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Pensamentos Nómadas

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O deus imperfeito – Introdução 2/3

 

 

 O deus imperfeito RELIGIÃO Luís Garcia

 

Voltando ao não olvidado pela hierarquia eclesiástica, o imperfeito deus, é fácil de compreender por que terá sido este o deus eleito para de cobaia servir nas inúmeras reconstruções da cristã definição de deus que formularam a visão tida de deus nos primeiros séculos da nossa também cristã era, visão que se manteve sem grandes alterações até aos tempos modernos.

 

A razão não é de todo transcendente, pelo contrário, digo eu ironicamente. Para começar, por terem sido tal como nós terrenos, efémeros, imperfeitos, aqueles que nos tempos das antigas escrituras se encarregaram de compilar lendas, mitos e tradições religiosas e culturais de forma a criarem textos sagrados para os seus povos, também inevitavelmente imperfeito seria qualquer deus que desses textos tivesse resultado, conclusão esta que me parece não poder chocar nenhuma cristã alma, mesmo a mais sensível de entre elas. Mas continuemos, saltando de novo para os primeiros séculos da nossa era. Os homens de deus que neste tempo se encontraram a si próprios no lugar de definir a visão cristã romana desse transcendente ser seriam também, obviamente, imperfeitos. E todos nós sabemos que imperfeições há muitas e variadas, para todos os gostos e manias, mas não tendo eu vivido em nenhum desses primeiros séculos da era cristã, apenas nestes dois últimos da mesma em que cada vez mais se debatem e questionam os acontecimentos dos primeiros, encontro-me tentado a jogar a lotaria e também o joker, deixando aqui duas apostas das possíveis imperfeições características daqueles que nesse período criaram e definiram o nosso deus ocidental cristão.

 

A LOTARIA

A acreditar que continuariam tão longe da perfeição como aqueles que primeiro criaram os textos do antigo testamento, e se ainda se encontravam num não muito elevado nível de desenvolvimento intelectual, bem, poderia então dizer que os compreenderia aos pobres coitados se os mesmos erros do passado tivessem cometido pois que mais poderiam essas boas almas fazer afinal quando a priori já seria sabido que não conseguiriam de forma perfeita criar a imagem de uma perfeito adorado, primeiro porque não estavam nem nunca teriam estado à altura de o fazer (pois perfeitos não seriam certamente) e depois, sinceramente, como poderíamos nós esperar que pudessem estes imperfeitos homens ter descrito perfeitamente, ou não, aquele que nem sequer existiria? Não poderiam, simplesmente.

 

O JOKER 

Mas tenho mais fé no meu joker. E o meu joker diz-me que não só pela falta de melhores capacidades para a caracterização do deus perfeito mas também por manifesta vontade de definir um imperfeito soberano, estes pioneiros da moderna visão cristã de deus sofreriam por certo de males bem comuns entre os humanos, ânsia de poder, poder de controlo sobre os seus demais, claro está, e perversidade em larga medida, sem a qual não teriam as condições necessárias à implementação das suas ambições de poder referidas.  E assim terão definido, a julgar pelas provas que sobreviveram até aos nossos dias (refiro-me às diferenças de conteúdo e consequentes diferentes ilações das várias versões dos textos incluídos nas várias “bíblias” da época, assim como às escolhas ponderadas dos textos proféticos a incluir ou não na compilação que haveria mais tarde de vir a chamar-se bíblia), aquilo que teria sido mais fácil e conveniente de definir.

 

Definiram habilmente o deus imperfeito, o qual, com o tempo, lhes daria espaço de manobra moral para bem protegerem os seus interesses e regalias (e dos monarcas ou imperadores aos quais eram fiéis) sobre a populaça desfavorecida, essa sim a destinatária e vítima por excelência dos incoerentes e injustos caprichos do deus por esses criado. Não esquecer ainda o ambiente social em que estes eventos terão ocorrido, pois não existiriam muitos letrados entre a plebe do início da nossa era, uma vez mais também por manifesta má vontade das mesmas elites aqui criticadas que só teriam a ganhar, pois claro, com a ignorância e falta de independência intelectual dos seus súbditos.

 

Dito isto espero deixar claro que alguma vez me tivesse passado pela cabeça defender que seria estúpida e/ou idiota a plebe de então. A ignorância geral seria por certo decidida e imposta de cima para baixo, pois mesmo tendo como quase inteiramente analfabeta a sua população de súbditos, e para não correr riscos desnecessários, a elite não terá sequer se esquecido de proibir a leitura da colectânea bíblica por si mesma criada! Não fosse um chico esperto aparecer por entre a multidão tentando apontar o dedo às imperfeições que hoje felizmente me encontro livre de nomear. E terá sido precisamente por tão metódico controlo de pensamento e de conhecimento popular que o status quo social favorável aos senhores da igreja e do poder terá conseguido sobreviver até aos nossos dias, embora hoje a colectânea esteja traduzida em todas as línguas do mundo (não é exagero) e já não é, graças a deus, de leitura interdita!

 

Proíbida não é, mas a leitura da bíblia pelos crentes da religião que representa contínua ainda por se efectuar, por desleixo voluntário, talvez, ou por ser a fé cega condição única e suficiente para se seguir as vontades e os caprichos do imperfeito deus. Mas tendo as massas dos nossos dias o total acesso à educação, alfabetização e informação sobre as mais variadas formas, não será imprudente, agora sim, nos questionarmos sobre o nível da estupidez humana actual, pois estando segura do acesso a todos estes direitos que em tempos idos teriam sido chamados de preciosas regalias, a verdade é que com mais ou menos imperfeições, com muita ou pouca barbaridade, o discurso do deus cristão contínua sendo ouvido e aceite a cada santo domingo nas igrejas das nossas paróquias, e quem as assiste não dá jamais pela troca de personagens, pois de boa vontade e espírito sereno paga missas e manda rezar terços e, se ainda hoje assim se passa, não é difícil de imaginar porque assim terá acontecido durante os últimos dois mil anos.

 

PARA QUEM PERDEU O PRIMEIRO EPISÓDIO:

Luís Garcia, 31.08.2015, Lampang, Tailândia

 

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Tailândia, o país do sorriso

 

 

 

 VIAGENS Claire

 

Olá a todos, este meu primeiro artigo é uma republicação do texto que escrevi sobre a Tailândia após o primeiro mês passado neste país, em Outubro de 2014, e faz parte de uma série de estórias de viagem nas quais relato as experiências vividas no sudoeste asiático. Se quiserem saber mais sobre esta e outras viagens, visitem o blog Nomad Life. (Claire Fighiera)

 

Um mês passado na Tailândia, o país do sorriso, facto que confirmámos desde o primeiro momento em que lá chegámos, dos bairros de lata à beira-rio até aos mega-shoppings do centro de Banguecoque.

 

No primeiro dia fora da capital visitámos a maior – e muitíssimo bela – estátua de Buda, embora o melhor desse pequeno passeio tenha sido a companhia dos amáveis locais que lá nos levaram de carro, enquanto nos davam de comer e nos refrescavam com bebidas… como se fôssemos crianças suas.

 

Valeu a pena ver a ponte sobre o rio Kwai, … sobretudo pelo o rio em si, o qual nos deslumbrou imenso com o seu espelho reflectindo nasceres-de-sol cor-de-rosa em movimento. Tivemos a oportunidade de ver grandes lagartos se passeando, cobras em plena luta pela sobrevivência (caçando sapos e gecos), gordos peixes-gato sobre-alimentados por locais, escaravelhos e aranhas gigantes nos assustando sem cessar. Ainda assim, os seres mais assustadores que encontrámos foram as manadas de turistas vagueando nas ruas e bares da Tailândia em busca perpétua de cerveja e “European food”. Ahh, e as varas presas aos telemóveis para se poder tirar “selfies”… adorável!

 

Brincámos feitos macacos em impressionantes cascatas do Parque Nacional de Erawan e sentimo-nos felicíssimos por estarmos vivos, tornando-nos pouco a pouco parte da fauna local. Ah sim, de uma única noite prevista, acabámos por ficar quatro!

 

Fomos perseguidos por “stressantes” cães que pelos vistos não gostam do cheiro de estrangeiros, assim como por amigáveis locais oferecendo-nos pelo menos sorrisos.

 

Vivemos num templo budista durante cinco dias, trabalhando com monges que construíam estátuas de elefantes à escala real, utilizando cimento para cobrir o esqueleto de ferro e rede metálica. Com tanta comida e bebida de graça, e muito mais, a nossa estadia no templo ficou bem longe de ser uma experiência ascética.

 

Fizemos e descobrimos muito mais coisas (como andar à boleia de dezenas de jipes), mas o Sorriso Tailandês será sem dúvida o maior tesouro que encontrámos neste país…

 

Albúns de viagem na Tailândia:

 

Claire Fighiera, 30.08.2015, Lampang, Tailândia

 

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Agarrem que é polícia 2

 bw VIAGENS Luís Garcia

 

CASOS DE POLÍCIA – EPISÓDIO 3

 

AGARREM QUE É POLÍCIA 2 (Moldávia e Ucrânia, 2008) Num espaço de poucos dias foram várias as peripécias que eu e o Diogo passámos na Moldávia e na Ucrânia, fruto do comportamento corrupto das forças policiais desses dois países de leste. Escolhi duas das melhores para vos contar. Em Kharkiv, na companhia do nosso hóspede couchsurfer Evgeniy e um seu amigo, fomos visitar uma muito insólita atracção turística da cidade: As Piscinas Inacabadas. As obras do complexo desportivo iniciaram nos anos 80 mas tiveram de ser interrompidas devido à falta de fundos resultante da enorme catrástrofe económica da época, e nunca mais foram retomadas. Hoje, rodeada por uma densa vegetação e graças à sua grande elevação, a estrutura inacabada é o local perfeito para se obter uma vista panorâmica de Kharkiv e ao mesmo tempo estar-se afastado dos seus frenéticos novo-riquinhos que se passeiam pela cidade ostentando as suas fortunas e espezinhando quem as não tem. Local perfeito, portanto, para uma pessoa se abstrair dessa nova Ucrânia ultra-superficial e refém do recém-chegado capitalismo selvagem, e apreciar a companhia de dois genuínos ucranianos que tão calorosamente nos acolhiam por uns dias na cidade.

 

Seguindo um convite dos nossos novos amigos ucranianos, comprámos uma garrafa de Becherovka e um queijo “especial” que se deve ser ingerir como acompanhamento da referida bebida checa. Depois de uma desafiadora escalada da estrutura simultaneamente inacabada e em ruínas, chegámos os quatro ao topo das bancadas onde passámos uma divertida tarde descobrindo que de facto quando se bebe Becherovka, se tem fome daquele queijo “especial”, e vice-versa ao quadrado. Melhor assim! Foi uma bela tarde de comportamento extravagante e de aprendizagem sobre a realidade social e económica do pais que os dois ucranianos tão bem souberam nos explicar… Também um tarde de inconsciente aventura ao bom estilo de leste, na qual dois portugueses e dois ucranianos feitos crianças sob o efeito dos éteres de Baco se divertiram com façanhas um pouco perigosas, como passar de uma bancada para outra com o o espaço entre elas ainda por construir! Para estragar a festa, apareceram dois policias ucranianos tão ou mais embriagados que nós, e claro, vinham mendigar dólares aos estrangeiros, queriam uns 50 ou 100! Felizmente tínhamos dois ucranianos para argumentarem em nossa defesa, livrando a mim e ao Diogo dessa mais uma tentativa de extorsão policial sem sequer termos aberto a boca. Imaginem se naquele estado nos víssemos obrigados a negociar em ucraniano!

 

 

 

Duas semanas antes tínhamos também sido alvos de uma tentativa de extorsão por parte de um polícia moldavo em Chisinau, capital do país. Dessa vez foi mais complicado pois não tivemos ajuda alguma das gentes locais.

 

Andávamos, eu e o Diogo, inocentemente passeando nas redondezas da entrada da estação de comboios, tirando fotografias e fazendo piadas sobre o caos urbano quando, vindo do nada, um carro de polícia roubado de um museu estacionou quase encima de nós. Da viatura saiu uma versão moldava de Arnold Schwarzenegger, medindo bem uns 2 metros, e empunhando uma inevitável… Kalashnikov, Sim, uma dessas! Começou por abordar-nos sorrindo, à mafioso, mostrando com intenção os seus dentes de ouro encravados nas zonas laterais da sua boca. Numa mistura de ucraniano, russo e romeno começou a conversa pedindo-nos para ver os nossos passaportes. Ao não encontrar vistos de entrada nos passaportes avisou-nos, em tom ameaçador, que nos encontrávamos ilegalmente no país e que as opções seriam pagar 200 dólares ou acompanhá-lo à esquadra (originalíssimo o discurso!). Explicámos pacientemente que a razão de não termos vistos se devia ao facto de cidadãos da UE NÃO precisarem de os ter! Como o Schwarzenegger não acreditava ou fingia não acreditar, convidámo-lo (com um toque de ironia) a telefonar para o chefe da esquadra e informar-se acerca das leis do seu próprio país. Depois de hesitar lá pegou no rádio do carro e falou para o microfone do aparelho, mas dúvido que tenha falado com alguém. É que, tal como o outro desfazmierda, também este não nascera com queda para a representação.

 

Finda a conversa virtual durante a qual deve ter puxado ao máximo pelo seu processador mental na busca de outra desculpa absurda para nos extorquir dinheiro, voltou a aproximar-se de nós com cara de poucos amigos. Desta vez queria o “comprovativo de hotel” que “deveria andar junto ao passaporte”. Dissémos-lhe que não fazíamos a mínima ideia do que estava a falar. Ele quase esfregando as mãos de contentamento responde infantilmente “ah, pois então, ou 200 dólares, ou esquadra, a escolha é vossa!”, acentuando perversamente a palavra “esquadra” fazendo desse modo subentender-se com claridade a ameaça de agressão física plausível e guardada para esse local. Expliquei-lhe o óbvio, que hóteis não passam comprovativos para anexar a passaportes mas que, em contrapartida, fazem check-in’s nos quais clientes estrangeiros apresentam os seus passaportes, dos quais são copiados dados pessoais, e a seguir aos quais se costuma deixar uma assinatura conforme a do passaporte. Como não estávamos longe do hotel, convidei-o a seguir-nos e vir confirmar que falámos a verdade e que tínhamos de facto uma residência oficial no país, ao contrário do que afirmava ele. Não quis, recusou sair dali e piorou o tom. Falava bruscamente, denotava estar a perder a paciência. Para compor a situação que se tornava cada vez mais séria tentámos sorrateiramente pedir ajuda (em romeno) a transeuntes que passavam perto do evento mas, (in)convenientemente, na capital de um país em que 90% da população tem como língua materna o romeno, todos aqueles de passagem que abordámos respondiam assustados que não falavam romeno e apressavam aflitivamente os seus passos. Pudera, por que raio se haviam de meter com Schwarzeneggers corruptos e ladrões?

 

Felizmente para nós e muito infelizmente para ele, um jovem francês que conhecêramos no hotel reconheceu-nos e veio nos cumprimentar todo sorridente, inocente, não se apercebendo que estávamos ali semi-raptados pelo brutamontes fardado. Ora, esse mesmo, qual quão de caça esfomeado perante um nova presa aparentemente mais lenta (no caso mais ingénuo), pede-lhe de imediato o passaporte. Erro crasso do francês, tinha deixado o passaporte no hotel “para não correr o risco de perdê-lo”! Com a lei do lado dele (um estrangeiro na Moldávia é obrigado a andar na posse de um passaporte válido), o polícia, esqueceu-se completamente de mim e do Diogo, mandou o francês entrar na viatura e partiram os dois. Sem mais…

 

Dias antes, no hotel, o francês tínha-nos contado a cruel aventura que passara semanas antes na fronteira entre a Moldávia e a sua região separatista da Transnístria (com a qual se encontra tecnicamente em guerra civil). Segundo ele, quando tentava entrar na Transnístria, membros das forças armadas russas que fazem a patrulha do posto fronteiriço do lado independentista roubaram-lhe tudo o que tinha, dinheiro, documentos, malas e até roupa e calçado de marca que levava vestido nesse dia, deixando-o em cuecas e sem identificação alguma a meio caminho entre um estado falhado e um outro que nem sequer é reconhecido internacionalmente! Que filme! Por piedade ou por estarem já familiarizados com esse tipo de situação, os guardas fronteiriços do lado moldavo deixaram-no voltar atrás sem documentos. Além do mais, as embaixadas francesas não são como as portuguesas, para sorte do azarado viajante francês. E falo por experiência própria, quando me foram roubados documentos e cartões de banco na Tailândia, se não fosse o auxílio da minha família em Portugal, o estado português e seus representantes diplomáticos ter-me-iam literalmente deixado a apodrecer neste país. Pior, a quantidade de dinheiro que meroubaram na Embaixada Portuguesa na Tailândia foi muitíssimo superior à roubada pelo desgraçado do assaltante tailandês. Voltando ao desafortunado francês, a embaixada francesa foi, segundo ele, impecável, dando-lhe roupa, hotel pago e dinheiro enquanto aguardava pelos documentos. Daí o termos encontrado ainda em Chisinau, tinha acabado de receber o passaporte novo e tinha marcado para a manhã seguinte uma viajem de comboio para Bucareste, capital da Roménia.
A verdade é que, desde que partiu no carro da polícia e desapareceu de vista na primeira curva à esquerda, nunca mais vimos nem ouvimos falar do pobre rapaz… até hoje!
A partir desse dia e até ao final da viagem na Moldávia e na Ucrânia, passámos a esconder sistematicamente as máquinas fotográficas dentro de sacos e a mudar de rua sempre que víamos polícias ao longe numa rua aproximando-se de nós. Lembro-me até de situações em que entrámos na primeira porta de um local público (bares, restaurantes e outros) no intuito de nos refugiarmos do claustrofóbico perigo policial e da sua corrupta caça aos dólares estrangeiros… Ah, belos tempos, lindas memórias! Ahahah!

 

Luís Garcia, 29.08.2015, Lampang, Tailândia

 

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As coincidências de Bilderberg

 
 

 

 POLITICA Luís Garcia

 

“Clube Bilderberg” soa a nada para 99% da população mundial. Os poucos que se dão ao trabalho de pesquisar no google, rapidamente concluem, erradamente, que se trata de mais uma das inúmeras tretas conspirativas que proliferam pelo espaço cibernético, e acabam ignorando e esquecendo o assunto. No entanto, os factos (conhecidos) falam por si!

 

Ou costumava ser assim, pois hoje em dia cada vez mais gente começa a interessar-se pelo tema, cada vez há mais informação sobre as reuniões anuais, cada ano que passa maior é o número de media alternativos e amadores que reportam e comentam o secretíssimo evento. E mesmo o secretismo, esse mudou de teor. Se antes, os organizadores das reuniões Bilderberg negavam pura e simplesmente a existência de tais reuniões (enquanto puderam, tal como a igreja católica sobre a esfericidade da Terra), agora confirmam e anunciam com antecedência o evento, e até emitem um comunicado oficial com o tema anual. Grandessíssima treta!!! Anunciam que o tema do ano é “água”, mas ninguém fora dos convidados escolhidos a dedo pode marcar presença e constatar que afinal o tema do ano é “vinho”! “Tinto”! Nada a ver.

 

De qualquer modo, o comunicado oficial, com ou sem tema, apenas serve para ridicularizar os media alternativos que seguem o acontecimento. Os media aparvalhantes, nacionais e internacionais, como sempre seguem ordens, ordens de gente que até mete os pés em reuniões Bilderberg uma vez por outra… Daí que, jornalismo  que é remunerado, sobre este tema, não faz jornalismo. Antes ajoelha, beija o pezinho ao dono… e cala.

 

Mas, vamos lá as coincidências, começando pela malta da casa:

 

1. Durão Barroso assistiu à renião anual de 2003. Santana Lopes e José Sócrates assistiram à reunião do grupo Bilderberg de 2004. Poucos meses depois, Durão Barroso deixou o cargo de primeiro-ministro português para se tornar marioneta dos senhores do mundo (os tais que organização as reuniões de Bilderberg) a um nível supranacional: Presidente da Comissão Europeia! Ah valente! Com a cadeira de primeiro-ministro vazia, Santana-Lopes, chegou à frente e ocupou o cargo deixado livre por Durão Barroso. Como esta malta que governa tudo não é tola e conhece há muito o cara-ou-coroa das eleições portuguesas, sim, convidaram também o líder da oposição: José Sócrates. Era mais que óbvio que Santana-Lopes não duraria muito, não duraria o suficiente para que Sócrates esperasse para ouvir as ordens do patrão na reunião seguinte.  Jogaram pelo seguro e chamaram os 2 beija-pés de uma assentada.

 

2. Bill Clinton assistiu à reunião do grupo Bilderberg de 1991; pouco tempo depois foi nomeado pelo Partido Democrata e é eleito presidente em 1992.

     
  • Um dia depois de participar na reunião de Bilderberg, Bill Clinton foi recebido em Moscovo pelo Ministro do Interior russo Vadim Bakatin (do governo liderado por Mikail Gorbachov). Mais espantoso é o facto deste senhor, em plena campanha eleitoral russa, poder dispensar um dia inteiro para ouvir esse desconhecido governador do Arkansas (Bill Clinton). O seu partido perdeu as eleições, mas a sua colaboração com o Grupo Bilderberg foi-lhe frutuosa: pouco tempo depois foi escolhido para a chefia do KGB.1

 

3. Tony Blair assistiu à reunião do grupo Bilderberg de 1993; no ano seguinte chegou a presidente do seu partido (1994) e à presidência do Reino Unido em maio de 1997.

 

4. Romano Prodi assistiu à reunião do grupo Bilderberg de 1999; Foi nomeado presidente da União Europeia em Setembro de 1999.

 

5. George Robertson assistiu à reunião do grupo Bilderberg de 1998; chegou a secretário geral da NATO em agosto de 1999.

 

6. John Kerry, candidato democrata à presidência dos EUA, escolheu John Edwards como vice-presidente um mês depois de este último ter participado pela primeira vez numa reunião do grupo Bilderberg.

 

7. François Mitterrand, super impopular e candidato improvável, depois de participar em várias reuniões do Comité dos 300, vê a sua imagem reabilitada e ganha as eleições em França.

 

8. Queda do governo turco:

     
  • Quatro dias depois do regresso a casa dos dois participantes turcos do encontro do Clube de 1996, em Toronto, caiu o governo Turco por completo. Tratava-se do Gazi Ercel, governador do Banco Central da Turquia, e Emre Gonensay, ministro dos Assuntos Exteriores. Num movimento surpresa, o primeiro-ministro turco, Mesut Yilmaz, demitiu-se do cargo, dissolvendo a coligação entre o Partido do Caminho Verdadeiro, dirigido pela ex-primeira-ministra Conservadora Tansu Ciller, e o seu próprio, o Partido da Pátria. Isto permitiu ao Necmettin Erbakan, líder do Partido do Bem-estar Social, formar um novo governo.1

 

A lista contínua, enorme. Basta cruzarem dados e verão que podem facilmente encontrar outros exemplos flagrantes. Se o fizerem, caros leitores, estarão convidados a partilhá-los aqui neste blog!

 

Para quem não leu o artigo anterior, aqui fica a hiperligação para a lista (o mais completa possível) dos portugueses participantes das reuniões de Bilderberg:

 

Luís Garcia, 27.08.2015, Lampang, Tailândia

 

(1) – citações de “A Verdadeira História do Grupo Bilderberg”, de Daniel Estullin

 

 

 

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A mais completa lista de portugueses “Bilderberg” (1963-2015)

 

 

 

 POLITICA Luís Garcia

 
Depois de um longo trabalho de pesquisa, e de ter consultando uma grande quantidade de fontes, organizei os dados recolhidos de forma a que se destaque a importância a nível nacional de cada participante das Reuniões do Grupo Bilderberg. O resultado está no PDF seguinte
 

 

 

 

 

 
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Agarrem que é polícia

bw VIAGENS Luís Garcia

 

CASOS DE POLÍCIA – EPISÓDIO 2


AGARREM QUE É POLÍCIA (Roménia, 2002)
No fim do verão de 2002, em Bucareste, andava eu passeando pelas ruas da cidade tirando fotos com a minha primeira máquina digital, quando uma situação extremamente insólita teve lugar em frente ao Arco do Triunfo romeno. No momento em que me preparava para guardar a máquina na mala e partir em busca de outras atracções fotografáveis, estacionou à minha frente um velhíssimo Dacia da polícia militar romena, do qual saiu um polícia de meia idade barrigudo com cara de mafioso e um jovem com cara de pacóvio lobotimizado envergando equipamento militar e segurando uma metralhadora apontada à minha pessoa! O mais velho perguntou-me “que raio fazia você ali?”. Eu, surpreso, expliquei-lhe que tinha simplesmente acabado de tirar fotos ao Arco do Triunfo. Segundo ele, era proibido tirar fotos àquele monumento nacional e ordenou-me que entrasse na viatura. Perante o absurdo da acusação protestei e recusei momentaneamente entrar no carro, mas ele lembrou-me que a metralhadora do deficiente continuava apontada a mim e que o melhor seria obedecer. Foi o que fiz.

 

Durante vinte minutos o mais velho conduziu o carro até um perigoso subúrbio da cidade, uma zona repleta de delinquentes, gente estranha, imensa sujidade e edifícios completamente degradados. Se já ia vendo a vida andar para trás durante esse trajecto, ouvindo os sorrisos maquiavelicamente assustadores do condutor e as suas ameaças de “muito dinheiro que irás ter de nos pagar”, assim que o carro parou naquele surreal caos urbano, entrei por um minuto num pânico hipnótico, como que sentido-me sair a voar dali em forma de alma penada. Mas depressa recuperei consciência plena da situação, respirei fundo e pensei para mim mesmo “se te deixares aparvalhar ou amedrontar é que não sais mesmo daqui vivo, portanto há que lutar pela vida”! No início julgava que a minha vida correria de facto perigo, basta analisar bem a situação: primeiro, encontrava-me num daqueles lugares onde, se houver um crime, ninguém ouvirá, ninguém verá, ninguém saberá jamais sobre o sucedido. Segundo, tinha uma metralhadora constantemente apontada ao meu peito. Terceiro, um mafioso e um troglodita saídos de um filme de terror grotesco pareciam não me querer libertar sem antes receber de mim os 200 dólares que eu efectivamente não possuía. Quarto, caso me libertassem do carro naquele bairro repleto de bandidos arruaceiros e se fossem embora, a hipótese de eu sair dali pelos meus próprios pés vivo seria menos que nula. No entanto, com o passar da hora e meia de lenta e diplomática negociação (e porque na altura felizmente falava um pouco de romeno), comecei a aperceber-me que os dois, pese embora a sua draconiana aparência e o seu criminoso comportamento de me raptar sem justificação nenhuma, no fundo, não passavam de dois pacóvios sobrevivendo com muito maus salários e com famílias para sustentar que andariam à caça de turista endinheirado e tinham falhado completamente o alvo (a máquina digital deve ter sido a razão do equívoco).

 

Apercebia-me então que não me iriam fazer mal algum, que apenas queriam dinheiro (que eu não tinha), e portanto o que eu precisava era de uma forma de lhes dar a volta à cabeça, fazê-los mudar de ideias e desistirem dos dólares de uma forma o mais cordial possível. Entretanto o meu novo grande receio era ser ali deixado por eles. Eureka! “Dado o nível intelectual extremamente medíocre destes dois gajos, por que não lhes impingir este raciocínio (pouco) lógico: a máquina é digital, as fotos também, posso apagar as criminosas fotos mostrando-lhes essa acção no ecrã do aparelho, e depois defendo-me que com o objecto do crime apagado já não haverá razão para me reterem mais e peço para me levarem de volta ao centro da cidade”. Não custava nada tentar. Ridículo, sim, mas os dois, além de não muito inteligentes, mostravam claros sintomas de cansaço e já tinham percebido há muito que não levariam dinheiro nenhum de mim e então aquiesceram. Pediram-me para apagar devagar as fotos de forma a que eles vissem bem que não os estaria a enganar. Acabada a operação, o mais velho ligou o carro e conduziu-me de volta ao centro, onde me deixou em frente ao Arco do Triunfo rigorosamente no mesmo lugar onde 2 horas antes me tinham raptado. Deram-me dois passou-bens, desejaram umas boas férias na Roménia (!) e despediram-se cordialmente!

 

Tirando as duas fotos que apaguei em frente às autoridades, ainda hoje tenho fotos do Arco do Triunfo romeno tiradas nesse dia, pela simples razão de ter apagado na presença dos dois trapaceiros apenas os dois últimos ficheiros, quando só deste monumento tinha tirado mais de dez fotos!

 

Álbum de fotografias (fraco fraquinho):

Luís Garcia, 23.08.2015, Lampang, Tailândia

 

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A vida depois da morte, por Luís Garcia

 
 

RELIGIÃO Luís Garcia

  • “(…) o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no entanto, a maioria das pessoas ora foge da morte como se fosse o maior dos males, ora a deseja como descanso dos males da vida. O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não-viver não é um mal.” (em Carta sobre a felicidade1, de Epicuro)

 

Para um católico, não acreditar na vida eterna da alma,é tão absurdo como um homem de olhos abertos durante o dia não acreditar que o céu é azul. Ou será mesmo? Existe de facto semelhanças, ambos crêem em algo e ambos jamais pararam para reflectir nas suas certezas de vidas eternas e céus azuis. Mas há uma diferença fulcral, o homem de olhos abertos num dia de céu limpo vê este pintado de azul e então aceita que o céu é de facto azul. O homem que acredita em almas e vidas eternas, pelo contrário, acredita em primeiro lugar nestas e só depois as “vê” em divagações religiosas, em alucinações sacrossantas e em obras de arte que materializaram as alucinações de outros crentes…

 

O homem que vê e crê no céu azul nunca parou para se perguntar por que razão o céu é azul, o que não contraria o facto que vários outros já o terem feito e inclusive encontrado a explicação científica do fenómeno natural por detrás da “eleição” da cor azul2.  

   

O homem (bom, a mulher se quiserem, afinal quanto penso em fanatismo religioso na minha aldeia vêem-me mais caras femininas que masculinas à cabeça) que acredita que depois de morrer permanecerá “vivo” em forma de alma num outro mundo imaterial a que chama “vida eterna”, esse, ou essa, nunca se perguntou por que a vida eterna é eterna, ou se é vida sequer, e jamais se questionou sobre as implicações práticas nesta crença infundada. Crê porque foi ensinado a crer na vida eterna, mas jamais se perguntou como seria “viver” essa “vida”, quem a iria “viver”, como lá chegariam partindo de um mundo material, como nela comunicariam na ausência de matéria… e por aí fora.

 

Por exemplo, uma vez morto fisicamente e renascida para a vida eterna, que faz a alma de um surdo-mudo no céu (ou no inferno)? Como se comunicará se nunca ouviu sons nem nunca aprendeu a falar? Comunicará porventura por sinais? Mas como se perdeu a sua “metade” física? O católico poder-me-á responder que surdos-mudos comunicarão através dos poderes insondáveis da mente contida na alma, e que por isso não serão precisos meios físicos nas trocas de informação, serão um género de softwares comunicando entre si… Aliás, já ouvi absurdos similares. O que ainda não encontrei foi software funcionando que não estivesse associado a hardware (um disco rígido, um cérebro, por exemplo).

 

Acreditemos que sim, que existe esse software denominado “alma” que funcionará sem hardware (sem corpo), tudo bem. Contudo, mesmo esta suposição fantasiosa e impossível de comprovar transformada em dogma absoluto não consegue por si só explicar tudo. Aliás, não explica quase nada. Para começar, poderá um crente católico me explicar como se comunica e como se entretêm eternamente um bebé que morreu da sua vida física aos 3 meses de idade, antes de ter aprendido a organizar pensamentos complexos, antes de ter aprendido a comunicar, antes de ter tido tempo de formar uma personalidade própria. Que fará este bebé na vida eterna? Comunicará em pensamento, pois sim, já o ouvi dizer, mas comunicará o quê se ainda não terá nada de inteligível para comunicar?

 

E quanto às pessoas “crescidas”, com personalidades complexas e únicas, com defeitos e manias, com virtudes e valores morais, possuidoras de crenças políticas e religiosas, que farão no paraíso? As personalidades moldam-se pela meio cultural e social em que lhes calhou nascer, pelo nível de riqueza, pelo nível de acesso à educação, pela geografia e clima envolventes, pelas religiões e ideologias politicas estabelecidas em seu redor, pelo nível de sofisticação e complexidade da sua língua materna, etc. Tendo em conta todos estes e muitos mais factores que tomam parte na construção de personalidades, no paraíso, na vida eterna depois da morte, que personalidade teremos? Uma outra, nova, em sintonia com as condições imateriais da vida eterna? Ou a mesma de sempre, a continuação no paraíso da que tínhamos na vida terrena? Se for a mesma, a questão complica-se para quem tiver ido para o paraíso. Se se mantiverem as personalidades individuais tal como eram no mundo físico, então no paraíso encontraremos boas pessoas (almas) com diferentes ideologias, diferentes preferências clubísticas e, sobretudo, crentes de diferentes religiões. Poderá ser o paraíso um paraíso se portistas e benfiquistas tiverem a eternidade inteira para se insultarem? Será paraíso o paraíso se Marxistas-Leninistas partilharem esse “espaço imaterial” com defensores do neo-liberalismo, das privatizações e das desregulamentações? Será paraíso o paraíso se para todo o sempre católicos e muçulmanos divergirem acerca da divindade de Jesus e Maomé? Se assim for, ou seja, se chegarmos ao paraíso possuidores das mesmíssimas personalidades e se optarmos por continuar a “viver o dia-a-dia”, transformaremos o paraíso no maior dos infernos. Se, pelo contrário, em prol da paz e harmonia celestial, nos abstivermos de “abrir a boca” espiritual, então que outra distracção teremos para nos ajudar a passar o tempo que durará para todo o sempre? Teremos pois de optar, no paraíso, entre o inferno eterno da discórdia ou a eterna tortura mental do silêncio?

 

A solução para este (eterno) problema seria – como hei-de o dizer sem ferir susceptibilidades – que houvesse uma formatação mental das almas uma vez finda a sua vida terrena, agora prestes a entrar na vida eterna imaterial. Para evitar transformar o céu num inferno, deus, ou funcionários seus, levariam a cabo um processo de lavagem-cerebral que uniformizasse as crenças, gostos e personalidades dos habitantes do paraíso. Assim estariam sempre de acordo, reinaria a concórdia nos céus. Por sua vez, demasiada concórdia eterna geraria aborrecimento eterno! Solução? Limpar a totalidade da personalidade, do intelecto das almas uma vez chegadas ao “paraíso”. Nesse eterno mundo imaterial de almas “amorfas” em estado vegetativoreinaria a paz que os crentes católicos garantem existir no seu paraíso imaginado. No mundo dos ateus, afinal, o paraíso e a respectiva paz não serão tão diferente assim: uma pessoa física morre e nesse mesmo momento a sua mente (ok, alma), por deixar de existir, se torna necessariamente amorfa, e do seu apodrecimento resultará adubo que há-de servir para fazer crescer… vegetais.

 

Com ou sem formatações mentais, ficam ainda questões mais técnicas por responder. As hormonas femininas produzidas durante a menstruação provocam significativas alterações emocionais, provocam momentâneas alterações de personalidade que são ao fim ao cabo parte da personalidade em si. Num mundo de almas sem corpos e, consequentemente, sem menstruações, essas variações persistirão? É sabido que um sem-fim de drogas (tabaco, álcool, anestesiantes ,anti-depressivos, cocaína, etc) têm a capacidade de alterar o “estado de espírito” e a personalidade de uma dada pessoa. O uso contínuo de drogas leva a mudanças definitivas dessa personalidade, é um facto. Essas mudanças “definitivas”, resultantes de circunstâncias físicas, persistirão na vida eterna, nesse mundo não-físico? Essa tal alma, que os católicos afirmam poder persistir para além da morte física, trará consigo para a vida eterna as mazelas da vida física que participaram na elaboração das personalidades finais de cada um? Se assim for, como funcionarão essas personalidades uma vez findos os estímulos físicos que outrora eram responsáveis pela elaboração e dinamismo dessas personalidades? Haverá um católico que me possa responder a estas questões?

 

E afinal, voltando atrás, para que servirá uma vida eterna, para que servirá vivermos eternamente num universo paralelo não-físico, sem orelhas, sem nariz para cheirar o perfume de rosas, sem boca para saborear morangos, sem luz nem olhos, impossibilitados de ver passar garotas de Ipanema ao fim da tarde, sem sol para nos aquecer e nos bronzear a pele? Que raio se fará então no paraíso? Aceitando que deus, na sua não imensa bondade, jamais executaria “lavagens cerebrais” aos habitantes do paraíso, com que mais poderiam se entreter esses não-seres senão dialogando “mentalmente”? As pessoas no geral gostam de tudo menos de “perder tempo a pensar”. Para essas mesmas uma vida eterna a dialogar não seria precisamente o inferno dos infernos, mesmo que passado no dito paraíso? Eterna prisão em si, sim… dá que pensar!

 

Ahhhh, então por que é não nascemos logo no paraíso?

 

(1) – Texto integral da Carta sobre a felicidade de Epicuro:

(2) – Explicação do fenómeno do céu azul:

Versão original: Luís Garcia, 07.07.2013, Chervey, França 

Versão actualizada: Luís Garcia, 22.08.2015, Lampang, Tailândia

 

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La Guardia Civil

 

 CASOS DE POLÍCIA – EPISÓDIO 1

 

Hitchhiking in Guarda - MISSION IMPOSSIBLE

 

 

bw VIAGENS Luís Garcia


LA GUARDIA CIVIL (Portugal e Espanha, 2007)
A viagem à boleia do trio maravilha era para ter começado no Fundão, terra natal do meu colega Ivo e onde se encontra a casa dos seus pais. Aí passámos, eu, o Ivo e o seu amigo Diogo, a noite zero da aventura Sudeleste 2007. De manhã metemos as malas às costas e viemos para a rua de cartaz na mão e polegar esticado, esperançosos de encontrar quem nos levasse até Vilar Formoso, onde procuraríamos camiões (e camionistas) para nos facilitar a travessia da Península Ibérica. Mas não, já lá vão, infelizmente, os tempos em que andar à boleia era algo de comum e quotidiano no nosso Portugal. Hoje cada um tem o seu carro e quem quiser viajar que compre o seu também! Daí que, passadas umas 3 horas, desistimos da empresa e fomos, humilhados, comprar 3 bilhetes para Vilar Formoso.

 


 
Chegados à terra santa do viajante de boleia português, tivemos ainda de atravessar a vila a pé, de malas às costas demasiado pesadas e sob um intenso e sufocante calor de Agosto. Mas o sentimento geral foi de ter valido a pena quando, chegados à entrada do enorme parque de estacionamento, deparámos com uma imensidão de potenciais meios de transporte à espera para nos levarem!
 
Saído do meio do nada apareceu-nos um rapaz na casa dos 20, sotaque local, meio desdentado e com uma série de cortes e pontos espalhados pelas sobrancelhas, lábios e rosto, sinais de quem não deveria andar lá muito bem com vida ou então não se dar assim tão bem com os seus semelhantes. Seria de esperar que ficássemos de pé atrás com ele e não lhe déssemos demasiada confiança, mas não, com a adrenalinaaparvalhante de quem tem à sua frente um mês à boleia com Roménia como destino final, nenhum de nós os três se lembrou (ou então não partilhou o pensamento) de nos afastarmos do rapaz, e lá nos pusemos na treta, trocando ideias acerca da arte de retórica de convencer um camionista a deixar entrar um bando de desconhecidos dentro do seu camião.
 
Entre timidez e falta de coragem, o trio foi pouco produtivo na busca de boleia, ao contrário do nosso trunfo, o rapaz da cara picotada, o qual em pouco mais de meia hora tinha já encontrado um camionista disponível a dar boleia até Irún (perto da fronteira Espanha-França) e que arrancaria daí a uma hora. Grande senão: só levaria dois viajantes. A solução foi voltar aos tempos de criança, pegar em quatro pauzinhos pequenos e tirá-los à sorte. O Ivo tirou o menor e o nosso trunfo tirou o segundo menor. Resultado: partíamos eu e o Diogo, com a promessa de esperar o tempo que fosse preciso pelo Ivo, visto que Irún é paragem obrigatória para metade dos camionistas que fazem o trajecto Espanha-França. Como estávamos de férias, com muito tempo disponível e antecipadamente preparados para os inevitáveis tempos de espera entre boleias, decidimos aceitar a generosa oferta e lá partimos uma hora depois.
 
O leitor já se deve ter interrogado do porquê de termos tirado pauzinhos à sorte entre os quatro e não apenas entre os três amigos dos quais um ganharia o direito de partir primeiro na companhia do rapaz que encontrara a boleia e que, portanto, deveria já ter o seu lugar garantido no camião. Mas não, ele nunca poderia ter partido em primeiro, não que o não tivesse merecido, mas porque continha secretamente em si a chave para o apocalíptico fim desta estória…
 
À hora que eu e o Diogo deveríamos partir já todos os outros camiões tinham sido inspeccionados e, como não obtiveram mais nenhuma resposta positiva, Ivo e o rapaz desconhecido deslocaram-se até à linha de fronteira para pedirem boleia aos carros em andamento. Aí os vimos, minutos depois, de punhos cerrados e polegares apontados aos céus, ansiando pela boleia que nunca chegou a vir. Ou melhor, veio, mas de um género até então inimaginável, e com o mais insólito dos destinos.
 
Após uma hora na estrada, eu e o Diogo decidimos fazer um telefonema ao nosso colega de viagem Ivo, curiosos de descobrir se ele já teria conseguido boleia e, caso contrário, dar-lhe umas palavrinhas de motivação e encorajamento. Mas não, não era possível uma vez que o seu telemóvel se encontrava desligado e assim permaneceu por um período de várias horas durante as quais a inquietação e a expectativa foram crescendo entre nós os dois. Que raio andará a fazer o Ivo? – perguntávamos nós um ao outro, desconcertados. Já depois de termos perdido a paciência para lhe ligar e meio anestesiados pelo rolar meticulosamente monótono de um camião nas estradas espanholas infinitamente rectas, recebemos um telefonema de Ivo, exaltado e confuso. Com o gaguejar e hesitação com que relatava os acontecimentos das últimas horas foi-nos ao início muito difícil de perceber o que contava ele, e duvidámos momentaneamente se não estaria mesmo a fazer troça de nós, mas não, pelos vistos a coisa era séria e ele encontrava-se já de regresso ao lar paterno no Fundão, onde horas antes partíramos os três à aventura.
 
Segundo nos relatou, poucos minutos depois de termos passado por eles, um jipe da Guardia Civil espanhola parou no local e sem muitas explicações pegaram no Ivo e no outro viajante, prenderam-nos na parte de trás do jipe e levaram-nos para a esquadra espanhola mais perto. Aí começaram por interrogar o rapaz das cicatrizes, ordenando ao nosso colega Ivo que se mantivesse entretanto quieto e em silêncio num compartimento ao lado. Não obedecendo às ordens Ivo pegou no seu telemóvel e tentou ligar aos pais. Resultado, uma valente bofetada de um guarda espanhol e um telemóvel despedaçado no chão. Após interrogatórios e algumas horas passadas sobre intenso stress, Ivo chegara à conclusão que o outro português era cliente habitual das esquadras espanholas da região, autor de inúmeros assaltos, e que se encontrava na altura em fuga devido ao seu mais recente delito. Azar foi o Ivo se encontrar na hora errada e no local errado de braço esticado a 2 metros de distância do fugitivo. Mas mau, muito mau mesmo, foi o comportamento da guarda civil espanhola que atravessa a fronteira, pega aleatoriamente um português em território português e prende-o sem se preocupar minimamente em averiguar a relação (caso houvesse) entre este e um outro que era por eles procurado. Afinal, é crime estar à boleia numa estrada e ter a 2 metros de distância um outro homem igualmente à boleia e do qual não sabemos rigorosamente nada?
 
A verdade é que a experiência foi suficientemente traumatizante para que Ivo, assim que a ordem voltara a ser reposta, tenha telefonado aos pais para virem o mais depressa do Fundão e resgatarem o seu filho das garras da “incompetente e perigosa guarda civil espanhola”. E foi já na segurança e conforto do lar que Ivo fez-nos o primeiro telefonema no qual ficámos finalmente a par dos eventos. Ambos insistimos imenso para que mudasse de ideias, que recomeçasse, que partisse à boleia ou de autocarro enquanto nós, solenemente, esperaríamos por eles os dias que fossem necessários em Irún ou noutro lugar por ele escolhido. Argumentámos que este acontecimento teria sido um grande teste de resistência psicológica ao futuro viajante e que quem superasse tal teste estaria sem dúvida pronto a enfrentar qualquer outro desafio de viagem… lembro-me até de lhe ter dito ao telemóvel que “depois da tempestade vem a bonança”! Mas não, Ivo era peremptório, a sua decisão era de definitivamente ficar para trás. Após apenas meio-dia, a expedição tinha já perdido 1 dos seus 3 membros…
 
Perdemos em quantidade, mas sei hoje que ganhámos em coesão e muito mais. Na hora que se seguiu à desistência de Ivo mantive-me sossegado no meu canto, olhando fora da janela os traços descontínuos arrastando-se cansados, hipnotizantes, fundindo-se uns com os outros sob o resto de luz do entardecer. Ia a pensar sozinho, divagando, perguntando-me do que viria a ser desta aventura imaginada meses atrás: na altura, por termos amigos Erasmus em comum, na Universidade do Minho, eu e o Ivo passávamos muito tempo juntos. Por entre inúmeras conversas passei da explicação do meu plano de viagem à obtenção de um colega de equipa. Só mais tarde se juntou Diogo, amigo de Ivo e que eu vagamente conhecia de encontros esporádicos entre estudantes Erasmus e outros portugueses na residência universitária. De lá até ao primeiro dia da viagem as circunstâncias não tinham mudado muito, excepto que o elo de ligação entre mim e o Diogo tinha ficado para trás e desistido da viagem. Como viria a ser agora a relação entre dois quase desconhecidos, com se desenrolaria o trabalho de equipa entre duas pessoas que não sabiam se tinham ou não as mesmas ideias, se partilhavam o mesmo tipo de ambições, se procuravam ou não as mesmas aventuras. Se, tendo todo estes pontos em comum não se chateariam pela mais fútil das razões ou se, pelo contrário, tendo quase nada em comum não pudessem seguir muito mais tempo juntos numa viajem que estava planeada para durar 30 dias, atravessando milhares de quilómetros, 8 países, quase sempre à boleia?

 

A viagem tinha tudo para correr mal e acabar antes do prazo previsto, mas o pensamento que me veio à cabeça na altura foi o de que estaria perante um imenso e interessantíssimo desafio pessoal: seria eu capaz de superar uma prova bigbrotheriana na companhia de um quase desconhecido durante o período de um mês? Não sei se o leitor está a pensar nas implicações práticas, mas quando se viaja por um período largo de tempo com outra pessoa, passamos a ser quase uma sombra dela: sabemos quando adormece, quando acorda, quando tem fome, quando tem diarreia, quase sabemos o que pensa! Além do mais as condições estabelecidas eram duras dado o orçamento muito limitado e a imensa vontade de ir longe, muito longe, tornando certo o facto de que iríamos passar por várias situações de desânimo, stress ou frustração. Qual o impacto de emoções de um no outro, como reagiríamos aos momentos mais negativos um do outro? Quase a adormecer lembro-me de ter feito esta conclusão: se os nossos orgulhos e personalidades distintas viessem a chocar-se constantemente sem lugar a cedências, a viagem acabaria daí a uma semana. Se ultrapassássemos dificuldades em conjunto, se nos complementássemos, se déssemos o braço a torcer nos momentos chave durante as primeiras 2 semanas, teria ali um amigo para a vida. A segunda opção acabou por imperar, felizmente…
 
Quanto ao incidente do Ivo, serve para provar que o medo típico de destinos longínquos e nebulosos é completamente infundado, e que se algo tiver que correr mal, pode ocorrer logo ali ao virar da esquina, nos primeiros passos fora da nossa querida e amada terra…

 

Site super-infantil que fizemos para a dita viagem:

O álbum de fotos do primeiro dia de viagem: 

Luís Garcia, 21.08.2015, Lampang, Tailândia

 

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O deus imperfeito - Introdução 1/3

O deus imperfeito RELIGIÃO Luís Garcia

 

Antes da criação do universo, deus não fez nada. Não consta. Um dia não se sabe porquê, decidiu criar o universo. Também não se sabe porquê nem para quê. Fez, segundo a bíblia, o universo em seis dias. (…) Descansou ao sétimo. Até hoje. Nunca mais fez nada. Isto tem algo sentido? (José Saramago, 2009)

 

INTRODUÇÃO

 

Era uma vez um imperfeito deus, um deus triste e aborrecido, farto de ser e de nada fazer, esquecido, perdido e vagueante por entre uma negra imensidão de nada e um mais que imenso poder de tirar o negro a essa imensidão. Mais que imenso poder, pois claro, não tivesse este deus cristão os auspiciosos cognomes de omnipotente (o qual nos poderá elucidar quanto ao seu infinito potencial de alterar o seu desesperante aborrecimento) e de omnipresente (título este que nos alerta ainda mais para a sua aflitiva condição de vagueante na dita imensidão negra primordial). Segundo consta, nestas exactas condições de sofrimento existencial terá começado a sua muito badalada jornada pelo mundo substancial por ele criado desde então, não fosse este precisamente o deus dos fracos, dos esquecidos e dos infelizes oprimidos que nesse mundo haveriam por sua obra e graça existir um dia num não longínquo futuro, o deus que haveria daí em diante reinar sob a égide da fraqueza e da miséria físicas e intelectuais dos seus súbditos humanos, não sendo de espantar assim que antes de qualquer outro, fosse ele também vítima dessa mesma desgraça que ainda hoje teima em ser a palavra de ordem nos providenciais discursos daqueles que, nos nossos tempos, tomam por missão de vida a responsabilidade de espalhar os divinos ensinamentos!

 

De forma mais prosaica mas necessariamente lamechas, poderíamos ainda acrescentar que este era um deus cujo currículo de vida resumia-se ao de um desgraçado pobre coitado que tendo a possibilidade de criar um oceano com todas as lágrimas que derramara desde o início da sua desgostosa eterna existência para aí poder lavar a cara e os trapos que sempre vestira e daí partir para uma nova vida plena de brilhantismo, inovação, grandiosidade, criação, pelo contrário, insistia de forma teimosa e masoquista em perpetuar a sua miserável condição. De forma masoquista? Sim, como todo o desgraçado que se arrasta de mente e joelhos ensanguentados pelo mármore providencialmente espalhado sobre a santa praça portuguesa plantada exactamente no local onde um dia três miúdos não viram nuvens em forma de elefantes, como esses e muitos mais abutres de si próprios, também deus preferia viver na desventura e resignadamente suportar a sua omnipresente solidão pois possivelmente veria (digo eu, sem conhecimento de causa) nesse seu sobre-divino sofrimento o caminho para a santa e cristã felicidade. Cristã? Sim, não se deixem precipitar os mais cépticos e desconfiados destes meus encadeamentos de palavras pois, embora o termo tivesse de esperar pela vinda ao mundo físico dos homens que haveriam de o formular, o dito termo deveria ter desde já assegurada a sua pré-existência na mente de um deus imperfeito mas ainda assim (segundo consta) omnipotente.

 

Ao escrever sobre um deus católico, de um deus perfeito deveriam estar os leitores à espera de ouvir falar, mas não é o caso. Estranho caso, ou até não, pois não vejo como a nossa humana ideia de perfeição (de nós que somos imperfeitos) possa provar que algo de perfeito exista de facto, nem tão pouco que possa provar que um supremo e perfeito deus exista, por ser este a única evidência da suspeitada existência de Perfeição. No entanto, quando dele se fala, é sempre do ponto de vista da existência de um ser transcendente e perfeito que invariavelmente se parte e, porque ninguém se dá ao trabalho de se lembrar de um deus que assim não seja, acaba o desgraçado imperfeito deus por ser o sempre esquecido de uma muito mal contada história. Ou será que não? Não, defendo eu. Creio ser mentira o que ainda agora escrevi, não foi esquecido esse desventurado e imperfeito deus, mentira, é este mesmo deus contido nas escrituras do livro sagrado que todos os dias é citado nos altares da santa e romana igreja católica. É em nome deste mesmo deus que todos os dias são tomados actos que desviam a espécie humana da ambiciada perfeição. É em seu nome que invariavelmente se lutaram e lutam fictícias guerras civilizacionais com o império do mal de outrora ou com o mediático eixo do mal dos nossos dias. É a igreja, a religião deste mesmíssimo deus que diariamente amealha mais uns quantos católicos adeptos depois de estes generosamente doarem a caridosa esmola ao pobre coitado ajoelhado na entrada da sua igreja paroquial, e que o fazem para assim se encherem da santa alegria de um pouco mais pobres ficarem e por assim julgarem saber que esse será o caminho do prometido paraíso para as nobres almas suas semelhantes. Ora sendo o deus referido fonte e inspiração de tão imperfeitos comportamentos como estes e muitos mais que não têm espaço nestas linhas, como poderá estar esquecido e neglegenciado aquele que eu denomino por deus imperfeito? Não estará por certo. Esquecido estará à muito o prefixo que lhe inverteria o seu aqui contestado atributo. Consequentemente, em esquecimento terá caido então o perfeito deus que tal como o primeiro também não existe, insisto eu, mas isso é outra história e os responsáveis desse olvido serão outros mais nobres entre a hierarquia católica que os doadores de esmolas.

Luís Garcia

 

Deus é cruel, invejoso e insuportável, por José Saramago

 

 

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“Neoguerra”, NATO e o assassínio da Sérvia

 POLITICA Luís Garcia
 

 

DEFINIÇÃO DE NEOGUERRA

 

  • “Não, não se trata de uma guerra, [mas sim de] golpes desferidos em nome do direito.”, Leonel Jospin, antigo primeiro-ministro francês;
  • “Guerra humanitária”, Tony Blair;
  • “Dever de ingerência”, Bernard Kouchner;
  • “Peacemaking”;
  • “Peacekeeping”;
  • “Ingerência humanitária”;
  • “Guerra justa”;
  • “Intervenção humanitária”.

 

nato_logo

 
Quando em 1995 os EUA/NATO bombardearam exaustivamente as infraestruturas civis sérvias, matando umas centenas de civis sérvios (“danos colaterais” empentagonês) pelo caminho, os principais líderes ocidentais conseguiram atribuir ao feito os mais ridículos eufemismos jamais vistos (ver lista cima). Nenhum líder ocidental ousou chamar a coisa pelo nome.  Porquê? Por que razão não lhe chamar simplesmente guerra? Ou invasão? Ou aniquilação? Ou destruição bárbara? Não… chamaram-lhe a esta guerra: “manutenção de paz”. Seja. Mas por que razão?
 
Porque segundo a vontade dos senhores da NATO, esta guerra de invasão e submissão não poderia ser declarada enquanto tal, e muito menos compreendida como tal pela populaça desinformada e facilmente manipulável. Porque a “NATO é a polícia do mundo”; a polícia é um agente do bem; logo a NATO faz o bem; quem faz o bem não pode fazer o mal, e a guerra é uma manifestação brutal do mal. Intervenção humanitária? Ah, sim, assim é outra coisa, soa bem e dá uma bem-vinda limpeza purificadora às consciências daqueles que por entre as massas hesitem perante as imagens de manifesta violência física desmesurada! “Intervenção humanitária”? Sim, como quiserem. O resultado será sempre o mesmo: massacre, destruição, miséria e morte…
 
 
DANOS COLATERAIS PROPOSITADOS
 
Confissão de um oficial da NATO ao Nouvel Observateur, no dia 1 de Julho de 1999 sobre os “danos colaterais” na invasão à Sérvia, e que se tratavam afinal de actos premeditados de terror, logo camuflados por hábeis tácticas de propaganda – desinformação e esquecimento-, as faces “macias” da neoguerra:
 
  • “Quanto aos erros, tínhamos uma táctica bastante eficaz. Na maior parte dos casos conhecíamos as causas e as consequências exactas desses erros. Mas para anestesiar as opiniões, dizíamos que estávamos a fazer um inquérito e que as hipóteses eram múltiplas. Só revelávamos a verdade quinze dias mais tarde, quando ela já não interessava a ninguém”

Carlos Santos Pereira no seu livro sobre a verdadeira face da NATO1, não tem qualquer pudor em afirmar que:“E o que faz digna de nota a confidência do oficial da NATO (…) não é mentira em si. Não é sequer o massacre confesso. É a presunção de impunidade com que a bravata é proferida.” Ridículo portanto sequer tentar defender a “imaculada face” da NATO.

  • Ironicamente ou não, até Henry Kissinger, o terrorista-mor dos nossos tempos, criticou o tratamento dado à Sérvia aquando dos bombardeamentos de 1999: “Que espécie de humanismo se expressa pela recusa em sofrer perdas militares e pela devastação da economia civil do adversário nos próximos decénios?”

“Considero moralmente odioso (…) recusar [ao adversário] o mínimo de reconhecimento que consiste em qualificá-lo de inimigo.”afirmou e bem Pierre Manent. Pois é precisamente o que ocorre hoje em dias nos ataques terroristas da NATO. Defendendo-se com o falacioso argumento da guerra pela paz, da guerra humanitária, a NATO e seus estados constituintes rebaixam e humilham a vítima da sua agressão, não a respeitando sequer como inimiga de guerra, subtraindo a vítima dos consequentes direitos (tratamento de prisioneiros, por exemplo), subtraindo-se a si própria das estabelecidas obrigações éticas da guerra (não atacar infraestruturas civis não relacionadas com a máquina de guerra, por exemplo), e rebaixando a sua vítima à condição de pátria ignóbil merecedora de uma boa humilhação ou repreensão dada pelo império policial sob o olhar apático da plebe mundial submissa.

  • “a guerra tem as suas normas, (…), se não há guerra, não há regras, não há declaração de guerra (não há voto na assembleia nacional), não há chicanas jurídicas, não há mais reparações nem crimes de guerra.”(Daniel Bensaid)

 

GUERRA É PAZ

time - bombing serbia

TIME MAGAZINE, 11.09.1995 (METENDO OS SÉRVIOS DE JOELHOS – UM MASSIVO BOMBARDEAMENTO ABRE O CAMINHO PARA A PAZ)

 
PARECE QUE NINGUÉM SABE O PORQUÊ
 
Já muita gente se deve ter perguntado por que razão os mesmos adoráveis, simpáticos e democratas EUA que vieram nas vésperas da já quase terminada Segunda Grande Guerra Mundial “salvar a Europa” e “presenteá-la” primeiro com o renascimento económico e depois com a certeza de uma paz perpétua, voltaram depois, no fim do milénio, para bombardear de forma atroz e tenaz a quase totalidade das infraestruturas civis da Sérvia (pontes, linhas férreas, comboios, centrais eléctricas, reservas alimentares, reservas de água, entre outras), fosse esta ou não o demónio eslavo que as TV’s ocidentais proclamavam. Demónio ou não, nenhuma resolução da ONU autorizou jamais qualquer bombardeamento sobre a Sérvia, e mais demoníaca será po certo a mente de quem fria e conscientemente autoriza a destruição económica a longo prazo de um pequeno país como a Sérvia, simplesmente porque este teve a coragem e a altivez de querer provar que um diferente sistema político, mais saudável que o selvagem capitalismo anglo-saxónico poderia ser possível neste mundo pós Guerra Fria e pós queda do Muro de Berlim. Outro exemplo de corajosa altivez, Cuba, sabe bem o que bem custam 50 anos de embargo mundial como forma de erroneamente provar que a sua alternativa também não presta neste mundo de ditaduras económicas e mercados birrentos. Ou a Venezuela socialista e bolivariana que sofre constantemente agressões sob a forma de tentativas de golpe de estado (20022, 2004, 2007, 2013, 2014), sabotagem económica (paro petrolífero de 2003, escassez de alimentos de 2013-2014), entre outras.
 
  • “Durante a Guerra Fria, a NATO, reivindicou os créditos de guardiã e grande responsável por meio século de paz no Velho Continente. Dez anos depois da queda do Muro, é à custa das bombas e dos mísseis que massacraram a Sérvia que a NATO se afirma uma vez mais como o pivot da ordem europeia.”1
  • “Os bombardeamentos da NATO violaram abertamente as regras políticas e jurídicas estabelecidas no convívio das nações. Marcam por isso um ponto de ruptura. Os princípios do direito e da concertação tinham sido cilindrados pelo argumento da força. Como em 1939, quando Hitler lançou os Stuka e os Panzernazis contra a ordem de Versailles.1

 

Não quero de forma alguma fazer a apologia do indefensável, não afirmaria jamais que estavam certos os militares e políticos sérvios que autorizaram e perpetraram os vários e sobejamente conhecidos genocídios bósnios e croatas. No entanto não posso deixar de mostrar o meu descontentamento e repulsa pela desconstrução propagandista do que de facto se passou na então Jugoslávia, infelizmente tão bem orquestrada pelos donos do planeta, graças à sua incrível máquina de propaganda chamada imprensa livre. Há uns anos atrás, num debate sobre a Guerra dos Balcãs na Universidade do Minho (Braga), um ex-militar da NATO (cujo nome não me recordo) fez uma incrível confissão: poucos meses antes do início das hostilidades nos Balcãs, representantes dos diferentes estados da Jugoslávia reunidos com representantes da NATO e da UE em Bruxelas garantiram solenemente que não haveria derramamento de sangue nem tampouco conflito armado caso a Jugoslávia viesse a desmoronar-se. Mais importante ainda, esse ex-militar contou-nos que na altura a sensação para ele (e para a maioria dos militares com quem partilhou a sua opinião) era de que todas as solenes promessas não passavam de ocas palavras, prenúncios mais que óbvios do terror por vir, agravados por uma tensa atmosfera de inimizade e sorrisos amarelos típicos de quem diz “branco” com as palavras e “preto” com a linguagem corporal. Do discurso deste ex-militar tiro duas preciosas informações: primeiro, a forma como decorreu a cimeira demonstrou aos líderes ocidentais que o terror estava para breve, mas que era ainda possível de se evitar. Segundo, o facto de ter sido realizada tal cimeira em Bruxelas e pela NATO, e o facto dos seus líderes terem conscientemente tapado os olhos aos prenúncios de guerra, indicam o interesse (qual interesse? certamente o fim do funcional logo alternativo sistema socialista jugoslavo) que o desmoronamento da Jugoslávia se desse, indiferentemente das muitas vítimas civis necessárias, indiferentemente da necessária destruição total da Sérvia.
 
 
 
 
O OUTRO LADO E O PORQUÊ
 
É interessante constatar que toda a gente já ouviu falar dos massacres bósnios, dos massacres croatas, de Srebrenica, de demoníacas figuras sérvias como Milošević,Karadžić ou Mladić. De tudo o que se ouviu dos media ocidentais a conclusão tornar-se óbvia: A Sérvia e os sérvios são o inferno e respectivos demónios. A minha visita à Sérvia em 2008 no entanto presenteou-me com a surpresa de encontrar um dos povos mais amáveis e acolhedores que já visitei. Voltando ao assunto, é unânime no ocidente a repulsa para com tudo o que esteja relacionado com a Sérvia, pois Sérvia soa a massacres, ódios infundados e horrores inimagináveis.
 
No entanto, quantos de nós no mundo ocidental ouviram falar de massacres de sérvios? Quantos ouviram falar de Krajina? Quantos sabem que até as forças militares croatas admitiram que só foi possível massacrar os civis sérvios graças à ajuda dos bombardeamentos da NATO? Um interessante artigo online (apenas em inglês) descreve bem a relação estreita entre as forças armadas croatas e a NATO, assim como os horrores sofridos pelos civis sérvios às mãos desses dois: The Invasion of Serbian Krajina3.
 
  • “A «ingerência humanitária» tem-se revelado na prática selectiva e arbitrária. Bombardeia-se a Sérvia em nome dos direitos dos Albaneses, mas dá-se cobertura à limpeza da Krajina e assiste-se sem pestanejar ao genocídio do Ruanda. Bombardeiam-se os iraquianos em prol da minoria curda, mas entregam-se os mesmos curdos às mãos do aliado turco. Sacrifica-se a população de Timor-Leste aos apetites de Suharto, armam-se os Pinochet contra as populações da América Latina – tudo em nome dos mesmos «preceitos morais».”1
Ou quantos pararam para pensar sobre a demissão do governo holandês aquando da descoberta de que os capacetes azuis do exército Holandês tinha permitido e assistido em Srebrenica ao genocídio de bósnios muçulmanos às mãos do exército sérvio sem reagirem de forma alguma, como que se de uma romana plateia se tratassem, divertindo-se com o grotesco espectáculo de gladiadores devorados por bestas selvagens? O governo holandês demitiu-se porque o embaraço era extremo, mas nenhum media ocidental se atreveu a fazer as cruciais conclusões: primeiro que não era suposto que a cumplicidade passiva de capacetes azuis no massacre se tornasse pública; segundo, que era por demais óbvio e lógico que ao ocidente (representado pela NATO/Capacetes Azuis) interessasse a ocorrência de genocídios croatas ou bósnios, de forma a legitimar mediaticamente a destruição da Sérvia e a aniquilação do seu sistema socialista.
 
E que dizer das grotescas manobras de propaganda televisiva anti-sérvia, como a dos pneus ardendo em Dubrovnik?
 
  • “Devoir d’ingérence – A expressão foi popularizada pelo actual chefe da administração da ONU no Kosovo, no Outono de 1991. Perante as imagens de televisão mostrando colunas de fumo a erguerem-se dos vetustos muros de Dubrovnik, Kouchner apelava aos quatro ventos a uma punição internacional contra os sérvios. Kouchner sabia que as colunas de fumo eram provocadas por pneus queimados pelos croatas atrás das muralhas da cidade. Mas a manobra resultou. O prémio chegaria oito anos depois.”1
 
Ou ainda, a muito importante e absolutamente ignorada presença do exército alemão na Croácia durante os anos precedentes à guerra, treinando e preparando secretamente a Croácia para um futuro evento já então previsto pelo poder alemão – caso contrário, como se explicaria então tão prolongada presença, tão específicos treinos de guerrilha e, sobretudo, tão extremo secretismo por parte dos alemães.
 
 
CONCLUSÕES
 

Na minha humilde opinião, baseada na análise do factos a que tenho acesso, tudo não passou duma engenhosa construção ocidental, uma bem organizada guerra civil jugoslava de fachada; apetrechou-se minorias étnicas com armamento moderno, deu-se-lhes treino militar e ordenou-se-lhes pressionar os sérvios, ameaçá-los com a possibilidade do confronto. Os sérvios foram na cantiga e jogaram o mesmo jogo. Os media ocidentais foram prévia e sabiamente doutrinados a endemonizar a Sérvia. Com o desenvolver do conflito e do número de ocorrências bárbaras, mais fácil ainda foi fazer passar a imagem da sérvia diabólica, escondeu-se e bem, por outro lado, as atrocidades dos bósnio-croatas… Policiou-se maquiavelicamente com capacetes azuis as atrocidades sérvias, garantindo que estas ocorressem e garantindo que fossem do conhecimento público. Com tudo isto, claro que o poveco aceitou tranquilamente o dilúvio de bombas, até as terroristas bombas de urânio empobrecido…

 

E ficámos com o quê? Sérvios humilhados, economia e infrastruturas civis essenciais da Sérvia arrasadas, um retrocesso civilizacional enorme numa Sérvia até à pouco possuidora de um modelo verdadeiramente socialista… Uma Sérvia caída no flagelo imposto da miséria, rendida à então necessária ajuda externa do ocidente capitalista… A economia comunista de cuba atacou-se pelo embargo, a economia socialista da sérvia pela força das bombas. Eis a realidade nua e crua...

 

Afinal, foi o próprio presidente dos EUA da época, Bill Clinton, que justificou o enviou de forças armadas para a Bósnia “(…) sobretudo para defender os nossos interesses e a nossa liderança no mundo”. Que mais dizer…

 

MEDIA ACONSELHADOS:

 

Os novos Muros da Europa, de Carlos Santos Pereira

Os novos Muros da Europa, de Carlos Santos Pereira

 

Stolen Kosovo

 

La guerra infinita

 

 

versão original: Luís Garcia, 09.01.2012, Šironija, Lituânia

versão actualizada: Luís Garcia, 18.08.2015, Lampang, Tailândia

 

BARRA EM CIMA

(1) – citações de Os novos Muros da Europa, de Carlos Santos Pereira

(2) – ver documentários: The War On Democracy, de John Pilger (2007),  The Revolution Will Not Be Televised, de Kim Bartley (2003),

(3) – Documento em inglês sobre o massacre em Krajina: The Invasion of Serbian Krajina

BARRA EMBAIXO

 

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