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Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

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A bíblia fora de contexto, por Luís Garcia

 

 

Luís Garcia RELIGIÃO 

CITANDO A BÍBLIA

Comecemos por cometer o capital pecado de citar um excerto da bíblia, claro está, fora de contexto, nomeadamente uma parte do Êxodo na qual o deus particular judaico expõe aos judeus o código de conduta cívica judaico.  Deus judaico? Sim judaico, sim dos judeus e não deus dos portugueses, dos brasileiros ou dos europeus, pois é bem explícita a referência da libertação dos judeus da escravatura a que haviam sido submetidos. Deus particular? Sim, particular de um grupo específico de pessoas dele crentes, à partida o povo judeu, hoje uma multitude de povos espalhados pelos 5 continentes. Sim, particular, dizia eu, um deus não do universo inteiro, de todas as coisas e de todos os seres humanos, mas apenas daqueles que nele crêem. Um deus de infinita misericórdia para os seus amestrados fiéis, um deus infinitamente cruel não só para com os descrentes mas também para com toda a descendência presente e futura (e inocente diria eu) daqueles. Não sou eu que digo, está escrito na sagrada obra:

 

Então Deus pronunciou todas estas palavras: "Eu sou o Senhor teu Deus, que te fez sair do Egipto, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de minha face. Não farás para ti escultura, nem figura alguma do que está em cima, nos céus, ou em baixo, sobre a terra, ou nas águas, debaixo da terra. Não te prostrarás diante delas e não lhes prestarás culto. Eu sou o Senhor, teu Deus, um Deus zeloso que vingo a iniquidade dos pais nos filhos, nos netos e nos bisnetos daqueles que me odeiam, mas uso de misericórdia até a milésima geração com aqueles que me amam e guardam os meus mandamentos. "Não pronunciarás o nome de Javé, teu Deus, em prova de falsidade, porque o Senhor não deixa impune aquele que pronuncia o seu nome em favor do erro. Lembra-te de santificar o dia de sábado. Trabalharás durante seis dias, e farás toda a tua obra. Mas no sétimo dia, que é um repouso em honra do Senhor, teu Deus, não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua serva, nem teu animal, nem o estrangeiro que está dentro de teus muros. Porque em seis dias o Senhor fez o céu, a terra, o mar e tudo o que contêm, e repousou no sétimo dia; e por isso. o Senhor abençoou o dia de sábado e o consagrou. Honra teu pai e tua mãe, para que teus dias se prolonguem sobre a terra que te dá o Senhor, teu Deus. Não matarás. Não cometerás adultério. Não furtarás. Não levantarás falso testemunho contra teu próximo. Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seu boi, nem seu jumento, nem nada do que lhe pertence." Diante dos trovões, das chamas, da voz da trombeta e do monte que fumegava, o povo tremia e conservava-se à distância. E disseram a Moisés: "Fala-nos tu mesmo, e te ouviremos; mas não nos fale Deus, para que não morramos." Moisés respondeu-lhes: "Não temais, porque é para vos provar que Deus veio e para que o seu temor, sempre presente aos vossos olhos, vos preserve de pecar". E o povo conservou-se à distância, enquanto Moisés se aproximava da nuvem onde se encontrava Deus. O Senhor disse a Moisés: "Eis o que dirás aos israelitas: vistes que vos falei dos céus. Não fareis deuses de prata, nem deuses de ouro para pôr ao meu lado. Tu me levantarás um altar de terra, sobre o qual oferecerás teus holocaustos e teus sacrifícios pacíficos, tuas ovelhas e teus bois. Em todo lugar onde eu fizer recordar o meu nome, virei a ti para te abençoar. Se me levantares um altar de pedra, não o construirás de pedras talhadas, pois levantando o cinzel sobre a pedra, tê-la-ás profanado. Não subirás ao meu altar por degraus, para que se não descubra a tua nudez." Êxodo 20:1-26

 

Interessante como convenientemente o povo judaico se nega a ouvir deus, deixando a tarefa em exclusivo ao iluminado Moisés. Se eu fosse menos inocente diria que estes  Moisés, porta-voz da "máquina", qual Obama, qual Passos Coelho da época, teria estado ao serviço de interesses superiores (terrestres, claro está), daí que teria sido útil abster a populaça de presenciar inverosímeis discursos acerca de algo tão banal como... todas as regras que haveriam de reger as suas humildes vidas daí em diante... Mas bom, on record a populaça não terá ouvido o discurso de deus por alegadamente ter tido temor de morrer como consequência desse acto! Ok, tudo bem, o meu eu inocente aceita a explicação (fraquinha), mais não deixa de ficar espantado e horrorizado com a crueldade divina... Voltando aos ensinamentos do cruel:

 

Estas são as leis que exporás {aos israelitas}: quando comprares um escravo hebreu, ele servirá seis anos; no sétimo sairá livre, sem pagar nada. Se entrou sozinho, sozinho sairá; se tiver mulher, sua mulher partirá com ele. Mas, se foi o seu senhor que lhe deu uma mulher, e esta deu à luz filhos e filhas, a mulher e seus filhos serão propriedade do senhor, e ele partirá sozinho. Porém, se o escravo disser: 'Eu amo meu senhor, minha mulher e meus filhos; não quero ser alforriado', seu senhor o levará então diante de Deus e o fará aproximar-se do batente ou da ombreira da porta, e furar-lhe-á a orelha com uma sovela; desta sorte o escravo estará para sempre a seu serviço. Se um homem tiver vendido sua filha para ser escrava, ela não sairá em liberdade nas mesmas condições que o escravo. Se desagradar ao seu senhor, que a havia destinado para si, ele a fará resgatar; mas não poderá vendê-la a estrangeiros depois de lhe ter sido infiel. Se a destinar ao seu filho, tratá-la-á segundo o direito das filhas. Se tomar outra mulher, não diminuirá nada à primeira, quanto à alimentação, aos vestidos e ao direito conjugal. Se lhe recusar uma destas três coisas, ela poderá partir livre, gratuitamente, sem pagar nada." "Aquele que ferir mortalmente um homem, será morto. Porém, se nada premeditou, e Deus o fez cair em suas mãos, eu lhe fixarei um lugar onde possa refugiar-se. Mas, se alguém, por maldade, armar ciladas para matar o seu próximo, tirá-lo-ás até mesmo do meu altar, para matá-lo. Aquele que ferir seu pai ou sua mãe, será morto. Aquele que furtar um homem, e o tiver vendido, ou se este for encontrado em suas mãos, será morto. Quem amaldiçoar seu pai ou sua mãe, será punido de morte. Êxodo 22:1-17

 

E paremos por aqui no que concerne a citações, pois começam a ser demasiado confusas as leis bíblicas fora de contexto. Que o deus judaico-cristão autorize a escravatura até se percebe (Êxodo 22:2), ele é mau, toda a gente sabe. Agora que autorize a escravatura para dois minutos depois vir condenar (com pena de morte) aquele que escravizar (Êxodo 22:16), mmmm, já não é mau, é macabro, é perverso...

 

Ah só mais um pouco, a propósito de escravatura:

 

Se um homem ferir seu escravo ou sua escrava com um bastão, de modo que ele morra sob sua mão, será punido. Se o escravo, porém, sobreviver um dia ou dois, não será punido, porque ele é propriedade do seu senhor. Êxodo 22:20-21

 

Como disse que disse? Não é castigado o escravizador? Então não é suposto morrer quem rapta um seu semelhante para o escravizar ou para o vender como escravo? Ou será que um escravizador morre por ter escravizado e em seguida reencarna para poder escravizar o seu escravo, até ao dia em que, por o maltratar, poderá ser punido, ou não, caso o escravo sobreviva!?! Ahhh, valha-me deus!

 

PORQUÊ CITAR A BÍBLIA

Será correcto uma pessoa citar a bíblia fora de contexto? Não sei, mas a ser verdade, todos os padres, bispos e cardeais que aos Domingos lêem missais incorrem nesse condenável acto. A sim sendo, por que não fazê-lo também, quer seja-se crente, descrente ou até ateu!

 

E por que razão citará um ateu a bíblia? Porventura porque mesmo fora do redutor contexto judaico-cristão que sacraliza por definição tudo o que é contido na bíblia,  o ateu cita a bíblia dentro de um contexto de análise a uma moral também judaico-cristã (o meu caso) que quer queira quer não influencia directa e indirectamente a sua vida quotidiana. Cita porque se insere interessadamente num contexto de elaboração de uma moral, de uma moral ateia, de uma moral epicurista, de uma moral materialista (no bom sentido do termo, o sentido físico daquilo que todos nós somos feitos), de uma moral, no fundo, biológica. Sim, uma moral biológica anterior à organização social humana e por consequência anterior a todas as crenças e superstições religiosas, uma moral genética e evolutiva se se quiser ser rigoroso.

 

  • Recentemente foi feito um estudo sobre a moral em chimpanzés. Colocou-se um chimpanzé numa jaula metálica com o chão passível de ser ligado a uma corrente eléctrica; numa outra colocou-se um segundo chimpanzé. Sempre que se oferecia comida ao segundo chimpanzé e que este a comia, o primeiro era electrocutado e gemia de dor, até que o segundo se apercebeu da relação directa entre a sua saciedade e o sofrimento do seu semelhante, o que o levou a deixar de comer, pese embora a abundância de comida e o facto de ter fome. O segundo chimpanzé, o da jaula com comida, jejuou durante as duas semanas seguintes, findas as quais a experiência foi interrompida pois os investigadores aperceberam-se que o final da história seria morte por fome para o chimpanzé altruísta. Daqui se concluiu que mesmo sem deuses nem religiões organizadas, nem profetas nem tampouco escrituras sagradas, é possível ter-se princípios morais e que estes nem sequer são um exclusivo da espécie humana. Outros estudos conseguiram demonstrar de um ponto de vista evolutivo princípios morais (relativos, por definição) que regulam comportamentos como a bigamia, o trabalho de grupo, a protecção dos seus próximos, etc. Vale a pena ler o livro Evolução e Criacionismo - Uma relação impossível, com o qual se pode aprofundar o tema. Importante é que hoje é um facto provado e comprovado que a moral (ou melhor, as morais) podem existir e existem sem a presença de religião ou outra entidade social.

 

Dizia eu que o ateu e o descrente citam a bíblia num contexto de análise a uma moral impingida. Sim, é verdade, mas não é tudo. O ateu cita ainda a bíblia (fora de contexto) numa atitude de salvação da reputação do deus no qual ele próprio descrê. Sim, o ateu vem em auxílio de deus pois contextualizar o que se diz na bíblia é destruir o carácter divino do deus, é no fundo matar o deus bíblico. Porquê? Porque num contexto histórico-social no qual os pensamentos, os actos e as leis dos seres humanos eram imperfeitas, desumanas e até degradantes para a condição destes, o deus perfeito e omnipotente em que a bíblia propõe que se acredite, deveria vir em auxílio da auto-destruidora espécie humana e ensinar-lhe preceitos e leis de comportamento intemporais, sensatas, equilibradas. Deveria apresentar uma legislação divina universal, aplicável a todas as sociedades e culturas, adaptável a todas etapas de evolução social e tecnológica do ser humana... Mas não, quando comparamos a moral humana da época com a moral que deus quis ensinar (na altura), constatamos sem dificuldade que são semelhantes e que portanto a moral divina (dessa altura) desvia-se imenso de princípios e preceitos que o ser humano de hoje (crente ou não) aceita. O ser humano de hoje tem dificuldades em aceitar a escravatura, o deus que apareceu a Moisés não; o ser humano de hoje criminaliza a violação de mulheres, o deus da época incentivava e recompensava os homens que violassem mulheres.

 

O ateu citando a bíblia fora de contexto resgata portanto deus da crítica que poderia facilmente ser-lhe feita. Protege-o das acusações de plágio, de falta de imaginação, de criatividade fraca, fraquinha. Pena que em consequência deste altruísta acto do ateu para com deus, toda a atenção (descontextualizada) se foque a partir daí em dois aspectos chocantes deste deus judaico-cristão: o de ser mau ou o de ser impotente, ou as duas ao mesmo tempo. Ninguém melhor que Epicuro resumiu o problema:

 

Ou deus quer abolir o mal do mundo e não pode; ou pode e não quer; ou nem pode nem quer; ou enfim quer e pode. Se quer e não pode é impotente, o que contradiz a natureza divina; se pode e não quer, é mau, o que não é menos contrário à sua natureza; se não quer nem pode, é a um tempo mau e impotente; se quer e pode (a única conjuntura que convêm a a deus) qual então a origem do mal sobre a terra?

 

Mmmmm, a não ser que deus não exista e que - grave - a bíblia não tenha sido escrita por um deus que não é mas por homens da altura que pensavam exactamente como homem da época, daí que os seus preceitos morais fossem tão, tão.... da época! Ah, voilà, nesse caso estive a escrever tudo isto para nada... Amén

 

Luís Garcia, 14.12.2013, Nantes, França

 

 
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