal; os dirigentes políticos europeus receberam ordem patronal para mediaticamente fazer com "os refugiados sírios" o espalhafato que nunca fizeram com refugiados de outras origens (na mesma escala de números). 

 

E a força motriz por detrás desta tremenda confusão, desengano e paranóia? Eu aposto que a resposta esta contida no histórico acordo entre os EUA e o Irão assinado em Julho passado, o qual, pela vontade de Washington e contra a vontade do Pentágono, redefine por completo a estratégia politico-militar norte-americana no Médio-Oriente, que passa da Teoria do Caos  (do general  Petraeus, de Hillary clinton, do general john Allens, e companhia) para a divisão do Médio Oriente por 2 súbditos dos EUA. Um antigo: A Arábia Saudita, e um novo: O Irão.

 

Onde entram os refugiados sírios nesta história? Simples: O acordo EUA-Irão inclui ganhos e compromissos para ambas as partes, logicamente. Um dos ganhos principais para o Irão neste acordo será a estabilidade política nos estados aliados do Irão: Síria! Para tal os EUA têm agora de correr contra o tempo e limpar a merda que lá fizeram: terrorismo ISIS/ALQaeda/Rebeldes. Quando mercenários-terroristas pagos, como estes, recebem ordens para sair de um local de trabalho, terão de ir para outro, e neste momento saem a caminho da Ucrânia misturados na "crise de refugiados sírios" que os EUA montaram nestas últimas semanas.

 

Paranóia minha? Ok, fechem a janela do vosso browser agora se vos dá gosto não pensar nem reflectir, se vos agrada seguir obedientemente a propaganda de sempre, se vos assusta a possibilidade desconfortável de uma mudança de 180º na história que se habituaram a acreditar. Caso contrário, convido-vos a ler este artigo em 3 partes que escrevi no início de 2012 sobre o complôt de que a Síria começava a ser vítima, enquanto escrevo este fim de semana um artigo sobre a actual "crise de refugiados". Eu nunca disse ser dono da verdade, posso perfeitamente estar enganado nas minhas análises políticas mas, pelo menos, baseio-me em análise crítica de factos, em comparação com acontecimentos históricos em busca de paralelismos e de clarificadores exemplos passados, esforço que se encontra nos antípodas do que se faz nos jornais e canais de TV nacionais. Aqui fica o artigo de 2012:

 

PARTE 1/3

 

A REALIDADE SÍRIA

 

 Tendo viajado pela Síria no verão de 2008, inclusive por algumas das cidades que hoje fazem as manchetes da nossa ocidental máquina de propaganda, foram várias as situações que me possibilitaram constatar o défice democrático do regime de Bashar Al-Assad, nomeadamente o contacto com a sua população imensamente ignorante e pouco disponível para debater o assunto regime sírio. No país onde se encontra a mais antiga cidade do mundo ainda habitada - Alepo -, e onde algumas das principais e primeiras civilizações ocidentais despontaram e floresceram, é triste constatar que hoje em dia, por exemplo, um estudante do ensino secundário sírio não faça a mínima ideia "onde fica a Europa", e muito menos Portugal, e seja obrigado a ver a cara do seu "estimado" presidente em todas as esquinas e ruas do país. Tal nível ignorância por entre quem é suposto estar mais informado que a média nacional não será por certo obra do acaso. Basta lembrar a famosa saída de Salazar, quando se deu ao luxo de afirmar em público que uma população ignorante era mais facilmente controlável. Será também, creio, o caso da Síria de Bashar Al-Assad. Mas é premente relembrar que Salazar foi eleito O maior português de sempre (Os Grandes Portugueses) por uma população que hoje em dia, diz-se, vive numa democracia. Portanto, quem somos nós para julgar o apoio popular sírio ao seu ditador de estimação, quando nós próprios estimamos o nosso que já não é de uma ditadura que já se foi...

 

Diria mais, felizmente, e ao contrário das farsas de golpes de estado da América Latina, como o Chile ou a Nicarágua, o de Portugal não foi realizado pela CIA em nome dos "interesses nacionais dos EUA", mas sim por civis e militares de baixa patente que aprenderam na guerra do ultramar os ideais da independência, auto-determinação, liberdade e ânsia por democracia. Hoje em dia sabemos, através de documentos do Pentágono entretanto desclassificados que os EUA estavam prontos para publicitar na propaganda ocidental e realizar uma revolução do "oprimido povo açoriano", de forma a garantir a perpetuação da sua Base Militar das Lajes caso o povo português democraticamente decidisse virar à esquerda comunista. Felizmente ou não, os mesmos brincalhões americanos conseguiram, após várias negociações secretas em Bruxelas, limpar tudo o que fosse de esquerda nos governos provisórios que entretanto passaram a ser estáveis, e "recompensados" com a aproximação à CE. Não me parece ser o caso da Síria: os brincalhões americanos, sim, cá estão de novo a engendrar mais uma das suas, querendo isolar em definitivo o Irão pela conquista do seu aliado e vizinho, mas não, desta vez não vão haver negociações secretas em Bruxelas.

 

O DESCONTENTAMENTO SÍRIO

 

Por certo que existem sírios descontentes com o regime em que vivem, e ainda bem. Concordo plenamente que o povo sírio merece mais e melhor mas, tal como no caso de Portugal, tal deverá acontecer pelas mãos do povo descontente entretanto maioritário e imparável. Por muito que quisesse, nenhum ditador até hoje aniquilou a totalidade da população descontente do seu regime, primeiro pela impossibilidade material de o fazer, e em segundo porque seria inútil para si próprio pois perderia o poder de dominar quem até então era seu súbdito. Sim, é certo que pode um ditador dizimar uma considerável parte da sua população, mas a história mostra-nos bem que tais actos foram na maior parte das vezes motivo para o começo de revoltas organizadas.

Não é o caso da Síria actual. Sim, têm havido protestos, sim, tem havido violência e inclusive mortes. Não houveram também protestos, violência e mortes em 2006 em França e em 2011 no Reino Unido? Sim, mas e o que nos disse a nossa caixinha mágica e a sua propaganda? Mmmm, que os motivos da violência eram infundados, que os seus perpetradores eram anárquicos, terroristas ou bandidos, e que, na sua óbvia minoria não representavam a vontade popular gaulesa ou britânica. Pois bem, que seja. Mas então, e que dizer de protestos de 100 ou 1.000 ou 10.000 sírios num país com mais de 20 milhões de habitantes?

 

O APOIO POPULAR A BASHAR AL-ASSAD

 

Se até à poucos meses não seria de esperar encontrar na Síria muitos sírios vindo à rua demonstrar um improvável apoio ao seu ditador, hoje, graças às evidências de um golpe de estado sendo programado externamente, mais o medo da perda de soberania para o ocidente, mais o medo da guerra e barbárie trazida pelos EUA e a NATO, multidões de centenas de milhares de cidadãos encontram-se nas ruas com cartazes de apoio a Bashar Al-Assad e posters deste, sendo atacados e mortos não se sabe bem porquê nem por quem.

 

De tal maneira um facto que numa pesquisa feita à 5 minutos no google por imagens de "protestos na Síria", a maior parte dos resultados apresentavam imagens de manifestações de apoio ao presidente. Mais, boa parte das imagens anti-Al-Assad são de protestos ocorridos fora da Síria e, para cúmulo propagandista, encontram-se também muitas imagens de manifestações pró-Al-Assad erroneamente rotuladas de manifestações anti-Al-Assad. Dois bons exemplos desta muita baixa e vil propaganda em língua portuguesa: Exame.com.br ou Veja.com.br, do Brasil e, mais rídiculo ainda, este de um site português, que mostrando uma foto de apoiantes de Al-Assad, afirma que "os protestos contra o Governo de Bashar Al Assad já fizeram mais mortos": tvnet.sapo.pt. Se se prestar atenção aos resultados nos motores de busca, é espantoso notar que, pese embora a maioria das fotos seja de manifestações pró-Al-Assad, mais de metade destas contêm de facto títulos afirmando o contrário ou estão anexadas a notícias afirmando também o contrário! O mesmo acontece, com seria de esperar, com várias outras línguas.

 

Voltando ao apoio popular a Bashar Al-Assad, é triste constatar que um ditador seja agora apoiado pelos seus súbditos por força de temerem os mal maiores acima citados, que é como quem diz, graças à farsa de golpe de estado inventada pelos EUA com o objectivo mais que óbvio e até já confessado de cercar cada vez mais o Irão, o povo sírio apoia agora aquele que antes mereceria ser atacado e retirado do poder pela vontade popular. Mas, de um ponto de vista pragmático, o povo sírio está a rumar no sentido certo. Importante, por agora, é evitar ser mais um palco para as chacinas norte-americanas: sangue, morte, destruição, violência, terrorismo, perpétua incerteza e instabilidade. Apesar de tudo, na Síria vê-se TV, e ninguém quererá no seu país aquilo que viram e vêem acontecer no Iraque e no Afeganistão. Se forem bem sucedidos e/ou os pesos pesados da geo-estratégica mundial não permitirem desta vez uma invasão norte-americana, terão então todo o tempo do mundo e quiçá até mais discernimento sobre os seus direitos enquanto cidadãos sírios para derrubar popularmente o seu ditador e presidente Bashar Al-Assad.

 

Luís Garcia, 7 de Fevereiro de 2012, Toruń, Polónia

 

PARTE 2/3

 

REPRESSÃO DE PROTESTOS CIVIS

 

 Não nego que ocorram protestos civis na Síria contra o regime anti-democrático estabelecido, nem tampouco nego que protestos pacíficos do género sejam reprimidos violentamente pelas forças policiais e/ou militares. Mas interrogo-me sobre a dualidade de critérios exposta nos media ocidentais sobre a matéria. De cada vez que se organiza uma cimeira da organização terrorista da NATO, ou do G8 agora transformado em G20, os protestos civis e pacíficos são tratados sempre da mesma forma: carga policial, jactos de água, cidadãos presos, tudo isto dentro de países supostamente democráticos. A propaganda mediática ocidental apresenta-nos como sendo normal oprimir e violentar os nossos próprios povos - nós - para que se silencie as vozes descontentes sobre reuniões de senhores que se protegem (de nós) com múltiplas barreiras de segurança, milhares de forças especiais, snippers, helicópteros e tanques de guerra. Tudo isto, ocorrendo no ocidente dito livre, aparece na caixinha mágica rotulado de normal, óbvio, banal. No sentido inverso, quando protestos pacíficos são reprimidos num país não democrático noticia-se "o horror, a tragédia"! Não deveria ser ao contrário, não deveria a nossa (supostamente) livre imprensa questionar os porquês de tanto aparato militar em torno de quem nos quer (supostamente) bem, para os proteger precisamente de nós próprios e, mostrar-se menos surpreendida e menos sensacionalista sobre medidas anti-democráticas tomadas em regimes manifestamente não democráticos?

 

Podemos ir ainda mais longe: por que razão os nossos media não separam o trigo do joio, explicando a quem não esteve presente numa dada manifestação anti-NATO que 95% dos manifestantes eram pacíficos, apenas entoando cânticos e levantando cartazes, e que sempre, mas sempre mesmo, aparecem posteriormente, nunca se sabem bem de onde nem porquê, um pequeno grupo de gente encapuçada entrando a partir, incendiar e espancar? Eu sou levado a crer que estes encapuçados, desprovidos de quaisquer mensagens políticas ou ideológicas sejam trazidos e preparados por quem entende e bem que é preciso dividir para reinar, e de preferência espalhar o caos informativo, mas mesmo que não, mesmo que esses 5% de arruaceiros sejam genuínos manifestantes, será legítimo espancar e prender todo e qualquer manifestante que tenha o azar de passar demasiado perto de "agentes da ordem"? Se o é, então para que raio se espantam os mesmos media com a repressão de protestos na Síria? Brincamos?

 

E ainda estou para ver acontecer na Síria o que aconteceu à algumas semanas atrás nos EUA: um grupo de adolescentes, manifestando-se pacificamente, sentados no chão em silêncio, teimando em não arredarem pé, ser violentamente atacado por um grupo de policias; enquanto alguns orangotangos lobotimizados seguravam nas vítimas, outro abria os olhos destes à força, e um outro pulverizava gás mostarda nos olhos...

 

MODUS OPERANDI

 

Se existem protestos pacíficos, existem outros, menos pacíficos e certamente não enquadrando a definição de protesto, que têm sido a maioria, logicamente atacados militarmente pelas forças armadas sírias. São também estes protestos de que mais se ouve falar nos media ocidentais. Digo "protestos" porque assim lhes chamam os ditos media, mas são de facto grupos armados atacando alvos por vezes militares mas, na maioria das vezes, civis. Qual é a reacção óbvia e esperada de um líder de um país, democrático ou não, perante manifestos ataques bélicos? Ripostar, pois claro. Qual é o espanto?

 

A mim o que me espanta é que haja armamento em tão grandes quantidades nas mãos de supostos civis, organizados assim, a partir do nada, sem dinheiro nem conhecimentos para adquirir armamento, mas fazendo-o, pelos vistos, num ápice, como se os lança-rockets, as espingardas, os jipes, e até mesmo os tanques caíssem de para-quedas. Mmmm, às tantas caiem mesmo de para-quedas! Afinal já vimos o mesmo acontecer na Líbia, onde ao terceiro dia de protestos já havia futura bandeira oficial e até um banco revolucionário com 50 mihões de dólares em depósitos. Se um bando de nómadas analfabetos do deserto líbio consegue realizar improbabilidades tais, por que não haveriam de o conseguir também os citadinos sírios...

 

É claro que a Líbia não passou de uma farsa, com 20 figurinos disparando para o ar no deserto, uma mesma explosão ser noticiada como sendo 2000 diferentes explosões, idosos do deserto líbio expressando-se na CNN com um inglês claramente superior ao meu, manifestações encenadas nos estúdios da Al Jazeera em Doha (facto confirmado e admitido pelas "forças revolucionárias" líbias). Ou a melhor de todas, 20 putos na praça principal de Tripoli atirando para o ar, acompanhados ao fundo por fogo de artíficio, supostamente festejando a libertação da dita praça (depois ficou-se a saber que "estes factos" foram encenados um estúdio da Al Jazeera em Doha, Qatar). Estranho foi constatar que 3 dias depois, uma multidão de gente apoiando Gadafi encheu a "libertada" praça, levando Gadafi filho aos ombros. E poucos dias mais tarde, a mesmíssima praça recebia uma manifestação pró-Gadafi com mais de 1 milhão de pessoas (um sexto da população total).

 

Quando uma manifestação na Indía passa a revolta na Líbia

 

 

 

Revolução líbia filmada em estúdios de cinema da Aljazeera, Doha, Qatar

 

 

 

Teatralização muito fraca de um jornalista "atacado" pelo maus gadafianos

 

 

 

Manifestação pró-Gadafi, 1 de julho 2011

 

 

 

Exponho aqui o caso líbio porque é o mais recente e mais óbvio exemplo de golpe inventado e orquestrado por forças externas, ridiculamente incoerente e cheio de mentiras. A comparação com o caso sírio é necessário pois vislumbra-se o mesmo modus operandi: surgimento ilógico e repentino de uma oposição armada e com recursos económicos espantosos. Em contraponto estão as revoluções populares, sim populares, ocorridas na Tunísia e no Egipto, Nessas sim, o lógico e expectável aconteceu: milhões de pessoas cansadas dos seus regimes ditatoriais vieram para a rua, novos e velhos, mulheres com crianças ao colo, jovens, todos "armados" de tachos para fazer barulho e cartazes com slogans anti-regime; todos dispostos a permanecer dias ou semanas na rua num protesto pacífico, muitos até com tendas montadas nas praças principais. Houve violência também, sem dúvida, mas vinda sempre das forças policiais e militares dos regimes em questão, pois os povos tunisinos e egípcios, protestando contra ditaduras apoiadas e suportadas pelo pragmático ocidente, não viram cair do céu armamento algum. E esperaram, esperaram até os regimes caírem. Este segundo exemplo egípcio-tunisino nada tem a ver o caso sírio.

 

INTERVENÇÃO EXTERNA - FASE 1

 

Estamos portanto, claramente, perante uma intervenção externa na Síria, incentivando e patrocinando a violência necessária a instalar o caos no país, levando consequentemente à queda do regime vizinho e aliado do Irão e também restante quadrado de xadrez em torno do estado persa que ainda não é controlado política ou militarmente pelos EUA. E do ponto de vista pragmático do Pentágono, tem de passar a ser, o mais brevemente possível, umas vez que os mestres Sionistas vão demonstrando já claros sinais de impaciência pela demora do ataque militar ao Irão.

 

A forma de pôr em prática a intervenção externa, pelo menos na primeira fase - a actual-, é em tudo semelhante ao exemplo líbio. A diferença está na maior desconfiança global sobre a veracidade da estória que vão tentando vender e, acima tudo, na tomada de posição da Rússia e da China. Portanto o processo foi colocado em marcha da mesmíssima forma, mas não foi bem tão "vendido" e os interesses geo-estratégicos são aqui divergentes.

 

 Os passos seguintes começam a ser já preparados, mas engana-se quem julgar que esta primeira fase chegou ao fim. Ainda ontem aterrou em Beirute, no Líbano, um misterioso avião com carga proveniente dos EUA e do Brasil, contendo "uma enorme quantidade de dólares americanos, armas, passaportes especiais e cartões de crédito. O Ministro dos Negócios Estrangeiros Libanês assegura que esta carga interceptada tinha como destinatários membros da Al Qaeda que têm continuamente entrado na Síria através da fronteira libanesa. Nos últimos meses tem sido inúmeras vezes noticiada a entrada em território sírio de armamento ilegal através da referida fronteira.

 

Em alternativa à introdução ilegal e secreta, existe outra, também ilegal mas internacionalmente aceite graças à propaganda mediática anti-regime-sírio: fazer passar a ideia de que o próprio povo oprimido pediria ajuda externa para aquisição de armamento ou pediria para ser bombardeado! Incrível manobra de propaganda, mas bem real, e ocorreu também na Líbia. Numa revolução verdadeira, a última coisa que o povo comum quererá é a guerra (civil ou não). O povo não quer violência, quer o fim da opressão que possa existir. No máximo, perante a impossibilidade de tornar a revolução efectiva e perante o manifesto massacre de civis, o povo pediria ajuda a forças externas do tipo "capacetes azuís" para criar uma barreira física, um zona tampão que os protegesse. Jamais pediria ajuda para bombardear e destruir a sua própria nação. Veja-se a revolução tunisina, a egípcia, a romena ou até mesmo o nosso 25 de Abril? Alguém pediria ajuda militar para destruir as suas cidades mais importantes como Lisboa, Porto ou Coimbra? Eu não o faria, mas à poucos dias atrás o Conselho Nacional Sírio (coligação das forças de oposição ao regime do Presidente Bashar al-Assad) fê-lo.

 

INTERVENÇÃO EXTERNA - FASE 2

 

Em breve, a intervenção externa, tal como no caso líbio, poderá ser directa, através do desembarque de forças dos EUA e da NATO. Se ainda não aconteceu, deve-se à clara oposição russa e a tímida oposição chinesa. À poucas semanas atrás a Rússia estacionou um navio de guerra num porto sírio, e agora, junto com a China, vetou a mais recente resolução da ONU contra a Síria, sabendo perfeitamente que não vetando, os mestres ocidentais da reinterpretação daquilo que eles mesmos ditam levariam as forças armadas dos EUA e dos seus estados súbditos a invadir militarmente a Síria.

 

Desapontados com o veto sino-russo, os EUA já deixou transparecer nos últimos dias que poderá tomar uma decisão unilateral, desrespeitando o veto à resolução da ONU. Para o levar a cabo tem 2 trunfos que estiveram pouco presentes na Líbia.

 

O primeiro é a Turquia, pais com fronteira terrestre com a Síria e segundo maior exército da NATO. Se à um ano e meio atrás o governo turco surpreendeu pela positiva apoiando, juntamente com a Venezuela e o Brasil, o programa nuclear iraniano, ao ponto até de se oferecer para parceiro económico do Irão na obtenção de urânio enriquecido, agora a Turquia volta a dar-nos mais do mesmo: apoio ao expansionismo militar norte-americano, certamente por influência nos bastidores dos senhores defensores da Turquia republicana e militar. Se por um lado o governo actual é oficialmente pró-islâmico, por outro, as constantes ameaças de golpe por parte de militares turcos de alta patente pró-NATO e pró-EUA obrigaram o governo turco a rever as suas iniciativas de afastamento ao ocidente e de aproximação ao mundo islâmico. A propaganda destes deverá ser neste momento de tal forma pungente dentro da Turquia, que cheguei ao ponto, nos últimos dias, de discutir e rever algumas amizades que tinha com alguns turcos, pois estes, apoiantes de uma Turquia laica e republicana (que eu também apoio), parecem já não conseguir fugir à lógica extremista dessas forças republicanas turcas pró-EUA que além de uma Turquia laica e republicana, aceitam e incentivam também as invasões norte-americanas no médio-oriente. Amigos meus turcos, laicos e republicanos, mas que sempre se mostraram solidários com a causa palestiniana e contra o domínio dos EUA, mostram-me agora que mesmo as classes mais cultivadas e de mentalidade mais aberta na Turquia estão a cair na propaganda pró-guerra. E assim, com um inesperado apoio popular turco, mais a vontade expressa da facção militar turca, é bem provável que a Turquia invada a Síria.

 

Coincidência ou não, foi precisamente depois do exército Israelita cometer o mediático atentado terrorista em águas internacionais turcas que resultou na morte de 8 civis turcos e um norte-americano, que a Turquia voltou atrás para a sua posição pró-NATO. Só tinham 2 escolhas, e antagónicas, manter-se firme no repúdio ao assassínio dos seus cidadãos e quebrar de vez a sua relação militar e estratégica com a NATO/EUA por estes serem "defensores incondicionais de Israel" (como nos relembra frequentemente Barack Obama), ou engolir mais uma, em nome da perpetuação do estado turco que segundo a facção militar republicana se deve exclusivamente à inclusão da Turquia na NATO, voltando a aceitar ou até mesmo participar directamente no terrorismo israelo-americano sempre em marcha na sua vizinhança.

 

Depois temos Israel, parte directamente interessada no derrube de um dos únicos estados amigos do Irão. Certamente que a elite militar e política sionista vê a intervenção militar ocidental na Síria como o último e derradeiro passo para estabelecer o cenário requerido para o assalto ao Irão. E quando há vontade por parte das forças Sionistas, o resto é fácil, muito fácil graças à mais moderna, mais sofisticada e mais rebuscada máquina de espionagem e terrorismo de estado: a Mossad. Com o apoio do know-how Sionista, será por certo muito mais fácil introduzir armamento e dinheiro na Síria, armar e organizar guerrilhas, criar documentos falsos e introduzir agentes infiltrados, fazer propaganda interna e mobilizar apoios dentro e fora da Síria com o objectivo de fazer cair o regime de Bashar Al-Assad. Não seria nada de novo por aquelas bandas, têm os meios e vontade para tal e, essencial, entram e saem no sul do Líbano quando querem, encontrando-se portanto em posição privilegiada para comandar as operações de tráfico na fronteira entre a Síria e o Líbano.

 

Luís Garcia, 8 de Fevereiro de 2012, Toruń, Polónia

 

PARTE 3/3

RÚSSIA E CHINA

 

"Moscovo criticou o facto de o documento manter uma oposição contra Assad mas não referir os oponentes que lutavam contra o Governo. “A não ser que [a condenação] funcione para ambos os lados, estão a tomar partido numa guerra civil”, disseram as autoridades russas, citadas pela Reuters, na reacção ao veto da China e da Rússia.

 

À algumas semanas atrás assistimos à chegada de um navio russo à costa síria carregado com armamento, em claro desafio ao embargo de armas imposto pelo ocidente à Síria, e mostrando também que a Rússia não tolerará uma outra invasão como a da Líbia tão perto da sua zona de influência, e ainda menos contra um país (de facto) aliado.

 

Agora temos a Rússia e a China juntas no veto à mais recente resolução do conselho de suposta segurança da ONU que permitiria mais um ignóbil ataque a um estado soberano. Para a China uma invasão ocidental na Síria representaria certamente o passo final para o tão prometido ataque ao Irão, algo impossível de ser aceite por uma China em grande crescente económico e altamente dependente do petróleo iraniano. E impossível de ser aceite por uma China que já não pode tolerar mais crescimento territorial e militar norte-americano.

 

Diria mais, uma China altamente focada em relações externas basicamente resumidas a trocas comerciais e interdependência económica aceita desde já algum tempo, e de forma bem pragmática, todo e qualquer tipo de regime como parceiro económico, desde que haja algo para negociar, comprar ou vender, recusando-se na medida do possível a patrocinar ataques a potenciais parceiros. A China é portanto hoje um estado adverso a conflitos armados, compreendendo que pouco terá a ganhar e muito a perder, mesmo no caso de uma intervenção pela recuperação da sua ilha de Taiwan ocupada militarmente pelos EUA.

 

Quanto à Rússia, esta vê o cerco norte-americano apertando-se cada vez mais, rodeada de países aliados dos EUA ou ocupados por estes, onde proliferam bases militares e agora escudos anti-mísseis que desafiam descaradamente a soberania russa, empurrando o velho gigante soviético para o seu espaço de influência mínimo que é agora e quase apenas o do próprio território da Federação Russa. Portanto, mesmo que tradicionalmente a Rússia sempre tenha optado pelo jogo duplo, agradando a gregos e a troianos, vez sim vez não, e mesmo que depois de ter aceite uma invasão na Líbia fosse lógico que recusasse em seguida uma na Síria, o facto agora é que a Rússia não pode mesmo deixar que tão estratégico país caia nas mãos dos EUA. É portanto de esperar uma intervenção directa em defesa da Síria em caso de agressão, que é como quem diz, melhor mesmo que o ocidente desista desta farsa de revolução antes que nos precipitemos para um conflito armado que depressa chegaria à escala global. Melhor, muito melhor, deixar se instalar de vez a segunda guerra fria, desta vez mais difusa entre 2 potências (Rússia e China) menos ideologicamente diferentes do ocidente, mas agora com mais argumentos (recursos energéticos, poder económico, poder militar) que desafiam a hegemonia desejada pelas elites norte-americanas.

 

REACÇÃO DO POVO SÍRIO

 

Aleppo

Enquanto Aleppo foi controlada por Assad, o povo sírio tinha a liberdade e segurança para se manifestar na praça principal e afixar as bandeiras da SÍRIA, RÚSSIA e CHINA. Depois, com a "libertação" efectuada pelos "rebeldes" foi o que se viu....

 

Melhor que escrever aqui umas linhas sobre o assunto, será certamente partilhar o que foi inesperadamente publicado no jornal português de propaganda pró-EUA, o jornal Público. Começa a ser de tal forma difícil de ignorar o facto de que o povo sírio vê com bons olhos a ajuda russa para o cessar desta vergonhosa farsa, que até já dá para passar no filtro da censura ocidental este tipo de frases:

 

"Imagens difundidas pela televisão estatal mostram multidões em júbilo, gritando “Obrigado Rússia! Obrigado China!”, ao longo de uma das principais avenidas de Mazzé, na via circular de Damasco, no caminho do aeroporto para o centro da capital onde Lavrov – acompanhado do chefe dos serviços secretos externos russos, Mikhail Fradkov – se vai reunir com Assad, na tentativa de encontrar uma solução para o conflito que se arrasta há mais de 11 meses no país.

 

“Viemos aqui em nome do povo sírio para agradecer a Moscovo, a quem seremos eternamente gratos”, explicou um dos manifestantes, entrevistado pela televisão estatal, que descreveu o evento como uma “homenagem ao apoio da Rússia à Síria, ao seu povo e às reformas em curso”." (Público, 07.02.2012)

 

REACÇÃO OCIDENTAL E DA SUA MÁQUINA DE PROPAGANDA

 

A embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas, Susan Rice declarou-se “enojada” pelo veto e disse que “qualquer continuação da sangria [na Síria] vai estar nas vossas mãos”, referindo-se à China e Rússia.

 

“Qualquer Governo que brutaliza e massacra o seu povo não merece governar”, disse ontem o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

 

Sem dúvida, pois sim, e que dizer de governantes norte-americanos que brutalizam e massacram povos alheios, quer através de invasões declaradas como as do Afeganistão e Iraque, quer através de movimentos subversivos como na Líbia e neste momento Síria? Que dizer de si próprio portanto, caro Barack Obush, porta-voz incongruente da ditadura económica-militar?

 

E a melhor para mim, a reacção do nosso triste palhaço e Ministro dos Negócios estrangeiros Paulo Portas:

 

“Treze países, incluindo a África do Sul, a Índia e o Paquistão, e representando a diversidade da política internacional e todos os continentes, votaram a favor do texto [resolução contra a Síria vetada pela Rússia e pela China], expressando um muito amplo apoio da comunidade internacional aos esforços da Liga Árabe para a resolução pacífica da crise na Síria”

 

“todos os países europeus, africanos, asiáticos e os Estados Unidos votaram favoravelmente [a resolução, representando] um consenso muito alargado.”

 

"[Não fazer nada é] condenar o povo sírio a um autêntico massacre. (...) mais dia, menos dia, a comunidade internacional vai ter de fazer alguma coisa sobre a Síria” [pois] todos os dias o massacre continua”.

 

Mocinho de recados reles este Portas. Por que raio mostra-se tão chocado com a decisão sino-russa! Qual amplo apoio da comunidade internacional? Boa parte da América Latina rejeita qualquer intervenção externa na Síria, nomeadamente os Países membros da ALBA: Los países del ALBA denuncian la injerencia de los «Contras» en Siria. Qual consenso? Num mundo com 193 países reconhecidos pela ONU, de que serve que no Conselho de Segurança (CS) 9 tenham votado a favor, 4 abstido-se e 2 tenham votado contra? O CS composto de 15 países não representa a vontade mundial. Mais, apenas 5 têm poder de veto, os restantes fazem figura de ursos, participando na farsa de um CS equilibrado. Mais ainda, dos 5 com poder de veto, 2 são estados vassalos dos EUA: o Reino Unido por vontade própria e a França por força das circunstâncias. Digamos que temos um poder de veto tripolar, e desta vez houve 2 países contra a intervenção, Rússia e China, e um a favor: EUA e dependências. A maioria tem sempre razão, não é caro Portas? E depois, porque não exprime o senhor Portas descontentamento democrático quando vezes sem conta os EUA vetam sozinhos resoluções contra o terrorismo do estado de Israel? Resoluções que vêem da Assembleia Geral da ONU com os votos a favor da quase totalidade dos 193 países membros, mais umas quantas abstenções e 2 votos contra dos EUA e de Israel? Ou porque não se revoltam os fantoches da laia do senhor Portas quando os EUA intervêm militarmente em países soberanos, desafiando os vetos do conselho de segurança? Aliás, é o que está prestes a acontecer, os EUA já na passada semana fizeram passar a ideia que pretendem intervir mesmo à margem de uma resolução favorável na ONU. E é lógico que o senhor Paulo Portas e o semelhante lixo-humano verão com bons olhos tal medida. Portanto, vetando ou não, ou desrespeitando mesmo os vetos dos outros, os EUA, para estes vendidos, estará sempre certo. Agora Rússia e a China, por exercerem o seu direito de veto, são firmemente criticados e vaiados, mesmo que a população do país em causa, a Síria, tenha mostrado o seu contentamento com o veto, saindo à rua às centenas de milhares... Culpa de quem democraticamente elege este tipo de lixo-humano como o senhor Portas...

 

Cabe portanto a nós, opinião pública, informar-se e informar, lutar contra esta feroz propaganda que nos tenta vender o imperialismo bélico das elites norte-americanas. Não deixemos esta farsa acontecer! Não deixemos cair o soberano estado da Síria!

 

Luís Garcia, 14 de Fevereiro de 2012, Papiškiai, Lituânia

 

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Caça à multa em Varsóvia

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CASOS DE POLÍCIA – EPISÓDIO 4

 

 bw VIAGENS Luís Garcia

 

CAÇA À MULTA EM VARSÓVIA (Polónia, 2010) – Uma estória muito breve, que decidi partilhar para provar que peripécias com polícias não são coisas do passado e que não são exclusivas dos países pobres e corruptos do sudeste europeu (Bulgária, Roménia, Moldávia e Ucrânia). Este percalço aconteceu no centro do centro de uma das mais modernas e cosmopolitas capitais europeias, Varsóvia. Encontrava-me à saída da estação central de comboios onde tinha ido me informar sobre os horários do comboio Varsóvia-Vilnius, numa cidade em que o trânsito é habitualmente caótico e onde nem sempre os sinais estão presentes ou bem visíveis. Depois de descer a escadaria da estação parei à beira da estrada, tentando perceber de que forma poderia atravessar para o outro lado da rua. Não vi passadeiras nem pontes pedestres e, dado o enorme tráfego, hesitei em atravessar. Entretanto, um grupo de pessoas saiu da estação e atravessou a estrada exactamente onde eu me encontrava. Respirei fundo, medi a velocidade dos carros que se aproximavam e, passados alguns segundos de hesitação, executei incólume a arriscada travessia. No momento em que cheguei ao outro lado um carro da polícia polaca acelerou em contra-mão na minha direcção. Vinham passar-me uma multa pela infracção que cometera. Anedótico, no mínimo.

 

Com tanta gente cometendo a mesmíssima infracção (inclusive enquanto os dois polícias me interpelavam), por que razão haviam decidido passar multa ao único moreno de barba preta de mochila às costas e máquina fotográfica na mão? Elementar, caça ao guito estrangeiro! E foi precisamente por aí que construí a minha argumentação, interrogando-os acerca do motivo de multarem apenas a mim e não às centenas de polacos que haviam cometido a mesma infracção durante esse dia. A agente da polícia, que passava já a multa e que falava fluentemente inglês (ao contrário do bronco do seu colega), apontou para o fim da rua indicando-me uma longínqua passadeira quase sumida de velhinha e tapada por carros estacionados por cima dela em ambos os lados da estrada. Ah, perdi a paciência e fi-los perceber que assim mais absurdo se tornava o caso!

 

Muito irritado e enervado disse-lhe que “fossem passar multas aos carros estacionados por cima da passadeira! Fossem passar multa a polacos que têm a obrigação de estar a par da referida passadeira escondida, mas nunca a um estrangeiro! Que fossem mandar pintar de novo a passadeira praticamente sumida. Pagava a multa pois não tinha alternativa, mas para mim aquilo era um assalto à minha carteira provocado pelas más condições da cidade e não pela minha decisão de infringir a lei polaca! Que era uma vergonha para a imagem de país moderno que os polacos tentam passar da sua nação em renascimento!”.

 

Entretanto, vejo um polaco mesma à nossa frente atravessando a estrada, arriscando prodigiosamente a sua vida caminhando calmamente entre os carros passando a alta velocidade. Chamei-lhes a atenção para o que estava acontecer ali mesmo à nossa frente e, apontando para o rapaz atravessando a rua disse-lhes: “Agora só pago a multa se aquele pagar também!” Quando acabo a frase e antes da polícia me responder um outro começa a atravessar a estrada em frente ao carro da polícia. A agente da polícia olhou para o seu colega, depois para mim, encolheu os ombros e respondeu-me: “Bom, vá lá em paz. Podes guardar o dinheiro”. Eu, que tinha as notas já na mão, voltei a arrumá-las na carteira. Sem muitos salamaleques, virei as costas aos engraçadinhos e segui o meu destino…

 

Luís Garcia, 08.09.2015, Lampang, Tailândia

 

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Laos, o pesadelo do viajante

 

 

 

 VIAGENS Claire Luís Garcia

 

Depois da Tailândia fomos para o Laos, um país de altíssimas e intermináveis cadeias montanhosas. Alto foi também o preço a pagar para as poder ver, muitíssimo alto, sem dúvida.

 

Na República Popular Democrática do Laos, tudo e qualquer coisa tem um preço, até mesmo ajuda. Um bom exemplo foi o caso que se passou na Embaixada do Vietname em Vientiane, onde um funcionário laociano nos propôs que “comprássemos-lhe“ a ajuda de nos dar de volta os nossos passaportes uma hora antes do estabelecido quando este apenas precisava de abrir uma gaveta e de lá tirar os passaportes já prontos com vistos e carimbos. Recebemos muitas propostas do género pelo caminho, inclusive enquanto fazíamos boleia, quando os pouquíssimos condutores que paravam não andariam mais que meia-dúzia de quilómetros sem nos perguntar “quanto pagas para andar mais ? “, por muito ricos ou muito pobres que fossem !

 

À chegada a Vientiane, o que primeiro nos chocou foram os preços, muito mais altos que em Banguecoque ou Lisboa. Depois, descobrindo pouco a pouco o quão artificial é a cidade (prédios acabados de construir, nada de histórico, um monte de edifícios para um sem-número de mais ou menos úteis repartições públicas, produtos caríssimos e todos os serviços possíveis e imaginários para turistas…), pensámos ainda assim que a capital fosse um caso isolado.

 

No entanto, quando começámos a nos afastar de Vientiane, percebemos que seria de todo impossível viajar num país onde aos estrangeiros cobra-se sempre preços especiais para tudo o que possa ser comprado (o dobro do preço, o triplo e muito mais), onde não existe uma economia real e no qual cada insignificante acto de vida (ou melhor, de sobrevivência) tem um preço. E mais, uma vez que os turistas aceitam com todo o prazer dar dinheiro de mão beijada por toda e qualquer razão (por mais absurda que seja), um estrangeiro é pura simplesmente visto como sendo um multibanco ambulante.

 

À nossa maneira aprendemos que, num país no qual a bandeira comunista ondeia literalmente em todo o lado (vimos milhares delas), o conceito de propriedade privada reina acima de tudo. E mais, que neste pseudo-comunismo, as gentes impiedosamente recusam nos dar bens de primeira necessidade que nunca ninguém antes nos recusou no país vizinho da Tailândia ou em qualquer outro país capitalista por nós visitado na Europa ou na Ásia.  Por exemplo, encher uma garrafa com água sob um sol escaldante enquanto pedíamos boleia à beira de uma estrada cheia de pó ! A sério, um estrangeiro poderia morrer à beira da estrada por um motivo ridículo que por certo nenhum laociano reagiria. Bom, minto, por vezes reagiam ironicamente, fazendo troça da nossa miserável condição… que adorável este povo! Outra necessidade básica, água quente para preparar um café ou uma sopa instantânea quando tínhamos frio ou fome, para esquecer, ninguém no Laos daria. Preferem mandar fora !

 

Fomos para Vang Vieng com o objectivo de ver as belíssimas montanhas que rodeiam o imenso vale, desprevenidos do facto que estaríamos a entrar no mais conspurcado e extremo ambiente turístico onde uma pessoa (estrangeira), imagine-se,  tem de pagar para passar uma ponte pública a pé (o bilhete falso é imprimido por um cabrão aldrabão laociano que vive ao lado da ponte e que depois os vende às manadas de turistas ovelhescas, seres sempre prontos a mandar dinheiro fora). Se uma pessoa decidir passar sem pagar, o mais certo é encontrar-se de seguida à bulha com três macacos laocianos (pessoas, queríamos nós dizer) ou, andar 1 km até à próxima ponte (esta sim privada) feita em bambu e que termina dentro de água a 2 metros da margem, daí que um pessoa ou a sua mota tenham que entrar na água (carros não passam )! Para quem tenha uma viatura de 4 rodas, aconselhamos que passe na ponte anterior à velocidade máxima possível e que passe por cima desses bandidos vendedores de bilhetes falsos. Vang Vieng é ainda uma pequena e muito artificial cidade cuja razão de existência reside no facto de multidões de turistas lobotimizados virem embebedar-se à grande para de seguida fazerem “tubbing” e serem literalmente tratados como gado. Van Vieng é ainda esse inesperado destino turístico no qual se podem comprar bilhetes de comboio para viajar num país que não tem nenhumas linhas de comboio.

 

Ainda assim, tivemos por lá um momento de liberdade quando alugámos uma scooter e fomos andar às voltas sem destino pelas montanhas que se estendem pelos céus com impressionantes formas, aproveitando deste modo para nos afastarmo-nos do gado turista. E sim, não havia um único turista naquelas maravilhosas montanhas a apenas 15 km de Vang Vieng. Numa das aldeias entre as montanhas e Vang Vieng, até as crianças com que genuinamente brincámos na água vieram no fim nos pedir dinheiro! Ahhh, obrigado raio de turistas obtusos que por lá passaram antes!

 

Por sorte encontrámos a pousada ChiLao Gueshouse onde os donos vietnamitas, sem dúvida as mais gentis pessoas que havíamos encontrado até então no país, nos trataram com imenso respeito e muita bondade, como se fossemos convidados especiais. Durante a nossa estadia na pousada tivemos a oportunidade de conhecer Holger Eichinger, um designer alemão com uma mente repleta de boas ideias e de espírito pronto a abrir os olhos sobre diveros temas. Sem dúvida uma excelente companhia para passar um serão conversando e bebendo cerveja fresquinha.

 

Cansados de esquemas, impiedosos laocianos e dada a impossibilidade de obter preços honestos e reais na compra das mais básicas necessidades de um viajante, decidimos procurar refúgio usando a plataforma online Helpx, a qual permite encontrar part-times de curto prazo em troca de comida e casa. O sim veio de Nathalie, uma canadiana dona de uma piscina (La Pistoche) em Luang Prabang e que aparentemente “precisava de ajuda “ de vários tipos. Infelizmente,  após 10 anos vivendo no Laos, Nathalie não é em nada melhor que os locais. Além de escravizar trabalhadores locais pagando-lhes 0,30€/hora numa piscina/restaurante onde uma sanduíche custo pelo menos 3€, Nathalie não mostrou interesse algum nos seus “trabalhadores de intercâmbio“ (nós) e mostrou-se incrivelmente ingrata para com o intenso trabalho de reparação e bricolage que efectuámos no seu estabelecimento. O plano era de ficar pelo menos 2 semanas para recarregar baterias e poupar dinheiro… 1 semana depois partimos ainda mais cansados e sonolentos, uma vez que todos os dias éramos acordados antes das 7 da manhã pela música em volume máximo que saía do sistema de som do estabelecimento, ligado pelos imbecis dos funcionários laocianos. Inferno na terra!

 

Em Luang Prabang reencontrámos Ilaria, a viajante italiana que conhecêramos no Templo de Kaochee um mês antes na Tailândia. Ao contrário de antes, deixara de viajar só e andava agora na companhia de outras 3 viajantes italianas que encontrara por acaso. Com elas passámos uns bons momentos conversando, felizes por conviver  com viajantes verdadeiras que sempre com bravura e muito entusiasmo se fazem à estrada. Já com muitas aventuras para contar, estas viajantes contam sobretudo com a boa sorte e com a sua perseverança, e pelos vistos funciona bem assim a viagem. Possivelmente havemos de nos encontrar de novo algures neste planeta.

 

Ainda em Luang Prabang travámos conhecimento com Camille, um francês nascido no Haiti, que aparentemente conhecia todos os estrangeiros que passavam em qualquer lugar que fossemos. Camille sonhava de explorar o sudoeste asiático enquanto viajante mas não tinha noção de como fazê-lo nem por onde começar. Daí que, ainda em Luang Prabang, quando fugimos da ingrata máquina de fazer dinheiro chamada La Pistoche, convidámo-lo a partir connosco. No dia seguinte lá estava ele à nossa espera na estação de autocarro, momento a partir do qual passámos a constituir um trio de viajantes.

 

A semana seguinte passámo-la em Oudom Xai numa pousada/casa-de-alterne esperando que Camille resolvesse os seus problemas com o visto para o Vietname. Aqui descansámos imenso, tirámos as melhores fotos no Laos (albúm) e fizémos amizade com as prostitutas excitadíssimas por ter um potencial cliente negro chamado Camille (não tiveram sucesso, apesar da insistência).

 

Após Oudom Xai experenciámos o único dia de genuína viagem no Laos, quando saímos da dita cidade e nos fomos perder no interior profundo, longe da estrada principal. Em Ban Kat fomos encontrar genuínos seres-humanos como por hábito acontece em qualquer lugar que viajemos, um grupo de agricultores que nos ofereceram jantar, duche e um lugar para dormir numa das suas modestas casas, com toda a simplicidade do mundo. Isto era tudo o que precisávamos e mais, ficámos muito felizes por constatar que, apesar de tudo, é possível se sentir humano no Laos…

 

Para mal dos nossos pecados a experiência de viajem agradável não durou muito e pouco depois estávamos de novo à mercê da impiedosa venalidade que reina no Laos. Para definitivamente nos enojar deste país, tivemos que andar a fugir de ladrões que convenceram a polícia que erámos nós e não eles os desonestos. Gente que queria ganhar uma imensa quantidade de dinheiro num curtíssimo período de tempo e que pensara que poderiam fazê-lo conosco.

 

Em poucas palavras, o incidente passou-se assim : a 2ª boleia do dia avançou-nos 8 km. Na aldeia onde parámos o condutor perguntou-nos em laociano se nós aceitaríamos pagar 3.000 kip por pessoa em troca dos 15 km de boleia até ao nosso destino (coincidente com o dele). Também em laociano dissemos que sim e perguntámos 3 vezes se tinha a certeza acerca dos 3 MIL ! Três vezes respondeu que sim. Nós pensámos “tudo bem, 0,30€ a cada é um preço simbólico, para ajudar a pagar o combustível. Por norma não pagamos quando fazemos boleia mas neste caso aceitámos dado o valor diminuto e a simpatia  do condutor. Quando chegámos a Muang La, o nosso destino, o condutor e amigos pediram-nos não 3.000 kip mas sim 300.000! 100.000 cada, ou seja, 10€!!! Situação banal no Laos. Oferecemos 10.000, mais que o original 3×3000 kip, mas o condutor recusou. Daí que lhes tenhamos virado as costas e partido sem mais palavras. No primeiro sítio que encontrámos para parar, tirámos as nossas catanas das malas e caminhámos em direcção ao rio que passa na cidade. Enquanto nadávamos, um grupo de pessoas rodeou Camille que estava sentado à beira-rio. Um laociano que se apresentava como sendo polícia muito rudemente pediu-nos o dinheiro e os passaportes. Incapaz de provar que era polícia (e não era de facto, apenas um parente do condutor),  gritámos bruta e ostensivamente a todos eles, ameaçando-os de usar violência se não partissem. Chocados, não mexeram um milímetro sequer durante uns momentos, depois partiram. A caminho da estrada principal onde planeávamos recomeçar a boleia só para sair daquela maldita aldeia, fomos encontrar num cruzamento polícia militar esperando-nos com kalashnikovs e um camião. Queriam nos levar para uma esquadra, a última coisa que uma pessoa poderia aceitar em tal circunstância. Uma vez mais recusámos agressivamente, chamando-os de “gangsters mafiosos “ e decidimos ultrapassar a barreira de veículos na estrada caminhando entre estes. Sim, nós não deveríamos falar desta maneira para as autoridades, seria um comportamento suicida em qualquer outra parte do planeta, mas não no Laos. E nós sabíamo-lo bem! No Laos, de forma a libertarmo-nos de todo o género de laociano desumano, sempre tivemos que falar com agressividade. Por vezes não funciona e uma pessoa vê-se obrigada a passar ao nível seguinte: ser agressivo. De qualquer maneira, ou éramos levados à força pela polícia até à esquadra ou jamais lá iriamos. E portanto não fomos pelos nossos pés, virámos-lhe as costas e continuámos a caminhar, impossibilitados de fazer boleia ou apanhar um autocarro uma vez que a barreira de carros da polícia e dos amigos do condutor paravam toda a gente avisando-os para não nos levarem. Caminhámos 3 km, gritando constantemente aos militares “vão se embora, deixem-nos em paz“,  mas estes não faziam caso. Nunca se aproximaram muito de nos com o seu camião mas também nunca pararam de nos perseguir. Que situação surreal! Exaustos, stressados, cheios de sede e queimando sob o sol com as nossas pesadas malas às costas desistimos e parámos para nos refrescármos à beira de um rio. 2 polícias civis vieram ter conosco de scooter e pediram-nos os passaportes. Olharam para todos os papelinhos sem valor dentro do passaporte de Camille e não deitaram olho nem por um segundo às páginas com as nossas identificações e com os vistos para o Laos! Trogloditas! Abandonamo-los sem dizer nada e caminhámos de novo na estrada principal. 200 metros depois fomos encontrar uma nova barreira para nós, desta vez apenas com polícias civis acompanhados pelos parentes e amigos do maldito condutor. Durante mais de uma hora fizemos o nosso melhor para fazer os polícias entenderem que deveriam prender o condutor e NÃO nós. Mas fazer o quê, eles também eram laocianos, ou seja, descerebrados. Apenas queriam falar do raio do pagamento. A estória acabou quando por fim conseguimos convencer o polícia menos deficiente mental que, no Laos, 200 km de autocarro custam 6 euros, logo 15 km de boleia não podem custar 10 euros, sobretudo quando não se tratava de um autocarro ou táxi fazendo o percurso de propósito para nós, mas sim uma simples carrinha de caixa aberta conduzida por um local que aceitou nos levar com ele até ao seu destino previsto: Muang La. Depois deste espantosa iluminação na mente de uma pessoa laociana, pegámos nas malas e voltámos à estrada em paz, sem ninguém a perseguir-nos… ufffff!

 

Centenas de situações negativas, na sua maior parte insignificantes, outras bem mais sérias, tiveram lugar no Laos enquanto por lá andámos, nesse país “comunista“ onde nada é “público “ nem “em comum“, e  onde ninguém toma conta de nada nem de ninguém de graça, de uma forma “socialista“… Os laocianos são horríveis para com os estrangeiros, mas não são muito melhores entre eles e para eles próprios. Ultimo exemplo: no último lugar que visitámos no Laos, Muang Khua, num cyber-café, perguntámos à pessoa de serviço se falava inglês. De forma arrogante e bruta disse que não e virou-nos literalmente as costas. Conclusão: perdeu clientes que estavam prontos para pagar pelo seu serviço de internet e que de certo teriam tentado comunicar-lhe em laociano depois de um “no“ em relação ao inglês. No dia seguinte, quando passávamos por acaso na mesma rua, ouvimo-la a falar em bom inglês com 2 clientes que ainda assim também lhe fugiram segundos depois. Enfim, um exemplo perfeito do que é, na nossa opinião, a sociedade laociana.

 

Tudo isto percebemos agora melhor, depois que descobrimos que o Laos é o 3º maior produtor de heroína do mundo, e também depois de constatar que, sim, apesar da grande pobreza que se encontra um pouco por todo o país, o Laos é Um País de Mafiosos, e sem dúvida que os turistas contribuem imenso para tal… sabemos do que falamos… ah, se tivéssemos tempo para lhes contar o imenso resto…

 

Albúns de viagem na Laos:

 

Claire Fighiera & Luís Garcia, 5.09.2015, Lampang, Tailândia

 

 

 

 
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10 razões para não gostar de selfies, por Luís Garcia

 

 

10 razoes para nao gostar de selfies

 

Luís Garcia  SOCIEDADE TECNOLOGIA

 

Dez razões para não gostar de selfies? Só dez???

 

PESSOAS MORREM

Sim, pessoas morrem fazendo selfies. Não são muitas, ainda, mas como é uma doença que se propaga através de um vírus, e o nome do vírus não é HN1 qualquer coisa, desta é que acredito que haja uma ameaça real de extinção da espécie humana. Gripes das aves? Ahhh, para meninos. Como é que o vírus de selfies ataca o organismo? Boa pergunta. Por enquanto parece não haver um padrão lógico. Em Julho de 2015, uma jovem russa de 21 anos morreu enquanto tirava uma selfie encima de uma ponte de Moscovo; há dúvidas se a causa da morte terá sido a vedação fraca que de facto cedeu ou a selfie que terá mesmo chegado a ser tirada. Em Maio de 2015 Mohammed Aslam Shahul, natural de Singapura, morreu de selfie em Bali enquanto fazia a transição a pé do fim de uma falésia para o início do céu vazio. No mínimo bizarro. Pouco antes em Iași, Roménia, uma adolescente de 18 anos que se encontrava encima de um comboio, terá morrido de selfie ou morrido electrocutada com 27000 volts provenientes dos cabos eléctricos que ligam ao comboio. Ou as duas coisas. A lista é grande, o mistério adensa-se mas, ainda assim,  há indícios reveladores: as vítimas são no geral jovens e bastante retardadas.

 

Hoje mesmo, enquanto fazia a edição final deste artigo, recebi a notícia que Deleon Alonso Smith, um jovem norte-americano de 19 anos, morrera horas antes tirando uma selfie com uma arma de fogo na mão, a qual acreditava não estar carregada. Ainda restam dúvidas quanto à gravidade da epidemia?

 

Um conselho para todos os governantes deste planeta (excepto para Putin): sigam as medida pioneiras do governo russo e do seu ministério do interior e comecem a promover campanhas de sensibilização que ensinem aos seus cidadãos mais toscos de pensamento como não morrer de selfie. Vejam o cartaz da campanha do ministério do interior russo intitulada "Segurança selfie":

 

 

Um conselho para as empresas produtoras de selfie-sticks e de smartphones com câmaras de fotografar passíveis de ser usadas para tirar selfies (portanto todas), antes que seja tarde demais: antecipem a onda de processos de indemnização milionários em tribunais e voluntariem-se o quanto antes para incluir nos vossos produtos horríveis etiquetas semelhantes às obrigatórias nos maços de tabaco. Do género: Selfie mata, com a cabeça de um chico-experto esmagada dentro da boca de um leão. Ou frases eloquentes como: "Está a ver este cancro? Não vai chegar a tê-lo. Selfies são mais eficazes."

 

SÍNDROME DO SOZINHO EM CASA

Em casa, um adulto ou um adolescente amante de selfies e com um smartphone na mão é, para efeitos práticos, uma criança tola lá deixada sozinha. Já toda a gente conhece as consequências, vale tudo! Rachar a cabeça para partilhar a obra no Instagram. Empacotar garrafas de ketchup com celofane em volta da cabeça para mostrar às gajas boas adicionadas no facebook o quão se é "cooool", Sufocar-se, uma vez mais, com celofane enquanto se deforma propositadamente as feições de uma cara feia, tornando-a horrível. É, há que dar valor, uma mensagem subtil a transmitida neste último tipo de selfie. "Ah tás a ver, eu tou feia na foto, tipo, mazé só porque me apeteceu javardar, se não, tipo, tás a ver, sou bué da linda, mesmo!" Mas não, não me convencem. Toda a gente sabe que só gajas feias se metamorfoseiam-se em coisas pior, na vã esperança de chamar a atenção de algum macho que sofra de miopia, e se for para acasalar o macho tem de tirar os óculos com lentes fundo de garrafa antes da gaja tirar o celofane.

 

Uma variação desta síndrome que me causa um pavor especial acontece quando alguém tira uma selfie de grupo convencido de que está sozinho em casa. Ou convencidos, ou atordoados pela febre do vírus da selfie. A minha favorita é a da adolescente com tiques de call girl que se põe a tirar selfies em roupa em interior em frente a um espelho e -  jazus, que paralisia mental - nem repara que a sua avó do bigode maior aparece na foto de pernas escancaradas e roupa suja, lendo na paz do sofá da sala de estar a secção do Correio da Manhã dedicada às violações de adolescentes "vítimas" de predadores sexuais do mundo virtual! Também gosto muito da da MILF poderosa que, na loucura de partilhar as curvas desnudas online, se esquece que o filho de 3 anos  ficou em casa com gripe e é fã de selfies de grupo! Uma variação desta variação é a moda de tirar selfies na casa de banho com figuras públicas natalícias como o Mr. Hankey The Christmas Poo. Uma moda que pelo vistos veio para ficar... 

 

A minha razão para não gostar destas brincadeiras é que um dia mais tarde, quando contra todas as probabilidades, estes artistas acordarem para a vida, já não mais apreciarão o facto de estarem vivos, e acabarão eventualmente por pedir ao nosso querido Mr Hankey, como prenda de natal, uma morte prematura, de preferência contraindo o vírus de selfie.

 

elfies estupidass copy

 

PALHEIRO DIGITAL

Graças à epidemia das selfies, todos aqueles sítios de internet que nós sabemos que passavam o tempo a vender informações sobre nós mas que ainda assim utilizamos pois já não conseguimos sobreviver sem o fazer, estão a transformar-se em imensos palheiros digitais. As selfies são a palha, já adivinharam, e a imagem que procuro no google para compor o meu mais recente artigo é, isso mesmo, a maldita agulha. Não gosto de coser, acabo sempre com os dedos todos picotados. E tampouco me agrada o cheiro a mofo típico dos palheiros. Daí que não esteja a curtir nada esta brincadeira.

 

PARADOXO DOS 95/5

O Paradoxo Dos 95/5 refere-se aquelas selfies que são menos selfies (significando: egocêntricas), visto que nelas se reservam 5% da imagem para algo que supostamente se pretende mostrar. e que paradoxalmente são ainda mais selfies que as selfies puras, uma vez que a vontade de partilhar o lugar visitado é chacinada à bruta pelo impulso narcisista de se vender o mais possível. Neste tipo de foto costuma-se ver o autor da selfie e um pouco de céu azul. Ficamos sem saber onde foi passear o autor,  mas apercebemo-nos que não segue a meteorologia pela TV e que foi sensato o suficiente para decidir dar uma volta num dia de sol.

Uma variação subtil do Paradoxo Dos 95/5 é o Paradoxo da Presença Selfiezada, a qual nos leva à próxima razão para, aqui no Pensamentos Nómadas, não gostarmos nada de selfies:

 

VÁ PARA DENTRO LÁ FORA

Neste tipo de selfies, embora pareça o contrário, o autor encontra-se mesmo no Estrangeiro, de férias. Se for asiático ou por alguma razão obscura tiver olhos em bico, encontra-se em Paris. Ou, para ser mais preciso, numa parte de Paris onde seja possível observar a Torre Eiffel. O autor sim, pode observá-la. Nós não. Quanto muito vemos a ponta de um objecto por trás da cabeça do dito cujo e ficamos na dúvida se subiu ao telhado da sua casa para endireitar a antena da televisão, se se rendeu a uma nova moda parva de bandoletes duma orelha só ou se está mesmo em Paris.

 

Nas selfies daqueles cujo amor-próprio não é avassalador, o espaço na foto reservado ao local visitado é maior, e não temos portanto dificuldade em identificar o destino de férias. Mas o Paradoxo da Presença Selfiezada continua presente, pois viajar continua a não ser uma descoberta, uma exploração ou uma aventura. Viajar contínua a ser não viajar. É antes estar presente e não estar porque só lá se está para selfizar. Antes é, para a vítima do paradoxo, uma forma muítissimo dispendiosa de tirar um selfie diferente das que tira todos os dias no carro a caminho de um qualquer lugar ali bem perto. Eu acho que é estúpido gastar milhares de euros para ir à Indonésia tirar 50 fotos com o Vulcão Bromo como tema e 49 serem selfies. Não exagero. Presenciei esta exacta situação há umas semanas atrás. Eu preferia, a custo zero e em menos de um minuto, fazer uma photoshopice a uma selfie tirada na minha casa-de-banho. O resultado seria o mesmo mas sem jet lag nem controlo de passaportes!

 

TUNNING DE SELFIES

Em poucas palavras, o tunning de selfies é uma barbaridade ao quadrado. Tirar uma foto a si próprio sempre na mesma posição imbecil e constatar que a quase totalidade da espécie humana com acesso a smartphones também o faz, são indícios seguros da falta de vida inteligente neste planeta. No entanto, ninguém parece reparar na descoberta. Não é grave. Grave é que, além dessa coisa (selfie) se propagar num padrão super repetitivo, de nela não se mostrar quase nunca o que poderá haver de interessante à volta do narcisista do momento, e de só serem mostradas aquelas caras que estamos fartos de conhecer... agora com o tunning de selfies ardeu tudo. Essa parte é photoshopada à exaustão até a personagem ficar com menos 50 quilos digitais e uma pele lisa, sem poros e com tons saídos dum Looney Tunes. Quando vejo uma selfie photoshopada do género chego a acreditar que se trata duma publicidade a um novo material impermeável não-rugoso que a NASA terá inventado para os seus próximos modelos de fatos espaciais. Mas não, acabo sempre por concluir que é mesmo uma foto de uma gaja que era suposto eu reconhecer + 20 camadas de efeitos photoshop. É bárbaro ao quadrado, insisto, porque consegue-se transformar uma epidemia de feições familiares auto-ridicularizadoras, numa em tudo semelhante mas de beiças não mais reconhecíveis. Fico triste.

 

BRAÇOS CHERRY 2000

A cada dia que passa cresce-me a sensação que o futuro afinal é hoje. Lembram-se daquele filme fraco-fraquinho sobre uma boneca-de-saltar-encima que avariou com um curto-circuito provocado por uma inundação na cozinha? O título era Cherry 2000,  o que em linguagem macho-latina resultou em: Boneca Mecânica. Grandes malucos. No futuro idealizado em 1987 o pessoal ansiava pelo pacote completo, de forma a poder dar-lhe o devido uso. A vida real é sempre mais parva e mais improvável do que nos filmes de ficção-cientifica, daí que no futuro presente  de 2015, a malta parece se contentar apenas com uma parte da boneca: o braço!

 

Pois é, a última invenção no mundo das selfies é o Selfie Arm. Exacto, um selfie-stick que em vez de stick é braço. Se chegar a ser comercializado, os génios que criaram o revolucionário conceito - está mais que visto - irão enriquecer a brava. Irão nadar em notas verdes (e de outras cores também) graças aos pé-rapados selfiezados deste mundo que gastarão o dinheiro que não têm em inúteis sticks em forma e aspecto de braço de um zombie esverdeado, passe o pleonasmo, saído de um filme de terror norte-americano low-budget de 3ª categoria. Ou de um filme português. Também gostava de ter ideias geniais assim!

selfie-stick arm 2

 

FOTOGRAFIA, UMA ESPÉCIE EM VIAS DE EXTINÇÃO

Selfies são tipo ervas daninhas, comportam-se como as acácias na Serra do Gerês! Multiplicam-se sem cessar, mais rápidas que coelhos com o cio (mais um pleonasmo), não deixando espaço para outras espécies na fotoesfera. Daí que, de acordo com o meu limitado poder de análise, dá a impressão que espécies como a fotografia de paisagem, a de natureza morta (embora a malta por vezes não pareça mais viva nas selfies) ou a de vida selvagem, entre outras, estarão a sofrer um sério declínio e poderão em breve juntar-te à lista de espécies em via de extinção.

 

Podem responder que não, que alucino, que há mais vida nas lentes fotográficas dos smarphones para além das selfies. Não estou seguro. Sim, sei que há novidades, mas não parece que sejam novas espécies. na melhor das hipóteses serão uma espécie de raças inferiores. Refiro-me às fotografias aos pés, com ou sem sandálias, frequentemente com um colar ao nível de um dos tornozelos, e com areia de praia a fazer de fundo nas versões lounge. Ou às fotografias tiradas em posição horizontal mostrando as pernas, os pés e uma barriga parvamente encolhida, com um areal e um céu azul de sonho a fazerem de fundo. Não vou nessa. Não são novos géneros de fotografia. Antes um género de abortos de fetos fotográficos. Um espírito crítico verá que este 2 novos tipos de fotografia mais não são que mutações macabras, aberrações improváveis da natureza selfiana. Portanto, mais do mesmo: selfies!

 

JÁ NÃO DÁ PARA GOSTAR DE ASIÁTICOS

 Ando há cerca 11 meses por terras do sudoeste asiático e a sério, devido à epidemia das selfies, já não dá para gostar de asiáticos. Eu consigo não gostar de selfies continuando, pragmaticamente, a gostar dos meus amigos e dos meus familiares que cometem essa hedionda atrocidade. Nada de ressentimentos. Mas por estas bandas não consigo me controlar. É que esta malta tira selfies desde que acordam (e acordam bem cedo, pelas 5 da manhã) até que se vão deitar, aquele momento do dia em que adormecem com um smartphone na mão... a tirar uma selfie. Liga-se a TV e é ver publicidades onde se vendem fertilizantes agrícolas, bilhetes de avião e tampões higiénicos com malta da casa tirando selfies. Tiram selfies a comer,  a andar de mota e andar de mota a comer. Fazem selfies a caminhar, a espirrar, a escrever, a beber e a mijar. A sério, chegam ao cúmulo de fazer selfies a tirar selfies!

 

Não dá mesmo para aturar asiáticos pós-epidemia-das-selfies, como não dá para aturar norte-americanos pós-11-de-Setembro, embora aceite que é grosseiro da minha parte comparar uma tamanha tragédia... com o 11 de Setembro! Voltando aos asiáticos, como tenho tendências masoquistas contínuo, ainda assim, a adorá-los, pelo menos aos tailandeses... por enquanto.

 

A REACÇÃO A ESTE ARTIGO

Sim, a reacção a este artigo, ou a falta dela, é mais um bom motivo, e último, para não gostar de selfies. Não, já não há mais síndromes nem paradoxos. Agora a explicação é bem simples. Todos aqueles que conheço e que nunca põem um like, nunca comentam nem nunca partilham artigos e publicações minhas que levem mais de 10 caracteres, irão (querem uma aposta) likar e comentar a minha cara feia numa selfie photoshopada como se de uma foto de Johnny Depp ou George Clooney se tratasse. Irão fazê-lo porque sou um bandido e porque, para capa (no facebook) deste tratado contra as selfies, irei colocar uma selfie minha. Quem nunca me lê, não será desta que irá fazê-lo. Poderão reparar na selfie do artigo publicado no facebook e meter um like ou até fazer um comentário (à selfie) do género "Bacano. Há quanto tempo! Por onde andas agora?" Mas estou seguro que não irão ler o artigo. Nem mesmo clicar na hiperligação só para abri-lo. Pior, aposto que nem sequer se irão aperceber que a abaixo da selfie vem uma coisa com muitas palavras a que por norma damos o nome de artigo.

 

Boas selfies, tudo de bom!

 

por Luís Garcia, Lampang, Tailândia, 03.09.2015

 
 

  luis selfie copy  

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