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10 razões para não gostar de selfies, por Luís Garcia

 

 

10 razoes para nao gostar de selfies

 

Luís Garcia  SOCIEDADE TECNOLOGIA

 

Dez razões para não gostar de selfies? Só dez???

 

PESSOAS MORREM

Sim, pessoas morrem fazendo selfies. Não são muitas, ainda, mas como é uma doença que se propaga através de um vírus, e o nome do vírus não é HN1 qualquer coisa, desta é que acredito que haja uma ameaça real de extinção da espécie humana. Gripes das aves? Ahhh, para meninos. Como é que o vírus de selfies ataca o organismo? Boa pergunta. Por enquanto parece não haver um padrão lógico. Em Julho de 2015, uma jovem russa de 21 anos morreu enquanto tirava uma selfie encima de uma ponte de Moscovo; há dúvidas se a causa da morte terá sido a vedação fraca que de facto cedeu ou a selfie que terá mesmo chegado a ser tirada. Em Maio de 2015 Mohammed Aslam Shahul, natural de Singapura, morreu de selfie em Bali enquanto fazia a transição a pé do fim de uma falésia para o início do céu vazio. No mínimo bizarro. Pouco antes em Iași, Roménia, uma adolescente de 18 anos que se encontrava encima de um comboio, terá morrido de selfie ou morrido electrocutada com 27000 volts provenientes dos cabos eléctricos que ligam ao comboio. Ou as duas coisas. A lista é grande, o mistério adensa-se mas, ainda assim,  há indícios reveladores: as vítimas são no geral jovens e bastante retardadas.

 

Hoje mesmo, enquanto fazia a edição final deste artigo, recebi a notícia que Deleon Alonso Smith, um jovem norte-americano de 19 anos, morrera horas antes tirando uma selfie com uma arma de fogo na mão, a qual acreditava não estar carregada. Ainda restam dúvidas quanto à gravidade da epidemia?

 

Um conselho para todos os governantes deste planeta (excepto para Putin): sigam as medida pioneiras do governo russo e do seu ministério do interior e comecem a promover campanhas de sensibilização que ensinem aos seus cidadãos mais toscos de pensamento como não morrer de selfie. Vejam o cartaz da campanha do ministério do interior russo intitulada "Segurança selfie":

 

 

Um conselho para as empresas produtoras de selfie-sticks e de smartphones com câmaras de fotografar passíveis de ser usadas para tirar selfies (portanto todas), antes que seja tarde demais: antecipem a onda de processos de indemnização milionários em tribunais e voluntariem-se o quanto antes para incluir nos vossos produtos horríveis etiquetas semelhantes às obrigatórias nos maços de tabaco. Do género: Selfie mata, com a cabeça de um chico-experto esmagada dentro da boca de um leão. Ou frases eloquentes como: "Está a ver este cancro? Não vai chegar a tê-lo. Selfies são mais eficazes."

 

SÍNDROME DO SOZINHO EM CASA

Em casa, um adulto ou um adolescente amante de selfies e com um smartphone na mão é, para efeitos práticos, uma criança tola lá deixada sozinha. Já toda a gente conhece as consequências, vale tudo! Rachar a cabeça para partilhar a obra no Instagram. Empacotar garrafas de ketchup com celofane em volta da cabeça para mostrar às gajas boas adicionadas no facebook o quão se é "cooool", Sufocar-se, uma vez mais, com celofane enquanto se deforma propositadamente as feições de uma cara feia, tornando-a horrível. É, há que dar valor, uma mensagem subtil a transmitida neste último tipo de selfie. "Ah tás a ver, eu tou feia na foto, tipo, mazé só porque me apeteceu javardar, se não, tipo, tás a ver, sou bué da linda, mesmo!" Mas não, não me convencem. Toda a gente sabe que só gajas feias se metamorfoseiam-se em coisas pior, na vã esperança de chamar a atenção de algum macho que sofra de miopia, e se for para acasalar o macho tem de tirar os óculos com lentes fundo de garrafa antes da gaja tirar o celofane.

 

Uma variação desta síndrome que me causa um pavor especial acontece quando alguém tira uma selfie de grupo convencido de que está sozinho em casa. Ou convencidos, ou atordoados pela febre do vírus da selfie. A minha favorita é a da adolescente com tiques de call girl que se põe a tirar selfies em roupa em interior em frente a um espelho e -  jazus, que paralisia mental - nem repara que a sua avó do bigode maior aparece na foto de pernas escancaradas e roupa suja, lendo na paz do sofá da sala de estar a secção do Correio da Manhã dedicada às violações de adolescentes "vítimas" de predadores sexuais do mundo virtual! Também gosto muito da da MILF poderosa que, na loucura de partilhar as curvas desnudas online, se esquece que o filho de 3 anos  ficou em casa com gripe e é fã de selfies de grupo! Uma variação desta variação é a moda de tirar selfies na casa de banho com figuras públicas natalícias como o Mr. Hankey The Christmas Poo. Uma moda que pelo vistos veio para ficar... 

 

A minha razão para não gostar destas brincadeiras é que um dia mais tarde, quando contra todas as probabilidades, estes artistas acordarem para a vida, já não mais apreciarão o facto de estarem vivos, e acabarão eventualmente por pedir ao nosso querido Mr Hankey, como prenda de natal, uma morte prematura, de preferência contraindo o vírus de selfie.

 

elfies estupidass copy

 

PALHEIRO DIGITAL

Graças à epidemia das selfies, todos aqueles sítios de internet que nós sabemos que passavam o tempo a vender informações sobre nós mas que ainda assim utilizamos pois já não conseguimos sobreviver sem o fazer, estão a transformar-se em imensos palheiros digitais. As selfies são a palha, já adivinharam, e a imagem que procuro no google para compor o meu mais recente artigo é, isso mesmo, a maldita agulha. Não gosto de coser, acabo sempre com os dedos todos picotados. E tampouco me agrada o cheiro a mofo típico dos palheiros. Daí que não esteja a curtir nada esta brincadeira.

 

PARADOXO DOS 95/5

O Paradoxo Dos 95/5 refere-se aquelas selfies que são menos selfies (significando: egocêntricas), visto que nelas se reservam 5% da imagem para algo que supostamente se pretende mostrar. e que paradoxalmente são ainda mais selfies que as selfies puras, uma vez que a vontade de partilhar o lugar visitado é chacinada à bruta pelo impulso narcisista de se vender o mais possível. Neste tipo de foto costuma-se ver o autor da selfie e um pouco de céu azul. Ficamos sem saber onde foi passear o autor,  mas apercebemo-nos que não segue a meteorologia pela TV e que foi sensato o suficiente para decidir dar uma volta num dia de sol.

Uma variação subtil do Paradoxo Dos 95/5 é o Paradoxo da Presença Selfiezada, a qual nos leva à próxima razão para, aqui no Pensamentos Nómadas, não gostarmos nada de selfies:

 

VÁ PARA DENTRO LÁ FORA

Neste tipo de selfies, embora pareça o contrário, o autor encontra-se mesmo no Estrangeiro, de férias. Se for asiático ou por alguma razão obscura tiver olhos em bico, encontra-se em Paris. Ou, para ser mais preciso, numa parte de Paris onde seja possível observar a Torre Eiffel. O autor sim, pode observá-la. Nós não. Quanto muito vemos a ponta de um objecto por trás da cabeça do dito cujo e ficamos na dúvida se subiu ao telhado da sua casa para endireitar a antena da televisão, se se rendeu a uma nova moda parva de bandoletes duma orelha só ou se está mesmo em Paris.

 

Nas selfies daqueles cujo amor-próprio não é avassalador, o espaço na foto reservado ao local visitado é maior, e não temos portanto dificuldade em identificar o destino de férias. Mas o Paradoxo da Presença Selfiezada continua presente, pois viajar continua a não ser uma descoberta, uma exploração ou uma aventura. Viajar contínua a ser não viajar. É antes estar presente e não estar porque só lá se está para selfizar. Antes é, para a vítima do paradoxo, uma forma muítissimo dispendiosa de tirar um selfie diferente das que tira todos os dias no carro a caminho de um qualquer lugar ali bem perto. Eu acho que é estúpido gastar milhares de euros para ir à Indonésia tirar 50 fotos com o Vulcão Bromo como tema e 49 serem selfies. Não exagero. Presenciei esta exacta situação há umas semanas atrás. Eu preferia, a custo zero e em menos de um minuto, fazer uma photoshopice a uma selfie tirada na minha casa-de-banho. O resultado seria o mesmo mas sem jet lag nem controlo de passaportes!

 

TUNNING DE SELFIES

Em poucas palavras, o tunning de selfies é uma barbaridade ao quadrado. Tirar uma foto a si próprio sempre na mesma posição imbecil e constatar que a quase totalidade da espécie humana com acesso a smartphones também o faz, são indícios seguros da falta de vida inteligente neste planeta. No entanto, ninguém parece reparar na descoberta. Não é grave. Grave é que, além dessa coisa (selfie) se propagar num padrão super repetitivo, de nela não se mostrar quase nunca o que poderá haver de interessante à volta do narcisista do momento, e de só serem mostradas aquelas caras que estamos fartos de conhecer... agora com o tunning de selfies ardeu tudo. Essa parte é photoshopada à exaustão até a personagem ficar com menos 50 quilos digitais e uma pele lisa, sem poros e com tons saídos dum Looney Tunes. Quando vejo uma selfie photoshopada do género chego a acreditar que se trata duma publicidade a um novo material impermeável não-rugoso que a NASA terá inventado para os seus próximos modelos de fatos espaciais. Mas não, acabo sempre por concluir que é mesmo uma foto de uma gaja que era suposto eu reconhecer + 20 camadas de efeitos photoshop. É bárbaro ao quadrado, insisto, porque consegue-se transformar uma epidemia de feições familiares auto-ridicularizadoras, numa em tudo semelhante mas de beiças não mais reconhecíveis. Fico triste.

 

BRAÇOS CHERRY 2000

A cada dia que passa cresce-me a sensação que o futuro afinal é hoje. Lembram-se daquele filme fraco-fraquinho sobre uma boneca-de-saltar-encima que avariou com um curto-circuito provocado por uma inundação na cozinha? O título era Cherry 2000,  o que em linguagem macho-latina resultou em: Boneca Mecânica. Grandes malucos. No futuro idealizado em 1987 o pessoal ansiava pelo pacote completo, de forma a poder dar-lhe o devido uso. A vida real é sempre mais parva e mais improvável do que nos filmes de ficção-cientifica, daí que no futuro presente  de 2015, a malta parece se contentar apenas com uma parte da boneca: o braço!

 

Pois é, a última invenção no mundo das selfies é o Selfie Arm. Exacto, um selfie-stick que em vez de stick é braço. Se chegar a ser comercializado, os génios que criaram o revolucionário conceito - está mais que visto - irão enriquecer a brava. Irão nadar em notas verdes (e de outras cores também) graças aos pé-rapados selfiezados deste mundo que gastarão o dinheiro que não têm em inúteis sticks em forma e aspecto de braço de um zombie esverdeado, passe o pleonasmo, saído de um filme de terror norte-americano low-budget de 3ª categoria. Ou de um filme português. Também gostava de ter ideias geniais assim!

selfie-stick arm 2

 

FOTOGRAFIA, UMA ESPÉCIE EM VIAS DE EXTINÇÃO

Selfies são tipo ervas daninhas, comportam-se como as acácias na Serra do Gerês! Multiplicam-se sem cessar, mais rápidas que coelhos com o cio (mais um pleonasmo), não deixando espaço para outras espécies na fotoesfera. Daí que, de acordo com o meu limitado poder de análise, dá a impressão que espécies como a fotografia de paisagem, a de natureza morta (embora a malta por vezes não pareça mais viva nas selfies) ou a de vida selvagem, entre outras, estarão a sofrer um sério declínio e poderão em breve juntar-te à lista de espécies em via de extinção.

 

Podem responder que não, que alucino, que há mais vida nas lentes fotográficas dos smarphones para além das selfies. Não estou seguro. Sim, sei que há novidades, mas não parece que sejam novas espécies. na melhor das hipóteses serão uma espécie de raças inferiores. Refiro-me às fotografias aos pés, com ou sem sandálias, frequentemente com um colar ao nível de um dos tornozelos, e com areia de praia a fazer de fundo nas versões lounge. Ou às fotografias tiradas em posição horizontal mostrando as pernas, os pés e uma barriga parvamente encolhida, com um areal e um céu azul de sonho a fazerem de fundo. Não vou nessa. Não são novos géneros de fotografia. Antes um género de abortos de fetos fotográficos. Um espírito crítico verá que este 2 novos tipos de fotografia mais não são que mutações macabras, aberrações improváveis da natureza selfiana. Portanto, mais do mesmo: selfies!

 

JÁ NÃO DÁ PARA GOSTAR DE ASIÁTICOS

 Ando há cerca 11 meses por terras do sudoeste asiático e a sério, devido à epidemia das selfies, já não dá para gostar de asiáticos. Eu consigo não gostar de selfies continuando, pragmaticamente, a gostar dos meus amigos e dos meus familiares que cometem essa hedionda atrocidade. Nada de ressentimentos. Mas por estas bandas não consigo me controlar. É que esta malta tira selfies desde que acordam (e acordam bem cedo, pelas 5 da manhã) até que se vão deitar, aquele momento do dia em que adormecem com um smartphone na mão... a tirar uma selfie. Liga-se a TV e é ver publicidades onde se vendem fertilizantes agrícolas, bilhetes de avião e tampões higiénicos com malta da casa tirando selfies. Tiram selfies a comer,  a andar de mota e andar de mota a comer. Fazem selfies a caminhar, a espirrar, a escrever, a beber e a mijar. A sério, chegam ao cúmulo de fazer selfies a tirar selfies!

 

Não dá mesmo para aturar asiáticos pós-epidemia-das-selfies, como não dá para aturar norte-americanos pós-11-de-Setembro, embora aceite que é grosseiro da minha parte comparar uma tamanha tragédia... com o 11 de Setembro! Voltando aos asiáticos, como tenho tendências masoquistas contínuo, ainda assim, a adorá-los, pelo menos aos tailandeses... por enquanto.

 

A REACÇÃO A ESTE ARTIGO

Sim, a reacção a este artigo, ou a falta dela, é mais um bom motivo, e último, para não gostar de selfies. Não, já não há mais síndromes nem paradoxos. Agora a explicação é bem simples. Todos aqueles que conheço e que nunca põem um like, nunca comentam nem nunca partilham artigos e publicações minhas que levem mais de 10 caracteres, irão (querem uma aposta) likar e comentar a minha cara feia numa selfie photoshopada como se de uma foto de Johnny Depp ou George Clooney se tratasse. Irão fazê-lo porque sou um bandido e porque, para capa (no facebook) deste tratado contra as selfies, irei colocar uma selfie minha. Quem nunca me lê, não será desta que irá fazê-lo. Poderão reparar na selfie do artigo publicado no facebook e meter um like ou até fazer um comentário (à selfie) do género "Bacano. Há quanto tempo! Por onde andas agora?" Mas estou seguro que não irão ler o artigo. Nem mesmo clicar na hiperligação só para abri-lo. Pior, aposto que nem sequer se irão aperceber que a abaixo da selfie vem uma coisa com muitas palavras a que por norma damos o nome de artigo.

 

Boas selfies, tudo de bom!

 

por Luís Garcia, Lampang, Tailândia, 03.09.2015

 
 

  luis selfie copy  

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